Conversa de Sábado à Noite ─ 24/3/84 – p. 12 de 12

Conversa de Sábado à Noite ─ 24/3/84

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Histórico do gradual desinteresse do Grupo da Pará e Martim pela forma com a qual o Sr. Dr. Plinio fazia as reuniões; e as oposições e frondas que daí resultaram * Como se deu a substituição das conversas, onde havia uma certa flexibilidade, elevação e agrado para as reuniões com espartilhos doutrinários * As teorizações da Reuniões de Recortes não mais interessavam, a apetência do auditório era pelas notícias! Notícias, notícias e mais notícias… * Deus ficou sentido com o pessoal mais antigo do Grupo por ter esfriado no amor à causa e aderido à “Bagarre” azul * O Sr. João Clá depois das graças que recebeu em 75, por ocasião do desastre, apresentou ao Grupo uma nova visão da figura do Sr. Dr. Plinio, na qual o pessoal mais velho tinha “escarrado”!! * Os “enjolras” ao mesmo tempo que impressionaram o Grupo exerceram uma espécie de ditadura espiritual sobre aqueles que não se deixaram orientar pelo Sr. Dr. Plinio * A camáldula é uma espécie de castigo voluntariamente aceito que elevou os que lá se encontram a um estado que nunca chegariam

* Sobre o hábito que o Sr. Dr. Plinio tem de sentar-se sempre em um mesmo determinado lugar

Vamos conversar. Olha, senta no sofá, se você não preferir a cadeira habitual. Depende de você.

(Sr. Guerreiro: Eu coloco a cadeira aqui, a menos que o senhor prefira que eu sente lá.)

Nenhum pouco, é o que você preferir. Eu sou muito disso também, muito de hábitos e de detalhes. De maneira que, por exemplo, no meu escritório, eu sento em quase exclusivamente num lugar. E assim por toda parte, quase todos os lugares que eu freqüento, eu tenho um lugar habitual para sentar, Sede do Reino de Maria, por toda a parte. E isso é um dos elementos da sociedade orgânica. De maneira que…

(Sr. Guerreiro: É uma seleção que a alma humana faz meio sub-conscientemente.)

Mas que corresponde a qualquer coisa de muito profundo dela. Se ajustam muito bem as coisas assim e tudo.

Meu filho, já que estamos só nós 3, eu vou dar uma sugestão a você, é o seguinte: Eu tive impressão, quando você me fez umas perguntas a respeito das Reuniões de Recortes, etc., que nem tudo foi respondido, que você tinha ainda mais perguntas para fazer. Se você quiser essas perguntas agora, eu estou à sua disposição. Não sei se você tem apetência de fazê-las agora. Depende só de você.

(Sr. Guerreiro: Pelo que me lembro, as perguntas foram respondidas. Agora, haveria outros pontos que se o senhor pudesse responder… Com o fim do processo revolucionário, a Reunião de Recortes mudou também.)

Mudança de temática até.

(Sr. Guerreiro: Então fica sempre a pergunta se não houve uma falta de apetência de nossa parte, também, por essas temáticas. Hoje, por exemplo, aquela temática da França, o manifesto dos socialistas, aquilo anima muito, aviva muito o espírito. Mas não terá havido falta de apetência para o senhor não dar mais teorizações políticas, doutrinas, etc.? isso é real? o que está acontecendo?)

* Histórico do gradual desinteresse do Grupo da Pará e Martim pela forma com a qual o Sr. Dr. Plinio fazia as reuniões; e as oposições e frondas que daí resultaram

Eu acho que foram várias circunstâncias que se encontraram, mas é positivo que não foi apenas a desarticulação do processo que trouxe isso, mas que foi também um desinteresse do auditório, previamente ao aparecimento dos enjolras no auditório, e bem previamente, um desinteresse do auditório por tudo aquilo que representasse construção inteligente do espírito. E, de um modo geral pelo tema da Reunião de Recortes. De um modo geral pela vocação; pela Revolução e pela Contra-Revolução, pela vocação.

Em que sentido da palavra?

É que houve um descolamento entre ─ isso só para o Fernando ouvir, João, Luizinho, Dr. S., Marcelinho; outros não ─ houve um gradual descolamento entre a massa do Grupo, e eu no meu modo de expor, e portanto, no meu modo de influenciar a massa do Grupo. E esse processo de deslocamento você pegou quando já tinha começado, de maneira que você não pôde acompanhar todo.

* Como se deu a substituição das conversas, onde havia uma certa flexibilidade, elevação e agrado para as reuniões com espartilhos doutrinários

Mas, primitivamente, minhas reuniões não eram aulas, eram reuniões. Eu consideraria de mau gosto dar aulas. Tanto mais que eram quase todos de minha idade, os da Pará metade, de maneira que eu não podia tomar em relação à metade do meu auditório uma atitude doutoral, de quem está dando aula. E há uma exposição que o francês chama de causerie, com a qual você pode expor as coisas mais profundas, do modo mais metódico, mas ao mesmo tempo com certa elevação de forma e uma certa flexibilidade e agrado de conversa. De maneira que é meio conversa, meio discurso e meio conferência, sem ser inteiramente nenhuma das 3 coisas, isso é uma causerie.

E eu me adapto razoavelmente a esse modo de exposição. E eu considerava que o raciocinar era uma coisa necessária, mas que um certo pulchrum acompanhando o raciocínio dava uma compreensão humana completa; pela razão e pelo símbolo, pela observação direta da coisa. Que é diferente do conhecimento angélico, etc.

Agora, mais ou menos ─ eu não sei se você já tinha entrado no Grupo nessa ocasião, porque eu tenho má memória para datas ─ enquanto estávamos no Auditório da Santa Sabedoria na Rua Pará, começou uma espécie de entretom espalhado entre vários que esse pulchrum era uma coisa muito inútil, que representava perda de tempo, e que, de mais a mais, era uma coisa que metia pena, porque manifestava que eu não tinha uma inteligência a altura de expor a pura doutrina. Então me refugiava em dissertações em parte doutrinárias, mas em parte literárias, históricas, etc., etc. E isso tomando um certo ar, da parte de alguns, um certo ar de fronda.

Fronda na Rua Pará, mas que atingia diretamente alguns da Martim, entre os quais eu posso citar com toda a liberdade o pobre AX…

(…) [Nº 1]

agora, para manter a minha autoridade junto a eles, eu tive que provar que eu era capaz de fazer exposições doutrinárias secas, em que se sustentavam inteiramente, etc., etc. E as fiz. De fato sustentaram, mas ficou criado um ambiente pelo qual o que não fosse uma exposição puramente doutrinária, dificilmente se podia sustentar dentro do Grupo.

Eles abriam exceção para o Santo do Dia que era feito depois da reunião para o pessoal que vinha. Porque aí eles compreendiam que era para ─ naquele tempo não havia o termo ─ a “enjolrada” que cabia, etc., etc. e depois eles viam a todas luzes como aquele pessoal não ia com exposição puramente doutrinária. Mas houve assim um primeiro distanciamento.

Agora, esse distanciamento atingiu depois o lado Ambientes-Costumes. Com a idéia de que a coisa tinha perdido seu sabor. Muito repetida, muito insistida, muito falada, não tinha tão grande valor em si e tinha perdido seu sabor. Então, Ambientes e Costumes?! Aããããããã.

* As teorizações da Reuniões de Recortes não mais interessavam, a apetência do auditório era pelas notícias! Notícias, notícias e mais notícias…

Bom, aí uma crise de tibieza já então.

Essa crise de tibieza importando no desaparecimento dos Ambientes-Costumes, no desaparecimento das conferências de europeização, no fato de eu reduzir as reuniões, que eram cotidianas, a 3 por semana com pretexto de que eles ficariam nos outros dias estudando a matéria ─ mas de fato sabendo bem que não iam estudar nada, ficariam na algazarra, era coisa evidente, não estudava coisíssima nenhuma ─ e depois na decadência das Reunião de Recortes.

Na Reunião de Recortes a decadência consistia em que cada vez mais as teorizações ─ aí era o contrário ─ as teorizações eram mal vistas e eram bem vistas as notícias. Notícia, notícia, notícia, notícia.

Eu me lembro de uma teorização que eu fiz, quando foi a visita do Kissinger à China. Bem, o comentário, não sei se você assistiu a reunião seguinte a essa. Isso foi num sábado, no domingo não se fazia reunião e na 2ª feira ─ porque havia reunião toda a noite naquele tempo, mas já não era lá, era no auditório de São Milas eu perguntei a eles o seguinte:

Eu notei ─ vocês talvez não estivessem, porque vocês que não eram de São Paulo voltavam no domingo para os respectivos locais, talvez você não tivesse assistido isso ─ eu disse: Eu notei na parte dos senhores muito desinteresse naquela reunião assim. E pergunto se é verdade que se tivesse, por uma dessas janelas, pulado um gato e se instalado em cima de minha mesa, isso teria chamado enormemente mais atenção, interessado muito mais do que a exposição que eu fiz. Os que pensam assim, levantem o braço.

A quase totalidade da sala levanta o braço.

Você esta compreendendo: um escárnio, a ponto de eu ter pensado seriamente em suspender as reuniões, cortar as reuniões; porque, o que é que eu estou fazendo?! Mas, achei que Nossa Senhora podia tirar alguma glória daquilo de futuro, etc., etc., continuei.

* Com a “Bagarre” azul, veio o desinteresse pelos assuntos doutrinários e entrou em cena o aristocrático pátio do palacinho, o plebeu da Aureliano e o semi-patioso do Alcácer

Com isso entraram os mitos da Bagarre azul e o desinteresse, por princípio, por tudo quanto não fosse a vida interna do Grupo, mas no sentido do fuxico, das rivalidades, das questões pequenas, do pátio aristocrático do palacinho e do pátio plebeu da Aureliano. E da coisa semi-patiosa do Alcácer, era isso. E cada vez mais também o interesse de cada um por sua vida, por sua pessoa, etc., etc., e todo mundo no qual eu me movia, que era o mundo da vocação, cada vez mais distante, mais distante, mais distante.

Eu fazia sistematizações, teorizações, etc., mas sentindo-as cada vez menos capazes de pegar. Quem fez um esforço muito grande, mas um tanto gauche para reviver isso foi o Viano, mas muito grande, e com muita dedicação. Mas um tanto gauche. Ele tinha umas criteriologias, umas coisas que não correspondiam à nossa mentalidade. Não conseguiu resultado nenhum.

Isso coincidiu com uma quebra tão grande do Grupo que eu cheguei a dizer que não oferecia propriamente minha vida, porque eu sabia que não era a vontade de Nossa Senhora, mas oferecia que me acontecesse o que Nossa Senhora quisesse para soerguer o Grupo. Bom, daí vem o resto que você conhece.

Mas mesmo depois disso, ainda houve várias decadências. Os Êremos se dissolveram, e tudo o mais que você conhece.

* A graça dos “enjolras” veio pôr fim a uma série de catástrofes no Grupo ─ a questão da primazia do “pátio” dos enjolras

E enquanto não apareceu a graça dos “enjolras”, nós só tivemos catástrofes em cima de catástrofes. Isso é uma coisa que não se pode negar, não é possível negar.

Aparecidos os “enjolras”, eu comecei a adaptar um tanto a Reunião de Recortes a eles. E era uma necessidade, porque era um jeito de salvar os outros. Salvar a eles que eu queria salvá-los mas salvar os outros, porque do contrário ia água abaixo. Se eu tivesse atendido aquele desejo do Gomide e do Fedeli de acabar com os “ohs”, aquilo tudo, a reunião teria ido água abaixo.

Mas, por quê?

Porque cada vez mais… Bom, daí apareceram umas reuniões, doutrinárias de novo, mas mais filosóficas, mais do pulchrum para agradar os enjolras. De fato no interesse geral.

Mas aí os “enjolras” se desenvolveram intelectualmente bem e se tornaram em condições de acompanhar quase todas as reuniões. Por exemplo, a de hoje acompanharam perfeitamente, perfeitamente. Mas aí por assim dizer, deu-se uma coisa que é a seguinte: Sobre os antigos, quase todos eles, um primado do pátio dos “enjolras” sobre todo o resto. E o desinteresse pelas questões doutrinárias continuando. De onde a coisa de hoje pegou tanto assim porque dizia respeito ao Grupo. É o egocentrismo. Se fosse puramente doutrinária sem ter um nexo com a TFP, não pegava.

(Sr. Guerreiro: Mas o puramente doutrinário sem nexo com o senhor fica uma coisa assim sem oxigênio e fadado à morte.)

É verdade, é verdade. Mas a coisa doutrinária deveria ser exposta com esse nexo. Mas esse nexo muitos vêem, é uma coisa evidente. Eu não posso estar toda hora pondo eu mesmo esse nexo.

Agora, a questão é que…

(…)[Nº 2]

defeito de espírito muito grande. Evidentemente há também defeito de espírito na criteriologia. É impossível que você mesmo não perceba. Um que vai, por alguns lados, retificando muito bem esse defeito de espírito, pelo menos em matéria puramente intelectual, é o Átila. Vai se latinizando e ajeitando em vários pontos. Mas quer dizer que ele também tem consciência que há alguma coisa de defeituoso nisso. Mas tem muita coisa de legítimo, depois aproveitável, excelente, etc.

E depois, o que tem de defeituoso, a gente corrige mostrando teoricamente que tem de defeituoso e dando uma espécie de injeções de bom senso, que é propriamente o que não entra. Se você me permite dizer, o espírito alemão, colocado diante do bom senso que se impõe à vista assim intuitivamente fica meio blesser por que o bom senso lhe entrou cabeça adentro sem passar pelas alfândegas da crítica. E, por causa disso, começa querer fazer a racionalização de uma coisa que não é necessária.

(Sr. Guerreiro: Exatamente! A pessoa fica atrapalhada com isso, especialmente na semi-fidelidade.)

E depois precisa tomar cuidado porque, no fundo, dá nó comigo. Ainda que eu não esteja envolvido no caso diretamente, o nó dispara por cima de mim, isso não tem conversa. Porque é onde o demônio que levar muita gente, ou toda gente dentro do Grupo.

Agora, o fato concreto é que a má vontade deles, dos latinos, dos meros brasileiros por isso ─ digamos dos não “europeizantes” ─ é acentuada pelo fato de que alguns apresentam as perguntas meio gauches

(…) [Nº 3]

não sei se a resposta lhe satisfaz?

(Sr. Guerreiro: Sim, sim.)

(Sr. F. Antúnez: O senhor não deu a solução.)

A solução só é uma; é o problema: Hoje, durante o jantar, falávamos das ocasiões em que Deus fica sentido. Eu ponho o Guerreiro um instantinho ao para da coisa para poder acompanhar…

(…) [Nº 4]

* Deus ficou sentido com o pessoal mais antigo do Grupo por ter esfriado no amor à causa e aderido à “Bagarre” azul

Deus perdoa, quer, ama conserva junto a si, fez até coisas muito belas por ele, mas espera uma certa hora para acabar de perdoar; uma certa hora e um certo ato de generosidade que ele tem que fazer, e que eu tenho a impressão de que não está ao alcance dele fazer agora. E acho que com a Bagarre parda a Providência ficou meio sentida com o pessoal antigo do Grupo.

(Sr. Guerreiro: “Bagarre” azul?)

Bagarre azul. Que não foi assim um pecado disto, daquilo mas foi um esfriar no entusiasmo para com a causa. E um esfriar em troca de uma outra coisa que o inimigo oferecia, o mundo, que era o azul da Bagarre azul. E que Nossa Senhora com isso os conserva e até, admiravelmente, por graças sucessivas, umas depois das outras, etc., Nossa Senhora conserva. Mas que Ela espera uma determinada coisa, como esperou com São Paulo a hora do caminho de Damasco. Quer dizer, houve um determinado momento em que ele levou aquele raio e que ele se converteu. Antes disso não. E que nós todos estamos percorrendo, como peregrinos, com aquela bola de ferro no pé, a via de Damasco. Não num corcel fogoso, mas como eu acabo de descrever. Em certo momento bate um raio que é o raio da misericórdia, do perdão, e essa bola no pé se dissolve, vai pelos ares e nós continuamos a andar e tomamos outro jeito.

E acho que as camáldulas foram para muitos o começo disso. Não quero dizer que todos vão perseverar. Mas acho Nossa Senhora tão misericordiosa com o Grupo que eu acredito que, mesmo dos que não perseverarem, ao menos da grande maioria, Ela vai ter pena e reconduzir ao bom rumo, ao bom caminho. É a impressão que eu tenho.

Enquanto não houver isto, eu vou mais ou menos tateando, conforme as circunstâncias. Não tenho como solução… a solução é o caminho de Damasco. Enquanto não houver o caminho de Damasco, eu estou ajudando a andar ─ eu seria o último a poder falar nisso ─ um conjunto de cochos, que andam como podem. E eu vou amparando um e outro, na medida em que ele tolera em que eu o ampare, na medida em que me é dado, eu tenho tempo, etc., eu faço. Mas espero que cheguemos a esse termo final. É o Grand-Retour talvez.

Mas, por exemplo, da última vez que eu estive no Êremo de Elias, eu nem me lembro para o que é que eu fui lá. Eu tive uma impressão de que quand-même alguma coisa se recompõe, alguma coisa se reestrutura e que há um sopro que permite que a gente espere que Elias ame o seu Êremo e ponha as coisas nos eixos. Alguma coisa revive, alguma coisa… há alguma coisa ali que se recompõe. Que me deixou, aliás, muito contente.

Assim, por toda parte, há coisas dessas.

Mesmo no Êremo de Amparo, por exemplo, o Rodrigo tem tido melhoras bem boas, mas é dentro, tudo isso é dentro de uma certa perspectiva.

Inclusive os “enjolras” foram para nós, nesse sentido, uma grande graça. E os “enjolrinhas” lá de Acies Ordinata, Saúde, etc., etc., ainda são uma graça complementar.

O que você diz a isso, meu filho?

* Parecer do Sr. Guerreiro Dantas sobre o “tenebrae factae sunt” que baixou sobre ele e os de sua geração a partir de 1975

(Sr. Guerreiro: Exatamente há isso, uma graça enorme. Como a gente vive dentro da cabeça como ela está no momento, depois de anos e anos de semi-fidelidade, desacerto, incorrespondências, um pouco a pessoa acaba se preocupando com as questões próprias.)

Claro.

(Sr. Guerreiro: E eu me lembro do convívio que o senhor tinha com nossa geração, era diferente do convívio que o senhor tem com os “enjolras”.)

Vocês tinham a idade deles, hein! A questão é que vocês não eram “enjolras”, é outra questão.

(Sr. Guerreiro: Por outro lado, modificou o relacionamento do senhor com eles, enquanto grupo.)

É.

(Sr. Guerreiro: Do desastre para cá, tenho a impressão que caiu uma maldição em nossa geração por onde nos sentimos saídos do Paraíso e postos numa charneca onde ficamos só com a cabeça de fora, sem poder se mover. E se não fosse a Senhora Dona Lucilia, hoje estaríamos simplesmente liquidados. Agora, o senhor tem uma exigência que não tem teto, na linha da virtude.)

A medida do amor de Deus, diz São Francisco de Sales, é amá-Lo sem medidas.

(Sr. Guerreiro: E é isso que vemos no senhor. O senhor quer sempre mais. Mas, depois do desastre houve um como que divórcio do senhor com nossa geração. E aí não consigo… como português mandado de Portugal para o Brasil. Isso aqui era um “abacaxi”, fim de mundo.)

Mandavam para cá os condenados à morte…

(Sr. Guerreiro: Então é isso: me sinto como um português que vivia na corte antes, e, de repente, foi mandado viver no Brasil. Está certo. Um dia isso aqui será. Mas que dia será isso?)

Alcançarei esse dia?

(Sr. Guerreiro: Uma vez, Dr. Luizinho disse de uma pessoa que tinha cometido “x” infidelidade e que a única saída era o resto da vida em camáldula. Se fosse comigo, eu teria a impressão que passar o resto da vida em penitência, em camáldula, eu perderia a noção de tudo o que eu vi da vocação. Por outro lado, eu veria que o jogo da vida ─ não é Deus, é o jogo da vida ─ não foi muito leal com a gente.)

Isso é muito alemão! Alemão à cem por cento.

(Sr. Guerreiro: Então, esse jogo; se der certo, o que sai? Se der errado, o que eu pago? Isso não foi, digamos, combinado antes.)

[Risos]

Isso é muito alemão, meu filho.

(Sr. Guerreiro: Então, como é isso? O critério para julgar essas coisas não tinham que ser melhor examinados com antecedência! Hahahaha!)

Aliás, você mesmo dá risada quando fala, hahahaha!

(Sr. Guerreiro: Chega em tal hora: “Você tem que pagar tal coisa”. Não, não acertamos esse negócio.)

Hahahaha!

(Sr. Guerreiro: Vai ver que inventaram uma coisa para mim que não estava dentro…)

Do trato, hein!

(Sr. Guerreiro: Então apreensão. Isso toca um pouco nessa questão que o senhor acabou de falar, que Deus ficou sentido.)

É, eu vi que quando eu disse que Deus ficou sentido, que eu toquei em qualquer coisa que…

(Sr. Guerreiro: Se o senhor pudesse tratar mais disso.)

Mas não espalhe isso por aí, esse negócio de Deus ficar sentido.

(Sr. Guerreiro: Eu sinto isso também, a impressão que eu tenho é que, se existe a corte celeste, com Deus, os anjos, os santos, a impressão que eu tenho é que existe anjos bons que, no dia que puderem me pegar, me espremer, me quebrarem…)

Você?!

(Sr. Guerreiro: Me pegam!)

Não, não.

(Sr. Guerreiro: Eu acho que quem me salva é a Senhora Dona Lucilia.)

Hahahaha! Não, não, não.

(Sr. Guerreiro: E, mistérios da vida. A gente percebe nos olhos do senhor, no escuro dos olhos do senhor, a gente percebe que há certos movimentos, certas coisas que o senhor não diz, mas que, digamos, dentro daquilo que é um mistério da vida, estão acontecendo.)

Sim, isso é certo.

(Sr. Guerreiro: Que, ou é Deus, ou certas realidades invisíveis que o homem, às vezes, sem querer, toca. Mas tocou! Então, como fazer um balanço disso, um juízo. Porque o sujeito pode estar fazendo isso, aquilo, aquilo outro. De repente cruza o olhar com o senhor e o senhor dá a entender que existem outras coisas nas quais o senhor vive considerando, pensando, sabe que existe… como é isso? Então o que sinto é isso: de 75 para cá, uma espécie de “tenebrae factae sunt” baixou. Sinto comigo, mas percebo que quase toda minha geração entrou nisso. E a interlocução com o senhor, agora, como que esbarra e cai numa como que parece de vidro. Não a respeito de tudo, mas das mais altas questões de nossa vocação, nossa voz já não tem força para chegar e tocar o coração do senhor.

E se houve a mudança da Reunião de Recortes, é conseqüência de movimentares em regiões altas onde o senhor se move, região umbrática e misteriosa de Deus, dos anjos, dos santos, etc. E dá nisso, de repente, o senhor acabou de falar: “Deus, de repente, fica sentido.)

Você imagine ─ você falou… aliás, acho legítimo que você tenha falado em boa parte por metáforas, etc…

[Vira a fita]

* O desígnio da Providência sobre os homens é misterioso; mas há regras: a quem Deus ama faz sofrer, se não ama Ele enche de alegrias

de maneira que vou tomar o que você disse, na medida em que eu pude apanhar. Mas você tome o seguinte: É que os desígnios de Deus a respeito de um homem e o modo de tocar a vida de um homem tem, intrinsicamente, algo de misterioso. Para qualquer homem que anda pela rua, Deus não lhe deixa ver inteiramente o que Ele quer, nem o que vai acontecer, nem ao que ele estará sujeito ou não estará sujeito. Deus tem muito claro o que é que convém que ele sofra, que vantagens convém que ele tenha, etc., etc., para efeito de modelar a alma dele. O que é justo que ele sofra como penitência nessa terra, o que não é justo, etc., para efeito de modelar a alma dele.

Há nisso algumas regras. Uma das regras é essa: aquele que desagradou a Deus; se é dos amados, Deus faz sofrer. Se não é dos amados, Deus enche de alegrias na terra. Porque quando ele é dos amados ele sofre. E, pelo sofrimento, não se apega tanto à terra. Depois, por outro lado, ele vai expiando, de maneira a Deus poder visitá-lo.

Se ele não é dos amados, ele é dos felizes que estão por aí, mas também são homens que não têm idéia de Deus, da vida nem nada disso. Eles recebem nessa terra a recompensa pelo bem que tenham feito ─ às vezes um bem pequeno, mas que Deus paga magnificamente ─ mas depois Deus colhe a alma e a julga como está. Com a graça suficiente ele não falta à ninguém. Mas nós sabemos, por nossa própria experiência, como a graça suficiente nós abusamos dela. E se não vierem graças extraordinárias não sai nada.

E essa graça extraordinária, exatamente Deus dá mais largamente àqueles que sofrem.

Então, Deus deseja a salvação de todos; Deus deseja mais especialmente daqueles a quem Ele manda sofrimentos. Esses sofrimentos não seriam sofrimentos se não fossem impregnados de mistério. Porque se fosse uma coisa a la tarifa, inteiramente clara, o homem sofreria muito menos. Tem que ser assim.

Depois, Ele é Nosso Senhor, e tem direito de dispor de nós como Ele quer, ao talante d’Ele e sem nós termos explicação de nada. É um modo de reconhecer o senhorio d’Ele, de ser assim.

Você imagine, por exemplo, no tempo da escravidão, um senhor que tivesse que explicar sempre a um escravo porque ele está dando uma ordem para o escravo; não seria escravidão. Seria um consenso que um homem livre daria às vontades de um outro, mas não seria escravidão.

Acresça a isso essa situação, vista pela lupa de aumento, pelo fato de serem pessoas que foram escolhidas gratuitamente, dentre mil e mil e mil, para uma tarefa especialíssima. Para tarefa que, na perspectiva do mundo contemporâneo, pode-se por alguns lados, chamar única. E, pelos lados onde ela é única, ela tem uns lados ainda por onde ela pode ser chamada única na História.

Bem, a pessoa vai e não recusa a coisa mas não aceita inteiramente, não trata a coisa com a gratidão e apreço que devia tratar. Deus se sente, Nossa Senhora se sente ─ eu estou evitando de falar d’Ela porque dizer que Ela está sentida é uma coisa tão terrível que, paradoxalmente falando, é melhor falar em sentimento de Deus do que sentimento de Nossa Senhora; porque até quando a Mãe está sentida eu me arrepio, não ouso dizer isso. Bem, mas o sentimento de Deus é como de alguém que foi a uma casa e foi recebido decentemente mas não com agrado, ou com pouco agrado, quando havia razão para receber regiamente.

Ele não sai insultado mas sai sentido. Ele não rompe as relações, mas tem um ressentimento, uma tristeza. É a posição explicável e que põe o mistério dentro do mistério, porque, nessas condições, uma vocação única, uma ingratidão pouco comum dar nisso, é o mistério do mistério.

É claro que a gente compreende que tudo se passa muito misteriosamente. Não sei se eu, à força de falar de mistério, estou misterioso ou se o que eu digo tem clareza.

(Sr. Guerreiro: Não, não. Tem clareza sim.)

(…) [Nº 5]

eu não estava aqui, porque eu estava de cama e não via a algazarra feita em torno dela ─ algazarra afetuosa ─ feita em torno dela pelo pessoal todo que vinha, mas que não era o pessoal da Pará e Martim; era a biriquinada da Aureliano. Eu disse: “Bem, ela está no fim da vida, isso tudo está assim, eu não posso proibir esses rapazes que venham aqui, porque até certo ponto eu sou um bem deles e eles têm direito de dispor de mim, eu não posso, não hora em que eu estou tão doente, dizer a eles que não venham. É um direito dos filhos freqüentarem a casa do pai, quando o pai está doente”. Deixei.

* O Sr. João Clá depois das graças que recebeu em 75, por ocasião do desastre, apresentou ao Grupo uma nova visão da figura do Sr. Dr. Plinio, na qual o pessoal mais velho tinha “escarrado”!!

Mas de fato esse bem só existiu porque o João se deixou tocar muito por ela e começou ele a fazer uma ciranda que criou um certo ambiente em torno dela. Bem, ela morreu, isto fechou-se.

Eu não sabendo, começou uma certa devoção para com ela, mas que eu considerava uma coisa um pouco… vamos dizer, uma “enjolrada” ─ não havia ainda “enjolras” ─ uma “enjolrada”.

[O parágrafo seguinte foi copiado fielmente do microfilme, embora não se compreenda com inteira objetividade o sentido]

Não que ela não merecesse, mas extravagante que eles pensassem em fazer isso como faziam; mas que boa, que eu deixava, adoeci.

Agora, no adoecer ─ ou melhor não adoeci, sofri o desastre. No sofrer o desastre, o João foi tirado do Êremo para tratar de mim. E, no ver-me durante muitos, muitos e muitos dias sem entendimento e, portanto, falando tudo quanto passava pela cabeça, eu vejo que ele que é desconfiado por natureza, ficou muito impressionado com o seguinte: Que nunca, nunca, nunca tivesse saído, no meio das minhas deliramenta uma coisa que não fosse sobre a vocação, sobre religião, etc., etc., não passava pela cabeça, não saía. Não era fruto do controle, porque no estado em que eu estava não tinha controle. Realmente eu tinha as idéias mais extravagantes. Por exemplo, eu imaginava coisas que se passaram no Bósforo… mas sempre temas relacionados com a religião, para a religião, para derrubar a I.O., para fazer não sei o que, RCR sempre. Fantasias, mas em torno da RCR.

E eu vi que isso produziu um efeito no sentido dele considerar a integridade de minha alma mais pega com a mão do que em qualquer outra ocasião eu pudesse imaginar. E isto deu ao João um certo ardor… desses apostolados de sustentação colateral que consistia em, diante da atitude de menosprezo do pessoal mais velho a meu respeito ─ porque era menosprezo ─ ele mostrar que não era e apresentar essa figura, sobre a qual eles tinha escarrado, de outra maneira.

* Os “enjolras” ao mesmo tempo que impressionaram o Grupo exerceram uma espécie de ditadura espiritual sobre aqueles que não se deixaram orientar pelo Sr. Dr. Plinio

E isso pode ser considerado um fruto do desastre. Bem, aparece aí o apostolado dos “enjolras”. E aí você vê o trabalho da Providência ─ a ser interpretado assim, porque o que eu estou dizendo a você é uma interpretação hipotética, não estou dizendo que isso está sendo demonstrado com pedra e cal; é um conjunto de hipóteses. Mas você conhece bem o papel das hipóteses em nosso pensamento. E é um papel muito legítimo. Eu tenho certeza de que você aprecia as hipóteses que tenham critério, hipóteses maduras. Bem, mas deu-se isso:

Eles que não puderam ser salvos pela minha presença, acabaram sendo impressionados pela presença dos “enjolras”. E os “enjolras” tendo sobre eles mais influência do que eu.

Eu creio que já contei aqui um fato, tão frisante que eu as vezes conto. Fazendo na camáldula de Jasna Gora ─ já camáldula ─ uma conferência, qualquer coisa assim, um lá disse: “Mas consta que fulano de tal ─ um “enjolras” ─ disse a nosso respeito tal coisa”. Era que eles eram vagabundos, uma coisa assim.

Eu disse: Eu disse isso aos senhores uma porção de vezes, os senhores não se impressionaram. Mas porque um “enjolras” disse, os senhores se impressionam, porque os senhores caíram em tal estado que a opinião dos “enjolras” vale para os senhores mais do que a minha. Me digam se não é verdade. Silêncio geral.

Quer dizer, eles que desprezaram a pessoa que tinha alguns títulos para orientá-los, acabaram debaixo da ditadura da molecada. Muito bons rapazes, etc., etc., mas substancialmente isso. Excelentes filhos meus, que eu quero bem. Você vê bem como eu trato a eles, mas é isso. Mais ainda, ditadura dos mais moços do que eles. Mas por meio dessa ditadura Nossa Senhora os prende a mim.

Não sei se você vê o castigo e a misericórdia andando juntos, admiravelmente.

Bem, onde é que chega isso?

* A camáldula é uma espécie de castigo voluntariamente aceito que elevou os que lá se encontram a um estado que nunca chegariam

É para você ver os mil modos com que a Providência vai multiplicando esses liames à medida que o pessoal faz força para rompê-los; porque é o fato concreto. Como, portanto, a gente não pode imaginar o castigo de Nossa Senhora um castigo do anjo que vem para esmagar. Mas é um castigo que pune medicinalmente. Mais ou menos como um pai que tem um filho que pulou do muro e quebrou a perna. E o pai diz: Para você é um castigo ter que ficar com a perna engessada agora durante muito tempo. Mas com a perna engessada, ele, ao mesmo tempo, está curando o filho do castigo que mereceu.

Porque o pessoal ─ não é o caso do rapaz que comentaram que devia ficar camaldulense até o fim, não é isso ─ o pessoal que está na camáldula, está elevado a um estado que nunca estaria no projeto deles entrar. Quer dizer, eles foram elevados ─ ao serem castigados, porque aquilo tem um quê de castigo, voluntariamente aceito ─ ao se penitenciarem assim, receberam de presente mais do que normalmente receberiam.

Quer dizer, é muito profundo e supõe uma certa… um certo discernimento das coisas como são, uma certa matização. Mas feita a matização, a coisa se põe muito bem.

(Sr. Guerreiro: Pergunto se a camáldula, enquanto instituição, elevou mesmo as pessoas mais alto do que podiam ter chegado? A impressão que eu tenho é que não. Se a gente se recorda das graças todas que recebemos no Grupo, do que vimos do senhor, etc…)

Isso não voltou.

(Sr. Guerreiro: Isso não voltou. E aquilo tudo nos prometia…)

Mais do que a camáldula.

(Sr. Guerreiro: Não era uma promessa, por ali nós entrevíamos…)

Já começava a dar. Não era uma promessa, já começava a dar.

(Sr. Guerreiro: Nós já entrevíamos uma realização da nossa vocação que, pelo que me lembro, era algo muito mais radioso, amplo, muito mais vida do que sinto nas camáldulas.)

É fora de dúvida. Mas o que eu quero dizer é uma outra coisa. É que o estado camaldulense é um estado de vida muito superior. E conduzirá a essa plenitude os que corresponderem.

Veja, não estou dizendo que é só a camáldula mas eu digo que é a camáldula. Espero, mas espero de que maneira? Acho que a condição de camaldulense favorece muito o éclat, o estouro, o estampido do caminho de Damasco, do Grand-Retour; mas favorece muito; limpa a alma, tira coisas, etc., etc., em quantidade para o caminho de Damasco.

Mas você vê isso se operar de modos diferentes…

(…) [Nº 6]

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