Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1
Andar) – 7/8/1982 – [AC V ‑ 82/07.41 e 42] –
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Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1 Andar) — 7/8/1982 — [AC V ‑ 82/07.41 e 42]
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A nesessidade da ação pessoal do Sr. Dr. Plinio sobre os enjolras * O homem só conhece inteiramente uma coisa doutrinária quando conhece também sua parte simbólica * “Dos símbolos que Deus tem nessa Terra nenhum tem o valor do próprio homem” * Vendo os efeitos de sua influência pessoal e simbólica o intuito de Sr. Dr. Plinio em criar nos enjolras o hábito do raciocínio * Como se exerce a ação pessoal contra-revolucionária * “Eu simbolizo possantemente o contrário do que a Revolução quer” * Mostrar o Sr. Dr. Plinio ao mundo como Deus num homem representando o aspecto da ordem do Universo * “As recordações que eu tenho de minha infância no Coração de Jesus compõem o meu amor à Igreja” * Na infância do Sr. Dr. Plinio o que mais o levou a amar a Deus * O modo todo especial que nossa vocação pede que amemos a Deus * Diante dos sucessivos fracassos de Jasna Gora a graça do capítulo trazida pelo Sr. João
Índice
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Então meu Guerreiro, vamos sentar! Senta meu Edwaldo! Carlos, vamos sentar! Está uma reunião au grand complet dos correspondentes no exterior, está faltando apenas o Mário Navarro. Meu caro Pedro Paulo, que Nossa Senhora ajude meu filho! E meu caro Paulo Henrique, Nossa Senhora ajude!
Surgite! Vamos nos sentar! Olha, se faltar cadeira peguem na sala ao lado. Olha, eu acho que dá para todos.
(Sr. –: Falta uma.)
Pega uma poltrona aí que é um pouco mais cômodo. Sedeas!
Então, quais são os temas, quem é o pergunteiro? Cadê o Guerreiro Dantas que não estou vendo nos pergunteiros?
(Sr. Guerreiro Dantas: Os visitantes têm coleções de perguntas acumuladas em anos…)
“Hahaha!”.
(Sr. Carlos Antúnez: …umas das premissas da graça do “Grand Retour” é deixar‑se atrair pela ação pessoal do senhor…)
Se nós formos assim em vôo direto ao tema, nós notamos o seguinte: que ele não deixa de ter uma relação — e não muito pequena — com a segunda parte da reunião de hoje à tarde. Em que sentido da palavra?
* O homem só conhece inteiramente uma coisa doutrinária quando conhece também sua parte simbólica
A Providência deu aos homens uma natureza ao mesmo tempo espiritual e material, nós somos espírito e carne. O nosso conhecimento não pode ser, portanto, comparado ao conhecimento dos anjos que são puros espíritos. Os anjos têm conhecimento direto da coisa. Para nós homens nós precisamos olhar com dois olhos e não com um olho só, digamos assim, e temos que conjugar a ação das duas vistas para formar para nossa mente uma imagem completa das coisas. Mas eu não estou falando aqui das duas vistas materiais corpóreas, a não ser como uma espécie de comparação, porque eu quero dizer outra cosa: é que por um lado nós vemos as coisas pelo intelecto, pela razão e pela doutrina. E por outro lado nós vemos as coisas pelos símbolos.
E o homem só conhece inteiramente uma coisa doutrinária quando ele conhece também a parte simbólica que diz respeito a isso. E reciprocamente ele só conhece bem a parte simbólica quando ele conhece bem a parte doutrinária que diz respeito àquilo. É a convergência dessas duas visões que faz [?] como diz respeito aquilo. É a convergência dessas duas visões que faz como que para a vista física: a convergência dos dois olhos produz a vista exata.
* “Dos símbolos que Deus tem nessa Terra nenhum tem o valor do próprio homem”
Dos símbolos que Deus tem nessa Terra, nenhum tem o valor do próprio homem. Quer dizer, o símbolo de todas as coisas é o homem, que é o rei da criação e no qual todas as coisas se espelham. Então, vamos dizer, uma pedra preciosa, o mar, um pássaro ou quanta coisa queiram; isso tem um valor simbólico na medida em que simboliza o homem e simbolizando o homem simboliza a Deus.
Nós estávamos falando agora, — você não estava lá no Santo do Dia — estávamos falando dos orientais, por exemplo, a beleza que nós encontramos em certas coisas deles, por exemplo, para mim toda vida — isso eu não disse no auditório, mas é o que me parece…
(…) [Corte número 1]
…é turbante de marajá com uma pedra preciosa e aigrettes. Eu então… fez1 de Xá com pedra preciosas e aigrettes também.
Mas qual é o bonito disso? O turbante e o fez são símbolos da mente humana. A pedra preciosa é um outro símbolo, aquele homem pondo tal pedra preciosa na fronte, quer destacar tal aspecto da personalidade dele naquele ato que ele vai comparecer. Por isso que tem muitas pedras preciosas e que ele escolhe, etc., etc., para destacar tal aspecto da personalidade dele. E a aigrette faz papel da síntese no negócio, esvoaçando por cima, uma coisa superiormente bela, agradável, atraente, tudo mais.
* “Temos que saber ver em todas as coisas símbolos da alma humana, símbolos de Deus”
Então, nós temos que saber ver em todas as coisas símbolos da alma humana, símbolos de Deus. Mas temos que saber ver nos homens diretamente símbolos de Deus e explicar‑nos, nos homens, por alguma coisa. Por exemplo: nós podemos dizer que o homem é comparável a um leão, que é comparável a uma águia. São seres inferiores. É comparável a um brilhante. Mas é para nos explicar melhor o homem.
Agora, todo esse veio simbólico de nossa personalidade se anima portanto, e se alimenta mais com o conhecimento de outros homens do que com qualquer outra coisa. E essa ação pela qual um símbolo se torna conhecido a mim e me modela, esta ação é quando exercida de ente humano a ente humano, é a influência pessoal, ação de presença, etc., etc… São isso! Com todas as complexidades da ação de presença, porque não há coisa mais complexa do que uma ação de presença. É o que a gente vê, o que a gente ouve, o que a gente sente quase que por uma espécie de eletricidade que as pessoas têm; tudo isso constitui ação de presença.
* Vendo os efeitos de sua influência pessoal e simbólica o intuito de Sr. Dr. Plinio em criar nos enjolras o hábito do raciocínio
Quem portanto, pretendesse conhecer uma causa apenas na doutrina se coadunava à condição de caolho. É evidente! E o caolho, não é só dizer que ele vê com um olho só, mas é que com o olho com o qual ele vê, ele não vê tão bem quanto ele vê com os dois, porque são necessários os dois olhos para o conhecimento global. E também assim o homem “ploc‑ploc”. Ou o homem que tratando de questões de apostolado, de formação, etc., nega a importância enorme da influência pessoal, como expansão, etc…
Agora, é verdade o seguinte, que lentamente, gradualmente, o apostolado deve ir fazendo com que a pessoa sem perder sua sensibilidade pelos símbolos, até pelo contrário acentuando‑a, entretanto vá lentamente entrando no mundo da inteligência e da razão. Porque do contrário, fica caolho de outro olho.
(Sr. Fernando Antúnez: O senhor dá essa visão completa; é o que o senhor faz.)
Pelo menos eu tento fazer, não sei se eu consigo, mas logo que os nossos “enjolras” — sobre os quais não se pára de falar — se aproximarem de nós e — “enjolras” os há na Venezuela, como no Brasil, como na Espanha, como em todos os lugares possíveis — logo que eles se aproximaram de nós vinha aquela coisa: “eles só vão atrás de influência pessoal, não sei o quê”. Eu disse: “andem devagar e com bom senso, eu vejo que eles são muito sensíveis à influência pessoal, inclusive são sensíveis, eu vejo, à minha influência pessoal”.
(Sr. Carlos Antúnez: A única!)
Mas se essa sensibilidade for autêntica eu aos poucos criarei neles o hábito do raciocínio. E é o que eu vou criando. E pode‑se pegar uma quantidade enorme de fitas minhas feitas para os “enjolras”, pode pegar qualquer fita, é com coisas em que eu faço uma tentativa de tornar aprazível, bonito o que eu digo, etc., vem a razão, a razão, a razão. E são todas conferências, quando não são conferências são aulas. Mesmo hoje à noite, o Santo do Dia, era uma exposição racional, tinha uma porção de elementos de doutrina até, mas uma porção.
E eu me sentirei bem sucedido se eles realizarem esse equilíbrio, do elemento pessoal com o elemento racional. O elemento da influência pessoal, simbólico, com o elemento racional. Eu me sentirei feliz se se der isso.
Creio mesmo mais que haveria uma ingratidão para com a Providência se tendo‑nos a Providência dado símbolos humanos e capacidade intelectiva, nós empurrarmos uma das duas coisas de lado e só apelarmos para a outra.
* “A ação pessoal é um estimulante de primeira ordem para o raciocínio”
(Sr. Carlos Antúnez: …o mundo inteiro tem que aceitar essa ação pessoal, não só a doutrina, agora por exemplo a Europa tem rejeição à ação pessoal…)
Aqui tem o seguinte, apontando assim o fundo do assunto, quer dizer, dando portanto, a vocês meios de discutir com o “ploc‑ploc”, que é o que estou visando nessa exposição. Considerando o fundo do assunto ele poderia pôr‑se assim: o “ploc‑ploc” pensa que a verdade se conquista assim: “há certa coisa que eu ignoro e eu começo a raciocinar, na ponta do raciocínio eu encontro a solução”. E isso não digo que seja errado, mas não é para o comum do pensar humano. O comum do pensar humano é a gente com base em verdades elementares que para a inocência tem muita força, com base nessas verdades a gente fazer um longo e rápido raciocínio, tão longo e tão rápido que ele é subconsciente e que nós chamamos de intuição, e intui de fato o fundo do problema. Depois raciocina para encontrar a justificação explícita daquilo que intuiu. E para isso a impressão pessoal ajuda muito mais a ver o fundo das questões do que impressão puramente intelectiva.
E, então, para o processo intelectual a influência pessoal dá um estímulo, porque já faz anunciar o ponto de chegada, para o qual o sujeito caminha.
De maneira que me parece que está arrevesada essa distinção tão grande que se faz entre raciocínio e intuição, entendida intuição assim.
E então a ação pessoal é um estimulante de primeira ordem para o raciocínio, mas é muito mais do que isso, ela é algo sem o que o raciocínio não tem rumo, não tem o ponto de chegada.
* Na falta da intuição a necessidade dos povos nórdicos em pegar as coisas na ponta da picareta do raciocínio
Agora, é preciso dizer isso, que para os povos nórdicos, por exemplo para o alemão, isso não é bem assim, há muitas coisas que eles intuem etc., etc., etc., é verdade, mas algumas coisas eles têm que pegar na ponta da picareta do raciocínio. Eu não sei o que [é] que tem para o latino que é totalmente intuitivo e o alemão — eles são muito intuitivos para muita coisa, mas muita coisa, e têm até uma intuição muito límpida e muito clara — mas umas tantas coisas tem que ser na ponta da picareta do raciocínio. Alemão, inglês e todos esses povos nórdicos, norte‑americanos a maioria, etc., etc., são todos desse gênero. Então é preciso ter um certo cuidado no a gente apresentar as coisas, saber fazer esse matizado.
(Sr. Carlos Antúnez: Mas o amor à ação pessoal é fundamental.)
Aí já é diferente do conhecimento, eu falava sobretudo e fundamentalmente do conhecimento, que é onde os “ploc‑plocs” nos pegam.
(Sr. Carlos Antúnez: Mas para amar a Causa de Nossa Senhora é fundamental a influência pessoal.)
É fundamental, do contrário a gente chegaria à seguinte conclusão: que se Nosso Senhor se tivesse encarnado e nós não tivéssemos uma notícia certa, documentada, da face d’Ele; nós o amaríamos tão bem como conhecendo a face d’Ele. O que é um disparate. Nossa Senhora não se teria manifestado tantas vezes de maneira aos homens conhecerem a face d’Ela, e a Igreja não nos apontaria tanto o culto das imagens que é o culto para fazer uma idéia do santo como condição para nós sermos capazes de amar o santo, querer bem o santo. E depois daí para fora.
* A deformação do racionalismo minguando a importância da ação pessoal
(Sr. Carlos Antúnez: …para a geração atual parece que a ação pessoal terá muito mais influência que o raciocínio.)
Não, é preciso pôr o problema mais audaciosamente, é preciso saber se os séculos de racionalismo não exageraram a importância do lado racional e não minguaram a importância da ação pessoal. Esse é o ponto que é preciso ver. É se não existe uma espécie de retificação na coisa como ela está se pondo. Eu sei que isso toca exatamente no que se falou hoje à tarde, mas é uma coisa que a gente tem que considerar.
Você toma por exemplo, na Idade Média, é fora de dúvida que toda arte medieval procurava exercer uma influência sobre o homem, simbólica, etc., que a arte no Ancien Régime exerceu menos e procurava menos exercer, e que ela foi muito mais racionalista. Bem! Mas isso não deformou esses prismas todos?
A meu ver deformou.
O que tem é que os “enjolras” tendem ao oposto.
(Sr. Carlos Antúnez: Não só “enjolras”…)
“Geração nova” também, também… evidente. Daí se segue uma coisa curiosa, é que toda temática que diz respeito a ação pessoal dentro do Grupo, para essa temática os “gerações nova” são muito mais abertos do que o pessoal da velha Pará, que não concebem esse tema.
(Sr. Carlos Antúnez: Aí entra um pecado.)
Eu acho um defeito.
* Como se exerce a ação pessoal contrarrevolucionária
(Sr. Carlos Antúnez: …como será a ação pessoal agora, na “Bagarre” e no Reino de Maria?)
Deveria propriamente ser o seguinte: qual é o ponto em que se exerce essa influência pessoal. No sentido da contra‑revolução, porque não é qualquer influência pessoal, mas é a influência pessoal contra‑revolucionária. Como é que exerce essa influência?
Nós devemos achar que se as verdades todas que o homem pode conhecer a respeito do universo são verdades que têm um certo píncaro, racionalmente falando; assim também há pessoas que são chamadas a simbolizar um certo corpo de verdades, ou um corpo enorme de verdades, mas pelo píncaro dessas verdades. De maneira que a gente conhecendo a pessoa tem um símbolo daquilo que ela prega.
Esse símbolo, nós não podemos esquecer que nós não estamos no Paraíso, estamos numa terra de luta, e nessa terra de luta não basta ser o símbolo do que prega, mas precisa ser o símbolo oposto àquilo que ela ataca. De maneira tal que a ação simbólica se exerça concomitantemente pelo lado positivo, pelo lado negativo. Senão, não vale nada.
* “Eu simbolizo possantemente o contrário do que a Revolução quer”
Eu não discuto o lado positivo, mas o lado negativo eu sei que eu simbolizo possantemente o contrário do que a Revolução quer. Isso eu sei, porque é uma experiência de todos os dias, todos os momentos, de todas as ocasiões, de todas as horas.
Isto é uma ação pessoal em que sentido?
Não é uma ação pessoal no sentido em que se dizia antigamente, por exemplo: “Bismarck exerce sobre as pessoas uma grande influência. Napoleão exerceu sobre as pessoas uma grande influência”. Não é isso, porque não é um predomínio de um talento ou de um predicado humano sobre outro, mas é a capacidade evocativa de um determinado píncaro de verdades, de pensamento.
Nesse sentido eu poderia dizer, por exemplo, que uma pessoa menos inteligente pode muito mais possantemente simbolizar algo do que uma mais inteligente. Então eu poderia dizer por exemplo, que São Francisco de Assis simbolizava mais possantemente a pobreza do que Santo Tomás de Aquino que seria capaz de discorrer muito melhor sobre a pobreza do que São Francisco de Assis. Mas por quê? Porque ele tinha na sua personalidade algo que ele era um símbolo daquilo.
Dizendo que ele evocava mais a pobreza eu nem sequer estou dizendo que São Francisco de Assis era mais insigne do que Santo Tomás na virtude; eu quero dizer que aquela virtude se exprimia na pessoa dele como um símbolo para os mais altos aspectos da pobreza. Isso que é. Ele era um símbolo. São Tomás não simbolizava outra coisa? Simbolizava. Ele simbolizava o que nós sabemos, ele simbolizava o tomismo, propriamente dito.
Assim, para nós, é preciso simbolizar a Contra‑Revolução. Ou seja, a verdade da ordem católica em ordem de batalha contra o erro que está aqui. Isso é o que nos compete simbolizar em graus diferentes, mas todos participando da mesma missão simbólica.
Isto eu sei que em alto grau eu tenho. Esse lado negativo. Se eu tenho o lado positivo eu não investigo muito, é uma outra coisa.
* O ódio do ploc‑ploc ao Sr. Dr. Plinio por ver a Deus num homem
Sei também de uma coisa que é certa, é que esta ação que a minha presença pode exercer é uma ação que se apaga quando a pessoa começa a amarfanhar, a decair. E que ela se reacende quando a pessoa começa de novo a subir. Que há, portanto, de fato uma ação simbólica exercida por mim.
Agora, essa ação seria grande indistintamente em qualquer parte da Terra? Eu ponho minhas dúvidas. Por exemplo: eu tenho impressão que se eu for numa universidade “ploc‑ploc” eu exerço uma ação simbólica muito pequena, e que um outro poderia numa universidade “ploc‑ploc” impressionar muito mais do que eu.
O “ploc‑ploc” começaria por considerar o seguinte: ele veria que eu exponho com relativa facilidade, que eu tenho uma certa noção de vários assuntos, ele veria várias coisas. Mas ele não veria em mim o especialista.
(Sr. Carlos Antúnez: Eles não veriam Deus num homem.)
Não. Eles teriam ódio se Deus se mostrasse a eles num homem, porque toda estrutura mental deles é o contrário e eles não têm amor, de maneira que eles detestam aquilo.
* Mostrar o Sr. Dr. Plinio ao mundo como Deus num homem representando o aspecto da ordem do Universo
(Sr. Carlos Antúnez: O que se trata é mostrar ao mundo Deus num homem.)
É, mostrar a Deus, mas mais especificamente mostrá‑Lo sob o aspecto da ordem na Igreja e no Estado, ou seja, da ordem no Universo. É isso que se trata.
(Sr. Paulo Henrique: O amor leva ao conhecimento ou o conhecimento é prévio ao amor?)
A palavra “leva” aí é traiçoeira. Quer dizer, em princípio, em princípio, em princípio a pessoa não pode amar aquilo que não conhece. Mas esse princípio visto na prática não é falso, não tem desmentido na prática, mas mostra o fraco do “ploc‑ploc”, porque o que [é] que é aquilo que o indivíduo conhece? Muitas vezes o amor é mais intenso por aquilo que nós conhecemos [diminute rationis?] e, cuja falta nós notamos, do que por aquilo que nós conhecemos inteiramente. O que [é] que é “conhece”, no caso?
O “ploc‑ploc” é apressado e não procura tirar os matizes da palavra que ele mesmo emprega. Por exemplo: um cego pode ter mais apego à vista do que um homem, um cego que nunca viu, pode ser mais apegado à vista do que um homem que nasceu vendo. A tal ponto que se a gente chegar para um cego e disser: “você faça o sacrifício de oferecer a Deus de nunca ver, por tal ponto da Causa Católica para vencer”, ele é capaz de não fazer. E um homem que nasceu vendo é capaz de fazer.
Ora, como é que o cego ama mais aquilo que ele não viu? Ele não viu, pois ele é cego! Como é que ele pode amar mais aquilo que não viu? É que há um certo como que ver, no sentir a falta que faz a ele.
Portanto esse pessoal “ploc‑ploc”, de livraria de cordel, de livro de cordel, eles vão tirando “blá, blá, blá, blá”… Eu tenho vontade de dizer:
— Mas você, um tagarela, não querer parar um pouco e pesar numa balança de joalheiro cada palavra que você diz, antes de soltar o seu esguicho, essa sua [loquela??]!?
— Nihil voletum nisi praecognitum…
Sei, isso qualquer “estudantesco” de latim entende e qualquer homem que tenha vivido um pouco entende também, mas o que é aqui o voletum, o que [é] que é o conhecer? Por exemplo: pode ser que um pagão, fritando‑se nas carências do paganismo, de fato potencialmente ame mais a Fé Católica do que um católico.
(Dr. Edwaldo Marques: O índio que esperava Anchieta.)
O índio que esperava Anchieta, compare aí com essa gente batizada que anda por aí.
* “O desejo de conhecer faz acabar conhecendo”; o ex. dos enjolras que não conheceram a Sra. Dra. Lucilia
(Sr. Carlos Antúnez: O mesmo acontece com os “enjolras” que não conheceram à Sra. Da. Lucilia e amam muito mais que…)
Do que gente que conheceu e que não ama nenhum pouco. Conhecer conheciam, mas onde é que está o amor?
Então, respondendo à sua pergunta, o que [é] que é o conhecer no caso? Às vezes a gente conhece de um conhecimento de lacuna, que põe a inteligência a caminho na procura. E então quase que se poderia dizer que o desejo de conhecer faz acabar conhecendo. Mas é racional, é lógico. Quer dizer, depende do modo de tomar as palavras conhecer e querer no sentido filosófico ou no sentido corrente da palavra. Esses tomistas de meia tigela não fazem distinção nenhuma entre as duas coisas, vão soltando e deitando o latim em cima da gente, o fiapinho de latim, assim: “você entenderá isto? [Nihiiil??] [volitum?] nisi praecognitum! Você, miserável, vê escrito “n‑i‑h‑i‑l” e me vê pronunciar com muita segurança “níquil”, você está achando que eu errei? Veja que eu estou afrontando a sua ignorância com uma insegurança que você tem medo de me retificar…”.
(Sr. Carlos Antúnez: O que significa mesmo “nihil” e “volitum”
Nihil, nada; volitum é querido, nisi, a não ser; praecognitum, conhecido antes, antes do ato de querer.
O caso do cego, acho que frita o caso.
* As modalidades do “amar”
(Major Poli: …nunca entendi direito os desdobramentos da palavra “amar”. Não sei se é sair muito da pista tratar isso.)
Como queiram, eu aqui me deixo dirigir.
(Major Poli: Mas eu queria que fosse uma coisa bem aplicada.)
Dou o Primeiro Mandamento, como está na versão da Bíblia e não do Catecismo: “amarás a Deus com todo entendimento, com todo teu coração,…” e tem o resto, não sei se algum de vocês se lembra da formulação.
(Dr. Edwaldo Marques: Parece que é “com toda tua alma, toda tua força…”.)
O que indica graus de conhecer como graus de amar. E a gente entende também que não só graus, mas modalidades. Há modalidades de conhecer e modalidades de amar. E nós temos que empenhar todas as modalidades e graus — que não são evidentemente a mesma coisa — nós temos que empenhar todas as modalidades no amor de Deus.
O que [é] que é o amar tão cheio de modalidades?
É que nós somos, a bem dizer, uma máquina de amar e de odiar, nós homens. O amor é um ato conjunto de várias potências da alma. Se eu raciocino sobre algo e chego à conclusão que aquilo convém, aquilo desperta em mim um desejo daquilo que convém, eu ponho um ato de amor para aquilo, porque isso é amar.
Então por exemplo, eu ouço falar que em tal lugar se vê um panorama muito bonito, há uma companhia muito agradável e — tentação à qual eu sou muito sensível — uma mesa muito atraente. Agora, de outro lado eu ouço dizer que ali existe um contágio muito forte de uma doença muito desagradável.
Eu fico entre dois bens que eu conheço: a doença e a saúde e, depois, as incertezas dos riscos que matizam isso tudo. Eu faço um ato de amor no momento em que eu resolvo uma das duas coisas, se eu resolvi não ir lá, não gozar tudo aquilo, fiz um ato de amor à minha saúde que está acima daquilo. Se eu pelo contrário resolvi ir lá correndo risco, eu fiz um ato de desamor à minha saúde.
Agora, para você ver como é complexo isso, às vezes um grande gáudio físico para um risquinho para a saúde vale a pena correr. Então o indivíduo não faz um ato de desamor à sua saúde, mas faz um ato de desamor a uma certa plenitude provavelmente efêmera de sua saúde. Não, eu digo mal: ele faz um ato de amor a uma certa plenitude que ele perderá de modo provavelmente efêmero. Isso que eu queria dizer.
Então, vamos dizer, o sujeito está muito resfriado e está na Itália, e vê um gelato daqueles que na Itália, — ao menos quando eu estive lá, tinha o segredo, era o país dos sorvetes monumentais, monumentais! — ele está resfriado e diz o seguinte: “eu sou forte, sou moço, sei que se eu vou tomar esse sorvete agora o Dr. Edwaldo vai proibir, mas eu sei também que eu posso passar uns dias com dor de garganta que é desagradável, mas é um prejuízo para minha saúde muito efêmero, e eu tenho aqui um gáudio que me vale muito.
Eu mando vir o sorvete! Eu sei até que há gente [que] tendo gripe apanhou pneumonia, a pneumonia se transforma em galopante e morre. Eu sei que aquele sorvete que vou tomar, portanto, coloca num remoto risco a minha saúde…”.
Por que está rindo?
(Sr. Carlos Antúnez: Eu nunca teria titubeado, teria tomado o sorvete…)
“Hahahaha!”. Mas é porque você tem a causa pré‑julgada, “hahaha!”.
Bem, eu faço um ato de amor maior ou menor à saúde, amor, tomando ou não tomando sorvete. Meu Carlos que se sente forte e que sente muito capaz de se deleitar com o sorvete, acha que a priori tem a causa pré‑julgada, é só trazer o sorvete que você enfrenta a pneumonia, não tem problema.
(Sr. Carlos Antúnez: Sei que pode me dar um pouco de asma.)
Asma, ainda mais essa. Olha, está aí, asma eu não enfrentaria, porque você sabe que eu tenho tal horror à falta de respiração, que você falou em asma eu “ahh!”, fiz isso, já. Isso eu não enfrentaria.
Outro dia fui a um médico de nariz e garganta, umas porcarias assim, ele me pôs uma chapa aqui… [inaudível] …eu pensei: “que coisa ele quer com essa manigance aí?”. Pôs aqui e me disse: “respire”. Eu respirei. Ele disse: “o senhor tem a respiração além do normal”.
E só de ele pôr o problema se eu tinha respiração boa ou não, eu quase senti… de repente eu dava um tal bafo em cima da chapa dele que ia na mão dele. Eu me contive e está acabado. Sentir falta de ar eu tenho horror. Asma sente falta de ar, não é?
(Sr. –: Sim.)
Você não fica?
(Sr. Carlos Antúnez: Não posso ficar, tenho que suportar.)
A Providência é muito sábia, como ela dá a lã conforme a neve.
Por exemplo, morrer afogado, a idéia de entrar água nos meus pulmões me deixa louco. Mas louco, louco!
Bom. É um parênteses. Isso é amar.
* “E são todos esses amores somados que constituem o nosso amor único à Igreja”
Agora, é uma das modalidades de amar. O indivíduo que resolve dar a vida pela causa católica é uma modalidade de amar. Todos os bens que ele tem estão contidos na vida, se ele dá toda a vida ele dá tudo que ele tem. Se ele dá para a causa católica isso, ele ama mais a Deus do que todas as coisas. É uma modalidade de amar, mas é um “amar” com a razão, em que já não entram os vis raciocínios do sorvete, mas entra muito mais, entra todo efeito que a Igreja… A gente adere à Igreja por muitos lados da alma, todas essas aderências são amor. E são todos esses amores somados que constituem o nosso amor único à Igreja.
* “As recordações que eu tenho de minha infância no Coração de Jesus compõem o meu amor à Igreja”
Por exemplo, vamos dizer, as recordações que eu tenho de minha infância no Coração de Jesus, compõem o meu amor à Igreja. Todas recordações que nós temos de nossa Primeira Comunhão, de tais e tais momentos de graça, de tais e tais impressões que a História Sagrada nos causou, a História da Igreja nos causou, etc., tudo isso é uma miríade de formas de amor das quais algumas, — deviam ficar todas — mas algumas ficam em nossas almas particularmente acesas. Amor sensível, amor intelectivo, amor da mera vontade, amor de afinidade, de mil coisas. Os flashes da vida, tudo vai compondo esse amor. Há portanto, mil formas de amor.
* As duas formas de amor que o brasileiro reconhece
Uma dessas formas de amor é aquela na qual o brasileiro reconhece, na linguagem corrente, único amor. Ele aplica a palavra amor hoje em dia só para duas coisas, literariamente o amor à Pátria…
(…)
São os sacerdotes do ideal da Pátria, os militares. E, depois uma outra forma de amor — eu não vou aludir ao amor sensual não, é uma outra forma de amor — é o amor pelo qual uma pessoa considera a outra e sente uma grande atração acompanhada de ternura. Não tendo ternura, para o brasileiro não é amor.
A sala está quase cheia de brasileiros, acho que todos reconhecem que é isso. Que a ternura é amor, é. Não é o amor, mas é um elemento que integra o amor. Mas que para nós o romantismo levou a um auge incalculável de maneira a absorver todas as outras formas de amor.
* Na infância do Sr. Dr. Plinio o que mais o levou a amar a Deus
Das minhas reflexões de menino e que conservo vivo até hoje, vivo como se fossem ontem, o que mais me levou a amar a Deus foi eu considerando os meus defeitos e o horror de Deus aos meus defeitos. E a admiração pelo repúdio que Ele faz dos meus defeitos. E o castigo que Ele prepara para os meus defeitos. Como dos outros. Isso me leva a amar a Deus, porque eu digo: como Ele é admirável e como Ele tem inteiramente aquilo que eu queria ter e não tenho, eu O amo!”.
Para o brasileiro, não. Deus é só amável na sua misericórdia e se se fala na justiça de Deus cessa o amor, porque nossa ternura é uma ternura oportunista, quando ela não tem vantagem ela se extingue. Não tem aqui um brasileiro nessa sala que conteste o que estou dizendo.
(Sr. Carlos Antúnez: …a ternura oportunista…)
“Hahaha!”. Eu compreendo a pergunta. Eu conheci pessoas de uma capacidade de ternura praticamente ilimitada, e de uma dedicação sem limites a aqueles a quem tinha ternura.
Agora, eu acho que enquanto o brasileiro exagera isso os povos não‑brasileiros são um tanto falhos disso, são mais duros do que nós. Não é porque o Merizalde está aqui, mas eu acho que Colombia e Bolívia, talvez estejam um pouco mais próximas do Brasil nesse ponto. Mas os outros, é bem diferentes, subestimam a ternura e isso também faz muito mal.
* O modo todo especial que nossa vocação pede que amemos a Deus
(Sr. Poli: Qual o amor que se deve ter ao Fundador de uma ordem religiosa?)
Não se arrepiem, mas representando nós a Contra‑Revolução, nós somos chamados a amar a Deus, eu não vou dizer assim: “mais por sua intransigência que por sua misericórdia”; eu não chego a afirmar isso, eu não estou fazendo comparação, mas nós somos chamados a amar a Deus enquanto intransigente muito mais do que os outros homens amam, notavelmente mais do que outros homens amam.
E, em conseqüência, o amor de Deus em nós é marcado por um traço que nosso modo errado de entender a ternura não permite que tenhamos. Porque para nós brasileiros e em alguma medida, mas menor, os bolivianos e colombianos, quem censura, não tem ternura e não é amigo, quem castiga é inimigo. E isto é o contrário de nossa vocação.
A nossa vocação pede que nós amemos mais do que os outros homens amam e que talvez mais do que jamais ninguém amou, a sublime e divina intransigência de Deus. De tal maneira que mesmo quando nós pedimos para não sermos punidos — porque isso pode ser — nós devemos pedir adorando aquEle cuja cólera, aquela cólera que nós temos que pedir que não aplique a nós.
Agora, quer ver o jogo das coisas? Você imagine que você exerce a autoridade — você exerce — sobre por exemplo a sua “enjolrada”, e você tivesse um movimento de indignação categórico com alguma coisa de mal que um deles fez, e você percebesse que nesse momento a retidão dele se encantou com sua indignação. Ele te deixou a um milímetro do perdão. O que esses trovadores da misericórdia que temos aqui não compreendem, ficam… Eles não compreendem isso.
Aquela frase: “o coração contrito e humilhado Vós não desprezareis, ó Deus”, quer dizer o seguinte: o coração que reconhece que merece a Vossa cólera e que se desola com isso, a esse “Vós não desprezareis”, quer dizer, “tratareis com misericórdia”. E portanto, há nisso uma via para nós atrairmos a misericórdia de Deus para nós. Isso esse pessoal não quer entender, é inútil.
Tanto é que vocês, meus patrícios aqui presentes, sabem que eu podia fazer sobre isso uma conferência inteira num auditório brasileiro, o pessoal saia com “nó” comigo. Não saia?
(Sr. –: Sim.)
Em qualquer ponto do Brasil, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso ou Rio, Ribeirão Preto, São Paulo.
(Sr. Nelson Fragelli: …esse exemplo que o senhor deu eu creio que moveria mesmo os brasileiros a amar a justiça de Deus.)
Eu temo que não, que deixasse o auditório muito chocado. Você me dirá que você é brasileiro e você amaria. Mas, você tem uma origem européia mais próxima e você fez curso de engenharia… São duas circunstâncias que lhe abrem os olhos para isso, preparam para compreender isso. Enquanto que os nossos literatos… — aqui é uma nação de literatos, mesmo quem não sabe literatura faz literatura — os nossos literatos não são assim, ficariam muito sentidos.
(Sr. Nelson Fragelli: …o exemplo foi de extrema beleza.)
Eu não sei porque um padre não diz isso de púlpito.
Mas, faz compreender a justiça e a misericórdia muito bem. E depois não vem nem sequer em questão a ortodoxia disso, porque é de uma ortodoxia óbvia.
O espírito adere a isso estavelmente, tranqüilamente, é assim. E dá ao espírito humano uma certa solidez isso. A humildade é isso! A humildade é eu chegar e mandar um outro passar na minha frente, na porta, é humildade? Segundo uma quidae é, pode ser, se o outro tem direito de passar na minha frente é humildade, mas… eu sendo muito mais velho do que vocês não é uma humildade eu fazer um de vocês passar na minha frente numa porta, com as relações que eu tenho nem sequer eu estando em minha casa, — as relações que tenho com vocês — nem sequer estando em minha casa é humildade eu fazer passarem na minha frente.
(Sr. Carlos Antúnez: Seria atroz.)
Eu não faria e vocês teriam dificuldade em passar. Dom Bertrand eu mando passar na frente, é diferente, é uma outra ordem de valores. Pe. Olavo por exemplo, Dom Mayer nem se fala, bispo da Igreja.
Não sei meus caros se ocorre mais perguntas, meu Guerreiro, você que é pergunteiro está tão quieto?
(Sr. Guerreiro Dantas: …mas chegaram de longe…)
Meu Paulo Henrique, passou…
* Receptividade à censura: uma das principais graças do capítulo; as pessoas saem exorcizadas
(Sr. Paulo Henrique: …a graça do capítulo… Um apelo penitencial às nações, prepará‑las para a “Bagarre”…)
O Nelson Fragelli assistiu um capítulo, eu não assisti, não sei o que que você diz disso?!
(Sr. Nelson Fragelli: Impressionante. Aliança belíssima da justiça com misericórdia…)
Onde é que entra a misericórdia?
(Sr. Nelson Fragelli: …a ajuda imensa ao penitenciado, alertado nos seus defeitos que o impedem de ver a Causa, etc… …)
Eu concordo inteiramente, mas eu quero ver seu depoimento.
(Sr. Nelson Fragelli: …é feito numa graça própria que Nossa Senhora dá para aquele ambiente, aquela hora, começa com uma oração belíssima que o senhor compôs, …é de uma grandeza imensa.)
Não conheço essa oração, não me lembro mais dela, reza‑se no capítulo é?
(Sr. Nelson Fragelli: Sim, com a pessoa prostrada, então a pessoa pergunta: tendes bem claro que cada pecado tem uma repercussão nos acontecimentos humanos e que justamente por isso que existe o Juízo Final? A pessoa responde: “sim”… E misericórdia porque não há clima para ressentimento, é belíssimo; uma seriedade, é tocante, inimaginável, me põe fora deste século…)
Exatamente, dos vários elementos os que você realça e que corresponde ao que eu imagino de um capítulo, — nunca estive num capítulo — eu acho que o mais importante é isso: é uma receptividade — que o Nelson falava — para a censura, porque é feita a partir de um nível tão alto, que a pessoa fica com uma espécie de insensibilidade pelos lados pessoais por onde poderia ficar muito sentida com aquilo que lhe dizem e, poderia dar até acessos de revolta.
Eu tenho visto as pessoas que passam pelo capítulo, não são muitas, até aqui umas quatro ou cinco, mas eu as tenho visto e a impressão que eu tenho é de pessoas exorcizadas. Mas não é mesmo Nelson?
(Sr. Nelson Fragelli: Sim, inteiramente!)
Aquilo equivale a um exorcismo, mil movimentinhos e crispações e coisinhas assim mesquinhas da alma, Nossa Senhora intervém para criar um estado onde a alma está disposta a renunciar a isso e ouvir todas as verdades. Normalmente, sem essa graça especial o capítulo era inimaginável dentro do Grupo. Mas inimaginável! E essa graça especial criou a possibilidade do capítulo. E realmente, pelos efeitos que eu tenho notado, é uma coisa estupendíssima. Não é boa, mas estupendíssima. Como prêmio do apostolado de estaqueamento.
* Diante dos sucessivos fracassos de Jasna Gora a graça do capítulo trazida pelo Sr. João
Longa e longa e longamente Jasna Gora foi uma instituição estaqueadora, é uma coisa evidente. Na aparência sem nenhuma possibilidade de êxito, porque… — você foi eremita em Jasna Gora, só saiu porque lhe pedi para sair, mas o fato é que você viu os sucessivos desmoronamentos de Jasna Gora, com os quais nem eu conversei com ninguém porque eu não tinha meio de conversar, era só constatar, mas eu não tinha meio de comunicar a minha esperança à pessoa com que eu conversasse.
E eu mantendo uma atitude enigmática de silêncio, ao menos por aí fazia aquele pensar: “quem sabe se o Dr. Plinio tem em vista uma solução”. Eu não tinha em vista solução nenhuma, eu dizia: “ou vem um milagre ou não tem solução”. Por quê? Porque Jasna Gora continha no seu bojo tudo aquilo que fez com que São Bento I cessasse.
Se a gente compara São Bento I com São Bento II… há uma diferença… mas uma diferença não sei de que tamanho! Aqui tem dois antigos eremitas de São Bento I, podem atestar, é uma diferença solar!
E um eremita de Jasna Gora que saiu do êremo me fez uma longo relato, — ele continua membro do Grupo e bom membro do Grupo — mas ele me fez um longo relato das coisas de Jasna Gora, e ele me disse: “no total, se o senhor estivesse no lugar de Dr. Luiz Nazareno o senhor poderia dar um remédio a isso, mas estando lá Dr. Luiz Nazareno a coisa não tem remédio!”. Eu disse: “meu caro, então não tem remédio nenhum, porque tirando o Dr. Luiz Nazareno é muito pior.
Eu duvido de que eu dê remédio a aquilo, não posso estar lá em todo caso, e quem eu tenho para por lá é Dr. Luiz Nazareno. Eu acho o Dr. Luiz Nazareno admirável por alguns lados, mas acho que de outro lado de fato ele tem lacunas que conversando comigo ele reconhece. Essas lacunas prejudicam Jasna Gora, prejudicam! Não tem solução!”.
Aí vem a graça da camáldula, inesperada! Extraordinária! Aqueles rapazes entram para a camáldula.
Nova deterioração das camáldulas, pela mesma razão. Nova ruína. Quando irrompeu com o nobre gesto que o Luizinho teve de pedir ao João para começar a intervir lá, — foi um gesto nobre — com esse nobre gesto do Luizinho interrompeu o curso das coisas e o João pulou ali, começou a fazer uma porção de coisas que não deram resultado: exercícios, aquilo, aquilo outro. Outras recusas, outros “firinfinfins”, não deu resultado.
Ele foi para os Estados Unidos, foi tratar da questão da “Mensagem” e ficou Jasna Gora assim boquiaberta, a espera não sei do que, com aquelas camáldulas que não iam para frente também.
O João voltou, lançou a idéia de capítulo. A idéia do capítulo “pshiu!”, uma beleza! Aí está, é uma maravilha. É uma maravilha! Essa seria uma das graças do momento.
* As graças do momento: a camáldula de Jasna Gora, a enjolrada e a “Mensagem”
As duas grandes graças do momento são: a graça da camáldula, em Jasna Gora e a graça toda da “enjolrada”, que nós já conhecemos, não é tão nova, tão recentíssima quanto a das camáldulas. E uma terceira graça de um outro gênero é a graça da “Mensagem”. É de um outro gênero, mas é uma graça fabulosa! Simplesmente fabulosa! É fabulosa, não tem dúvida!
(Sr. Nelson Fragelli: Da qual tratamos pouco.)
Estou aqui, qualquer um de vocês me leva pela mão aonde quiser, eu trato do assunto que entendam.
(Sr. Nelson Fragelli: …o golpe da “Mensagem” é o maior de nossa história.)
Ah!, de longe maior que todos os outros.
* A situação do Grupo depois da Mensagem: o pêndulo oscila entre o extremo do apuro e da difamação e o extremo do prestígio da influência
(Sr. Guerreiro Dantas: …quais os pontos imponderáveis que o senhor vê dessa graça da “Mensagem”…)
A questão é a seguinte: a “Mensagem” é um golpe realmente colossal que se desfere numa situação muito confusa da História, em que tudo de ponta a ponta é confusa. Não é por exemplo como um lance de duelo em que as duas espadas têm contornos muito definidos e uma batendo na outra em certa situação sabe o que [é] que acontece. Não é uma esgrima, mas é uma espécie de… Imagine dois indivíduos esgrimindo no escuro e um de repente encontra uma espada muito mais comprida e começa a utilizar a espada mais comprida. Alguém lhe pergunta:
— O que vai acontecer?
Ele diz:
— Como eu estou no escuro, eu sei que eu estou munido de um meio de luta muito melhor, mas daí a prever o que vai acontecer eu não sei, porque pode ser que daqui há um minuto o meu adversário fure o meu coração com a espadinha dele.
O exemplo é assim um pouco corriqueiro, mas acho que é muito apropriado, exprime muito o que eu quero dizer, se a gente for tomar a coisa inteiramente ao pé‑da‑letra.
A “Mensagem” de si, numa época sem essa fuligem, essa poluição, essa confusão toda; a “Mensagem” é um golpe tão grande que poderia abrir caminho para coisas desse gênero…
(…) [Corte número 2]
…porque é tão cheio de aspectos e contra‑aspectos isso. O Bureau lá em Washington tem continuamente a uma distância média — senão imediata — possibilidades coruscantes dessas. Continuamente. Bom, a qualquer momento uma coisa dessas engata e da “Mensagem” pode sair a Bagarre.
(Sr. Nelson Fragelli: Esse já foi um sinal notável.)
Nem me fale!
(Sr. Nelson Fragelli: Ainda que não dê certo.)
Ainda que. É uma respiração.
* A notícia de que o governo prepara uma perseguição ao Grupo com base de seitas
Isto é uma linha, mas a outra linha pode bem ser que seja um conjunto de perseguições, etc., etc… E eu tenho sinais de que o governo francês está preparando uma perseguição contra nós na base de seitas. E perseguição debandada, na qual nós teremos que nos defender nem sei como.
Vocês percebem que o pêndulo oscila entre o extremo do apuro e da difamação e o extremo do prestígio da influência. Ora, como Nossa Senhora nos tem feito passar por ambos os extremos, como é que eu posso saber que extremo dentro dessa confusão Ela destina para nós?
(Sr. Carlos Antúnez: …mas antes da “Bagarre” a Causa de Nossa Senhora deve ser conhecida por todas as nações.)
É verdade, a Bagarre deve trazer isso. Nós estávamos falando hoje… aliás aquelas repercussões lidas no Auditório São Miguel, você pegou só de sexta, quarta não pegou, Paulo Henrique também não pegou de quarta, M. pegou certamente, Pedro Paulo não pegou nenhuma nem outra. Vale a pena Pedro Paulo você pedir para ler as repercussões dessa campanha.
(Sr. Pedro Paulo: A de ontem peguei.)
Mas a que foi lida na quarta é mais significativa que as lidas na sexta, vale a pena você ler.
* Depois do “Em Defesa” “nos transformamos de generais prestigiosos do exército em líderes guerrilheiros de uma guerrilha sem prestígio humano”
Mas afinal apresentam o seguinte, — para ver essas alternativas como são — apresenta o seguinte: nós fomos pela Estrutura, a partir do momento do “Em Defesa”, começou uma espécie de repulsa e de expulsão nossa de dentro do meio católico.
Nós nos transformamos de generais prestigiosos do exército em líderes guerrilheiros de uma guerrilha sem prestígio humano, uma espécie de guerra de Canudos, emboabas e mascates, essas coisas como há na História do Brasil, sem prestígio humano. Isso foi a nossa posição. E nos arrastamos até aqui.
Mas o que foi que aconteceu? Aconteceu que tudo quanto é establishment: establishment eclesiástico, establishment civil, tudo isso se afastou de nós, nós ficamos inteiramente isolados e esses establishments continuaram o caminho que agora vai dando na ruína. E as repercussões muitas vezes são nesse sentido: a TFP foi a única que continuou a dizer a verdade, a continuar num caminho coerente, a ficar de pé e a lutar em todas as circunstâncias…
[Termina a fita]
* “Sem nós nos darmos conta, esse caminho de vilipêndio e de difamação conduzia a um nicho”
De maneira que, sem nós nos darmos conta, esse caminho de vilipêndio e de difamação conduzia a um nicho. E, na hora, eles nos expulsando, nos passaram para a hora “H” o atestado indispensável.
(Sr. C. P.: Ainda está um pouco coberto, mas o atestado do nome.)
É real. É inegável, é real!
Bom, nessas condições, nós vemos que foi pelos vales profundos do mais completo destroçamento e do desconserto diante de um caminho que parecia levar ao zero, que fiéis a isso nós encontramos no fim um pedestal de glória.
Bem, não será que vamos percorrer o mesmo caminho em conseqüência da “Mensagem”? Como é que eu posso saber? Não posso saber. Donde a minha dificuldade para fazer os prognósticos que a justo título vocês pedem. Eu acho justo, um pedido muito bom, mas o que eu tenho a dar em resposta a esse pedido é isso.
Eu talvez os entusiasmasse muito mais se eu falasse apenas de hipóteses como as primeiras que eu mencionei aqui, mas seria um entusiasmo mais de epiderme. O que eu acabo de dizer fala muito mais ao espírito sensato, comedido e, que procura as coisas sólidas, o que não é o “ploc‑ploc”.
Bom, meus caros, essas conversas são exatamente para a gente, en petit comité, num ambiente que numa sede a gente não pode ter, a gente trocar vista sobre tudo isso. E eu tenho muito gosto em ter aqui presentes os membros de bureaux, Apóstolos Itinerantes no exterior, etc., etc., para falar. Lamento que não esteja aqui o Caio para conversarmos também sobre isso.
Mas, eu espero, com isso, ter feito adiantar muitas coisa. Agora chegou a hora de, licitamente, todos irem dormir. De maneira que proponho que vamos.
(…) [Corte número 3]
*_*_*_*_*
1 fez : barrete em forma de cone truncado usado em países muçulmanos