Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 19/11/1983 – p. 16 de 16

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 19/11/1983

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...vamos conversar um pouquinho sobre vários temas.

* Contentamento do Sr. Dr. Plinio com a possibilidade de abertura de um Grupo em Bombaim

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor ia comentando o assunto de Bombaim, realmente tem um sabor único.)

Tem um sabor... ter falado com Bombaim e ter dado o brado em Bombaim. Quer dizer, eu bradei aqui e ele respondeu lá.

(Sr. Poli: É o primeiro que vai lá?)

O primeiro dos nossos que põe os pés lá. Aliás, eu recomendaria a vocês que rezassem para que esse apostolado corresse bem.

(Sr. –: Quanto tempo ele fica lá?)

Dois, três dias, para ver os primeiros contatos. Conforme for, ele pode adiar um pouco.

Mas é uma coisa para nós grandiosa, ter encostado os pés em Bombaim, é uma coisa extraordinária.

(Dr. Edwaldo Marques: Num dia em que a “Bagarre” ficou próxima.)

Exatamente, você veja as coisas como se conjugam, a reunião de hoje mais essa referência a Bombaim, tão longe. E depois, já também isso, de ser arranjado pelo Grupo de Nova York como falaríamos do Grupo de Piracicaba, por exemplo, tão corrente para nós, tão banal: “O Grupo de Nova York chamou.” Mas o fato é que há cinco anos atrás, um telefonema internacional era raro, o Grupo de Nova York era uma realidade ainda cambaleante. Todas as coisas vão mudando. Enquanto eu falava estava pensando nisso: “Como Nossa Senhora dispôs que a TFP constituísse um todo colossal!”

Depois, não se pode evitar o seguinte — eu estava pensando nisso: os nossos adversários devem ouvir esses telefonemas assim, e eles percebem perfeitamente tudo quanto significa a chegada de um dos nossos a Bombaim. Quer dizer, percebem a capacidade de contágio. Depois, eu estou informado de que há toda uma batalha em Bombaim em torno de questões de liturgia e uma coisa e outra, etc., liturgia hindu. É toda uma história, uma coisa enorme, da qual eu nunca dei jornal-falado porque não há tempo. Literalmente não dá tempo para dar jornal-falado de todas as coisas. Mas que indicam muita possibilidade de ação nossa lá.

* Graças havidas em uma reunião anterior, no Præsto Sum

Somando a isso — parece um absurdo somar, mas soma-se — a possibilidade de ação nossa em Itaquera...

(Sr. Guerreiro Dantas: Ahahah! Francamente, estava um pouco fora.)

Não, mas é. Porque aquilo é amostragem de uma rotação geral da opinião pública. Tudo que significa nessas reuniões da nossa comissão, é enorme.

Aliás, eu queria que você comparasse sempre, ouviu meu filho? Eu, aliás, tenho uma carta muito bonita do seu irmão para mim, sobre a falecida e sepultada Comissão de Opinião Pública. Eu perguntei se ele me autorizava a mostrar a você, ele me disse que sim.

A carta do Rodrigo, onde está, Fernando?

(Sr. Fernando Antúnez: [Inaudível])

Ah, você não tem fácil à mão. Depois você me procura, para mostrar para o Guerreiro. E você pede também, insiste um pouco.

Enfim, tudo isso são coisas, porque as possibilidades de ação daquela comissão são colossais. Você terá medido isso.

(Sr. Guerreiro Dantas: A reunião especialmente estava muito abençoada.)

Havia uma certa graça na reunião. O Praesto Sum é como o São Bento, um local muito cheio de graças.

(Sr. Guerreiro Dantas: Depois aquele salão meio alto, que não tem nada de especial.)

Não, nada, nada.

(Sr. Guerreiro Dantas: Mas aquele pé direito alto.)

Aquela caixa de vidro ali.

(Sr. Guerreiro Dantas: Caixa de vidro, jardim meio espaçoso e silencioso, cheio de bênçãos que tem.)

Aquela imagem de Nossa Senhora na estrada.

(Sr. Guerreiro Dantas: Os rapazes cantando.)

Cantando.

(Sr. Guerreiro Dantas: Realmente estava muito abençoado.)

Poderia comparecer ao menos de vez em quando meu Coronel. Não sei se você tem tempo. Estava uma reunião muito abençoada. Aliás, um que eu acho que estava gostando era o Julio U.1. Talvez tenha feito algum bem a ele até.

(Sr. Guerreiro Dantas: Ele saiu dali tocadíssimo, fomos pegar o trem, ele foi em silêncio, tocadíssimo.)

(Sr. Poli: Hoje foi a primeira vez que o vi diferente. Quando o senhor entrou na reunião, ele voou para cima dos outros e tocou no senhor e fez o sinal da Cruz.)

* O Sr. Dr. Plínio elogia o ambiente e o convívio nos êremos São Bento e Præsto Sum.

Aliás, muito bonita ali é a atitude dos eremitas, não é? Inclusive o modo pelo qual eles prestam reverência a todo mundo que vai lá, muito bonito. As bênçãos de Nossa Senhora estão ali, não tem por onde escapar.

(Sr. Guerreiro Dantas: O tipo humano que está nascendo ali é uma coisa…)

É uma coisa… a gente brinca, etc., “enjolras”, mas é uma coisa de primeira ordem. Olha, você está incomparavelmente mais próximo em idade deles do que eu, mas você já deve ter sentido que é outro mundo. Aí por fora, procurar isso é quimera em ponto de loucura.

(Sr. Guerreiro Dantas: É uma graça que sai do senhor e começa a viver neles.)

É uma coisa extraordinária. E como eles ficam alegres quando a gente está lá, uma alegria evidente.

Uma coisa bonita que há lá é que você não nota nenhuma espécie de xodó de nenhum com nenhum, também nenhuma espécie de nó de nenhum com nenhum. Aquilo é aberto, como deve ser.

(Sr. Poli: A razão do relacionamento é outra.)

É outra, inteiramente outra.

(Sr. Guerreiro Dantas: Mas muito fraterno.)

Uh! Muito fraterno! E depois como aquilo é composto de gente heterogênea. Você pega, por exemplo, um Andreas e um rapazinho nascido por aqui em qualquer subúrbio, é a coisa mais diferente que pode haver. Ali não, está tudo perfeito. A gente tem um pouquinho a idéia do convívio olhando o convívio deles.

No São Bento é exatissimamente a mesma coisa. Bom, farinha do mesmo saco. Um convívio aberto, ameno, alegre, onde não se nota um pingo de amor próprio, de vontade de se mostrar, de nada.

Não sei se vocês estiveram hoje à noite no auditório? Viram o Dustan? Estava muito bem no papel dele. Depois o B. Os dois que estavam em cima, um era o R. e o outro?

(Sr.–: Fernando Bueno.)

Ah! Fernando Bueno.

Conversavam às vezes um pouquinho, tudo combinado. E o Luiz Francisco representou o papel dele muito bem representado, hein.

(Sr. Poli: O carrasco…)

Estava de meter medo. E a narração do fato feita com finura. Bom, não sei se você notou o seguinte: eu puxei um pouco a orelha deles, até dramatizei. Nem o menor ressentimento, nem nada, essas reações imundas, por exemplo, assim: “Nós nos esforçamos e o Sr. Dr. Plinio em vez de nos elogiar nos puxa a orelha.” É benfazejo.

Você puxou prosa com alguns deles, é?

(Sr. Guerreiro Dantas: Conversei um dia com um que, antes de ir para o Præsto Sum trabalhava nos Buissonnets. Está completamente mudado.)

(…)

[Relato do primeiro corte]

Aqui o Sr. Guerreiro Dantas comentava que o Sr. Boldrini está ficando nobre com a escola do São Bento e Præsto Sum… Uma luz fenomenal, etc. Dizia que via nos eremitas de São Bento e Præsto Sum a graça da instituição que o Sr. Dr. Plinio está formando. O Sr. Dr. Plinio dizia que sim, era uma coisa extraordinária.

O Sr. Dr. Plinio dizia que era uma coisa onde não entrava nada de meninão. É coisa séria, de toda consistência. É uma coisa única, absolutamente única! E se a gente não conheceu aquilo se movimentando, só com as cerimônias não se pega tudo.

[Retoma a gravação]

Só com as cerimônias não se tem idéia. É preciso ter conhecido. Vocês vêem quando vão à noite lá, qualquer outra coisa, é preciso ver aquilo se movimentando.

(Sr. Poli: A missa de hoje… uma densidade nobre, austera, cheia de luz.)

(…)

[Relato do segundo corte]

Comentava a missa: “Que diferença com o celebrante! Sendo que o celebrante parecia estranho a tudo aquilo.”

Aqui o Sr. Dr. Plinio voltou a contar a história do Sr. M, a influência na camaldulização do Sr. Julio Loredo. O Sr. Dr. Plinio dizia que o caso era de “fioretti”, faz parte do “fioretti” do Grupo. Dizia:

Ainda agora aqui, quando estiveram os americanos, não sei de que jeito apareceu o Mackenna com aquele negócio dele. E, como ele é anglo-saxão, ele toma aquilo mais a sério do que a gente toma. E, a certa hora, ele tocou aquilo no meio dos americanos e os americanos consentindo muito com aquilo. Eu estava me lembrando dele mocinho, tocando aquilo e a família trazendo ele para ver se servia para o Grupo. Eu pensei: “Mas que esplêndida matéria-prima vem dos Estado Unidos! Nunca imaginei uma coisa dessas. Ficará?” Ficou e deu um rapaz de primeira.

Depois, uma coisa bonita é que vários destes, à maneira do Boldrini, foram membros do Grupo antes de começarem os Êremos. E a gente, portanto, os conheceu e vê como mudaram, mas como mudaram. Por exemplo, dois de cara: Marcos Garcia e Brambilla. No começo eram muito bonzinhos, depois decaíram enormemente, entraram no Êremo, levaram anos para se refazer, e agora estão bem bons. Sendo que esse Brambilla, quando eu o conheci que ele era novinho, no Êremo do Præsto Sum I, ele me contou este fato: apareceu a RAQC, venderam para alguém da casa dele, e que ele era menino, não tinha a idéia da Reforma Agrária nem nada. Ele lia os nomes dos autores do livro e dizia o seguinte: “Plinio Corrêa de Oliveira, que nome! Algum dia eu vou ter alguma coisa com esse homem”. Você está vendo que é coisa da graça para dar a entender a nós que deitemos empenho nele porque Ela tinha desígnios a respeito dele. Incrível, mas deteriorou-se dentro do Grupo. E deu nesses carcamanos oportunistas do pior tipo. Hoje está bom rapaz. Capacíssimo.

Aliás — dizia ele — tem ali alguns que seriam uns facínoras se não fossem uns santinhos. Um deles é o Pedro Mascaro. Aliás, o Pedro Mascaro, elaboração direta aqui desta Senhora2. Ele era proibido e não podia ir ao Grupo como ia, uma perseguição da família medonha. E eu me encontrava, naquele tempo — eu ia muito mais freqüentemente ao cemitério do que hoje, porque eu não tinha necessidade nenhuma de disfarçar a devoção a Mamãe, e hoje não quero que se possa dizer que eu estimule, então vou muito menos — encontrava vira-e-mexe o Pedro Mascaro sozinho, rezando uns rosários intermináveis. Eu acho que ele ia e ficava umas três, quatro horas no cemitério. Mas eu via que a presença dele junto à sepultura ia mudando a alma dele, é uma coisa que eu via.

Continuou dizendo que isso foi a tal ponto que hoje até o Sr. Dr. Plinio distingue a ele, faz muita coisa por ele, mas é porque, em certo momento, o olhar da Sra. Da. Lucilia pousou sobre ele e ainda pousa, e que é preciso favorecer. São coisas lindas.

Aí entra a pergunta do Sr. Guerreiro Dantas que foi copiada.

[Retoma a gravação]

* “Como o espírito do senhor passa para eles?” Resposta: “Eles me vêem através dos olhos do João”

Repita a pergunta para não ficar extravagante eu responder.

(Sr. Guerreiro Dantas: Com relação às graças do São Bento e Præsto Sum, quais são as graças mais salientes que compõem aquele estado de espírito próprio a eles, como isso é formado? Como o espírito do senhor passa para eles?)

Eu nunca em minha vida vi um Jour le Jour. Eu não sei, portanto, como o João me apresenta a eles. Mas é positivo que eles me vêem através dos olhos do João. Isso não tem dúvida nenhuma. E, enquanto eles me vêem através dos olhos do João, muitos outros me vêem meio diretamente e meio através do mundo.

(Sr. Fernando Antúnez: O que o senhor quer dizer com “ver através dos olhos do Sr. João”? Porque aí não pode entrar o problema do canal no assunto.)

Quer dizer o seguinte: A gente deve ser inexoravelmente franco a respeito das coisas, porque o bem só está na verdade e a gente deve pôr a verdade como é. Esses rapazes me conheceram antes do João começar qualquer ação sobre eles — os mais velhos. Eles me conheceram, muitos deles, no período que vai entre aquele surto particularmente forte de diabetes que eu tive, que levou à amputação do pé, etc., e o desastre de automóvel, foi nesse período que eles me conheceram. Alguns até bem antes disso. Marcos Garcia é um desses, conheceu-me bem antes disso. Não, antes da crise de diabetes não, foi depois, mas, enfim, creio que foi pouco depois da crise de diabetes que ele entrou para me ajudar.

Agora, eles me conhecendo diretamente não tiveram a meu respeito o entusiasmo que eles tiveram depois vendo-me interpretado pelo João, com os comentários do João. Esse é o fato positivo. Isso é questão de verificação de calendário, de tudo mais, é isso.

(Sr. Fernando Antúnez: O próprio Sr. João mesmo diz que ele não conseguia fazer o que ele fez, antes do desastre.)

Isso é outro ponto. Você me lembrando, nós falamos a respeito daqui há pouco.

Agora, de outro lado, também é verdade o seguinte: os que entraram depois começaram a me conhecer diretamente em função dos comentários do João. E que, portanto, o intercurso dos comentários do João foi ocasião por onde eles entraram numa via nova que os anteriores não conheceram. Mas é preciso acrescentar que eles não só não conheceram, mas que a eles não adiantou muito eles conhecerem os comentários do João, os anteriores, porque o Præsto Sum esteve aberto a todos. E mais ou menos todos tiveram, e mais ou menos todos que quisessem os comentários do Præsto Sum poderiam ter ouvido. Só não ouviram porque não quiseram. E eu creio que o grosso do Grupo ouviu, mas não se sentiram atraídos como eles. E nem se sentiram movidos como eles a tomar uma atitude diferente a meu respeito. Esse é o fato posto no seu pão-pão, queijo-queijo.

* Durante o trauma do Desastre, ao despertar, o Sr. Dr. Plinio sempre encontrava o Sr. João o analisando com atenção e afeto, mas não imaginava o bem que dali sairia

Agora, o João diz que ele não conseguiu esse efeito antes do desastre. Chamou-me a atenção por ocasião do desastre o seguinte: Vocês se lembram que eu passei um bom tempo em névoas, grosso modo, um mês e meio. Vocês não tiveram medo de que não passasse mais isso, Edwaldo?

(Dr. Edwaldo Marques: Não.)

Por que não tiveram? Por razões sobrenaturais ou científicas?

(Dr. Edwaldo Marques: Primeiro porque o senhor ia progressivamente melhorando. E, segundo, não se podia ter dúvida.)

Mas por razões sobrenaturais?

(Dr. Edwaldo Marques: Além das sobrenaturais que eram as principais, o senhor dia-a-dia ia melhorando.)

Não, não. Eu entendi naquela ocasião, vocês me dizerem — mas isso podia ser efeito mental em que eu estava naquela ocasião — eu entendi vocês me dizerem que do ponto de vista saúde, sempre que uma pessoa perdia assim a agilidade mental por causa de uma pancada muito forte na cabeça, fatalmente recuperava. Mas estou vendo você muito mais reticente a respeito dessa afirmação que, portanto, eu entendi muito mais categórica do que vocês me fizeram.

(Dr. Edwaldo Marques: Se não há lesão cerebral, há recuperação. Isso para falar em termos meramente humanos.)

Agora, vocês não fizeram nenhum exame para ver se havia lesão?

(Dr. Edwaldo Marques: O senhor foi examinado, etc., e se concluiu que era apenas uma comoção cerebral, um edema cerebral.)

Que seria reabsorvido, sei. Quer dizer, que essa certeza com que eu funcionei correspondia a uma base científica?

(Dr. Edwaldo Marques: Sim, é isso.)

Sei.

(Dr. Edwaldo Marques: Embora a opinião não fosse unânime.)

De quem não era? Dos médicos não era unânime? O Grupo não entende nada disso. Medicamente havia divergência de opinião?

(Dr. Edwaldo Marques: Não.)

O resto é burburinho, nem se toma em conta.

Bem, mas eu no meio daquele vácuo, daquela perturbação, eu já antes disso sempre tive em conta o João como muito bom membro do Grupo, dos melhores. Isto sempre, sempre… Dos melhores, mais dedicados. O serviço enorme que ele prestou no caso Fedeli, eu tinha uma confiança sem restrições no João. Mas ele me manifestou de fato uma dedicação, por ocasião daquela doença, daquele trauma, daquele desastre, uma dedicação que ia além do já muito elogioso que se podia esperar dele. E eu, dentro daquela confusão, de vez em quando voltava a mim e encontrava o João sentado junto à minha cama, sempre numa cadeira — não cadeira de braços — e se não em engano mais próximo da cabeceira do que do centro do corpo e me olhando assim. E eu via que ele me analisava e que ele me analisava com muita atenção e muito afeto. E eu pensei o seguinte: “Há alguma coisa de novo dentro da cabeça dele. Ele é muito bom, etc., mas isto eu nunca notei.” E depois eu caía naquela posição.

Eu estava longe de imaginar, mas longe, que daí nascesse o Præsto Sum. Mas depois eu notei que ele tomava nota de coisas que eu dizia ou coisas que eu fazia, lá no hospital. Depois aqui em casa também. Mas coisas tão banais e pequenas que minha reação foi: “Essa geração nova não parará de me dar surpresa nunca. Enfim, coitado, ele está fazendo uma coisa que não pode deixar de ser boa, deixa tocar o barco.” Não falei nada, não comentei com ninguém, não objetei nada.

Mas eu estava longe de ver que ele estava se formando uma idéia a meu respeito e estruturando um depósito de observações que seria uma escola de analisar-me e um repositório de dados que justificasse umas tantas teses que ele estava se formando.

Eu não tinha idéia, absolutamente, até que ponto o João tinha sido o elemento motor do movimento de carinho, de respeito em torno de Mamãe, nos últimos meses da vida de Mamãe, durante a doença. Eu sabia que ele era dos mais entusiasmados. Mas depois eu vim a saber per accidens, mas anos, anos e anos depois, que ele era o entusiasmado. Eu não sabia. Nunca juntei essas duas coisas.

E sobre tudo isso que eu estou dizendo, nunca me permiti de estar pensando muito por estar eu em foco. De maneira que eu formava assim idéias e passava adiante. Quando saiu o Præsto Sum, em certo momento eu percebi a relação que isso tinha com o Præsto Sum.

* Como fruto do Desastre, muitas coisas no Grupo, sob a influência do Sr. João, mudaram; mas nem todos quiseram se aproveitar dessas graças

(Dr. Edwaldo Marques: Se o senhor permite, no tempo de hospital, quando o senhor estava naquele lusco-fusco, o senhor mostrava muito o interior do senhor, o subconsciente. E a preocupação do senhor não era nunca consigo próprio, era sempre manifestando uma preocupação com a Causa.)

Bem, também tal será.

(Dr. Edwaldo Marques: O quê? Para um homem comum que fosse, digamos, mais ou menos reto, era natural que ele também se preocupasse consigo naquela situação. E o senhor nunca manifestou preocupação consigo; o que até certo ponto seria natural.)

Seria, seria.

(Dr. Edwaldo Marques: E a preocupação do senhor era com a Causa, com o estado do Grupo. E isso o senhor manifestava com muita freqüência. Ali não havia a censura normal.)

Não. Eu ia dizendo o que vinha na cabeça, claro. É, talvez isso tenha impressionado a ele.

(Sr. Fernando Antúnez: Tem que ser tomado em consideração para se compreender todo o caso do desastre, a Conversa de Sábado anterior ao desastre em que o senhor tinha pensado se talvez não era necessário alguém morrer para salvar a situação. E o senhor pensou: “Se isso for necessário, eu me ofereço. Se for para mudar o Grupo, eu me ofereço.”)

Eu me lembro disso.

(Sr. Fernando Antúnez: Tomado esse oferecimento, o desastre e tudo o que veio depois, dá um quadro muito impressionante de como o senhor comprou isso para nós.)

Na minha ótica, eu tenho tanto para resgatar que não me ficaria um saldo para comprar. Isso é na minha ótica. Agora, não vou discutir isso com vocês porque é um tema que não se acaba mais, não tem fundo esse tema. Donde um fundo de ceticismo meu a esse respeito. Eu reconheço que é verdade o que você está dizendo, mas um fundo de ceticismo é isso: “Não terá sido um castigo?”

(Sr. Fernando Antúnez: Para dar todas as graças que vieram depois, “enjolras”, camáldulas, capítulos, tudo aquilo. O Grupo mudou.)

O Grupo mudou, não. Começaram a mudar eles. Porque o Grupo recebeu graças que não aproveitou. Isso foi o que houve.

(Sr. Fernando Antúnez: Mas, a partir daí o senhor foi fazendo uma obra interna que antes não era possível,o senhor ia fechar o Grupo.)

Eu fui fazendo, não. Quem foi fazendo foi o João.

(Sr. Fernando Antúnez: Eu sou testemunha de que o senhor foi fazendo.)

Você é testemunha de que, meu filho?

(Sr. Fernando Antúnez: De que foi o senhor quem foi fazendo. Foi o senhor que fez camáldulas…)

Que fracassaram se não fosse entrar a idéia dos Capítulos…

(Sr. Fernando Antúnez: Capítulos, idéia do senhor, instruções…)

É a coisa mais simples do mundo idealizar um Capítulo. A questão é fazê-lo.

(Sr. Fernando Antúnez: O problema é idear e não fazê-lo.)

É como um rei que diz para o general: “Olha, me ganhe uma batalha lá que eu depois imponho boas condições…” “Me ganhe uma batalha”: são quatro palavras. A questão é ganhar a batalha depois.

(Dr. Edwaldo Marques: O senhor não só faz Capítulos porque não temos condições…)

Ih! Aqui está uma história que não acaba mais, muito complicada. Depois tem o seguinte também: para usar a expressão do Fernando: se eu comprei com esse sofrimento, então eu pergunto várias coisas: Não acabei de comprar? Esse braço, como é? Essa perna? Essa locomoção? Essa locomoção, além de muito feia, é muito penosa, é muito incômoda. Depois, ela é oposta ao meu temperamento, o quanto pode ser. Vocês me conhecem. Andar de passinho, eu?! E apoiado numa bengala… Eu?! Não sou isso!

Depois outras preocupações de saúde. Não falo delas mas penso nelas. E como é esse negócio? Esse braço, de repente, não quebra esse aparelho aqui? Como vou me arranjar?

* “Tudo vocês recebem pelas mãos do João, vindo de mim; o meio é esse, não tem dúvida”

(Dr. Edwaldo Marques: O Grupo diante do sofrimento do senhor.)

É preciso bem reconhecer que o Grupo não ligou a mínima.

(Dr. Edwaldo Marques: Mostrou o sofrimento físico, já que não ligávamos para o sofrimento moral.)

Nada, nada. Não ligaram pelo sofrimento moral e não ligavam pela minha pessoa. Minha pessoa estava cada vez mais em descrédito. Descrédito. É uma coisa que não se pode negar.

Agora, em conseqüência da ação do João sobre os Êremos e depois sobre as Camáldulas, apareceu um movimento novo, especificamente novo nisso. As doutrinas, etc., que eu sempre admiti, ou ensinei, essas doutrinas eles aceitam também, tais e quais. O que é que tem de novo? É uma posição diferente a meu respeito, porque as doutrinas são aquilo mesmo. Vocês me vêem falar com eles e vêem que é constantemente a mesma coisa, não pode haver a menor dúvida. Quer dizer, o que mudou foi a atitude a meu respeito.

Essa atitude a meu respeito resulta do Præsto Sum e dos Êremos. Nesses Êremos eu sou hóspede. É pão-pão, queijo-queijo. Bem, é como eu vejo. Não adianta a gente discutir esses pormenores.

(Sr. Fernando Antúnez: Não se pode fazer uma conversa-discussão, não é nem conversa.)

É, não pode, nem tem vantagem. Vocês estão me perguntando, eu digo o que acho.

(Sr. Fernando Antúnez: Seria negar o fundamento da Vocação, dizer que nem tudo vem do senhor, que o senhor é nossa fonte, etc.)

Não. Pode-se dizer outra coisa. Que tudo isso vocês recebem pelas mãos do João, vindo de mim. Isso não tem dúvida. Mas o meio é esse, também não tem dúvida.

(…)

* Tentação da cúpula do Grupo em relação ao Sr. Dr. Plinio

[Relato do terceiro corte]

Há nisso coisas tristíssimas — comentava ele. Por exemplo, toda tentação pela qual passaram as cúpulas do Grupo, inclusive a de São Paulo, a meu respeito. Era uma série de tentações que os deslocaram do nosso apostolado, de nossas coisas, completamente.

Pega hoje, por exemplo, Plínio Xavier, Eduardo, Luizinho, Adolphinho, Castilho. ­­Não menciono o Paulo, “Zé” Fernando e Arruda porque até dá pena, não é o caso. Mas são pessoas que prestam serviços. Por exemplo, o Castilho presta um serviço inapreciável; mas não estão naquela pujança da coisa do Grupo. Em última análise, por quê? Se eles entrassem nesse fluxo, não entrava a coisa? Entrava, indiscutivelmente, não se pode negar.

Um dos presentes dizia ver mais graças no São Bento e Præsto Sum do que nos camaldulenses. O Sr. Dr. Plinio comentava que nos camaldulenses a graça está em estado de recomposição.

U

Nota: Aqui o Sr. Dr. Plinio afirma que todos temos a Vocação de constituir uma Ordem Religiosa.

ma outra pessoa dizia que a Vocação, enquanto Ordem religiosa, está no São Bento e no Præsto Sum. O Sr. Dr. Plinio disse que não só eles. Que os presentes ali também tinham. Eles –– São Bento e Præsto Sum –– estão em estado de realização e os outros devem entrar em estado de penitência. Aliás, o que é muito bonito na camáldula é a penitência, é um estado de penitência

Aí contou que vai lá aos sábados, eles formam um U em torno do automóvel e os observa. Disse o Sr. Dr. Plinio que eles sabem que estão sendo observados e se deixam observar numa bonomia total. Isso foi copiado.

[Retoma a gravação]

* Nas camáldulas, o progresso é o de quem vem do fundo de um abismo; nos êremos, é o do pássaro que corta os ares

É preciso dizer, deixam-se observar com uma abertura e uma bonomia total. Mas eu noto inclusive os progressos que eles vão fazendo, é uma coisa evidente, mas é um progresso assim que vem do fundo do abismo. Não é o progresso que fazem esses que é o progresso de pássaro que voa no ar. É muito bonito, muito respeitável, mas é uma coisa diferente.

Quer dizer, eu quero muito bem os camaldulenses, vocês vêem bem, por tudo quanto eu digo, como eu estimulo a eles; eu só não vou até aonde não posso, aonde não convém, eu estimulo o quanto eu posso, tudo o mais, o que eu posso. Mas que há uma beleza própria no São Bento e no Præsto Sum, como negar? Isso é coisa evidente.

(Sr. Guerreiro Dantas: Como isso passa para eles e os vai modelando?)

(…)

[Relato do quarto corte]

Um dos presentes dizia que não nota as camáldulas na medula do Grupo, mas que nota São Bento e Præsto Sum na medula do Grupo. O Sr. Dr. Plinio disse:

Note o seguinte: as camáldulas estão na medula do Grupo. Os camaldulenses não estão na medula do Grupo.

Continuava o Sr. Dr. Plinio:

Quer ver um ponto por onde se pega isto bem? O que é que são os Êremos Præsto Sum e São Bento e o que não é Præsto Sum e São Bento?

Eu estava hoje olhando para a cara de um camaldulense que é uma excelente cara e é um excelente camaldulense. É o Loredo. É uma cara que faz gosto de ver. Está bom. Mas aquela graça de São Bento e Præsto Sum não tem. Mais ainda, ele passou pelo São Bento e Præsto Sum e aquilo não pegou. São dois muito bons que passaram pelo São Bento e Præsto Sum e não pegaram: o Loredo e o Lyra. E ali você vê o que fica faltando. Sobretudo no Loredo, isso salta muito aos olhos porque é muito boa pessoa. Camaldulense correto, cumpridor de todos os deveres, etc., etc., trabalhador, eficaz, uma pilha de elogios para o Loredo, eu poria na alegria de minha alma. Está bem, aquilo que você viu no São Bento e Præsto Sum ele não tem.

* Diante da possibilidade de uma desagregação do Grupo após sua morte, o Sr. Dr. Plinio se pergunta o que seria pior: o desconjuntamento ou irem todos juntos para o abismo?

Aqui ele lançou uma hipótese, dizendo:

Lanço aqui uma hipótese que é a seguinte: neste período em que está a Igreja, as pessoas ficam desassistidas do amparo que a Igreja normalmente dá às almas dos fiéis. É mesmo a coisa da doutrina –– vem dois dados aqui: 1º) A “geração nova” é mais sensível à doutrina que as anteriores. 2º) A doutrina se encontra meio no brouhaha. A clave do apoio da doutrina está na confiança que vocês têm em mim.

De tal maneira que se, por exemplo, eu morresse, não era fácil vocês continuarem desenvolvendo a doutrina em coerência com a mesma linha e todos entre si de acordo. E eu chamo de doutrina não propriamente ponto doutrinário, mas uma visão doutrinária da vida, dos acontecimentos, etc., não é fácil que isso florescesse.

Bem, de onde até a possibilidade de um desconjuntamento. E a gente não sabe qual seria o maior perigo: se desconjuntarem ou continuarem juntos. Porque, de repente, isso tudo ia junto para o abismo.

* Auto-suficiência dos membros mais antigos, não querendo tomar em conta a pessoa do Sr. Dr. Plinio

Então, o papel de minha pessoa é muito mais importante nesse ato de Fé do que em condições comuns da Igreja. Ora, isto, a geração de vocês e para trás, até a Pará, não quis ver.

O que se passou com a reunião de opinião pública indica bem isso. Aliás, é preciso dizer que o Rodrigo me pede perdão, com alguma freqüência, do que ele fez aqui. Porque a coisa, no fundo, era a seguinte: “Nós temos as apostilas, os esquemas que o senhor deu. Com base nesses esquemas nós estudamos aquilo e não precisamos do senhor. E, portanto, nos julgamos no direito a um livre-exame de suas técnicas, de seus meios e da utilidade de nossos contatos com o senhor”.

Um dos presentes dizia que isso era uma demência.

O Sr. Dr. Plinio disse:

Meu filho, não me queira mal, é pior do que uma demência; é uma infidelidade. E depois o que estava no ponto era o seguinte: “Se o senhor, portanto, não se ajusta às técnicas que nós queremos etc., nós mandamos o senhor, amavelmente, o senhor vá plantar batatas, porque nós, com a posse de seus esquemas, nós elaboramos o resto”.

Isso indica bem — dizia ele — um modo de me ver completamente diferente daqueles “enjolras”. A pessoa, vocês não tomavam em consideração por nada, a não ser como um professor. Mas vocês, por si sós, demarrariam.

E note o seguinte — continuava ele — o “basta” que Nossa Senhora deu àquilo foi o desastre. E, depois do desastre, eu tive a intenção de recompor a comissão, mas só foi possível fazer uma reunião. Eu vi que aquilo estava tão deteriorado que mais valia a pena refluir para o Êremo de Jasna Gora e…

Não completou.

* Dor do Sr. Dr. Plinio ao ver a aparente inutilidade de seu holocausto

Depois dizia:

Isso que é o terrível do negócio de tal oferecimento: é que, a não olhar para o Præsto Sum e o São Bento, todas as coisas continuaram a correr como se fossem as piores possíveis.

E, durante muito tempo, Præsto Sum e São Bento tomaram ar de fenômeno suburbano dentro do Grupo. Novatinhos que não tinham conseqüência. O lado importante era o desabamento de todos os Êremos formados e o refluxo para Jasna Gora porque eles tinham perdido a vitalidade de se manterem por si.

Um dos presentes dizia que aí, logo depois do desastre, entraram uma série de graças, limpeza de São Bento e Præsto Sum para começar os Êremos São Bento e Præsto Sum II, etc.

O Sr. Dr. Plinio disse:

Mas aí também entra a era dos estrondos, com as agonias que eu, a esse propósito tenho passado.

O São Bento I foi um fracasso piramidal, acabou durante o estrondo.

Aí foi copiado.

[Retoma a gravação]

Acabou durante o estrondo. Quer dizer, portanto, “quae utilitas in sanguine meo?” Não é verdade? Depois uma coisa que me desagradava sem nome: era a indiferença de todos diante da possibilidade de fechamento do Grupo. Todo mundo levava sua vidinha indiferente. Indiferente! Então, qual era o fruto do holocausto que eu tinha querido fazer? Pelo contrário, tudo marcado com os aspectos do castigo.

(Dr. Edwaldo Marques: O conjunto do Êremo de Jasna Gora já nasceu doente.)

Nasceu doente e que continuou a piorar. A camáldula foi o modo de tirar o doente e pôr num clima melhor. Mas foi uma coisa simplesmente atroz.

(…)

[Relato do quinto corte]

Sem falar que um pouco antes do desastre, uma visita que eu fiz ao Êremo de Elias, em que fiz uma exposição sobre Elias Profeta, etc., etc., eu tinha a impressão de que se eu tivesse com as estátuas do Aleijadinho, dava mais resultado do que aquilo. É uma coisa duríssima, terribilíssima, indiscutivelmente.

N

Queixas do Gregório contra Dr. Luizinho. O Sr. Dr. Plinio se pergunta qual deles é o pior.

esse período todo — dizia ele — o assunto da intercessão de Mamãe também estava longe. Apareceu depois e até bem tempo depois da morte dela. Ela morreu no fim da crise de diabetes, em 68. O desastre foi em 75. Portanto, sete anos depois dela morrer, não havia nada. Isso apareceu depois do desastre. Havia um começo, mas muito tímido, incerto, quer dizer, foi uma disposição cruciante dos acontecimentos.

Lembro-me — dizia ele — terminada a reunião do MNF, antes um pouco de haver a reunião de todos em Jasna Gora, ou melhor, pouco antes da camáldula, já no fim de Jasna Gora, portanto, terminada a reunião do MNF, o Gregório veio falar comigo e analisou exclusivamente os lapsos do Luizinho como quidam.

Vocês sabem quanto eu quero o Luizinho. Era a crítica mais fundada que se possa imaginar, e ele julgava que estava trazendo ao meu conhecimento um quadro do Luizinho que eu não tinha, porque na cabeça dele estava o seguinte: eu não estando lá presente, eu não podia ver. E, não podendo ver, era por isso que eu mantinha o Luizinho como quidam. Mas que seria inteiramente certo que, se eu visse como era o Luizinho, que eu não o manteria como quidam. E depois concluiu: “O senhor pode manter o Dr. Luizinho como quidam, se o senhor quiser mas o senhor saiba que o êremo está prestes a ruir e cairá no chão porque os braços que o senhor pôs para sustentá-lo não tiveram força para isso”.

Eu olhei para ele e pensei, dizia o Sr. Dr. Plinio: “O que você está querendo fazer, está oferecendo os seus braços?” É a pergunta que vem aos lábios.

Agora, se o Luizinho levava ainda dois meses no cargo, eu não sei se o Gregório levava dois dias. Porque aquilo prontamente desagregava. Seria um tal escândalo pôr ali o Gregório que eu tenho a impressão que os eremitas saíam para o olho da rua de uma vez, não é dizer que saíam do Êremo para a vida do Grupo comum, não. Saíam para a rua.

B

O Luizinho ficou camaldulense e continuou a levar aquela vida de abade e marquês do Ancien Régime.

em, aparece a graça da camáldula, o Luizinho ficou camaldulense logo no primeiro jato e continuou a levar aquela vida de abade e marquês do Ancien Régime, contra o qual São Bernardo se insurgia, com um desembaraço fenomenal! Bem, até que tivesse a graça de entrar para a camáldula e pusesse a camáldula sob a direção do João. Aí foi a questão.

Agora, tudo isso não apresentava a figura de que meus padecimentos tinham comprado a salvação do Grupo.

Um dos presentes dizia: “Havia coisas piores do que isso ainda, aqui, lá e acolá, e com isso todo o Grupo foi para frente. Ou seja, só o sangue do senhor que valeu e mais nada”.

Ai o Sr. Dr. Plinio não quis entrar no assunto, “não vamos girar em torno dessas coisas” etc., etc…

Aí entra o aparte do Dr. Edwaldo que foi copiado.

[Retoma a gravação]

* O aparecimento dos CCEE foi um prodígio extraordinário

(Dr. Edwaldo Marques: Agora, mesmo sem São Bento e Præsto Sum, antigamente, ir elevando o mito, só podia partir de um fundamento.)

Bom, fundamento.

(Sr. Poli: De tempos para cá se passou um meridiano. Por exemplo, aquelas cerimônias no Præsto Sum, não é possível no mundo fazerem uma coisa assim.)

É isso, é. Aquilo não é uma coisa que não se encontra, é uma coisa que não é possível.

(Sr. Poli: O senhor fez porque ninguém mais consegue fazer aquilo.)

Bem, eu fiz, explicação muito piedosa. Não vamos nos deter.

(Sr. Poli: Outro aspecto é a reunião de CCEE, não há no mundo quem faça aquilo, apesar de ser de menor quilate que São Bento e Præsto Sum.)

Depois, meu filho, é de menor quilate em termos, porque a TFP que viveu bloqueada dentro do gelo esse tempo inteiro, abrir-se em torno dela o que está se abrindo, é uma coisa que não tem palavra! Quer dizer, é menor quilate, eu entendo bem em que sentido, mas que é um prodígio extraordinário, é. É um prodígio extraordinário!

(Dr. Edwaldo Marques: Considerando-se os dias de hoje…)

Dias de hoje, cidade de hoje, Itaquera de hoje.

(Sr. Poli: O senhor está impondo que o mundo do demônio venha beijar os pés do senhor.)

Ou morder. Aí o curso dessas coisas todas a gente não sabe o que dizer.

* O singular caminho das ajudas e desajudas nas vias do Sr. Dr. Plinio – Exemplos: aparelho ortopédico e “affaire Mutuca”

E

Esperanças, sofrimentos com o aparelho ortopédico

u vou baixar muito de nível. Mas, por exemplo, eu já comentei com você, mas é uma coisa que a gente não sabe o que dizer, essa história de passar sete, oito anos de cadeira de rodas sem que aparecesse um ortopedista capaz de dizer que havia um aparelho que me possibilitaria andar. E consultando médicos que de longe tinham ciência maior do que o necessário para falar desse aparelho. Os melhores médicos, sumidades, com pareceres por escrito, etc., etc., era isso.

Depois essa coisa incrível, aparece um aparelho assim, eu começo a usar, dias depois o aparelho se torna inútil. Você sabe bem que é um aparelho que não tem finalidade corretiva. É como esse aqui, não tem finalidade de corrigir esta falha incorrigível que há aqui. Ele tem finalidade de ajudar. É ou não é verdade que esse aparelho desse pé esquerdo não tinha finalidade corretiva?

De repente, como quê, corrige! Agora, então é uma coisa… Um mediquinho de Oviedo, professor de uma universidade de Oviedo que não sei o que vale essa universidade, ele vai, receita isso com esta facilidade. Eu creio que você estava lá quando da consulta, não? Ele tomou isso como um fait divers, como um outro recomendaria uma bengala no caso, ele recomendou o aparelho que eu tinha aqui.

Agora, de repente, esse aparelho se torna inútil! E depois de uso pequeno! Aqui ainda houve outra coisa: é que esse aparelho, como foi feito, era tal que eu não podia sentar-me com ele. Eu passei no máximo três ou quatro horas sentado com ele, fiquei escalavrado. Não era possível. Eu desconfio que entrou uma certa malícia no modo de fabricar o aparelho. Mas, afinal de contas, foi isso. Eu tiro por isto o aparelho.

Você veja o seguinte: parecia que, aparecendo o aparelho, era uma ajuda. Veja a desajuda, o aparelho não serve. Eu ando com ele, é verdade, escapo da cadeira de rodas, mas ele tem exigências que não permitem que eu o use.

Bem, começo a andar sem o aparelho. Eu nunca teria experimentado andar sem o aparelho se não fosse o fato de não poder usá-lo. Mas você vê que é um grande favor — não estou dizendo que é um milagre, mas é um grande favor — precedido de uma coisa que a gente poderia chamar, se a expressão fosse correta, um fenomenal azar e uma desajuda colossal! No total, uma ajuda.

Bem, muda. O modo de eu utilizar essa perna, a la longue, tornava inutilizável essa, por certas circunstâncias. Então aparece a necessidade de usar um aparelho aqui. Começo usar, graças a Nossa Senhora parece que estou me habituando.

(Dr. Edwaldo Marques: E a rigor o senhor não poderia andar, porque, depois de sete anos sem movimentar, qualquer um fica com uma atrofia que não dá para andar, a pessoa não tem condições.)

Só hoje que me dou conta disso. Antigamente eu não reconhecia porque… eu não tenho atrofia, o que estão querendo? Mas hoje me dou conta que é uma coisa extraordinária.

Mas não sei se percebem esse emaranhado de desajudas fenomenais quando, de repente, pinga uma ajuda que ninguém imaginava. Há um caminho singularíssimo dentro disso.

(Sr. Guerreiro Dantas: Para quem não tem virtude ficaria alucinado com uma coisa dessas.)

É uma coisa fantástica.

(Sr. Poli: É propriamente a virtude da fortaleza.)

É a graça de Genazzano. Mas é desconcertante.

(Sr. Poli: Mas é uma grandeza, que não somos dignos de estar aqui sentados diante do senhor. A História inteira vai ficar pasma disso, como estamos aqui.)

A gente poderia, por razões destas, fenomenais…

[Vira a fita]

Engraçado é que da graça de Genazzano até o desastre foi mais reconfortante do que antes da graça de Genazzano. A partir do desastre é isso.

Você tome, por exemplo, o caso do Mutuca, no primeiro momento, mas no primeiro momento um mês ou dois, parecia…

(…)

[Relato do sexto corte]

No sexto corte:

O

Affaire Mutuca

caso do Mutuca, por exemplo, levei cinco horas falando na cátedra da sala do Reino de Maria, e enquanto falava, pensava: “Essa cátedra, essa sala foram feitas, em última análise, para desfechar nisso: eu como um réu, sentado aqui, dando contas de mim mesmo e a figura majestosa do Fedeli como acusador de dedo apontado em cima de mim”.

E não houve uma pessoa que dissesse: “Mas Sr. Dr. Plinio, onde é que nós estamos?!” Não.

É uma coisa fantástica, mas eu digo para mostrar como a diferença de visão dos rapazes de São Bento e Præsto Sum e nossa é diferente.

U

Se não fossem restos magníficos de Thaus, dir-se-ia que o Grupo é constituído pelos Êremos e que o resto é periferia

m dos presentes dizia: “Eu acho que o Grupo é o São Bento e o Præsto Sum. O resto é periferia.”

O Sr. Dr. Plinio disse:

Eu só não confirmo porque vejo restos de Thau magníficos e espero que Nossa Senhora revitalize; do contrário, era isso. Eu tenho muita esperança de que Nossa Senhora revitalize, mas a realidade é essa. Se ficar no que está, a realidade é essa.

Tomem, por exemplo, o CV [Celso Vidigal] É verdade que ele é do âmago da TFP porque é do Conselho Nacional e que o Boldrini é da periferia da TFP porque é um “enjolras”? A que realidade corresponde isso?! Não é!

E continuou:

Já que estamos nisso, apenas de passagem, você fala do Boldrini, mas o miserável do Fedeli andou espalhando que o Boldrini estava em comunicação secreta com ele e que estava se preparando para apostatar de um momento para o outro. Basta olhar para ver que não é. Mas, mente, o que ele quiser, não tem problema.

[Retoma a gravação]

até o João coletar miraculosamente aqueles exemplos que ele tem que são fantásticos, até o Átila fazer aquele serviço muito bom que ele fez, é uma coisa… passei uns dois meses, mais ou menos, numa angústia do outro mundo! A qualquer momento podia-nos cair a coisa.

E depois…

[Infelizmente, não há relato dos dois últimos cortes]

(…)

uma coisa horrorosa, simplesmente horrorosa, porque aí… é que o seguinte…

(…)

Achei que foi muito produtiva a conversa. Pudemos nos abrir muito, falar muito, etc., etc., e valeu muito a pena.

Agora, era nosso costume rezarmos a Oração da Restauração diante da imagem de Nossa Senhora. Aqui está uma imagenzinha que não é a grande, mas tem a relíquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso, você podia pegar, trazer aqui.

(Sr. Guerreiro Dantas: Sinto o mesmo que o Coronel disse. Eu venho por aqui porque, se não nos aproximarmos do senhor, todas as coisas ficam tão rateadas que… Se houvesse muita fidelidade, quem sabe não fosse tão necessário.)

Não, não. A fidelidade sempre leva a aproximar-se mais.

(Sr. Guerreiro Dantas: Para a necessidade…)

Eu vejo bem que é.

(Sr. Guerreiro Dantas: Estar aqui próximo, para mim é medular.)

É fora de dúvida que é. Eu tenho certeza que eu cometeria um pecado grave se eu, de repente, cortasse essas reuniões arbitrariamente.

Há momentos, minha Mãe…”

*_*_*_*_*

1 Talvez se refira ao Sr. Julio Ubellohde, mas pelos comentários que seguem mais parece ser o Julio Hurtado.

2 Refere-se à Senhora Dona Lucilia, no Quadrinho.

Alagoas, 1º andar