Conversa
da Noite ─ 26/2/83 ─ Sábado .
Conversa da Noite ─ 26/2/83 ─ Sábado
Para amar a austeridade é necessário uma visão exata do que é o mal, antes de tudo na própria pessoa * O encontro do Senhor Doutor Plinio com dois monges beneditinos: “Eram para mim a própria imagem da veracidade e da pureza” * O capítulo é um ótimo meio de fazer com que nos vejamos de frente * Santo Inácio, um homem que antes de tudo se vê a si próprio * Os salmos penitenciais são uma ótima maneira de termos a noção dos defeitos que possuímos * Quanto mais num ambiente se diferencie o bem do mal, mais as desigualdades são acentudas
Oh, os nossos “pergunteiros” estão atrasados, hein. Mas o escol está aqui, um escol pelo menos.
(Sr. J. Clá: … Sábado passado o senhor tratou da austeridade. Também há uns 10 dias o senhor não trata das perspectivas do Reino de Maria. Teriam esses dois temas…)
Para eu tratar de qualquer dos dois temas eu precisaria da ponta de trilho. Não sei qual é a ponta de trilho.
(Sr. J. Clá: Qualquer um dos temas toma a reunião ou…)
Não, os dois numa noite é impossível. Não sei bem o que é que preferem, o que reputam mais interessante.
* Para amar a austeridade é necessário uma visão exata do que é o mal, antes de tudo na própria pessoa
(Sr. J. Clá: …percebe-se que o Reino de Maria será mais sacral, mais hierárquico - portanto mais austero - do que foi a Idade Média; mas, percebe-se mas não se pode dizer bem exatamente como será isto.)
Para a gente amar a austeridade, compreender e ter depois em vista os vários temas que você está está levantando, era preciso uma coisa que já é um elemento integrante da austeridade e que todos os inimigos da austeridade detestam, e que é o seguinte: uma visão exata do que é o mal.
Quer dizer, a maior parte das pessoas não gostam de ter uma idéia exata do que é o mal e por que o mal é detestável, no que ele é detestável, como é.
Ora, a austeridade é motivada certamente por um amor ao bem - não se pode detestar o mal sem antes ter amado o bem. Por exemplo, ninguém sente falta de ar sem antes ter respirado. O mal é falta de ar, quem nunca respirou… Daí para fora.
Mas o espírito humano voa com uma certa facilidade para o bem, a dificuldade não está nisso, é fazer com que ele rejeite o mal. E portanto, se é verdade que teoricamente falando o ponto mais importante é fazer compreender o bem, psicologicamente falando, o ponto mais necessário - não teoricamente importante, mas necessário - é entender bem o mal.
E para entender bem o mal, eu não acredito que entenda bem quem o entenda apenas num tratado, é preciso tê-lo entendido em si mesmo e tê-lo visto em si mesmo. O que é um a coisa certamente desagradável, mas também é a única forma de bem-estar dentro da alma. E quando a gente diferenciou dentro de si o bem do mal e empurrou o mal, então sente a paz da casa limpa onde não tem prostitutas. Quer dizer, onde a coisa é direita, é como ela tem que ser.
Como é que nós sentimos em nós o mal. Eu estou empregando a palavra “sentir” de propósito, porque também não se trata de fazer uma demonstração de que aquilo é mal. Isso tem sido feito com uma certa freqüência. Mas é sentir em si que é mal. O que é uma coisa diferente -.
Tomem a coisa que se faz com mais facilidade hoje, os senhores todos sabem disso: mentir. Mente-se inteiramente a vontade. Já não digo que se calunie, não quero chegar tão longe - calunia-se… os senhores vêm pela facilidade com que as “máfias” contra nós circulam, os senhores vêm bem como se calunia hoje. Mas não vamos falar disso, vamos falar da mera mentira, o sujeito conta algo que não aconteceu pelo desejo de se valorizar, descreve algo como não foi, etc., etc. Esse mente.
A gente como é que pode sentir em si o mal da mentira. No que é que a gente fica - ao pé da letra - emporcalhado tendo mentido. Esse é o campo de observação que nós podemos tomar aqui para fazer um exame.
A gente pega isso melhor de outro lado. Quando a gente ouve falar de uma pessoa que nunca mente, que sempre diz a verdade e que tem, portanto, uma boca que não mente, tem-se a impressão de limpeza, de saúde, de retidão, de bem-estar naquela pessoa.
Mas isso implica que, sem a gente perceber, fica em si mesmo com uma sensação de falta de bem-estar, de falta de limpeza, de falta de retidão porque mente. E que o hábito de mentir que algum de nós possa ter contraído outrora quando não era do Grupo, esse hábito de mentir em nós passa a ser um hábito que nos enxovalha sem nós percebermos mas que de fato nos enxovalha. E o fato de nós não percebermos não quer dizer que não enxovalha. Os médicos tratam de doenças que a pessoa tem sem perceber, mas a pessoa sarando sente um bem-estar do qual tinha se desabituado.
E muitas vezes a nossa falta de sensação do mal é porque nós estamos tão embotados no mal por causa dessa revolução, dessa situação que está aí, que nós tocamos a vida para frente, não notamos nada.
Mas se nós víssemos um anjo que pudesse bater na nossa frente com uma vara de condão, limpar-nos de todas as mentiras e de um momento para outro dar-nos o hábito da veracidade, se nós pudéssemos notar isto, nós notaríamos que há um mal na mentira que se traduz em nós - se temos o hábito de mentir - no costume de nos menosprezarmos a nós por esta e muitas outras razões. E menosprezarmos todo mundo, mas formar a péssima idéia de que é normal todo mundo ser enxovalhável assim. Isto é errado. O normal é ser veraz e não mentir nunca.
* O encontro do Senhor Doutor Plinio com dois monges beneditinos: “Eram para mim a própria imagem da veracidade e da pureza”
Eu creio que falei aos senhores - falei sim - de dois alemães beneditinos que eu conheci nesta casa abandonada que está aí embaixo, e que eram para mim a própria imagem da veracidade. Eram outros tempos. Um era se não me engano Frei Pio, o outro não me lembro como chamava. Homens quietos, que praticavam habitualmente o silêncio, e que ficavam fazendo coisas de serraria e de jardinaria ali, creio que em perpétuo silêncio. Mas sempre próximos um do outro.
Quando a gente parava e perguntava qualquer coisa para eles, eles abriam uns olhos azulões em cima de gente, assim.
“— Ohhh!”
Eles não entendem logo. Meu português é muito rápido, também acho que por causa disso eles não entendiam logo.
“— Ohhh, o que é?”
Eu gostava, às vezes de perguntar para ouvir o “ohhh” com aquele olhão tão bem intencionado, tão azulão, tão veraz. Eu gostava de ver aquilo.
A gente então dizia:
— “Tal coisa”.
“— “Ohhh, non pensa. — Ou se está de acordo — Sin, non…” Acabou também a conversa. Mas eram gotas de verdade que saíam.
Era uma das razões pelas quais eu vinha por essas redondezas, era para ver se eu filava senão um palavra, pelo menos um olhar dos irmãos beneditinos. Símbolo ao mesmo tempo de duas coisas tão vizinhas e das quais raramente se faz uma aproximação: a veracidade e a pureza.
Aí a gente olhando para si e fazendo - foi a pergunta que eu fiz - pergunta para si mesmo: “O que é que me falta a mim, por que ninguém está comigo e tem a impressão que tem quando está com Freio Pio, por que é? — Eu era um estudante de 20 anos. — “Como é que eu posso tornar a minha alma veraz como a do Frei Pio, ou do outro frei, como eu posso fazer isso?”
O outro frei era ligeiramente desfigurado pelo seguinte: ele tinha um defeito qualquer de espinha por onde ele andava meio recurvado, um pouco. E a gente tinha a impressão de que ele não gostava de que se olhasse para dentro dos olhos dele. A gente falava com ele, ele levantava a cabeça, era um oceano azul e tranqüilo de veracidade, “ohhh”. Beleza, beleza, mas como é isto?
Eu pensava assim - que eu tive o hábito de mentir…
(Todos: Ahhh…)
Tive. Eu não minto. Eu tive o hábito de mentir.
Eu dizia: “Eu vejo o que há de admirável nestes homens, qual é o mal que há em mim nisso”. Eu queria me corrigir desse costume.
* O capítulo é um ótimo meio de fazer com que nos vejamos de frente
Um dia eu li um livro qualquer desses comunzinhos de leitura espiritual, do bom tempo constantiniano, e eu li essa frase da Escritura: “Deus tem horror à boca mentirosa”. Eu não sei por que, essa frase foi como uma pedrada de luz em cima de mim. Eu tive quase a impressão de que aquilo batia nos meus lábios. Eu pensei — eu vou dizer aos senhores com toda a simplicidade o que eu pensei — eu pensei: “Como esses lábios tão afáveis para servir a Deus, esses lábios que na pouca idade que tem, já O Tem ofendido tanto. A esses lábios Deus tem horror? Tem. Esses lábios mentem, às vezes mentiras inocentes, bobagens, mas mentem. Deus tem horror”.
Aí, “pfit!”, houve uma graça qualquer que foi a ruptura minha com a mentira. Acabou.
Mas, é porque eu acabei de sentir em mim o que tinha de mal a mentira.
Assim se deveria fazer com cada um de nossos defeitos bem de frente. Quer dizer, que defeitos eu tenho: tais e tais! Tenho. Não procurarei ocultá-los, são assim.
E, meus caros, daí a vantagem inapreciável dos capítulos. Inapreciável! Eu não vim aqui com a intenção de justificar os capítulos, nem de não justificar, eles se justificam por si mesmos. Mas já que passam ao alcance de minha mão por que não falar? É uma instituição que eu prestigio de todos os modos, já que passa uma ocasião para eu tratar dela eu trato.
A vantagem é a verdade. É que é uma situação onde a pessoa fica vendo como é que os outros a vêem. E perde as ilusões. Aquilo é daquele jeito.
Ainda que o capítulo não seja infalível e uma ou outra acusação do capítulo possa não ser verdadeira, isso não tem importância nenhuma. E é um prova de mesquinhez do espírito levantar essa objeção. É só um espírito mesquinho que levanta essa objeção. Porque o que é próprio, o que vale no capítulo, é a torrente de verdades que ele solta. Se pelo meio entra um pouquinho de uma coisa qualquer, deixa correr porque não tem importância nenhuma, no dia do Juízo Final se verá. Depois, Deus já está vendo. É o essencial. O resto o que é que importa? O que importa isso?
Então, voltando ao caso, se a gente tivesse a facilidade de saber como os outros vêem a gente - é o que o capítulo dá - a gente perderia um pouco as ilusões. Porque nós não temos a coragem de nos ver como somos.
* Santo Inácio, um homem que antes de tudo se vê a si próprio
Foi uma ajuda que Nossa Senhora me deu e me deu a propósito de Santo Inácio de Loyola. Vendo a figura de Santo Inácio de Loyola…
O Sr. João Clá me diz que nem todos nós sabemos o que é um nariz adunco. Nariz adunco é nariz por exemplo de Santo Inácio, meio curvinho assim.
O nariz adunco de Santo Inácio, aqueles olhos penetrantes, eu pensei: “Aquilo é de um homem que antes de tudo se vê a si próprio. Os homens que não se vêm a si prórios, não tem essa penetração”. E comecei a ter entusiasmo por ver-se a si próprio, “Que coisa necessária ver-me a mim mesmo, que elemento fundamental da austeridade eu me ver a mim mesmo e ver bem como sou”.
Que entusiasmo eu tive - lá pelos meus 20 anos também eu li num salmo mais ou menos essa frase: “quia iniquitate meam ego cognosco et peccatum meum contra me est semper”: porque eu conheço a minha iniqüidade o meu pecado está sempre de pé diante de mim.
E anos depois quando eu preparava aulas para a Faculdade de Direito - fatinho - eu me lembro de ter lido que no Egito os condenados a morte - eu comentei isso já com os senhores - que os assassinos eram amarrados à vitima, de frente, pulso com pulso, tornozelo com tornozelo. E postos num cárcere qualquer, até chegar o dia da execução. Mas eles esperavam o cadáver da vítima apodrecer para eles levarem para a execução o assassino. E por essa forma, o assassino percebia na vítima o mal da morte que ele fez. Era um homem vivo que estava entregue a toda aquela corrupção, aquela deterioração, aquele horror! E ele não podia se mover nem nada, sem ter diante de si a figura daquele que ele matou. Na hora mesmo de dormir, o sujeito ou estava em cima dele, ou estava embaixo dele, mas ele não perdia o contato com o seu próprio remorso.
Para dizer tudo de uma vez só: achei isso uma lei austeríssima. Achei uma lei austeríssima, magnífica, de uma alta sabedoria. Mas pensei logo: Quais são os homens que fazem isto com seus próprios defeitos? Tomam o seu próprio defeito - que não é só a lista dos defeitos não, é eu como eu seria se fosse ruim! Esse eu preciso conhecer a amarrar isso diante de mim até eu morrer. De maneira que saiba bem a menor inclinação má, em última análise, para que bandido tende. E que forma de infâmia ela favorece. E que não há pequena concessão que não seja um passo rumo aquele horror.
Ah, se todos nós fizéssemos bem isso, se nós tivéssemos esta austeridade como nós seríamos diferentes. Não sei se estou claro.
(Todos: Sim!)
Sem atenuantes, atenuante estraga tudo. Porque não interessa atenuante, interessa procurar a agravante. “É verdade que eu naquela hora tinha tal coisa. O que é verdade naquela hora é que você não podia ter pecado e pecou. E esse é o negócio, o resto é conversa fiada. Não se incomode, não se deixe iludir”.
Então pegar até o fim e ter esta idéia de como seria e viver no conspecto desta idéia, é assim que eu vou me parecendo com o meu Anjo da Guarda.
Eu vejo alguém que me diz:”Doutor Plinio, isso não basta, é preciso ter sólidos princípios, é preciso compreender bem toda a ação porque é que é contra a ordem natural das coisas, porque é que ofende a Deus etc., e que bonita é a virtude oposta. O senhor só está falando da descrição do mal”.
Eu estou concordando, já disse, já dei isso de antemão como pressuposto. Mas aquilo que é fácil demonstrar eu deixo aos outros, eu pego para mim as teses ingratas, as teses difíceis, as teses da austeridade, essas é que eu tomo para mim. As outras qualquer um vê, qualquer um entende, a gente entende por si. É bom ensinar mas qualquer um ensina. É indispensável ensinar, é sacratíssimo ensinar, eu quero bem, não tem dúvida, mas eu fico para mim com os cardos, para mim com lado difícil. O lado difícil era esse, esse eu ensino. Eu ensino, em última análise, o que os outros não tiveram coragem nem de ver nem de ensinar. Porque é isso, o resto é conversa fiada.
* Os salmos penitenciais são uma ótima maneira de termos a noção dos defeitos que possuímos
Para isso uma beleza seria os senhores lerem os salmos penitenciais. São o pranto da contrição de David porque ele cometeu o pecado que os senhores sabem com aquela fassura. E foi punido duramente por Deus. O filho dele, Absalão, revoltou-se contra ele, ele teve reveses políticos etc., ele esteve a ponto de perder o trono, enfim, na desgraça dele, ele compôs esses salmos para pedir perdão a Deus. Mas ele para pedir perdão a Deus, ele cantava diante de Deus a sua própria infâmia.
“De profundis clamavi ad te Domine, Domine exaude orationem meam”: “Do fundo do abismo onde eu me encontro, Senhor eu clamei a Vós e vos disse; Senhor, ouvi a minha oração”.
Isso, isso é que é bom. Mas então no que consiste esse abismo? Cada um de nós foi concebido no pecado original. Aliás, um dos salmos diz isso: Ecce enim, in iniquitatibus conceptus sum: et in peccátis concepti me mater meae: “Eis que na iniqüidade me concebeu minha mãe, eu fui concebido no pecado original”.
Então como é agora a coisa? Eu tenho a infâmia dentro de mim e eu preciso afastar de mim esta infâmia etc. etc.
Quando a gente tem bem, bem esta noção, a gente tomou os defeitos da gente e relacionou com isso, aí a gente é outro homem. E aí é que amanhece para a gente a realidade de ser ultramontano, de ser contra-revolucionário, de ser reacionário.
* Só dá valor a um indivíduo quem separou o bem do mal e vê na linha do bem, o que ele poderia dar
Como fazer isto? Evidentemente não pode ser assim, “Eu, pán pán pán”… fazer um capítulo vivo.
(Todos: Fenomenal!…)
É a magnífica instituição do capítulo entre os senhores, tanto mais quanto o fato concreto tem aí um papel incomparável. A gente dizer para o fulano: “Fulano, você é assim!” Pluf! Mas se a gente diz: “Eu te peguei com a boca na botija, eu peguei a tua mão dentro do meu bolso pegando o meu dinheiro. Olha aqui, “pann”, aqui está tua mão, agora abre a tua mão, o que vai sair de dentro, vai sair meu dinheiro”. Aí é… a coisa toma outro aspecto. Isso que é preciso.
Alguém me dirá: “Mas Doutor Plinio, eu não reconheço o senhor nessa severidade. Quando eu trato com o senhor eu me sinto dignificado, eu tenho a impressão de que o senhor me olha com bons olhos e me conclama para o bem. Agora o senhor está me enxovalhando, de tal maneira me encostando no mal…”
Mas uma coisa é relacionada com a outra. O modo que a gente tem de perceber tudo o que indivíduo tem de bom é ter feito o roll do que ele tem de ruim e distinguir as duas coisas. E só dá valor a um indivíduo quem separou o bem do mal e vê na linha do bem, o que ele poderia dar. E fazer-lhe este convite para o bem que — os senhores devem bem sentir — tem uma rejeição ao mal.
Quer dizer, se você vem com a vontade de estrangular seu mal, “filius meus est tu”, mas se você vem me apresentar um balaio em que estão misturados o bem e o mal, fora! Contrabando não vai.
Um olhar muito pensativo, muito suave, muito doce. Não era azul como de Frei Pio, mas quanta coisa havia nesse olhar… Distinguia muito bem o mal. E de dentro de toda a bondade sabia afastar o mal: “Assim não deve ser”.
E, com este olhar castanho escuro eu aprendi. Então, meus caros, a essa hora que vai alta…
(Todos: Começou agora!)
Começou agora porque eu fui muito muito longo no Santo do Dia. O que me ocorreria dizer era isso, a menos que ocorra uma pergunta, alguma coisa.
* Quanto mais num ambiente se diferencie o bem do mal, mais as desigualdades são acentudas
(Sr. J. Clá: … o que o “Thau” do senhor vê para o Reino de Maria enquanto sacralidade, enquanto hierarquia, austeridade e etc.?)
Está muito bem perguntado. — Então, meu bonito copo, hein! — Está muito bem perguntado.
Eu digo o seguinte: Quanto mais num ambiente todo mundo sabe diferenciar o bem do mal, e a verdade do erro, o feio do belo; tanto mais as desigualdades são acentuadas.
E se deve dizer da desigualdade o que eu dizia a pouco da austeridade, no Auditório São Miguel. Há dois modos de compreender a desigualdade: um modo é a desigualdade angulosa e protestantosa, medonha: “Você tem o direito de chegar até aqui, daqui para cá estou eu, se você der um passinho para lá eu tenho um olhar travejando desdém: Fulano! Prá lá!” etc. e etc.
Há uma outra desigualdade que é exata, não relaxa, não brinca, é ciosa de si mesma, mas tem uma certa bondade, uma certa naturalidade de quem põem em vigências as desigualdades em termos tais que os inferiores pensam nela e os superiores têm ar de não estar pensando. Quer dizer, a desigualdade sabe ser arredondada, bondosa, afável, mas, ela mesma e os limites com ela não são menos parecidos, até são mais acentuados, mas não são angulosos, não entram pelos pregos na cabeça, mas entram pelos olhos.
Eu encontro bem a comparação: a desigualdade num ambiente católico é como a desigualdade entre as notas de uma música, ela não caminha para a luta de classes mas caminha para compor uma harmonia. Embora seja próprio de quem toca bem o piano, por exemplo, não ser pastoso de maneira que toque uma nota de maneira que vai embrulhando com a outra, mas quem toca deve tocar de tal maneira que quem ouve distingue inteiramente cada nota que deve ser tocada, respeitada a individualidade de cada nota. Isso que é para o pianista, provavelmente deve ser para quem toca harpa ou qualquer outro instrumento - eu não estou vendo o nosso organista aqui, mas deve estar por aí - não borra um som no outro. Seria uma coisa errada.
Assim também quem tem o espírito hierárquico, católico, faz disso harmonias de desigualdades, não tem aquele tom de campo de concentração. Mas a desigualdade está presente. Mas ela está presente com uma nota de colaboração, uma nota para formar uma coisa mais bela, uma nota de uma ligação e não uma desvinculação. É o contrário.
Mas só é capaz de fazer isso, por exemplo, a alma pura. Porque a alma pura compreende melhor do que a outra a necessidade do som puro, do “dó” que não é “ré”, nem é “si”, mas é “dó”! Tann! Tann! Compreende a pureza integral de cada coisa que não se mistura com a outra, que não quer ser a outra, não quer ser a outra para baixo, nem para cima, ela é o que ela é.
Isso tudo é próprio da alma verdadeiramente pura, da alma verdadeiramente veraz, que não mente. O mentiroso empastela os sons como empastela tudo.
Ora, se essas qualidades no Reino de Maria vão ser muito mais magníficas, então também é certo que as desigualdades também vão ser muito mais magníficas no Reino de Maria porque mais acentuadas e porque mais harmônicas que ligará as desigualdades no Reino de Maria .
Eu me lembro - para terminar a noite.. -
* O Reino de Maria será cheio de polidezes que enobrecerão todas as coisas
(Todos: Não!)
Não, está positivamente terminando, eu fixo uma hora, fixa como o som de uma música… São 4 para as 2, às 2 eu tenho que me levantar, os senhores amanhã vão ter um dia cheio. Aliás, eu preciso falar um pouquinho com o Sr. Roberto Kallás, embaixo, sobre a questão dos correspondentes-esclarecedores etc., algumas coisinhas.
Eu falava… do que eu estava tratando?
Ah! Uma coisinha minúscula, que me veio à memória, fatinho nesse sentido da palavra, é um fatinho que eu li nas memórias de Tayllerand, o impuro, o mentiroso, o apóstata; mas, o homem que sendo tudo isso, soube dentro do aviltamente incomparável dele, ele soube compreender coisas da época e dos princípios que ele renegou. É do Tayllerand, por exemplo, um comentário da Salve Regina.
Eu nunca ouvi ninguém dizer - tirando o Padre Nosso que está fora de qualquer comparação - a mais bonita oração da Igreja é a Salve Regina. Essa é minha opinião.
Uma vez lendo livro de memórias de uma princesa de Liwen - em alemão se diz Lüwen, em francês talvez se diga Lieven - morou na França, era sobrinha de Tayllerand, ela contava que Tayllerand uma noite, quando estavam conversando, etc.:
— “Vocês não sabem o que é oração, oração é a Salve Regina”. E recitou a Salve Regina e fez comentários para elas, ponto por ponto, magnífico. Mas dos lábios daquele apóstata, fica-se horrorizado, fica-se admirado.
Ele tinha assim coisas em que ele deixava escapar. Eu contei aos senhores o bilhete dele convidando a vir o Rei Carlos X, sucessor de Napoleão. Carlos X não era rei, devia entrar Luís XVIII. Quando Napoleão caiu, voltaram os Bourbons, o rei que devia entrar era Luís XVIII. Mas o Luís XVIII mandou o irmão dele, futuro Carlos X, na frente.
O Carlos X estava já dentro da França mas hesitando se deveria entrar ou não na França. Então pediram uma palavra de Tayllerand para ele, chamando-o. Tayllerand pegou, com aquela displicência de grand seigneur, pegou um pedaço de papel assim, rasgou e escreveu só assim: “Monseigneur, nós estamos fartos de glória, traga-nos a honra”. Assinado: Tayllerand.
Ele contava nas memórias dele, ele começa as memórias dele no Ancien Régime, foi quando ele nasceu, ele contava a atuação da avó dele, era uma princesa de qualquer coisa, não me lembro de…
(Sr. –: Chalet.)
Chalet, é isso, princesa de Chalet.
Essa princesa, todos os dias de manhã, dava numa espécie de salão de uma espécie de subterrâneo do castelo dela - ela morava no interior - ela dava audiência a todo mundo que quisesse vir receber remédios, etc. E naquele tempo os médicos ainda eram raros e a medicina muito menos avançada do que hoje. Razão pela qual os camponeses iam com freqüência aos donos do castelo para pedir curas e remédios etc. Ela tinha tudo preparado.
Então ela sentava numa espécie de troninho e os doentes passavam diante dela, ela indicava remédios para cada um e tal. Depois ela mesma ia junto aos que não podiam mover-se. Então era segunda parte dessa espécie de solenidade. Ela ia acompanhada por alguns pequenos nobres da região que faziam corte a ela. E dizia Tayllerand que carregavam para elas as coisas necessárias para atender os pobres: um levava uma garrafa com ungüento, com um líquido, outro uma tigela com ungüento; enfim, todos levavam alguma coisa.
Agora a frase interessante: “Tratando-a avec ses soins que la politèsse anoblie”. Não, “prestando a ela ces petits services que la politèsse anobli”.
Quer dizer, eram pequenos serviços propriamente a serem prestados por gente do povo, eram os lacaios dela que deviam fazer isso para ela. Mas a polidez tornava nobres esses serviços. Então, os pequenos nobres do lugar, por polidez, faziam com tanta polidez que ficava à altura deles nobres fazer esses pequenos serviços, para a princesa de Chalet.
Essa frase eu não me esqueço, eu achei magnífica. “Ces petits services que la politèsse anobli”., é magnífico.
Assim será o Reino de Maria, será todo cheio de polidezas que enobrecerão todas as coisas. E aí os senhores têm uma pequena amostra das magníficas desigualdades de todas as coisas.
Com isso meus senhores, nós estamos no fim e estamos no momento de ir embora. Eu creio que nós rezamos habitualmente 3 Ave-Marias.
(Sr. –: E a Oração da Restauração.)
Ah! É isso.
“Há momentos minha Mãe…
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