Conversa
de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) –
13/8/1983 – Sábado [RSN 047, VF 016 e AC VI 83/08.15] –
p.
Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) — 13/8/1983 — Sábado [RSN 047, VF 016 e AC VI 83/08.15]
Nome
anterior do arquivo:
Ao castigar os egípcios com a morte de todos os primogênitos,
inclusive dos animais, Deus indicou o valor da primogenitura * O primogênito tem um especial dom para perpetuar e representar sua estirpe — O caos no mundo cria a impressão de que a Humanidade hoje já não é mais nascida de primogênitos * Em geral, as nações vivem tendo como arcabouço famílias de alma fundadas por alguém escolhido por Deus para modelar todas as outras vocações * No Reino de Maria, reluzirá o charme grandioso da TFP — Ao contrário do que hoje se pensa, a seriedade tem charme * Seriedade é uma disposição de alma para ver inteiramente a realidade e dela tirar todas as conseqüências * A realidade é hierárquica como uma serrania — O homem precisa vê-la assim e situar-se no lugar que lhe compete * A vida do homem sério é uma longa peregrinação à procura da perfeição de todas as coisas * No colibri e no miosótis, Deus mostra uma perfeição charmant existente nEle, porém de modo majestoso e deslumbrante * Tudo quanto na natureza é opalescente não indica a sucessão dos charmes grandiosos de nosso Deus entretanto imutável? * Ao contemplar o Menino Jesus, Nossa Senhora aliou charme e grandeza mais que toda a Criação reunida * A Sra. Da. Lucilia desceu com nobreza a rampa da velhice e, sem perder nada do que tinha de augusto, passou a parecer um bibelot inestimável e enormemente charmant
Então, temos 40 minutos. Quem é o pergunteiro?
(Sr. Mário Navarro: Aquele fato da Sra. Da. Lucilia recebendo os biscoitos que o sobrinho trazia do interior e os comentários que ela fazia eram comentários vindo de um fundo de alma inocente. E o senhor desenvolveu toda uma doutrina a partir daí. Então a pergunta seria: como é que o Reino de Maria vai refletir os princípios do senhor, mas através da pessoa do senhor? Então detalhes da pessoa que terão influência no modo de como o Reino de Maria será. Enfim, não está bem expresso, mas o senhor entendeu, não?)
Bem expresso está. Eu não sei se está bem perguntado. A questão é bem diferente dessa. Realmente digo pelo seguinte: porque eu nunca me permiti uma indagação a respeito desse assunto, e julgaria andar mal se me permitisse. De maneira que o senhor não me levará a mal que eu me encaramuje a esse respeito, mas não tenho outra coisa para fazer.
(Sr. Mário Navarro: Realmente essa pergunta não dá para fazer em relação à Causa, coisa do gênero, porque é propriamente…)
Ahahah! Não tem dúvida, é propriamente o que eu não posso responder. Eu compreendo sua pergunta e, vou dizer mais, em seu lugar talvez eu a fizesse, mas no meu lugar o senhor, provavelmente, não a responderia.
De maneira que, por falta de reflexões minhas sobre a matéria perguntada, fico a pé, não sei o que lhes dizer.
(Sr. Mário Navarro: Talvez coisas menos diretamente pessoais. Por exemplo, o fato de ser brasileiro, a família, como essas coisas se refletirão no Reino de Maria?)
É muito difícil porque molha nessas águas. É muito difícil. Sem falar de outra coisa, que aí cai em toda uma casuística concreta em que é, inclusive, legítimo a gente ter… porque são coisas, eu não sei, as mais…
Vamos dizer, por exemplo, eu estou fazendo com essa bengala isto, mas eu poderia igualmente bem estar fazendo isto. De maneira que eu compreenderia uma pessoa que me dissesse: “Dr. Plinio, por que o senhor está fazendo assim, quando eu acho que no momento é mais sábio fazer assim?”. Eu compreendo. Para ele pode ser.
Por que estou fazendo isso? Vou dizer porque é. Porque estou com muita fome e me alivia um pouco a fome fazer isso. Está liquidado o caso.
Eu compreendo que um felizardo bem nutrido não precisa fazer isso. Compreendo que outro homem, pelo contrário, quando está com fome, não se mova. Enquanto eu, com fome, me movo, porque me sinto mal e tenderia a começar a rugir… Quer dizer, se alguém fosse culpado dessa minha fome, eu daria rugidos.
Vamos dizer que eu estivesse em casa de alguém e me desse pouca comida e eu estivesse com essa fome. Os senhores sabem bem como eu, com tempero pernambucano, o que eu tivesse que dizer…
* Ao castigar os egípcios com a morte de todos os primogênitos, inclusive dos animais, Deus indicou o valor da primogenitura
(Sr. Mário Navarro: Talvez o senhor pudesse então desenvolver em tese a idéia do por que é arquitetônico que uma era histórica tome as características do fundador, em tese. Quer dizer, o Reino de Maria poderia ser de diversos modos, mas será de um modo concreto porque o fundador é o senhor. Quer dizer, se o senhor pudesse dizer em tese.)
Aí em tese é muito mais fácil fazer. É um tema pouco aprofundado, inclusive nas minhas reflexões. Quer dizer, posso ir falando aqui o que me ocorrer, mas será pouco porque não tive matéria para pensar nisso a fundo.
Quando chegar minha vez de ler o Cornélio, eu espero encontrar na letra P dois verbetes de que ele deve tratar com aquele modo único dele e com aquela erudição única dele. Na letra P, os verbetes “Paternidade” e “Primogenitura”, que são complementares, porque a primogenitura é de algum modo uma participação na paternidade.
Por que é que é? Vou pôr o problema sem dar solução: o que é paternidade para que a primogenitura, que é apenas a primeira flor da paternidade, tenha um tal valor, que, por exemplo, quando Deus castigou os egípcios com aquelas sete pragas, uma das pragas foi a morte de todos os primogênitos? Agora note uma coisa curiosa: até os primogênitos dos animais.
Do ângulo que eu estou considerando, me impressiona quase mais a morte dos primogênitos dos animais do que dos homens. Porque primogênito do homem a gente compreende.
Os antigos tinham o senso da família muito bem constituído, patriarcalmente ainda desenvolvido. Eles entraram para a era histórica com algumas tradições, algumas qualidades, etc., peculiares ao período do patriarcado. E o rio do patriarcado fluiu longe ainda dentro do leito do rio da História, as águas do patriarcado ainda fluíram longe. Até a Revolução Francesa e a generalização dela no mundo, o senhor encontra restos do patriarcado nesta, naquela instituição, etc.
Então compreende-se que seja particularmente duro para o patriarca perder aquele que é o primogênito dele. Algo como que fulminando o resto todo que veio, porque quebra o elo natural entre o patriarca e o resto de sua progênie: a morte do primogênito. Por causa disso há uma dor para o patriarca, para o chefe de família patriarcal, especialmente. Compreende-se.
É preciso dizer que, tanto quanto meu campo de observação seja abrangente, isto é muito menos hoje em dia. E morrer o filho primogênito ou não primogênito… começa que muitas vezes morrer o filho nem é um tão grande desastre: morreu… morreu! enterra, está acabado, não tem tanta coisa assim. Se era primogênito… Eu não ouço mais as pessoas comentarem: “Morreu meu filho… e logo meu primogênito!”. Não comentam.
O senso da primogenitura parece muito apagado. É zero. Digamos que esteja no nível zero. Mas para Deus não. Porque o requinte do castigo foi não de matar um filho, mas de matar o primogênito. E para se compreender a ligação do castigo, quer dizer, o que vale o primogênito não como pessoa mas enquanto primogênito, para se compreender isso, vem então o castigo até dos primogênitos dos animais.
* O primogênito tem um especial dom para perpetuar e representar sua estirpe — O caos no mundo cria a impressão de que a Humanidade hoje já não é mais nascida de primogênitos
Eu precisava ver no Cornélio, mas parece que isto dá a entender, parece que dá a entender o seguinte: que uma estirpe animal, com a morte dos seus primogênitos, fica degradada e que há um qualquer dom de perpetuação no primogênito que os outros não têm, por onde o primogênito do primogênito do primogênito tem uma representatividade de toda estirpe que os outros não têm. E isto tem inclusive algum suporte na própria biologia. Para isso atingir assim os animais, tem algum suporte na própria biologia. É misterioso.
Aquilo que a razão, ao menos ainda a razão não me explica, o meu bom senso explica às carradas. E eu acho enormemente sensato que seja assim, enormemente explicável que seja assim.
Agora, essa condição do primogênito faz sentir ainda melhor… Eu não posso esquecer… não vou deixar de dar uma coisa que me ocorreu ao espírito. Talvez não seja fenomenalmente amável, mas, enfim…
A gente tem a impressão, quando a gente considera o mundo de hoje, que todos os homens hoje já não são nascidos de primogênitos. Dir-se-ia que a Humanidade hoje não é mais nascida de primogênitos. E que esse caos, essa desordem no mundo de hoje, essa bagunceira toda, dir-se-ia que ela existe à maneira de uma Humanidade que não tem mais primogênitos.
Aí os senhores podem ter idéia do juízo que eu faço da primogenitura, o que a primogenitura transmite, o que ela é, o que ela contém, etc. Aí faço um pouco idéia.
Um pouco idéia também uma coisa que está na Bíblia, não sei em que trecho. Comenta que Deus, para castigar o povo de Israel, deu ao povo de Israel como rei, meninos. É uma coisa dilacerante.
O rei é, até certo ponto, o primogênito da nação. E que o primogênito seja um menino mais velho do que os que vieram depois, é uma coisa tão monstruosa que causa horror. Aí a gente vê os mistérios da primogenitura como são.
E nos introduzem melhor no conhecimento dos mistérios da paternidade. Da paternidade no que ela tem de biológico, da paternidade que é uma coisa tão ampla que Deus quis que houvesse homem e mulher, para que essa idéia da autoria — um ser que cria outro — se exprimisse pela severidade e grandeza do homem e pela doçura da mulher, para dar um complemento, como se um ser humano só não fosse suficiente para abarcar em si toda causalidade de outro ser, tão grande é a paternidade, tão grande é a causalidade, tantos mistérios há dentro disso.
* Em geral, as nações vivem tendo como arcabouço famílias de alma fundadas por alguém escolhido por Deus para modelar todas as outras vocações
Então a gente compreende o papel da paternidade. Eu estou falando aqui da paternidade no sentido literal da palavra, mas também de uma outra forma de paternidade, que é a construção das famílias de alma.
Em geral os reinos, os países, as nações, etc., vivem tendo como arcabouço as famílias de alma. E é quando as famílias de alma desse reino decaem que o reino decai irremediavelmente. Isso é assim. E essas famílias de alma, em geral, são fundadas por um, segundo o qual as outras almas são suscitadas, que são como que uma espécie de molde, segundo o qual depois Deus modela todas as outras vocações.
Em geral, o que nós vemos na História é que na raiz de toda grande época das nações católicas existem — em geral é isso — algumas grandes almas que suscitam ou ressuscitam alguma grande família religiosa, e depois, como uma espécie de exalação perfumada disso, nascem os grandes líderes temporais para servir a Igreja.
Então, por exemplo, Santa Teresa, Santo Inácio, São Francisco de Borja, Duque de Gandia, São Francisco Xavier, São João da Cruz, etc. Pode-se fazer um tecido, imaginar um tecido de almas, um conjunto de focos luminosos de cujo encontro nasce um Felipe II, chamado a ser o que ele foi. E ele, para a Espanha, foi um patriarca. Um patriarca menor do que o próprio mito, mas que fez uma grande coisa: deixar um mito no qual os pósteros creram, de maneira que o bem que ele não fez, o mito dele fez depois dele.
* No Reino de Maria, reluzirá o charme grandioso da TFP — Ao contrário do que hoje se pensa, a seriedade tem charme
Então eu me ponho a perguntar:
No Reino de Maria o que haverá? Com o Grand‑Retour para nós aqui na terra, o que haverá no Reino de Maria? Com que graças especiais, com que reluzimentos especiais, o Divino Espírito Santo se fará sentir, quando chegar a hora de Ele insuflar a graça decisiva do Reino de Maria?
Isso deve modelar a todos nós.
Os senhores sabem o que é o heliotropismo: a tendência das plantas a se voltarem para o sol. O sol, no caso, é o Divino Espírito Santo. E é necessário que Ele nos encontre ávidos d’Ele. De maneira tal que Ele se manifestando, nós nos voltamos e nos abramos imediatamente.
A TFP é uma preparação para esse momento. E o sentido dela é não só o precônio da Bagarre e do castigo, mas também algo que faz luzir de antemão o Reino de Maria, com o toque do Divino Espírito Santo que vem.
O que é que a TFP tem assim? Nessa clave é possível responder. Se a gente considera as capas, estandartes, os hábitos, o todo da TFP o que tem?
A fórmula usada por um jornalista — “o charme grandioso da TFP” — diz muito e tem sido muito utilizada por nós. Mas charme é uma coisa que admite mil modalidades. Em qual das modalidades do charme se encontra o charme da TFP? É uma pergunta que se pode fazer. A própria grandeza compreende mil modalidades. Em qual modalidade de grandeza se encontra a grandeza da TFP?
Eu tentei encaminhar algo disso no Santo do Dia de hoje à noite. Eu tentei encaminhar no Santo do Dia de hoje à noite uma noção para a qual eu gostaria de ver as almas mais ávidas do que são. E é a noção da seriedade.
Se nós escavarmos a noção de seriedade para dela tirarmos todos os tesouros que contém, e perguntarmos como é que a seriedade pode ter charme… Quando exatamente se considera que o charme é o contrário da seriedade. Porque o conceito corrente é que o charme faz sorrir, e aquele que faz sorrir é o contrário da seriedade. É o conceito corrente. O conceito saca-trapo é esse. Isso de um lado.
Agora, de outro lado, que relação há entre a grandeza e a seriedade? Que espécie de grandeza é essa que prima pela seriedade? Aí nós não teremos esgotado o assunto, mas teremos nos aproximado do assunto.
* Seriedade é uma disposição de alma para ver inteiramente a realidade e dela tirar todas as conseqüências
Então, o que é a seriedade?
No seu primeiro aspecto, na sua primeira definição mais elementar, a seriedade é a disposição de alma pela qual ela quer ver a realidade absolutamente como a realidade é, e tira do que vê todas as conseqüências que logicamente se devem tirar.
A seriedade comporta dois elementos: observação inteiramente objetiva, doa como doer e seja como for, do visto; legítima extração de conhecimentos não vistos de dentro daquilo que foi visto.
Então, a seriedade é a perfeição na objetividade e a plena fecundidade no suscitar conseqüências, a plena abundância das conclusões.
O que é plena aqui? Tanto quanto aquela alma foi dado ter. Há medidas. Então é sério aquele que vê tudo como deve ser e conclui até onde ele pode concluir.
O homem que tem apetência de seriedade não faz, portanto, do ver ou do julgar, ele não faz do ver e do julgar algo para se deleitar a si mesmo. Ele quer ver a verdade ainda que não o deleite, e ele quer julgar ainda que não lhe seja grato julgar daquele modo. Mas ele quer julgar com justiça.
Portanto, ele está numa atitude de combate habitual contra si mesmo. Porque nós todos temos uma tendência à falta de seriedade, quer dizer, temos uma tendência a ver as coisas como não são e a julgá-las como nos convém, e não realmente como elas devem ser.
Não escapa um homem a essa tendência. Mais ou menos um pelo outro é assim. E assim como, por exemplo, nenhum homem escapa à tentação contra a pureza, nenhum homem escapa da tentação contra a seriedade.
* A realidade é hierárquica como uma serrania — O homem precisa vê-la assim e situar-se no lugar que lhe compete
Mas a seriedade tem mais.
É que aquilo que o homem sério vê, não basta que ele veja numa superfície plana. Vamos dizer, como, por exemplo, um homem que fosse voar muito alto e fotografasse um sistema montanhoso muito de cima. Aquelas montanhas pareceriam meio achatadas na fotografia e quem visse a fotografia não teria a impressão de toda altura das montanhas, porque o ponto de vista de onde foram fotografadas foi muito alto.
O homem não pode ter um ver achatado da realidade, porque a realidade não é chata. A realidade é toda ela hierárquica, é toda ela feita, portanto, em ascensões, em serranias. A realidade é uma imensa serrania, e é preciso vê-la assim, a gente saber situar-se nela, no lugar que compete à gente e não onde a fantasia da gente queria nos colocar.
É tão fácil pecar contra esse dever. Tão fácil! O homem tem uma tendência para pecar contra esse dever quase contínua, quase como para respirar.
* A vida do homem sério é uma longa peregrinação à procura da perfeição de todas as coisas
E a seriedade plena, porque é altamente hierárquica, visa os cumes e visa aquilo que se chama um píncaro de tudo, constantemente, em tudo.
Então, por exemplo, se vai considerar aqui essa pedra, essa água-marinha, o que regala com o luminoso dessa água-marinha, de fato o homem sério faz uma comparação mais ou menos subconsciente com pedras que ele viu e que não tem essa luminosidade. E se espanta de que uma pedra possa ser luminosa assim, com qualquer movimentozinho que se lhe comunique.
Há, portanto, uma comparação com as outras coisas. E há, no fundo da cabeça, sem que o homem se desse conta, uma espécie de desejo da pedra ideal, que não seria como nenhuma dessas e que na terra não há. Há uma espécie de desejo de pedra do paraíso terrestre, uma espécie de desejo de pedra do céu empíreo, que possa regalar o homem na sua inteligência, no seu sentido, na sua vontade. Possa regalar plenamente, ainda que ele não tenha nunca pensado nisso.
E o homem sério se volta continuamente para essas matrizes primeiras, e trata de explicitá-las. E quando a gente percebe, a vida dele inteira é uma longa peregrinação à procura das formas perfeitas … [inaudível]… perfeito de todas as coisas.
Mas ele não tarda em perceber que nada é perfeito, a não ser Aquele que é a Perfeição, e o desejo dele de perfeição, em última análise, se volta para Deus. E que sem Deus Nosso Senhor tudo se pulveriza, perde o sentido, só ele é Absoluto. Sem o Absoluto, tudo afunda no nada, tudo afunda no relativo, tudo afunda no nada.
O homem então compreende que este seu desejo contínuo de perfeição, que é por assim dizer o bater de coração de sua seriedade, esse desejo de perfeição em todas as coisas, que é a alma de sua intransigência, é o impulso de sua combatividade, é a fonte inspiradora de seu carinho, de seu afeto, é esse impulso contínuo para a perfeição que é o amor de Deus. Deus só é perfeito!
Isto deve animar continuamente o homem sério.
* No colibri e no miosótis, Deus mostra uma perfeição charmant existente nEle, porém de modo majestoso e deslumbrante
Agora, entra então o charme — entra o relógio que corre… — e entra a grandeza. Instalam-se com naturalidade nesse panorama, uma coisa espantosa.
Se costuma dar, se costuma aplicar a noção de charme a seres que em geral fazem sorrir. São mais miúdos, são engraçadinhos e têm uma certa forma pequena de perfeição, que desperta um pouco de compaixão, um pouco de ternura e um pouco de vontade de proteger, mas que de outro lado embevece. Por exemplo, é charmant, no sentido em que eu estou usando a palavra.
É como no português: no português do Brasil a palavra charme se aclimatou inteiramente, como a palavra whisky, tão menos charmant, por exemplo.
Então, digamos, neste sentido, tomando a palavra charme, Deus é charmant?
O charme é uma qualidade. Ora, Deus é todas as qualidades. Logo, em Deus deve haver charme, mas não com essa tonalidade, porque essa tonalidade fala de limitação. Como é que se pode imaginar que Deus faça sorrir?
Deus até deseja que o homem sorria. Quando Ele criou, por exemplo, o colibri, Ele quis que o homem sorrisse. Quando Ele criou os miosótis, Ele quis que o homem sorrisse. Quis mostrar algo que é uma forma de perfeição que é charmant, mas que nEle existe de um modo grandioso, majestoso.
NEle existe não enquanto pequeno, mas enquanto o quê?
Tendo aquela forma, produzindo de modo deslumbrante o que em português se poderia falar, sem violentar a palavra, em charme deslumbrante, que sai da categoria do pequeno que voa para uma alta categoria.
Então um charme deslumbrante, que forma de charme seria? A gente está vendo que seria o charme por excelência, no qual esses pequenos charmes da terra são apenas reflexos.
Aí a gente compreende a ligação do charme com a grandeza, porque em Deus tudo é infinito, ou Ele é infinito. Portanto, há alguma coisa à maneira de charme, à maneira daquilo que nós, nas criaturas, chamamos charme, que nEle existe infinitamente.
* Tudo quanto na natureza é opalescente não indica a sucessão dos charmes grandiosos de nosso Deus entretanto imutável?
Pode-se ter uma idéia?
Para estudar coisas dessas é que eu penso na minha gruta e no Cornélio. Porque são coisas que eu gostaria de estudar antes de morrer. Gostaria de me apresentar diante de Deus com isso estudado, com meu espírito formado para isso, formado por isso.
Eu vou aventurar-me, mas, por exemplo, dizer o seguinte:
Como nós não somos eternos — eu sujeito o que vou dizer ao juízo da Igreja —, nós gostamos de uma certa mudança. E Deus é eterno e não muda nunca. Mas como nós somos limitados, Deus vai nos fazendo ver aspectos sucessivamente diversos d’Ele, que são aspectos que mudam para nós, não nEle. Mas como Ele é infinito, nós podemos passar quinquilhões e quinquilhões de anos que não teremos chegado ao bê-à-bá. E, na sucessão desses vários quadros, desses vários painéis de Deus — para falar em painéis… toda linguagem se torna vacilante para falar de uma coisa tão alta —, pode haver mudanças que expliquem ao homem o que o homem sente quando ele vê o furta-cor da cor de uma borboleta, ou quando ele vê a agilidade de um colibri, ou o encanto colorido de asas de certos colibris.
E tudo quanto na natureza é irisado, opalescente, nacarado não será algo que diz respeito à sucessão com que de Deus vão saindo os charmes grandiosos? E depois as grandezas que de algum modo são charmants? Não é essa abóbada entre o charme e a grandeza que constituirá um encanto no Céu? Pode-se pensar isso.
* Ao contemplar o Menino Jesus, Nossa Senhora aliou charme e grandeza mais que toda a Criação reunida
E é claro que se isto é assim, se não estou errado, isto tem que ser salientíssimo em Nossa Senhora, mais do que em toda a Criação reunida. É também evidente. E aí a gente pode compreender como será nossa contemplação de Nossa Senhora. Tanto mais que nEla, no Céu, está havendo sucessivamente isso, sucessivamente isso.
Ela teve alguma coisa assim na terra?
Teve. Ela reuniu de um modo terreno o charme e a grandeza, quando Ela contemplou o Menino Jesus. Porque ali realmente é o pequeno, com todo o encanto do frágil e do pequeno, mas com a majestade de Deus.
Como terá sido realmente o Menino Jesus? Quem é capaz de excogitar isso? Menino Jesus diante do qual os reis magos se aproximaram reverentes, trazendo o que tinham de melhor, e que entretanto era uma criancinha que se amamentava do leite puríssimo de Nossa Senhora, que dependia d’Ela até para espantar um mosquito.
Os senhores podem imaginar Nossa Senhora olhando para o Menino Jesus e Ele, por exemplo, vendo que a natureza humana d’Ele queria ser mimada, e Ela mimando o Menino Jesus e pensando: “Deus quer ser mimado por mim!”. É de não saber o que dizer. É tanta coisa para dizer, que certamente não cabe no limite de tempo que nós temos. Tanto mais que o tempo irreparável fugiu e nós temos que nos despedir.
* A Sra. Da. Lucilia desceu com nobreza a rampa da velhice e, sem perder nada do que tinha de augusto, passou a parecer um bibelot inestimável e enormemente charmant
(Todos: Fatinho!)
Mas o fatinho… eu sempre me esqueço desse famoso fatinho.
Meu Fernando, qual é o fatinho, meu Fernando?
(Sr. F. Antúnez: A Sra. Da. Lucilia onde aparecesse especialmente o charme e a seriedade.)
Por uma questão de ótica — dá-se com toda criança —, a criança quando é muito pequenininha julga seus pais enormes, maduros, provectos, inteiramente formados e com um domínio sobre todas as situações, uma coisa extraordinária. E ela que era muito madura de espírito — os senhores vêem por aquela fotografia que está no meu quarto, enormemente madura de espírito —, ela me parecia a própria manifestação da maturidade plena. Por causa disso, um juízo emitido por ela era para mim uma coisa definitiva. Era aquilo, estava liquidado o caso, não tinha mais nada que acrescentar.
À medida que eu fui tomando corpo, ficando maduro, ela descia com nobreza, com charme, a rampa da velhice, e em certo momento eu comecei a achá-la miúda. Eu que toda vida a chamei de mãezinha, comecei a notar quanto ela era pequenininha, e até brincar com ela a esse respeito. E a achava graciosa nas suas dimensões. E qualquer coisa frágil que a velhice ia ponde nela, mas que não tirava nada do que tinha de augusto, nem de sério, nem de respeitável. Pelo contrário.
Aí eu me lembro que muitas vezes eu brincava com ela na base de achá-la graciosa, achá-la pequenina. E eu fazia isso tão naturalmente, que nem me passou pela cabeça se ela gostava ou não.
Mas agora, revendo, vejo também que ela tomava tão naturalmente, que não sei se ela tomou consciência dessa mudança de clave, de tal maneira isso correu naturalmente de um para outro, como são e devem ser as coisas, assim…
Eu me lembro que no fim ela me parecia quase um bibelot. Um bibelot de valor inestimável, mas enormemente charmant. E naquela cadeira de rodas feia, que tem no quarto dela, mas que era a que ela usava, naquela cadeira de rodas me agradava vê-la chegar. Aquela cadeira treme um pouco. Vê-la chegar empurrada pela empregada, vê-la chegar com aquilo tremendo um pouco, mas ela séria e direitinha, eu a achava charmant.
Os senhores dirão porque não comprei para ela uma cadeira de rodas mais atualizada.
Vem bem a idéia de charme. No tempo que ela usava cadeira de rodas, já se usavam cadeira de rodas como essa que eu estou usando. Mas ela me parecia delicada demais para ser metida naqueles metais e naquelas matérias plásticas. Me parecia que aquilo não era um porta-bibelot. É cirúrgico, é de hospital, é prático, é feito para ser lavado, limpado e para levar dentro uma mercadoria que não se move por si mesma e que é uma pessoa que tem invalidez. Então, pôr ali dentro e empurra aquilo, é uma mercadoria.
E me pareceu que uma cadeira velhota como aquela, mas de palhinha, de madeira, de matéria viva, com formas sensivelmente anacrônicas, ficava melhor para todo o charme dela.
Aí os senhores vêem bem um dos mil lados por onde esse charme me era muito sensível.
Meu Fernando, sua pergunta está respondida. Se ela estivesse aqui, nos aconselharia para irmos dormir.
Vamos rezar três Ave-Marias finais.
*_*_*_*_*