Conversa da Noite ─ 02/04/83 ─ Sábado . 16 de 16

Conversa de Sábado à Noite ─ 02/04/83 ─ Sábado

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As alegrias da Noite de Natal, da Ressurreição, da Ascensão e de Pentecostes foram as maiores alegrias que houve na Terra * Pode-se conjecturar que o demônio tenha presenciado a Ressurreição. Como ele se sentiu esmagado! * Nas alegrias da Ressurreição, Nossa Senhora considerava a derrota do traidor * Se no Céu se pode lançar imprecações contra os precitos, por que não se pode fazer o mesmo da Terra? * No Reino de Maria deve haver comemorações das grandes datas da Igreja, como também festas de execração * Na hora do “Gloria in Excelsis” na Missa do Sábado Santo o Senhor Doutor Plinio fica com saudades da tristeza que se afasta * Comentário sobre a indiferença dos membros do Grupo à “Via-Sacra” composta pelo Senhor Doutor Plinio * Sobre a beatificação de Anchieta, apesar do caso João de Boles, uma conclusão sobre o carisma da infabilidade: “Ainda que um Papa canonizasse alguém por capricho ou politicagem, não erraria”

Está tão régia a imagenzinha! Depois do triunfo de hoje à noite, não é?

A cerimônia esteve lindíssima, mas um dos pontos mais bonitos foi o descerramento do véu e aparecer a imagenzinha! Extraordinário!

(Sr. D.: Ela estava radiante por ver o senhor.)

* As alegrias da Noite de Natal, da Ressurreição, da Ascensão e de Pentecostes foram as maiores alegrias que houve na Terra

Eu estava radiante por vê-la, isso é bem verdade. E pensando como seria a glorificação d’Ela do Reino de Maria. Porque, aí os senhores podem ter uma idéia. É uma imagem. Por mais expressiva que seja, que diferença da realidade.

Depois ali é uma glorificação simbólica, é uma cortina que a gente descerra e uma imagem que aparece. Tem seu conteúdo. Qualquer conteúdo desses é magnífico, porque diz respeito a Ela. Mas, o que será a glorificação verdadeira d’Ela?! Nós não podemos ter idéia.

Eu tenho a impressão de que é da ordem do seguinte. A maior alegria que houve na Terra, com certeza, comparável talvez apenas com a Noite de Natal é a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

São as 3 grandes alegrias: Natal, Ressurreição, e Ascensão. Mas, na Ascensão, era a alegria misturada com as saudades. Os senhores podem imaginar o vazio! Se não fosse Nossa Senhora ficar na terra… era de perder o rumo, de perder o rumo.

Bem, houve a alegria enorme também, de Pentecostes. Vamos dizer que seriam 5 alegrias ─ se contei bem ─ culminantes. Bom, eu creio que a alegria da ressurreição do reino d’Ela está quase nessa linha. É assim que nós podemos considerar a coisa.

Então os senhores podem imaginar o que os espera. Temos que atravessar vales profundos e descer até o fundo do inesperado. Mas também subir até as culminâncias do inesperado. Porque também muitos inesperados bons nos aguardarão, para a alegria de nossa alma. Virão também. Até a grande ocasião, a grande ocasião.

Bem, não é o dia de eu falar, é dia de eu responder. De maneira que os meus caros pergunteiros têm todos a palavra. Saudosos que ficamos de um pergunteiro que está ausente. Perguntam alguma coisa. As preferências vão para o Paulo Henrique que está há menos tempo aqui.

(Sr. Paulo Henrique: Minha preferência é que o senhor continuasse falando o que o senhor tratou no MNF nesta semana, comentários das 3 cerimônias, o senhor disse que pensou um pouco, quando abriam a cortina da glorificação de Nossa Senhora. O que o senhor pensou, enfim.)

* A cerimônia representou bem o caráter opressivo da Paixão: “tudo o que acontecia era o contrário do que devia acontecer”

Na cerimônia de Sexta-Feira Santa ─ as três foram lindíssimas! Eu já disse aos senhores, não tenho que repetir, gostei enormemente, gostei superlativamente. Quer da parte cerimonial, quer da parte musical, gostei superlativamente. Mas, a cerimônia de ontem à noite tinha qualquer coisa ─ tinha e devia ter, era um dos elementos do êxito dela que ela tivesse ─ qualquer coisa de meio opressivo. E o opressivo vinha, exatamente, de acontecer constantemente o contrário do que deveria acontecer.

Nosso Senhor tem a Ceia. Durante a Ceia, tudo vai acontecendo ao contrário, explode a traição, explode a indiferença, explode depois a incompreensão e a fuga dos apóstolos, Ele sozinho… tudo vai acontecendo ao contrário do que pareceria a nós que deveria acontecer. E do que seria direito acontecer, se Ele não fosse o Redentor do gênero humano.

Agora, isso, naturalmente, à medida em que se vai contemplando, vai dando uma espécie de nota ─ não sei se os senhores sentem, eu sinto ─ ao mesmo tempo grande enlevo, adoração por Ele, etc., etc., mas de uma espécie de opressão que se produz na sensação da impossibilidade de estourar com eles, já morreram. Aqueles que, dentre eles, tinham que estourar já estouraram, estão estourados, não é do espírito da Igreja que eu me ponha a lançar desaforos contra eles. Então fica aquela coisa comprimida. E isso se prolonga no sábado.

* A Liturgia comemora a Ressurreição com a lentidão própria à Igreja, que tem diante de si a Eternidade

Quando de repente, vem a Ressurreição ─ a Ressurreição é maravilhosamente calculada pela Liturgia num misto de alegrias que começa luzir nas trevas; aparece uma capa branca para o padre, depois retira e põe outra violácea. Dir-se-ia que o dia começou a raiar mas que é um engano e que a noite dominou de novo. O círio Pascal, bem, é uma coisa magnífica, mas que longa espera para o círio dar luz à luz que vai estourar ela mesma.

A gente fica com vontade de perguntar ao círio: “Tu prenuncias a vitória, mas tu não te cansas de prenunciar? Quando chega essa vitória que tu prenuncias, ó círio venerável e simpático? Tu retardas o que anuncia, quando deverias apressar o que anunciais?! O círio, quem es tu?”

E a Liturgia se desenvolve sem pressa. Ela vai com todas as lentidões, própria da Igreja que tem diante de si a Eternidade! O padre vai, o padre vem, o padre senta, o padre levanta, o padre canta, o coro canta. De repente pára tudo e depois começa de novo, etc., e a gente diz: “É agora!” Não, não é.

Não que se tenha pressa de que a cerimônia termine, não é isso. Tem-se pressa de que ela chegue logo à explosão do auge. É uma coisa completamente diferente.

Bem, quando, afinal, chega o momento e descerra o véu e aparece a Senhora radiosa, com o báculo d’Ela. É muito bonito. Depois tem um fundamento na realidade a gente imaginar as várias cenas que a revelação não descreve, como é que possam ter sido.

* A primeira coisa que Nosso Senhor fez depois da Ressurreição foi aparecer a Nossa Senhora

Nosso Senhor ─ é certo isso ─ assim que Ele reanimou o seu Corpo Sacratíssimo ─ os senhores sabem que, durante o tempo que a alma d’Ele santíssima esteve fora do corpo continuou em união hipostática com Deus. Não perdeu a união com Deus. Isso é doutrina certa. Bem, a alma d’Ele voltou ao corpo, a primeira coisa que Ele fez foi sair da sepultura e aparecer à Nossa Senhora. Isso é uma coisa certa. E Nossa Senhora o contemplou como? Como foi esse encontro, nós podemos imaginar.

Ele teria aparecido a Ela como senhor, Dominus, radioso, esplendoroso, rei, rei, rei , como nunca ninguém foi nem será rei, dominando. A Liturgia emprega uma expressão muito bonita, que eu creio que é tirada da Escritura: Rex regum et Dominus Dominantium, Rei dos reis e Senhor de todos aqueles que tem algum senhorio; domina.

Ele teria aparecido para Ela, pelo contrário, com um sorriso de afago, do momento em que Eles trocaram o primeiro olhar no Presepe em Belém? Na História de 33 anos das relações pessoais d’Ele com Ela, depois do Nascimento ─ porque já tiveram relações antes.

Os senhores precisam ver que, à partir do momento em que Ele foi concebido, Ele foi inteiramente lúcido e Ela começou adorá-Lo e começou uma vida mística com Ele, de uma profundeza que nós não sabemos qual foi. E isto é só no Céu que, perguntando a Ela, nós saberemos d’Ela coisas que o Cornélio não conta porque não sabe… E, evidentemente, no Céu se teria vontade, uma apetência sacral de perguntar essas coisas a Ela, perguntar como foram, como são, etc., é evidente, entra pelos olhos.

Bem, Ele teria a olhado, no momento em que Ele apareceu? Eu tenho como certo que Ele não só se apresentou a Ela, mas que eles olharam um dentro dos olhos do outro. E que, para empregar uma expressão que não está à altura do tema, cada um peregrinou no olhar do outro. O que o olhar d’Ele disse para Ela?

Há nisso uma recíproca: no primeiro momento de glória que Ele recebia nas criaturas, qual era o gênero de glória que Ele queria receber d’Ela? Porque Ela agiria com Ele, conforme Ele se apresentasse perante Ela. De maneira que Ela estava ali como um instrumento de música para o músico.

Então, no Ele apresentar-se com uma beleza perfeita, Ele determinava a forma de louvor que Ele queria da criatura perfeita. E eu tenho a impressão que se pode divergir licitamente sobre isso. Uns terão achado que seria mais afetuoso Ele se apresentar como no Presepe; outros assim; outros assado. Outros, por exemplo, dentro de toda sua alegria, algo que faria a Ela lembrar do último olhar que trocaram, antes d’Ele expirar no alto da Cruz… tudo seria possível imaginar. Tanto mais quanto eu tenho a impressão de que não foi nada disso, mas foi uma síntese de tudo isso.

Nós precisamos não perder de vista que nós não podemos falar d’Ele como se falaria de um de nós. Um de nós não é senão nós.

Quer dizer, nós, ora externamos um sentimento, ora outro, etc., isso vai mudando na nossa alma. NEle, sem dúvida, essas disposições de alma mudavam e Ele as externava.

Mas, sempre numa síntese grandiosa, onde se apresentavam todas as outras disposições santíssimas da alma d’Ele juntas, logo em seguida.

A disposição do momento era como que a quilha do navio. E eu creio que é vendo este todo que Ele obteve d’Ela um louvor inteiro.

Foi uma permuta; a perfeição, tanto quanto a perfeição divina pode filtrar através das aparências de uma criatura humana, mais tudo quanto Ele quis que aparecesse na hora para Ela; bem, tudo apresentando-se a Ela ─ pode-se conjecturar, não se pode descrever ─ Ela, a criatura perfeita vendo e amando aquilo inteiramente.

Quer dizer, viu, entendeu, quis completamente! Foi o primeiro louvor que Ele recebeu d’Ela.

* Pode-se conjecturar que o demônio tenha presenciado a Ressurreição. Como ele se sentiu esmagado!

Bem, isto é visto a cena entre Ele e Ela. Mas não está absolutamente proibido ─ que eu saiba ─ conjecturar o seguinte: que o demônio viu a Ressurreição. E os senhores podem imaginar o ranger de dentes, o ódio, o esperneio no Inferno vendo a Ressurreição.

E que eles conheceram, sem ousarem olhar, eles conheceram que Ele se apresentou a Ela e que Ela, por exemplo, cantou para louvá-Lo. É uma coisa que se pode conjecturar. E que ele se sentiu estraçalhado, porque compreendeu que tudo quanto ele conseguiu com o pecado de Eva estava derrotado. E que o Redentor perfeito tinha conseguido a Redenção perfeita para o gênero humano. E que, substancialmente falando, o domínio dele estava partido.

E nós podemos então imaginar como é que ele se sentiu esmagado na hora em que Ela cantava.

Eu volto a dizer, não estou afirmando que tudo isso se deduza com certeza da Doutrina Católica. Eu estou dizendo que são conjecturas que se pode, piedosamente, fazer. E que tem uma evidente probabilidade na realidade dos fatos. Isso que estou dizendo.

E, quando eu vi a imagenzinha aparecer, alguma coisa dessas idéias me veio à cabeça. Com isso de especial que, se o demônio apareceu para Nossa Senhora, digo mal, se ele pode conhecer ─ ele conheceu, ele teve notícia disso. Ele não tem fé, mas tem notícia das coisas, se ele teve notícia disso, ele deve ter estertorado. Mas Ela, ciente da presença dele, ao mesmo tempo tomava atitude diante do Divino Filho, tomava atitude diante do miserável. E que havia, da parte d’Ele e d’Ela, alguma coisa de vencedores triunfais, terríveis para o demônio. E, e, mais alguém.

* Nas alegrias da Ressurreição, Nossa Senhora considerava a derrota do traidor

Vou agora falar entre aspas, naturalmente. Abro aspas no que vou dizer: “O pobre Judas”. Os senhores viram, um dia desses um jornal fazer uma referência ao “pobre Judas”(…)

(…)os 30 dinheiros com que ele não ficou, que ele não quis, a vida que ele destruiu e o fracasso completo, a inveja, a cobiça, tudo o mais fervendo em torno dele, dentro dele, um mundo de horrores e Ela triunfante! E o que é terrível, mas terrível a ponto de não se saber o que dizer, já agora sem misericórdia. Acabou-se. Para os que estão no Inferno, não há mais misericórdia, acabou-se!

São Tomás descreve as penas todas do Inferno, são tremendas. Diz que ainda seriam piores se não fosse a misericórdia de Deus. Porque em algo atenuou. Mas, feita essa atenuação, as coisas não se movem mais. No que ficou, ficou e aquilo é eterno, não tem mais remédio. É irremediável, acabou!

Então, vitória d’Ela!

Bem, isso seria uma cogitação a respeito do momento em que a imagenzinha apareceu, os nossos sinos começaram a tocar, que se cantou, tudo o mais, as nossa espadas e alabardas apresentaram armas, etc., etc., foi uma cogitação em torno disso.

* No Céu tudo é eterno, portanto, simultâneo, mas a repercussão do que se passa na Terra, também lá chega. Exemplo: as festas dos Santos

Agora, uma outra cogitação é essa. É lícito admitir o seguinte: no Cornélio Alápide, ele fala do Inferno e do Céu, etc., e diz que os que estão no Céu, os bem-aventurados exprobam aos precitos, quer dizer, os homens que se perderam, e aos demônios, o mal que eles fizeram.

Traduzido isso para termos à maneira humana ─ porque no Céu as coisas se passam na eternidade, o homem não é capaz de calcular as coisas como são na eternidade. Como vivemos dentro do tempo não podemos imaginar as coisas como são na eternidade, mas de fato, no Céu [as coisas] se passam na eternidade. Para usar uma linguagem humana, isto quer dizer que, de quando em quando, este ou aquele, esta ou aquela alma exproba a este ou aquele no Inferno, tal coisa! E o exprobado recebe o recado, sem nenhuma dúvida. Naturalmente vocifera, brame. E aquele afirma mais tal coisa, tal outra!

Poder-se-ia ─ é uma pergunta ─ quando eu estiver na gruta com o Cornélio é um dos temas que eu gostaria de consultar. Os senhores vejam se o tema lhes atrai, se atrai arranjem outras grutas longe e outros Cornélios e vamos “Corneliar”.

No Céu o que que enche ─ não há tempo no Céu ─ mas não há uma coisa à maneira de tempo?

Quer dizer, no Céu tudo é eterno, e sendo tudo eterno tudo é simultâneo. Mas, é certo que quando a Igreja aqui na terra, a Igreja posta no tempo, canta as festas, celebra a festa deste, daquele outro. E os senhores sabem que tal é o número de santos na Igreja que não há dia do ano que não tenha santos, e muitas vezes 3, 4 santos e ainda mais. E depois isto é para a Igreja Universal.

Mas além destes existe para tal região tal santo, tal bem-aventurados. De maneira que a Igreja está numa festa permanente, ela é militante mas ela está numa festa permanente. A coisa mais comum é um coroinha perguntar ao padre: “Hoje que festa é?”. Porque já se sabe que tudo é festa, a Igreja está… a vida inteira da Igreja, nas piores desolações, é festa. E festa múltipla.

E sabe-se que quando a Igreja conta nesta terra a glória de um santo, o amor que ela tem a esse santo, que isto no Céu tem uma repercussão.

De maneira que, se bem que no Céu tudo seja eterno, os acontecimentos da terra têm uma certa repercussão no Céu. O tempo tem como que uma certa repercussão no Céu. Não sei se estou me exprimindo com clareza? [Sim!]

Quando o último homem morrer para a criação cessa o tempo. Esse homem vai para a eternidade, ele é julgado e mandado para o Céu ou para o Inferno. Aliás, virá desde logo o Juízo Final e está acabado.

* Se no Céu se pode lançar imprecações contra os precitos, por que não se pode fazer o mesmo da Terra?

A partir desse momento como será? Não se sabe. Mas pode-se imaginar que alguma coisa à maneira do seguinte há no Céu: é a história ─ mas a história aparente… vamos dizer assim, para usar o binômio ─ patente e latente da Igreja ao longo dos séculos festejada no Céu.

De maneira tal que num dia como foi o de hoje todos os atos de virtude que houve, correspondendo a aqueles que tiverem no Céu, vão ser cantados. Aqueles que pecaram hoje, e que se emendaram, e que arrependeram de ter pecado hoje, esta emenda vai ser cantada também. E os pecados vão ser fulminados, isso reverte em dardos lá para baixo.

Assim, milímetro por milímetro, por todos os séculos dos séculos, a história desde Adão até os últimos bem-aventurados que irão para o Céu sem morrer tão santos serão; toda essa coorte enorme a história se repetirá por assim dizer mais ou menos sem fim. E sempre coroando este, aquele, aqueles outros; cantando isto, aquilo, aquilo outro, e ao mesmo tempo fulminando a este, aquele, aquele outro.

De maneira que seriam dois círculos enormes que giram assim, sem parar, para glória e alegria de uns e aflição de outros.

Mas se se raciocina assim… Eu estou quase fazendo uma reunião ─ se se raciocina assim, eu não vejo, eu preciso ver no Cornélio como é isso ─ mas eu não vejo nenhum elemento que exclua a possibilidade de a gente desde já na terra lançar opróbrios contra aqueles que estão no inferno … [Vira a fita]

eu não vejo. E nesse caso eu não veria também, vejam estou empregando o condicional, “não veria”, preciso ver, essas coisas o juízo definitivo é da Igreja, eu estou dizendo que eu não veria, eu não veria também obstáculo, e veria muitas razões favoráveis, a que de fato no calendário litúrgico do Reino de Maria houvesse festas de execração.

Alguém me objetaria: “O que que o senhor Doutor Plinio, faz do conselho, do preceito santíssimo, dulcíssimo, de São Francisco de Salles: “odiai o erro não odiai os que erram; odiai o pecado, não odiai o pecador.”

Eu diria: é precisamente isto. Não seria festa de ódio a quem errou senão na medida em que ficou impenitente e se pode supor que esteja no Inferno.

Eu não imagino a Igreja decretando que tais e tais almas estão no Inferno, uma espécie de canonização em sentido contrário. Me parece até impossível fazer porque ninguém conhece o mistério do último momento de um homem, por improvável que seja não se conhece.

É, um raciocínio implacável é esse, não se conhece.

Mas, uma festa de execração do pecado que ele cometeu teria toda razão.

Eu estou vendo uma alma qualquer solícita e afetiva, me dizer logo: “Doutor Plinio, até podia-se rezar por ele”. Eu digo: “É verdade”, discretamente. Hipoteticamente e discretamente.

Vamos dizer por exemplo, a data ─ eu não me lembro qual é ─ em que Lutero queimou, creio que foi em Wurtenberg, a bula Papal que o condenava. E que ele assim rompeu com a Igreja.

Bem, esta data é uma data de infâmia, torpeza e execração. Como não é de todo em todo impossível que Lutero esteja no purgatório pagando até o fim do mundo, porque se salvou. De todo em todo impossível não é; eu compreendo que nessa ocasião, baixinho, cada uma para si, recitasse uma jaculatória por ele. Mas, quando há tanta gente melhor que está penando no purgatório é realmente o caso de estar se lembrando tanto assim de Lutero?

Eu percebo que estou pondo prós e contras que esticam um pouco, mas é preciso nós nos habituarmos a ver a verdade inteira como é.

Há assim uma espécie de elasticidade da força que nós precisamos aprender. A força é uma coisa que não se quebra e que não se verga, mas que tem suas elasticidades, como tudo aquilo que é vivo.

Há mistérios dentro disso que a gente não compreende e que estão na ordem da Providência.

* Um dos mistérios de Deus: Santa Ana Maria Taigi recebeu a missão de rezar por Napoleão Bonaparte

Eu creio que mais de uma vez já falei aos senhores de uma santa que eu admiro muito, cozinheira em Roma, no século passado, dos príncipes de Colonna, que naquele tempo ainda estavam no fastígio do seu poder, de seu prestígio social, de sua força econômica, e conservavam algum poder político. O senhor Paulo Henrique ─ que é romano de adoção ─ deve ter ouvido falar dos príncipes Colonna mais de uma vez. Creio que eles eram senhores de Gennazzano.

(Sr. Paulo Henrique: Sim, existe o castelo dos Colonna em Gennazzano. Venderam agora.)

Eles vendem tudo que puderem, começam por vender a alma e depois vendem o resto.

Mas essa cozinheira era favorecida em visões constantemente, inclusive sobre o purgatório, uma coisa e outra, etc.

Qual é uma das missões que ela tinha recebido? Para mim é sumamente misteriosa, mas é para os senhores verem quais são os juízos da sabedoria de Deus, e nós não podemos querer que o oceano Atlântico, mais o Pacífico e o Índico, e o Norte, e o Báltico, o que queiram; caibam no dedal.

Nós não podemos querer que os desígnios de Deus caibam numa inteligência humana. Ela recebeu, entre outras, a missão ─ para mim ultra inexplicável, porque eu abomino essa grei ─ de rezar pela família Bonaparte.

Os senhores estão vendo que se as coisas fossem só como elas me parecem eu teria… condicionado as coisas. Vêm bem como. Um dos títulos mais ultrajantes que se pode atirar contra alguém é “usurpador”. E uma das mais belas palavras do vocabulário humano é “legitimidade”. Usurpado é o nojo, é aquele que é como não devia ser; fez o que não deveria fazer, devia ser posto fora! e sujeito ao opróbrio pelo menos proporcionado à honra, a glória, que ele quis roubar. Os senhores estão vendo o resto que vai nessa linha.

E os três. E o primeiro, é aquele ratinho insignificante, nenhum pouco “Églon” lindamente sonhado por Rostand mas uma pulga da história, e uma pulga carregada de bacilos e venenos, ele era revolucionário.

Um dos melhores amigos dele era um austríaco, conde de Von [Prokenschen?]. Eu li as memórias desse [Prokenschen?] a respeito dele, não valia nada. O [Prokenschen?] também não.

E o terceiro, em relação ao qual eu tenho todos os graus de abominação possíveis.

Está bem, ela recebeu missão de rezar pelos Bonapartes e quando Napoleão morreu ela contou ─ naquele tempo não tinha telégrafo, até uma notícia dessa chegar de Santa Helena até Roma, ia de navio. E não ia direto à Roma, ia para Paris, para Londres, para Viena, que eram os grandes centros políticos do tempo; e de lá os núncios apostólicos mandavam notícia para Roma.

Era o mais normal, era por uma só eventualidade que iria parar diretamente em Roma.

Muito antes de chegar a notícia à Roma ela disse: “Napoleão morreu.”

Eu só li de Santa Ana Maria Taigi uns livrinhos, tão chuézinhos que não contam se ela disse o que que foi feito dele. Eu tinha vontade de saber. Eu preferiria que ele fosse salvo. Mas se a Providência tivesse disposto de outra maneira… eu teria o que dizer.

Mas isso para os senhores verem os mistérios da salvação, para mim é o fundo do poço. Mistério é isso.

Mas então apareceria a história patente e latente da Igreja, tudo quanto a gente sabe, mas tudo como se passou ao fundo que só Deus conhece e cujo fio foi tecido pela Providência de um modo como nós não imaginamos, e de uma beleza maior do que as reconstituições tão bonitas que nós podemos fazer.

* No Reino de Maria deve haver comemorações das grandes datas da Igreja, como também festas de execração

E isto iria girando, girando, girando, e se desdobrando em festas para aquilo, para aquilo, para aquilo outro.

E na Igreja militante, se fariam então no Reino de Maria, as festas das execrações. Nós poderíamos imaginar, por exemplo, a festa das três Revoluções. E as principais datas das várias Revoluções, mas pegas com largueza de vistas, as principais datas objeto de execração.

Então atos de reparação nas igrejas, por tal coisa, por tal coisa, por tal coisa.(…)

militar ligado ao litúrgico. E também as grandes datas da história da Igreja, a data da instauração da Primeira Inquisição; Clermont Ferrant, o Bem-Aventurado Urbano II, as cruzadas. Porque não comemorar tudo isso em festas especiais, em datas especiais?

Então, [entretecido?], formando uma trama com a glorificação dos que estão no Céu e nos quais não se toca mais, seria também a rememoração dos fatos na terra com os grandes triunfos, as grandes aclamações, as grandes admirações e as grandes execrações da história. A mim me pareceria extraordinariamente útil, muito próprio à glória de Deus, formativo. Mas eu imagino que o poder público se associasse a isso.

E que nas catedrais do Reino de Maria houvesse, como há nas igrejas atuais ─ igrejas atuais o que é hoje?! … ─ mas nas catedrais do Reino de Maria como nas igrejas até o tempo constantiniano, inclusive, a divisão definida: entre presbitério e a parte do povo. No presbitério está o clero. Incomparável, superior a todos, dirigindo a Igreja e no lugar único e máximo que é o presbitério. Depois para baixo o lugar para os fiéis.

Mas no lugar para os fiéis estalas próprias, preparadas, para os vários tipos de autoridades civis e militares. Mas tomando a palavra autoridade num sentido muito largo, não só os que têm poder no campo em que se desenvolve a Revolução “B”, mas também no campo em que tem poder onde se desenvolve a Revolução sofística ou tendencial.

Então um reitor de Universidade, um grande pintor, um músico eminente, um homem que é ele um exemplo vivo para a cidade, da família patriarcal. Todos aqueles que são os corpos representativos, ou os homens representativos do Estado ou da sociedade, presentes ali e execrando juntos tal data, tal outra… Com uma liturgia execrativa que faria parte da liturgia.

E que comportaria, eu volto a dizer, uma discreta oração por aqueles que tivessem pecado e que se tivessem salvo.

Por que discreta? A Igreja é o modelo de todas as coisas que se ensinam … ─ o tempo foge, hein, meus caros, os senhores estão tendo a gentiliza de não olhar para o relógio, são dez para as duas, já. Eu ia dizendo uma coisa que me escapou da mente.

(Sr. –: O modelo …)

* O equilíbrio e a maternidade da Igreja chega a tal ponto que Ela permite a “Missa baixa” para os suícidas

Ah, é o seguinte: quando a pessoa se suicida é sabido o que vou dizer agora, vou lembrar apenas porque vem a propósito ─ o suicídio é um pecado supremo, a pessoa se mata e vai para o Inferno, se não há um interstício, excepcional, salvífico, vai para o Inferno.

Está bem, mesmo quando a pessoa se suicida, a Igreja não permite para o suicida uma Missa pública, mas ela permite o que se chama uma Missa baixa.

O que é essa Missa baixa? Na Missa pública, o sujeito morre, por exemplo, de um desastre, de uma doença, qualquer coisa, a família anuncia, os jornais, convites para comparecerem, o padre celebra com paramentos pretos se as circunstâncias litúrgicas permitem e tem tudo mais. Pode ser que o coro cante etc., requiem e tudo mais.

Se é um suicida tudo isso é proibido, mas o padre com paramentos comuns reza como se fosse uma Missa sem outra intenção, por intenção do morto.

Quer dizer, a Igreja cochicha aos ouvidos de Deus a súplica que ela tem a fazer. Cochicha, a palavra é um pouco trivial demais, ela sussurra aos ouvidos de Deus a súplica que como Mãe, até daquele bandido, ela faz.

Isso serve de modelo para o discretíssimo das tais jaculatórias. Sim, baixinho. Me parece que fica tudo muito perfeitamente equilibrado. E o auge do furor convive com as doçuras da misericórdia irmamente, assim dentro do clima do bom-senso. Fica tudo bem posto.

Aqui estão algumas reflexões algumas reflexões a respeito de ontem e hoje, etc. Para terminá-las mais uma apenas.

* Na hora do “Gloria in Excelsis” na Missa do Sábado Santo o Senhor Doutor Plinio fica com saudades da tristeza que se afasta

E é o seguinte: normalmente ─ eu disse que se tem um certo alívio quando canta o Glória in Excelsis etc., e lá vem a liturgia toda, magnífica ─ mas, de outro lado eu fico com uma certa saudade da tristeza que se afasta. É paradoxal mas é assim. E eu não oculto porque a política da verdade é a única que se deve seguir. É o que eu penso.

Agora, de onde é que vem essa tristeza? Essas saudades?

Ela vem do seguinte, a dor é muito mais fácil de ser vista pelo homem sacralmente do que a alegria. Ainda mais para o homem “nhonhô” de nossos dias, na dor ele apanha melhor o lado sacral das coisas do que na alegria. E enquanto a tristeza de uma Sexta-Feira-Santa ou de uma Paixão, na Semana Santa, domina toda a semana; quanto dura a nota sacral da alegria? É um perfume que se altera e se adultera rapidamente. As pessoas saem e quando estão lá fora da igreja já estão imersas na “nhonhozeira”.

Não é uma culpa da alegria sacral, não é que na alegria sacral que a Igreja externa haja o menor defeito, porque evidentemente não há; mas é um defeito do homem hoje em dia. E contra o qual ─ é preciso dizer ─ infelizmente o clero premune pouco, quando premune. Eu nunca vi, em meus 74 anos de vida, eu nunca vi um clérigo premunir contra isso. Mas os senhores sabem, por sua própria experiência, que uma premunição dessas teria muita razão de ser.

Então, quando eu vejo entrar essa alegria eu me alegro. E depois eu penso: “Adeus seriedade”.

Eu acrescento a nota complementar que é rápida, cabe em duas palavras, para o Sr. Paulo Henrique me fazer afinal uma pergunta, o Sr. Guerreiro outra, o Edwaldo, o Fernando Antúnez, eu quero responder perguntas, não quero transformar isso numa conferência.

Mas eu acho que enquanto não vier o Reino de Maria a Igreja está numa paixão. E que o sentimento habitual deve ser o de Sexta-Feira Santa. E é por essa razão que eu gosto mais de viver de noite do que de dia, eu tenho uma certa tendência a trocar a noite pelo dia. É precisamente por causa disso. É porque eu tenho vontade de ver o dia quando chegar o Reino de Maria. Eu me sinto mais em casa, me sinto mais protegido, mais afagado pelas próprias trevas do que pela luz da Revolução. E só estarei em casa com a luz ─ eu, filho da Luz ─ só me sentirei em casa com a luz no dia que for a luz do Reino de Maria que brilhar.

Então, na 5ª feira, na 6ª feira, eu tenho a sensação seguinte: dir-se-ia quase que o mundo tomou juízo. Terminadas as cerimônias de Páscoa a minha impressão é: “Está vendo, o juízo foi-se embora.”

E, realmente, os senhores pensem no que vai ser o domingo de Páscoa, amanhã. Nessas igrejas por aí … Vale a pena lembrar? Eu creio que os senhores mesmos preferem que não lembre, os senhores sabem mas cada lembrança dessas contunde a nós, cada lembrança dessas é uma abominação. O que que resta da alegria porque Cristo ressuscitou nas alegrias eclesiásticos de amanhã? Nem se incomodam com a ressurreição de Cristo. O que que importa para eles?

Os fiéis, essa mulheres de pantalona. São fiéis? Esses infiéis!

* Precauções sobre a alegria legítima, como prevenção do mau estado de espírito que delas se pode originar: o espírito de brincadeira

Aí está o balanço total. E compreendam bem porque que eu acho que o verdadeiro membro da TFP, e portanto com quanta propriedade o verdadeiro eremita, não deve ser brincalhão. Em toda a brincadeira que ele faz ele se esquece que Nosso Senhor Jesus Cristo está na cruz expirando. Por inocente que seja a brincadeira ─ eu estou para conhecer a brincadeira inocente ─ por inocente que seja a brincadeira a coisa acaba sendo assim.

Eu ainda agora deitei-me um pouquinho antes de vir aqui e abri um revista. É uma revista francesa chamada “Point de Vue”. Dá fotografias dos destroços da ordem de coisas de outrora. E como se deve amar, do Templo de Jerusalém, até as ruínas, eu folheio alguma coisa nessa revista que publica também misérias de toda ordem e que agora está entregue a uma campanha ignóbil contra a rainha da Inglaterra. E tem uma sessão de coisas, eu vejo uma brincadeira assim:

Num posto, digamos assim, numa bomba de gasolina qualquer coisa em estrada, dois empresários se encontram e começam a conversar. Não se conhecem, conhecem-se na hora e começam a conversar. Então a conversa vai e vem e um dos empresários disse: “Não, os meus negócios verdadeiramente não andam mal, todo mundo mete o nariz dentro deles”. O outro diz: “Ué, mas é singular, isso não lhe incomoda?” Responde o primeiro: “Não, porque eu fabrico lenços”.

Os senhores estão compreendendo a brincadeirinha. Bem, é uma brincadeira que de pecado não tem nada. É uma brincadeira, mas de pecado não tem nada. Mas sugere um estado de espírito que é de brincadeira fácil, estúrdia, quando o mundo está na situação que está. Quer dizer, quando a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo está sendo renovada.

E os senhores sabem que essa brincadeira, para hoje, é nível alto. Que as brincadeiras que correm aí fora os senhores sabem bem de que jaez são. Não preciso lhes dizer.

E por causa disso essas coisas não devem ser. Nós devemos pensar em Nosso Senhor que está agonizando na Cruz. Quer dizer, é o prolongamento da Sexta-Feira Santa, nós vivemos numa imensa Sexta-Feira Santa. E se eu escrevesse memórias eu poderia entitulá-las: 74 anos de Sexta-Feira Santa.

Agora, isso é sobretudo adequado para nós que fomos chamados a antever, a medir em toda profundidade, a conhecer como poucos conhecem, e de quem Ele espera, em conseqüência, uma atitude de alma proporcionada.

Debaixo de certo ponto de vista nós somos os confidentes d’Ele nessa situação. Porque o que todos deveriam ter obrigação de conhecer, não querem conhecer. E Ele por assim dizer, pela voz da graça, falou mais alto em nossos ouvidos. Ele nos fez nos encontrarmos para que nós disséssemos isso uns aos outros. E para que depois nós disséssemos a terceiros. Foi isso que Ele fez.

Compete a nós, logo a nós! estar de brincadeira?

E aqui eu … [Troca a fita]

que os senhores falem, etc., etc. Mas para falar tudo isso de uma vez só. Eu estava vendo a atitude muito consonante, com o espírito na Sexta-Feira-Santa, dos senhores durante o cerimonial. E estava pensando isto! não se pode querer que uma pessoa na vida de todos os dias ande com as velocidades com que se anda no cerimonial, e tenha exatamente o maintien que tem no cerimonial. Mas as velocidades e o maintien de hoje ─ aliás não é o maintien, se se pudesse dizer ─ a palavra não existe em francês ─ mas o “desmaintien”, o desgoverno, o não maintien, o não manter, o desmantelamento de… o desmantelamento está aí ─ e hoje, da Revolução, é totalmente o contrário deste maintien especialmente como ele deve ser na Sexta-Feira-Santa. É totalmente contrário.

E nossa conduta na vida de todos os dias deve ter um fundo, mas um fundo real, que irriga nosso estado de alma e nosso maintien na vida de todos os dias. Aí nós seremos os homens que devemos ser. E aí a união entre nós será uma união muito maior, porque o fundo de alma deve ser esse…

(…)

porque não pedir amanhã. Lá.

Eu tenho certeza que a partir do momento em que nós tivéssemos obtido isso nós nos entenderíamos muitíssimo mais do que no momento.

Com isso conclusus est, façam algumas perguntas.

(Sr. Paulo Henrique: Quando o senhor escreveu aquela Via-Sacra, há uns 20, 30 anos atrás, o senhor tinha em vista o grande público ou apenas os ultramontanáveis?)

* Comentário sobre a indiferença dos membros do Grupo à “Via-Sacra” composta pelo Senhor Doutor Plinio

Eu acho que ela é feita para nós, mas eu tinha em vista dois círculos concêntricos: O grupinho e os que viessem a aderir ao grupinho. Portanto somos nós. Mas depois eu tinha em vista também os meios católicos: o clero, as associações religiosas, enfim tudo aquilo que eram os meios católicos, que todos eles teriam enormemente a lucrar tomando a sério aquela Via-Sacra. Não preciso dizer ao senhor que ela caiu no silêncio mais completo, externo e interno. E que publicada no Catolicismo, internamente, dentro do Grupo, não tive um comentário sobre ela. Se um cão ladrasse na rua talvez tivesse mais comentário do que a Via-Sacra.

Veja o mistério das almas, mistério das almas. Pessoas que estavam prestando e ao longo das décadas ainda iam prestar muitos outros serviços valiosos a nossa causa. Mas a questão é que aquela ─ se se faz a metáfora por navio ─ o texto daquela Via-Sacra é uma proa de navio Vicking, porque ela singra para dentro das brumas e procura os “icebergs” para rachá-los. E causou-me tristeza, mas causou-me muito mais, muito, muito, muito, muito mais tristeza do que surpresa, ver essa inteira indiferença. Porque se ela tivesse tido uma repercussão grande nos meios brasileiros, católicos, era o caso de perguntar se haveria Bagarre.

O senhor mesmo, o senhor é de um Estado muito mais católico do que todos os outros Estados aqui, e portanto é provável que tenha ainda conhecido mais o que se chamava “meios católicos” do que os outros de sua idade e mais moços. Talvez mesmo na sua cidade natal, etc., etc., tenha conhecido. Se aquela gente tivesse sido levada a ler aquela Via-Sacra prestando atenção e tivesse de fato feito aquelas perguntas e levado a sério a Via-Sacra, não é verdade que essa gente ainda hoje estaria afinando na Contra-Revolução conosco?

(Sr. Paulo Henrique: Faço uma confidencia. Eu li essa Via-Sacra exatamente há 21 anos atrás, eu tinha 16 anos. Eu não sabia quem era o autor. Mas confesso que a partir daquele momento minha vida ficou dividida. Até então eu havia visto outras Via-Sacras, não me diziam absolutamente nada. Mas quando conheci aquela … ─ mais tarde conheci o senhor ─ mas aquilo ali bastou para … Eu imaginava que isso pudesse se passar também com os outros.)

Eu digo alegre, é a primeira vez que eu ouço uma pessoa me dizer: “A Via-Sacra me fez bem.” É a primeira vez. Eu compreendo que um ou outro possa dizer: “Não, Dr. Plinio, a mim fez muito bem, só que eu não falei.” É o caso de dizer que então você escondeu muito bem o que você recebeu. E que um bem tão escondido … as coisas muito grande a gente tem dificuldade em esconder.

(Sr. Paulo Henrique: Ali está tudo, um retrato perfeito do senhor. Entra a sociedade temporal, depois o lado psicológico ─ não sei se o senhor escreveu tendo em vista brasileiros?)

Foi, foi, aquilo é para o brasileiro.

(Sr. Paulo Henrique: Ontem fiquei muito consolado em ver a Via-Sacra tão bem proclamada, com o fundo musical da Chanson de Roland …)

Mas veja como são as coisas. A cerimônia se compôs de três elementos: a parte musical, a parte musical do texto e o texto proclamado. Se proclamou o texto.

Eu ouvi em torno de mim, aliás aplaudi e estimulei, etc., etc., os maiores elogios da cerimônia é da parte musical. O texto é como senão existisse. Não houve!

Eu fiz então a tentativa: “Muito bem proclamado”, eu disse: “Ah, é verdade, muito bem proclamado”.

É evidente que se fosse um texto heresia-branca seria assim. Isso é evidente. E depois a naturalidade com que se faz é a naturalidade com que por exemplo eu aqui passei a mão aqui nesse encosto da cadeira, por uma ação reflexa, foge-se do texto por uma ação reflexa. Essa é a verdade.

(Sr. Paulo Henrique: O texto é contundente, da primeira palavra à última.)

Eu quis ser contundente e fui até o fim, eu enfiei a espada até a copa. Mas o resultado é este. Os senhores mesmo vejam. Os senhores, é possível que as pessoas lhes tenham dito que gostaram muito da cerimônia, etc., etc., isso é possível. Do texto da Via-Sacra eu duvido que alguém lhes tenha falado. Eu duvido.

Gente a quem se os senhores perguntarem: “O texto é bom”? É magnífico! Mudam de assunto. No total cheiraram como era o texto, não fizeram as meditações competentes, não releram, e fugiram do texto. E estes são os melhores, é o creme. Aí os senhores vêm o mistério da alma humana. É terrível, mas a alma humana é assim.

Bem meus caros fugit! Meu Paulo Henrique, meu caro Guerreiro, meu caro Edwaldo, meu caro Fernando Antúnez, mais uma pergunta e nós encerramos, às 2 e meia encerra-se.

(Sr. Paulo Henrique: Tomei a liberdade de perguntar um pouco mais porque é o último sábado aqui.)

Então pergunte mais, a noite é sua.

(Sr. Paulo Henrique: Não, não…)

Nós corremos o risco de perder esses 10 minutos numa altercação. Meu Guerreiro Dantas!

(Sr. Guerreiro: Se a Igreja canoniza santos porque não pode declarar precitos, para nos avivar a idéia da existência do Inferno.)

* O Senhor Doutor Plinio dá alguns pressupostos sobre o que acha do fato da Igreja não proclamar a condenação dos precitos

Pensar sobre as coisas da Igreja é belíssimo, porque são temas absolutamente superiores. Esse tema de declarar uma certa alma condenada é uma coisa que já me passou pela cabeça mas eu nunca tive tempo de estudar a doutrina católica a esse respeito e ver o que que ela ensina.

Eu portanto não vou dizer uma coisa que eu acho que é doutrina católica, eu vou dizer uma coisa que é uma mera impressão ─ nem é uma opinião pessoal ─ é uma impressão pessoal, do momento, que mais ainda do que um opinião estaria sujeita inteiramente ao juízo da Igreja. A opinião já estaria, uma mera impressão é mais inconsistente ainda do que uma opinião, é uma bolha de sabão.

Mas, acontece o seguinte: para apresentar a coisa aqui como ela é, quando eu falei a respeito da questão de a gente não saber se uma alma penitente até o último momento não teve um momento de misericórdia, um momento de arrependimento, a gente poderia virar a ponta da pergunta e dizer o seguinte: como é que se sabe de um santo que parou de falar, porque já não tinha voz, e ficou imóvel durante 5 horas! Que ele durante essas 5 horas, antes de morrer, perseverou. E a incerteza que vale a favor do condenado não vale contra o santo? É uma bonita pergunta.

Para exprimir a coisa aqui eu devo dizer que me parece ─ me parece, não tenho certeza ─ que é por isso que a Igreja exige milagres.

A igreja faz todo o estudo da vida do santo, mas não canoniza sem milagres. O milagre vem porque é uma confirmação dada por Deus de que realmente ele morreu santo, que ele está no Céu.

Mas, há uma coisa curiosa que pouco tempo antes de se afastar de nós Dom Mayer me disse e que me deixou assim com desejo de estudar o Cornélio à Lápide, a respeito de beatificação.

Os senhores sabem que é de fé que uma alma beatificada está no Céu. É de fé. Por exemplo, até há pouco o Beato Charbel Mackluf era apenas um beato., mas ele estava no Céu.

Carlos Magno é beato apenas para umas determinadas regiões da Igreja, que o chamam de beato mas ele não foi qualificado de beato pela igreja universal, e nessas regiões a Igreja permite que ele seja glorificado de beato que haja uma Missa em louvor a ele.

Dom Mayer me disse, na ocasião que conversarmos sobre isso, que isto só dá a certeza de que ele se salvou. Não é uma canonização mas dá uma certeza de que ele se salvou.

* Sobre a beatificação de Anchieta, apesar do caso João de Boles, uma conclusão sobre o carisma da infabilidade: “Ainda que um Papa canonizasse alguém por capricho ou politicagem, não erraria”

O senhor está vendo que é uma coisa portanto muito matizada. E eu tinha falando com Dom Mayer a respeito de Anchieta, porque João Paulo II quando esteve aqui beatificou Anchieta. Ora, havia o famoso caso de João Bóles, que eu creio que todos conhecem, o caso de João de Boles com Anchieta, não?

Anchieta foi ─ julguem os senhores o caso. Realmente é, que eu saiba a Igreja não se pronunciou sobre isso a não ser com a beatificação por João Paulo II, na medida em que João Paulo II exprima a Igreja ─ Anchieta foi acompanhar ─ Anchieta era um missionário célebre aqui no Brasil, jesuíta, e morto em odor de santidade. Anchieta foi acompanhar um condenado à morte que ia ser enforcado. E ele via que o homem estava na ponta, entre o desespero e o não desespero. E com a corda já pendurada no pescoço. Mas o carrasco era nhonhô e estava descendo muito devagar todas as coisas necessária para matar o homem. E Anchieta vendo que o homem daí instantes estava piorando e ia piorar, ele jogou o homem no vácuo abraçado no homem e determinou o enforcamento do homem. [Exclamações de fenomenal]

Bem, há muita gente que acusou-o, por causa disso, de homicídio. E esse homem chamava-se João de Bóles, ou Bolés. A pontuação no tempo era muito variada. E o caso João de Bóles constituía uma pergunta no caso de Anchieta.

Eu acho que Anchieta fez bem. E eu perguntei a Dom Mayer: “Será que houve moralistas que resolveram o caso João de Bóles?” Diz Dom Mayer. “Isso eu também não sei.” Eu disse: “Bom, mas então como é que se dá que Anchieta seja santo? bem-aventurado?” Dom Mayer me disse: “O Papa é infalível nesse ponto, ele decretou e acabou-se.” Eu disse: “Mas o Papa pode decretar que é santo alguém sem milagres?” Ele disse: “Como ele necessita matéria não pode errar, ele pode decretar sem milagres, mas é por causa do carisma da infalibilidade”.

Agora, veja bem então para onde é que parece rumar a questão. Estudem no Cornélio, vamos para as grutas, os senhores vejam como é interessante.

A coisa é essa: o carisma da infalibilidade, que de fato está empenhado na canonização, Dom Mayer tinha toda razão; o carisma da infalibilidade opera de tal maneira que é assim: um Papa para definir um dogma ele tem obrigação moral de ter feito estudar ou ter estudado ele a questão e formar uma convicção pessoal.

Formada a sua convicção pessoal ele define o dogma. No momento que ele define a ação do Espírito Santo se declara aos homens e aquele dogma é dogma.

Quer dizer, aquela é a verdade. Aliás, o Espírito Santo não atua apenas no momento que ele define, a partir do momento que ele resolveu fazer até o momento que ele faz efetivamente há uma assistência do Espírito Santo e ele faz.

Agora, se é assim, entretanto se ele definir um dogma por capricho ou por politicagem, sem estudar, é dogma também. Porque a forma do carisma da infalibilidade é tal que ainda que seja sem estudar ele não erraria. Podia ser que ele morresse e não definisse o dogma, mas ele não erraria. Se a Providência o deixa definir é porque a coisa é verdadeira.

Os senhores vejam como é bonita a doutrina católica. Eu volto a dizer, é um convite ao Cornélio, vamos todos “corneliar”.

E a coisa é que a gente vê o mesmo se aplicar com a canonização. Agora vem então sua pergunta: “Não será para decretar que o indivíduo está também no Inferno?

Contra a sua pergunta há uma objeção, é que a Igreja nunca fez. Ora, se ela nunca fez é muito provável que não pudesse fazer. Certo não vejo que seja. Dir-se-ia que ela só tem o dom da infalibilidade para afirmar que uma determinada coisa é virtude, para edificação dos povos, e não para afirmar que uma determinada coisa é pecado.

Ora, isso eu não vejo. Pode ser que seja, se for eu abaixo a cabeça. Mas me parece que o denunciar e vituperar o vício tem uma utilidade complementar a de exaltar a virtude. E esse seria um tema que se deveria pôr a um Papa no Reino de Maria, ou a um concílio no Reino de Maria.

Enquanto esse Papa e esse concílio não chegam rezemos, conversemos sobre coisas dessas, evitemos brincadeiras, lutemos e durmamos.

Meus caros, está encerrada a nossa reunião. Vamos rezar então.

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