Conversa
de Sábado à Noite – 10/3/1984 – Sábado
[CSN 051] .
Conversa de Sábado à Noite — 10/3/1984 — Sábado [CONVERSA DE SÁBADO À NOITE 051]
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Fotografias de castelos espanhóis a serem analisados à luz da inocência primeva * Um castelo que dá a impressão de um sonho de contos de fadas * Outro onde Carlos V poderia ter tomado grandes resoluções * Outro ainda que poderia chamar-se “heroísmo altaneiro” * A idéia de se montar uma sala para se colocar os castelos * A alma que tem surtos para esses castelos, tem um aspecto de sua inocência primeva claramente perceptível * A boa formação da inocência da criança consistiria em explicar-lhe como as coisas eram antes do pecado original * Quem pecou muito cedo contra a inocência primeva acaba tendo um gosto pelo pardo, pelo feio, pelo torto
…recai na questão da luz. Se para verem inteiramente bem, tiverem que acender a luz em cima, acendam à vontade.
* Fotografias de castelos espanhóis a serem analisados à luz da inocência primeva
Trata-se do seguinte:
Num caderno que o Caio, creio que de propaganda, um negócio que se dedica a uma coisa chamada marketing, uma coisa de propaganda de marketing, recebe, ele me… apareceram uns castelos espanhóis, fotografados por um técnico alemão, durante a noite, e feitos para estimular o turismo dos alemães na Espanha.
É naturalmente, portanto, um tipo de fotografia que realça muito, que endereça o pulchrum desses castelos — que, aliás, são ruínas — para o gosto alemão. É uma coisa espanhola, iluminada para alemão.
Agora, no meu modo de entender saíram fotografias de uma beleza rara. Muito pouco difícil de se obter. E essas fotografias, nas pessoas a quem eu tenho mostrado, produzem uma espécie de primeira impressão, primeira sensação. Essa primeira sensação eu queria que todos vissem em si, se sentem. Eu gostaria de analisá-la, porque ela tem uma certa relação com um assunto que nos interessa muito, da inocência primeva.
Então eu pergunto, se quiserem, para ver melhor, porque o ser bem visto é muito importante no caso, se o Fernando podia fazer o obséquio de acender ali atrás, e o João vai mostrando.
É muito bem pego. Quer dizer, ele compreendeu o castelo…
Note o seguinte: são castelos que não têm o enfeite francês, é outra coisa, outra coisa! Mas é uma… é uma coisa fenomenal! Um quadro a óleo dificilmente poderia pegar tão bem a coisa. Depois tem o valor seguinte: esse tom você sabe que é real. Quadro a óleo você diria que é fantasia.
Quer dizer, eu considero esse fotógrafo um artista, um grande artista! Depois os castelos são espanholíssimos!
Depois com muita paciência, porque até pegar essa hora ideal, como ele esperou, como ele… Por exemplo, aquele castelo penúltimo que vimos, é possível que ele tenha ido várias vezes lá, ou se tenha hospedado num lugarzinho para pegar a hora certa. Isto não é obra da pressa. Uma coisa fantástica.
(Sr. João: É extraordinário.)
João, tudo é extraordinário aí.
Por exemplo, a quantidade de chão que ele coloca entre o começo da fotografia e o castelo, é a quantidade ideal para o castelo ficar bem apresentado. E tudo estudado na perfeição por uma grande alma.
(Sr. –: Monastério de Rodillas, de Burgos.)
Olha só o céu desse aí. O jogo de nuvens que ele pegou aí é uma coisa fantástica.
Quer dizer, eu poucas vezes tenho visto em minha vida fotografias que me agradam tanto, se é que vi. Mais eu não vi! Que me agradam mais, eu não vi.
(Sr. Mário Navarro: Não se poderia pedir ao “Bureau” da Alemanha para ver se o tipo publicou algum álbum de fotos, etc.?)
Eu já mandei o Bureau pôr-se em contato com ele, mandar até coisas nossas. Porque é uma coisa excepcional.
(Sr. Mário Navarro: Realmente parecem quadros a óleo.)
Vou dizer mais: quadro a óleo meio forçado. A gente diz: o sujeito imaginou demais.
(Sr. João: Esse aqui está mais ligado com o céu e com a eternidade, é uma coisa impressionante.)
O que esse homem pegou de teologia da História aqui, é uma coisa impressionantíssima, impressionantíssima!
Eu acho que se o Carreiro nos pudesse fazer umas bonitas fotografias disso, como ele sabe fazer, eu acho que isso aí ficaria… Apesar de ser mera fotografia, mereceria estar na Sede do Reino de Maria, em qualquer lugar. Porque são fotografias estupendas.
(Sr. João Clá: Está impresso em papel jornal, quanto mais ampliar, mais prejudicará a foto.)
Mas não se poderia obter dele na Alemanha? Porque isso tudo só pode ser empreendido na base de um contato com ele. Ele vai querer ganhar dinheiro para isso, é preciso estudar.
(Sr. Guerreiro: Ele pegou algo do futuro.)
Foi, foi. Algo do Reino de Maria.
* Um castelo que dá a impressão de um sonho de contos de fadas
(…)
Agora, o problema é o seguinte, eu não sei por onde vocês querem pegar: é o que é mais magnífico em si, ou dentro os mais magníficos em si, ou o que não dá ressentimento a brasileiro? O que é que preferem?
Por exemplo, esse castelo aqui. Esse dá ressentimento, mas vamos deixar de lado o problema de ressentimento. Eu pretendo o seguinte:
O indivíduo que vê isso, pela iluminação, etc., ele tem a impressão de estar posto em contato pela primeira vez, em realidade, com um sonho de conto de fadas, que ele gostaria que existisse, o que ele pensou que absolutamente não existe. E que dá a ele uma espécie de idéia assim, de uma porção de coisas, que na passagem da infância para a adolescência ele tinha recusado, e cuja hipótese, imaginação, o encantava. Essas coisas não só existem, mas podem ser amadas. E isso reabre nele, um pouquinho, por uns segundos, reabre nele alguma coisa da inocência primeva.
Qual é o traço de inocência primeva? É o desejo que a alma tem de que haja coisas assim, e que o universo seja construído em função, seja ordenado em função de coisas dessas.
Inclusive o material aqui, eu julguei errado que estivesse iluminado por um projetor dele, mas não é verdade. É a luz do sol que ele pegou. Porque não acho que haja luz de projetor que produza isso.
(Sr. João: Ou é um sol muito vespertino ou muito matutino.)
Eu tenho impressão que é um ocaso daqueles! Mas dá impressão de que essa pedra é de um material com que os homens não constroem. Depois a impressão que a gente tem é que todas essas salas estão, a la contos de fadas, cheias de móveis magníficos, de quadros esplêndidos, de tecidos raros, de uma ornamentação linda, que dentro se passam coisas fabulosas de pessoas que se tratam umas às outras… ao menos se passou outrora uma história fabulosa aí que ainda vive um pouco. E quem entra aqui, encontra tudo colocado no lugar adequado, tudo no lugar certo, como se os castelães deixassem de estar lá nesse momento.
De maneira que a idéia um pouco é de que isso é uma parte do mundo real de hoje.
Então eu pergunto: é verdade que isso entusiasmaria a vocês, quando vocês eram crianças? Primeira pergunta. Segunda: é verdade que vocês foram levados a achar que uma coisa dessas era impossível, que era uma infantilidade, e que era preciso renunciar a isso? Achar mais ou menos completamente, sair do écran da cabeça uma possibilidade dessas?
Bem, é verdade ou não é que era a inocência primeva que se levava a maravilhar com isso e que é precisamente, deste lado, que a inocência primeva se explode?
Aí nós compreendemos o que é que está em nós de inocência primeva.
Para saber do que é que eu falo, quando eu falo de inocência primeva, eu falo, por exemplo, dessa situação, eu falo de uma zona da alma que tem sensações desse gênero.
O que é que me dizem disso, como é que é, como é que não é?
Agora, eu os encontro muito mudos. Se vocês têm alguma objeção a fazer, façam.
(Sr. João: Curioso é que não entusiasma só quando a gente é criança.)
Não, fica na vida inteira um pavio aceso com esse entusiasmo, e o thau leva isso para a frente. Mas o homem, envergonhado pelas pressões dos dias de hoje, fica com vergonha de si mesmo, de dizer isso que eu estou dizendo. Então fica tampado aquele surto primeiro, que uma criança normalmente teria.
Por exemplo, eu aos 8, 10 anos, se isto estivesse, por exemplo, no meu quarto de dormir, eu era capaz de não dormir e fingir que eu estava dormindo, para meus pais irem dormir, depois acender ocultamente a luz e ficar olhando, olhando, olhando, olhando… indefinidamente! Com a idéia seguinte: “Um dia eu hei de encontrar isso!”.
Agora, vocês concordam com isso ou não, como é que é?
* Outro onde Carlos V poderia ter tomado grandes resoluções
Bom, agora vamos tocar… esse! Não é tão reluzente, tão extraordinário quanto o outro, mas entra dentro dessa linha. Se me derem licença, eu vou ver de frente, para poder fazer o comentário adequado.
Quase que o castelo se repete em dois lances iguais, e cada um desses lances é maciço, forte, grandioso. O ele se repetir no outro lance dá a impressão que se repete ao infinito, que é uma coisa que vai indo, que vai indo maravilhosamente, é a impressão que dá. E esta impressão de força, etc., dá a idéia assim de um castelo que não está situado na luz, mas que explora as belezas e os mistérios da sombra. E tudo quanto a inocência se encanta quando ela vê a sombra.
Esse castelo é todo ele meio misterioso, com janelas escuras, salas escuras, passam-se nele conciliábulos misteriosos, resolvem-se coisas misteriosas também, mas grandiosas! A gente poderia imaginar Carlos V reunindo seu conselho de Estado, para saber se incorpora ou não incorpora Portugal e Brasil à coroa espanhola, aqui dentro! E depois também saber se ele faz ou não faz o testamento dividindo o Império dele em dois ramos, como ele dividiu, aqui dentro. A abdicação dele, ele resolveu aqui dentro.
Grandes desolações, depois das quais a noite acaba de baixar sobre o castelo, e as pessoas vão dormir meio pasmas ainda do alcance das resoluções que foram tomadas.
(Dr. Edwaldo: Comentar um pouco o fundo.)
Ele é um grande especialista de fundos. Esse claro que magnificamente figura aqui — aliás, me dá impressão aqui de aurora — acentua ainda mais o fundo. E dá idéia exatamente que não é um fundo de iniqüidade, mas é a reflexão concentrada ao serviço da inocência. A inocência inspira tudo isso, inspira a reflexão e toca para frente!
* Outro ainda que poderia chamar-se “heroísmo altaneiro”
Esse aqui! Esse aqui poderia chamar-se heroísmo altaneiro!
É exatamente o que você disse. Quer dizer, essas torres desafiam o adversário assim! De sobejo, de peito aberto! Ele avança, exatamente, e desafia o adversário. Desafia e já pisa o adversário. E é para todo sempre, um estado de alma ficou.
Quer dizer, aqui a gente compreende certos aspectos da História. Em certo momento, na alma de um povo, existiu esse estado de espírito. Isso ficou nos tesouros do Padre Eterno, nos esplendores do Padre Eterno, e paira nos aspectos de um país, até o fim do mundo, e até mais adiante disso. Está feito!
Aqui não se pensa tanto no que está dentro do castelo. Aliás, essa torre não tem preocupação a não ser militar. Não tem uma janela de adorno, nem nada. Nem tem ameias bonitas, nem nada. Mas ela de olhos fechados desafia e sem boca fulmina!
(Sr. João: O senhor não acha que tem um imponderável mouro?)
Não sinto muito, não. Eu sinto aqui é a quadratura espanhola no duro, ouviu? Mas no duro!
Bem, a inocência primeva se regala com isso. Mil guerreiros com que ela sonha, mil heróis, mil batalhas, mil cruzadas. Por exemplo, eu sinto muito mouro ao pé da fortaleza, tentando tomar. E mil vitórias estão dentro disso. A inocência primeva tem um “huu”para isso.
E a cor do céu também está maravilhosa. A cor do céu maravilhosa simplesmente. Essa cor do céu, a meu ver, não podia se combinar melhor, não ouro sobre azul, azul sobre ouro. Vários tons de azul que pela delicadeza compensam a brutalidade do castelo e fazem disso uma obra‑prima a meu ver.
Esse aqui é o primeiro. Esse é como o primeiro. Aquela série enorme de fortificações, etc. Mas é mais militar do que o primeiro. É meio um castelo de conto de fadas, mas é meio uma fortaleza de contos de fadas. Sempre o jogo céu e… é primorosíssimo!
(Dr. Edwaldo Marques: O senhor não vê algo de tragédia?)
Tem. Sobretudo a tragédia está por aqui, a meu ver. Terrível, monstruosa. Mas aqui também uma alma inocente se encanta: “Então a força do espírito humano pode ser tal, o homem pode produzir heróis tais, pode produzir cenas tais, histórias tais? Que beleza viver! E como eu quero fazer coisas grandes quando eu for homem!”. É a inocência. Esses impulsos são os impulsos da inocência.
Esse não tem nem comentário!
Mas, por exemplo, tudo isto aqui me teria feito um bem na vida espiritual, uma coisa fantástica! Não sei a vocês, mas a mim… fantástica!
Aqui é o céu, como quem diz: “O Cid Campeador sozinho, traçando os rumos da História, o céu protege e o acompanha”.
(Sr. João: O céu é como um manto de proteção para…)
Um pouco ele indica o caminho para as nuvens, e um pouco as nuvens indicam o caminho para ele.
Esse é muito bonito também.
Agora, sempre é preciso notar: as nuvens são uma epopéia. Quer dizer, esse sujeito é um… Eu me chego a perguntar se ele não tirou as nuvens em separado dos castelos, e fez montagem…
(Sr. João: Não! Seria perfeitamente perceptível se fosse assim.)
Então não é isso?
(Sr. João: É natural.)
* A idéia de se montar uma sala para se colocar os castelos
Bem, é uma coisa que eu acho que merece ser vista. Se nós tivéssemos umas fotografias, vamos dizer, por exemplo, do tamanho daquele pedaço de parede ali, desses castelos, e tivéssemos dinheiro, era o caso de nós pensarmos em montar, com todas as regras da boa iluminação, etc., uma galeria para conter esses castelos. Para o sujeito ir lá e sentar-se durante o dia e ficar. Com apenas uma recomendação: proibido falar.
E colocado num lugar adequado, se nós pudéssemos, uma cópia perfeita da Virgem Blanca de Toledo. Está acabado.
E nem era sala para reunião também. Alguém dizer: “Vamos pôr na sala do Reino de Maria”. Não, ali não é sala nem para MNF nem nada. É para estar lá quem quisesse.
Precisava estudar, fazer um desses tetos — mas antigamente havia — com panos que correm assim. Não sei se sabem como são. São panos coloridos diferentes, que graduam o tipo de luz que entra. O teto é de vidro, e os panos são colocados assim sobre hastes, com umas argolinhas. A gente com um pau puxa para lá e para cá, à vontade, como quiser, e gradua a luz que quiser, conforme a luz do dia, etc. E ali se fica.
* A alma que tem surtos para esses castelos, tem um aspecto de sua inocência primeva claramente perceptível
Agora, eu sou levado a achar, o que eu penso, é que quando a alma tem surto para coisas dessas assim, ela tem um aspecto de sua inocência primeva claramente perceptível.
Não é tudo que é inocência primeva, não é só isso.
A inocência primeva abarca muitos aspectos além desse, mas esse é um aspecto. E é claro que uma pessoa assim, com doutrina bem dada, compreendendo até que ponto isso é reflexo de Deus, até que ponto, portanto, isso está no espírito da Igreja Católica, e foi a Igreja Católica que fez isso, etc. Uma pessoa compreendendo tudo isso, encontra uma justificativa religiosa para essas sensações que são apenas sensações primeiras.
Então, de acordo com a doutrina do MNF, o que é que leva uma criança a se encantar com isso? É a mesma coisa que leva uma criança a se encantar com um enfeite de árvore de natal. Uma criança no berço, a mãe suspende um das bolas douradas, a criança começa a brincar, e fica agitada, fica vivaz com aquilo, começa a dizer té-té-té… porque o senso do ser se alegra com aquilo. É uma afinidade que vem do fundo do senso do ser.
Aí também o senso do ser jorra com isso. E aí a gente percebe um dos aspectos da inocência primeva.
Agora, não sei o que dizem disso. Quer dizer, da sua própria inocência primeva, portanto. Como cultivá-la.
(Sr. João: Tanto é assim que os miseráveis da Disneylândia o que fazem é pegar esses aspectos e…)
Desnortear, deturpar.
(Sr. João: Aliás, não sei como consentiram em fazer isso assim. É um suicídio para a Revolução.)
Um suicídio. Eu não compreendo como fizeram, e distribuem grátis para o mundo inteiro essas fotografias. Esse álbum o Caio recebeu grátis.
* A boa formação da inocência da criança consistiria em explicar-lhe como as coisas eram antes do pecado original
(Sr. João: O senhor numa reunião do EVP falava da virginalidade da inocência. E essas fotografias exprimem bem isso. Aqui propriamente é uma verdade que Deus reservou aos puros, e nega aos impuros.)
“Bem-aventurados os puros, porque verão a Deus”, não é?
Quer dizer o seguinte: quando a criança é informada do modo pelo qual se dá a procriação, quando ela é informada disso, a procriação se dá hoje em dia em condições prosaicas, há qualquer coisa nela que quebra, como quem diz: “No universo as coisas não são assim, ou pelo menos tem cidadania coisas que são o contrário dessas grandezas”.
(Dr. Edwaldo Marques: Até o Freud diz isso.)
E essa atitude, nessa posição, a criança é levada depois — ou pode vir já antes — a considerar as necessidades naturais do organismo, comicamente, exprimindo um lado inferior e grotesco, que existe até nas pessoas mais respeitáveis. E isto cria na criança uma espécie de conaturalidade, que abafa esta história.
De maneira que uma boa formação da inocência não consistiria em não falar dessas coisas com a criança. Consistiria em dar a explicação que antes do pecado original a procriação se dava como se dá hoje, mas que o corpo humano ficou prosaico.
Também a ejeção daquilo que o organismo não assimila, também se daria, mas está em condições prosaicas hoje. Esse prosaico é o ferrete de uma vergonha, que a alma não carrega. A alma é mais nobre e protesta contra essa vergonha.
Constitui no indivíduo uma nota que seria como num criminoso marcado a fogo pelo crime que cometeu. Se ele depois se arrepende e detesta o crime, a marca está nele, mas na alma dele não está. Assim também nós carregamos essa marca no nosso corpo, mas na nossa alma não.
É preciso explicar tudo isso direito à criança. Salvaria a inocência e faria a criança viver uma linha de pureza extraordinária, defenderia a pureza. Mas vocês sabem perfeitamente como é que isso se faz e o desastre… Não vamos perder tempo com isso.
* Quem pecou muito cedo contra a inocência primeva acaba tendo um gosto pelo pardo, pelo feio, pelo torto
Bom, mas o que eu acho que deve ser o objeto da conversa dessa noite, é o lado de inocencia primeva do negócio. Quer dizer, se aqui se liga o nome pessoa com a inocência primeva, se entendem bem do que é que nossas almas no fundo falam.
(…)
Eu não sei se isso é de tal maneira inato, isso que eu vou falar agora, é de tal maneira inato em certo tipo de gente, que eles nunca conceberam a coisa de outra maneira. Quer dizer, então tiveram uma inocência primeva defectiva. Não sei se é isso ou se é uma outra coisa. Quer dizer, é um tipo de gente que pecou muito cedo contra a inocência primeva, então não chegou a ter esses impulsos. Mas é uma gente que sente a falta de força de alma para se entusiasmar com essas coisas.
Então não diz, porque fica feio dizer, mas a gente nota que está na cabeça deles: “Isto aqui é muito bonito, mas não para mim que sou um coitado, mole, habituado às vistas curtas, por causa disso gostando de olhar as coisas que estão a pouca distância de mim, e não as coisas que estão a grande distância de mim. E por causa disso eu fico humilhado com esses panoramas que me são mostrados, porque eu nunca estarei na proporção desses panoramas. E ficando humilhado, eu me sinto mal. Eu não tenho forças, não chego até lá. Não tendo força, não tenho apetência, e para mim isso não vale nada”.
Seria mais ou menos um imaginário Sr. Claudionor, funcionário de uma pequena firma, e gostando muito de sua vidinha, a quem se oferecesse um apartamento de Versailles. Ele ficaria sentidíssimo, porque ele não poderia aceitar. Aquilo é grande demais para ele, mas ele não poderia dizer que não aceitou.
De onde uma espécie de gosto pelo pardo, pelo feio, pelo torto, e inclusive renúncia aos grandes heroísmos, os grandes lances, à grande História e tudo o mais, porque essas coisas são da minha proporção.
Seria como se você quisesse que os periquitos se entusiasmassem pela história dos papagaios: “Papagaio é outro bicho maior. É da mesma linha, é verde, é pássaro, tem bico, fala também, mas é lá o mundo dos papagaios. Eu quero esquecer do mundo dos papagaios, eu sou um periquito. Sou menor e tenho o meu mundo feito para mim”.
O que dá freqüentemente numa condescendência com o prosaísmo, com a sujeira e com a inveja, uma vontade de que aquilo caia. E se uma coisa cai assim: “Eu já dizia, tinha que cair. Aquilo era orgulho que Deus ia castigar”. É uma obra‑prima de Deus!
(…)
Há certos caminhos que choram.
Inocência e vida são a mesma coisa. E pecado e morte são a mesma coisa também. Nosso Senhor teve a expressão, Ele entendia no sentido sobrenatural: “Eu vim para que tivessem a vida, e tivessem plenamente!”. Aliás, é uma das frases lindas do Evangelho. A inocência traz essa vida. Mesmo no plano natural, a graça tem repercussões no plano natural.
“Veniat ut vita habeant, et abundantius habeant”. Se não me engano foi isso.
Bem, isto é a vida, o senso do ser se alegra, etc. Custa sacrifícios de estraçalhar, mas vale a pena!
(…)
Que beleza, hein? Eu me pergunto realmente se é menos bonito do que o inverso.
(Sr. Mário Navarro: Tirar fotos das quatro estações.)
(Sr. João: Depois esses dois cisnes passeando no meio dessa feeria dourada e vermelha é uma coisa fantástica!)
Vermelho… isso não é vermelho, é uma cor de uva… Há certa qualidade de uva que tem essa cor. Não se pode chamar tout court de vermelho. Entra o vermelho como um componente. Só sei que é uma cor maravilhosa.
Agora, eles não entendem isso. Por exemplo, o Lustigner, Jardinner, aquilo tudo não entendem nada disso. Garimpeiro, não entendem nada! [Vira a fita]
(Dr. Edwaldo Marques: Na Espanha é trágico, porque ficou na pedra, e não ficou nas almas.)
Pois é! Almas que deviam ser mais fiéis do que a pedra, são mais duras que a pedra.
Bem, meus caros, eu creio que nossa noite está liquidada.
Eu lamentei de ter começado tão tarde. Enfim, nós vimos uma porção de coisas…
(…)
… inteiramente impossível ter qualquer coisa de parecido com essas flores de outono em Campos de Jordão? E em outras alturas? A questão é a seguinte: é que não gostam de fazer. A tal ponto que se houvesse um fazendeiro que fizesse isso lá, eu receio que não fosse admirado como devia ser.
(…)
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