Conversa de Sábado à Noite – 16/7/1983 – Sábado [AC VI ‑ 83/07.26] . 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite — 16/7/1983 — Sábado [AC VI ‑ 83/07.26]

Ao se olhar para a imagem de um santo, ou para determinados lugares, quando se vê com a graça, se vê de um jeito que não é como se visse sem a graça * O Primeiro Andar preparou o Sr. Dr. Plinio para fazer nascer o que é hoje o Êremo de São Bento — Ele é inteiramente consonante com o São Bento * Objeções de certos membros do Grupo quanto à decoração do Primeiro Andar * “A sacralidade não consiste em pegar uma coisa moderna e pôr dentro uma cruz — Sacralidade é muito mais do que isso” * A bênção no Primeiro Andar, além de outras razões, é porque a Sra. Da. Lucilia morou lá * O que é característico de São Paulo é a organização em conjunto das qualidades da vida temporal — São Paulo é muito mais completo dos que os outros Estados brasileiros * São Paulo é uma superior mistura de mando, de talento, que se poderia chamar exemplaridade * A seriedade do paulista dá a possibilidade “de dar à religião todo valor que ela tem, e de a situar inteiramente com todos os seus dogmas, toda sua Moral, no plano transcendental de respeito e de veneração que ela merece” * Enquanto o Sr. Dr. Plinio é de temperamento pacífico, a Sra. Da. Lucilia era mais amiga da paz do que de temperamento calmo * No sul do Brasil existem arquipélagos étnicos e psicológicos, completamente alheios com o resto do Brasil * Barão de Antonina, um contraparente do Sr. Dr. Plinio que ajudou o Convento da Luz em São Paulo

* Ao se olhar para a imagem de um santo, ou para determinados lugares, quando se vê com a graça, se vê de um jeito que não é como se visse sem a graça

A certa altura da resposta que o Guerreiro perguntar, a gente pode tratar disso também. Quer dizer, ter isso em vista.

(Sr. Poli: Quer dizer, já que tem esse levantamento todo contra o senhor, contra a Sra. Da. Lucilia, fazer uma pausa na intimidade, conversar um pouco. Faz anos que não se fala de Da. Lucilia.)

O que quiserem, vamos tratar um pouquinho do que quiserem. Mas, meu Guerreiro, ponha uma pergunta, e a propósito dela, se encaixa alguma coisa.

(Sr. Guerreiro Dantas: Com a vinda da sagrada imagem muitas graças recebemos. E sendo hoje aqui a reunião, as recordações, etc., são mais saudades que querem se manifestar do que propriamente colocar perguntas.)

Você sabe que essa saudades é muito bom externá‑las e, externadas, elas se prestam a uma análise. A análise assim muito mais longamente e muito escolarmente — por causa da natureza do público —, eu fiz para o Santo do Dia, agora. Mas é o seguinte:

Em última análise, essa alegria assim, vem de um certo conhecimento que a gente tem da graça que está em si próprio. Quer dizer, a imagem é uma ocasião para a gente receber uma graça. E a gente vendo a imagem com a graça, a gente vê na imagem coisas que não veria se não fosse a ajuda da graça.

Assim também pode ser em lugares onde a gente recebe edificação, quando a gente vê com a graça, a gente vê de um jeito que não é como se visse sem a graça. E esta alegria assim, a gente pensar que ela tem… é uma participação criada na felicidade infinita do próprio Deus, que seria mais ou menos, como você quisesse uma gotinha de sal, um grãozinho de sal do oceano, mas é isto. A gente compreende que a alma tenha nisso uma forma de bem‑estar que nenhum prazer terreno compensa. É passageiro, mas é verdade que, quando a gente tem, nenhum gáudio terreno compensa isso.

E aí a gente pode compreender o que será a eternidade, porque vendo Deus face a face, a gente vai ter isso multiplicado por não sei o quê, não sei o quê, nem se sabe o que dizer. E aí, então, uma felicidade! Mas, desta ordem, deve ser vista nessa linha. Aí eu tenho a impressão que dá apetência de ir para o Céu. Dá apetência, dá vontade de morrer e vontade de ir para o Céu para se encontrar logo lá. Aí a morte deixa de ser uma execução por pena capital, mas é um convite para uma viagem, por um processo um pouco violento, mas de chegada imediata, de resultados eternos. E aí a vida da pessoa toma outro significado.

* O Primeiro Andar preparou o Sr. Dr. Plinio para fazer nascer o que é hoje o Êremo de São Bento — Ele é inteiramente consonante com o São Bento

A gente poderia comparar um pouquinho assim: você imagine que eu fosse forçado — que Deus me livre — a vender esses objetos. Então, entraria um colecionador e faria avaliação dos objetos. Ele teria a perspectiva humana de um negócio para fazer. Ele teria a alegria de fazer o negócio.

Bem, nossa alegria é uma alegria completamente diferente da dele, e tão diferente da dele, que nem há uma comparação possível. Ele não imagina nossa alegria, não imagina porque, quem não a teve, não a sente. Mas, se se dissesse para um de vocês: “Renuncia aqui nas mãos do demônio, mediante dez milhões de dólares, a jamais ter durante a vida uma alegria assim”, não faria. O que iria fazer desses dez milhões de dólares?

Uma alegria dessas não. Dá sentido à vida. É tão calma, tão acolhedora, tão serena, tão aprazível. E até a gente pode fazer uma certa comparação entre os dois ambientes, o ambiente daqui e o ambiente de São Bento. Porque o ambiente de São Bento é um ambiente muito sublime, em que se tem a impressão de que tudo está voltado para o Céu. É muito sublime.

Aqui não. É um ambiente muito digno em que se tem a impressão de que o Céu e a Terra se tocam. Para a glória do Céu cada coisa dessa tem sua beleza própria.

É mais ou menos como você estar num panorama marítimo e olha o mar e o céu, distintos. Mas depois você olha a linha onde a vista dá a ilusão de que o céu e a terra estão se encontrando. Ali tem uma beleza própria que a beleza do céu e do mar não têm. É uma beleza própria.

Assim também, aqui é uma espécie de fio onde a vida natural, os objetos da vida cotidiana, da vida terrena, etc., tomam uma suavidade, uma distinção, uma candura, um acolhimento especial. E o homem é feito para gostar de uma e outra coisa. Não é feito para escolher entre uma e outra coisa. Para mim, isso é que localiza bem as impressões que a gente tem do São Bento e daqui de casa. Não sei se concordam, se sentem isso como eu sinto?

(Sr. Guerreiro Dantas: E para quem, depois de muito tempo que não vem aqui, há um aspecto que é, curiosamente, o conjunto de tudo aqui, como explicam em certo momento nascer o senhor. Há um encanto aqui, explica uma parte do senhor que no São Bento não explica, porque o São Bento dá outro lado da alma do senhor, a vocação, etc… Aqui há uma preparação do senhor para lá.)

Fico pasmo do que você disse, porque é muito verdadeiro. Em tudo isso eu colhi elementos para conhecer melhor o que é a civilização cristã. Através da civilização cristã, em algum sentido o que é a Igreja. E isto destilado, requintado, etc., deu numa coisa inteiramente consonante com o São Bento. Inteiramente!

* Objeções de certos membros do Grupo quanto à decoração do Primeiro Andar

Há uma outra pessoa que olha isso como uma espécie de rigor inadequado. Por exemplo, já ouvi dizer que essa estátua aí é obscena.

(Sr. Guerreiro Dantas: Confesso ao senhor, que ao entrar aqui pela primeira vez em 1967, olhei aquele busto…)

Ficou mal impressionado, é?

(Sr. Guerreiro Dantas: Não, não! Olhei e me fez tanto bem, me lembro que olhei para aquele busto e tive uma tal impressão da inocência feminina…)

É, isso é estátua para se chamar inocência feminina.

(Sr. Guerreiro Dantas: O que deve ser a inocência feminina que a mim me desinfestou. Me fez bem para a castidade.)

Eu acho que aquilo é muito inocente. É o oposto do feminismo moderno. Você sabe que eu acho que, sem essa peça, a sala ficava muito descaracterizada. Já houve também quem objetasse que a Duquesa de Nemours está com uma parte dos braços nus… Mas isso é uma coisa que não se vê assim, não é assim.

(Sr. Poli: Se entra por aí, cai numa tal “bolostroca” de visão.)

De panorama. E depois, não é possível conversar. Porque, por exemplo, a Duquesa de Nemours ali, a meu ver, está perfeitamente correta. Não tem nada que objetar.

(Sr. Guerreiro Dantas: Mas, entrar aqui é entrar num “tours” pela vida do senhor.)

Aqui, realmente, está grande parte de minha vida. Porque, primeiro, a maior parte desses objetos eu convivi com eles na minha infância, formei meu espírito ao lado deles, tratando com eles, analisando‑os, fazendo ambientes, costumes, meio subconsciente, em face deles. Depois, os outros objetos que foram comprados, foram comprados nessa perspectiva. De maneira a completar a perspectiva e não de maneira a quebrar a perspectiva. Isso forma, portanto, neste sentido, ambiente de minha infância.

E eu vejo que há estranhezas. Também estranheza do seguinte: nos panoramas… têm uns dois ou três panoramas aqui. Nenhum deles têm um santo ou objeto sacro. Mas eu acho isso tudo tão curto de vistas, que não dá para conversar.

Se, por exemplo, a pessoa me diz que aquele quadro lá é ímpio porque representa Veneza, mas não representa São Marcos, eu não tenho objeção, resposta a dar. Você tem resposta para isso?

Aquilo é religioso por sua natureza, por sua candura, não precisa ter uma igreja dentro do panorama. Se fosse, se tivesse, também seria bom, mas não era necessário, absolutamente.

(Sr. Poli: Faltando certas coisas fundamentais, básicas, morre a conversa.)

É. Depois, outra coisa, facilmente dá encrenca, porque é um tal desatino, que dá em briga.

Aqui, por exemplo, há uma cenazinha — vocês não se lembram, mas há uma gravurinha na parede onde está a Duquesa de Nemours: é D. Pedro recebendo da esposa dele, D. Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa dele, a espada do Príncipe Eugênio de Beauharnais, que era pai dela. Esse Príncipe Eugênio de Beauharnais era general de Napoleão, filho do primeiro casamento de Josefina, e que Napoleão adotou como filho. E foi, portanto, um soldado dele.

Então, objeção: na casa de um contra‑revolucionário esta cena não poderia figurar. É não entender as coisas, não entendeu, está acabado. Agora, isso não se pode explicar, porque não tem explicação. Quer dizer, para nossa ótica não é o que representa. A gente abstrai a espada do príncipe Eugênio, que foi um cachorro, a gente olha, é o lado de uma cena romântica do século XIX, com o que ainda tem de bom no século XIX e que aparece ali. É isso que aparece, mais nada.

(Sr. Poli: Aparentes coisas objetáveis, para ótica mesquinha, as Sagradas Escrituras tem 500 coisas dessas.)

A Sagrada Escritura tem uma coisa muito curiosa, não me lembro que cena está, mas é isto. Um personagem qualquer do Antigo Testamento que voltou de viagem, uma coisa assim, e a família veio muito contente de encontro a ele e veio inclusive o cachorrinho batendo o rabo. A Sagrada Escritura conta que veio o cachorrinho batendo o rabo.

(Sr. Marcos Fiúza: Foi Tobias quando chegou de viagem.)

Quando Tobias chegou de viagem, conta isso para dar o ambiente. Eu tenho a impressão que há gente que acha que isso não caberia na Escritura. São visões… até podemos não pensar neles, pensar em outras coisas.

* “A sacralidade não consiste em pegar uma coisa moderna e pôr dentro uma cruz — Sacralidade é muito mais do que isso”

Agora, neste sentido, eu sinto nesses salões aqui, como na sala de jantar também, muita bênção.

(Sr. Poli: A gente tem vontade de entrar aqui, se não fosse espalhafatoso, cada vez oscular o chão. Tal a bênção. Tem sacralidade.)

Tem. Depois, tem a forma de sacralidade que nos é específica, que é fazer com as coisas temporais — também na respectiva atmosfera temporal —, tenham sacralidade. Quer dizer, a sacralidade não consiste em pegar uma coisa moderna e pôr dentro uma cruz. Sacralidade é muito mais do que isso. É claro que faria falta se não houvesse um objeto religioso aqui. Esse objeto existe, é a imagem do Sagrado Coração de Jesus com uma coluna, etc… Quando ao mais é a vida terrena digna, reta, osculado pela graça, está perfeitamente bem. É o encontro, ponto de encontro. E a gente se sente alegre com isso, sente bem‑estar com isso.

(Sr. Poli: Uma vez que o senhor não pode ir comungar, eu consegui um padre aqui, para trazer comunhão.)

Era um padre do Coração de Maria, me lembro.

(Sr. Poli: Um enjolrão do Coração de Maria. Mas ele entrou aqui e ficou pasmo: que bênção, dizia ele, me explica quem é este senhor, quem mora aqui, etc… E deu umas duas voltas em si mesmo olhando, olhando e perguntando o que era, quem morava, etc…)

É, é isso, ele soube sentir isso.

(Sr. –: Prova dos nove, porque se um padre percebeu…)

É. É isso mesmo!

* A bênção no Primeiro Andar, além de outras razões, é porque a Sra. Da. Lucilia morou lá

Agora, há muito disso porque mamãe morou aqui. Porque a gente olha o Quadrinho, a gente vê que é o ambiente dela.

Feito por ela, para ela, adequado a ela, tudo isso que está aqui, sem tirar nem pôr. Exatamente assim.

(Sr. Marcos Fiúza: Quando termina a conversa da noite, a gente vem aqui para fechar o salão, tem‑se a impressão de presença de anjos que retomam aqui — não que tivessem saído —, mas como que retomam a relação do salão com a Sra. Da. Lucilia, com o passado, com a ordem de Deus, a gente tem essa sensação de que os anjos vêm, passeiam aqui.)

(…)

Das instituições, ou de certas instituições meio independentes — não é inteiramente independente —, das pessoas que a constituem.

Então, esse ambiente aqui é por causa de mamãe que era uma pessoa toda feita disso. Mas lá havia outras pessoas que tinham algo disso, mas em grau muito menor e com elementos contrários.

Mas, apesar de tudo, enquanto essas pessoas representavam uma instituição, quer dizer, uma determinada… primeiro, a instituição da família. Depois, uma família com uma certa linhagem. Não era uma linhagem extraordinariamente aristocrática, era uma boa linhagem, mas tinha essa linhagem. Tinha uma espécie de graça que era uma graça da qual isto aqui participa, mas uma graça que era mais temporal do que isso aqui, mas era verdadeiramente uma graça.

(…)

* O que é característico de São Paulo é a organização em conjunto das qualidades da vida temporal — São Paulo é muito mais completo dos que os outros Estados brasileiros

(Sr. Guerreiro Dantas: … posto que desperta um atrativo, um “pulchrum” e a gente vê ali um desígnio de Deus, como fazer com que este botão se transforme em flor, esta impressão se abra inteiramente para contemplação do espírito?)

Seria preciso entender o seguinte: por exemplo, em matéria de História, você tem historiadores que são especialistas em determinados pontos de História. Por exemplo, a primeira parte da história da batalha de Turenne ou, então, do Príncipe Eugênio. Nisso a pessoa é genial, só conhece isso, mas conhece isso como ninguém, etc…

Agora, há outros com uma forma de talento diferente que pega melhor os conjuntos. E que, então, são feitos para tomar o que se escreveu sobre Turenne, sobre isso, aquilo e, por exemplo, dizer: “o século de Turenne”, ou, então, “o século do príncipe Eugênio”. É uma visão de conjunto que é diferente da primeira visão.

Assim também, na vida temporal, existem pessoas que se aprofundam em determinados ramos, se especializam muito. Ou existem Estados, países, etc., que têm certo dom muito saliente, muito mais do que outros. E há outros Estados ou países que têm o dom de pegar o conjunto de toda vida temporal e organizá‑la excelentemente. Eles não são tão exímios nisto, naquilo, naquilo outro, eles pegam o conjunto.

E o que parece que distingue São Paulo dos outros Estados da união é precisamente isto. Quer dizer, a vida temporal é uma vida temporal… o paulista não sendo, habitualmente, tão inteligente quanto o nordestino — naturalmente há exceções —, o paulista não tem aquela alocução brilhante, aquela exposição fácil, aquela coisa toda que tem o nordestino, não tem outras qualidades desse, daquele, daquele outro Estado do Brasil e, neste sentido, é fácil um Estado afirmar‑se muito superior a São Paulo.

Mas o que é característico de São Paulo é a organização em conjunto dessas qualidades da vida temporal. De maneira que você toma o paulista e dirá que ele é muito inferior, por exemplo, em poder de expressão do que o nordestino. Que ele é muito inferior em capacidade política do que o mineiro, tá, tá, tá… Mas você toma cada Estado por si, é muito saliente naquilo, mas lhe faltam muitas coisas. O paulista é muito mais completo. É o protótipo da organização do conjunto. Então, vem o conjunto de qualidades humanas também. O que faz com que o conjunto da vida organizada em São Paulo foi um conjunto mais acertado e mais brilhante no século passado e no começo deste século, até 1930, 1932, 1950 — conforme queira calcular —, foi mais brilhante do que o resto do Brasil. Por causa deste conjunto.

Então, você toma, por exemplo, uma casa baiana, a boa Bahia, meu Guerreiro, com móveis antigos, tradição, tem incomparavelmente mais do que esses salões, mas é uma coisa figé no passado, hirta no passado, que representa um determinado momento da história da Bahia e um determinado feitio do espírito humano, não representa mais do que isso. Conjunto não tem. De maneira que você não tem a impressão de, aqui, estar num museu. Numa casa baiana, segundo estilo colonial, você tem a impressão de estar num museu.

(Sr. Guerreiro Dantas: Isso é muito verdadeiro.)

Quer dizer, neste período o paulista “enfechou” a organização da vida. O que era a Bahia nesse período. O período da decadência…

A sagrada imagem está entrando.

Domnina Nostra Fatima…

(Sr. Marcos Fiúza: Na linha do que o senhor está dizendo, o Império se ressentiu muito de não estar muito mais unido com São Paulo. O meio vazio que havia de organização do Império, na corte, etc., Rio, o senhor falando isso agora, a gente sente que foi isso.)

Você veja, por exemplo, o Rio. O Rio, finura, finura tem muito mais do que São Paulo. Mas é que exatamente entra a questão dos conjuntos aqui. É que aquela finura carioca não é a única coisa do homem. Eles só têm isso. Mas o senso do mando, o senso da liderança, o senso do impulso em conjunto, etc., o Rio não tem. Absolutamente não tem esse senso que tem São Paulo. Então, tem panorama lindo, mas foi dado por Deus. É preciso dizer, aliás, que os homens não fizeram uma cidade muito afim com o panorama, e é uma cidade que está ficando cada vez menos afim com o panorama. Aquela “Muleta do Gigante”, por exemplo, é uma coisa monstruosa, não sei o que dizer daquilo. Então, isso já é um defeito muito grave. Por outro lado, você toca o carioca no seu conjunto, ele representa muito menos do país do que a cidade representa o país. A cidade tem um lindo panorama, mas o Rio não é grande coisa.

* São Paulo é uma superior mistura de mando, de talento, que se poderia chamar exemplaridade

Você pode ir tomando assim vários outras unidades do Brasil, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas, tudo o mais, eles são excelentes em torno de uma coisa que faria assim: São Paulo não é a capital do mando. O mando está distribuído entre Minas com a habilidade, e o Rio Grande do Sul, força e habilidade. São Paulo não é o talento, São Paulo não é isso. O que é São Paulo?

É uma superior mistura de mando, de talento, etc., que a gente chamaria exemplaridade. Então, São Paulo era o Estado líder do Brasil? Em certo sentido Estado líder sim. Tinha a missão de ser modelo. Isso tinha.

(Sr. Poli: O cachorro do Getúlio quando quis acabar com o Brasil, acabou com São Paulo.)

Acabou com São Paulo.

(Sr. Poli: Industrialização, fábricas, fábricas, São Paulo ficou uma fábrica.)

Uma fábrica, virou fábrica.

Agora, a questão é que isto…

(…)

* A seriedade do paulista dá a possibilidade “de dar à religião todo valor que ela tem, e de a situar inteiramente com todos os seus dogmas, toda sua Moral, no plano transcendental de respeito e de veneração que ela merece”

uma coisa feita de uma certa forma habitual de seriedade, mas com o bem‑estar dentro da seriedade. Enquanto a seriedade passa por um estado de desconforto de alma e de mal‑estar de alma aí fora, pelo contrário, é eminentemente o estado confortável da alma é a seriedade. Essa seriedade é mais. Uma seriedade, no sentido próprio da palavra, que não consiste só em não rir, mas consiste em ver a verdade como ela é, e gostar de vê‑la como ela é, com seus imponderáveis. Não é apenas a parte ponderável, mas a parte imponderável, até notadamente a parte imponderável.

Agora, nesta parte imponderável…

(…)

a posse habitual, no espírito deles, desses parâmetros.

E se quiserem tomar esses parâmetros a sério — o que nem sempre sucedia —, a possibilidade ao alcance de elaborar um estado de espírito muitíssimo correto debaixo desse ponto de vista.

Daí uma possibilidade de dar à religião todo valor que ela tem, e de a situar inteiramente com todos os seus dogmas, toda sua Moral, etc., no plano transcendental de respeito e de veneração que ela merece. Se eles tivessem correspondido bem à graça, teriam dado uma família eminentemente religiosa. Mas, como tal, eminentemente contra‑revolucionária e marcada pela cortesia, pela pertinácia — mas pertinácia — e por uma certa diplomacia, um certo jeito, que não era o arte de pegar aquele e confrontar com aquele, não. Era uma certa… uma arte diferente que joga menos com os outros do que consigo mesmo. E é apresentar‑se em tal ambiente e, por sua ação de presença, produzir tal efeito.

Não é, portanto, um jogo de bilhar, você bate aqui para calcular uma bola que vai bater lá. Eu não desdenho isso. Mas eles não têm talento para isso, sabem de fazer de modo muito comum. Mas é a idéia de ser alguém de tal maneira que, entrando, marque os jogos e altere as situações. É uma política que conta consigo, muito mais do que com os outros. O que não é em todos Estados que se cultivou igualmente.

Então, por exemplo, o nordestino conta com o que ele diz. O paulista contava com o que ele simbolizava, aquilo que ele se apresentava. E daí muita atitude.

(…)

Você já viu.

(Sr. Poli: Um bom objeto. Aquele ali é um polo de referência.)

Tal qual!

Bom, agora, ali é a paulista. É feia, não é bonita. Você sabe que essa roupa foi um pintor alemão que pintou nela, reformando o quadro, contra a vontade do filho dela, fez da cabeça dele, não vai para ela essa gravata e essa história, não vão para ela… mas enche o quadro, a sala. Ela tem uma presença. E morreu muito cedo.

(Sr. Poli: 28 anos.)

Mais ou menos.

* Enquanto o Sr. Dr. Plinio é de temperamento pacífico, a Sra. Da. Lucilia era mais amiga da paz do que de temperamento calmo

(Sr. Poli: A questão do autodomínio. D. Lucilia, por exemplo.)

Uma perfeição de domínio sobre si mesma.

Mas tem o seguinte: eles…

(…)

Então dava nisso. Mas era muito mais amiga da paz do que de temperamento pacífico. E eu sou de temperamento pacífico, graças a Deus. Eu sou tranqüilo, prefiro não brigar, prefiro levar as coisas às boas. Tendo que brigar, brigo. Mas prefiro levar às coisas às boas.

Nunca você me viu levar uma briga além do limite do necessário. Nunca, nunca, nunca!

(Sr. Poli: Aquela foto do quarto do São Bento.)

Ali você vê muito a liderança paulista. Afirmatividade, ereta, com porte, com luz.

Bem, eu compreendo que uma senhora carioca dissesse: “Mas a carioca é muito mais elegante!”. Eu concordo, é mais leve, é mais graciosa, eu concordo. Mas a questão é que essas não são as únicas qualidades.

Eu de bom grado dou a elas a palma nisso. Mas o conjunto… é preciso olhar o conjunto. Isso os cariocas não têm muito boa vontade para ver.

(Sr. Guerreiro Dantas: Cariocas são mais afetadas.)

(…)

* No sul do Brasil existem arquipélagos étnicos e psicológicos, completamente alheios com o resto do Brasil

(Sr. Guerreiro Dantas: Joinville, aqueles alemães, um pouco puxado à Europa o estilo de vida deles.)

Mas exatamente isso fica sem nexo com o Brasil. E esta falta de nexo é um defeito. Dever‑se‑ia saber estabelecer melhor esse nexo, porque não pode ser um país estrangeiro, uma gotinha do exterior posta no Brasil. Não pode ser. É uma coisa errada. Neste sentido, eu acho que toda Santa Catarina tem algo de…

(…)

Você sabe que eu gosto das coisas alemãs, mas precisaria saber fazer uma transição. Não poderia ser como é.

(Sr. Guerreiro Dantas: E o paulista teria mais condições para isso.)

Teria condições.

(Sr. Guerreiro Dantas: O paulista, sério, coadunaria mais com o alemão. Porque o nordestino para o alemão, é uma caixa de surpresas.) [Risos]

Ah! não entendem!

(Sr. –: Concatenação seria possível.)

Seria possível e não foi feito. Resultado é que aquilo dá arquipélagos étnicos e psicológicos, completamente alheios à nossa… Eu vejo, tem dois russinhos no grupo de Curitiba, chamados Igor e Ivan. Até são simpatiquinhos os meninos, eu tenho a impressão de que são levadinhos.

(Sr. –: Um deles. O outro era, está mais calmo.)

Bem, os pais são russos e eles moram numa fábrica, posta a certa distância de Curitiba, [em] que todo mundo é russo e a vida é russa. Mas são russos que vieram fugidos do comunismo naquele tempo ainda. Aqueles dois meninos, se nascessem na Rússia, estava perfeitamente bem.

Você toma aqui o Arnolfo, está muito mais “embrasileirado” do que os dois russos. Os pais dele são ucranianos. Ele tem muito de russo, de ucraniano, tem. Mas ele está muito mais “embrasileirado”, não tem nem comparação. Aqueles dois meninos são dois russinhos, bonzinhos, mas é isso.

Meus caros, eu gostei tanto da conversa, mas o leito me chama.

* Barão de Antonina, um contraparente do Sr. Dr. Plinio que ajudou o Convento da Luz em São Paulo

(Sr. Poli: O senhor sabe quem fez a separação do Paraná com São Paulo foi aquele… está enterrado naquele túmulo que tem um leão…)

Barão de Antonina.

(Sr. Poli: Avançando com um rosário. E foi ele que deu o terreno e parece que construiu o Convento da Luz.)

Ah! foi o barão de Antonina, é? Que engraçado. Eu sei que ele era meu parente, não sei de que jeito, nem nada. Nem sei como ele chamava.

(Sr. Poli: É gaucho o homem.)

Deve ter casado com uma paulista, então.

(Sr. Poli: Casado com paulista.)

E essa paulista devia ser minha parente, então.

(Sr. Poli: Aquele leão dele é porque ele se pôs a catequizar índios com o rosário. É riquíssimo.)

Engraçado. Consagrou‑se a isso, é?

(Sr. Poli: Sim, e fundou Rio Negro.)

Isso é um sinal de predestinação.

(Sr. Poli: Tem um índio, o urso com um cocar, Evangelho na mão e o terço na outra.)

O brasão é assim? Não tem um leão, um bicho qualquer, é um urso?

(Sr. Poli: Um leão com cocar, que é o índio. Um Evangelho e o terço.)

Cocar, Evangelho e terço, no leão?

(Sr. Poli: E tem um machado pelo meio. Ele é Machado Leão.)

Com que família paulista é casado, não sabe?

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