Conversa de Sábado à Noite – 4/12/1982 – [AC V ‑ 82/12.05] . 4 de 4

Conversa de Sábado à Noite — 4/12/1982 — [AC V ‑ 82/12.05]

O frenesi é no fundo um entusiasmo que a gente tem por si mesmo” * “Ele é capaz de dar a vida por Deus, mas frenético por Deus ele não ficará” * “O sujeito que torce freneticamente por uma coisa, torce com as intransigências do egoísmo” * Quando um egoísta aceita transigir o faz por covardia ou preguiça de enfrentrar o adversário * O católico que transige em matéria de princípios não ama a Deus verdadeiramente; o auxílio que a Providência dispensa para isso * “O amor de Deus levado até o esquecimento de si acaba com os frenesis e faz homens fortes; o amor de si levado ao esquecimento de Deus, faz os frenéticos”

Índice

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* Cuidado com as perguntas em lugares públicos devido aos aparelhos para ouvir à distância que algo podem captar

(Sr. –: Situação atual. A Revolução caminha e obriga o senhor pedir a intervenção da Providência.)

Eu acho que você deveria transformar sua pergunta numa outra, mas dirigida ao João e não a mim: é o seguinte:

Se o João pode descrever a vocês, no catálogo que ele viu de aparelhos para ouvir à distância, usados em vários lugares hoje em dia… a gente não tem muita certeza, aqui em lugar público… Você me faz a pergunta outro dia, na reunião dos camaldulenses, você me faz essa pergunta… “ahahah!”.

Aí eu respondo com muito gosto. Aliás, é firme como tudo que amanhã, se Deus quiser, faço uma reunião para meus camaldulenses.

Então me prepare uma outra pergunta.

* “O frenesi é no fundo um entusiasmo que a gente tem por si mesmo”

(Sr. –: Longas esperanças e longas esperas. Frenesi, etc…)

Está bem perguntado, isso eu posso perfeitamente responder.

Vamos tomar a coisa assim: o que é o frenesi?

O frenesi é no fundo um entusiasmo que a gente tem por si mesmo. Porque o homem, a natureza humana é feita de tal maneira, que o homem só é capaz de “frenetizar‑se” por si. Por mais nada.

E quando ele tem uma crise, um acesso de frenesi, é por si. Quando o homem é frenético por qualquer coisa, procure no fundo, está ele.

Então, se você toma, por exemplo, um homem que tem um desejo frenético de Bagarre, não é a razão do frenesi, não é a Bagarre; a razão do frenesi é ele na Bagarre, qual é o papel que ele deve fazer, ou porque ele deve se ver livre dessa situação que ele não gosta e quer caminhar para uma outra situação, é qualquer interesse pessoal dele que dá frenesi.

O frenesi é o delírio da torcida do homem por si mesmo. Não há outro frenesi. Ninguém toma frenesi por outrem. Por mais bem que queira o outrem, pode ser pai e mãe, irmão e irmã, esposa, filho, o que for; pelos outros a gente não toma frenesi. Menos ainda a gente tem frenesi por Deus.

* “Ele é capaz de dar a vida por Deus, mas frenético por Deus ele não ficará”

De maneira que é uma coisa incrível, mas o homem é feito assim: ele é capaz de dar a vida por Deus, mas frenético por Deus ele não ficará. Ele terá por Deus um amor grandioso, calmo, forte, capaz de mover as montanhas, é verdade, mas frenesi não.

Ponha um ponto de amor próprio desse homem nisso aí, o amor de Deus baixa desde logo e ele fica frenético, porque a coisa vai tão longe que o homem é incapaz de querer‑se a si próprio sem frenesi, não há um amor calmo de si mesmo. O amor de si mesmo é o contrário da calma, não tem por onde escapar, isso é positivo.

Isso é o primeiro ponto. É um ponto tão claro, tão evidente, que as pessoas me ficam olhando assim… por causa da evidência e ao mesmo tempo da pouca freqüência do que eu digo. Quer dizer, quase ninguém diz isso. Existe uma probabilidade em cem, do senhor entrar numa igreja e ouvir um padre dizer isso.

Bem, professores leigos nem falar, isso é árabe e chinês para eles, não entram nessa cogitação. Entretanto, todo mundo sabe que é assim.

* “O sujeito que torce freneticamente por uma coisa, torce com as intransigências do egoísmo”

Então, eu respondo sua outra pergunta: a intransigência etc., etc…

O frenesi leva a todas intransigências a respeito de si mesmo. O sujeito que torce freneticamente por uma coisa, torce com as intransigências do egoísmo. E o egoísmo pode tornar um homem pavorosa e ferozmente intransigente. Isso também é bem verdade. Não se escapa disso, mas é a intransigência dos fracos. E no fundo não pode deixar de ser.

Porque se eu sou intransigente por uma coisa que me convém, desde que não me convenha mais eu deixo de ser intransigente. E portanto, se eu faço questão muito fechada de uma determinada coisa e alguém me compra, eu transijo.

* Quando um egoísta aceita transijir o faz por covardia ou preguiça de enfrentrar o adversário

Vamos dizer que eu tenho um ponto de amor próprio do outro mundo e sou capaz de matar um homem por causa desse ponto de amor próprio, mas tenho de outro lado uma vontade louca de passar seis meses numa viagem de ultra luxo e despreocupada na Europa. Se eu sou um pagão ou um “neopagão”, um outro me diz: “Olha aqui, você desiste desse ponto de amor próprio, eu te dou seis meses na Europa em condições ideais.

Imediatamente eu me sinto desmontado. E eu que era uma fera de intransigência, faço um sorriso e digo: “Criado, às ordens. Me dê a passagem e o cheque, eu transijo”.

Ou… porque aqui funciona o binômio medo‑simpatia, o sujeito me diz o seguinte: “Olha, eu sou o melhor atirador que há. Você pinta agora o caneco comigo, ainda que eu tenha que te esperar cinco anos, um dia eu te pego de jeito, numa rua, num escuro, te mato e a polícia não me pega. Você é um homem morto. A menos que você me diga que você cede nesse ponto de honra”.

Nunca! O que está pensando?”.

Na hora de dormir, em casa: “Como é essa história… será que eu fechei bem aquele ferrolho? Olha aqui, do lado de fora tem um terraço, hein?!… Se esse sujeito passar nesse terraço, como é, hein? E amanhã à noite que eu costumo dar um passeiozinho a pé, nunca mais vou passear a pé, como é isso? Vou passar cinco anos me escondendo?!”.

Se eu for muito intransigente, ao cabo de dois, três dias eu capitulo. Porque meu interesse foi encaminhado por outro lado.

Como vou ser intransigente?

Vou ser intransigente a la covarde, com uma mais pobre que eu, com um mais fraco do que eu, com um mais burro do que eu, com o mais plebeu do que eu, tenho qualquer pretexto para pisar no pé. Então vou pisar no pescoço. Aí então, conforme for, vou ser intransigente.

Mesmo assim, se eu for de um natural despreocupado, que gosto de folgar a vida, ao cabo de alguns dias não vou mais pensar naquilo. Brigar com aquele animal por quê? Nada disso. Deixo, de preguiça transigi.

De que valeu minha intransigência de três dias? Um fogo fátuo.

* O católico que transige em matéria de princípios não ama a Deus verdadeiramente; o auxílio que a Providência dispensa para isso

Agora, o amor de Deus não. Convicção, um princípio, uma doutrina, não pode! Se fizer tal coisa andou mal! Se fizer tal outra coisa, une‑se a Deus que é o ponto de atração de todo meu amor! A Igreja Católica, devo serví‑La, etc., etc., não transijo! Aí vai.

Ninguém pode negar isso.

Então, na aparência nós encontramos muitos católicos mais transigentes do que qualquer brigão de rua, infelizmente. Mas é porque são católicos que não amam a Deus como devem, são uns maricas, uns mariolas. Mas se eles amam a Deus como devem, eles são de uma intransigência que ninguém consegue vencer.

Não acha que é verdade?

Tanto mais que tem outra coisa. É que o católico tem para isso uma força sobrenatural, ele pede auxílio de Deus e Deus lhe dá uma força que não é do homem. Agora, Deus não nos vai dar os auxílios de sua graça para satisfazer os fogachos do nosso amor próprio. E eu não posso fazer, sem blasfêmia a seguinte oração a Deus: “Meu Senhor, dai‑me a graça de ter um ódio constante de tal outro, até que eu me vingue dele”. Isso é uma blasfêmia, Deus não me dá essa graça. Deus me dá a cólera d’Ele. Isso é que Deus me dá.

* “O amor de Deus levado até o esquecimento de si acaba com os frenesis e faz homens fortes; o amor de si levado ao esquecimento de Deus, faz os frenéticos”

Agora, eu posso dizer: “Senhor, dai‑me uma inflexível cólera contra vossos adversários porque eu Vos amo!”. E Deus dá.

Então, tudo se decide, se discrimina, se torna claro a partir dessa distinção: amor de Deus e amor de si mesmo. E nós… fugit irreparabile tempus… os “enjolras” bem conhecem essa frase que não é lá tão da estima deles, mas enfim, eles a conhecem… fugit! Mas enfim, tudo acaba sendo nisso.

Eu queria dizer o que disse Santo Agostinho: “Dois amores e dois pesos”. Um amor: meu amor é o meu peso, para lá eu me inclino. O amor de Deus levado ao esquecimento de si. O outro é o amor de si levado ao esquecimento de Deus.

O amor de Deus levado até o esquecimento de si acaba com os frenesis e faz os homens fortes. O amor de si levado ao esquecimento de Deus, faz os frenéticos, os “tarzans”, os heróis de fancaria, de romance, de fita de cinema, de novela de televisão, mas não faz os fortes verdadeiros.

Voilà l’affaire, mes chers!

Meus caros, é preciso ter a irredutibilidade do amor de Deus, para lhes dizer fugit irreparabile tempus, porque eu não gostaria de dizer, eu gostaria de os entreter.



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