Conversa
de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) –
9/4/1983 – Sábado [RSN 043 e AC VI 83/04.11] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) — 9/4/1983 — Sábado [RSN 043 e AC VI 83/04.11]
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Após o pecado original, o homem oscila entre as aparências apresentadas pelos sentidos e o juízo da razão * O mal nos fala sempre pela porta dos sentidos, enquanto o bem pela porta da razão * Todo sentido procura o êxtase de si mesmo, levando o homem a delirar * Como a graça, fazendo-nos participar do profetismo, nos ajuda a fazer raciocínios que reforçam a certeza da vinda da Bagarre * Na provação profética, a Providência retira o fator sensível e caímos no terreno da pura razão * Quem banaliza o sublime, é levado a conviver com o infame * Sem o pecado original, os homens que permanecessem no Paraíso embelezariam a obra da Criação * Como as considerações sobre o Paraíso são benfazejas, descansam e distendem * A Sra. Da. Lucilia era especialmente sensível às coisas delicadas e harmônicas, extasiando-se também com o esplendor das coisas maravilhosas
Então, quais são as perguntas?
(Sr. João Clá: O Sr. Guerreiro deve ter.)
(Sr. Guerreiro: O Sr. João acabou de chegar com uma coleção de perguntas que ele teria feito aqui.)
Ahahah!
(Sr. João Clá: Eu faço uma então.)
Nós temos que ver um pouquinho a hora tb.
(Sr. João Clá: Nunca começou tão cedo.)
Temos uma hora diante de nós.
Diga lá, então, meu João.
* Após o pecado original, o homem oscila entre as aparências apresentadas pelos sentidos e o juízo da razão
(Sr. João Clá: Em continuação ao assunto que o senhor vinha tratando no automóvel, como a entrega dos maus é muito mais séria, mais profunda, do que a entrega dos bons ao bem. O que é a santidade da Igreja, que é mantida através dos santos? Conservarem-se entregues ao bem, totalmente? Não sei se seria possível o senhor entrar no mistério da entrega dos maus ao mal e o mistério da entrega dos bons ao bem. Os próprios Apóstolos, antes de Pentecostes, a entrega deles era esporádica.)
A questão é a seguinte:
Quando se fala a respeito da mente humana, etc., em linguagem “ploc-ploc”, a linguagem é correta, o que tem é que ela simplifica a realidade. Por isso é que eu a censuro Ela fala da inteligência humana que conhece uma coisa e que quer ou não quer, ou que não conhece uma coisa e que não quer. Apresenta a inteligência humana como uma aptidão, por assim dizer, se pudesse me exprimir, inteiramente monolítica.
De fato, no homem, como ele é hoje em dia, quer dizer, depois do pecado original, isso não se apresenta assim.
O homem tem uma porção de impressões e de sensações que falam para ele uma coisa diferente do que diz a razão. E ele fica com uma espécie de faculdade de dar ouvido a uma coisa ou a outra, de concordar com uma versão da realidade ou com a outra.
Eu vou apresentar o mais reles dos fatos e com isso eu me exprimo bem.
Os senhores imaginem uma criança, porque num homem adulto isso não pode dar-se. A criança põe essa bengala dentro da água e tem a impressão de que a bengala quebrou, porque em vez de a bengala ter essa continuidade, ela vai para lá. A criança fica posta diante dessa idéia de que provavelmente a bengala quebrou, porque ela está olhando, está quebrada. Mas, de outro lado, ela vê bem que a água não tem a propriedade de quebrar a bengala. A bengala oferece certa resistência e a água é caracteristicamente um corpo não resistente. Depois, ela mesma já entrou dentro da água várias vezes e não se quebrou de nenhum modo. Por que é que a água vai quebrar a bengala? Então fica uma dúvida.
Agora imagine que a criança não tivesse o meio de meter a mão dentro da água e verificar o que é que aconteceu com a bengala, não tivesse o meio de tirar a bengala de dentro da água e verificar que não está quebrada. Porque aí é a prova dos nove fora: tirou a bengala de dentro da água, não está quebrada. Logo, não pode ser que depois de indo para o ar consertou. Logo, a bengala não quebrou.
Assim mesmo, a mente humana é tal, que eu lhes garanto que há muitas crianças que ainda gostam de passar a mão na bengala dentro da água, para ver se não quebrou mesmo.
Os senhores dirão: “Mas o intelecto da criança é débil. No intelecto do homem não tem essas coisas”.
A criança fica colocada diante de uma aparência e de um juízo da razão. Entre a aparência e o juízo da razão, acaba sendo que as aparências falam de um certo modo, e o juízo da razão fala de outro, e ela, se quiser, acaba acreditando na aparência. É uma deformação nela, por onde isso é assim.
Isso que se dá assim com as crianças, nos homens maduros, vamos dizer, os homens que estão ainda moços na adolescência, ou moça, isso se dá de outra maneira: é na escolha das amizades e dos ambientes que têm. Muitas vezes sabem claramente que tal, tal, tal coisa são sintomas de uma má amizade ou de um mau ambiente, mas as aparências são sumamente atraentes. E a pessoa acredita, às vezes, na aparência, porque não quer passar pela decepção em sentir que a aparência é falsa. E se bem que o moço saiba que em virtude de tal sintoma, tal ambiente é ruim, ele acaba freqüentado aquele ambiente por causa de uma certa aparência.
Isso é muito mais sensível, sem nenhuma comparação, no que diz respeito à escolha da consorte. Para falar só na consorte. Ele vê uma determinada moça que tem uma certa aparência, essa aparência impressiona tanto, que a moça dá todas as provas que ela não é como a aparência dela. Ele acaba casando com a moça por causa da aparência.
A aparência das coisas tem uma linguagem que desafia a razão e obtém que o homem acredite naquela que ele sabe que não é verdade.
Assim, nós poderíamos dar milhares de outros exemplos. Eu dou um só.
(…)
Agora, acaba acontecendo que é agradável acreditar nas aparências e é desagradável dizer a elas que elas mentem. Quando nós dizemos a uma aparência: “Tu mentes”, nós dizemos aos nossos próprios sentidos: “Tu mentes”. E a gente não gosta de dizer aos seus próprios sentidos que está mentindo. É uma coisa como se a gente matasse um pouco aquele sentido e dizer: “É o contrário do que você vê, do que você olfateia, do que você ouve”. O contrário é que é verdade, você deve admitir o contrário.
Há uma coisa que nos constringe, que nos é desagradável. No fundo, porque os sentidos nos devem revelar a verdade. É gostoso receber a verdade por meio deles. E o resultado é que a gente recebe aquilo, se é para ficar achando que aquilo está errado, é uma violência que nós fazemos sobre nós, que nos contunde.
* O mal nos fala sempre pela porta dos sentidos, enquanto o bem pela porta da razão
Ora, o mal nos fala sempre pela porta dos sentidos. Mas sempre. E os sentidos nos convidam enormemente para atender. Enquanto o bem nos fala sempre pela porta da razão, e apenas os sentidos entram do lado do simbolismo para ajudar a razão, e não para substituir a razão. De maneira tal que é preciso o homem fazer um esforço para segurar a razão e para combater os sentidos.
Não sei se está claramente expresso.
(Todos: Sim.)
Vamos dizer: uma bengala. Essa bengala está muito antiga e passou pelos meus maus tratos… Mas ela, no tempo em que era mais soignée, era uma bengala bonita. Essa bengala, se a gente a considera assim, é um bonito objeto que nos fala de uma porção de coisas. Ela é o corolário da casaca, ela é irmã da cartola, ela está habituada às condecorações, ela é de uma era que toca na Belle Époque. Esta, em concreto, é da Belle Époque, de antes da Primeira Guerra Mundial. Nos evoca ao espírito uma porção de coisas. É até deleitável a gente pensar nisto. Isso são coisas que nosso espírito diz.
Mas se a gente convidar um analfabeto para olhar para essa bengala e depois explicar para ele toda a história como é, o enfermeiro Cláudio, por exemplo, se a gente quiser explicar para ele como é, para ele é um trabalho que ele procura, a respeito dessa bengala, só considerar o que ele vê: um pedaço de pau. Está acabado. Para ele é um pedaço de pau, não tem mais nada, e com isso ele se satisfaz. Porque o resto é preciso trabalho… Os sentidos: pau. Pronto, está acabado.
Ora, constantemente, por efeito do pecado original, esse duelo vai se dando. Os nossos sentidos vão nos indicando uma coisa e a inteligência vai nos indicando outra. Progressiva.
Cada vez mais, quando o homem se entrega ao mal, ele está viciado em dizer sim para os sentidos, em acreditar na lorota dos sentidos. E cada vez que ele se entrega ao bem, ele vai fazendo o contrário: ele vai vergando os sentidos, e a razão vai dominando. E depois, em determinado momento, ele vai sabendo interpretar o que os sentidos dizem, de modo a tirar dali uma coisa conforme a razão.
Os senhores, aqui no São Bento, vivem isso. Quer dizer, tudo lhes fala aos sentidos, a favor da razão. Os sentidos aqui quase que são forçados a lhes dizer a verdade. E tudo por onde eles mentem é posto de lado, é apertado de lado. É o triunfo do homem.
* Todo sentido procura o êxtase de si mesmo, levando o homem a delirar
Agora, acontece que os sentidos quando mentem, mentem numa tendência assim:
Todo sentido procura, no sentido etimológico da palavra, o êxtase de si mesmo. O que é êxtase? “Estare” é estar; “ex”, fora de si. Ficar fora de si, no seu próprio ponto.
Um homem que, por exemplo, gosta muito de música, a procura do aparelho de música de alta fidelidade se transforma nele numa mania. E se ele tem dinheiro e ele compra o aparelho da mais alta fidelidade do mundo, que logo depois lançam um aparelho novo, ele vende o aparelho que acabou de comprar para pegar outro, para pegar um sonzinho que é não sei o quê, que é mais delicioso porque não sei o quê. Porque ele procura uma espécie de absoluto do ouvido.
O guloso procura o absoluto estúpido da comida, puramente gutural, ou o absoluto do requinte, mas ele procura.
Assim, todo sentido procura o êxtase de si mesmo. E procura fazer o homem delirar, porque no êxtase do sentido o homem delira.
Precisa ter uma construção de Civilização Cristã velha, para fazer o homem encontrar numa coisa dos sentidos uma interpretação bem dada pela razão, em que o sentido pode chegar ao auge do apreço, sem delirar.
Por exemplo, um homem — eu sou suspeito de falar, porque não sou entusiasta de vinho — que saiba tomar o vinho aos pequenos goles, uma dose moderada, e fazer disso para si um grande prazer intelectual, esse é um homem que, nessa matéria, o espírito dominou a carne.
Agora, um homem — eu conheço casos assim — tão viciado no álcool, que chega a derramar álcool puro dentro de um copo de água para beber, quando não tem outra coisa para beber, nesse a matéria dominou.
Não sei se está claro.
(Todos: Sim.)
Aliás, os senhores sabiam.
* Como a graça, fazendo-nos participar do profetismo, nos ajuda a fazer raciocínios que reforçam a certeza da vinda da Bagarre
(Sr. João Clá: Dentro do Grupo a gente sente a graça falar de forma sensível no interior das almas, um como que falar através do milagre, como falava para o homem medieval, como falava para o homem do Antigo Testamento. Eu constato isso, mas não consigo definir bem como é que a graça fala no fundo das almas, de forma sensível, para atrair. […]
Santa Teresa dizia que às vezes a Providência dá graças de união mística no começo da vida espiritual para fazer um convite à pessoa, depois ela retira e mais tarde volta a dar novamente. O senhor deve ver isso, esse fenômeno que se passa no fundo das almas. O que eles vêem, o que é que eles aspiram? O que o demônio procura abalar e oque fica na alma fiel? Quais provas passa ela?)
É um problema dos mais sensíveis, dos mais delicados.
(Sr. João: Isso eu acho que diz mais respeito a eles, eles vão prestar mais atenção.)
(Todos: Nãooooo!)
(Sr. João Clá: Sim, na primeira parte da reunião os senhores estavam desligados!)
Eu vou ser concretíssimo, porque se não for concretíssimo aí não adianta. É melhor ser absolutamente concreto.
Acontece o seguinte: como nossa graça é a participação no profetismo, no sentido “Réfutation”da palavra, é preciso analisar bem o profetismo — o raciocínio de caráter profético — para compreender como é que atua a graça.
Vamos dizer, por exemplo, o seguinte: a certeza de que vem a Bagarre. A certeza que vem a Bagarre resulta de um raciocínio. E o raciocínio é o seguinte:
Primeiro ponto: o pecado chegou ao grau X.
Segundo ponto: tendo chegado ao grau X, a resistência, a capacidade das almas de resistirem ao pecado está reduzida a quase zero. É verdade que é por culpa delas, mas é também verdade que as dificuldades são colossais, e que a possibilidade de resistir está, de fato, reduzida a quase zero.
Terceiro: é um absurdo que isso esteja assim. Logo, deve vir uma Bagarre para fazer cessar isso.
Outro raciocínio se põe assim:
Deus é ofendido de um modo clamoroso com isso. E o homem colocado diante de um crime clamoroso, tende a fazer cessar o crime. Ele não tem sossego enquanto ele não tiver imposto que o crime cesse.
Vamos dizer, por exemplo, um homem que mora num cortiço, e ele ouça todos os dias, ao lado, uma mulher que é madrasta de uma criança de 2 ou 3 anos, chega e todos os dias dá uma surra na criança. De maneira que um pouco antes de a madrasta chegar, suponhamos que ela chegue todo dia à mesma hora, já a criança está chorando. Ele não encontra sossego na vida dele enquanto não obriga essa madrasta a não tratar a criança assim. Por quê? Porque é dos tais pecados que bradam ao céu e clamam ao homem por vingança. O homem é tão incompatível com aquele pecado, que não pode suportar a visão daquilo, a cognição daquilo. E ele tem que fazer cessar aquilo, senão ele não tem sossego.
Ora, se é assim conosco diante de pecados muito menores, diante de um pecado avulso que é uma megera que espanca barbaramente o enteado, como será Deus diante do que Ele presencia? É certo que Deus fará cessar isso logo.
Bem, o que é que acontece?
É que para esse raciocínio produzir em nós todo o efeito, a graça tem dois gêneros de ação. Ela primeiro torna muito mais claro aos nossos olhos, na observação corrente, a enormidade do pecado, e quanto esse pecado ofende a Deus. Fica mais claro para nós, nós percebemos melhor. E de outro lado, fica mais claro, por isso mesmo, como Deus não pode tolerar isso. Resultado: a certeza da Bagarre vem dessas duas observações que a graça nos deu meio de fazer com particular lucidez, e a respeito das quais confirma-se um raciocínio bem feito, bem travado.
Não sei se está bem descrito o processo.
(Todos: Sim.)
* Na provação profética, a Providência retira o fator sensível e caímos no terreno da pura razão
Acontece que quando a graça quer fazer a provação profética, ela faz uma outra coisa: ela se retira, e essas premissas ficam menos claras para o homem.
Mas o que quer dizer aqui menos clara? Eu vou dar aos senhores o sentido “menos clara”, os senhores vão ver bem o que é.
Os senhores imaginem uma criança — o mesmo caso, do homem que mora ao lado da mulher que dá na criança, etc. — que é uma criança encantadora. O homem vê às vezes a criança brincar no jardim e fica encantado com a inocência dela. É ao mesmo tempo uma criança muito bonitinha. E quando ela chora, ela tem um modo de chorar comovedor.
Agora imaginem o mesmo caso, mas não é a mesma criança. É uma criança sarnenta, com nariz pontudo, um olho estrábico colado no nariz, sem-graça e birrenta. Quando chega na hora da criança apanhar, só porque essa criança não é bonitinha, ele sente muito menos a injustiça. Conforme o caso, ele pode tornar-se indiferente à injustiça.
Ele não pensa que a criança assim, essa feia, é muito mais infeliz, porque todo mundo a agrada muito menos, e ela ainda vê despencar sobre si esse infortúnio. E não tem pena dela porque não é gostoso para ele agradá-la. Enquanto é gostoso brincar de boneca um instante com aquela criança, a outra. Por causa disso, ele tem pena de uma e não tem pena da outra. Não é que ele pensando, ele não veja, mas ele não quer pensar. Os sentidos não lhe falam, é o negócio dos sentidos.
Assim também a Providência: retirando o sensível que ela nos dá para percebermos a enormidade do pecado contemporâneo, retirando esse sensível nós caímos no terreno da pura razão. E no terreno da pura razão, nosso élan diminui.
O que é que a Providência quer de nós, com isso? É que ela quer que nós a amemos quando não se tem vontade de amá-la. Amemos pela razão e não amemos apenas por uma certa aparência, por um certo modo de tocar.
* Quem banaliza o sublime, é levado a conviver com o infame
Agora, aqui entra o pior. Alonga um pouco a exposição… É que quando o homem tem uma alma tendente ao banal, tendente ao sem-importância, ao vil, ele não gosta das atitudes de alma extremas. E ele não gosta nem de indignar-se, nem de se entusiasmar. A alma vil é assim. Detesta ambas as posições.
Então, quando ela convive com o maravilhoso, ela banaliza, porque ela cansa de admirar. Quando ela convive com o infame, com o hediondo, ela por assim dizer perdoa, porque ela se cansa de detestar. E chamando-nos para o alto, para o alto, par ao alto, par ao alto, junto com ela, a Providência sujeita nossa tendência à banalidade a essa prova.
Eu não conheço os exegetas, era preciso ver o Cornélio, a minha velha do Cornélio, mas eu creio poder interpretar aquele episódio do Tabor assim:
Quando São Pedro queria fazer uma tenda e ficar ali em cima com Moisés, com Elias, com os Apóstolos, morando ali em cima com Nosso Senhor, daqui a pouco ele estava fazendo o jantarzinho dele… E se Nosso Senhor o chamasse para dar um ensinamento muito sublime, na hora que ele fosse tomar a carnezinha que ele tinha fritado, ele era capaz de dizer: “Mas agora?”, e querer o bifinho.
Por quê? É o cansaço com a convivência com o sublime.
Me parece que no sono dos Apóstolos havia carradas disso. Convivendo, convivendo, convivendo, banalizaram o sublime. E acho que o que Nosso Senhor deu a São Pedro quando olhou para São Pedro e São Pedro se converteu, o olhar d’Ele foi tal que restaurou em São Pedro a visão do sublime que São Pedro tinha banalizado.
Quem banaliza o sublime é levado a conviver com o infame. Pela mesma operação da alma. A alma perde a elasticidade.
Os Apóstolos estavam banalizados com o sublime, como que não perceberam o infame que estavam fazendo. Dormiram e fugiram. E se alguém increpasse, eles diriam: “O que é que tem?”. Até depois se converteram.
É o quê? É a tendência da alma humana — é, portanto, já outro ponto — para reduzir o sublime e o infame às proporções do medíocre. E bocejar diante do sublime, como diante do infame.
Ora, nossa vocação é desse gênero. Os senhores querem ver uma prova disso? É característico:
De vez em quando eu vejo — aliás, é do começo do Grupo, não é só com os senhores — um que tem uma vontade única de converter X, me pede orações por esse ou por aquele X que está fora. Está muito bom. Tem muito menos empenho na santificação de quem já está dentro. Porque naquela alma nova que Deus está atraindo, ainda é para ele qualquer coisa de novo. O que há de belo na alma de seus irmãos, ele já banalizou. E ele só vê ali o banal: “Esse aqui?! Esse é um que quando lava prato na cozinha, deixa o prato meio sujo. Está dada a ficha do homem. Aquele lá é um que quando sobe a escada, faz um barulhão que até acorda a gente! Aquele outro lá, é um que conta umas coisas sem graça, e ainda quer que a gente ouça!”.
Quer dizer, essas migalhas acabam, pela banalização da gente, apagando a noção da vocação que o outro tem. E a gente enche todo o ambiente da gente de visões erradas dessas. É claro que com isso o amor ao sublime vai desaparecendo.
E me parece que sua pergunta fica respondida. Ou não, meu bom João?
(Sr. João Clá: Está cedo.)
Está, eu estou olhando para ver se ainda está cedo, acabo de verificar que os senhores ainda têm meia hora de paciência.
Agora, não há um que não passe por isso, hein!
Vamos dizer, por exemplo: eu que não moro aqui, me extasio com essas janelas aqui. Mas se eu fosse prisioneiro aqui, eu não tomando cuidado, eu acabava, não é implicando com a janela, mas banalizando. Por quê? Porque é assim.
A resistência ao banal indica até que ponto a pessoa está resistindo à própria mediocrização.
* Sem o pecado original, os homens que permanecessem no Paraíso embelezariam a obra da Criação
Por que ficam quietos? Vamos perguntar algo.
(Sr. Guerreiro: […] O senhor falar da possibilidade, se não houvesse o pecado original, como seria o desenvolvimento da humanidade até o Reino de Maria…)
(…)
Eu vou responder não propriamente com o Reino de Maria, mas com o próprio Paraíso. Depois a transposição para o Reino de Maria fica mais fácil. Quer dizer, é uma volta, mas é para melhor entrar no assunto. De maneira que eu dou a volta.
No Paraíso nós podemos imaginar as pedras — eu falo as pedras, porque eu sou muito propício a elas — que estivessem debaixo da terra, mas que o homem, portanto, no caso concreto Adão, mas também os descendentes de Adão que continuassem no Paraíso… Haveria alguns que pecariam e seriam postos fora do Paraíso. Esses teriam descendência na terra. Seriam primos tortos da linhagem nobre que ficaria no Paraíso. A terra seria o degredo para uma plebe criminosa, e o Paraíso seria o palácio de uma aristocracia santa. Seria a coisa.
As pedras estão debaixo da terra. Elas estão na sua ganga. Pode-se supor, pode-se admitir que isso seja assim no Paraíso. Pode-se admitir também, pelo contrário, que se encontrasse de quando em quando rubis, brilhantes, safiras, esmeraldas, sei lá o quê, rolando de cá para lá, como se encontram pedregulhos.
Num caso ou noutro, conhecendo as pedras preciosas, o espírito humano tem qualquer coisa de arquitetônico, por onde ele perceberia que elas, dispostas como estão na natureza, não dão todo o seu pulchrum, e que haveria um pulchrum mais bonito se ele construísse com elas um mosaico, digamos, numa parede, que tivesse uma beleza ainda maior.
Com o domínio que o homem tinha sobre a natureza, antes do pecado original, ele dando ordem, tudo isso se fazia, porque tudo obedecia a ele. Tudo se fazia sem esforço: um peteleco bem dado, a ganga do brilhante cai. Ele sabe perfeitamente como expor o brilhante ao sol, de maneira que fique bastante mole para ele modelar. Para ele tudo era fácil, tudo era fácil. Ele sabia tudo e podia tudo.
Para que é que ele faria esse mosaico? Qual é a razão de ser de fazer esse mosaico?
À primeira vista, é porque o deleite visual que as pedras esparsas dão é menor do que o deleite que dá o mosaico. À primeira vista. Mas isto não satisfaz, porque não é só o deleite visual. Diante do mosaico, o homem tem mais do que o simples deleite visual. Ele tem o deleite de uma ordem superior, de uma coisa que estava em desordem e que ele pôs numa ordem que ele podia imaginar, mas que Deus não tinha constituído. Deus queria que ele fizesse essa ordem.
Ou seja, ao longo dos séculos no Paraíso, os homens iriam modelando o próprio Paraíso, de maneira a realizar uma certa forma e um certo grau magnífico de beleza, onde Deus dissesse: “Agora pára, porque tudo que eu queria que tirasses do Paraíso, foi tirado”.
Mas ao longo desse trabalho de ornato do Paraíso, a própria alma do homem ia se ornando. Porque o sonhar com essas coisas e realizá-las, ele próprio completando em si a imagem subjacente, ignota, de magnificências, para as quais ele foi criado mas que não existem.
E assim como na procriação ele transmite uma vida, é uma função que prolonga a função criadora de Deus — a expressão não é muito correta, mas para dizermos isso —, também na elaboração artística, poética, literária, etc., no mundo, o homem acabaria de elaborar a obra da Criação, dando-lhe um acabado e que Deus não quis dar, quis que o homem desse.
Por que é que o homem quereria esse acabado?
A pergunta se desloca: por que é que Deus quereria este acabado? Por que Deus quereria que a obra que Ele fez atingisse esse fini, esse acabado?
É evidente que é para atingir o grau de semelhança com Ele, que daria a Ele a glória inteira. É evidente. Quando nós queremos melhorar o universo que Deus fez, nós, se temos espírito de fé, devemos compreender que estamos querendo tornar Deus mais transparente. Eu digo mal, não é Deus mais transparente, é o universo mais transparente, para através dele vermos a Deus.
Na Criação assim, nós podemos imaginar os homens andando, por exemplo, no Paraíso. Nós podemos imaginar o Paraíso que se estendesse mais. Ninguém sabe, antes do pecado, que tamanho tinha o Paraíso. Tudo são questões que era preciso ler na Bíblia, para ver os intérpretes, etc. Na era do Cornélio, se ainda estiver entre os vivos, eu me lembrarei disso e talvez mande aos senhores uma carta.
O fato concreto é que nós podemos imaginar, por exemplo, esta impressão: um de nós está andando deleitado pelo Paraíso, quando, de repente, encontra um grupo de pessoas, outras, também inocentes, que passam. E estas pessoas estão adornadas com flores, estão banhadas de luz, elas são perfumadas, elas são todas perfeitamente belas, perfeitamente castas, não suscitam a menor concupiscência, e passam cantando.
A gente de dentro da água cristalina, onde a gente não está propriamente se banhando, porque a idéia de banho traz a idéia de limpeza e traz a idéia de sujeira, mas onde a gente está se deleitando, a gente vê à margem passar esse cortejo. Andam todos ordenadamente e naturalmente, de tal maneira que é perfeitamente belo vê-los passarem.
A gente vê ali algo que Deus quis que o Paraíso tivesse em virtude do homem. Eram almas que estão se aprimorando lá e que era a melhor beleza disso. Imagem e semelhança de Deus. É, portanto, amor a Deus.
Não sei se está claro.
(Todos: Sim.)
Agora, eu acho que atrairia muita gente se, por exemplo, um padre, simplesmente isso, estudasse bem — e creio que no Cornélio há fonte para isso — nos doutores da Igreja, padres, tradições, etc., tudo quanto há sobre essa hipótese, e se especializasse em pregar sobre essa hipótese. Mais nada. Como seria?
Ele atrairia multidões para o ouvirem. Mas multidões. E eu creio que ele deixaria atrás de si um rastro de interesse pelas coisas da Igreja, que seria profundamente diverso dos sermões que os senhores vêem por aí. Tão diverso que nem tem comparação.
* Como as considerações sobre o Paraíso são benfazejas, descansam e distendem
Para nós mesmos, chegou tarde da noite. Não é verdade que nós descansamos um pouco evocando isso?
(Todos: Sim!)
Não é verdade que, por exemplo, isso prepara para o sono, prepara para a distensão?
Os senhores estão maliciando… Ainda tem quinze minutos, para alegria minha. Mas prepara. Quer dizer, isto é propriamente distensão.
Eu acho que ser capaz de pensar nisso descansa muito mais do que as tais câmaras de recuperação: o sujeito fica como um cadáver estendido ali com duzentos aparelhos ligados no homem, para ver se ele não está morrendo, e ele vivendo, deixando o tempo correr.
Olha que bom pensamento para um cardíaco que esteja em estado de graça, dizer para ele: “Olha aqui, meu caro. É bem verdade que se de repente uma veia que você tem no coração e que não está grande coisa, é bem verdade que se essa veia estourar — pode estourar de repente — você morre. Você já pensou o que é ‘morre´? Você está em estado de graça e você vai para um lugar muito melhor do que esse. Você vai para o Céu. Você vai ver Deus face-a-face. Te separa do Céu apenas a parede tão tênue de uma artéria que não está funcionando bem”.
A alguns doentes seria preciso persuadir de continuar na cama, em vez de facilitarem para ver se morriam. E não é aquele terror da morte dos que estão deitados lá. Quer dizer isso é eminentemente benfazejo, interessante, bonito, e o que mais queiram.
Se eu tivesse tempo e se a tanto me ajudasse engenho e arte, eu estudaria isso no Cornélio e faria várias reuniões sobre isso. Mas deixando que depois cada um dos senhores imaginasse as coisas do Paraíso nessa linha, ma linha da nossa vocação e nosso espírito, mas com peculiaridades pessoais, etc., desenvolvendo isso. Daria uma coisa muito bonita.
Que bonita conversa se à noite nós nos encontrássemos para trocar impressões sobre as últimas novidades do Paraíso, os fatinhos do Paraíso imaginário! Como seria bom. Não seria muito mais atraente do que qualquer televisão, rádio, porcaria, tudo isso que anda por aí por fora?
Diriam: nós somos uns sonhadores.
É verdade, mas desses sonhos que não são contrários da realidade, que a adivinham.
* A Sra. Da. Lucilia era especialmente sensível às coisas delicadas e harmônicas, extasiando-se também com o esplendor das coisas maravilhosas
Não sei se minha resposta respondeu à sua pergunta.
(Sr. João Clá: […] Ela era muito sensível a luzes e flores, a tal ponto que o sinal que ela deu na missa de sétimo dia foi de luz e flor. O senhor poderia contar alguns fatos…)
Ela era, propriamente, nesse sentido, sensível a muito mais coisas do que ela dizia. Ela era eminentemente, no sentido bom da palavra, sensível a milhares de coisas, uma quantidade indefinível de coisas.
Por exemplo, uma flor que se desse para ela. O hábito dela era, se era uma flor bonita, uma flor excepcional, às vezes uma coisinha pequena: ela parava, olhava longamente quieta, sorrindo, depois de analisar, às vezes ela passava muito ligeiramente o dedo num ponto ou noutro, e depois começava a falar, mas com toda a naturalidade: “Veja tal ponto, veja tal coisa”, etc. Mas ela não sabia exprimir o exercício de transcendência, então ela dizia: “Olhe que bonito tal coisa, tal estria de tal pétala, tal tonalidade de tal flor”.
Dir-se-ia, por todos os comentários dela, que era muito sensível especialmente às coisas delicadas e que tudo quanto significasse delicadeza de sentimentos, delicadeza de alma, matizes, boa medidas das coisas, proporções adequadas, harmoniosas, tudo quanto significasse harmonia, era a luz primordial dela.
Mas isto é verdade apenas em parte. Porque eu já a vi extasiar-se com coisas maravilhosas, de um modo tal que só mesmo uma ajuda da graça pode explicar inteiramente. Para uma pessoa que não seja abobada. Ela era longe, longe de ser abobada.
Eu me lembro muitas e muitas vezes… no tempo que ela estava viva, São Paulo não tinha tanta poluição quanto tem hoje. E o movimento de nosso bairro, o movimento de automóveis, era muito menor do que é hoje, de maneira que o ar todo era muito mais puro.
O sol quando se põe em certa época do ano, em certo momento ele aparece bem acima da Rua Alagoas. E há na calçada da Rua Alagoas, que é vizinha ao jardim da Praça Buenos Aires, uma extensão de arvoredo grande, de árvores que hoje já estão meio velhas, mas naquele tempo ainda estavam em todo o seu viço. E o sol se pondo, as árvores formam uma espécie de cúpula, e fazia por debaixo da cúpula os raios de luz que entravam.
Ela ficava em pézinha junto à janela olhando longamente, longamente, extasiada. Mas eu via que ali a extasiava o esplendor, juntamente com o jogo delicado dos matizes, à medida que o esplendor ia se atenuando e se transformando em delicadeza, porque o sol quando vai morrendo, morre com delicadeza. Ela se extasiava literalmente com isso.
Mas eu nunca a vi, diante de uma coisa natural, tão extasiada como quando eu a tendo levado ao Rio, para assistir minha posse como deputado. Arranjei para ela um dos melhores quartos do Hotel Glória. Naquele tempo Glória e Copacabana eram os dois melhores hotéis do Rio, porque ombreavam. Eram, portanto, os dois melhores hotéis do Brasil. E eu arranjei para ela um quarto excelente, de frente, que dava para ver bem o mar.
O mar, com essas reformas estúpidas que fizeram, está longe do hotel, mas naquele tempo o mar batia, por assim dizer, quase no hotel. A uns dez metros do hotel já tinha mar, tinha apenas o necessário para passar uma avenida estreita e uma coisinha para os automóveis que encostam no hotel que largam os hóspedes e saem.
Mas no quarto onde ela estava, isso não se via. Via-se diretamente o mar. Podia se ter a ilusão de estar em alto-mar.
E era a beleza da praia do Flamengo e daquela encosta, que naquele tempo também tinha um desenho diferente, muito bonito, que ela ficava olhando.
Ela teve uma pequena indisposição de fígado e os dois dias ou três que passamos no Rio ela teve que passar quase todos no quarto. Mas eu vi que ela estava satisfeita com a circunstância, porque ela ficava sentada junto à janela, nessas cadeiras espreguiçadeiras, para fazer bem para o fígado, mas horas e horas, sozinha e sem ter o que dizer da beleza do panorama.
Eu era obrigado a entrar e sair para uma coisa, para outra, etc. Estava lá minha irmã, estava lá meu pai, entravam, falavam um pouco com ela, uma coisa e outra. A gente via que ela emudecia a conversa para olhar o panorama, literalmente inebriada com o panorama do Flamengo, muito mais bonito naquele tempo do que hoje.
Havia diante do hotel, duas palmeiras — não chegavam a ser propriamente palmeiras imperiais, mas tendiam a isso — altas e que se recortavam sobre o panorama do mar. E ela gostava de olhar essas palmeiras.
Depois vinha a lua.
E tudo isso ela depois dava jornal- falado. E com isso, ela se regalava muito.
No meu lugar ela se alegraria muito em poder apertar a mão de cada um dos senhores, antes de ir embora. Eu proponho que osculemos essas coisas e depois começamos por aí.
(Sr. João Clá: Ahahah!)
O que é que há, meu João? Você está maliciando, não é?
(Sr. João Clá: Levaram uma rasteira e não perceberam.)
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