Conversa
de Sábado à Noite (––- Segunda
datilografia, sem conferição final ––-) –
20/08/83 – Sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (——- Segunda datilografia, sem conferição final ——-) — 20/08/83 — Sábado
Nome
anterior do arquivo:
Nosso Pai e Fundador manifesta suas saudades do Êremo São Bento — As promessas de Deus, melhor título da Confiança Total! * Detectando os indícios das promessas de Deus a propósito da Agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo * Como distinguir a boa da má tristeza? * O discernimento profético do Senhor Doutor Plinio exercendo-se sobre o prédio do São Bento contemplava as vias da Providência a respeito de sua obra * No ziguezague profético a manutenção da promessa de Nossa Senhora — Comentários sobre a provação de São José como paradigma da provação axiológica * Na perspectiva da confiança, comentários sobre o “último capítulo da História, o Reino de Maria” * Como no holocausto do Desastre o Senhor Doutor Plinio manteve a super-confiança * Mais uma profecia de nosso Pai e Fundador cumprida: “Os afegãs são… os enjolras!”
* Nosso Pai e Fundador manifesta suas saudades do Êremo São Bento — As promessas de Deus, melhor título da Confiança Total!
Meus caros, que saudades! A temporada que eu passei aqui, até certo ponto me fez mal. Porque eu não consigo estar fora daqui sem sentir saudades! E é dos áááás, dos óós… do esplendor dos cortejos, do convívio e de tudo o mais. Tenho saudades de tudo. Até do rodapés ao longo das paredes. O nosso João não está aí… ele não pode apresentar pergunta não?
(Sr. –: Não está aqui.)
Vocês não podem perguntar a pergunta no quarto dele? Liga aí para o quarto dele. Se não vão preparando vocês uma pergunta. O Guerreiro, que é outro pergunteiro, não pode comparecer porque está com um fim de resfriado. Ué, o bom João não atende?
(Sr. –: Pediu para o senhor continuar o tema do almoço, que ele já está chegando.)
Não me lembro mais qual foi o tema do almoço.
(Sr. –: Carlos Antunez lembra o tema do almoço, não se ouve bem.)
(Sr. F. Antúnez: Sr. João gostaria de perguntar o que mais no horizonte leva à confiança total no cumprimento da vocação.)
Sim. Vamos dar primeiro o princípio, depois damos a aplicação concreta do princípio. Para considerar o princípio em tese, Deus não pode ser um devedor que não cumpre aquilo que deve. Ora, nós podemos não dever algo a alguém. Mas se nós prometemos o que devemos, nós prometemos e passamos a dever.
Vamos dizer por exemplo, esse xale aqui. Eu posso não prometer esse xale a ninguém. E ninguém terá direito a esse xale. Mas se eu prometer espontaneamente a alguém, que eu dou esse xale, eu criei um direito desse alguém sobre o xale. E portanto uma promessa de Deus é firme, mais do que a realidade concreta! Porque eu posso, por exemplo, alguém me dá esse xale, e logo depois eu posso perder esse xale. Mas se Deus me dá alguma coisa, normalmente a Providência d’Ele me ajuda a conservá-la! E isso dá muito mais firmeza na posse do xale, do que se eu tivesse a mão sobre o chalé, é claro!
E portanto a promessa de Deus é o melhor título de dívida que pode haver. Melhor crédito que pode haver é uma promessa de Deus.
Agora, naturalmente, de que modo Deus faz as suas promessas? Quais são as promessas de Deus, e de que modo Ele as faz? É uma outra pergunta. Deus faz as promessas, às vezes, nós vimos isso na Escritura aparecendo e prometendo. Ou Ele aparece, ou Ele manda um anjo falar, mas Ele promete. E essa promessa é rigorosamente cumprida.
Quem chegou aí?
(Sr. João.)
Oh meu João, que é isso? Eu julguei ter proibido você…
(Sr. J. Clá: Estou proibido de vestir a roupa, não o hábito.)
É propriamente uma travessura, ouviu?
Mas aí são as promessas formais, categóricas. Mas Ele tem outros modos, também, de falar às almas. Ele tem vários modos pelos quais Ele desperta na alma uma esperança. Não é inteiramente claro que Ele está prometendo, mas a alma sente o seguinte: que ela esperando aquilo, todas as suas virtudes se avivam, e tudo nela caminha bem. E ela não esperando aquilo, suas virtudes se deprimem, e tudo quanto é ruim nela avança. Há nisso um indício muito sério e uma promessa de Deus.
* Detectando os indícios das promessas de Deus a propósito da Agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo
E porque é um indício de uma promessa de Deus? Porque Deus enche a Graça de suavidade, de, melhor dizendo, enche a alma de graça, de suavidade, de resolução, de força, quando a pessoa enfrenta certas hipóteses. E, pelo contrário, a pessoa fica abatida, desanimada, fica cética, fica arrasada quando não enfrenta aquela hipótese, quando deixa de considerar aquilo. Aquilo é um sinal de que a graça favorece um certo caminho da alma, e que ela se retrai dentro desse certo caminho da alma.
Naturalmente ainda aqui é preciso saber distinguir e contra distinguir para fazer um trabalho completamente sério.
Nosso Senhor no Horto das Oliveiras, dir-se-ia então que não estava agindo de acordo com a graça. Porque Ele suou sangue, teve pavor e horror diante da morte que vinha. E chegou a pedir a Deus que afastasse aquele cálice. Se Ele chegou a pedir a Deus que afastasse aquele cálice, a gente deve entender que não era da via de Deus que Ele bebesse aquilo.
E portanto pode dizer-se quase, que a esperança que Ele tinha era de [que] aquilo não acontecesse. Então não é verdade que a pessoa, sempre que se sente atraída por alguma coisa, aquilo é virtuoso. Não sei se estou exprimindo bem a objeção que se pode fazer à minha pergunta?
A resposta é a seguinte: tudo nEle se levantou honesta, santa e virtuosamente, porque Ele era concebido de Maria Santíssima, portanto não era concebida no pecado original. Porque era o Homem-Deus, portanto não pecava. Tudo nEle se passou santamente, perfeitamente, fielmente, mas podia ser que diante do decreto de Deus face a tal coisa, o corpo todo se apavorasse.
Porque o instinto de conservação é um reto instinto do homem. E esse instinto se enovela diante da perspectiva da morte. É o próprio dele. Ele tem horror à sua própria destruição. Diante da dor, diante da liquidação do próprio corpo, diante das humilhações, dos sofrimentos morais que Ele ia sofrer, era uma coisa mais do que explicável que Ele tivesse aquele movimento.
Mas isso não quer dizer que Ele não era traído. [ou atraído ?] Muitas vezes há coisas que nos causam pavor, mas que nós compreendemos no fundo de nossa alma, que aquilo deve ser. E nós somos voltados para aquilo, ainda que seja no horror de nossa alma.
E eu vou dizer mais — não posso afirmar o que eu estou dizendo — eu creio, eu tenho a impressão de que todos nós na vida, temos grandes lances em que nós temos que caminhar de encontro a uma coisa que nos causa horror! Mas que nós sabemos que é nosso dever fazer. Algumas vezes pelo menos na vida. E que nenhuma vida é grande, se ela não teve alguns lances assim. Ao menos alguns.
Mas quando a gente vai analisar essas almas, a gente vê que elas tem horror, mas algo nelas fala, de outro lado, daquilo como devemos ser. E que elas desejam ser. E que aquilo de algum modo as atrai, e por cima das repulsas de todo o corpo, e dos instintos menores da alma, movimentos menores da alma, há um movimento que vai para aquilo, vai para aquilo, vai para aquilo, e a pessoa executa.
É assim que a gente compreende que muitos mártires, que desejavam o martírio, tinham pavor das feras no Coliseu. Eles sabiam que eles eram chamados para aquela alta coisa. E queriam porque compreendiam que eles eram proporcionados pela graça àquela alta coisa. Mas na hora tinham pavor. E ambos os movimentos são compreensíveis.
Isso nos dá alguma idéia do que se passou em Nosso Senhor. Ele queria a Cruz. Mas em certo momento, quando a Cruz caminhou de encontro a Ele, Ele “scaept, tadere et pavere…” E aquele movimento virtuosíssimo, explicabilíssimo nEle, levou-O a pedir condicionadamente “se for possível afaste de Mim essa Cruz. Mas se não for, faça-se a Vossa vontade e não a Minha!”. Pedido perfeitíssimo, que indicava — por cima de todos os medos — a vontade firme!.
* Como distinguir a boa da má tristeza?
Então, essa idéia de que deve vir tudo aquilo que nós esperamos, a Providência nos dá. E tudo que nos causa ânimo é bom, tudo que nos causa horror é mal — essa idéia precisa ser matizada. Há alguma exceção no seguinte sentido: a Providência às vezes pede-nos coisas que nós não contávamos. Ela nos pede coisas que nos assustam. E nós devemos confiar nEla. Mas é preciso notar: há duas formas de tristeza. Há uma tristeza ordenada, que o homem sente que pela força da sua vontade, ajudado pela graça, ele pode dobrar! Há uma tristeza desordenada e caótica, frenética e meio infernal.
Quando em em vez de ser uma espécie de dificuldade que ele pode dobrar, [é] como se fosse uma espécie de assombração que esvoaça em torno dele e o deixa a delirar…esta vem do inferno! E essa é a tentação de perturbação. Há duas tristezas diferentes. Nós, diante do problema, temos que saber distinguir bem essas tristezas.
Os senhores imaginem um rapaz que é convidado para entrar para um Êremo. Os senhores concebem que ele tenha tristeza em entrar para o Êremo? Debaixo de certo ponto de vista sim. Haverá a maior parte das vocações que se realiza na alegria. Mas eu compreendo que algum entre na tristeza do que ele vai abandonar. Das coisas santas, boas, que ele vai abandonar. Por exemplo, se eu tivesse que entrar num Êremo, eu entrava na tristeza de ter que deixar minha mãe!
Eu entraria! E não tenho a menor vacilação de que entraria. Sem dúvida nenhuma que entraria. À noite, quando ela me dizia às vezes, era raro, “Meu filho, você não tem pena de me deixar tão só?” Eu saia triste. Mas essa era uma tristeza boa. Eu não saia com minha alma em desordem. Eu não saia com minha alma no caos, agitada, nem nada. O elevador descia, eu a deixava em cima, e executava o meu propósito, eu ia para a Rua Pará.
Mas eu saia ordenado, mas fazendo uma coisa dura para mim, e tendo pena do duro que eu impunha a ela. Mas eu nunca deixei de fazer tão logo fosse necessário, sem um minuto de atraso. Com muito carinho para ela, mas fazia mesmo. Era uma tristeza boa!
No cumprimento do dever pode entrar tristeza. E no amar essa tristeza entra até uma retidão da alma. É uma coisa evidente. Assim nós temos que saber discernir em nós uma tristeza de outra tristeza. E se nós não sabemos discernir, nosso diretor espiritual deve saber discernir. Quem nos dirige deve saber discernir: qual é uma tristeza, qual é outra tristeza. Qual é a tristeza que destrói e qual é a tristeza que constrói!
Feito essa distinção, as tais tristezas que destroem, como é que são? Na nossa vocação sobretudo, elas se apresentam sobretudo assim: caso histórico.
* O discernimento profético do Senhor Doutor Plinio exercendo-se sobre o prédio do São Bento contemplava as vias da Providência a respeito de sua obra
Eu vim aqui no São Bento. Com um pouco do discernimento dos espíritos, eu vi — logo que conheci esse prédio — me pareceu toda a tradição, o passado, o recolhimento, a glória beneditina, estava resumida aqui.
Eu fiquei contentíssimo. E deu-me uma espécie de certeza — notem bem! — deu-me uma espécie de certeza de que aqui a TFP daria um passo enorme para a sua institucionalização! Bem, donde é que nascia essa certeza? Do notar isso aqui. Eu quase poderia dizer, ao experimentar a graça aqui, discernir a graça aqui, eu senti que ela me pedia que a fizesse reviver! Que havia como que um pedido pairando pelo ar par mim, implícito, nessa graça que se mostrava.
E que me dizia: “Meu filho! eu estou aqui tão abandonada nesse prédio. Mas veja como seria ignóbil que isso morresse. É preciso que isso reviva. Você não quer por as condições para eu reviver?” Nisso entra um movimento bom de minha alma, o amor a essa graça. E entra uma coisa que indefinidamente tem uma razão de promessa. Não sei se os senhores estão vendo onde é uma promessa. Quando uma pessoa séria convida para algo, esse convite tem uma promessa subjacente.
Porque ele não pode fazer um convite para o impossível, para o irrealizável. Ainda mais se é o Todo Poderoso! Ou Aquela que por analogia se poderia chamar, a onipotência suplicante, não é a onipotência verdadeira, tout court, absoluta, mas é uma onipotência suplicante, aí não entra nem analogia. Ela é onipotente, porque a súplica que Ela faz é sempre aceita por Deus. Nos convidam para alguma coisa, isso que Eles podem dar tudo quanto é necessário, para que aquele convite seja correspondido adequadamente, isso nos leva à convicção de que nos será dado. E insere consigo uma promessa.
Qual é o reflexo disso em nossa alma? Uma alegria muito grande. E uma alegria que não é a alegria boba do gozador da vida, mas é uma alegria determinada a enfrentar muitos obstáculos para realizar.
Quer dizer, uma alegria que vem logo seguida de dedicação. “Eu farei o possível”. Moverei vales e montes, céus e terras, mas eu hei de corresponder a esse convite!”. Bem, constituiu-se o São Bento I. É a promessa que se cumpre ou não?
É a promessa que se cumpre! Mas a promessa não foi a seguinte: Eu realizarei o que te prometi, pura e simplesmente. A promessa é: o que te prometi realizar-se-á. Venha o São Bento I e realiza. Se as circunstância não permitem que o São Bento I chegue à sua inteira maturação, esvazia-se isso, e há um período de deserto de novo! E na aparência a promessa não foi cumprida.
Qual era a minha obrigação durante esse tempo? Conservar a inteira confiança! In te speravit, non confundatur in aeternum! Em Vós minha Mãe, eu esperei. Eternamente não serei confundido! Na tristeza eu vi isso ficar vazio três anos. Uma coisa de arrepiar! Três anos de vazio nessa casa que me rejubilara tanto de povoar.
E depois o mais triste do negócio, é um vazio de uma inutilidade. Aquilo vazio, parece que voltou… a promessa mentiu! Se eu tivesse pensado no meu coração: “Eu desisto. A promessa não foi verdadeira. Eu me iludi, não foi uma promessa de Nossa Senhora!”. Era possível que não existisse São Bento II. Mas confiando, São Bento II veio!
Quer dizer, Nossa Senhora se compraz às vezes, em permitir circunstâncias que parecem, nos dão a impressão de que a promessa não foi cumprida. Nós devemos nessas circunstâncias continuar a acreditar na promessa cegamente. Por vales e montes, de qualquer jeito dizer: In te Domina speravit. Non confunda in aeternum! Em ti minha Mãe esperei, eu não serei confundido eternamente! Custe o que custar!. Refloresceu São Bento II.
* No ziguezague profético a manutenção da promessa de Nossa Senhora — Comentários sobre a provação de São José como paradigma da provação axiológica
Foi só isso? Eu olho para o São Bento I. Que rumo tomou o São Bento I? É uma pergunta que se pode fazer. Grosso modo São Bento I deu em Jasna Gora. Isso é certo não em grosso modo, é em todos os sentidos. Dando em Jasna Gora salvou uma porção de pequenos êremos que estavam bamboleantes e não se mantinham de pé, e que foram confluídos para lá. Lá houve outras dificuldades.
Mas de lá nasceram as camáldulas! E as camáldulas, em algum sentido, super cumprido o prometido aqui! Num ziguezague tremendo, mas assim foi.
Quer dizer, Nossa Senhora em toda promessa que Ela faz — nós devemos admitir isso — que nos aconteça de parece tudo arruinado! Ela se compraz em pedir isso de nós. A gente deve dizer: “Aquilo foi ou não foi uma promessa? Na seriedade de sua alma, Plinio, você não acha que aquilo foi uma promessa? Eu acho que foi! Se foi uma promessa eu devo esperar! Se eu esperar, tudo na minha vida espiritual pode florescer! Se eu não esperar, tudo murcha! Se eu esperar, por detrás das provações um fundo de alegria florescerá em mim. Se eu não esperar eu terei uma tristeza profundíssima, e que não tem saída! Eu devo esperar!”.
E aqui nós podemos dizer, que toda história da TFP, os cinqüenta anos de epopéia, são uma promessa feita, e que vai se cumprindo! Vai se cumprindo de um modo — que se não fosse irreverência — se poderia chamar arrastado, mas de um modo quão magnífico, se a gente olha o termo…
Eu não conheço [fato ?] mais significativo do que isso, das promessas da Providência, do que aconteceu, num nível incomparavelmente superior, à de Nossa Senhora e de São José. Os senhores considerarem que o Espírito Santo dá à Nossa Senhora todas as graças de atração possíveis para a virgindade.
Ela delibera ser virgem. E será. Em certo momento Ela recebe a comunicação de que deve casar-se. Não parece contra senso? Agora tomem São José. São José, é exceção entre os judeus — a castidade entre os homens, aliás entre as virgens também, era muito rara no povo judeu. A mulher que se conservava virgem a vida inteira, virgem antes do casamento é claro que havia. Mas o homem ficar casto inteiramente, era raríssimo entre os judeus. Ele se casava sempre, ou caía na perdição.
Bem, São José resolve ficar casto. Ele está com a alma cheia de idéia de castidade. É chamado para saber quem vai se casar com Maria Santíssima; vai lá com seu bastão, seu bastão, seu bastão floresce! Olha para Ela, tudo explicado: Ela será Virgem sempre, está na cara d’Ela! Falam. Os senhores podem imaginar com que alegria indizível os dois se contam mutuamente o propósito de perpétua virgindade.
E combinam manter essa virgindade no casamento. A graça do desejo e a promessa de que seriam eternamente virgens estava cumprida. São José passa pela perplexidade depois, que os senhores conhecem. Que perplexidade tremenda! E que perplexidade para Ela, ter que sujeitar ao esposo aquela perplexidade!
Tudo: o florescimento do bordão, o encanto com que os dois se comunicaram a si mesmos, reciprocamente o desejo da perpétua virgindade, a alegria de alma que tiveram: “É claro! Deus nos colocou no seu caminho. Ele prometeu e está cumprindo”. Agora, aparece esse problema? São José passa por uma provação tremenda, e Ela também, na medida que Ela percebia — e Ela percebia em toda medida — o sofrimento dele.
Ele recebe uma revelação, um sonho, quando ele já estava resolvido a partir, ele recebe uma revelação, comunica-se com Ela. Então ele fica sabendo que aquela promessa de virgindade floresce nisso. Ele é esposo da Virgem Mãe! Quando é que ele poderia pensar numa coisa dessas?! E essa Mãe, é a Mãe do Verbo Encarnado! Quer dizer, está tudo cumprido além de mais não poder. Ele recebe depois um premio já nesta terra: é o patrono da boa morte!
Os senhores sabem, se tem como certo, que ele morreu na companhia d’Ela e do Menino Jesus! Não se pode imaginar morte mais perfeita! Com Eles ali, fisicamente presentes! E Nosso Senhor cumulando o seu pai adotivo, para nos exprimirmos assim, de graças cada vez maiores, a medida que a sua alma ia se santificando nos últimos transes da morte. De graças, talvez ele tivesse passado por aridezes tremendas nesse momento. Porque a aridez acompanha o homem. Mas depois, de vez em quando, vem uma graça.
Nossa Senhora sorria para ele, com respeito. Dizia: “Meu esposo! Lembre-se, tudo se cumprirá. Coragem, vamos para a frente!” De repente ele morre, o limbo dos justos se abre para ele!
Os senhores podem imaginar a alegria. Mas sobretudo a alegria dele quando ele vê, no limbo, aparecer Nosso Senhor Jesus Cristo. A alma de Nosso Senhor Jesus Cristo desligada do corpo que, desceu aos infernos é isso, não é? Desce e elimina, pela sua presença, aquela grande espera. Alguns, Adão e Eva por exemplo, estavam lá desde o começo do mundo! Desde o começo do mundo! — desde a história inicial da humanidade estavam lá. Esperando, esperando… Milênios e milênios. Outros mais recentemente. Todos perguntando: quando virá o Messias? Quando virá o Messias? O grande jornal falado, é o que eles conseguiam acompanhar na terra, sobre quando viria o Messias.
De repente vem o Messias. E a gente pode bem imaginar que toda a corte do limbo se reuniu em torno de São José para receber o Messias. E que ele, logo que apareceu no limbo, resplandecente, como o gênero humano resgatado, os homens com as culpas perdoadas, olhou para São José e disse: “O, meu pai!”.
Acho que não temos que comentar mais nada. Mas que por escuridões passou essa promessa! Mas não deixou de ser cumprida até o fim! E São José está no Céu, nesse lugar eminentíssimo, que ele recebe o culto de protodulia. Não é hiperdulia, que coloca Nossa Senhora acima de todas as seqüências das dulias, mas é a protodulia.
* Na perspectiva da confiança, comentários sobre o “último capítulo da História, o Reino de Maria”
Quer dizer, ele é o primeiro na linha de todos os outros, é o primeiro. “Proto” quer dizer “primeiro”. É o primeiro a ser venerado. Que glória! Mas depois de que noites escuras! Ele esperou sempre. É o varão que nunca deixou de esperar.
Bem, quantas outras coisas assim nós poderíamos mencionar. Aí está, não sei meu Carlos Antunez, se minha resposta responde a sua pergunta.
(Sr. J. Clá: Algo a mais, na linha do almoço de hoje, que alimenta a confiança na missão do senhor.)
O que em concreto alimenta a minha esperança, é… são tantas coisas que eu teria dificuldade em enumerá-las todas. A primeira coisa, a primeira na ordem do imediato, é uma certa… a pessoa pode conhecer, a Providência pode dar a uma pessoa, uma certa cognição das graças que tem em si.
E essa esperança é uma graça. E conhecendo como eu a conheço, eu a vejo tão séria, tão firme, tão nobre, tão grande, que me parece impossível que ela não seja cumprida! … primeiro é o próprio ambiente criado por ela dentro de mim.
A própria atmosfera criada por ela dentro de mim, dá-me a certeza de que ela é verdadeira. Mais ou menos quando às vezes a gente fala com uma pessoa, a pessoa afirma uma coisa e a gente diz: “Esse homem não mente, eu vou acreditar nele”. É o olhar, o ver, não mente! Eu acredito!
A segunda coisa é, me parece ver na humanidade de hoje, que ela não está extinta, não está morta. E que parece-me ver na história da Igreja que o último capítulo não está escrito! E que da conjunção dessas duas idéias, que me parecem ver claras em tudo quanto eu noto, etc., se deduz que vai haver ainda um capítulo. Se vai haver um capítulo, e é certo que vai haver uma Bagarre, esse capítulo é o Reino de Maria. Ora, o que eu espero é exatamente isso! De maneira que é mais do que razoável que eu tenha minha esperança, minha convicção posta em que isso será assim.
Por outro lado há alguma coisa pela qual, considerando a Igreja constantiniana, apesar de que nela houvesse lacunas, Ela era admirável! Ela era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana! E aí está feito todo elogio.
Quer dizer, no comum das pessoas que constituem a Igreja constantiniana, havia lacunas, no comum das pessoas. Mas nos santos da Igreja constantiniana não. Não só nos santos, mas nas almas verdadeiras fervorosas, verdadeiramente boas, não. Essas almas, me parece que nelas havia uma coisa de tão bom, que elas mereciam que a história não terminasse nelas como terminou. E que alguma coisa fosse para frente. E que portanto tem que haver qualquer coisa.
(…) [comentários das inscrições nos dois vitrais da Capela da Faculdade Sedes Sapientiae onde o Senhor Doutor Plinio ministrou aulas durante o ostracismo]
… non timebo mala. Quer dizer: Eu confiarei tanto que, ainda que ande nas sombras da morte, eu não temerei os males. E outro representava Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitando, e em baixo a frase dizia: In lumen Tua, videbimus lumen. Na Vossa luz eu verei a Luz! Eu que não tenho boa memória, gravei essas frases na minha memória pouco perseverante e ingrata. E ao longo das décadas não tenho me esquecido disso. E nos momentos de apreensão e de dor essas frases me vêem. In te domina speravit, non confudat in aeternum. Esciam si ambulavit in umbra mortis, nom timebo mala.
* Como no holocausto do Desastre o Senhor Doutor Plinio manteve a super-confiança
Quer dizer, ainda que eu esteja em tal situação, que parece que eu esteja andando nas sombras da morte daquilo que eu esperei, eu não temerei os males, e continuarei tranqüilo… E in lumen Tua videbimus lumen. Na tua Luz eu verei a Luz!
Essas são as coisas. Já que o Carlos Antunez me fez a pergunta a esse respeito, nós juntos vimos um pouco disso. No tempo em que íamos à Luz — você deve se lembrar — havia muita consolação, e havia uma certa alegria naquilo. Talvez você se lembra, nessa alegria havia implicitamente uma promessa. Eu não vou perguntar a você se havia ou não havia, porque você fica obrigado a dizer que havia. Mas se você até hoje, eu vejo que sua alma se enche na recordação daquilo, é porque você provavelmente acha que havia uma promessa naquilo.
Promessa do que? Genérica. Porque não era definida, de alguma coisa. Todas as nossas boas esperanças seriam atendidas! E meu João! Quando íamos nós à Luz, durante o estrondo, depois do desastre, naquelas inúmeras idas à Luz. Em que quando se chegava, o horário era mais cedo do que hoje, e tudo se fazia no Mercedez azul, que o João resgatou da sombra da morte…
(Sr. J. Clá: Foi o Sr. Marcos Garcia quem resgatou.)
Então meu Marcos, aí está!
(Sr. Marcos Garcia: Foi a Senhora Dona Lucilia quem resgatou!).
Bem… o horário era esse: de manhã vinha a pancadaria nos jornais. Depois eu ia para o banho, toilette, ia para o escritório. No escritório começavam as providências: “Faça isso, telefonema para aquele, aquilo…” Aquele tormento! Almoço, sesta. Depois ida à Luz. Era um período do dia em que a tormenta do estrondo decrescia um pouco. E nós íamos tranqüilos, por essas avenidas muito vazias naquele tempo. E você provavelmente se lembra, havia uma alegria qualquer, uma calma qualquer naquelas idas… Eu sabia que quando eu voltasse eu receberia mais cedo ou mais tarde, um telefonema do Edwaldo, que podia ser nossa sentença de morte.
Porque o Edwaldo estava representando o Conselho Nacional na CPI. E todo dia, terminado o interrogatório das testemunhas, me telefonava dizendo como tinha acontecido. E ninguém podia saber o que ia acontecer. E ele sistematicamente — porque a CPI terminava em horários diversos — em horários diversos chegava à sede, e da sede me telefonava.
De maneira que eu, alimentado por toda prática anterior da confiança, mais pela promessa altamente geradora de confiança, que era a promessa de Genezzano, altamente, altamente geradora de confiança. Mas por outro lado desolado! Desolado com o desastre! Desolado com a cadeira de rodas! São desolações! Desolado com o riso irônico de um ou outro conhecido, que me percebia lá, andando de cadeiras de rodas ou arrastando-me de muletas.
Desolado com a frieza das freiras do museu, que estava lá, etc., etc. Havia alguma coisa que era um discreto sorriso, o Fiuza esteve inúmeras vezes conosco lá. O Fiuza dirigia a “Comissão Quis ut Deus” naquele tempo, esteve incontáveis vezes conosco lá, ou todas as vezes.
E viu bem isso. O Marcos, Arnolfo, Dér, devem estar outros ainda aqui. Havia uma alegria quando chegava àqueles jardins… essas avenidas do lado do Tietê eram calmas, tranqüilas… O Tietê era bonito, não era esgoto ainda. A gente chegava lá, qualquer coisa tranqüilizava. E eu nessa tranqüilidade ia receber o telefonema do Edwaldo.
Vinha o telefonema. Era em geral rassenerent, resserenava a gente, e eu passava o resto do dia mais calmo, a espera da pancadaria do dia seguinte. E assim se arrastou durante um mês ou dois a CPI, não foi Edwaldo?
(Dr. Edwaldo: Três meses.)
Não, mas ela terminou antes disso, não foi? Deixou de se reunir antes do prazo de três meses não foi?
(Dr. Edwaldo: Quinze dias antes.)
Então é isso. Dois meses e meio ela funcionou. Nos quinze dias restantes ela fechou, porque não tinha mais matéria para deliberar. Mas não fechou. Ela apenas não funcionou. Era ainda uma tranqüilidade da Luz. Naquela tranqüilidade havia uma promessa. Aí está meus caros!
Os senhores já viram que eu consultei o relógio há pouco não é? [Vira a fita]
(Sr. –: O Santo do Dia começou bem mais cedo e a reunião também.)
É verdade, mas acontece que o Santo do Dia começa mais cedo, eu descanso menos… E realmente eu preciso ir andando. O equilíbrio das coisas pede isso. E meu bom J. Clá tem que ir para a cama. De maneira que…
* Mais uma profecia de nosso Pai e Fundador cumprida: “Os afegãs são… os enjolras!”
(Sr. J. Clá: Agora o senhor tem que responder mais uma pergunta, senão fica mal para mim.)
Uma pergunta de um minuto, quem faz?
(Sr. J. Clá: Como fica a teoria das vinganças e do aparecimento dos afgãs e kirguizes no meio da graça nova?)
Eu me pergunto se a graça nova não são os afgãs e kirguizes. Quer dizer, eu quando falei de afgãs e kirguizes, eu dizia para indicar povos estrambóticos que faria pensar que pudessem condizer para isso. Quer dizer, gente vinda de horizontes inesperados. Surpresa da Providência. Eu aludi a isso. Afgãs e kirquizes era um símbolo. Eu não excluo a possibilidade de que os afgãs, que estão lutando tão acertadamente contra o comunismo russo, se converterem. Não excluo!
Eu creio que foi o Carlos Antunez que me deu um álbum sobre os afgãs. É muito interessante o álbum. Eu passei para vocês, eu creio. Dá muito do povo afgão, costumes, etc. Acho que poderíamos mesmo fazer sobre os afgãs uma projeção comentando. Sobretudo com as fotografias que tirou deles o Juan Miguel muito interessantes. Mas estaria na possibilidade de os afgãs e os kirguizes serem os da graça nova, e, e…, e… meus queridos enjolras! Os senhores podem imaginar… se os senhores não tivessem recebido o convite especial da graça, que afgãs e que kirguizes seriam?
Não me queiram mal, mas não é verdade isso? Qualquer coisa! Qualquer coisa! Quer dizer, não foram detidos pela graça a caminho do Afganistão? E bem próximos dele! Alguns talvez já tendo visitado o Afganistão, já tendo passado férias pelo Afganistão, quem sabe lá? Então aqui está!
Está respondida a pergunta meus caros! Chegou a hora de nos despedirmos rezando três Ave Marias diante da Imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso.
[Oração da Restauração]
Há momentos óh Minha Mãe…
*_*_*_*_*