Conversa
da noite (Sede do Reino de Maria) – 12/5/1984 – Sábado
[RSN - 53] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Sede do Reino de Maria) — 12/5/1984 — Sábado [RSN - 53]
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* A ação da graça embeleza a natureza, a do demônio a torna horrorosa — Para poder vir o reino do demônio, ele deve fazer com que o homem prefira o feio ao belo
Então meus caros! Qual é uma pergunta?
(Dr. Edwaldo: O senhor poderia aprofundar um pouco mais o porque que João Paulo II tem cometido aquelas abominações que o senhor deu na Reunião de Recortes; tendo por oposto as vitórias “éclatants”da Contra-Revolução, como vimos no Santo do Dia de sexta feira, etc…)
A questão… a explicação estaria no seguinte. Para vir o reino do demônio…, vamos formular assim: Vamos imaginar o dia de Pentecostes. Nós sabemos que o Cenáculo, onde o Divino Espírito Santo baixou sobre Nossa Senhora e os apóstolos, o Cenáculo é uma sala extremamente simples. Nada de pretensões artísticas, sequer.
Não dizer o seguinte: “É uma sala de muito bom gosto, mas muito simples”. Não. É uma sala completamente comum, apenas decente. Mas, quando o Espírito Santo desceu ali, ela tomou todos os reluzimentos, todos os esplendores, etc., como nunca houve palácio de rei que tivesse aquilo…, e aquele valor e aquele aspecto do Cenáculo. É uma coisa bem certa isso. De um lado.
Agora, de outro lado também, não deixa de ser verdade que todas as coisas da graça quando se manifestam, embelezam a natureza. Por exemplo, aparece Nossa Senhora em Lourdes, ou aparece em Fátima, qualquer coisa, a atmosfera toda em volta fica irradiando beleza.
Em sentido oposto, quando tem que vir o reino de demônio, irradia todo o horror, e tudo quanto é contrário à ordem da natureza. Deus que é criador da natureza, ama a natureza; e a ação d’Ele é na linha da ordem da natureza que Ele criou e para torná-la mais bela. O demônio, que odeia a Deus e que odeia a natureza, a ação dele é no sentido do horroroso, do pavoroso, do tétrico, do lúgubre, mas [do] que o homem quer. Propriamente a questão está nisso: é fazer o homem querer isso.
* Com o começo da Revolução se deu um progresso da feiúra — O carnaval de feiúra que faz a “Estrutura” prepara as almas para quando o demônio intentar tomar o mundo
Não é fazer o homem aceitar isso, não. É fazer o homem preferir isso. Aqui está a coisa. E nós estamos assistindo, pelo menos do século XVIII para cá, a uma espécie de progresso de feiúra, em todos os sentidos da palavra. A gente pode tomar uma coisa do século XIX e dizer: “que bonita”. Mas, quando a gente vai ver uma coisa análoga no século XVII, era muito mais bonita. Isso não escapa à regra.
A gente pode tomar por exemplo, uma senhora muito bem vestida do século XIX, pode dizer que é admirável. A gente vai ver a mãe dela vestida no século XVIII, é uma outra coisa.
Houve uma queda. Já não é certo que se possa dizer a mesma coisa quando do século XVII e XVI.
Mas, houve um momento em que de modo contestável e evidente a feiúra começou a se propagar. De fato, acho que se poderia sustentar que isso começou desde a Revolução. Quer dizer, desde o protestantismo e da Renascença. Mas aí seria toda uma exposição na qual não vale a pena entrar.
Agora, na etapa final em que nós estamos, o demônio está fazendo do homem um cretino, evanescido, embrutecido, que perdeu completamente a dignidade e o pulchrum da natureza humana, perdeu completamente. É uma besta! E eu digo aqui o homem, digo o homem e a mulher. Não pode haver coisa mais contrária à uma forma específica de pulchrum da mulher, do que a mulher masculinizada de nossos dias. É uma monstruosidade inaceitável.
Mas, é para que tudo vá ficando cada vez mais horroroso, para aceitar o jugo futuro do demônio. Então, assim como é preciso levar a “Estrutura” a dizer erros, é preciso também fazer dela o carnaval da feiúra. De onde os ritos cada vez mais feios, o culto cada vez mais feio; os edifícios sacros cada vez menos sacros… Tudo prepara o apogeu da feiúra que virá, quando e se o demônio efemeramente tentar de fato tomar conta do mundo.
Então, João Paulo II fazendo essas porcarias todas que faz, ele facilita esse jogo.
Não sei se minha resposta responde a sua pergunta.
* Palavras que o Sr. Dr. Plinio diria para João Paulo II por ocasião do fato que se deu entre ele e um budista
(Dr. Edwaldo: Mas, para o caso do budista, que foi um extremo de maldade…)
Sim, mas para essa maldade já tem colchão pronto. Por que ele, de fato, para nós, é o que o senhor diz. Mas, para um teólogo habituado a ver das coisas debaixo do olhar puramente científico, não.
Porque lá, naquele pastor protestante, pode se sustentar que ele teve um ato de comunidade de culto com o pastor protestante. Isso é comunicar-se “in sacris”. E essa “comunicatio in sacris”constitui de si, pelo menos um elemento de suspeição de heresia.
Bem, qual foi o “comunicatio in sacris”que ele teve com aquele tipo lá, que o jornal chama de “venerável patriarca”, aquele tailandês? Nenhum. O homem estava acocorado alí junto a uma imagem de buda, João Paulo II foi, olhou para ele, os dois se olharam, depois ele foi embora. Nem sequer rezaram juntos… olharam-se. Então, o teólogo dirá; “Não é verdade, ele andou muito mal, etc., etc., foi de muito mal gosto, mas não se pode dizer que ele tenha dado provas de uma tendência de heresia, etc., nesse ato”.
Então o senhor vai provar que não, que isso pode se interpretar como tendente à heresia, por que afinal de contas ele prestou homenagem que um culto errado não pode receber…
“Bem, mas isso depende muito das formas culturais de cada povo…”. Vai dai para fora… De maneira que a jogada com o pastor protestante foi mais arriscada. Essas coisas são muito complexas.
Eu concordo com sua apreciação, eu só estou mostrando que saída ele deixou preparada.
(Dr. Edwaldo: Isso é o que diz o teólogo, o que o senhor diz?)
O que eu digo? Eu digo o seguinte. Que de fato o que se passou alí foi esta coisa. Aquela igreja, aquela religião é uma religião que afasta os povos da verdadeira religião que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele poderá dizer: “Mas não era. No tempo em que a religião católica foi pregada lá, ou eles tinham essa religião ou nenhuma. Ora, é melhor que os homens tenham alguma religião, é menos mal do que eles não tenham nenhuma religião. Logo, aquela religião prestou um certo serviço”.
Minha resposta seria: “Eu não acho isso, mas acho sobretudo que isso é lorota. Porque hoje está há muito tempo a Igreja Católica lá disputando terreno. E se não consegue expandir-se, é pela oposição que levanta esta religião. De maneira que essa religião conhece a Jesus Cristo e luta contra Ele. E Vossa Santidade — para chamá-lo assim, porque não sei se ele é Papa — Vossa Santidade prestando a ele essa homenagem, presta à religião dele. E se presta à religião dele, trata essa religião como se fosse por algum lado respeitável.
Ora, ela não é respeitável por algum lado, por que ela é condenável por todos os lados. O fato de ela ter alguma coisinha de respeitável, não a torna respeitável por isso. Seria mais ou menos como uma meretriz que dá esmola a um mendigo que ela encontra todos os dias no caminho dela. Isso é na meretriz uma qualidade. Mas eu não vou dizer que a meretriz é respeitável porque ela dá esmola a esse homem. Porque ela é uma meretriz!
Assim também a longa duração, o valor cultural de alguns ritos, podem tornar um pouco respeitáveis alguns aspectos dessa religião. Mas, ela no seu todo é uma meretriz, e como tal deve ser tratada. Vossa Santidade indo lá e homenageando-a fez pior do que fosse a um prostíbulo e homenageasse a prostituta chefe…”
Isso é o que eu diria a ele.
* Para a TFP poder dizer as coisas claras é preciso que primeiro falem os padres bons preparando o terreno — “Quem nos tapa a boca não são os maus, são os bons”
(Sr. Paulo Henrique: Haverá possibilidade de ser dito um dia?)
Eu creio que sim, não sei quando, mas eu creio que sim. Quer dizer, o problema é: porque a TFP não diz essas coisas?
A resposta, é uma resposta simples. Para que ela diga é preciso que o terreno seja preparado por aqueles que devem preparar o terreno. É preciso que padres — como por exemplo no Brasil, os padres de Campos — digam muito mais largamente o que eles devem dizer.
Aí o terreno está preparado para nós falarmos. Sem isso, se eles não existissem, se só existissem os progressistas, nós podíamos falar.
Mas, uma vez que existem padres bons, de boa vida, tudo o mais, respeitáveis, e eles não falam, é compreensível que outros duvidem de nós.
Quem nos tapa a boca não são os maus, são os bons. O que eu tenho me cansado de dizer a eles. É preciso dizer logo de uma vez.
(Sr. Paulo Henrique: Também a questão dele na Guiné, qualquer coisa assim, de colocar “fassura” para ajudar nos ritos, etc. É outro lado que também deveria ser dito.)
É evidente. O Edwaldo falou só da Tailândia, e eu respondi.
Mas, o senhor diz bem, essa viagem é um todo. Nós deveremos justapor os aspectos deste todo. Porque razão nós não denunciamos isto, que diante de qualquer pessoa pode ser denunciado e deve ser denunciado?
A resposta… porque as coisas são muito subtis, ouviu?
A resposta que eles dariam, seria o seguinte. Tomem Anchieta, Nóbrega, com os primeiros índios que vieram para cá. As índias se apresentavam assim. E antes deles as converterem, e elas terem um pingo de moralidade, eles tratavam com elas assim. Eu não conheço a história do Brasil bastante bem para dar aos senhores uma afirmação, mas eu acho plausível que inclusive elas assistissem missa com esse traje.
Bem, qual é o momento preciso em que esses padres obrigavam a elas a começarem a vestir trajes? Eu quero crer que seria no momento do batismo. Batizou, tem que renunciar a estes trajes.
Certeza eu não tenho. Será que não houve para algum caso concreto uma exceção.
E se houve essa exceção aqui já escapa a coisa. “Ele que era um santo, Anchieta é um beato, ele entretanto soube abrir exceção. João Paulo II soube compreender que no caso concreto, as mulheres havia razão… Você é que não sabe que havia uma razão para ter uma exceção”.
Então, a gente em vez de discutir o princípio, vai discutir circunstancias concretas lá. E afunda num tremedal. Está claro, não? A gente tem que saber muito bem esgrimir com essa gente, porque as saídas são terríveis. Terríveis!
Mais perguntas meus caros?
* Análise feita pelo Sr. Dr. Plinio sobre os soldadinhos que estão na Sala da Tradição — Algumas objeções que se poderiam fazer contra eles
(Sr. RG: O senhor há três semanas atrás fez uma CSN muito “entretenida”, sobre assuntos de ordem especificamente temporal. Não sei se seria oportuno o senhor voltar à temática agora.)
Se quiserem, eu posso pegar os dois soldadinhos que o João trouxe da Europa e comentar aqui, se quiserem. [Exclamações]
São peças de coleção, hein? Quer dizer, o João comprou na Europa, são peças de coleção. São dois soldados de cavalaria, oficiais devem ser, de cavalaria, pelo o que eu me lembro são do tempo de Luiz XV. Mas, deve estar escrito embaixo, provavelmente de que tempo são.
Eu proponho que coloque aqui sobre o sofá. Eu pergunto em primeiro lugar o seguinte: se apesar da iluminação escassa, isso está visível para todo mundo?
(Sr. –: Sim.)
Podíamos tentar fazer um pouco de “Ambientes, Costumes e Civilizações” disso. A questão… Vamos dizer o seguinte: o que é que um espírito moderno objetaria contra isso? Que objeções o espírito moderno teria contra isso?
Os senhores, por exemplo, se levassem isso a ambientes que conhecem, os ambientes gostariam disso, ou teriam objeções, ou não teriam o que dizer? Aquele cujos ambientes gostariam, levantem o braço… Que tivessem objeções levantem o braço…
Bem, quais seriam as objeções? Eu vou por as seguintes: Primeiro, eles são muito orgulhosos. Estão vestidos muito ricamente e como para uma festa. E o modo de estarem vestidos, e o modo de estarem ornados estes tambores, e o modo deste bater no tambor e este tocar a corneta, dão a impressão de que eles desprezam quem não está vestido assim e não tem esses adornos deles. E, portanto, eles não tem a caridade cristã. Seria uma primeira objeção.
Os que acham que essa objeção pegaria levantem o braço?
Bem, uma outra objeção seria o seguinte: homem deve ser mais sério e não se enfeita tanto assim. O próprio para o homem, verdadeiramente varonil é o macacão. Eles estão enfeitados aí, como nem sequer as mulheres se enfeitam mais hoje.
Isso portanto não é uma coisa varonil, o homem verdadeiro não se enfeita assim.
Os que conheceram objeções assim…
Bem, a terceira objeção seria a seguinte: Se eles não são varonis, não podem dar bons soldados. Porque o bom soldado é varonil, e portanto isso aqui são uns bonecos, são uns bonequinhos de salão — não estes aqui, mas os homens que eram assim — serviam para dançar minueto. Mas não serviam para combater verdadeiramente, por que eram os pelintras.
Eram homens… Hoje em dia, se um homem for por essas botinhas finíssimas, for por este chapéuzinho na cabeça, vestir esse paletó de grande qualidade, ornar o seu tambor com esse pano aqui, tocar essa cornetinha com esse jeito, ele fica um homem pelintra. Esse pelintra não pode dar um batalhador. Portanto, isso não vale nada.
Quais os que conhecem objeções assim?
Bem, agora, mais outra objeção. A objeção seria a seguinte: pobre do povo, que tem que pagar tanto dinheiro para os oficiais inúteis… Pobre do povo que tem que pagar um exército com esses homens ricos vestidos assim. É porque esses são oficiais, e os oficiais eram nobres, na quase totalidade. Isso é para enfeitar a nobreza… que o pobre povo pagava, a ponto de faltar o pão. E nós não podemos permitir isso. Por isso é que existe os D. Sândalos Bernardinos para impedir que se reconstituam abusos dessa natureza.
Os que conhecem gente que objetariam assim…
* Os guerreiros que são representados pelos soldadinhos eram de uma coragem assombrosa, enfrentavam a morte com galhardia
Bem, agora, o que é que a história descreve a respeito deles? É que o guerreiros desse tempo eram de uma coragem simplesmente prodigiosa. Que eles avançavam, de um lado e de outro: franceses, ingleses, alemães, espanhóis, de qualquer nação, avançavam uns sobre os outros com uma coragem que deixam as pessoas até hoje assombradas. E era uma coragem para morrer mesmo! Porque não era guerra de trincheira.
A trincheira não se usava no tempo em que a arma branca era largamente usada. A trincheira começou a se usar correntemente com o uso corrente da arma de fogo. No tempo da arma branca muito menos ou nunca. E eles avançavam assim para a morte!
É conhecido o modo de um oficial francês do tempo de Luiz XV chamar a atenção dos soldados que iam combater: “Messieurs — chamar um soldado de messieurs já vai ao abismo… Em algum outro país se diria: “ó macacada…” — Messieurs, prendam o chapéu bem na cabeça, nós vamos ter a honra de dar uma carga de cavalaria!”. E os outros vinham… ou recebiam à mosquetão, ou iam de espada em cima deles. E a carnificina em que eles rolavam pelo chão, ficavam amputados, ficavam cegos, ficavam doentes para a vida inteira, ou morriam!
Eles iam assim. Agora, porque iam assim? Qual é a vantagem de irem assim? É que realça a grande nobreza que há em dar a sua vida pela pátria. Estimula o heroísmo, dando ao indivíduo a sensação e a vivência de como é glorioso ele caminhar para a morte. Não é verdade que um assim sente muito mais a glória da guerra, do que um camuflado com aquelas coisas… Mas é evidente, não é?
Então, isso aqui dá ao indivíduo a consciência da importância da morte, e faz portanto com que o indivíduo esteja em condições de enfrentá-la com galhardia.
* O valor de um povo se mede pelo respeito que tem para a carreira militar no tempo de paz, pois isso mostra o senso de sacrifício e de ideal que o levará para frente
Depois, de outro lado, tem o seguinte. Não é só para a hora da batalha. O maior de um povo se mede — é um dos critérios, não é o único — o valor de um povo se mede pelo respeito que ele tem pela carreira militar, quando ele está em tempo de paz. Nas nações que respeitam muito a carreira militar quando elas não estão em guerra também, essas nações tem o senso do sacrifício, tem o senso do ideal e estas vão para a frente.
Quando, pelo contrário, há nações que não tem esse respeito, elas se achincalham e não combatem bem na guerra. E aqui, usando durante o tempo de paz esses trajes, eles eram homenageados por toda a nação. E eles recebiam, portanto, o respeito que a carreira merece por estar em ordem ao sacrifício. Não só no tempo da batalha, mas no tempo de paz. Olhando para um homem desses, um homem do povo dizia: “Que maravilha, ele vai morrer por mim!”.
Tanto mais que os senhores precisam notar um lado muito bonito disso. É que no tempo desses uniformes não existia a mobilização geral de um país.
Eram obrigados a combater os nobres. Os plebeus iam quando quisessem, e quando lhes conviesse pelo pagamento, porque plebeu não era obrigado a combater. De maneira que o nobre era a classe militar, fadada à morte, para o bem comum.
E assim como se respeita o padre porque ele imolou sua vida para o bem da Igreja, é natural que se respeitasse o militar que tinha imolado sua vida para o bem do Estado. Se compreenderia perfeitamente.
* Os soldadinhos vestem trajes solenes, comuns nesse tempo — As aparências delicadas na carreira militar servem para compensar o lado baixo e duro da hora da carnificina
Por fim, esses trajes não eram só deles. Não é imaginar eles vestidos, assim, e em torno deles, todo mundo vestido como nós.
Todas as classes mais letradas e mais cultas, tinham trajes especiais esplêndidos. Por exemplo, a carreira do professor universitário, a carreira de juiz, davam lugar a trajes magníficos, de grande solenidade.
E a época era tão solene, que quando um rapaz de uma cidade colava grau, ele tinha o direito de percorrer a cidade à cavalo, com o traje de doutor, puxado a cavalo por um outro que ia levando o cavalo pela rédea, e proclamando o nome dele, e no que é que ele tinha sido doutor.
Ele ia montado alí, e o pessoal batia palma, era doutor que se formava. Quer dizer, é uma época em que tudo era mais solenizado, porque tinha um alto espírito.
Bem, mais ainda, e é para terminar, a carreira — eu não estou dizendo que vá terminar a nossa conversa, temos ainda meia hora, eu termino essa exposição — a carreira, toda carreira é suscetível de deformações. Por exemplo, vamos dizer, o advogado na sua banca, se encontra com alguma facilidade, diante das situações mais dramáticas. Se ele, nessa situação permanece muito tempo na carreira, ele corre o risco de se endurecer e até de embrutecer diante do sofrimento dos outros. Uma coisa análoga, por motivos análogos, pode acontecer com o médico. Assistir a morte de alguém com toda a naturalidade, toda a indiferença. A carreira torna o indivíduo duro para isso.
A carreira militar pode tornar o indivíduo de um senso de carnificina baixo e duro, para compensar, é preciso rodeá-lo de aparências delicadas. Para ele não ser um carniceiro pago, mas ser um cavaleiro.
Então os senhores vêem aqui essas duas obras primas.
Não sei se os senhores vêem bem os adornos… os senhores percebem que este aqui está vestido de vermelho, e sobre uma espécie de selim, vermelho também. E vermelho e dourado, aliás as cores da TFP, branco, vermelho e dourado; cabeleira branca, vermelho e dourado. Tudo bordado e de qualidade excelente.
Olhem o porte dele! Porte ereto! Olhem o modo de segurar a corneta, ele segura com altivez de quem toca uma coisa e toca de verdade, e a corneta está adornada por um lindo pano que tremula ao vento. O chapéu é o chapéu que convém ao homem e que compensa o que tem de muito leve na roupa.
É um chapéu muito sério e preto. Mas, por sua vez, o negrume do chapéu é compensado por uma penugem branca, que tremula ao vento. E é o chapéu feito para cumprimentar: põe a mão aqui nos três bicos e…
Passa diante de um bispo, de um príncipe, qualquer coisa, tira o chapéu… “Monseingneur”… As continências ainda não estavam inventadas! Os senhores notem aqui a espada, os senhores notem a harmonia entre a cor do chapéu e a cor da bota; os senhores notem que o cavalo aprendeu a elegância com o cavaleiro.
Bem, o mesmo se pode dizer aqui deste cavaleiro verde.
Eu já comentei, é um comentário análogo, apenas vejam que o tambor facilmente pode dar uma coisa assim maçudona. Revestido deste pano fica uma beleza. Ele anda, e ele “bumba, bumba”, majestoso. É a alegria de viver.
Aqui está algo da sociedade temporal. Não sei se é o que meu G. queria, ou se queria uma outra coisa?
(Sr. G.: Está magnífico.)
* Comentários sobre a Sala São Luiz Grignion: Ela é séria, concentrada, feita para a leitura, para o pensamento e a reflexão
Se quiserem, comentamos algo desta sala. [Exclamações]
Quem sabe se poderia afastar um pouco essa mesinha, para eles poderem ver esta estante inteira.
Essa sala aqui foi dedicada a São Luiz Grignion. E o quadro dele está colocado alí. É um medalhão que está colocado alí naquele canto. Nós não encontramos coisa mais bonita, nem maior, para colocar o patrono da sala.
A sala foi calculada para o seguinte: para fazer uma…
…um harmonioso contraste com a sala ao lado, que é a Sala da Tradição.
Se quiserem podem ser virar, para olhar para a Sala da Tradição… Toda ela dourada, esplendorosa, alegre. Enquanto esta sala aqui é uma sala séria, concentrada. É uma sala… Alí são poltronas leves, graciosas, elegantes. Aqui são poltronas profundas, onde a pessoa se senta e tem vontade de pensar. É uma sala feita para a leitura, é uma sala feita para o pensamento, é uma sala feita para pequenas conversas a respeito de alguma coisa, depois se fica quieto…
E por causa disso também, nesta sala entra pouca luz.
Ela não dá diretamente para fora, como aquela, ela dá para um terraço que quebra um pouco a luz. A obscuridade própria desta sala que provém do fato que ela tem um pé direito muito grande, e tem só duas janelas por onde entra a luz, o resto não entra luz. Que é aquela penumbra própria à reflexão. A penumbra convém à reflexão.
Quem não gosta de penumbra não gosta de refletir; quem não gosta de refletir não gosta de penumbra. Era preciso que a nota que reflexão dessa sala, fosse acentuada por alguma coisa que lhe desse uma seriedade especial. Alguma coisa já favorece, é o pé direito bem alto.
Eu não sei se me engano, mas eu admito a possibilidade de ter cinco para seis metros de altura o pé direito desta sala… não sei se chega a tanto…
(Dr. Edwaldo: É quase cinco metros.)
* O que dá uma nota sacral à sala é a estante — O “unum” da estante é dado pelo potiche
Quase cinco metros. Agora, era preciso que algo desse a essa sala um ar assim, sacral, mas que não fosse necessariamente um oratório. Porque para pôr um oratório, faria uma capela. Era preciso uma outra coisa. E aqui havia uma porta, está atrás desta estante, meio embutida, porque as acomodações do outro lado também disfarçam a porta, mas tem no meio uma porta, que dava para lá, e dava para a copa e cozinha da antiga casa que aqui existia.
E mandaram fazer aqui essa estante, que é uma estante muito alta, que tem em cima aquele triângulo, e no alto do triângulo aquele potiche de madeira. Os senhores observando notam que poderia caber dentro disso, se nós tarássemos os livros, poderia caber um oratório.
De tal maneira as linhas são severas, nobres e dignas, que poderia caber um oratório.
De algum modo, o sentido profundo do oratório está dado pelo próprio potiche, que representa o sentido de unum metafísico das coisas. O unum da estante é dado naquele potiche. Os senhores imaginem que aquilo fechasse num triângulo comum, perdia o seu encanto. É o fato de estar cortado o triângulo, e nele estar colocado o potiche com aquela ponta, aquilo é que faz o princípio de unidade de toda a estante.
Os senhores entram aqui, e encontram uma impressão de respeitabilidade na sala, que a gente não sabe bem onde é que vem. De sacralidade na sala, que não sabe de onde vem. Vem da forma da estante que foi colocada aqui.
Para amenizar um pouco, a estante tem ao centro este vitralzinho aqui. Eu não sei se cheguei a contar a história desse vitral ou não?
(Sr. –: Não.)
* Como adquiriu o Sr. Dr. Plinio o vitralzinho que está na estante — Duas figurinhas: um cavaleiro de prata e São Nicolau
Esse vitral foi comprado pelo Dr. Luizinho em Buenos Aires, em remota viagem que nós fizemos lá. Os antiquários de Buenos Aires naquele tempo, eram muito melhores do que os antiquários brasileiros, e nós fomos comprar coisas lá nos antiquários.
E encontramos, aliás “nós fomos comprar” é o modo de dizer. Dr. Luizinho foi comprar, e quem tinha o dinheiro era ele, e eu fui em companhia dele… E o destino era comprar objetos para nossas sedes.
E pegando um objeto, outro, um antiquário disse a ele o seguinte: “Eu vou oferecer ao senhor o resto de um vitral antigo, do século XVII ou XVIII, não me lembro, que restou. O vitral foi espandongado por guerras, etc., mas a rosácea central ficou. E essa é a rosácea deste vitral de ótimo cristal, e ótima feitura antiga, do século XVII ou XVIII. “Mas, eu não vendo caro, porque não se tem muito o que fazer deste vitral. Se o senhor quiser comprar eu lhe vendo”. E eu dei um cutucão nele assim, sem o antiquário perceber, eu fiz sinal: compre! E ele com aquela calma típica dele, perguntou com uma certa indolência, para o sujeito: “Quanto é?”. O homem disse: “É tanto”.
Ele pechinchou um pouco e tirou por um preço mais barato. E daí vem que fizemos esta espécie de abatjourzinho, que já estava na Sede do Reino de Maria da rua Pará. Estava em cima de uma lareira de mármore, bonita.
Passando por cá, eu achei que ficava bem colocado aqui.
E essa armação dourada nós é que mandamos fazer, em torno do vitral.
De maneira que ficou uma coisa muito bonita, mesmo para as horas de silencio e de recolhimento absoluto, em que uma pessoa queira estar, numa quase obscuridade na sala. Querem ver?
Apaguem as luzes da sala… Os senhores vêem que fica um ponto agradável para olhar enquanto se pensa…
Agora, se isso fosse cheio de livros, ficava meio pesado. Então, além desta iluminação aí, nós pusemos duas figuras: um cavaleiro de prata, que nos foi dado por Dr. AL; e em baixo um bispo que foi Dr. PBUC — foi comprado em Buenos Aires também — representa São Nicolau dando esmola para um pobre.
São Nicolau era bispo de Smirna na Ásia Menor, e ele dava esmola para as crianças pobres. Donde o papel dele na noite de Natal. Em muitos países é São Nicolau que vem trazer os presentes para as crianças. Está aí São Nicolau dando essa esmola.
* Alguns livros que estão na estante: “Dictionaire de la Conversation” e “Table genelealogie de la Maison de France”
Bem, os livros foram escolhidos sobretudo pelas encadernações. São encadernações muito interessantes. Mas, o conteúdo de vários deles [é] muito curioso. Essa encadernação aqui, desta penúltima estante, “Dicionário de Conversação”. Isso é uma coisa que é do começo do século XIX, ou ainda do século XVIII, e correspondia a um tempo em que o homem não tinha cidadania no meio bom se ele não soubesse conversar muito bem. Exigia-se que um homem soubesse conversar muito bem.
Não sabendo conversar muito bem não era convidado, não tinha voz nem vez. Empurravam de lado. Quer o homem, quer a senhora.
E então era preciso estar ao par dos mais variados assuntos para conversar bem. E esse dicionário era para as pessoas saber conversar.
Era bom ler tudo isso…
Era organizado sobre a forma de dicionário, assim: um senhor vai visitar uma casa, e sabe que a dona da casa é de tal cidade, vamos dizer, de Pavia, na Itália. Ele está em Paris, mas a dona da casa é uma nobre italiana, casada com um nobre francês, e ela nasceu em Pavia, vamos dizer. Então ele precisa dizer uma coisa amável para ela. Sobre a cidade dela. Então, vai aqui na letra “P”, Pavia. E sai com um mundo de informações sobre Pavia.
Mas, se ele for um homem prudente, ele vê também na letra “I”, Itália, para ver quais são as cidades próximas de Pavia, e depois ele vai ao dicionário procurar alguma coisa sobre as cidades próximas. Quando ele conversar com a senhora ele diz; “Madame, que encanto ser de Pavia. Que bela cidade!”.
“Ó, o senhor conhece a minha cidade?”. Ele não vai mentir que esteve, mas dirá: “Mas, minha senhora, é uma cidade notória por tal coisa, e tal outra, e tal outra! Quem não conhece Pavia? Mas, senhora eu estou informado de sua região, tal cidade, tal outra, todo homem culto deve conhecer! Não elogie minha erudição, todo homem culto deve conhecer isto, aquilo…”.
A Madame fica encantadíssima com aquele homem, que ele sabe a respeito da Pavia. Coisa que ele ignorava, mas vê no dicionário.
[Troca da fita]
…com a era da TV, é sentar e continuar a ver a TV com os outros. Não tem mais nada. Nem a conversa existe mais.
Mas então, é interessante, a gente tendo um pouco de tempo livre, é interessante a gente puxar uma coisa dessas, para ver sobre o que conversava. Para medir o nível das conversas. E nós nos sentimos tão abaixo, que é uma coisa verdadeiramente impensável. É o “Dictionaire de la conversation”.
Mas, a coleção de mais valor é essa embaixo. Esses livrões grossões. É “Table de genealogie de la Maison de France”.
Há quatro ou cinco coleções dessas no mundo, só. Uma dessas está na biblioteca do Louvre. E foi — quase todos esses livros aqui — foram comprados ao príncipe D. Pedro Henrique, e incorporados nas nossas coleções. Como esses quadros também, foram comprados dele. E vale a pena os senhores verem. Vejam o que entra de couro dentro disso: vejam como é tudo trabalhado.
[Primeira página] Aqui, cada volume é precedido por uma gravura dessas — eles tinham a péssima mania das coisas mitológicas, e são gravuras portanto perfeitamente sem graça — mas qualquer dessas gravuras a gente poderia, se não fosse uma judiação, podia cortar e pôr numa moldura, que dava para um objeto muito fino e muito bom de uma sala.
Agora aqui vem em letra vermelha e preta, uma série de explicações. Então: “Historie genealogique e cronologique de la maison de France”. E aqui eu precisaria por óculos para ver…
[Sr. Benoit lê]
(Sr. Benoit: “Dos pares, dos oficiais da coroa e da casa do rei”.)
É diferente a coroa da casa do rei. Os oficiais da coroa não é os oficiais do exército não. É o que tem ofícios de protocolos com a coroa.
Daí oficial. Então oficiais que tem oficio no dia da coroação, ao tratar com a coroa. E outros que são da casa do rei, quer dizer, da casa militar ou civil do rei. A lista está aqui.
(Sr. Benoit: “E dos antigos barões do reino da França…”. )
[Exclamações]
(Sr. Benoit:“Com as qualidades, a origem, o progresso e as armas da família”.)
As qualidades são as qualidades do ponto de vista nobiliárquico, da família. Então, de todas as famílias dos Barões da França. Barão é o genérico para todos os nobres verdadeiros. Não nobres de fancaria.
“Os estatutos e catálogos dos cavaleiros, comendadores e oficiais da ordem do Espírito Santo”, que era a ordem que o rei usava, era a ordem do rei. Ele era o grão mestre da ordem. Então, o catálogo dos participantes da ordem, nos vários graus.
“Tudo isso montado segundo títulos originais”, quer dizer, não é cópias, nem citação, e dos próprios arquivos.
“Sob o registro do rei, do parlamento, da câmara das contas, e do tribunal judiciário de Paris.”
“Manuscritos da biblioteca do rei, e de outros gabinetes com coisas curiosas. Pelo padre Anselmo, agostiniano descalço, e continuado pelo Sr. De Forné. A terceira edição foi revista, corrigida e aumentada pelos cuidados do padre Ângelo e do padre Simpliciano, agostinianos descalços. Tomo primeiro, contendo a Casa Real da França. Em Paris, impresso pela companhia de livreiros, 1626, com a aprovação e privilégio do rei.”
Quer dizer, sabem o que é o privilégio do rei? Nós chamamos hoje prosaicamente de Copyright. Quer dizer, o rei permitiu que fosse impresso, e não pode outro copiar. Só estes é que editam. Esse é o privilégio do rei.
Quantos anos dá até 1984?
(Sr. –: A data é 1726 e não 1626. Dá 258 anos.)
Duzentos e cinqüenta e oito anos tem isso aqui, de antigo… Agora, entra um pouco a TFP no caso. Esses volumes estavam um tanto danificados. Mas misteriosamente, não se pode explicar como, uma dessas capas, amanheceu toda arranhada, escangalhada. E eu creio que é essa mesma.
Porque passando aqui a mão, a gente uma coisa que parece um arranhado concertado. E era uma tristeza… A gente tem impressão que alguma pessoa, ou algum apóstata entrou aqui e fez isso, ou… porque parece uma coisa do demônio, não tem outra explicação.
Uma coisa deste peso, dessa significação antiga, etc., não tem outra significação. Não só confiamos os volumes todos para serem revistos e reorganizados por Dona Maria Henriqueta AS, filha do nosso saudoso Dr. Azeredo. Ela é amadora encadernadora. Ela levou, não sei se perto de um ano. Quando terminou, telefonou dizendo que estava pronto. Ficou uma coisa primorosa, de apresentar a qualquer museu! A única coisa antiga que ela foi obrigada a substituir aqui foi isto. Isto aqui nós já recebemos assim, mas eu acho que já é muito posterior à época da impressão. Deve ser do século passado.
Aí os senhores tem uma coisa muito bonita. São nove volumes.
Bem, assim, se acharem interessante, nós podemos, em outras reuniões, ir cada vez visitando uma sala… e comentando as várias coisas, etc. E agora, eu acho que acabou, e é mais prudente levar… esses dois cavaleiros lá para dentro. E nós vamos nos preparando para visitar o Santíssimo Sacramento, e para nós nos despedirmos.
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Sede do Reino de Maria