Conversa
de Sábado à Noite (Êremo do Praesto Sum) –
8/10/1983 – Sábado [AC VI - 83/10.10] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Êremo do Praesto Sum) — 8/10/1983 — Sábado [AC VI - 83/10.10]
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Muita gente acha que o Reino de Maria vai ser um analgésico para as dores da vida * Uma idéia anticatólico que não se pode aceitar: a vida bem jogada pode trazer um estado de ausência de infelicidade, de presença de muitos deleites ou, pelo menos, de uma forte prevalência de felicidade sobre a infelicidade * Em conseqüência do pecado original, o homem tem uma insatisfação radical e grave, ainda que não tenha nada que a aborreça * O sofrimento é um imposto que Deus cobra de todos e do qual ninguém consegue fugir * A dor o homem tem que sofrer forçosamente, não adianta fugir de modo desesperado — O melhor meio de a vencer é estar disposto a enfrentá-la com alegria * O homem só pensa seriamente quando sofre * É o sofrimento que leva o homem para junto de Nossa Senhora * Os homens que valem verdadeiramente são aqueles que chegam ao auge da alegria quando conseguem transpor um obstáculo que tinham pela frente * Uma das maiores forças que uma pessoa necessita ter na vida é renunciar a estar dentro do consenso geral * “É covarde o homem que tem razões para sofrer e que não olha de frente essas razões” — Um exemplo ilustrativo de como nosso Fundador combateu esse defeito * O olhar de frente o sacrifício não basta; é preciso olhar com as agravantes * A especial devoção do Sr. Dr. Plinio à Agonia de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras * O dever de se preparar para o sofrimento, pedindo perdão pela próprias culpas, e prevendo até o fim as agravantes, sem exagerá-las, do que se tem de enfrentar
* Muita gente acha que o Reino de Maria vai ser um analgésico para as dores da vida
Qual é a pergunta?
(Sr. João Clá: Dor e sofrimento no Reino de Maria, como vai ser?)
Como todo mundo que nos faz sofrer deixa de existir, não vai ter sofrimento… É como um analgésico. Há muita gente que toma o Reino de Maria como um analgésico.
Está doendo, toma um analgésico, pára a dor. Está acabado. E tocar a vida contente, não tem mais problema. É essa a questão.
Era no meu tempo de moço — se falou dele pouco atrás —, é o caso de perguntar se continua a ser ou não, se…
(…)
* Uma idéia anticatólica que não se pode aceitar: a vida bem jogada pode trazer um estado de ausência de infelicidade, de presença de muitos deleites ou, pelo menos, de uma forte prevalência de felicidade sobre a infelicidade
… uma espécie de teoria apresentada, não era uma teoria, mas era uma visão primária da vida, que continha uma teoria no fundo. Teoria seguinte: cada um considerava a sua própria vida e dizia: “Eu na minha vida seria feliz… sou alegre porque tenho tais coisas assim, e alegra-me de não ter tais outros fatores negativos assim. Agora, me dói faltarem-me certas coisas assim. Ou me dói ter certas coisas que era melhor que eu não tivesse. Então, se eu pudesse acrescentar à minha vida as coisas que me faltam, tirar dela os defeitos que eu queria pôr em ordem, se eu pudesse fazer isso, eu teria uma vida sem dor. Isso eu vejo que é comigo, e é o que cada um considera a respeito da própria vida. Ora, vamos dizer que tal circunstância assim me faça sofrer. Vamos dizer que eu tenho um problema de estômago que me faz sofrer. Então, cessa a dor de estômago eu paro de sofrer.
“Ora, é possível que um homem seja tal, que ele não tenha nada que lhe faça sofrer, e tenha tudo que dê alegria de viver. Se isso se dá com ele, então, em conseqüência, ele é um homem inteiramente feliz. Logo, o homem inteiramente feliz é possível. E esse homem inteiramente feliz eu poderei vir a ser na vida se eu tirar algumas coisas. Ou se não um homem inteiramente feliz, [pelo menos] preponderantemente feliz. Muito mais feliz do que sofredor.
“Portanto, vale a pena fazer uma batalha para ver se eu consigo na vida — à golpe de força e a golpe de jeitinho — ser, pelo menos, preponderantemente feliz. Se não for preponderantemente feliz, inteiramente feliz. Eu não vejo por que nenhum homem, tendo eles dores de estômago e muito deles sarando, eu não posso sarar. A dor de estômago é a razão de eu sofrer na vida, cura a dor de estômago e está acabado. Então, eu posso ser um homem inteiramente feliz.
“Dinheiro! Eu não tenho dinheiro, queria ter dinheiro, não tenho dinheiro. A falta de dinheiro me torna infeliz, eu vou casar com uma mulher rica que me dá dinheiro, está acabado! Bom, mas não é a mulher que eu queria, etc… Bom, mas alguma coisa a gente tem que agüentar. Agüenta a mulher! É muito melhor do que agüentar a pobreza. Com um pouco do…
(…)
“… mais ou menos, uns ou outros fazem”.
Então, a ideia é que a vida bem jogada, pode trazer esse estado de ausência de infelicidade, de presença de muitos deleites ou, pelo menos, de uma forte prevalência de felicidade sobre a infelicidade. Isso é a idéia instintiva que é espalhada por todo mundo.
Essa idéia é uma idéia anticatólica e que não se pode aceitar.
* Em conseqüência do pecado original, o homem tem uma insatisfação radical e grave, ainda que não tenha nada que a aborreça
Qual é a idéia católica?
E a seguinte: é que [em] conseqüência do pecado original o homem tem uma insatisfação radical e grave. Grave! Insisto na palavra “grave”. De maneira que ele é feito de tal maneira, que se ele for libertado de tudo quanto ele tem que pesa sobre ele, e lhe for dado tudo quanto não tem , e cuja carência ele sente, ele em pouco tempo — por um defeito dele — continuará a se sentir mal e será ainda…
Seira mais ou menos a ilusão do doente que está deitado na cama e que muda toda hora de posição, com a ilusão de que mudando de posição ele encontra bem‑estar. Na realidade o mal‑estar está nele e não está na cama. De maneira que, se ele mudar para outra cama, terá mal‑estar de todo jeito, porque ele está doente. E a cama melhor do mundo não o cura da doença dele. Não lhe faz passar a febre, não lhe faz passar a dor de cabeça, nada! A coisa está nele, não está na cama.
As condições de vida são como uma cama para nós. A doença está em nós. Essa doença chama Pecado Original! E essa doença, se o indivíduo não tiver nada que o aborreça, ele… [inaudível]… aborrecimento, mas ele vai ser infeliz. Essa é a tese central que nós temos que tomar em consideração. É tão importante tomar isso em consideração, que de tal maneira não nos explicam isso, que eu pergunto se está claro?
(Sr. João Clá: Isso é fundamental!)
Eu mesmo tive muitas ilusões, quando era meninote, eu julgava que era possível. E não é. A gente fica mais velho um pouco e se convence disso.
* O sofrimento é um imposto que Deus cobra de todos e do qual ninguém consegue fugir
Vamos dizer, por exemplo: a Revolução me fez sofrer muito. Está bem. Mas se eu não sofresse muito com a Revolução, outras coisas também me fariam sofrer muito. Eu teria — é verdade — menos luta, com menos luta eu teria passado por menos dores. Os senhores sabem qual é a dor que eu iria ter? O sofrimento do homem inútil que não sofre! Mas não se escapa disso! É um imposto que Deus cobra de todos e do qual a gente não foge.
Os senhores dirão: “Mas, então, Dr. Plinio, não vale a pena a gente fazer nada para melhorar as condições?”.
Numa revistazinha francesa, eu vi outro dia, dois que conversavam — não me lembro bem do diálogo, mas era mais ou menos assim —, e um tinha perdido um filho. Uma coisa dessas. O amigo dizia para ele:
— Você perdeu seu filho, que coisa triste, etc…
Depois dizia:
— O que é que adianta ter esse automóvel esplêndido… quando perdeu o filho?
O dono do automóvel respondeu:
— É verdade, é terrível ter perdido o meu filho. Mas eu ainda prefiro chorá-lo nesse automóvel do que naquele que está passando alí.
Quer dizer, a gente pode atenuar um pouco as piores dores. Mas mesmo isso é acidental. Porque se a gente cercar de todas as atenuações que tiver, contudo, a dor cai em cima de nós de novo.
Bom, portanto, quando São Bernardo definiu essa vida como um “vale de lágrimas”, tinha razão na força da palavra. O que é um vale? É uma depressão profunda, ladeada de montes por todos os lados. Um vale de lágrimas é um ponto para onde converge as águas de todas as montanhas. A vida é o vale. De todas as infelicidade da vida correm lágrimas… Internas ou externas, o homem cria. Mas porque é concebido no pecado original ele é… ele fabrica a dor, por si mesmo. De maneira que o homem tem que sofrer.
* A dor o homem tem que sofrer forçosamente, não adianta fugir de modo desesperado — O melhor meio de a vencer é estar disposto a enfrentá-la com alegria
Essa dor que o homem sofre forçosamente, não adianta ele fugir de modo desesperado, por exemplo, ter o pânico da doença. Então, ele foge para os departamentos de saúde, os mais… [inaudível]… possíveis.
Alguém me falava outro dia de uma pessoa que conversava com um X do Grupo. Essa pessoa era um homem talvez de uns 45 anos que dizia: “Eu estou vindo de um cardiologista. Cardiologista fez exame em mim, etc., e depois de tais exercícios que eu fiz, eu já tinha um coração bom, estou agora com um coração ideal para minha idade…
(…)
… eu nunca tinha estado num médico de coração. Ele foi ao médico, com certeza, para ver se tinha alguma coisa e o médico deve ter dito a ele: “O coração é normal, mas estaria mais normal ainda, estaria nos bordos de uma perfeição desconcertante, se você fizesse tal exercício…” Então, lá vai fazer tal exercício. Foge para dentro de uma coisa dessas. Agarra-o de repente um desastre, agarra-o uma infecção, agarra-o um câncer, agarra-o um desgosto que lhe faz perder o gosto da saúde, qualquer coisa o pega em determinado momento e pan! Ele não escapa da mão de Deus!
Agora, diante disso que tem que ser, há duas saídas: uma saída é a pessoa dizer. “Bom, se tem que ser, eu enfrento, estou disposto, e caminho alegre para esse tormento que eu tenho que sofrer”. Um outro diz: “Eu não me resigno e vou choramingar”.
Qual dos dois sofre mais? Dois soldados estão passando por uma guerra. Um vai animado! Tanto pode morrer, quanto pode ser que preste ao país grande serviço, pode ser que se torne um herói, pode ser condecorado, pode ser, poder… bem. Então, vai para a guerra alegre. O outro: “O saudoso lar! Ó tristeza da integridade física! Pobres braços, pobres pernas, pobre corpo, que de repente uma bala mortífera te atinge. Pobre crânio! Caixa que encerra minha inteligência… Uma bala mortífera do inimigo pode me esvaziar o crânio, e o miolo escorrer por aí… E eu sou um homem morto, e minha inteligência onde está?”.
A inteligência está na alma, não está no crânio, a alma anima o corpo inteiro. Está bem. Mas vamos dizer que… e vai para o combate choramingando. Qual dos dois tem mais possibilidades de ser feliz? Qual dos dois tem mais possibilidade de, sendo ferido, ficar tão abatido que não se recompõe? Qual é o mais alegre e que vive melhor essa vida? O que vai para dor satisfeito, ou que fica tremendo e chorando porque a dor vem?
* O homem só pensa seriamente quando sofre
Mais ainda: o indivíduo deve compreender o seguinte: quem nunca sofreu, nunca [pensou]. Há uma diferença solar entre estudar e pensar. Estudar, a gente abre o livro e estuda. Se não é burro compreende o que diz o livro. Vai lá toma suas notas, e fica entendendo o que diz o livro, não há problema. Pensar é uma coisa completamente diferente. Pensar é tomar o que se estudou, tomar o que não se estudou, mas que se aprende ao longo da vida, e fazer aplicação disso à minha vida… [inaudível]… pensando a respeito daquilo. Só o que faz o homem pensar é a dor.
O homem só pensa seriamente quando aquilo lhe dói. Se aquilo não lhe dói, não pensa. Eu vejo comigo. Eu tomei um interesse prodigioso pelos assuntos sócio-econômicos. Sociais. Assuntos “RCR” no seu conjunto. Mas qual foi o ponto de partida disso? É a minha dor vendo o mundo revolucionário, minha dor sentindo um impacto do mundo revolucionário contra mim, e compreendendo que não poderia viver a não ser lutando contra ele! Daí me veio a idéia: “Tenho que pensar nisso”. Estou metido nisso, tenho que pensar nisso. Acabei me interessando. Mas eu não teria pensado, teria feito uns estudinhos numa Faculdade qualquer, para ser aprovado em qualquer coisa… essas coisinhas assim, ploc- ploc, eu teria feito.
Mas pensar, eu só pensei sobre aquilo que me fez sofrer. Ou sobre ao que se refere ao que eu pensei quando… [inaudível]… por causa do sofrimento. Mas o ponto do demarrar do… [inaudível]… foi o sofrimento.
* É o sofrimento que leva o homem para junto de Nossa Senhora
Resultado é uma outra coisa também: em noventa por cento dos casos, reza quem sofre. E quem não sofre não reza. É o sofrimento que leva o homem para junto de Nossa Senhora. Algo lhe dói, falta-lhe algo, ele pede para ser libertado daquilo. E o sofrimento me faz aproximar de Nossa Senhora, passar reverentemente as mãos por junto dos pés d’Ela, osculá-lo, dizer: “Minha Mãe, tende pena de mim, Mater misericordiae, vita, dulcedo…” porque sofreu. Se não tivesse sofrido… toca a vida pra frente.
De maneira que o pecado original é tal, que a gente se pergunta: a que grau de… [inaudível]… e a que misérias teria caído o homem, se o homem não pensasse.
* Os homens que valem verdadeiramente são aqueles que chegam ao auge da alegria quando conseguem transpor um obstáculo que tinham pela frente
De outro lado também, o seguinte é verdade: a alegria que a vida para o homem… vamos dizer que dentro das alegrias da vida há duas espécies de homens: há uns homens que sentem o auge da alegria quando conseguem ter algo que queriam. Outros homens chegam ao auge da alegria, quando eles conseguem transpor um obstáculo que eles tinham. Ele transpõe adequadamente e pfut! Graças a Deus aquilo está para trás. Missão cumprida! Consciência tranqüila, alegria! O segundos valem muito mais do que os primeiros. Os primeiros são os perpétuos bobos-alegres. São pensando: “como fosse… eu ganhasse na loteria, não sei o quê, não sei o quê…” Pensando em coisas que quando eles tiverem não lhes adianta de nada. A idéia do obstáculo vencido, a gente pode dizer: “Isso está incorporado à minha vida. Tal obstáculo que eu tinha diante de mim, eu venci é está no chão. Aconteça o que acontecer de futuro, isso está feito!”.
Mas isso supõe uma resolução para a dor, uma resolução para o sofrimento, digamos tudo numa palavra só: um a resolução para a luta, que é uma coisa tremenda!
* Uma das maiores forças que uma pessoa necessita ter na vida é renunciar a estar dentro do consenso geral
Eu queria insistir junto aos senhores, sobre um ponto a respeito do qual quase não se fala e esse ponto é capital. É a dor do estar quebrando com o consenso geral. Creio que foi na Reunião de Recortes…
(Sr. –: Foi!)
Uma pessoa estando no consenso geral, se sente feliz. A pessoa estando fora do consenso geral, está na natureza humana, que a pessoa se sinta quebrada. O homem é naturalmente sociável e, por causa disso, ele tem a tendência e uma certa necessidade de pensar como os outros.
E ele renunciar a essa idéia de pensar como os outros, e pensar como si próprio, por consciência, ainda que os outros pensem o contrário, ele precisa para isso de uma das maiores forças que ele deve ter na vida. E eu tenho visto gente dizer: “Eu não me incomodo nem um pouco do que falem de mim. Não me incomodo nem um pouco com a diminuição em que o mundo quer pôr o verdadeiro católico”. Ele pode dizer… [inaudível]… não me interessa.
Eu fico olhando e com vontade de dizer: “Muito bem! Você é um anjo e não um homem!”. Porque o homem se importa. Está na sua natureza. Aliás, está na natureza do anjo. Um anjo que não tivesse consciência de seus… [inaudível]… ou ia ele para o Inferno ou ia os outros. E o proelium magnum que houve no Céu, e São Miguel Arcanjo com Satanás, etc., em alguma medida, subsidiariamente, secundariamente é isso. Eram diferentes, não havia mais consciência, não era possível. Alguém tem que sair. Saiu quem devia sair!
Para a convocação de São Miguel, para o… [inaudível]… de São Miguel, ele convocou os anjos fieis. Quer dizer, não se pode agüentar o convívio fora do consenso. É difícil, e é difícil até à distância. Embora os senhores vivam entre si, e vivam nessa nau de salvação que são dois Êremos, São Bento e Praesto Sum, embora a Providência lhes tenha dado isso, para ver que aí fora ninguém tem consenso conosco, para os senhores é pesado. E é preciso não fechar os olhos para isso.
(…)
… porque naturalmente pesa. Deve pesar. Não está vendo que a… [inaudível]… não pensa como você? Isso não lhe diz nada? Noventa e nove por cento da humanidade não pensa como você, você está alheio a eles, isso não lhe diz nada? Tem que dizer. Se todos se convertessem, você não ficava alegre? Então, o fato de não estarem convertidos deve deixá-lo triste! Ou você é um bobo-alegre! Porque se você tivesse a conversão deles ficaria alegre, e eles não estando convertidos você não fica triste? Quem é você? Que lógica tem na sua cabeça? Você tem cabeça? Ou uma espécie de estante onde tem olhos, ouvidos, nariz… Isso tem, mas aí para trás não sei o que tem?!
Não tem propósito! Não se pode escapar disso. Por exemplo, eu ficaria contentíssimo se no Reino de Maria toda a humanidade se converteu. Contentíssimo primeiro pela glória de Deus e pela glória de Nossa Senhora, não tem dúvida. Mas também muito contente, porque afinal vou passar a ser um peixe dentro d’água. Nós atualmente somos peixes fora d’água. Peixes fora d’água se contorce e pula. É desagradável. E é preciso suportar isso. Se é, mas é um preço, porque eu quero acabar com… [inaudível].
E porque eu não quero trair a Deus, eu não quero trair a Nossa Senhora, quero ser fiel a Eles de todo jeito, suporto. Mas é uma condição desagradável de suportar. E as pessoas que se metem na cabeça que elas não sofrem com isso, apenas fecham os olhos para o sofrimento que vem. O resultado é que sofrem na primeira ocasião em que elas estão num contexto, elas se habituam dentro do contexto, porque não teve coragem de olhar a coisa de frente. Eu continuo claro ou não?
E por causa disso, a pessoa precisa ter uma resolução muito forte, muito grande, de ver de frente tudo aquilo que poderia faze-la sofrer, e que faz com que ela não sofra.
* “É covarde o homem que tem razões para sofrer e que não olha de frente essas razões” — Um exemplo ilustrativo de como nosso Fundador combateu esse defeito
É covarde o homem que tem razões para sofrer e que não olha de frente essas razões. Tanto mais que há uma outra coisa: acontece que quando o indivíduo não quer ver a verdade, lhes acontece as coisas mais desagradáveis que há.
Um fatinho… eu me lembro de um fato que é mais ou menos assim: eu deitado, com uma veneziana, um pau um pouco aberto demais, porque estava projetada uma luz importuna sobre a cama onde eu estava deitado. E eu tinha duas soluções: a luz está me incomodando, me levantava e punha um tampão qualquer naquele negócio — eu não estava em casa, estava num lugar qualquer —, uns jornais, depois levantava e tirava… [inaudível]… levantava e iria tampar aquela coisa. Ou pelo contrário, não me levantava, e eu teria o gosto de não interromper meu sono. Mas aquela luz solar, como um dedo, estaria me arranhando as pálpebras que eu no momento não teria vontade.
O que eu deveria fazer contra essa garra do sol que combate contra meu sono? Eu deveria levantar-me e tampar, ou ir tentando… cobria de cá, travesseiro, etc.? Confesso para minha vergonha, que eu tentei a segunda pista. Mas não houve jeito. Pensei: “Ou eu tomo coragem, levanto e tampo aquela porcaria, ou eu não vou dormir bem, e não aproveito. Eu vou ter uma manhã pantanosa, entre sono e acordado, a toda hora uma verdade, um sobressalto que me entra veneziana adentro e que me arranha”.
Pulei da cama! Fui, tampei, voltei para cama e… Depois eu acordei. Eu acordei felicitando-me de ter tido a coragem de tampar. E isso se associou com o fato de que havia uma coisa que eu não queria ver, e que me entrava olhos adentro em minha vida. Eu pensei: “Isso é como aquele sol. Ou eu faço… é melhor eu chegar lá e ver direito o que é, depois eu descanso… é assim! Não tem remédio. Eu tenho que agüentar, é isso! Habituá-se a isso. Ou eu faço isso, ou se não quiser ver isso, vira e mexe essa verdade me volta ao espírito e me tira o sossego. Eu ainda prefiro dor com sossego, do que desassossego sem dor. Por pior dor [que seja] essa fresta aberta, por onde a verdade a respeito de mim mesmo me persegue, melhor é ver de frente”.
Essa experienciazinha de manhã com o sol me habituou a tomar uma resolução varonil: olhar de frente.
* O olhar de frente o sacrifício não basta; é preciso olhar com as agravantes
Dentro de algum tempo eu verifiquei que não bastava. Porque o olhar de frente não se olha tudo. Era preciso olhar com as agravantes! Porque quando a gente vê assim e não procura as agravantes, não encontra. Quem não procura agravante não encontra.
E nós temos uma bolsa para ocultar as agravantes aos nossos olhos, que é uma coisa pavorosa! Então, não! Apareceu uma coisa diante de meus olhos, se houver possibilidade, na linha daquilo, eu devo procurar desde logo a culpa inteira, com todas as agravantes, e só sossegar quando eu a vi por inteiro. Se não for assim, eu não sou capaz de viver verdadeiramente. Mas também a tranqüilidade… Vi tudo! foi horrível! Depois disso sossego! Eu prefiro sossegar na dor, do que ter agitação na não dor.
Isso tudo dá uma coragem de sofrer. Porque a pessoa se atira por cima do sofrimento. Mas é muito melhor um sofrimento rápido por cima do qual a gente se atira e depois acostuma, do que o sofrimento que a gente resolve não tomar. Mas vale a pena olhar de frente e acostumar. Porque acostumado, depois a gente vive. Se não acostumar… Então, pegar as coisas todas e…
Eu me lembro, por exemplo, quando eu comecei a perceber qual era a importância da vantagem que havia no contexto em que eu vivia, de uma pessoa engraçada e que conta casos engraçados…
(…)
“Agora vou olhar para mim. Eu sou capaz de contar? Não sou. Cômico eu não sou, graças a Deus. Ainda que eu quisesse ser eu não seria. Não há em mim uma gota de comicidade! E eu, se eu quiser fazer uma graça, ninguém acha graça. Olhar de frente, isso é uma faixa que está afastada de minha vida!”.
Tive companheiros que levaram cinco anos ou mais para se convencer que não tinham graça. Eu vi que aprendiam piadas, procuravam contar para os outros, os outros não davam risadas. Na mesma ocasião eles contavam para um terceiro. O terceiro também não ria, ou ria de um jeito amável, pífio, não gostava. Depois riam deles pelas costas: “Olha lá, o sem gração!”. Não tinha remédio. O sujeito acabava ouvindo uma coisa dessas, ficava machucado. Não é melhor pular em cima da ponta da faca, um ferro qualquer… “Eu sou sem graça! Acabou-se! Vou remediar como puder, se puder! Mas é fato consumado”. Não é melhor?
Quando a gente tem o hábito de pular por cima da dor, o que acontece? É que no fundo aí nasce a alegria! A gente tem na alma a limpeza e a verdade, e sustos… uma das piores coisas que há nessa vida é tomar susto. Os sustos desaparecem. É um modo de sofrer. Não sei, meus caros, se eu fui claro?
(Sr. –: Claríssimo!)
* A especial devoção do Sr. Dr. Plinio à Agonia de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras
Dá para um pequeno exame de consciência: minha conduta durante o dia diante da Cruz e do sofrimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os senhores vejam no exemplo d’Ele. É uma das razões pela qual eu tenho uma especial devoção à Agonia d’Ele no Horto. Colocado no Horto das Oliveiras, ainda ninguém O estava prendendo, ninguém estava injuriando. Ele não caberia ter tentado dormir, como fizeram os Apóstolos? Pelo contrário, Ele se preparou, preparou Sua Humanidade santíssima para a dor que viria. Vejam bem: Ele previu tudo que aconteceria.
Talvez, não sei, a divindade d’Ele teria revelado à humanidade d’Ele tudo que aconteceria. Talvez Ele na Sua humanidade teria pedido isso a Deus: “Revelai-me tudo quanto acontecerá para Eu me preparar”. E sua oração como sempre foi atendida, e lhe foi revelado. “…et coepit pavere et taedere”. Claro! Ele pediu para ver tudo! Fez bem de pedir. Por quê? Porque Ele preparou. Preparou de que maneira? Ele fez uma oração: “Meu Pai, se for possível afaste de Mim esse cálice, mas faça-se a Vossa vontade e não a minha!”. Tudo quanto Ele tinha que pôr estava posto. Agora era a vez do Padre Eterno falar. Veio um anjo trazendo um cálice.
Ele previu, se preparou, recebeu graças… Agora, os senhores imaginem um que diante do sofrimento não tivesse rezado. Tivesse dormido. De repente, chega o sofrimento… quanta coisa pode acontecer.
* O dever de se preparar para o sofrimento, pedindo perdão pela próprias culpas, e prevendo até o fim as agravantes, sem exagerá-las, do que se tem de enfrentar
nós devemos nos preparar. Devemos ver nossas culpas até o fim. Pedir perdão por elas como são. Procurar qualquer raiz de culpa, e ter nas mãos para pôr diante dos olhos. Quando está para acontecer uma coisa ruim, prevê-la até o fim. Não exagerar a probabilidade, estar sempre dentro da verdade. Mas procurar ver a verdade inteira, com seus lados sinistros que eu poderia querer não ver.
Eu já falei aos senhores do lugar onde prendiam os católicos no Coliseu. E como de lá ouviam os rugidos das feras numa prisão próxima. E aqueles rugidos de leão, cortando a noite tranqüila de Roma, indicava a todos… fome… Ouviam o leopardo rugir: “O que ele quer é isso! O que ele pede é isso! E quando ele tiver solto, ele vem com uma fera por cima disso. Então, é esse rosto… meu rosto… e arranca os olhos. Começo a sangrar. Depois ele volta e me dá uma patada no peito, e começa a devorar as minhas entranhas. Eu devo estar pronto para isso!”.
E iam no dia seguinte ser comido pelas feras, muitas vezes, ou talvez todas, passavam as noites assim… Se houvesse Mandrix, alguns talvez pensassem tomar Mandrix. Acorda no dia seguinte… é o guarda, um pontapé.
— Bandido! vai ser morto! Chega de infectar a Terra com sua presença! O imperador está irritado com…
— O que é ? Hããã!!?
Entra com um pontapé dentro da arena, cai no chão. Todo mundo na gargalhada. Estrebucha, vem uma fera. Ali dentro está um ídolo, incenso e pira. Ele não está preparado. Pensamento dele: “Será que dá para eu chegar até esse ídolo, antes da fera dar um pulo em mim? Se eu chegar lá, quando a fera chegar, os soldados impedem dela chegar. Não me preparei, não quis ver. Fui um poltrão diante do sofrimento”.
Então, nós devemos nos preparar. Devemos ver nossas culpas até o fim. Pedir perdão por elas como são. Procurar qualquer raiz de culpa, e ter nas mãos para pôr diante dos olhos. Quando está para acontecer uma coisa ruim, prevê-la até o fim. Não exagerar a probabilidade, estar sempre dentro da verdade. Mas procurar ver a verdade inteira, com seus lados sinistros que eu poderia querer não ver.
Eu estive com uma pessoa, um burguês, hoje à noite. Ele conversou, contei o negócio dos trajes, etc… A pessoa teve esse comentário: “Não, mas isso aqui não tem essa gravidade assim. Já está totalmente implantado, não é novo. Há muito tempo que em toda revista de moda, pelo menos, vinte por cento dos trajes é isso”. Mesma coisa que diga um médico:
— Você está com câncer.
— Bom, há cinco anos que tenho, pelo menos vinte e um por cento do meu organismo está tomado pelo câncer.
— E isso não é grave? É pior! Está radicado, a extirpação não é possível, você fica contente com isso?
— Bá, bá, bá… não pense nisso!
Amanhã está comprando uma roupa pauperista. Não está preparado, o que pode fazer?
É, por exemplo também, quando chega a hora inesperada da gente se separar…
Chegou a hora de um fatinho. Meu João, um fatinho!
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