Conversa de Sábado à Noite – 19/2/1983 – Sábado [AC VI - 83/02.25-26] . 10 de 10

Conversa de Sábado à Noite — 19/2/1983 — Sábado [AC VI - 83/02.25-26]

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Depois de escrever a “RCR”, o Sr. Dr. Plinio se deu conta de que além do sentido próprio das palavras, havia qualquer coisa que estava por cima do sentido próprio delas * O homem austero é desconfiado em relação a si mesmo e em relação às outras pessoas — Em decorrência disso, ele toma atitudes prudenciais * A pessoa que é desconfiada de si e dos outros, é um tanto retraída, porque ela guarda distância psíquica e acaba podendo medir o seu próprio ver — Ela tem a consciência de sua própria dignidade * A austeridade é por excelência uma virtude contra-revolucionária que volta contra quem a tem, a antipatia de todos os revolucionários * A humanidade no Reino de Maria, apesar da estupenda conversão, será uma ex-bêbada de Revolução — Para não voltar à bebedeira… terá que ser austera e desconfiada * A austeridade causa admiração, mas não causa simpatia * “Os homens não se enternecem com outros homens quando os outros estão cumprindo seu dever” — É o normal * A compaixão quando ela não se dirige para onde ela deve, ela se direciona para tudo quanto não presta * Nosso Senhor Jesus Cristo mostrava-se compassivo com os pecadores, mas abria as portas da austeridade e recebia na sua misericórdia, desde que a pessoa se arrependesse * As almas não egoístas são aquelas que verdadeiramente sabem ser amigas, sabem perdoar, sabem ter pena * O medo, a frieza, as antipatias de algumas zonas da alma, de vários membros do Grupo em relação ao Sr. Dr. Plinio, vem de não terem consonância com sua austeridade * O homem gera na sua alma a austeridade pela ação do Divino Espírito Santo, analogamente como Nossa Senhora gerou a Nosso Senhor Jesus Cristo

Ave Maria…

Nossa Senhora do Bonsucesso…

Meus caros, eu estou à disposição de meus pergunteiros… Que perguntas há, meus caros?

* Depois de escrever a “RCR”, o Sr. Dr. Plinio se deu conta de que além do sentido próprio das palavras, havia qualquer coisa que estava por cima do sentido próprio delas

(Sr. Dustan: […] O que o senhor espera para o Reino de Maria sobre a conjugação feliz, harmoniosa, entre a sociedade espiritual e a sociedade temporal? Há uma parte da Revolução e Contra-Revolução que acho que alguém deve saber de cor, senão dos enjolras o coronel sabe de cor. É a frase que Sr. Dr. Plinio trata da TFP como antiigualitária…)

Parte II - A Contra-Revolução

Capítulo II

Reação e imobilismo histórico

1. O que restaurar

Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da ordem. E por ordem entendemos a paz de Cristo no reino de Cristo. Ou seja, a civilização cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, antiigualitária e antiliberal.

Quando eu escrevi esse trecho da Revolução e Contra-Revolução…

(…)

fatinho…

(…)

quando eu escrevi esse trecho, como todos os outros trechos da “RCR”, eu escrevi dizendo o que eu queria dizer evidentemente e é que o que está escrito ali. Mas eu me dei conta que além do sentido próprio e natural das palavras, elas continham…

A janela está aberta? Pode abrir lá, viu! A menos que venham pernilongos e insetos do gênero… adversários desse gênero, está bom.

Eu me dei conta que além do sentido próprio das palavras, havia qualquer coisa que estava por cima do sentido próprio das palavras. Mas o que escrevi… em linha geral o que eu escrevo, escrevo às carreiras, e os senhores não imaginam como foi complicado escrever a “Revolução e Contra-Revolução”. Ela foi escrita boa parte num hotel em Campinas, com o meu muito querido grupo da Martim — eram os enjolras do tempo —, esvoaçando o tempo inteiro em torno de mim, perguntando uma coisa, querendo saber outra, etc… Gente da Rua Pará também, era uma bagunça. E o Dr. Castilho é que [ia] fazendo a revisão da “RCR” lá. Era uma história a mais complicada possível.

Eu não tinha tempo de aprofundar. Depois com o tempo eu verifiquei que o trecho chamou… — não o sentido, o sentido aprofundei —, mas não tive tempo de aprofundar esse efeito de imponderável que isso produz. Não me preocupei mais e soltei.

Depois vi que o trecho… não comuniquei essa impressão a ninguém. Eu vi que o trecho chamou a atenção de vários como se contivesse alguma coisa — a comparação não é muito exata —, à maneira do bimbalhar de sinos graves, sinos de bronze.

Eu procurei, assim em horas vagas, portanto, em horas insuficientes, explicar para mim o que era isso. Depois peguei o fio da meada qual era.

Isso conduz à resposta de sua pergunta e a uma série de outras coisas que é o momento de tratar aqui.

* A Contra-Revolução é a restauração da paz de Cristo no reino de Cristo — É uma doçura que desce do alto…

Então, Dustan, quer repetir um pouquinho?

Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da ordem.

Não sei se notam, mas a expressão não podia ser mais chã do que essa. Se a Revolução é a desordem, já foi longamente exposto, a Contra-Revolução só pode ser a restauração da ordem. Mas por cima disso há qualquer coisa que é uma trombada. Continue!

E por ordem entendemos a paz de Cristo no reino de Cristo.

Depois dessa trombada vem o que é que é ordem! Vem uma definição inteiramente satisfatória. Mas quando se fala da paz de Cristo no Reino de Cristo é uma doçura, mas uma doçura que parece descer muito do alto. Porque a paz de Cristo no Reino de Cristo está tão acima do terreno em que a Revolução recebe um impacto, em que a Revolução se desenvolve, em que ela recebe um impacto da Contra-Revolução, que a paz de Cristo no Reino de Cristo está limbada de uma tal superioridade, que a Revolução nem pode entrar ali.

Parece a mim… tem a mim o agradável de, de repente, conduzir a uma paragem do pensamento muito alta. Continue!

* Virtude é austeridade, e a austeridade estabelece uma hierarquia

Ou seja, a civilização cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, antiigualitária e antiliberal.

A civilização cristã austera e hierárquica é uma coisa. Fundamentalmente sacral é uma outra coisa. Por que é que é? Estavam a dois passos. Não é só austera e hierárquica… não teria alcançado o mesmo efeito se tivesse dito “hierárquico e austero”.

Era preciso ter dito primeiro austera e depois hierárquica. Não hierárquica e austera, não estaria bem. Por que está melhor dito assim? Porque a austeridade é — e eu dou muita importância a isso — um movimento de alma que significa retirar-se com uma certa repulsa, uma carta militância e muita superioridade.

Aquele que é austero, o é face a algo que é sensual, que é terreno, que é secundário, ou é pecado ou conduz ao pecado. Está nas avenidas do pecado. Austero se afasta disso, mas se afasta para a repulsa e sobe na medida em que se afasta. Pela reação vê-se que o senhores sentem isso, ao menos para os portugueses do Brasil é assim. O austero traz esse imponderável.

Austero e hierárquico. Quer dizer, o hierárquico logo depois lhe indica qual é o suco no sentido da hierarquia. É a verdadeira hierarquia enquanto posição moral, enquanto atitude moral, é a posição da alma que afirma a sua superioridade pela fidelidade à virtude, mas a virtude austera, a virtude dura. Então, hierárquico vem em segundo lugar e é conseqüência. É virtuoso, logo é hierárquico. Virtude é austeridade, austeridade estabelece uma hierarquia.

Os senhores percebem bem que essa impostação é o contrário da Revolução a mais não poder! É um corpo a corpo com a Revolução que está aí. Bem, mas há qualquer coisa nas palavras que eu não chego a explicitar ainda inteiramente. Porque o senhor diz civilização cristã austera, hierárquica…

* Austeridade e hierarquia forma um todo para o qual o correspondente é fundamentalmente a sacralidade

fundamentalmente sacral…

Austera e hierárquica forma um todo para o qual o correspondente é fundamentalmente sacral . Por quê? Será um pouco à maneira de poesia contendo silabas de um lado e de outro? Tem algo disso, mas não creio que seja. Mas é que o fundo sensível é o austero. Dá à hierarquia olhando para baixo. Olhando para cima dá em sacralidade fundamental em todas as coisas. Isso é que é fundamentalmente sacral.

* A Contra-Revolução antiigualitária e antiliberal acaba fechando o círculo em pé de guerra contra a Revolução

antiigualitária e antiliberal.

É antiigualitária e antiliberal. Fecham o negócio porque volta ao ponto de batalha, anti, portanto, a alguma coisa. Então, a Revolução apanha. Quer dizer, conclui, não tenha dúvida. Não se trata apenas de fazer bonito, mas trata-se de meter porretada na Revolução. Nós estamos não em jogos de jograis, mas em batalha. Tome na cabeça!

* O homem austero é desconfiado em relação a si mesmo e em relação às outras pessoas — Em decorrência disso, ele toma atitudes prudenciais

No que diz respeito à austeridade, há exatamente um ponto que a gente [tem que] tratar, etc… Porque a austeridade é um ponto que a Revolução tem denegrido muito, a respeito dos quais é preciso pôr os pingos nos “is”.

A austeridade é uma virtude desconfiada e, portanto, algum tanto sombria, porque o que é desconfiado é sombrio. A desconfiança… não se põe a desconfiança à luz do sol. A desconfiança é crepuscular. Ela… o clima dela é penumbra. A austeridade é desconfiada. Quer dizer, o homem austero desconfia de si mesmo e desconfia dos outros, por isso mesmo, ele estabelece uma certa distância entre si e os outros, mas mais preciosamente entre si e si. Quer dizer, ele sabe que ele tem no seu interior o gérmen insistente e infatigável, sofístico… ora sofístico, ora impetuoso, que leva para toda forma de mal e que por causa disso ele vive num estado de desconfiança contínua contra si.

Agora, tendo visto bem o mal como é em si próprio, ele tem muito mais facilidade de perceber como é nos outros. Porque o raciocínio é o que eu fiz sobre mim mesmo. “Por minha natureza vejo que sou ruim, mas vejo que não sou tão pior que a média das pessoas. Logo, a média das pessoa é ruim também”. Não se tem por onde escapar.

Se a mim é difícil praticar a virtude há de ser para ele também”. Agora, olhe para cara deles para ver se eles têm cara de quem enfrenta dificuldades. Me dê a resposta. O que é que decorre desse exame? Desculpe-me a pergunta, mas está claro?

O resultado é que a austeridade é uma virtude desconfiada. Essa virtude torna a vida difícil. Porque não e fácil a gente viver. É muito difícil a gente viver desconfiando de si mesmo e dos outros também.

Mas ainda, não é só desconfiar, mas a desconfiança obriga à medida de prudência. O homem desconfiado vê que coisas más podem surtir dentro dele de um momento para outro e, portanto, de muito bom grado carrega uma pedra. De muito bom grado. Ele compreende, ele ama a pedra que ele carrega porque é o simbolo da desconfiança de que ele deve ter de si mesmo. Mais ainda, ele ama a pedra que ele carrega em virtude do seguinte princípio: ele compreende que aquilo é um simbolo da desconfiança e que só merecem confiança os homens desconfiados.

O que é obvio. Por que é obvio? Porque se eu consigo praticar a virtude à força de desconfiar de mim, é meu amigo e consegue praticar a virtude aquele de meus companheiros que também desconfia dele [mesmo]. Portanto, são dos desconfiados que desconfiam de si e que, portanto, desconfiam também da possibilidade de outro, de repente, cair em pecado. São dois desconfiados assim que dizem: “Aquele é um homem, pode ser que ele peque, mas ele tem tão poucas possibilidades de pecar quanto um homem pode ter. Eu sou amigo dele. Eu confio nele”.

Quando eu era moço imperava um modo de ver as coisas muito diferente. Eu acho que esse modo de ver só pode se ter acentuado daquele tempo para cá. É bom amigo o homem confiante, o homem que confia nos outros, nesses eu posso confiar. Isto e um raciocínio de um bobo, de um imbecil, de um minus habens. Isso não é verdade! É um homem desconfiado que eu vejo carregar uma pedra, essa pedra eu tenho vontade de oscular porque é a pedra de desconfiança que ele tem de si. É a pedra da desconfiança que eu tenho dele. É a pedra da desconfiança a que eu tenho de mim. Tem que ser assim.

Meus filhos, já que se tratou de pedra, eu pergunto se está bem claro isso?

Dando um passo para frente a coisa põe-se assim:

* A pessoa que é desconfiada de si e dos outros, é um tanto retraída, porque ela guarda distância psíquica e acaba podendo medir o seu próprio ver — Ela tem a consciência de sua própria dignidade

A desconfiança, por causa disso, é uma virtude um tanto retraída ainda que a pessoa desconfiada, em obediência as regras do bem viver, possa ser muito amável, de um contato fácil, eventualmente até agradável. De fato, ela no fundo é retraída, ela toma distância em relação a tudo. Ela guarda distância psíquica em relação a todas as coisas. E porque ela guarda essa distância psíquica, ela acaba podendo desconfiadamente medir o seu próprio ver, o que vale a ter a consciência de sua própria dignidade.

Coisa que a gente não deve olhar de frente, mas que de soslaio nos entra pelos olhos de todos os modos e que nos impõe um dever. É o dever de nos prezar a nós mesmos. Se eu conhecesse um homem que tem a mania de se olhar no espelho eu diria: “É uma besta quadrada!”. Agora se eu conhecesse um outro homem que me dissesse: “Eu sou tão modesto, que não sei que cara tenho”. Eu teria vontade de dizer: “Você é outra besta quadrada!”. Porque uma noção de si próprio todo mundo tem que ter. Faz parte do bom senso comum, portanto, uma noção equilibrada de si próprio, o suficiente para poder prezar-se a si mesmo e querer que os outros prezem, não por megalice, mas por amor à hierarquia, porque cada um de nós representa um degrau, maior ou menor, numa escala de valores, e é o advogado do valor que se apresenta. Faz parte de nossas obrigações. Isto está bem claro?

* A austeridade é por excelência uma virtude contra-revolucionária que volta contra quem a tem, a antipatia de todos os revolucionários

Bem, se e é assim, então, a austeridade é por excelência uma virtude contra-revolucionária que volta contra nós a antipatia de todos os revolucionários, porque o revolucionário não gosta de viver com um homem austero.

O Reino de Maria, pelo contrário, é um rio cheio de austeridade. Reino luminoso, reino jubiloso, reino triunfal, reino carregado de recordações, mil vezes “cicatrenciais” de todas as lutas pelas quais passamos, de todas as fraquezas, de todos os homens que levam em si e mais ainda, mais ainda, mais ainda!

* A humanidade no Reino de Maria, apesar da estupenda conversão, será uma ex-bêbada de Revolução — Para não voltar à bebedeira… terá que ser austera e desconfiada

Os senhores imaginem que alguém fosse um eremita no sentido próprio da palavra e morasse no Egito, naquelas covas do deserto, e tivesse ao lado um eremita há quinze anos, um outro que é eremita há 30 anos, portanto, o dobro… portanto, 30 anos de êremo, apresenta uma virtude muito mais firme. Se eu que estou há quinze anos lá e que admiro aquele que está 30 anos lá, e que me deu exemplo de todas as virtudes, se eu receber de alguém, do Cairo ou da Alexandria, uma garrafa ótima com uma bebida alcoólica para tomar num caso de desmaio, primeiro ponto; segundo ponto, eu souber que aquele venerável eremita foi bêbado antes de entrar, eu escondo a bebida dele.

Alguém dirá:

Não, este varão esteve aqui duas vezes mais tempo do que você. Olhe para ele”.

Eu digo:

E verdade não é. Mas ele bebeu alguma vez na vida. Por mais que ele esteja arrependido, por mais que o arrependimento que ele tem, eu não tenha de meus pecados, esse pecado ele cometeu e eu não cometi. Para esse pecado ele tem uma propensão, que ele tem e eu não tenho.

Resultado: desconfiança! E a primeira coisa que eu faço diante do varão santo que eu admiro e a quem eu peço que reze por mim, é esconder a bebida dele. Ora, a humanidade no Reino de Maria é uma grande bêbada, que passou, é verdade, por uma grande conversão espetacular, que foi, é verdade, objeto de toda espécie de graças, é bem verdade, mas cuidado! cuidado! e cuidado! que é Revolução, porque é pela Revolução que ela pode cair de novo. Portanto, tem que ser um reino de austeridade, de desconfiança! Bem, há uma coisa assim, e que vou dizer in abundantia cordis… mas é assim.

A humanidade sai da Revolução bêbada de Revolução, e a Revolução vai tentar pega-la de novo. Os que promovem a conspiração sabem bem que entre os mais duros e mais firmes, desde que eles confiem pouco em si dizendo: “Eu fiz tanta penitência para um pouquinho de um trago dessa garrafa, que daqui a pouco eu não tenho um tonel de vinho que baste e que mate a sede desse homem”.

É preciso ter isto em vista.

* A austeridade causa admiração, mas não causa simpatia

Isto que eu estou dizendo… agora eu pego o fio da meada: isto que eu estou dizendo como em geral tudo o que se diz da austeridade na melhor das hipóteses — quando a gente advoga muito a causa da austeridade —, [é que] ela causa admiração, mas ela não causa simpatia.

Pelo contrário, há em muitas almas, e às vezes há uma certa tendência em antipatizar com a austeridade ou, pelo menos, tomar a austeridade com frieza, um pouco como quem diz: “Ela é uma virtude fria, e a frieza com frieza se pega”.

Mais ainda:

Austero eu te vejo. Tu não tens pena de mim. Tu não tens pena daquele pobre velho, que há trinta anos está na ermida quando tu só tens de armida 10 ou 15 anos e da qual tu desconfias. Tu não tens um movimento só de humanidade. Quanta coisa miserável você tem feito em nome da palavra humanidade. Tu não tens um movimento de humanidade. Tu não tens pena desse velho. Dá a esse velho um traguinho de licor.

E o austero dizendo:

Não, meu filho, pelo contrário, eu antigamente tinha uma preocupação com ele, agora tenho com ele e contigo, tu não me compreendes, tu não segues a austeridade”.

Esse fica ainda mais revoltado.

Meus filhos, se os senhores forem examinar os senhores, verão facilmente que muitas atitudes de austeridade poderão não encontrar nos senhores aquela repercussão de alma enternecida, que se tem diante de um carinho. Como é, meu João?

(Sr. João: O lema de capítulo é fenomenal… “Tenha ternura com austeridade, como o carinho”.)

É isso. E isso dá em coisas desse gênero.

* “Os homens não se enternecem com outros homens quando os outros estão cumprindo seu dever” — É o normal

Imaginem, por exemplo, um chefe de Estado que está num palácio, num país de clima frio. Ele vê um sentinela andando de um lado para outro. O sentinela está com muito frio e pede ao superior, que naquele momento passa por lá, um copo de bebida para espantar o frio. Mas o superior nega. Graças a Deus, punição, capítulo. Esse chefe de Estado diria: “… [inaudível]”. E assim são governados tantos Estados. Ora, o bom chefe de Estado diria: “Eu quero saber quem é que recusou! Porque esse é um homem que se recusou a si próprio uma coisa. Ele deve ter vontade e gosto de dar esse algo, mas ele não dá porque o princípio é que desobedece o regulamento. O princípio é que os homens não se enternecem com outros homens quando os outros estão cumprindo seu dever. Cumprindo seu dever, não merece compaixão, é normal”. Essa é a realidade. Ninguém tem compaixão de quem faz o normal. É evidente.

* A compaixão quando ela não se dirige para onde ela deve, ela se direciona para tudo quanto não presta

Ora, acontece que a ternura, a compaixão, é como um líquido precioso que se encontra no fundo da alma de um homem e quando ela não se dirige para onde ela deve, ela se dirige para onde não deve. O resultado é que esse tipo de gente tem ternura e compaixão com tudo quanto não presta, e não tem ternura e compaixão para nada daquilo que presta.

Então, a coisa é assim, o deputado faz um discurso e apresenta uma lei propondo em nome da ternura que todos os filhos ilegítimos sejam equiparados aos legítimos. “Pobre criança, acaba de nascer é o ferrete da estampilha estatal se descarrega sobre sua testa, sobre sua testa inocente, filho ilegítimo. Por que filho ilegítimo? Por que pecou ele? Não, coitado, pecaram seus pais, mas a carga do pecado dos pais se descarrega contra ele e ele será registrado a vida inteira como filho ilegítimo. Isto o acompanha até o fim de sua vida. Coitado tenhamos pena!”. Há cem moleirões que dizem que bom deputado, votemos a favor do filho ilegítimo.

Assim se é favor do filho ilegítimo, do homossexual, se tem pena do comunista, do MR-8, se apóia toda foram de mal que há no mundo em nome dessa compaixão. É em nome da falta de austeridade

Porque é gostoso seguir essa inclinação. É gostoso sentir pena, e é gostoso ajudar os outros quando não é a custo da gente. [Inaudível]… um filho ilegítimo e ajudá-lo à custa do Estado, à custa do interesse comum, de Moral pública, não tem nada, deixa ajudar! O que é que tem? É preciso saber se eu tivesse que fazer alguma coisa por ele aí era diferente, não? Mas à custa do bem comum, não tinha nada, deixa fazer. É muito gostoso ter pena. O homem verdadeiro que se sacrifica não é o homem que tem pena, é o homem que sabe não ter pena quando não é ocasião de ter pena. Nas ocasiões que é a ocasião de não ter pena, sabe de fato dizer: “Não senhor, eu não posso ceder! Eu mantenho o princípio, eu mantenho à lei!”.

* Nosso Senhor Jesus Cristo mostrava-se compassivo com os pecadores, mas abria as portas da austeridade e recebia na sua misericórdia, desde que a pessoa se arrependesse

Eu sei que contra isso se pode fazer uma objeção ao próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo em muitas ocasiões de sua vida terrena manifestou-se tão, tão compassivo, para com os pecadores, que a gente pergunta: “Onde é que está o que eu disse?”. Está inteiramente no que eu disse. Quer dizer, Nosso Senhor Jesus Cristo passa perto do pecador e diz: “Meu filho, se tu te arrependeres, abrirei diante de ti as portas solenes e magníficas da austeridade, te receberei na minha misericórdia — os portais da austeridade, não digo bem, mas a dependência dessa austeridade que é a severidade —, [e] Eu abrirei os portais da severidade diante de você e te receberei bem, se te arrependeres. Vem cá, meu filho, Eu vou te ajudar a te arrepender”. Aí com toda ternura, com toda bondade, para que se arrependa. Está dito o seguinte: ainda que você não se arrependa, valerá para mim o mesmo que se você se arrependesse, que é a falta de severidade.

Não sei se está claro.

Ter pena do pecador, convidá-lo com bondade a se arrepender, não há coisa melhor, mas isso é muito diferente de dizer ao pecador: “Peca a vontade, porque eu tenho pena de ti”. Por exemplo, uma pessoa que eu respeito e com a qual eu simpatizo: a Rainha Elizabeth da Inglaterra. A atitude dela com a irmã, acho completamente incompreensível. Absolutamente intolerável, insuportável! Se ela chamasse a irmã e falasse com carinho, com bondade: “Emende sua vida, etc…”. Mas mil vezes. Mas enquanto não emendar, não pode ser recebida daquele jeito. Absolutamente! É preciso se arrepender, aí, então, arrependida, aí é bem tratada, bem recebida, etc…

* As almas não egoístas são aquelas que verdadeiramente sabem ser amigas, sabem perdoar, sabem ter pena

Mas tudo isso, meus caros, supõe da parte de um homem, que ele conserve uma posição de alma ereta, uma posição de alma equilibrada, que supõe mais força, muito mais punho sobre si mesmo do que o sentinela que fica uma noite inteira do lado de fora de um palácio de neve, em atitude de sentido.

É ficar uma vida inteira em atitude de sentido. Isso não é bondade? Eu só acredito na misericórdia é na bondade das almas assim. Essas é que sabem ser amigas, essas é que sabem perdoar, essas é que sabem ter pena porque não são egoístas. Os outros são uns egoistarrões, são bonachões, porque é agradável ser bonachão. Quem não acha ser agradável ser bonachão? É muito agradável ser bonachão.

Imagine que, por exemplo, eu agora eu estivesse voltando de automóvel para casa e encontrasse um homem bêbado pelo caminho, deitado na estrada, eu parasse o automóvel, tirasse dinheiro e pusesse um bilhetinho: “Plinio Corrêa de Oliveira passou por aqui e te viu provavelmente sem dinheiro. Tomes esse dinheiro para teres condução fácil para casa. Bom-dia, bom domingo”. Eu saía dando risada do acordar agradável que eu deixei para esse homem. Está acabado. Com um calculo: esse homem vai contar para cem pessoas que vão ficar amigas minhas e começo de propaganda eleitoral. Não é agradável contar para cem pessoas: “Sabe da pilharia que eu fiz com um bêbado? Fiz isso”.

Ninguém vai se lembrar que eu afundei esse bêbado na bebedeira.. Mostrando uma condescendência, uma naturalidade com o vício dele que só o torna pior, dando-lhe eventualmente um meio para comprar mais um trago e beber mais um pouco e, portanto, eu fui criminoso em relação a esse homem. Que eu não fazendo uma coisa dessas eu refreio o meu temperamento naturalmente bom, expansivo, amigo, meigo, como eu sou naturalmente. Eu refreio, eu sou melhor do que se eu atendesse a meu temperamento.

Quer dizer, até o fim, até o fim, até o fim… os senhores estão entendendo bem o resto…

* O medo, a frieza, as antipatias de algumas zonas da alma, de vários membros do Grupo em relação ao Sr. Dr. Plinio, vem de não terem consonância com sua austeridade

Meu João, logo você não entendeu ? Você quer a todo transe que eu diga. Eu vou dizer.

Mas é bem evidente que por causa dessa posição habitualmente austera que eu tomo, quero tomar, devo tomar, peço a Nossa Senhora do Bonsucesso que me ajude a tomar cada vez mais até o fim de minha vida, porque eu quero ter percorrido o século XX deixando atrás de mim o sulco da austeridade.

Eu vejo que há medo de mim, há frios comigo, que há… não digo antipatia, porque acho que a palavra seria talvez pouco amável, mas que há não simpatias em certas zonas de algumas almas em relação a mim. E é por causa da austeridade! De tal maneira a Revolução nos habituou a não amarmos a austeridade.

Vamos dizer mais: o odiarmos a austeridade, o desconfiarmos da austeridade. Só ela merece amor, [mas] nós não [a] amamos. Só ela merece confiança, [mas] nós não confiamos nela. Nós vamos amar qualquer “pelutrica” que não merece nenhum amor e confiar em qualquer sem-vergonha que não merece nenhuma confiança.

Pensem os senhores na fisionomia do Reino de Maria, esta austeridade que é a condição, é a avenida por onde se chega a hierarquia e a sacralidade e, então, os senhores compreendem as ordenações subjacentes, ordenações de pensamentos subjacentes. Não são belezas literárias, mas são ordenações subjacentes que há num trecho da “Revolução e Contra-Revolução” que alguns dos senhores aprenderam de cor.

Meus caros, fugit

Não há remédio… meu João!

(Sr. João: Agora que pegou a conversa…)

Mas está na hora. São duas e dez…

* O homem gera na sua alma a austeridade pela ação do Divino Espírito Santo, analogamente como Nossa Senhora gerou a Nosso Senhor Jesus Cristo

(Todos: Fatinho!)

Bem, vamos rezar três Ave Marias a Nossa Senhora do Bonsucesso [da] austeridade. O homem a gera na sua alma como Ela gerou a Nosso Senhor Jesus Cristo. Quer dizer, o “como” aqui, quer dizer, analogamente.

O Divino Espírito Santo nos dá a graça de amarmos a austeridade. Essa virtude começa a se desenvolver em nós. Nossa Senhora do Bonsucesso e Nossa Senhora que levou a bom termo a Sacratíssima Geração e Gestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo Bonsucesso é o nascimento, por isso ela tem o menino Jesus nos braços.

Possamos nós apresentar nossa própria austeridade aos homens com a realeza e normalidade com que Ela apresenta o Rei dos Reis. “Rex Regnum et Dominus dominatio”.

Vamos rezar três Ave Marias a Nossa Senhora do Bonsucesso.

Ave-Maria…

*_*_*_*_*