Conversa
de Sábado à Noite – 25/6/1983 – Sábado
[RSN 044 e 045] .
Conversa de Sábado à Noite — 25/6/1983 — Sábado [RSN 044 e 045]
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Ante o panorama da Reunião de Recortes, considerar o caminho a ser trilhado e procurar uma proporção com nossas próprias forças, como numa borrasca ou numa batalha naval * Se houver intenção de dar a conhecer aos brasileiros menos perspicazes que a Bagarre vai arrebentar, o processo será rápido * Assim como grandes treinos indicam que uma peça teatral será representada, assim também o embalo do processo indica haver intenção de não voltar atrás * Esse raciocínio é feito em nome do bom senso, da observação e da experiência, Nossa Senhora se digne acrescentar algo mais * De repente, um governo socialista avançado nos obriga a vegetar trancados em nossas sedes
* Ante o panorama da Reunião de Recortes, considerar o caminho a ser trilhado e procurar uma proporção com nossas próprias forças, como numa borrasca ou numa batalha naval
Qual é a pergunta? Estou à disposição.
(Sr. Fernando Antúnez: Não sei se o senhor quereria tratar de algum ponto da Reunião de Recortes que foi um momento impressionante. O panorama que o senhor traçou, a via do assunto que o senhor abriu.)
Na realidade, a atmosfera da reunião de hoje à noite é bem diferente da atmosfera da reunião de hoje à tarde. A temática toda, tudo o mais diferente possível, o mais diferente possível. Tem que ser, a vida é essa, não é? Mas o que tem mais garra para ver no momento é a de hoje à tarde.
Bem, vamos então entrar por aí.
Agora, na reunião de hoje à tarde, a pergunta é a seguinte: todo mundo quando vê que está no limiar de um caminho novo, percorre o caminho com os olhos e depois deita os olhos também sobre as suas próprias forças, seus próprios recursos e procura uma proporção: “Como é que vou me haver dentro disso?”.
Vamos dizer, por exemplo, o quê? Uma navegação à vela, das antigas. De repente ameaça uma borrasca. A pessoa olha para a borrasca, vê o jeitão da tempestade que vai se aproximar, naturalmente pensa um pouco em si também. Quer dizer: “O que é preciso fazer para me segurar bem no navio, para as corcovas não me jogarem em qualquer lado e eu não me quebrar?.” Primeiro ponto. Agora, segundo ponto muito importante: “Eu tenho forças para me agarrar nas coisas onde eu tenho que me agarrar? Como é que vou fazer durante a tempestade?”. Depois, principalmente: “Como é que eu vou fazer para rezar durante a tempestade, não perder a distância psíquica durante a tempestade?”.
Mais magnífico ainda seria pensar diante de uma batalha naval: “O que é que eu vou fazer? Qual é o meu papel? Em que regimento eu estou servindo? Como é que se combate nesse regimento? Por exemplo, se for preciso dar um pulo do meu navio no navio adversário, o que é que eu faço, o que é que eu não faço, como é e tudo o mais?”. Proporcionar-se.
* Se houver intenção de dar a conhecer aos brasileiros menos perspicazes que a Bagarre vai arrebentar, o processo será rápido
Então eu apresentei hoje à tarde aos senhores um panorama que nos seus precisos termos é o seguinte:
É bastante provável, vamos dizer assim, parece inteiramente certo que haja um desígnio de dar aos brasileiros perspicazes uma impressão de que a Bagarre vai arrebentar. Agora, uma coisa é eu dar esse desígnio aos brasileiros perspicazes. Outra coisa que vem junto: há o desígnio também inteiramente certo de não revelar esse desígnio igualmente aos não perspicazes. De maneira que se os perspicazes deverem saber, o saibam aos poucos ou não o saibam a não ser quando estiverem na Bagarre.
Não sei se está claro.
Nós, por exemplo, vemos isso claro. Mas, por exemplo, nossos vizinhos provavelmente não têm a menor idéia disso.
Qual é a intenção? É que os nossos vizinhos conheçam isso aos poucos, ou a intenção é de que eles de repente percebam que eles estão numa borrasca?
Nós não temos elementos para responder a isso. Por isso mesmo não sabemos também se o curso das coisas vai ser rápido ou vai ser lento. Porque se eles quiserem que o pessoal conheça devagar, eles vão fazer devagar. Se eles quiserem que o pessoal conheça de repente, eles estouram com a coisa de repente, nos primeiros lances. Depois, durante a operação, a gente não sabe. Mas a entrée en cene, a entrada em cena é assim.
* Assim como grandes treinos indicam que uma peça teatral será representada, assim também o embalo do processo indica haver intenção de não voltar atrás
Agora, isso nós não sabemos.
Outro aspecto da questão que nós ignoramos é o seguinte: é que grau de probabilidade isso tem de estancar no meio como muitas vezes já estancou. É assim, de repente estanca. E nós temos que considerar: estancou. O processo move tantas coisas e está com tanto embalo, que é provável que haja a intenção de que ele não volte atrás. Eles não remexem tudo como estão remexendo sem ter a intenção de chegar até o fim.
Eu dou um exemplo e os senhores verão a coisa de pegar com a mão o alcance desse raciocínio.
Os senhores sabem que na peça de teatro, os atores vão várias vezes treinar a peça antes de ela se apresentar ao público. E nas grandes representações, nos grandes treinos para as grandes representações, provavelmente se põem inclusive os móveis que servirão no dia, para o ator se habituar a representar no palco com o mobiliário que vai estar no palco, para ele estar inteiramente familiarizado com tudo aquilo. Quando, portanto, numa representação quase todos os móveis do cenário definitivo estão postos no palco, a gente conclui que o empresário muito provavelmente vai fazer representar a peça.
É um raciocínio elementar, mas inteiramente seguro, certo. A gente compreende a força do que eu estou querendo dizer.
Assim nós temos que pela quantidade de peças de mobiliário que estão já dispostos para o caso, a gente deve concluir que provavelmente vai ser feita a representação para o grande público. Não posso garantir.
* Esse raciocínio é feito em nome do bom senso, da observação e da experiência, Nossa Senhora se digne acrescentar algo mais
Alguém dirá: “Mas o senhor está aqui falando em virtude do carisma do profetismo ou não?”.
Eu estou fazendo o que eu sempre fiz: falando em nome do bom senso, da observação, da experiência. Nossa Senhora se digne acrescentar a isso algo, caso Ela queira. Eu estou raciocinando como qualquer homem raciocina, como os senhores acabam de ver. É um raciocínio didático, escolar que eu acabei de dar. Um professor falando para os seus alunos não procede de outra maneira. E eu estou alegando coisas inteiramente naturais. Em nenhum momento eu estou insinuando que isto é assim porque eu tenho o carisma profético, de nenhum modo. Eu estou dando o que me parece que a ponderação natural dos fatos convida a pensar.
Está bem claro isso?
Agora, se isto é assim, nós passamos os olhos pelo território nacional e nós perguntamos a que riscos nós estamos expostos e a que riscos nós podemos expor o nosso adversário. É a mais elementar das perguntas da teoria das batalhas.
Não está aqui o meu querido coronel, não sei que… Ah, ele foi dormir, ele estava muito cansado.
Mas o mais elementar das teorias das batalhas é isso. E eu acho bom sempre a gente reduzir todos os problemas importantes aos seus dados mais simples e mais elementares, porque aí a gente raciocina com segurança e joga com aquilo na mão como aqui com essa bengala.
Então, que métodos eles têm para nos causar dano?
Antes de tudo, e os senhores estão vendo bem, a difamação, a calúnia. É uma coisa que pode existir. Essa difamação pode estar organizada em série, podem ter mobilizado vários ex-membros do Grupo para uma difamação em carrilhão, é uma coisa perfeitamente possível. Não tem limites.
É evidente que essa difamação só é feita, não digo pelo difamador ou pelos difamadores, mas eu digo para quem consciente ou subconscientemente os move. Exprimindo-me melhor, para quem os move consciente ou subconscientemente nessa matéria, é feita com o intuito de diminuir a nossa base e determinar que em última análise seja mais fácil fechar-nos. Quer dizer, diminuir o alcance de nossos golpes e eliminar-nos. É evidentemente… para isso.
* De repente, um governo socialista avançado nos obriga a vegetar trancados em nossas sedes
Agora, os senhores imaginem que as coisas corram mais depressa do que a própria difamação e nós tenhamos de repente um governo socialista avançado aqui — essa é uma hipótese bem provável — que declare o seguinte: “Eu dou liberdade de opinião, todo mundo pode estar em desacordo comigo, mas eu estou em numa posição difícil, numa crise e preciso declarar o estado de sítio e a lei de emergência. O Brasil está como num estado de guerra e o governo pode dispor de todo mundo conforme queira”.
O que equivale a dizer: “Vocês têm toda a liberdade, contanto que fiquem quietos como uns ratinhos e se contentem de vegetar nas suas sedes. E isso é por enquanto, até que nós acabemos com vocês nas próprias sedes também. Agora vão vivendo, por que não tem remédio”.
O que faremos nós? Quem é que nos dará apoio nessas circunstâncias e de que utilidade nós seremos para conter um processo desencadeado nesses termos?
Os senhores já pensaram uma situação na qual raceemos até convocar novas reuniões de correspondentes, trancados nas sedes? Entra dia, sai dia, recomendação de não pôr muito automóvel do lado de fora porque o governo não gosta. É assim, o governo não gosta…
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