Conversa
de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) –
14/5/83 – Sábado [AC VI – 83/05.24] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) — 14/5/83 — Sábado [AC VI — 83/05.24]
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Análise do auditório dos correspondentes — O fluxo das classes sociais, com o passar das gerações * Um gênero de graça que prepara para o inopinado — Graça com qualquer coisa de seletivo * Os estagnados: mais tocados pelo temor do que pelo amor de Deus * “Cuidado com os esquecidos, eles não se esquecem” — No auditório não havia uma pessoa alegre com a vida * Na volta do Encontro os correspondentes vão notar que as pessoas não querem ouvir o que eles contam — Para que interessam as palmas, se elas não viram resoluções? * A partir do século XV começou-se a apresentar o demônio sob formas de um personagem péssimo, mas prestigioso * Como o Sr. Dr. Plinio imagina os anti-Elias * A hipótese desses homens viverem longamente — O horrível de uma Elias do mal * A transmissão de notícias entre o demônio e seus sequazes — As reuniões com o demônio * O modo de tirar a vida dos servidores do demônio — A recompensa que esses homens querem do demônio * O temor é o melhor modo de combater a preguiça e a inação * O que o Sr. Dr. Plinio espera desses correspondentes * Fatinho: almoços na Barão de Limeira * As conversas à mesa com os parentes — O pequeno consultório médico familiar * As tendências pró-França e anti-Alemanha — A conversa do Sr. Dr. Plinio com a sua prima — As discussões religiosas * As parentes que faziam o Sr. Dr. Plinio falar, acham pitorescas suas descrições a respeito de outras pessoas
Onde está o Edwaldo?
(Sr. João: Foi jantar com os correspondentes.)
Então, quem é que me faz uma pergunta? Meu João?
(Sr. João: Sr. Guerreiro veio cheio de perguntas…)
(Sr. Guerreiro: Eu acho que todos querem saber sobre o que se passou lá.)
Formule a pergunta então. Apresente a pergunta.
* Análise do auditório dos correspondentes — O fluxo das classes sociais, com o passar das gerações
(Sr. Guerreiro: Impressões do auditório e o que levou ao senhor a falar com aquela ênfase.)
O auditório me deu a impressão seguinte: de gente que vive na maior parte… não todos, havia pessoas mais assim que não estão bem nesse caso, mas é um auditório de um certo tipo de pequena burguesia, que se distingue [bem].
Vamos dizer que tinha três matizes de educação, de nível de pensamento no auditório: tinha um certo operariado com vitalidade, uma certa pequena burguesia sem vitalidade, e uma certa burguesia média com uma certa vitalidade.
O operariado com vitalidade, ao menos eu pude reconhecer vários deles, estavam sobretudo à minha direita. O pessoal burguesia média com alguma vitalidade estava sobretudo à minha esquerda. A pequena burguesia sem vitalidade inundava o auditório. Era essa a consistência do auditório.
Agora, essa não vitalidade da burguesia pequena que estava lá, é preciso entender bem o que é que é.
Sempre que uma determinada classe social chega ao seu teto, ela tende a amolecer e a cair. É aquela regra antiga: pai rico, filho nobre, neto pobre. Quer dizer, o pai é um parvenu, o filho fica nobre, e o neto é pobre.
Quer dizer, o filho nobre realizou o pináculo. Ainda tem a fortuna do pai e se enobreceu. Depois o neto, que já tem tudo, é rico, é nobre, joga tudo fora e fica pobre.
Naturalmente isso não se dá assim, pai, filho, neto, sempre, mas dá‑se em grupo. Três, quatro, cinco gerações vão enriquecendo. Depois umas três, quatro, cinco gerações vão ficando nobre. Depois aparece um, porque para ficar pobre basta ser um só, basta um tonto que fica pobre de uma vez. Ficar pobre não é processivo, é a pedra do arco. De maneira que fortunas que levaram mil anos para acumular, um tonto perde, um mão mole perde.
Outra coisa: não faz questão, nem tem saudades, está saturado de ser rico e tem uma vontade enorme de ir varrer o chão da rua. Eu tenho visto cem situações assim, variadas, é isso.
Agora, na pequena burguesia o que é que é?
É um pessoal vindo do operariado com pouco elán. Não tem. Nem toda pequena burguesia é constituída dessa gente, mas esse tipo de pequena burguesia é assim, é um operariado vindo com pouco élan. Por causa disso, quando atinge a condição de pequeno burguês, atinge o seu fastígio, então amolece. E eles têm toda a moleza, a tendência a putrefazer e tudo o mais, de quem tenha ficado um Rockefeller. Rockefeller de matéria plástica. Nem de ouro ou de pedra verdadeira, mas de matéria plástica.
Esse era o grosso do auditório.
Esse tipo de gente, dessa classe assim, tem uma duração muito grande. Quer dizer, uma família pode passar várias gerações nesse estágio. Porque é comparável, para falar em uma coisa que nessa matéria é muito sugestiva, com as bolhas de ar dentro da água.
Quer dentro de um copo de champagne, de água Perrier, de uma vagabundinha água Lambari ou, pior, uma convulsiva água de Serra Negra, até as bolhas que desprendem de um charco, tem bolhas que saem de baixo com tendência a subir, e há outras bolhas que sobem preguiçosas.
Há bolhas que sobem com tanta preguiça que não arrebentam a água que vem em cima, apenas formam uma bola e convivem com aquela superfície de água um tempo. Depois, afinal de contas, aquilo estoura sem drama, não tem explosão.
Essa pequena burguesia é assim. Eles custam a se emergir até a condição de pequenos burgueses. E quando se fazem, eles fazem sem drama, e também não percebem [nada].
Enquanto aquele tipo de operariado é diferente. Aquele tipo de pequeno operariado pode dar um tipo de pequena burguesia fecunda. Porque eles têm uma tendência para cima que não fará dele um Rockefeller, mas é que eles estão sempre melhorando, sempre melhorando, isso é produtivo. Eles estão na ponta do operariado já com a cabeça metida na pequena burguesia, estão, portanto, de cabeça para cima.
Os outros pequenos burgueses estão com a perna para cima, eles já estão [totalmente] pró proletariado de longe e sem pressa. Assim são eles.
* Um gênero de graça que prepara para o inopinado — Graça com qualquer coisa de seletivo
O pessoal mais intelectualizado é um pessoal mais antigo, meio familiarizado com as coisas da TFP, e que acompanham melhor as coisas, etc.
Agora, pareceu‑me o seguinte: difusamente falando, havia por ali uma graça para todos, que encontrava em cada qual obstáculos específicos. Mas havia uma graça para todos. E o gênero dessa graça é de uma graça que preparava para o inopinado, e para um inopinado forte.
Com certa força, quer eles quisessem, quer não quisessem, quer se entusiasmasse, quer não se entusiasmasse, o jeito de a gente aproveitar alguns lá, era fazer o jogo dessa graça. Se quiser recusar a graça, eu não posso matá‑lo porque recusou a graça. Recusa, até logo. Mas o que era preciso era um puxão assim!
Pareceu‑me também que a natureza dessa graça tem qualquer coisa de seletivo. E quem a recusa fica eliminado.
Eu não queria conservar indefinidamente solidariedade estagnantes. Era preciso que quem quisesse quis, quem não quisesse não quis. Portanto, era preciso fazer assim.
Agora, no pessoal estagnado, me desculpem a banalidade, mas notei estagnação. Tal seria que eu não fosse capaz de notar nem isso. Uma vez que eles são estagnados, tal será que eu não notasse nem a estagnação. Mas são estagnados mesmo.
Dentro da estagnação deles, dois sintomas de estagnação aparentemente. Se é para pedir uma análise, vamos fazer uma análise. Dois sintomas de estagnação característicos, três se quiserem.
Eles se mostraram de baixa sensibilidade, pouca sensibilidade… Não quero dizer baixa no sentido de baixos sentimentos morais. Pouca, com pequeno índice ou índice nulo de sensibilidade para três coisas que tocam qualquer pessoa não estagnada: ou o raciocínio límpido e concludente, ou a metáfora expressiva, ou a segurança impositiva. É isso.
De maneira que, na aparência, entre eles e eu havia uma parede de vidro. Porque eu falava para um auditório que não estava presente ali. Não que eles não fossem capaz de entender, eram capazes e entenderam. A maneira deles entenderem muito bem o que foi dito. Mas eram incapazes de qualquer vibração, qualquer reação pessoal, qualquer coisa. Inteiramente entregues, sentados.
Alguém dirá:
— Com pressa de ir embora?
— Não.
— Com vontade de ficar?
— Também não.
— Pensando no que vão dormir, etc.?
— Também não.
* Os estagnados: mais tocados pelo temor do que pelo amor de Deus
É não fazendo nada, estagnando. Absolutamente estagnando.
Mas como é que reage essa gente quando tocada pela graça? Aí está a questão.
O estagnado é mais tocado pelo temor de Deus do que pelo amor de Deus. E é mais tocado pelo medo de pecar, pelo medo de perder um toco de virtude, do que pela vontade de adquirir uma virtude inteira.
Em última análise, se propuserem a um estagnado: “Suba esta montanha que tem lindo panorama”, ele diz: “Não!”. Se a gente disser: “Olha, vai haver um terremoto, seus pés vão ficar abalados”, aí ele toma posição. Ele não faz muita questão de lucrar, mas ele não quer perder.
Portanto, para ele o medo do pecado é uma virtude que eles possuem. E a gente assim, de um modo geral, notava neles essa forma de correção, que eles querem estar em paz com o padre no confessionário. Oxalá todo mundo fosse assim.
Mas é o jeito deles, eles querem estar em paz com o padre na hora do confessionário e querem ir para o Céu, por medo de ir para o Inferno. Purgatório não sensibiliza tanto. Eles acham que afinal saem de lá e tem o Céu por toda a eternidade e não sensibiliza tanto. Mas o Inferno eles não querem.
Portanto, aquilo que eu falei da obrigação de consciência — eu falei — não estava nos meus esquemas. Antes de ir para lá, quando fiz o esquema escrito, eu aí resolvi pôr, porque eu senti daqui pelas reações que era gente estagnada. Achei que era preciso fazer aquilo e confirmei‑me nessa convicção estando presente o Cgo. José Luiz ali. Porque, não sei se vocês viram, eu disse que era matéria de confessionário, e tendo o padre ali perto, não dizendo nada, respeita‑se como chancela: “Isso, isso!”.
Isso pesa como os senhores não calculam, mas não pesa de imediato. Aquilo ficou assim na cabeça deles e eles vão sentir as seguintes coisas: quando falarem mal de nós, eles vão ficar na dúvida se tem ou não que consultar o padre. Depois o padre o mais das vezes é grosseiro, tem irritação com o escrúpulo deles, eles ficam com vergonha. Já perguntar é um problema, quanto mais se o padre disser que não pode mesmo. Porque de repente diz.
Aquele exemplo que eu dei do homem que encontrei no Largo da Sé.
Um padre não pode dizer que aquilo não é pecado. É pecado mortal. É análogo a eu espalhar a mentira de que o homem matou. Mas eu não tenho o direito de ficar quieto nessa ocasião. Aliás, é intuitivo, tenho a obrigação de responder.
Então dando a resposta, eu evidentemente, batendo aquilo, criei um caso para eles.
* “Cuidado com os esquecidos, eles não se esquecem” — No auditório não havia uma pessoa alegre com a vida
Mas eu tentei também — se os senhores querem conhecer a meta política da exposição — dar‑lhes consciência de que eles são muito marginalizados, muito desprezados, que se faz gelo em torno deles. E que eles por causa disso se deixam acovardar.
É gente, debaixo desse ponto de vista, tão primitiva, que eu tenho a impressão que existe gente ali — a impressão — que não chegou a se dar bem conta do quanto é marginalizada por causa disso e que a gente falando começa a se dar conta.
Eu uma vez vi um provérbio que diz assim: “Cuidado com os esquecidos, eles não esquecem”. Esquecidos quer dizer os que foram esquecidos.
Quer dizer, se eu me esquecer de um sujeito, eu me esqueci dele, mas ele não se esquecerá de que eu me esqueci dele. Quer dizer, cuidado com a vingança dos que foram esquecidos. E criando neles o estado de espírito e os reflexos do esquecido, começa a se dar conta de que é esquecido, eu começo a pôr as cargas elétricas na vida deles.
Alguns são esquecidos e rejeitados, mas não se dá conta porque é. E eles começam aí a filosofar, encontram a causa e isso perturba a estabilidade deles. Os arrasta.
Percebe‑se que eles estavam apanhando sem saber por quê. E agora que estão sabendo por quê, começam a dar a carga de novo. E cria os elementos psicológicos possíveis para fazer deles os batalhadores. O que era possível.
Eu não quero dizer que eram elementos invencíveis para tornar batalhadores. Eu não quero dizer isso, mas quero dizer que são os elementos psicológicos possíveis para aquela gente.
Os senhores terão notado que essa tal classe média que eu falo, é de gente completamente fora de moda, de uso, de vício e de estilo. Completamente à margem de qualquer classe social. Na pequena burguesia deles, elas são as moças que não conseguiram esposo, ou as moças que conseguiram esposo, casando com esposos de uma condição ainda inferior. Pessoas que não são felizes na vida, as coisas lhe acontecem mal. São tortas, dá doenças nelas. Deste gênero de gente que não serve ao demônio, e não têm as tais facilidades que os filhos do demônio têm.
Porque o filho do demônio é feliz aqui na terra. Eu não quero dizer que todo feliz na terra seja filho do demônio, mas o filho do demônio habitualmente é feliz na terra. E eles não têm nada disso. Olha‑se para aquele auditório, não tem uma pessoa alegre, não tem uma pessoa animada da vida.
Contentes de serem tolerados na face da terra. E achando que estavam participando de uma festa magnífica, de uma grande movimentação. E na hora da festa, a cara é aquela.
Eu estou vendo pela reação dos senhores. Os senhores não têm tido muita ocasião de observar gente assim, mas existe em penca, hein! É só os senhores começarem a observar pelo o que eu estou dizendo, que de cá e de lá os senhores encontram.
* Na volta do Encontro os correspondentes vão notar que as pessoas não querem ouvir o que eles contam — Para que interessam as palmas, se elas não viram resoluções?
Agora, também falei muito, dei entender que no plano humano, a situação deles poderia ter uma reabilitação se eles conseguissem um circuito e se dessem entre si, etc. De maneira que fiz também soprar um pouco de ventilador em cima dessa gente. Fazer a contra-ofensiva dos estagnados, ainda é alguma coisa.
Foram os ingredientes psicológicos atirados dentro da coisa.
E para movê‑los, o que acontece? Eles agora vão começar a vida de todos os dias. Vão se despedir, vão chegar nas respectivas casas e famílias, vão contar como foi o Encontro: que foi muito bonito, que eu vi isso, que eu vi aquilo, e a la ingênuos, pessoal de uma ingenuidade sem nome, eles vão contar que isso estava assim, que estava assado. Vão falar dos desfiles, vão falar dos cânticos, vão falar de tudo, vão falar do pátio do Praesto Sum e tudo o mais. E vão notar com espanto que as pessoas não vão querer ouvir o que eles contam.
Eles não estão contando com essa, mas o futuro deles é esse: as pessoas não vão querer ouvir o que eles contam. Primeiro porque ninguém quer ouvir nada do que eles contam nunca. São pessoas que têm pouca voz nos lugares onde moram. E quando eles contam o triunfo da virtude, dá uma contrição nos que ouvem, que não querem continuar a ouvir e mudam de assunto. Eles vão se sentir engarrafados. Então vão continuar a querer contar, porque acham impossível que os outros não fiquem contentes de saber, e eles levam na cabeça.
Aí começa a frutificar a conferência. É o processo preparatório para uma conferência calculada para eles poderem entender, e poder levar alguma coisa na memória, na medida que está na cabeça deles.
Isto é preciso dizer: eles prestaram atenção. Naturalmente quando levanta uma criança todo mundo olha. Criança nessas coisas atrapalham enormemente. Mas tirando isso, eles prestaram atenção. Seguiram o tempo inteiro, prestaram atenção.
Daí vamos ver no que pode dar. Mas eu daquela matéria-prima não sei tirar outra coisa, eu acho que o que aquilo pode dar é isso.
Alguém dirá: “O senhor não acha, por exemplo, que se o senhor tivesse empregado muito mais metáforas e tivesse feito uns elogios a eles, eles não bateriam mais palmas?”.
Mas não é o que eu queria. Para o que eu quero aquelas palmas? Eu quero saber quem fica conosco. Palmas? O que é que eu vou fazer com palmas? Palmas na tenda para quê? Se isso não se converte em resoluções fixas, em trabalho, em dedicação, em amor de Deus, para que eu quero? Não tenho o mínimo interesse nessas palmas.
Não sei se minha resposta responde a sua pergunta.
Agora, de outro lado, a conferência estava calculada de tal maneira, que as pessoas mais intelectualizadas ou o operariado mais dinâmico poderiam compreender e compreenderam, e fez bem. Para os que quisessem aproveitaram.
Diga, meu João.
(Sr. João: Cedíssimo…)
Uma e trinta. Vão ter que levantar às 7:30, 7:00! Vão ter que estar lá às 9 horas.
(Sr. João: Não tem problema, 2:30 está ótimo. Cinco horas para eles é…)
Diga o que você quer perguntar, meu João.
* A partir do século XV começou-se a apresentar o demônio sob formas de um personagem péssimo, mas prestigioso
(Sr. João: Como o senhor imagina os anti‑Elias do mal?)
Um ou alguns anti‑Elias, não sabemos bem…
(Sr. João: Curiosidade de todos em saber isso.)
No século XV, e mais ou menos daí para frente, deu‑se que começaram a representar o demônio sob a forma de um personagem péssimo, mas prestigioso. E ao falar dele em termos também péssimos, mas prestigiantes. Termos legítimos, mas que, pelo modo de falar, podem tomar o colorido do prestígio.
Por exemplo, Príncipe das Trevas. É verdade, príncipe — em latim principes — quer dizer principal. Não é, portanto, príncipe no sentido nobiliárquico da palavra. O demônio é incapaz de nobiliárquico, ele é a própria infâmia, ele é incapaz de nobiliarquia. Mas que ele é o principal dos demônios é e, portanto, é o príncipe dos demônios.
Agora, o Príncipe do Poder das Trevas, ou Príncipe das Trevas, dá impressão de uma [coisa] escura, augusta, perigosa, mas poderosa. Negra e indecifrável, mas interessante. Mais ou menos como se entrasse num ébano feito de ar. E ali um misterioso príncipe, fantasma, feito desse próprio lar, latejando, pairando, fazendo raciocínios tenebrosos, mas inteligentíssimos. Desígnios ocultos, mas subtilíssimos e com atrações muito requintadas e superiores para nós, pobres perequetés.
Nós nos sentirmos um pouquinho…
(…)
… e não é isso.
O demônio levantando‑se contra Deus, ele ficou asqueroso, carregado de todas as asquerosidades possíveis e, portanto, as asquerosidades contraditórias na matéria, mas que podem existir no espírito, e das quais nós não nos damos conta.
Por exemplo, o poder dele nos parece com certa truculência, brutais. As pessoas supermusculares que chegam a dar nojo na gente. Não sei se os senhores têm visto às vezes fotografias ou quadro de pessoas supermusculares, que a gente vê que são, é uma musculatura do outro mundo, mas que dão nojo.
Por exemplo, boxe, esses atletas que em circo carregam aqueles pesos com duas bolas, e outras porcarias do gênero… Dão nojo à gente.
É poder. O poder em si é um colosso, mas há um certo modo de apresentar o poder que dá nojo.
Raquitismo. Um ser tão minguado, tão miúdo, abaixo de sua natureza que fica raquítico, definhado. O demônio é ao mesmo tempo nojentamente musculoso — entre aspas, porque é puro espírito, não pode ser musculoso —, mas é também asquerosamente tísico, mole.
Assim ele acumula todos os defeitos opostos nele. E tem um grau de ser nojento e repulsivo, do qual nós não fazemos idéia.
* Como o Sr. Dr. Plinio imagina os anti-Elias
Ora, esses Elias nós não podemos imaginar como eu imagino o Profeta Elias.
Eu dei um dia aqui a descrição imaginária do Profeta Elias. Não é assim, mas são, a meu ver, uns velhos tão, tão envelhecidos, que se tem a impressão de um pasmo de vê‑los ainda existir. A gente tem a impressão de que por dentro os ossos deles são calcinados como os ossos que se encontram avulsos na sepultura. A pele deles do lado de fora são pergaminho tão ratatiné, que a gente tem a impressão de que encostando um dedo aquilo racha.
Entretanto, a lubricidade deles é como a da adolescência mais explosiva e a agilidade de espírito para fazer o mal. Soma a maturidade mais perfeita com o vigor da mocidade mais desembaraçada, mas só para o mal, incapaz de outra coisa que não o mal.
Estes são esses monstros que estão lá embaixo.
Grandes homens? Um ou outro talvez, por exceção. Mas não é tanto isso. É grandes infames. A gente pode ser um grande infame sem ser nulo.
Judas: um tipo infame. Enfim, a palavra infâmia e a palavra Judas são sinônimos. Agora, de outro lado, ele foi um grande infame, mas não era um grande homem em nada. Era ladrão, vagabundo, de vistas curtas, ordinário, era tudo. Falso, venal, era tudo o que os senhores sabem, não é um grande homem. Ele devia ser um homem baixo.
Giotto quando pintou‑o beijando a Nosso Senhor, pintou perfeitamente o que eu imagino de Judas. Um dia que eu arranjar uma fotografia que tenho em casa representando o ósculo dos dois, eu trago aqui para os senhores verem, é a perfeição. Do homem zero, com ares de indiferença igualitária, osculando Nosso Senhor. Coisa inaceitável. Assim são eles.
O que é que então os distingue? Por que é que estão lá?
É por uma espécie de, tendo levado a infâmia a ponto de conhecer o demônio face a face, não se horripilar e travar contato com o demônio.
(…)
… são aqueles que viram aquilo que fariam a natureza humana estalar, não trepidaram e passaram a ser então agentes de transmissão.
Esses são os contra‑Elias deles, que dá bem exatamente o contra‑Elias.
Não sei se eu fui claro.
* A hipótese desses homens viverem longamente — O horrível de uma Elias do mal
(Sr. João: Como imagina a transmissão deles aos maus? Porque eles não morreram, são homens que ainda vão morrer.)
É, a primeira pergunta é: o demônio tem poder de aumentar a vida deles? Porque quem chama é Deus. Quem mata…
(Sr. João: Conseguiu de Deus essa permissão.)
Bom, mas ele tem poder para isso? É só uma permissão? A permissão supõe que ele tem poder para isso.
Resposta é: não é impossível admitir na natureza que haja drogas e coisas assim, que misturadas prolonguem a vida de um homem em condições fantásticas. Não é impossível. Em rigor não é.
(Sr. João: Do que se alimentavam antes do Dilúvio para durarem 900 anos.)
É, a gente não sabe.
Eu vou lhe cortar a palavra para lançar uma hipótese horrível, hein? É horrível. Quando a gente fica colocado diante dessa hipótese, é desagradável ser homem. Não no sentido masculino da palavra, quero dizer no sentido gênero humano. Mas é assim: não está escrito que o demônio não escolheria uma Elias, mulheres também? O senhor pode entrever bem a… é horrível pensar nisso. E não está certo que não gerem.
Hipótese que com Elias e Enoc não de pode pôr nem de longe, mas com ele, é o reino dele. É o contrário de Elias e Enoc.
De maneira que então o senhor pode imaginar que gênero de raça… Eu não sei de nenhum teólogo que tenha levantado essa hipótese, mas são hipóteses que… ao menos que haja qualquer coisa contra isso na Revelação.
Eles precisariam viver tantos anos assim ou poderiam gerar já filhos da maldição? Porque se é para olhar a coisa de frente, vamos olhar de frente.
Mas então, meu João?
* A transmissão de notícias entre o demônio e seus sequazes — As reuniões com o demônio
(Sr. João: Como é essa transmissão?)
São hipóteses, o senhor não pode deixar de ver bem que são hipóteses. Mas eu tenho a impressão de que o papel que a revelação ali é muito maior do que entre nós. E que [se] eles não sabem muitas coisas do que se passa na terra, o demônio conta para eles. E já conta tudo articulado, como ele vê e ele conhece evidentemente. De maneira que é um informativo que não tem recortes, é o guru que dá a notícia.
E o demônio não gostaria que eles aplicassem retamente o intelecto para saberem o que está se passando, porque já seria alguma coisa reta. Ora, o demônio não quer nada reto. Se alguns lá são inteligentes, ele quer imbecilizá‑los e bestializá‑los, para ele só ser tudo e para dominar aqueles lá completamente.
É o demônio. Graças a Nossa Senhora nós somos filhos d’Ela.
Não estamos familiarizados com perspectivas horrendas dessas. Seria mais ou menos como uma pessoa que quisesse com a retina ver o próprio fundo do olho, uma coisa monstruosa assim. Não é possível para nós.
A gente tem que fazer um esforço para imaginar esse horror, mas isto é assim.
Mais ainda.
Nós não devemos imaginar que numa reunião deles, eles entre si são amigos, e terminado o que se passa, o demônio contando as vitórias é aclamado; contando as derrotas é consolado.
Não, o demônio conta… Primeiro, faz‑se desejar por eles e faz‑se chamar mediante injúrias. Ele não é chamado com atos de amor, ele é chamado com injúrias, porque ele gosta de atender a injúrias. Ele gosta… ele não gosta, ele fica furibundo com as injúrias, mas atende com as injúrias porque está nele provocar a injúria e ser injuriado. Jogar‑se em cima do infortúnio e ser infeliz, é próprio a ele. Então a encantação para ele vir é feita por meio de injúrias a ele. Quando o furor dele chega a um determinado grau, ele aparece distribuindo tormentos.Eles estão carregados de infelicidades, e o negócio termina, a sessão, atormentando‑se ainda mais.
Quer dizer, é tudo errado, tudo errado, tudo errado para o fim determinado.
Mas é isso. E não percam de vista: nós corremos o risco de participar disso no Inferno, hein? Porque toda alma que vai para o Inferno entra nessa engrenagem. Eles se odeiam e entram em atrito uns com os outros, brigam. São cada um o tormento dos outros. Entretanto, não agüentam de ficar sem os outros. É uma coisa terrível.
Essa seria uma reunião de sábado deles. Nós não temos idéia de onde as coisas podem chegar, ouviu?
Vou dizer uma coisa dura demais…
(…)
(Sr. João: Como transmitem aos outros depois?)
Bom, aí é diferente.
Esses assim, transmitem à Terra de que jeito? Eu tenho a impressão — tudo são impressões — de que eles têm assim os poderes de super-homens da maleta. E que aparecem meio como… assim, no estado que quem os vê não sabe bem se eles são uns demônios ou se são homens vivos, uns seres intermediários. E levam diretamente àqueles que são as peças fundamentais do jogo de xadrez do demônio, levam diretamente cargas de maldade, maus eflúvios, torpezas, etc., que aquele não agüentaria de ver no demônio diretamente.
* O modo de tirar a vida dos servidores do demônio — A recompensa que esses homens querem do demônio
E leva junto ordens. Inclusive o decreto final: “Você vai morrer. O trato vai ser cumprido!”. [Vira a fita]
… e muitos palácios famosos, históricos, etc., da Europa, e em menor na América, certamente da Ásia, havia demônios assim agindo sobre as coisas.
Ele chega para Napoleão e diz: “É assim”. Napoleão já sabe que é e que é o vermisseau et miserable pecheur daquele, insulta, diz desaforos, ameaça bater. O outro sujeito faz uma ferida qualquer em Napoleão, humilhantíssima. Mete o dedo nele, diz: “Agora começou o câncer com o qual você vai morrer. Quá! Quá! Quá!”, e vai embora.
Logo depois Napoleão ouve do lado de fora a corneta da guarda que está tocando e é um rei postiço, tipo daqueles reis da Vestfália, da Holanda, da Lombardia que ele andou nomeando que eram parentes dele, ou é um rei vassalo, um rei legítimo que ele reduziu à vassalagem humilhante, que está chegando.
Napoleão vai de encontro: “Majestade, como está? Vamos conversar”, etc. Ele não está pensando naquele bobo. Ele está pensando naquele dedo comprido, tipo ET, que entrou dentro dele e implantou o câncer de que ele vai morrer em Santa Helena. Se é que ele morreu de câncer, não sou nenhum médico para opinar sobre isso.
Bem, meus caros, se há mais uma pergunta, vamos.
(Sr. Poli: Recompensa que esse homem quer e que o demônio daria.)
Nessa pista — porque compreende que tudo isso é uma lógica ao revés —, o poca quer as melhores coisas do mundo. E um homem de valor — valor deles, é um contravalor — despreza essas coisas e quer apenas a sordície e o horror das coisas demoníacas.
Então, um bem iniciado contenta‑se em tomar contato com o demônio, num antro qualquer, no fundo de uma caverna, ou naquele prédio de que eu falei. Pelo contrário, um poca quer ser rei, imperador, presidente da República, ser muito rico, quer tomar o sorvete dessa vida. É uma outra coisa.
Eu os acho assim um pouquinho… impressionados com o tema. Não sei o que é.
(Sr. João: Eles gostam de pensar unicamente no bem.)
A questão é a seguinte, eu vou dizer bem o que é: eu vi alguns peitos arfando assim profundamente, está compreendo? Assim como quem custa para carregar o peso dessas perspectivas.
(Sr. João: Não há meio termo para essa gente aí fora…)
O que eles diriam se eu fizesse essa conferência para eles? Eu não sei, mas não voltariam o ano que vem.
* O temor é o melhor modo de combater a preguiça e a inação
(Sr. João: Caminhando em rumo à “Bagarre”, o meio termo vai terminar de qualquer jeito. Como acabar com essa pasmaceira?)
Aqui também a gente precisa andar com muito cuidado.
Em primeiro lugar, é uma coisa arquitetônica imaginar que Elias e Enoc são como que os monarcas da Contra‑Revolução. Mas imaginar isso não equivale a ter uma certeza disso, porque as vias de Deus são superiores a toda cogitação. E nem sempre aquilo que nos parece o mais arquitetônico, diante da Sabedoria de Deus é o mais arquitetônico.
Quer dizer, nós temos as nossas vistas humanas. Deus é Deus e se compraz em superar as vistas dos homens com uma certa freqüência. Ele respeita o homem e, portanto, não desabusa o homem, fazendo constantemente coisas superiores ao que o homem pode pensar, de maneira que o homem diga: “Mas por que eu tenho essa inteligência e não atino com nada?” Não, Ele nos deixa acertar com o nosso — eu quase diria, não é a correta expressão — brinquedinho de aprender, nosso farolete e nos deixa. Mas Ele tem.
Portanto, falemos com cautela nessa matéria. Mas, enfim, supondo essas coisas que se pode supor, que para nossas vistas é arquitetônico, etc.
Ele dará graças obtidas todas por meio de Nossa Senhora. Mesmo o que Elias e Enoc fazem é a rogos de Nossa Senhora a Deus, é que eles têm graças para fazer. Que eles fazem por Nossa Senhora, isso, sim, é certo. Mas eles terão graças muito variáveis.
Quer dizer, eu me exprimi mal. As várias graças possíveis para serem dadas a eles serão muito variáveis, mas o que me parece que seria o próprio, seria de incutir a eles primeiro temor para depois incutir amor. Portanto, a graça do temor é a graça que mais impressiona a esse gênero de gente.
Agora, é preciso tomar um certo cuidado com isso. Isso não vai assim também sem mais nem menos. Porque, vamos dizer assim, todo homem muito afeiçoado a algo — e não há um homem que não seja afeiçoado a algo, esse algo é simplificado de dizer a si próprio, eu sei, em si próprio —, se lhe tira esse algo, ele se enfurece.
De maneira que se a gente quiser saber qual é o apego do homem, a gente deve saber onde é que ele se enfurece. Onde está o furor, ali está o amor.
Esses de lá em geral têm o apego ao sossego e o apego a inação. E o temor é o melhor modo de combater a preguiça e a inação.
Agora, que ocasiões vão servir para eles terem temor?
(…)
…qual é a matéria? Digam e nós tratamos da questão.
Diga, meu Guerreiro?
* O que o Sr. Dr. Plinio espera desses correspondentes
(Sr. Guerreiro: Esses não corresponderam ao que o senhor esperava?)
Não, não, eu não disse propriamente isso. Eu acho que estes que estão aqui, por tudo quanto eu acabei de mostrar, pelos lados por onde eles podem ser tocados, eu acho que é provável que de um bom número deles ainda saia, por um processo um pouco mais complicado, o que se pode esperar. Eu não considero esse esforço nem um pouco perdido. Eu considero que é um esforço, que é um rio que percorre um pouco mais de ziguezague antes de chegar à foz, mas eu acho que o grosso deles pode ser aproveitado.
E digo mais: acho que a posição deles — embora tudo o que nós acabamos de dizer — tem um certo mérito que a gente não deve pôr de lado assim sem mais nem menos. Não deixa de ser verdade que o demônio terá feito conhecer a eles de um modo ou de outro que se eles se entregarem ao mal, eles terão coisas muito mais fáceis. E sentados eles são. O demônio procura conquistá‑los. Uma certa resistência eles oferecem.
Um certo mérito eles têm. Nós não podemos tratar aquilo que tem poucos valores humanos como sendo o lixo moral da Humanidade. Aquilo não é a cidade de Sofonias, para quem o bem e o mal são indiferentes. Não é isso, não.
Eles estão numa posição definida, eles são a favor do bem. Agora, é uma posição inerte, o que é diferente de indefinida. E o mais nojento aqui é a indefinição. A inércia participa em algo da indefinição, mas não é a indefinição pura e simples.
Várias e várias daquelas pessoas, colocadas diante dessa luta em nível de aldeia, Miracema e outros daqueles lugares, entram a fundo. Mas é quando o problema estava mais ao alcance do intelecto deles, da derme deles, daquela coisa, eles entraram mais a fundo. Portanto, eles têm lados bastante apreciáveis.
Eu não simplificaria isso assim, e acho que as esperanças tem o seu propósito.
Depois ainda mais, é que eles ainda têm o seguinte mérito — eu me refiro aos de Campos: é que entra o D. Navarro, nomeado por João Paulo II, eles não franqueiam. Revela uma certa convicção. E não notei em ninguém sombra de franquear…
(…)
… continua transitáveis, viáveis.
É minha resposta à sua pergunta.
Bom, meus caros, fugit irreparabile tempus. Uh, eu vou muito além do normal.
* Fatinho: almoços na Barão de Limeira
(Sr. –: Fatinho.)
Fatinho. Meu João, qual é o fatinho? Eu não sei discernir o fatinho.
(Sr. João: Almoço na Barão de Limeira.)
Em tese posso. Quer dizer, quer almoço, quer jantar, eu vou imaginar um dia padrão. Porque tinha quatro dias, era assim:
Quinta-feira ia jantar lá o filho mais velho com a senhora, sete filhos com genros e noras. Domingo ia almoçar lá os pais de Dr. Adolpho, com a irmã e o mini Adolphinho, que começava a circular naquele tempo. Mas eram casais muito diferentes.
Esse meu tio era brasileiro e paulista, e assim muito vistoso, falante, muito mais do que o comum dos paulistas, com muita verve. Ele era uma prosa muito boa, e quando ele entrava animava a sala inteira, ele era o centro da conversa.
E a interlocutora fundamental dele era a mãe dele, minha avó, que era uma pessoa muito inteligente, enquanto senhora. De maneira que ele ficava sentado ao lado da mãe, agradando e fazendo atenções à mãe o tempo inteiro. E ela recebendo aquilo com majestade de Gran Dame.
Mas, de fato, os filhos dele eram todos muito boa companhia. Não no sentido edificante da palavra, mas muito engraçados. Não eram engraçados, fazedores de piadas, mas muito animados, conversavam muito bem, eram companhias vigorosamente agradáveis.
Já o casal dominical era…
(…)
Domingo à noite os moços da casa — quer dizer, minha irmã, minha prima e eu — jantávamos fora. Uma tia e o tio Nestor, que muitos ouviram falar, jantavam fora noutra casa. Nós todos jantávamos fora e ficavam apenas minha avó, mamãe, papai e um irmão de minha avó, um velho chamado tio Augusto. Era solteirão. E todo domingo à noite comia um ou dois frangos assados. Era o prato. Consomé com massa, frango assado com farofa e depois uma compota, um doce, um bolo ou uma coisa qualquer. Mas aí era a conversa dos velhos, uma coisa completamente diferente. Eu nunca assisti, eu peguei carências de eco disso.
E havia os dias da semana comum, em que todo mundo entrava, todo mundo saía. Era um vasto clube de toda essa gente que entrava e saía fora de hora, fora de dia, fora de calendário. Alguns sentavam, outros não sentavam, passavam apenas por lá.
Mas a hora do grande encontro era o almoço ou era o jantar. A minha avó presidia. Ela passava o dia inteiro sentada naquela cadeira de balanço grande que tem no meu escritório, ela passava o dia inteiro sentada lá fazendo croché ou lendo jornal, e assim governando a sala.
Era uma sala… as salas antigas eram living e sala de jantar ao mesmo tempo, eram salas muito grandes. Mas aquilo não tinha assim uma espécie de [privacidade], todas as comunicações da casa passavam por aquela sala. E ela por ali ficava ao par do movimento todo da casa, e presidia com uma bonomia assim, visto muito de cima e assim como quem faz vistas grossas, sem prestar muita atenção. Mas, de fato, pegando tudo muito direito e de vez em quando intervindo nas coisas. Mas ela intervinha, depois se distendia e voltava para a posição.
Ela se levantava e percorria apenas o espaço minúsculo da cadeira de balanço à presidência da mesa. Ninguém sentava enquanto ela não se sentasse, naturalmente. Ela sentava, não fazia sinal nem nada para os outros. Ela sentando‑se os outros se sentavam.
O sistema clássico não era um homem e uma senhora, era sistema familiar. Quer dizer, ao lado dela, à direita, sempre algum irmão dela. E ela era fraternosa ao máximo.
Ela tinha dois irmãos solteiros, os irmãos estavam sempre em casa. Ora um, ora outro, às vezes os dois, mas estavam sempre em casa. Sempre à direita. E se estavam os dois, um à direita e outro à esquerda, mas os primeiros lugares eram deles. Nem o filho xodó, nem nada tinha precedência sobre os irmãos ali.
Depois, conforme o dia, vinha o filho xodó, ou era mamãe. E do outro lado, nos outros lugares da mesa, não eram fixos. Os mais velhos sentavam na frente, os mais moços para a ponta da mesa.
E a conversa demarrava.
* As conversas à mesa com os parentes — O pequeno consultório médico familiar
A conversa era sobre todos os assuntos possíveis, de onde uns jantares e almoços largos. Porque, antigamente, eu tenho uma vaga idéia, não com muita certeza, de que havia sopa no almoço também — em todo caso, que sempre havia sopa no jantar —, depois dois pratos de comida salgada e às vezes três, depois duas sobremesas, porque aquilo era o tempo das farturas. E servido, portanto, lentamente, todo mundo conversando lentamente.
Uma hora à mesa não era nada, porque ninguém tinha pressa e ninguém tinha falta de apetite. De maneira que aquilo ia à vontade, absolutamente o que quisesse ia, não tinha problema, era no duro.
As conversas eram de tudo. As pessoas se sentavam e ia por exemplo o jornal-falado de como ia a saúde, era a parte mais cacete da conversa: acordei durante a noite, senti tal coisa e…
Então é um pouco o hábito dos homeopatas, a homeopatia grassava grossa ali: “Fulano, tome tal remédio. Não, tome tal outro”. Pequeno consultório médico em comum.
Acabava que um ou outro tomava o remédio aconselhado e no dia seguinte jornal falado: “Tomei o remédio que você aconselhou, mas deu tal resultado”.
Minha avó acompanhava com muita atenção, porque ela era uma malade imaginer de primeira ordem. Era muito robusta, mas ela era do tempo do romantismo e ficava bonito ser sempre um pouco doente, fazia parte da delicadeza de uma senhora. Então ela tinha sempre assim uma notazinha de doença, mas imaginária, era robusta.
Era a parte pau da conversa, da qual eu evidentemente me alheava completamente. Minha irmã acompanhava a conversa. Não compreendia por quê e conversava na ponta da mesa com minha prima, que também não ligava muito. Mas depois eu vi que era já cálculo: um dia, quando ela ficasse mais velha, ela saberia como tratar dela e da família dela, e aí tudo programado. Enquanto eu achava que todo o [caso] podia ter levado a breca, nada. Eu queria fazer a Contra‑Revolução, de modo que adoecesse ou não adoecesse, eu tinha a impressão de que não ia adoecer.
Depois havia uma parte da conversa, mas era tudo misturado, comentários políticos. Quando eram comentários políticos de que vai subir esse, vai cair aquele, em geral conhecidos deles, que conseguiu cargos, perdiam cargos, que brigavam um com os outros, eu não acompanhava porque achava a política de uma sem-graça de matar! Mas eram conhecidos deles e eles naturalmente acompanhavam.
Depois o filho xodó entrou na política, então ainda as conversas políticas pegaram mais, e eu ausente, desinteressado. Minha irmã também aí não ligava. E minha prima, minha irmã e eu fazíamos uma roda na ponta da mesa, animada, com alguns primos, outros, filhos de outros tios que iam lá almoçar ou jantar e que ficavam na ponta conosco. Ali a conversa era outra e solta.
Eu parava quando eu via que havia conversa “tal enquanto tal” ou religião. Já me interessava.
* As tendências pró-França e anti-Alemanha — A conversa do Sr. Dr. Plinio com a sua prima — As discussões religiosas
Não me queiram mal, mas a família toda francófila e anti‑germanófila. O Brasil entrou na guerra contra a Alemanha, eles vibraram intensamente. Eu tinha pela nossa França o encanto que tenho, mas a França usava o barrete frígio. Estados Unidos também. Eu na frente da Alemanha e Áustria via outra coisa. Oscilava entre a França e a Áustria, porque eu era todo enlevado pela França, mas quando a minha atenção cai sobre a Áustria, o xodó falava.
E eu ficava assim… A idéia: “Isso devia somar‑se: Não, isso me divide, e não devia dividir‑me. Mas é que isso deveria somar‑se, e eu recuso essa divisão. Essa guerra que eles estão querendo e atiçando é artificial, uma porcaria, não tomo posição nisso”. Eu queria outra coisa, não me metia no negócio.
Depois falava‑se um pouquinho da sociedade, acontecimentos sociais: esse se casou, esse não, aquele não sei o quê, que eu prestava certa atenção, porque eu percebia que entrava alguma coisa de ambientes e costumes no negócio.
A coisa começava assim:
Da parte nossa, respeitosos, silenciosos, falando baixo, e eles falando alto. Mas depois, durante a refeição, eles iam se cansando e a digestão ia se fazendo. E nós estávamos no embalo.
Do meio para o fim, nós começávamos a falar alto e eles começavam a falar baixo, e às vezes eles prestavam atenção na nossa conversa.
Como era a nossa conversa? Era sobre tudo e sobre nada.
E eu apresentava a minha posição, a minha política era: procurava ser agradável, integrar‑me naquela roda naturalmente, procurar ser agradável, mas de outro lado conservar a minha posição contra‑revolucionária e, sem fazer dela uma ponta, insinuá‑la e ir apertando. Essa era a minha política.
De vez em quando dava em discussão calorosa. Mas discussão a nível baixo.
As objeções religiosas que eles faziam eram objeções do último naipe. É, por exemplo, o quê? O luxo do Vaticano.
Eu me lembro de um levantar isso e minha irmã, que nunca foi clerical, tomando sopa. Eu me lembro bem dela tomando sopa e começaram a falar de luxo do Vaticano, etc. Ela na discussão religiosa nunca tomava posição contra mim, mas nunca a favor. Ela era solidária na posição anti-religiosa, mas por estar eu em foco, ela não tomava posição.
Mas um dia um lá disse:
— Eu acho o luxo do Vaticano…
Ela interrompeu a sopa que estava tomando, um pouco só, afastou um pouco a colher da boca, ainda me lembro disso, e disse só isso:
— Isso é objeção de cafajeste. Entre gente fina não se objeta contra o luxo de ninguém.
Eu nunca a vi fazer apologética, mas nunca mais na roda se falou contra o luxo do Vaticano. Que ela disse de modo discreto, mas tão cortante, tão cortante que resolve o problema. O pessoal entendeu que por aí não ia.
— Mas então os papas Borgias, não sei o quê… — e lá ia aquela batalha, mas era relativamente raro…
(…)
Por exemplo, íamos a um lugar de sociedade ou qualquer coisa assim, quando eu contava o que tinha visto, eu realçava o lado nobre. E vários deles gostavam mais de realçar o lado plutocrata. E daí uma crítica assim para mim: “Mas você está contando coisas de gente que não tem mais importância”. E eu: “Porque não tem mais importância, vale mais do que você”, e tá tá tá…
(…)
* As parentes que faziam o Sr. Dr. Plinio falar, acham pitorescas suas descrições a respeito de outras pessoas
… muita brincadeira, muita coisa assim, e que hoje — eu não percebia bem naquele tempo — eu percebo que eles me faziam falar.
Eu me lembro que às vezes em casa de meu tio reuniam‑se as moças à noite, domingo à noite — depois que tinham passado todo o domingo — no terraço. Terraço grande, como todos os terraços do mundo, se via o céu, levavam para fora umas cadeiras, umas mesas e serviam umas bebidas, mas eram bebidas comuns, guaranás, essas coisas assim. Serviam, punham um pouquinho de música e me convidavam, com um outro primo para conversar.
Eu ia porque… enfim, para terminar noite, ia lá. E hoje eu percebo que me faziam falar. Eu não percebia naquele tempo. Eu sou muito expansivo, ia contando e elas iam fazendo perguntas. Mas me faziam perguntas, por exemplo, em lugares que eu ia e que elas não tinham ido, o que acontecia, cidade já grande e tudo. Elas perguntavam:
— Quem estava lá?
E eu dizia:
— Fulano, Sicrano e Beltrano.
Elas perguntavam às vezes:
— Como estava vestida Fulana?
Eu prestava atenção vaguíssima nos vestidos e procurava me lembrar para responder a pergunta:
— Estava assim, com não sei o quê — e elas caíam na gargalhada.
Eu achava que a outra estava vestida ridícula, porque eu não entendo de vestido. De roupa de homem, quanto mais de mulher. Mas elas torciam de dar risadas, depois eu percebi que era da descrição. Elas achavam cômica a descrição, o meu modo de ver a outra como era, e a descrição da pessoa da outra e [assim por diante].
Isso ia até meia-noite e meia, mais ou menos. Aí eu ia com minha irmã para casa, às vezes a pé — não era uma distância muito grande —, às vezes íamos de automóvel.
Chegava em casa, eu já tinha comido durante o dia inteiro opulentamente, ia para a geladeira, tirava uma manteiga fresca bem gelada e alguma coxa que restasse, ou alguma coisa que restasse — Da. Lucilia arranjava isso providamente, dos frangos do jantar — e comia uma quantidade monumental com pão doce, vindo especialmente da padaria para eu comer durante a noite. E comia como se eu estivesse em jejum…
(…)
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