Conversa
da Noite ─ 27/11/82 ─ Sábado .
Conversa de Sábado à Noite ─ 27/11/82 ─ Sábado
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O Senhor Doutor Plinio prevê a preparação de um grande estrondo contra a TFP * Para o Senhor Doutor Plinio é um mistério a razão pela qual a “Folha” abriu-se aos seus artigos * É inexplicável o silêncio dos membros do Grupo em relação ao Sr. Dr. Plinio e ao que ele faz
…eu ouvi o Guerreiro dar agora um risinho comprazido. Eu várias vezes tenho dado ao mesmo personagem um risinho assim. Como é que acontece que ela é tão majestosa assim que dá esse sorriso. A gente não sabe dizer como é, mas é encantadora.
(Sr. Guerreiro: Tem algo de uma rainha austríaca.)
Tem. Ela é fantástica.
(Sr. Guerreiro: …o senhor, as intenções de Nossa Senhora, os rumos a que estamos entrando…)
* O Senhor Doutor Plinio prevê a preparação de um grande estrondo contra a TFP
Se nós formos considerar o que está acontecendo no Brasil, ao redor da TFP, a situação é de espandongamento completo. No seguinte sentido da palavra, que tudo aquilo que podia cerrar fileiras em torno de nós vai, de um lado, acrescendo um pouco, para prazo imediato. Mas, de outro lado, está havendo um tal desmoronamento daquilo que era obstáculo ao comunismo e uma tal entrega de pontos que não se vê como é que nós podemos continuar essa luta com alguma possibilidade de vitória, terrenamente falando.
Porque o esquema entrevisto outrora como plausível é que uma boa parte da nação brasileira se levantasse contra o comunismo e que, portanto, nós tivéssemos Estados inteiros, zonas inteiras do Brasil, anticomunistas, com governos anticomunistas que aderissem a nós, que a gente pudesse fazer alguma coisa. O que nós temos não dá nem sequer para entreter uma guerrilha.
Sem falar de outra coisa, que eles ficam, provavelmente, numa perplexidade assim: se eles promoverem um estrondo pequeno, eles percebem que o estrondo pequeno a gente se desembaraça de qualquer jeito, está acabado. Portanto, eles têm que fazer um estrondo grande. O estrondo grande quer dizer: a propósito de uma acusação muito pesada, eles fazerem um ataque cerrado.
Por exemplo, vamos dizer, essa coisa do Fausto, deu algum trabalho. Mas como eles mesmos sabiam que era uma acusação inteiramente falsa, porque a própria polícia sabia perfeitamente quem é que tinha falsificado, porque eles sabiam que era CCC, sabiam tudo! Quer dizer, tudo era cachorrada da parte deles, não era outra coisa.
Bem, eles compreendiam que nós não nos deixaríamos levar e acabaríamos furando isso de qualquer jeito.
Eles não esperam uma coisa dessas, eles esperam é uma acusação muito grave a propósito de alguma coisa muito puxada. Essa acusação pode aparecer.
Dentro da maior honestidade da coisa, se eles vão, por exemplo, pegar a declaração de imposto de renda desse, daquele, daquele dentre nós, devem encontrar cabeçadas de toda ordem. E qualquer coisa no imposto de renda dá qualquer coisa também.
Eu sei lá, por exemplo, um pobre de um Paulo Martos o que é que declarou de imposto de renda? Agora vai pegar quatro ou cinco do Regina Martirum que declaram imposto de renda, rendinhas minúsculas…
(…)
…isso a meu ver eles sabem.
Como é que eles então farão?
Eu tenho impressão que como eles não têm outro jeito de nos massacrar, eles tentam estrondo em cima de estrondo para ver se algum pega. E nós absolutamente não estamos…
(…)
(Sr. Poli: …porque tem terrorista, tem guerrilheiro, tem não sei o que na assembléia…)
E põem esses na comissão. Isso não tem dúvida nenhuma, um ou dois desses eles põem.
Naturalmente a gente começa a dizer: “Eu nego idoneidade ao deputado tal para participar dessa… ─ nem é dizer eu nego idoneidade ─ …importantes setores da opinião pública duvidarão da idoneidade de algum resultado dessa CPI pela presença desse, daquele, porque pode ser que o governo tenha julgado num ato de liberalidade prudente, dar a ele a liberdade, mas isso não quer dizer que os brasileiros todos, unânimes, confiam nele”. É assim!
E daí para fora coisas de “estrondejar”. Vira e mexe, recurso ao tribunal da Justiça em tal ponto, em tal outro ponto.
E, hoje em dia estamos com o arquivo polêmico bem afiado. De maneira que a coisa subiria mar alto, mar alto, mar alto. É de “estrondejar”, aproveitar e virar então a mesa do outro lado.
Não tínhamos outra coisa para fazer.
Isso quer nível estadual, que nível federal.
E já envolveríamos a CPI do Rio Grande do Sul nesse jogo todo, porque nós diríamos:
“Nós estranhamos muito que os membros dessa comissão tenham tido medo que nós instaurássemos a monarquia a golpe de jiu-jitsu e de caratê, no Brasil e não tenha tido medo que voltasse fulano, sicrano, beltrano.
Ora, Vossas Excelências, com certeza, foram favoráveis a libertá-los. Não foram? Digam! Tenha a bondade de dizer qual foi, nesse passo da história brasileira, qual foi sua atitude.
Vossa Excelência como deputado tinha uma palavra a dizer nessa eventualidade. Em que sentido disse essa palavra?
É um brasileiro que lhe pergunta. Vossa Excelência não pode recusar de dar essa informação.
Se recusar já fica sabendo que o povo vai suspeitar mais.
É seu direito de recusar, mas é direto do povo suspeitar ainda mais”.
Aliás, foi engraçado que o Espínola fosse derrotado, porque de qualquer maneira… Há cem outros para fazer o que o Espínola fez, mas, [déchet?] e a gente joga de lado.
(Sr. Guerreiro: …num caso desses o senhor poderia tocar a opinião pública e mexer algumas almas.)
Não é bem isso. Firmava mais ainda essa posição única que nós vamos começando a ter junto a certos setores da opinião pública. Firmava mais ainda, isso sim.
Agora, isto não pode ser visto assim, uma situação a ser vista com tranqüilidade, porque, pelo curso comum das coisas, nós encontramos uma saída.
Deve ser vista de outra maneira, deve ser vista humanamente com muita apreensão porque é dessas situações que dificilmente dão saída. Na economia comum das coisas não há saída, é muito difícil.
Agora, é uma razão para a gente cofiar na Providência, que a Providência nos dê essa ocasião etc. Isso não tem dúvida.
Fiúza, parece que tem uma janela aberta. Me feche lá.
Eu lamento ter que estar fechando.
Aliás, a veneziana [está] aberta também. Veja o relaxamento dessas limpadeiras, e não só delas…
(Dr. Edwaldo: Seria uma ofensiva total, caso eclesiástico também…)
Acho que sim.
(Dr. Edwaldo: Seria guerra declarada.)
É minha impressão.
(Dr. Edwaldo: E a TFP teria que investir nesses campos todos.)
É impensável, o que poderia acontecer num caso desses, é impensável.
Agora, é preciso dizer o seguinte: toda guerra tem isto de impensável; acontecem as coisas mais inopinadas no meio de uma guerra, e depende dos que estão batalhando saberem tirar partidos de todas as situações que apareçam. Estarem informadíssimos, terem o olho finíssimo, saberem jogar. Uma guerra é isso.
(Sr. Poli: …o senhor tem tudo já tão previsto e escorado, que não está a batalha, mesmo naturalmente, ganha pelo senhor?)
Não. Basta você considerar a questão do estrondo lá da França.
A Refutación eu não me lembro se fiz dois ou três rascunhos da Refutación e joguei de lado, e levei muitos meses para encontrar uma saída para certos pontos da Refutación.
Olha que aquilo tudo era um tecido de fantasias, mas eu tinha que fazer uma obra dificílima, que era de provar que nós éramos inocentes.
A prova de inocência é uma coisa dificílima de fazer. A não culpa pode se fazer. A inocência não. E provar isso para um público o mais malévolo que se pode imaginar. Quer dizer, a falsa direita francesa e a esquerda brasileira. Quer dizer, uma coisa terrível.
(Sr. Fiúza: Saiu tudo com naturalidade.)
Mas foi dificílimo. Uma explicação tão evidente de tudo, mas é dificílimo.
Eu contei aqui a defesa daquela história do laço que caiu da imagem, como me ocorreu, não?
(Todos: Não.)
Uma das acusações que o rapport faz para mostrar nosso falso misticismo é que na Imagem de Nossa Senhora de Genazzano, nós tínhamos a mania de ver mudança de fisionomia. “Esse é um misticismo de mal quilate etc.” Depois, de outro lado também, ele, “Joyeux”, assistiu essa cena: caiu um laço da imagem de Nossa Senhora e todos aplaudimos etc., etc. “E afinal de contas era uma coisa de um pouco de cola atrás da imagem, secou a cola, qualquer coisa explica isso.” Realmente explica
Com a imagem de Nossa Senhora de Fátima eu não sabia como responder, porque realmente vocês mesmos teriam impressão de falso misticismo se não conhecessem a Sagrada Imagem.
Ora, os leitores não conhecem a Sagrada Imagem. Como é que eu podia evitar a impressão que eles teriam de falso misticismo?
Ora, eu não ia dizer que o “Joyeux” mentiu, porque não estava no meu papel mentir eu. É isso. Como defender isso?
Bom, não foi tão difícil acudir-me o caso de Nossa Senhora de Genazzano que muda muito de fisionomia. Então citei o livro de um teólogo francês do século passado que comenta isso, que cita isso etc., e um teólogo de certa consideração lá. Eu transcrevi. E se isso é possível em Genazzano, um bom teólogo admite, em geral a piedade comum dos católicos conhece isso, por que é que não se poderia dar com Imagem de Nossa Senhora de Fátima?!
Pufff! Está martelado.
Mas e como é a fita que caiu atrás?
Foi uma das coisas que me deram mais dificuldade para responder.
A resposta está lá, simples como tudo. Imagine um aniversário, um pai está saudando um filho e, de repente, cai um laço de uma Imagem no momento em que ele diz tal coisa, por coincidência. A família sabe que isso se explica pelas regras naturais, mas provoca um entusiasmo, todos se levantam, batem palma. A coincidência é recebida com otimismo.
Foi o que se deu nessa ocasião. Pronto. Eu levei meses para descobrir isso.
Quer dizer, não é tão simples não.
(Sr. Poli: …a superioridade do senhor é tal sobre todos, que não me é fácil ver que o senhor já não venceu.)
Você pensando, por exemplo, nesses dois exemplos que eu dou, se não acontecesse de eu ─ quando tive a minha crise de diabetes, pouco antes ─ ter lido esse livro de Genazzano, que eu podia perfeitamente não ter lido, foi um livro que me caiu nas mãos assim. Se não fosse isso eu não tinha saída.
Não adianta superioridade ou não superioridade, eu não preciso ser muito vaidoso para imaginar que eu seja superior ao “Joyeux”… mas não é o que vem ao caso. Se não fosse a coincidência de eu ter lido esse livro, eu não tinha saída. Nem tudo é assim.
(Sr. Poli: Mas mostra a maldade do mundo de hoje.)
* Para o Senhor Doutor Plinio é um mistério a razão pela qual a “Folha” abriu-se aos seus artigos
Ah, uma maldade do outro mundo. E é preciso dizer bem, essa maldade comigo é muito maior do que com todos os outros. A maldade comigo é descabelada, nem sei, é torrencial, de todos os modos, todos os jeitos.
(Sr. Fiúza: [inaudível] …e formar uma babel nas trevas.)
Depende de nós correspondermos a isso.
(Sr. Fiúza: [inaudível] …a “Folha” aberta não seria isso?)
Para mim é um mistério a “Folha” estar aberta, para mim é um verdadeiro mistério. Como é um verdadeiro mistério a Blue Arm nos entregar durante tantos anos aquela Imagem e termos esperança de que ela volte.
(Sr. Poli: [inaudível] …o Evangelho do fim da missa: as trevas tentaram circunscrever a luz mas não conseguiram. Durante quarenta anos eles tentaram abafar o senhor, mas…)
E por isso que a “Folha” começou a publicar meu artigo?
(Sr. –: Sim.)
É uma explicação que não corresponde a nada de concreto, porque se não houvesse a “Folha”, houvesse “O Estado de São Paulo”, o “Estado” não publicava os meus artigos.
(Sr. Poli: Mas não fica indecente para eles o senhor não ter um respirador, um desabafo.)
Você compreende o seguinte: ia ficar indecente aos olhos de quem?
(Sr. Poli: Mas não há intrinsecamente uma potencialidade na luz que fura a…)
Aqui chega. Que é tal que alguns justos acabam se deixando sensibilizar por ela e acabam impondo isso.
Para você ver a insensibilidade à luz em nosso século basta você pensar na insensibilidade à luz dentro da TFP. São os melhores dentre os melhores. A insensibilidade a que ponto chega?
(Sr. Fiúza: [inaudível] …não seria para evitar radicalização interna dentro da TFP?)
Evitar da TFP ficar indignada demais por não sair artigo meu em nenhum lugar? Ah, que sonho!
(Sr. Fiúza: [inaudível] …mas precipitar uma situação qualquer de… [inaudível] …É, de fato…)
Eu não vejo bem qual é seu pensamento. Procure exprimir.
(Sr. Fiúza: [inaudível] …o senhor [está] cercado demais pelo abafamento em certos setores da TFP. [Se] houvesse uma adesão maior ao senhor.)
Eu compreendo que, em tese, isso se poderia dar. É uma coisa que, em tese, eles poderiam recear. Mas na prática não se dá.
Pelo contrário. Mesmo os mais chegados a mim ─ basta dizer a você que habitualmente é o pessoal mais chegado a mim ─ agora não, por causa dos “enjolras”, mas antigamente ─ tinha mais tendência a não ler meus artigos.
A maior parte dos meus artigos saía e na mesa não se comentava que o artigo tinha saído.
Eu acho que a maior parte dos meus amigos ignorava que meu artigo tinha saído, não procurava, e se um lia não comentava com os outros. Isso é assim.
Não sei se vocês notam, eu estou tomando com muito afeto, mas que vocês estão procurando defender hipóteses otimistas.
(Sr. Guerreiro: [inaudível] …a alta cogitativa do senhor provoca interesse, é indiscutível. Depois não há mais grandes homens, não há mais nada. O Frias lá deve dizer: “Temos que aceitá-lo, senão esse jornal para onde vai…”)
Seria lógico que fosse assim, mas numa época… Esse argumento assim, o seu argumento é: Seria lógico que fosse assim; logo provavelmente é. Assim não se põe, porque nas épocas que estão se aproximando grandes tempestades, grandes cataclismos, é esta lógica precisamente que não funciona. Se funcionasse, o cataclismo não sairia.
Exemplo caraterístico, você toma um músico universalmente apreciado, foi certamente um grande músico, e que eu saiba não é contestado por ninguém ─ eu não entendo muito de música, eu não entendo nada de música ─ mas acho que não é contestado por ninguém: Mozart. Ele só foi acompanhado pelo cachorrinho dele. Ele estava num tal abandono, num tal desinteresse que não teve ninguém, nem da família, que fosse ao enterro dele. Só foi o cachorrinho.
(Sr. Guerreiro: Mas ele era apenas um músico.)
Não, ainda mais naquele tempo um músico tinha uma cotação igual a dos maiores filósofos e pensadores.
(Sr. Fiúza: Hoje todo mundo elogia-o.)
Está nos cornos da lua, Mozart.
Eu nunca ouvi dizer de alguém que dissesse: “Mozart, um mero músico”. Nunca! “Gênio… colosso”. Não é isso? Qualquer um.
Em primeiro lugar, qualquer homem que tenha feito seu curso secundário sabe quem foi Mozart, engraçado que não está em nenhum manual de curso secundário, mas fez curso secundário, ouviu falar em Mozart.
Depois um pouco idéia, uma música de Mozart ouviu, ficou alguma coisa no ouvido. Mozart até hoje ocupa um lugar.
Bem, ele quando foi enterrado foi o cachorrinho. Ele, músico para aqueles príncipes, aqueles arquiduques ─ ele morreu em Viena ─ aquela gente toda o acompanhou, foi todo um caso.
Está bem, sem embargo disso, quando ele morreu estava tão abandonado por essa gente e, aliás, vivia habitualmente numa tal miséria, que ele só foi acompanhado pelo cachorrinho. E quando morreu não causou sensação nem nada.
(Sr. F. Antúnez: [inaudível] …vendo o senhor tem-se sensação da vitória, qualquer que seja a tempestade.)
Vamos dizer que valha isso para quem tem “Thau”. Vamos dizer, mas certamente não vale para os que não têm “Thau”. Porque se eles tivessem certeza da minha vitória me bajulariam incomparavelmente mais.
(Sr. F. Antúnez: Eles pressentem, temem.)
Me bajulariam.
(Sr. F. Antúnez: Eles odeiam tanto o senhor que não bajulam, mas sentem algo.)
É um pouco diferente. Eles pressentem isso, mas acham que minha vitória criaria para eles tais condições irrespiráveis de vida que eles não procuram organizar uma vida tomando-me em consideração, eles procuram organizar uma vida onde eu não esteja presente no panorama, porque é o único jeito de o panorama continuar.
Imagine, por exemplo, que por uma coisa qualquer, eu fosse eleito Governador do Estado. Isso comunicava um matiz a toda a vida do Estado que no dia seguinte as floristas eram obrigadas, sem eu dizer nada, a arranjar as vitrines das lojas de flores de modo diferente. Para seguir a mecânica geral dos fatos. Eram obrigados.
Vamos dizer, as televisões ficavam sem graça, tinham que refundir os programas, pela minha simples presença. Ou eles se atirariam por cima de mim, ou eles reformariam. Mas esta reforma eles sentem como uma morte. Logo, eles se atirariam por cima de mim.
Agora, isso vai para além de todos os cálculos. E, portando, me dar uma lugar na “Folha” por causa disso… eu acho muito duvidoso.
(Sr. Guerreiro: [inaudível] …o que seria a “Folha” se não pudesse apresentar o mito deles da democratização, o senhor escrevendo lá. O senhor que dá seriedade a tudo isso, é um tal quilate que eles percebem como é indispensável.)
Tem o seguinte: você não toma aí em consideração um fenômeno quase degradante para o gênero humano, visto na perspectiva que eu vou tratar agora, que é o “ploc-ploc”.
Porque quando nós vemos o “ploc-ploc” o que não é, vemos o que é. Mas sobretudo o que não é.
Há uma crosta ─ fora do Brasil, um pouquinho no Brasil ─ uma crosta enorme de “ploc-plocs” que acham que o universo tem o tamanho do livro deles, dos livros deles. E que julgam que as bibliotecas deles descrevem tudo. E quem ler toda aquela biblioteca deles e depois escrever um livro, é, mais ou menos, um homem que conheceu toda ordem sideral e depois fez com a mão uma estrela e acendeu. É o que eles acham. E eles acreditam nisso.
E é uma coisa incrível, mas o creme dos políticos, acreditam nos “ploc-plocs”. Não políticos brasileiros…
(…)
…daqueles políticos alemães: Kohl e não sei o que é que apareceram, eu tenho a certeza que eles consultam “ploc-plocs” antes de dar aquele passo, aquele outro etc., etc., como um aluno do curso secundário consulta o mestre do curso universitário:
─ Professor, teria um tempinho… ─ é o primeiro ministro que faz, hein! ─ teria um tempinho para atender-me agora pelo telefone mesmo?
─ Sim, sim.
─ Olha eu vou lhe pôr esta questão assim, o senhor poderia resolver?
O professor:
─ Preciso pensar.
Diz:
─ Mas eu tenho urgência.
─ Não posso meu amigo, é preciso pensar, pensar… ─ valorizando.
Bom, afinal combinam um prazo, no prazo o professor dá uma solução, o político: punn! cumpre a solução do professor. Aqui no Brasil, modo nulo!
Você, por exemplo, não conhece um político lá de sua terra que se guie pelos professores universitários de sua terra.
(Sr. Guerreiro: Também não existe professor universitário.)
Aqui, também não tem políticos nem professor universitário. Lá na terra do Fiúza, por exemplo, um Tancredo, telefonar para um professor universitário: “Fulano, você que é especialista em política, fez um concurso tão brilhante, quer me dizer qual é o próximo passo com o governo federal?” Nem passa pela cabeça, se alguém sugerisse a ele: “consulte o professor tal”, ficava liquidado.
(…)
…Dom Vital, Dom Macedo Costa. Dom Macedo Costa era pouco mais ou menos um traidor. Quer dizer, mesmo isso é muito para se contestar.
(Sr. Fiúza: [inaudível] …pela “uriguelização” ninguém mais entende a não ser de mal.)
Ninguém mais, é fora de dúvida.
(Sr. Fiúza: Pessoas do Grupo mesmo, inteligentes até, lêem uma notícia e depois ouvem o senhor comentá-las e percebem então que não tinham entendido nada.)
É, mas resta saber se isto é falta de inteligência ou é falta de zelo.
A falta de hábito crônica de considerar a coisa segundo o ponto de vista verdadeiro. Crônica, crônica!
(Sr. Fiúza: [inaudível] …o senhor os desmascara, daí a perseguição.)
Pode ser, mas isso não explica que por isso a “Folha” publique os meus artigos. O assunto que nós estávamos tratando…
(Sr. F. Antúnez: O assunto da “Folha” era para mostrar a vitória do senhor.)
Entrou como argumento para isso e eu estou mostrando que o argumento não vale.
Eu acho que vocês poderiam argumentar de outra maneira…
(…)
* É inexplicável o silêncio dos membros do Grupo em relação ao Sr. Dr. Plinio e ao que ele faz
…há certas coisas, por exemplo, agora começam a aparecer aí fora, em série, elogios da clareza de meus artigos.
Eu saí, digam ou não digam o que quiserem, que são artigos excepcionalmente claros. Ou eu sou um mentecapto de a gente amarrar com cordas e mandar para o Juqueri, ou os meus artigos são excepcionalmente claros.
Eu entendo por excepcionalmente que muito poucas exposições de temas assim, é dado a ler, que tenham o mesmo grau de clareza. Isso eu afirmo.
Agora, é verdade que antes da campanha encetada pelo João, eu nunca vi uma referência a isso dentro do Grupo. Nunca. Uma referência à clareza, nunca vi.
A única vez que eu vi sob forma de censura, foi o Pacheco ─ que já não é do Grupo ─ que me disse uma vez: “Você em seus discursos comete um erro”.
Eu disse: “Qual é, Pacheco?”
Ele disse: “Você é claríssimo nos seus discursos. O resultado: as pessoas não ficam com admiração por você. São pessoas que têm o hábito de achar que aquilo que elas entenderam é banal. Como elas te entendem, acharam que você disse coisas banais. Se você dissesse coisas embrulhadas, que elas não entendem, elas aplaudiriam a você.”
Eu quase que disse a ele: “Mas então você reconhece que eu digo com toda clareza, com uma clareza excepcional, coisas que os outros não sabem dizer assim”.
Se eu dissesse ele ficaria indignadíssimo. Porque o que estava no pressuposto era isso.
Então, aconteceu inúmeras vezes, no tempo que eu fazia discursos por aí, eu ia fazer discurso ─ em geral o discurso coincidia com minha hora de jantar, então não ia jantar em casa, ia direto fazer o discurso, jantava no restaurante ─ era uma chusma para ir jantar comigo no restaurante. Mas durante o restaurante se falava de tudo menos do discurso. Se um cão tivesse ladrado na rua era a mesma coisa.
Quer dizer, eles não viam?!
O próprio silêncio exagerado mostra que eles tinham visto, mas que verem os incomodava. Por quê? Se tivesse sido o pai de um deles que tivesse feito o discurso… eles não comentavam o discurso?
(Dr. Edwaldo: Um discurso, comentavam o resto da vida.)
O resto da vida.
Esse capítulo é uma tristeza, é uma tristeza simplesmente.
(Sr. Fiúza: [inaudível] …por exemplo, o Santo do Dia de hoje, sobre a majestade, é um “Pentecostes” contínuo. Quem não se maravilha com aquilo não adianta vir “Pentecostes”…
(…)
…eu acabo de dizer o seguinte: procura-se raciocinar a respeito das reações que eu produzo junto aos vários públicos que têm contato comigo, sem tomar em consideração uma determinada regra, que vou enunciar daqui há pouco, é ficar condenado a um erro de apreciação irremediável.
O princípio que é preciso considerar é que a meu respeito é freqüentíssimo, é quase inevitável, haver a todo momento e de toda parte de todo mundo… vou me exprimir melhor. É freqüentíssimo, quase inevitável que todo mundo tenha, de quando em vez, reações totalmente inexplicáveis, surpreendentes, na linha do hostil. Porque o surpreendente na linha do simpático não acontece jamais!
A razão disso seria muito difícil de ser levada até o fundo. Mas à vista dessa situação querer supor a atitude dos outros como se essa situação não existisse, caiu em erro.
(Sr. Poli: O senhor tinha dito que participa do inexplicável contraditório.)
É, inexplicáveis, atitudes inexplicáveis e contraditórias.
(…)
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