Conversa
de Sábado à Noite – 19/5/1984 – Sábado
[CSN 53] .
Conversa de Sábado à Noite — 19/5/1984 — Sábado [CONVERSA DE SÁBADO À NOITE 53]
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Um conto sobre Salomão e a Rainha de Sabá * Na alma humana bem constituída deve haver uma grande capacidade de ser doce e de ser forte * A doçura dos fortes é inerente ao profetismo
Meus caros, vamos cortar as exclamações e despertar as perguntas!
Meu Guerreiro, qual é a pergunta?
* Um conto sobre Salomão e a Rainha de Sabá
(Sr. Guerreiro: Tenho aqui um texto árabe, um conto, sobre Salomão e a Rainha de Sabá. Diz que Salomão se embrenhou pelo deserto, e levava consigo uma ave que descobria água embaixo das areias do deserto. Certa vez essa ave voou para longe, e encontrou outra ave que era do reino de Sabá. E essa ave a levou para conhecer esse reino. Quando a ave voltou para Salomão, contou a ele o que tinha visto.
E Salomão, então, desejoso de submeter a Rainha de Sabá à sua religião, manda uma mensagem a ela, pela ave.
A rainha vê a mensagem trazida por uma ave e pensa que Salomão tem poder sobre as aves e sobre a natureza. Então começa a temer Salomão, querendo saber se ele é um rei ou um profeta, que quer submete-la a outra religião. Então ele chama seus conselheiros e pede a eles que preparem vários enigmas e truques para proporem a Salomão, a fim de se certificar se ele é rei ou profeta.
Há um embaixador, um mais graduado, ela diz o seguinte para ele: “Quando entrarem na sala dele, se te lançarem um olhar furioso, saiba que é um rei, e não te assustes da sua vista, pois eu sou mais poderosa que ele. Mas se virem alguma coisa de gracioso, de afável, saiba que é um profeta e um enviado…”.)
Que interessante, muito interessante! Muito! Muito!
(Sr. Guerreiro: Levanta a pergunta por que é que Deus dá ao profeta essas qualidades, entre outras, de ter graça e afabilidade. Então diz o texto que quando entrou a embaixada, etc., Salomão teve esta atitude que ela descreveu. Ela então disse: “Não é um rei e não podemos resistir”. Então mandou dizer a Salomão: “Sou eu e os reis do meu povo quem irá encontrar contigo para ver tua autoridade e saber a religião que prega”.
* Na alma humana bem constituída deve haver uma grande capacidade de ser doce e de ser forte
Em anos de convívio com o senhor, a gente sente muito esse lado de afabilidade, de aprazibilidade, que é um traço contínuo e indissociável da pessoa do senhor.)
Oxalá!
(Sr. Guerreiro: Por que Deus dá isso a um profeta? Porque a gente vê que o senhor tem isso, sem fazer nenhum esforço.)
Graças a Deus não.
(Sr. Guerreiro: Se o senhor pudesse comentar um pouco por que é que isso é um traço inerente ao profetismo: a graça e a afabilidade.)
Vamos entrar na matéria.
(Sr. Guerreiro: O senhor desculpe a introdução longa…)
Não… depois, o senhor diz bem, o cadré da coisa precisa ser posto para a gente ter o sabor da coisa.
Evidentemente nessas coisas orientais, árabes, etc., entra muito cabala e coisas de gnose, misturadas com trechos de versões do Antigo Testamento, e a gente não pode tomar aquilo que eles dizem como uma coisa que certamente é assim. Nem foi como o Sr. Guerreiro tomou. Ele toma como uma coisa que envolve a pergunta: “É mesmo assim? Se é, por que é?”.
As duas perguntas estão no caso. Porque podia ser que eles afirmassem uma coisa verdadeira a respeito do profetismo.
Então, a gente deveria responder da seguinte maneira:
Primeiro lugar, é preciso fazer uma distinção — que os senhores conhecem bem — entre o profetismo oficial do Antigo Testamento e do Novo Testamento, mas que é o profetismo que se encerrou com os livros santos; depois aquele profetismo que é o profetismo privado, das revelações privadas, dos impulsos privados de Nosso Senhor nessa ou naquela alma, que é extra oficial e não tem as características do profetismo oficial.
Feita essa distinção, pode-de dizer, entretanto, que o profetismo não oficial porque tem uma analogia com o oficial, tem também reflexos e tem traços comuns com o oficial. Portanto, a pergunta em todo caso pode ser posta.
E a resposta deveria ser a seguinte a meu ver:
Se se pretendesse com isso que não é próprio ao profetismo uma grande energia, uma grande combatividade e uma capacidade de levar o adversário pela força, então é evidente que nem o Sr. Guerreiro nem nenhum de nós admitiria esta hipótese. Mas fica um resto de pergunta, e este resto de pergunta tem todo o seu sabor. E é o seguinte:
Há uma forma de doçura inerente ao profetismo? No conceito de profetismo poderia não haver doçura? Qual é a descrição que se possa fazer da doçura profética? Essa pergunta poderia ser feita, e me parece que é bem precisamente a pergunta dele.
Então eu passo a tratar disso.
Na alma humana bem equilibrada, bem constituída, deve haver uma grande capacidade de ser doce, como existe uma grande capacidade de ser forte. E a plenitude da alma dá uma plenitude da doçura, como uma plenitude da fortaleza. Portanto, a perfeição deve levar simultaneamente a ambas as coisas: à perfeição de uma coisa e à perfeição de outra.
Eu de nenhum modo me pronuncio, não vou discutir com os senhores a hipótese de eu ter, mais distante ou menos desta perfeição, não se trata disso. Eu digo considerando em tese.
Quem é muito forte, retamente, deve ter reservatórios de doçura extraordinário. Quem é retamente muito doce, deve ter reservatórios de fortaleza extraordinários. Se não tiver, as duas coisas desequilibram.
* A doçura dos fortes é inerente ao profetismo
Então, o que é próprio à doçura, no que consiste a força da doçura? No que consiste a força da doçura?
A força da doçura consiste numa dulcedo toda especial, que é extraordinariamente rica e, por causa disso, extraordinariamente comunicativa. E que faz aquele que tem essa doçura fazer sentir essa doçura ao outro, de modo muito doce, de modo muito afável, de modo muito comunicativo. Mas de tal maneira, que o outro que receba a manifestação dessa doçura seja levado a pensar: “Quanta retidão existe nessa doçura, quanto força existe nesta retidão, e como as duas coisas se equilibram”.
Mas qual é o efeito da doçura quando ela se comunica a uma alma? O que é que a alma sente?
A alma se sente antes de tudo compreendida. Depois amada como ela é. E enquanto amada como ela é, do jeito como ela é, intensamente amada. Com uma intensidade que ela supunha que não fosse possível, que ela não supunha que ela recebesse de ninguém, e que ela não supunha que fosse possível. Portanto, a penetra, a põe numa clave que ela não imaginava que existisse e a convida para um outro viver, que é o viver dentro desta gama.
Nós notamos alguma coisa disso, pela ação da graça, na Igreja Católica.
Depende das ocasiões, mas é impossível que os senhores entrando numa ou noutra ocasião numa igreja… para mim sobretudo com a igreja vazia, eu não sou muito entusiasta das igrejas cheias de multidões. O meu Adolpho é entusiasta das igrejas cheias de multidão. Isso não é comigo. Multidão, fora! Pouca gente ou quase ninguém é o ideal. Não é que eu queira que as pessoas não vão à igreja, Deus me livre. Mas na hora em que eu estou, eu gosto mais de estar só.
Em certo momento a gente tem a impressão que nos envolve a doçura da Igreja Católica, onde a Igreja Católica — ou seja, no fundo é o Espírito Santo — nos vê, e nos vê com as qualidades que nós temos, com as qualidades que nós deveríamos ter, e nos ama pelo que somos e por aquilo que Ele deseja que nós sejamos. E nos ama aí com uma intensidade de que nós temos dificuldade de compreender, mas percebemos que Ele é muito maior do que aquilo que nós estamos … [inaudível]… no momento.
Nós entramos num mar de harmonias outras, maiores do que nós mesmos, que passam a tocar e a viver em nós, deliciosamente. Nós nos sentimos ampliados pelo contato com Ele, quando a gente, em certas horas da graça, entra dentro de uma Igreja católica, apostólica, romana.
Não sei se já sentiram, mas pelas anuências eu tenho impressão que mais ou menos todos já passaram por isso.
É que a Igreja, que é uma instituição a seu modo profética, e magnificamente profética, a Igreja tem essa doçura, ao mesmo tempo que ela tem essa força. E na doçura dela, ela nos envolve de tal maneira, que nós temos impressão que nós nos desfazemos naquela doçura dela, e que nossa relação com ela é a relação de uma folha de papel, com as gotas de azeite que nela tenham sido pingadas. A gota de azeite não destrói o papel, mas penetra em todas as junturas do papel, em todos os pormenores, e o azeite vive no papel, de maneira que o papel vive no azeite.
Os senhores imaginem um azeite perfumado, e os senhores têm a minha metáfora inteiramente apropriada. E os senhores entendem a doçura da Igreja Católica.
Há ocasiões em que a gente, mesmo num teor de relações sobrenaturalmente muito mais pobre, mesmo nesse teor de relações há ocasiões em que as pessoas muito severas, mas retamente severas, deixam escapar uma doçura que as pessoas não pensam…
Eu me lembro de um caso de um… mais bem um belga do que um francês, Príncipe de Ligne, no tempo de Luís XVI.
Os Países Baixos viviam sobre o protetorado feudal da Áustria e ele vivia com o pai dele num castelo. O pai dele era um homem muito severo, muito austero, coisa e tal, e ele vivia tremendo do pai. Porque naquele tempo a autoridade paterna era qualquer coisa de muito séria.
Afinal, ele ficou mocinho. O pai escreveu para Viena, comunicou que ele ia passar a servir em Viena e que, portanto, ia para Viena. Ele aprontou bagagens, malas, etc., e lá tocou para Viena. Foi se despedir do pai.
O pai esperava-o para a despedida numa espécie de terraço externo ao castelo, de onde partia uma escada. Era habitualmente escadas de tamanho moderado, que dava depois para o parque. O pai estava lá em pé, esperando para se despedir dele.
Ele foi, beijou a mão do pai, e o pai pela primeira vez na vida teve um ato de ternura com ele. Abriu os braços e disse: “Meu filho!”. Só isso.
Na hora em que o pai disse “meu filho”, uma tal ternura e uma tal revelação do afeto paterno para ele, que ele disse que se sentiu completamente penetrado por aquilo, que ele não esperava aquilo e que sentiu… Ele foi um homem que teve uma biografia enorme, ocupou cargos, situações, fez coisas, etc., foi um homem de uma vida muito cheia, e cheia no plano alto, não coisinha. Ele diz que até o fim da vida dele, quando se lembrava dessa despedida — parece que ele não viu mais o pai, ele se lembrava dessa despedida — pensava: “Meu filho”, e aquilo tocava a ele completamente!
É a doçura dos fortes! E é inerente ao profetismo.
Eu não sei se eu me exprimi bem. É esse o caso.
Há uma circunstância que… que eu simbolizo dessa maneira: nós nos costumamos separar às duas e meia, e são duas e quarenta. Os senhores compreenderão, portanto, que está na hora de nós nos separarmos.
Tive encanto em receber essa pergunta do meu caro Guerreiro, e em desdobrá-a um pouquinho junto aos senhores. E quanto ao mais, meus caros, fugit irreparabilis tempus. Eu apenas digo a cada um: “Meu filho…”.
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