Conversa de Sábado à Noite ─ 05/02/83 ─ Sábado . 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite ─ 05/02/83 ─ Sábado

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A Senhora Dona Lucilia sempre foi um amparo para as almas que não queriam ceder à Revolução * O Sr. Dr. Plinio sentia-se, em sua debilidade de criança, amparado pela Sª Dª Lucilia e hauria nela as forças para a luta * O Senhor Doutor Plinio dá a diferença entre bondade, meiguice e ternura * Está na ordem das coisas que os membros do Grupo sintam ─ como em uma família ─ no Senhor Doutor Plinio um pai e na Senhora Dona Lucilia uma mãe * A Senhora Dona Lucilia nos dá o amparo de que nossa geração é ávida * Para correspondermos ao amparo da Senhora Dona Lucilia precisamos ter atenção, coerência e gratidão * O papel da Senhora Dona Lucilia na bondade existente no Grupo e o convívio no cemitério da Consolação

Então, quem é o pergunteiro, é meu João, é Carlos, é Edwaldo?

(Sr. J. Clá: Sr. Carlos A., é o último sábado que fica aqui.)

Então meu Carlos, qual é a pergunta?

(Sr. Carlos A.: O senhor disse na hora do almoço que a Senhora Dona Lucilia estava chamada a ser mãe de todos os “Jacós”. A gente intui um pouco como é isso, mas o senhor poderia mostrar mais isso e também como ela era mãe de Jacó que… [inaudível] …todos os Jacós?)

* A Senhora Dona Lucilia sempre foi um amparo para as almas que não queriam ceder à Revolução

Bem, aí, essa segunda parte… A primeira é mais fácil a gente tratar.

É o seguinte: havia qualquer coisa nas delicadezas da alma dela que atraía as almas delicadas. E, pelo contrário, repelia. Não que ela repelisse, mas não atraía, as almas modernas não se sentiam atraídas. Pelo contrário, rejeitavam. Porque ela era muito compassiva, muito bondosa, muito atenta, muito gentil, de uma gentileza toda feita de matizes, de pequenas delicadezas, etc. De uma delicadeza toda feita de matizes, etc., que, aquele espírito que eu qualifiquei de espírito cinematográfico hoje à tarde, era fundamentalmente avesso a tudo isso.

De maneira que a Revolução estava naquele tempo, e durante toda a vida dela, num tournant, num cotovelo onde, precisamente, se afastava de tudo por onde ela atraía. Mas também a Revolução colocava contra si todas as almas delicadas que estranhavam aquele modo pelo qual a vida vinha sendo tocada. E essas almas, se quisessem, poderiam encontrar nela um apoio, um amparo, para não cederem às pressões da Revolução.

In concreto, quase todas as almas que eu conheci e que se acercaram dela, cederam. Mas podiam não ter cedido. E a mim ela foi, neste sentido, de um amparo indizível.

Ora, o espírito Jacó é precisamente este espírito. É um espírito de força, mas de delicadeza, de gentileza, de amabilidade, de bondade, etc. E a minha alma queria enormemente ser tratada assim. E eu posso dizer também que eu era muito propenso a tratar os outros assim, desde que não fossem revolucionários. Porque, com o revolucionário é besteira sair com essas coisas. Mas desde que não fosse revolucionário, era muito propenso a isso. E encontrava no trato dela exatamente a comprovação de que era possível haver sob a luz do sol alguma coisa assim. Que, do contrário, me pareceria quimérico, irrealizável, absurdo, etc., etc. Eu teria tido muito menos força para conceber esse ideal e para tentar realizá-lo do que se eu não a conhecesse.

Eu…

(…)

Se não fui claro em algo, diga.

(Sr. Carlos A.: Está muito claro sim. Faltaria a segunda parte.)

Bem, a segunda parte, como é? Repita a segunda parte.



(Sr. Carlos A.: Como ela praticou essa maternidade com o senhor?)

* O Sr. Dr. Plinio sentia-se, em sua debilidade de criança, amparado pela Sª Dª Lucilia e hauria nela as forças para a luta

Neste particular, ela tinha duas coisas que pareciam antitéticas, mas, pelo contrário, se completavam mito bem. Ela era muitíssimo carinhosa. E era carinhosa enquanto ela notava em mim, ou numa criança, a debilidade da criança, e a criança sentindo-se débil. E o carinho dela entranhado para amparar a criança na sua debilidade eu sentia muito isso, quando era criança: que minha debilidade de criança era uma razão especial para ela me querer bem. E eu não posso dizer quantas vezes eu a vi sorrir a essa debilidade e a manuseava amavelmente, afavelmente, delicadamente. Ora brincando, ora gracejando um pouco, ora contando, explicando um pouco o mundo dos mais velhos, mas na mediada em que uma criança possa compreender. Mas, ao mesmo tempo, fazendo-me entender que não era bem assim, mas que ela achava muito entretenido de expor isso assim, em termos para crianças.

De maneira que eu me sentia ultra à vontade com a tradução que ela fazia do mundo mais velho para os mais novos, etc.

Depois, eu sentia isso muito também nos cuidados que ela tomava de nós. Mais especialmente eu prestava atenção no modo de ela tomar cuidado de mim. É natural. Os cuidados que ela tomava de mim. Quer dizer, cuidados com a saúde, cuidados com o corpo, não fazer brincadeiras abrutalhadas, cuidados com as maneiras, cuidado com tudo, mas um cuidado meticuloso e afetuoso, tudo bem direito, arranjado, tudo como deveria ser, etc., etc., meticuloso, mas de uma observação benevolente e própria a sorrir a qualquer pequeno defeito no qual não houvesse a insistência no defeito. Isso ela não tolerava: a insistência no defeito, ela não tolerava.

Depois, também, eu sentia muito dela, uma espécie de guindaste. Ela me suspendia. Ela tinha uma força de alma por onde ela, a força da convicção dela dava-me forças nas minhas convicções. A retidão da linha dela, dava-me retidão na minha linha. A repulsa que ela fazia do mal, do errado, e do feio, me dava repulsa a mim, me animava a mim.

Eu era um menino muito mole ─ aliás, pode-se perceber isso pela fotografia ─ e ela animava enormemente, mas enormemente. E com isso, o que ela, de um lado, apoiava em mim o Jacó, no que Jacó tinha de delicado, por comparação a Esaú: de outro lado ela preparava em mim o Jacó que ia lutar contra Esaú. Neste sentido também, me fez um bem colossal.

Naquela fotografia dela onde está…

(…)

(Dr. Marcos R. Dantas: Marechal tem perguntas…)

Marechal tem perguntas? Então chega aqui marechal.

(Sr. Poli: É a continuação do tema tratado no almoço.)

Meu filho, eu não me lembro mais do tema tratado no almoço. É tanto tema ao longo do dia que eu fico…

(Sr. Poli: [Inaudível].)

* O Senhor Doutor Plinio dá a diferença entre bondade, meiguice e ternura

Eu vou fazer uma pergunta, eu. Que diferença há ─ não é só para meu marechal a pergunta, é para todo mundo, para quem quiser inclusive para os hispanos, porque acho que essas palavras se transferem para o hispano tal qual. Que diferença há entre bondade, ternura e meiguice?

Em francês acho que não deve existir meiguice.

(Sr. J. Clá: Só existe em português mesmo) [Risos]

Mas não existe em castelhano?

(Sr. J. Clá: Meiguice em castelhano?; jamais!) [Risos]

Você está fazendo fassurada…

Bondade é genérico. Meiguice e ternura são duas das muitas variantes da bondade. A meiguice é a bondade enquanto afaga aquilo que é fraco, aquilo que é pequeno. E a ternura é a bondade enquanto protege aquilo que é fraco.

Então, por exemplo, pode-se tratar com meiguice… vamos dizer o seguinte: uma criança acorda à noite com medo, a mãe trata com meiguice. Porque há uma fraqueza da criança, etc., etc. Agora, ternura. A criança tem uma doença grave, a mãe procura tornar essa doença suportável para a criança, ele faz isso com ternura. Essa é a diferença.

Aqui estão das pequenas diferenças criteriológicas de país para país e que torna interessante a gente analisar os vários idiomas. Mas parece que, uma vez que se diz bondade, se diz ternura e meiguice. Porque, se bondade é um gênero que abrange todas as espécies, não precisa falar de ternura e de meiguice.

Ora, isso que em tese, genericamente falando, teria suas explicativas, para a psicologia brasileira absolutamente não é.

Porque vem, primeiro, genericamente, ao brasileiro, a idéia da bondade. Mas depois, especifica-se nele a idéia de que não é uma bondade qualquer, mas é uma bondade com suas características especiais: a ternura e a meiguice. Então ele acrescenta ternura e meiguice. E ele não sabe apertar tão bem o sentido das palavras como eu estou dando, mas o “i” da meiguice fá-lo sentir uma coisa. E o “u” da ternura fá-lo sentir a outra. E o riso ruidoso de todos mostra que todos sentem que isso é assim.

Então lembram-se que eu falava outro dia de criteriologia espanhola que tem um certo receio de que a palavra humana não seja suficiente para esgotar tudo o que quer dizer. Então recorre a um certo exagero, persuadido de que o outro saberá dar o desconto. E que é diferente de outras criteriologias que são mais coisas da medida do que da desmedida.

Da mesma maneira, aqui a gente vê uma nota característica de uma criteriologia especificamente brasileira. Que eu creio mesmo no português de Portugal não se leva isso tão longe como no Brasil. Não tenho certeza. Mas creio que no português de Portugal, não se leva isso tão longe.

Aí está um parêntesis para tocarmos para frente. Não sei até que ponto isso terá interessado aos que não são hispanos, nem portugueses, nem lusos aqui. Isso fica no ar, vamos adiante. Então meu bom Poli, diga lá.

Poderiam arrumar uma cadeira para Dr. Duca também. Não sei se isso é bondade, ternura ou meiguice, mas… [Risos] Qualquer dessas coisas acaba sendo.

(Sr. Poli: Então, essa é uma atuação da Senhora Dona Lucilia, pela bondade meiguice e ternura, para que sigamos uma clave contra-revolucionária, tenhamos mais o espírito da Causa. E que, para fazermos aquilo que o senhor quer, deveríamos ver o que ela faria. Então, aí, estaríamos fazendo o que o senhor quereria. Mas, como é que ela quer que façamos? Qual o estado de espírito necessário para isso? A que profundidades isso deve conduzir? Como adquirir a estabilidade desse estado de espírito?)

* Está na ordem das coisas que os membros do Grupo sintam ─ como em uma família ─ no Senhor Doutor Plinio um pai e na Senhora Dona Lucilia uma mãe

Está muito bem. Mas eu queria explicitar primeiro uma coisa: no espírito da pergunta, qual é a distinção que há entre fazer as coisas como ela queria que fizessem, e fazer as coisas como eu quero que façam?

(Sr. Poli: O senhor já deu a resposta.)

Então diga

(Sr. Poli: O senhor disse o seguinte…)

Estou amolando meu marechal. [Risos]

(Sr. Poli: Primeiro por causa da bondade, meiguice e ternura. Segundo, porque foi assim que o senhor aprendeu a amar Nossa Senhora e a Igreja. Terceiro, porque imitando a ela, imitamos o senhor porque o senhor e ela são a mesma coisa.)

Pode-se dizer o seguinte: se trata, até certo ponto, do seguinte: a relação que há entre o afeto materno e o afeto paterno é tal que, o afeto materno exprime certas bondades de Deus que o afeto paterno não exprime. Deus é tão admirável, tão perfeito, que para fazer sentir toda sua bondade, dentro da família, ele usa o pai e a mãe, porque uma só criatura humana não seria capaz de todas as formas de afeto necessárias para a educação adequada dos filhos. E para que os filhos tivessem bem uma idéia de todo completo da bondade de Deus.

E está na ordem das coisas que, os que pertençam ao grupo, sintam em mim um pai. Mas, está na ordem das coisas que os que pertençam ao grupo, sintam nela uma mãe. [Exclamações]

É um modo de apreciar as coisas que facilita, porque torna mais ou menos intuitiva uma coisa que, exposta de outra maneira, se tornaria complexa, mas que assim se torna muito simples.

* A Senhora Dona Lucilia nos dá o amparo de que nossa geração é ávida

Então, o que é o modo materno, dentro de nossas coisas?

É, em primeiro lugar, empregar uma particular bondade ─ mas eu vou tratar debaixo para cima, não de cima para baixo ─ uma particular bondade no trato nosso, uns com os outros, e no trato com os de fora, na medida em que os de fora não sejam revolucionários empedernidos, não sejam do papel que representou o meu caro Nelson Tadeu no Auditório São Miguel hoje à noite.

Agora, em segundo lugar, e isso é mais importante: as pessoas que recorrem a ela, sem terem nada de parecido com uma visão, com uma revelação, com êxtases, nem nada, se sentem como que tratados por ela de um modo materno. Esse trato por um modo materno tem uma riqueza específica que o trato paterno não tem, ainda quando o pai procure ser muito bom. O modo paterno não tem.

E há uma peculiar riqueza em que a alma que trata com ela, procure ser muito sensível e muito atenta a isso, deixe-se guiar muito por isso. Nesses dois particulares é que se estabelece a distinção.

Agora, eu acho ─ eu estava dizendo isso hoje cedo e repito agora ─ que os senhores foram muito favorecidos num ponto, em relação à minha geração. É que na minha geração se ensinava ao menino a auto-suficiência, mas uma auto-suficiência “pseudo”, porque era mais bem insolência.

Insolência em relação a todo mundo, e insolência baseada, no fundo, no apoio dado pela família. A pessoa, com base nesse apoio tomava atitude auto-suficiente. E a plenitude da formação, do desenvolvimento de uma criança, consistia em ter essa auto-suficiência meio agressiva, meio insolente. De uma criança que, por isso mesmo, se sentia muito amparada.

Os senhores não. Eu noto que muitos dos senhores ─ não quero dizer todos, mas muitos dos senhores ─ dentro do anonimato do mundo moderno, se sentem meio desamparados, muitos entregues ao léu, sem apoio nenhum, e é uma coisa que me comove, me toca especialmente, é quando eu tenho um contato com um “enjolras” que vem de fora, de outro país que não o Brasil, e que eu noto nos primeiros olhares uma interrogação: “O senhor será mesmo o homem bom que me falaram? E o senhor me dará uma forma de amparo e apoio de que eu preciso e que eu noto que eu não tenho”?

Ora, ela, pela virtude, pela condição de mãe, como que incomparável que ela era, ela dava muito essa noção de amparo. O que eu percebi de amparo dela, simplesmente não tem palavras, mas não tem palavras. E a geração dos senhores é ávida disso, porque a minha não era.

Então, aí está uma tentativa de resposta, o esboço de uma resposta. Não sei se há outra pergunta a fazer.

(Sr. Poli: O estado de espírito necessário para fazer tudo como ela quereria que fizéssemos, estabilidade nesse estado de espírito.)

* Para correspondermos ao amparo da Senhora Dona Lucilia precisamos ter atenção, coerência e gratidão

O sentir-se assim amparado e amparar os outros, de si é um estado de alma deleitável, sobretudo para quem vive no desamparo. De maneira que a gente, para responder sua pergunta, é levado a perguntar-se quais são os empecilhos que pode haver para a pessoa aceitar esse amparo, para a pessoa viver nesse amparo.

O primeiro empecilho é superficialidade e desatenção. A pessoa recebe esse apoio mas depois não presta mais atenção, não pensa mais nisso e age como [se] isso não existisse. Não. Isso supõe uma certa atenção, uma certa vida interior, por onde a gente tem cuidado de se lembrar do tipo do auxílio que recebeu e tem cuidado de tornar presente esse auxílio nas ocasiões em que é o caso, nas ocasiões de rezar. Nas ocasiões de rezar, pedindo um auxílio, ter isso presente.

Supõe, portanto, um esforço de atenção, de preservação contra a superficialidade, contra a irreflexão daquilo que eu quase ousaria chamar: A boa palavra ouvida.

Supõe também uma certa forma de coerência, porque, quem recebe um dom espiritual assim tão bom, por coerência deve procurar preservá-lo. É manifestamente incoerente receber uma coisa excelente e tratá-la como nada.

É como se uma pessoa pusesse uma pedra preciosa na minha mão e eu trato aquilo como pedregulho. Quer dizer, um doido! Não sabe o que é uma pedra preciosa? Trata como pedregulho uma pedra preciosa?! É um doido! [Vira a fita]

ser coerente. E, tendo apreciado tal dom, fazer imediatamente a resolução: isso eu preservarei, disso eu me lembrarei. Quer dizer, é um nexo, a coerência ─ eu estou mostrando a coerência que há na atitude anterior, estou mostrando que a alma coerente toma a atitude que anteriormente eu acabo de indicar.

Agora, há, para mais do que isso, uma verdadeira gratidão. Porque, se eu tenho uma pessoa que, num momento de aflição me tratou muito bem, se eu quero ser grato, devo lembrar-me sempre desse benefício que a pessoa me fez. É evidente. Não posso depois abordar essa pessoa como se o benefício não tivesse sido feito. É uma outra forma de incoerência, é a incoerência do ingrato.

E se nós queremos preparar nossas almas para recebermos novos dons, o natural é que nos mostremos gratos com os dons que recebemos. Porque, do contrário, não é dizer que ela fique sentida e não dê novos dons, não é isso. Mas é que esses dons deformam nossa alma. Se eu começo a carregar e sobrecarregar de dons uma pessoa que nunca agradece, eu estou deformando a pessoa. Por exemplo se eu viesse ao São Bento e não notasse…

(Todos: Ahhhhhh!)

as mil gentilezas de que eu estou sendo objeto, eu agiria mal.

Então eu aproveito assim uma ocasião em que isso possa ser dito de um modo um pouquinho engraçado, para dizer muito obrigado. Na medida em que a gente possa agradecer-se a si próprio.

(Todos: Ahhhhhh!)

Bom, avante! Por exemplo, o meu modo de dizer “avante”, não é o modo dela, ahahaha! [Risos]

Um pai diz avante assim. Mas ela dizia: “Filhão o que está havendo”?

Mas é bom também que, às vezes, o pai diga: “Avante”! As duas coisa se completam. Mas, enfim, quem é que tem a palavra, você, meu Marcos?

(Dr. Marcos R. Dantas: O senhor falava de um agir continuamente de acordo com a vontade dela).

* O papel da Senhora Dona Lucilia na bondade existente no Grupo e o convívio no cemitério da Consolação

Realmente. Quando a pessoa faz como eu acabo de dizer, quer dizer, se a pessoa em todos os momentos procura fazer como ela faria, lembra-se como ela faria, medir como é excelente fazer como ela faria, a pessoa tende a fazer tudo como ela faria.

Quer dizer, também, colocando as variantes razoáveis que há entre o papel do varão e da dama na vida e no procedimento, saber pôr dentro daquilo que faz uma particular nota de bondade, não deduzida teoricamente, mas, por assim dizer, recebida do convívio com ela.

Não sei se está claro? Mas, eu percebo que o Poli e o Marcos quereriam uma coisa além. Digam o que é para ver se é ou não é.

(Dr. Marcos R. Dantas: Resposta clara, mas um pouco sintética. Nós precisaríamos receber dela uma indicação de que nós estaríamos seguindo a vontade dela. Como seria essa situação? Membro do Grupo ideal, o que precisaria fazer, o que precisaria ser?)

Aqui a coisa é mais delicada para responder. Embora as condições de minha vida me têm levado a uma posição de combate e me faz mostrar quase continuamente um lado de alma que não parece ser bem exatamente o dela, eu a tive muitíssimo em consideração, nesse lado bondade, durante toda minha vida. E, debaixo de certo ponto de vista posso dizer, debaixo de certo ponto de vista, que seria difícil, numa organização como a nossa, constituída toda ela por homens, haver da parte dos que exercem autoridade tanta ternura sem dar numa espécie de adocicamento que também não deve existir.

E, apesar das enormes diferenças de idade, tanta proximidade como quase a gente não pode calcular.

Isto que é uma coisa essencial à vida do Grupo também essencialmente me foi possível realizar tendo sempre em vista as mil bondades dela e como ela me tratava a mim. De maneira que um modo de responder seria: como é que eu tenho em vista isso.

Agora, outro modo é como os senhores têm em vista? Os senhores que não tiveram com ela esse trato terreno, mas um trato de uma outra natureza. Essas são portanto duas perguntas bem diversas.

Eu creio… depois também tem o seguinte: com esse trato terreno que eu tive, tive muita ocasião de analisar, muita ocasião de especificar, de entrar em pormenores, etc., etc., etc. No gênero de trato que os senhores têm ─ já é audacioso chamar isso de trato, mas, enfim, chamemos de trato ─ no gênero de trato que os senhores têm isso não é assim. Como é que que imagino que é? Eu nunca perguntei. Não quero deixar sem resposta a pergunta, mas nunca perguntei. De maneira que eu vou dar como eu imagino que é.

Eu imagino que é: chega ao cemitério uma pessoa que leva montado um panorama que a preocupa muito, e reza no cemitério. O que acontece é que o panorama se desfaz nas suas notas mais ameaçadoras, com alguns esclarecimentos interiores mais ou menos imponderáveis que fazem ver que a situação não é tão difícil como a gente imaginava, a situação concreta. Ou que virá um apoio, um auxílio que resolve aquilo de um jeito que a gente não imaginava, ou, às vezes, nem sequer isso, mas uma coisa que diz apenas o seguinte: “É verdade, é uma situação de apuro. Mas, por cima de você vela uma Providência que arranja um jeito. Tenha os olhos voltados para essa Providência e o jeito virá”.

Mas é uma espécie de palavra interior tão meiga, tão delicada, tão persuasiva, que é como se tivesse tratado com uma pessoa. Eu suponho que seja mais ou menos assim aquilo que se poderia chamar o trato do cemitério, pelo que eu julgo ver nas fisionomias. E pelos assentimentos que eu estou vendo em vários. Não sei se isso é em todos ou não é.

Naqueles em que isso não é assim, não se sintam desapontados. Não estou afirmando que isso é só assim. Eu estou dizendo que é o que me foi dado ver, foi dado vislumbrar. Numa matéria em que eu tenho que ser muito discreto. Não tem propósito, por exemplo que os senhores estando comigo no cemitério, percebam que estou fazendo análise psicológica deste ou daquele. Eu devo agir como quem não está observando nada. Mas devo fazer minhas observações depois que o automóvel está andando. Como é isso? Como é aquilo? Como é aquilo outro?

Quer dizer: eu observo nas fotos que levo e não nos rostos que eu estou olhando. Porque, do contrário, tornaria nosso convívio impossível. De maneira que eu não queria deixar ninguém mal à vontade. Mas eu ficaria encantado em saber que é mais do que isso. O que eu observo é só isso.

Se é só isso, então a pergunta era: “como preservar isso?” Como era a pergunta?

(Sr. Poli: Aprofundamentos que isso tem.)

Isso, tornando-se freqüente, deve dar, provavelmente, uma impressão de contínua proteção da Providência que soluciona a impressão de abandono desconcertante e contínuo em que o mundo moderno atira os homens de quem ele toma conta. É o que, no momento, me seria dado a dizer. Muito mais do que isso, não me seria dado dizer no momento. Talvez aprofundando, analisando mais etc., sim. Mas, mais do que isso, não me seria dado dizer no momento.

(Sr. Fiúza: Há casos de pessoas que sentem uma tal ligação com ela que, se rompesse isso, a pessoa quase não se sustentaria. É uma quase sustentação no ser.)

É possível. Estaria na extrema coerência do que eu acabo de afirmar. Na realidade, não está muito diferente de alguma coisa que se observa. Os senhores imaginem que viesse, por exemplo, um governo comunista no Brasil, tomasse conta do cemitério da Consolação, mandasse enterrar todos aqueles sarcófagos, soterrar, e construir ─ aliás, existe esse plano ─ um supermercado fenomenal ali.

Isto produziria para muitos “enjolras”, e não só “enjolras”, um desconcerto… [Murmúrio]

Realmente como quem não sabe viver. Mas isso são modos da graça caminhar, modos da graça ser.

Aí é mais ocasião de a gente conversar um com outro, ouvir um pouco, sair talvez da extrema discrição em que eu me tenho posto e analisar mais um pouco. Poderei fazer para o momento oportuno.

A sua pergunta me agrada. Não me desagrada nem um pouco.

(Sr. J. Clá: Levando em consideração o que o senhor disse hoje…)

Levando em consideração um objeto que eu tenho no pulso…

(Todos: Nãããooo)

Fabricado na Suíça…

(Sr. J. Clá: Esses suíços não fazem nada que preste mesmo!) [Risos]

Eu estou procurando me lembrar da marca do relógio, não consigo, mas é o que saía. Mas, diga então.

(Sr. J. Clá: Seria possível o senhor mostrar o que era os bons eflúvios, os bons estados de espírito que ela criava? Que cria ainda agora, “post-mortem”?)

Seria também uma descrição muito longa. Mas, a resposta é a seguinte: basta ir ao 1º andar…

(Todos: Ahahaha!)

Basta a gente estar lá para ter disso uma lembrança muito viva.

Meus caros, está realmente muito tarde, vamos andando.

[O Senhor Doutor Plinio faz uma dedicatória numa foto para o Centro Cultural Reconquista, de Portugal, que um dos eremitas do São Bento levará.]

Meu filho… Vamos correr o risco do resfriado. [Cumprimenta o eremita que viaja para Portugal]. Que Nossa Senhora o ajude, o acompanhe. As bênçãos são para todos os de lá. Porto, como Lisboa, como alhures.

(Sr. –: A Senhora Dona Lucilia me ajudou muito nesses cinco anos que passei com o senhor.)

Pois então, meu filho, que ela continue a acompanhá-lo lá e ajudá-lo, não é?

Bem, vamos andando então.

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