Conversa
de Sábado à Noite (São Bento ) –
31/7/1982 – Sábado [RSN 033 e AC V 82/07.37-38] –
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Conversa de Sábado à Noite (São Bento ) — 31/7/1982 — Sábado [RSN 033 e AC V 82/07.37-38]
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Como será o Grupo quando houver gente de todas as
nacionalidades, com diferenças fenomenais de mentalidade? * O modo como o Sr. Dr. Plinio resolve os problemas: pensar um pouco numa coisa, ajeitar um pouco cada insolúvel e discernir depois o que a Providência quer * A sabedoria do Sr. Dr. Plinio no trato com as diversas gerações * “Os senhores não fazem idéia, mas os senhores caminham sobre uma pavimentação de problemas resolvidos, que não chegam a perceber” * O horizonte histórico-teológico do Sr. Dr. Plinio aplicado a um problema da época de Carlos Magno * As famílias diferentes de cogitações que o Sr. Dr. Plinio tem na cabeça * “Cuidar dos problemas internos da Igreja é fazer Contra-Revolução com C e R maiúsculos” * O Sr. Dr. Plinio vê mais a ajuda de Nossa Senhora quanto toma um grupo grande de fatos do que quando toma este ou aquele fato concreto * “Com Deus eu sou muitíssimo cerimonioso também”
* Como será o Grupo quando houver gente de todas as nacionalidades, com diferenças fenomenais de mentalidade?
Então, meus pergunteiros veteranos, vamos lá nos nossos temas diretamente.
Meu Nelson, Guerreiro, João, Fernando, Edwaldo, coronel, Fiúza…
(Sr. Guerreiro: O senhor não poderia fazer a pergunta da noite?)
Ahahah!
(Sr. Guerreiro: Postas as graças que celebramos ontem, hoje…)
Eu não sou muito bom para perguntar. Eu vou responder uma coisa que pode ter o som da coisa desagradável da pretensão, mas eu sou melhor para responder do que para perguntar. As perguntas que eu me ponho são para mim, são ruminações, não creio que interessa um pouco. Em geral são perguntas ou doutrinárias, de coisas que estão em elucubração, ou são perguntas táticas de panoramas que estão na alça de mira. É natural.
Mas aí, para perguntar, para pôr a pergunta em concreto… Por exemplo, uma pergunta entre outras:
Nós lançamos essa Mensagem e ela acaba indo parar nos países árabes, Vietnã e quanta coisa há. Agora, é mais ou menos de prever-se — quer dizer, vamos esbarrar numa impossibilidade, porque em geral essas perguntas táticas esbarram numa impossibilidade — que em bom número desses países, e a gente pode inclusive esperar que em todos, se formem grupos.
(Todos: Fenomenal!)
Não estou dizendo de propósito grupos numerosos. Grupos.
Aqui, por exemplo, tem pessoas que pertencem a nacionalidades muito variadas, graças a Nossa Senhora, dentro de uma harmonia tal, que se eu não dissesse isso, nem daria para se lembrar disso. Aqui mistura de tal maneira que nem dá para lembrar, está tudo misturado completamente. Eu estou olhando aqui, está tudo misturado completamente, com a maior naturalidade e está acabado.
Mas isto que é tão agradável assim, tão útil, tão eficiente para a causa assim, será possível manter assim no dia em que houver todas as nacionalidades aqui dentro?
Problema mais delicado.
Este barco, grande como está, dá um trabalho para dirigir que é uma coisa do outro mundo! Quanto estiver tudo assim, que trabalho dará para dirigir? E se nós temos um corpo de dirigentes para toda espécie de tarefas, um corpo exíguo para o número enorme de tarefas que temos diante de nós, como será quando tivermos um barco desse tamanho? Quer dizer, quem é que vai fazer todo esse serviço?
São perguntas que a gente pode se fazer.
Não sei se os senhores já se fizeram, mas não sei se os senhores percebem que a gente pode esbarrar com diferenças de mentalidade fenomenais, diferenças de compreensão formidáveis. Nossa Senhora pode suavizar isso.
Eu quando vejo chegar aqui — e falo diante deles com toda a franqueza — os novatinhos (não da área hispano-americana, na área hispano-americana a gente vê que tem alguns que é duro se adaptarem, olhe que são diferenças mínimas em comparação com outras diferenças que há), eu vejo que eles se adaptam com uma espécie de apetite, adaptam-se bem, a coisa se passa.
Naturalmente tem o seguinte: todo o esforço de adaptação é recíproco. Eu vejo também que meus íncolas aqui têm uma certa dificuldade em se adaptar. Mas acabam se adaptando e a coisa vai.
Mas quando eu vejo de áreas mais distantes descerem alguns, eu tenho a impressão de que eles olham como se tivessem descido da Lua, e que as peculiaridades, as singularidades, aquilo que para nós parece tão natural, eles olham, olham, olham. Tanto quanto eu posso perceber, graças a Nossa Senhora, olham sem nó, e é o que salva.
Depois há um período em que começam a engolir os nós. Acaba indo também. Mas eu percebo bem cada deglutição que é feita, que é coisa fenomenal.
Agora, imaginem que venha, de repente, uma comissão dos Emirados Unidos, aqui. Eu estou vendo a resposta: “O Brasil está cheio de árabes e, portanto, mais alguns ou menos alguns não importa. Olha os árabes como se adaptam maravilhosamente aqui no Brasil”.
Eu digo: “É, mas é bem diferente a gente estar numa terra onde veio morar, e a gente estar numa terra onde veio passar um mês e depois voltar para a terra da gente”. E mil circunstâncias! Como vai ser isso?
E quando houver, por exemplo, para fazer dormir no mesmo prédio aqui ao lado, lotado buliçosamente e agradavelmente agora pelos meus espanhóis, os representantes dos Árabes Unidos e, ao mesmo tempo, os suecos e noruegueses? Como vai ser isso?
O senhor, por exemplo, que está morando na Europa. O senhor vê como as fronteiras lá… eles pensam que não há mais fronteiras… como ainda há fronteira lá! A natureza, tudo, muda.
E não é só questão de Pireneus, não. Pireneus é uma fronteira do outro mundo! Não há rio que separe tanto quanto os Pireneus. Os Pireneus são a separação por excelência. Mas não é. Tomem a Espanha e Portugal: a diferença é marcante, mas é marcante.
Se tivermos, por exemplo, aqui gregos e holandeses, como é que vamos fazer? Eles sabem um do outro mais ou menos o que habitantes de planetas diferentes podem saber.
Nós, brasileiros, não calculamos bem isso por causa da homogeneidade do Brasil. Então, a gente olha no mapa e vê, por exemplo, Belém do Pará e Rio Grande do Sul. Fazer conviver um gaúcho com um paraense é a coisa mais simples do mundo, a gente nem pensa, põe os dois ali e começam a conversar. Nem pensa em diferença.
Está bem, mas na mesma distância, na Europa, da Bélgica, entre flamengos e valões há mais diferença do que, no Brasil, a diferença entre paraenses e rio-grandenses. A perder de vista, não tem nem comparação.
Como vai ser toda essa Babel?
Eu estou vendo a resposta dos senhores…
(Sr. –: Unidos em torno de uma causa.)
Que seja, unidos em torno de uma causa, de nossa causa.
Mas eu vejo que a resposta dos senhores é: “O mais difícil está feito, que é o de chegar até eles e de trazê-los até aqui. Trazê-los até aqui está ainda por fazer. Mas o mais difícil está feito. O mais fácil será acomodá-los”.
Não é verdade. Com a metáfora que eu dei do pintor cujo pincel quebra, cujas tintas etc., sempre acontece que o lance mais difícil é mesmo mais difícil, mas é menos difícil que os lances mais fáceis. Parece um paradoxo, mas é assim.
O mais difícil é a gente chegar até o Bahrain, verdade. Mas depois os mil probleminhas que pode dar na instalação ali são mais amolantes, mais espinhosos, mais aborrecidos, que exigem mais aplicação da vista do que a grande linha geral.
Que formigueiro de coisas isso pode trazer?
A pergunta não é uma pergunta do pusilânime que duvida do que deve fazer. Isso não tem dúvida. A questão não é entrar: é navegar junto depois de ter entrado. E aí tem problemas inegavelmente.
Quantos problemas assim haverá?
Eu dou um exemplo: vai ser possível fazer funcionar bem uma DAFN em cada um desses lugares? Uma pergunta: DAFN e emiratos… como vai ser isso?
(Sr. João Clá: O Sr. Pássero dá um jeito.)
Ahahah! Então, já está nomeado diretor-geral de todas as DAFNs do mundo.
* O modo como o Sr. Dr. Plinio resolve os problemas: pensar um pouco numa coisa, ajeitar um pouco cada insolúvel e discernir depois o que a Providência quer
Os senhores me perguntarão: “Bom, mas de que adianta estar pensando nisso? Começa!”.
Não. Porque a gente vai encontrando toquinhos de solução de daqui, de lá, de acolá, e nesses toquinhos Nossa Senhora insere o socorro d’Ela. De maneira que é preciso já ir pensando.
Agora, quantas coisas assim a gente encontrará? Quantas coisas! É um mundo, um mundo.
Uma outra pergunta. Já que estou falando de árabes, falo de israelitas.
Toda vida recebi de braços abertos e com o maior afeto tudo quanto é judeu que quis entrar dentro do Grupo. Mas isso é diferente de um pelotão de judeus vindo de Israel.
Eu já vi aqui dentro, não aqui nessas quatro paredes, mas já vi dentro do Grupo, gente árabe falando dos judeus de Israel, não dos judeus daqui de dentro, com uma raiva que eu nunca imaginei. A recíproca deve ser verdadeira.
Como é que tudo isso se implantará? É preciso ir pensando.
E as soluções que eu vejo que uma pessoa dirá: “Dr. Plinio, um espírito admirativo, num lance coruscante, resolveu tal coisa assim”.
Os senhores não imaginam quanto a coisa que foi resolvida na hora — e às vezes é resolvida na hora — os marcos para se chegar até lá foram postos, foram postos, aquilo foi meditado, refletido, quanto e quanto.
Se eu fosse fazer um inventário com os senhores das coisas assim que eu tenho na cabeça, não acaba mais. Eu resolvo assim: penso um pouco numa coisa, esbarro no insolúvel, arranjo apenas um pouco a coisa e passo adiante. E assim vou fazendo a visita dos insolúveis, e ajeitando um pouco cada insolúvel, de cá, de lá e de acolá, para ter o suficiente para, por ali, se encaixar uma solução da Providência. Trata-se depois de discernir o que a Providência quer.
Mas isso faz uma vida de reflexão, uma vida de pensamento que, volto a dizer, não tem fim. Se eu fosse mencionar tudo quanto se põe nisso, é uma coisa que não tem fim. Não é feito na angústia, não é feito na aflição, não é feito numa perplexidade cansada, não é feito fazendo força para resolver.
Eu acho que as coisas que a gente faz força para resolver, eu não consigo resolver. Vai passando várias vezes, várias vezes, várias vezes por ali, que a gente encaixa para uma solução.
Aí haveria pilhas de coisas para… Eu vou dar um exemplo: o convívio, dentro do Grupo, de gerações diversas.
* A sabedoria do Sr. Dr. Plinio no trato com as diversas gerações
É uma coisa evidente que os “ohs” causam uma certa surpresa aos mais antigos. É claro, também, que os mais antigos causam uma certa surpresa para os “ohs”.
(Sr. João Clá: Nem todos.)
Nem todos.
Agora, como fazer conviver?
Eu tive que estudar o problema e, no estudo, eu encontrei uma solução que pareceria resolver brilhantemente a questão. Cuidado com as soluções brilhantes! Elas, muitas vezes, são enganosas.
Eu descobri que uma aula no tempo dos antigos — já não é meu tempo — ainda era parecida com uma aula do meu tempo. Silêncio, essa coisa toda. E que a aula com os senhores não, é uma declamada, os senhores falam o tempo inteiro com o professor e quem menos fala na aula é o professor.
É claro que nesse gênero tinha que aparecer a conferência levada do jeito que foi levada a aula. É forçoso. Eu pensei: “Isto aqui está pronto para servir quente ao primeiro inimigo dos ‘ohs’”.
Numa ocasião caí sentado junto a um e os “ohs”… Eu disse: “A solução é essa, explica-se assim”.
Sabem o que aconteceu? Ele não entendeu a solução. E é uma pessoa inteligente, não entendeu a solução.
Eu pensei: “Bem, ou eu me exprimi mal, ou ele está mais inerte de entendimento. Eu vou apresentar isso sob outro aspecto”. Segunda posição. Ele não também e me disse que não estava entendendo. E eu percebi que num terceiro fracasso ele ficaria mais anti “oh” do que antes. Eu resolvi mudar de assunto.
Para os senhores ficarem pasmos com a coisa, eu aqui, por exemplo, estava vendo uma coisa curiosa do “oh”, que os senhores vão achar curiosa também, em sentido oposto.
Eu percebi que quando sai o “oh” assim, muitos dos senhores falam, mas não falam para alguém, falam para o ar. [Risos]
A risada saborosa que se seguiu a isso é a confirmação do que eu estou dizendo.
Ora, um homem a falar para o ar no meu tempo era a mesma coisa do que comer a bengala.
Meus olhos caíram incidentemente sobre o Fernando. Eu vi que ele riu, como quem diz: “Eu compreendo que o senhor ache isso, mas compreendo também que não seja bem isso para outras gerações”.
E acho engraçado esse encontro de coisas, cada uma delas compreensível, que não se compreendem entre si. Foi o riso dele. Achei que está bem, mas não é só no meu tempo. Num tempo tão diverso do meu como dos aqui coleados pergunteiros da noite, nesse tempo eu tenho impressão que os senhores ainda não falavam assim, exclamar por si só.
Falavam, não?
(Sr. João Clá: Não deixavam.)
Ahahaha! Vontade não faltava, hein, meu João?
Um pouco meu Guerreiro já falava, não é, meu Guerreiro?
Meu Nelson, como era isso, hein?
(Sr. N. Fragelli: Já começava um pouco.)
O senhor mesmo de vez em quando era assim, tinha uma tirada sozinho, é?
(Sr. N. Fragelli: Sim.)
Ahahah!
Garanto que Edwaldo não.
(Dr. Edwaldo: No meu tempo, não. Estava chegando.)
Os senhores não imaginam, por exemplo, para os que sentam na primeira fileira do auditório, como isso é uma coisa inconcebível.
Vou mencionar com muito afeto e com muito respeito uma pessoa, os senhores sabem que eu considero essa pessoa uma das pilastras da TFP: o Dr. Castilho. Os senhores já imaginaram o Dr. Castilho imaginar gente que exclama sem?… É uma coisa para ele assim…
Agora, como vou fazer ele compreender que eu vendo os senhores exclamarem assim percebo que a coisa é compreensível? Não estou fazendo uma censura. Percebo que a coisa é compreensível. Percebo que parecia incompreensível na minha geração, mas percebo que é compreensível para os senhores.
Eu tenho impressão que um homem que ache isso incompreensível é, por exemplo, perfeitamente incompreensível para os meus espanhóisinhos que estão aqui. Completamente não entendem: “Como pode pertencer ao gênero humano um homem que pensa assim?”.
Bem, é uma bagatela. Não é tanto uma bagatela, não; é uma coisa que precisa ser tratada com cuidado. Assim, quantas e quantas coisas!
* “Os senhores não fazem idéia, mas os senhores caminham sobre uma pavimentação de problemas resolvidos, que não chegam a perceber”
Por exemplo, eu gosto muito das decorações feitas pelo meu caro Zayas no Auditório São Miguel. Mas meu tempo era habituado — e os senhores pegaram esse tempo ainda — às decorações estáveis e imóveis. Um salão nobre de uma entidade era aquilo mesmo durante cinqüenta anos, enquanto o salão existisse, cem anos.
Não é verdade isso, meu Wellington? Você se contorceu tanto, o que há?
(Sr. Wellington: Não se concebe uma coisa dessas!)
Essa imobilidade? Pois bem, para o meu tempo o bonito era ficar aquilo imóvel durante N gerações. Resultado: se alguém fosse me propor decorações móveis para o Auditório São Miguel antes de aparecer esse gênero de decoração, eu diria: “Mas como pode ser?”. E os mais moços do que eu, mas mais velhos que os senhores, iriam me propor umas decorações móveis as mais gauches possíveis.
Aparece meu Zayas com um jeito especial e faz umas decorações muito vivas, que obtêm todo o meu comprazimento. Está esplêndido! Eu favoreço.
Percebo que alguns gostariam de assistir a conferência assim… olhando para o mero estandarte do leão com a alabarda, numa decoração imóvel, pegando as mãos assim…
(Todos: Nossaaaa!)
O que há? Não? Decoração móvel é muito melhor? A única possível, não pensa em outra coisa, não é?
Tudo isso são os mil problemas do convívio, e muitos desses problemas os senhores não percebem porque foram resolvidos antes do problema arrebentar. Então a gente tem que pensar em coisas dessas o tempo inteiro. Isso são as problemáticas, que os senhores vêem bem pelo resultado que eu acho bem característico, que o problema bem exposto aguça os maus humores.
E quando eu falei do auditório completamente imóvel diante de ouvintes que todas as noites se sentam nos mesmos lugares, cruzam assim a perna, põem as mãos assim — isso os modernos, porque os outros fazem assim —, dá uma falta de ar que não é o mau humor, não é azedume, mas quem está com falta de ar faz qualquer coisa. Ponham dois faltas-de-ar caminhando em sentido oposto, os senhores têm o quê?
Assim, quantas coisas a gente poderia mencionar. Os senhores não fazem idéia, os senhores caminham sobre uma pavimentação de problemas resolvidos que não chegam a perceber. Mas outros problemas aflorem porque não dá tempo de resolver tudo. Então a gente fica pensando, pensando e pensando, é natural, é uma coisa inteiramente explicável.
Agora, quando for de todos os emirados da terra, como é que é o negócio?
Eu estou brincando com o negócio dos emirados. É evidente que não há emirados na terra inteira, mas eu ouvi que há difusão até no Japão, que há difusão na China, Formosa, etc. Quando eu vejo tudo isso, é uma coisa tão, tão, tão diferente, que a gente se pergunta, e isto é uma das mil perguntas. Quantas outras há?
Então as perguntas da noite, poderia ser que até aqui tenha sido um tema.
* O horizonte histórico-teológico do Sr. Dr. Plinio aplicado a um problema da época de Carlos Magno
Não sei se sobre isso querem me perguntar mais algo.
Diga, meu Nelson.
(Sr. N. Fragelli: O senhor acha que Carlos Magno quando juntou aqueles povos, ele se pôs esses problemas?)
Não. Também eles eram muito mais desembaraçados, não é? Ahahah!
Por exemplo, Dr. Nelson me põe esse problema: quando Carlos Magno fundou seu império, se ele se punha estas questões. Evidentemente, não.
Eu acabo de dizer, os senhores acabam de rir, eles eram muito mais desembaraçados. De fato, ele perguntou o que há de diferente. Os senhores vão ver essa questãozinha prática, para que horizonte histórico-teológico escapa, para onde ela vai, porque é um horizonte enorme.
Carlos Magno tomou ali uma Cristandade em ascensão de povos que estavam se convertendo nesse momento, que estavam nas primeiras graças da conversão e, portanto, também nas primeiras graças do Batismo. Eles não tinham a mácula da Revolução. Onde entra a mácula da Revolução, isso tudo azeda em acrimônias, em reivindicações, em rivalidades, em coisas específicas de nossa civilização. Nossa situação não é idêntica à de Carlos Magno.
Carlos Magno pegou uma tempestade que levou muitos frutos para dentro do Império Romano podre e que abateu o Império Romano podre, e misturou cacos de obras-primas com pedaços de frutas enchendo o chão. Com isso ele fez um império.
Nós, não. Nós estamos na posição de Carlos Magno se ele governasse o Império Romano do Ocidente antes da decadência. Nós não estamos nas meras graças primevas. Nós temos as graças primevas, mas sobretudo nós carregamos também o fruto da decadência de católicos, da religião católica de nossos dias.
O senhor percebe bem quanta coisa há aí terrível de acomodar! É um horizonte diferente. Não é verdade?
E o que ele resolvia com uma espadagada — feliz dele! —, nós temos que resolver com mil mofinifados, arranjos e… Que remédio!
(Sr. N. Fragelli: Parece-me, então, Sr. Dr. Plinio, que o panorama que se põe para o senhor não é tão semelhante ao de Carlos Magno, mas é mais semelhante como o que encontrou Nosso Senhor Jesus Cristo na Sua missão.)
Ah é!
Quer dizer, nós temos de tudo junto. Há um pouco de carolíngio dentro de nossos muros. É um mundo que nasce. Agora, há um pouco do Império Romano decadente e há um pouco de nação eleita decadente.
(Sr. N. Fragelli: Nosso Senhor teve problemas com gente decadente, preguiçosa e que em muitos aspectos se assemelha com os problemas que o senhor tem.)
Muito. Parecem-se muito. E é terrível para carregar.
Isto tudo leva o homem a pensar. Mas pensar pensamentos quase incomunicáveis, porque, do que adianta estar tratando o que tratamos? O que é que, quem quer que seja, lucrou?
* As famílias diferentes de cogitações que o Sr. Dr. Plinio tem na cabeça
(Sr. João Clá: O senhor, talvez, não tenha lucrado. Não sei se seria até indiscreto perguntar, mas na linha do que o Sr. Nelson e Guerreiro perguntaram, o senhor abrir um pouco mais o campo dos problemas e não atar-se somente à Mensagem, à união de todas as nações e povos dentro da TFP, etc. Por haver pouca oportunidade, pouca ocasião do senhor expor o que o senhor tem pensado ultimamente a respeito de outras coisas, outros pontos, outros campos, não sei se seria indiscreto ou não o senhor passear um pouco pelo mundo dos pensamentos, elucubrações, cogitações.)
As cogitações têm três famílias diferentes de cogitações na cabeça. Umas a respeito das quais a gente procura solução. Outras são cogitações a respeito das quais já se encontrou solução, mas não se encontrou a explicitação ideal. A segunda é a que já se encontrou explicitação satisfatória, mas como são pontos muito embrulhados para o espírito moderno, convém encontrar a explicitação ideal. Então está-se à procura da explicitação ideal.
E quase todos os problemas psicológicos, sócio-psicológicos, sociais, políticos, psicológicos, religiosos e outros de que tratamos, estão em algum ponto disso. De maneira que, normalmente, ou estou procurando a explicitação ideal ou estou procurando uma explicitação para algo confuso, ou estou procurando uma solução para algo que não consegui ainda formular. Mas numa vastidão de temas que abrange problemas históricos e depois abrange também problemas pessoais e problemas internos da TFP. Sendo que é de notar que grande partes dos problemas que a TFP poderia ter — falo agora de problemas intelectuais — não existem porque andamos sobre um chão cuidadosamente pavimentado com explicações. Se não fossem as explicitações, isso dava em bomba de toda ordem.
Quando a gente ouve a explicitação, parece tudo tão natural, que a gente tem impressão de um probleminha.
* “Cuidar dos problemas internos da Igreja é fazer Contra-Revolução com C e R maiúsculos”
(Sr. João Clá: As explicitações são úteis para o caso de não haver uma consonância inteira com o espírito do senhor. Quando não há consonância, aí há a possibilidade de haver a explosão. Porque se houvesse uma consonância inteira de todos com o senhor não haveria… )
Explosão não haveria, mas bagunça sim, que é diferente de explosão. Porque um indivíduo para ter o seu trabalho mental bem organizado, ele precisa ter vários problemas com uma explicitação perfeitíssima na cabeça. Se não ele não explicita satisfatoriamente outros, e ele fica com um rodopio de convicções inexplicitadas que, no fundo, dão em caos.
Quer dizer, eu não me poderia permitir o luxo de não arranjar umas explicações que eu considero claríssimas para uma série de problemas, porque faltaria à minha alma aquela dose de clareza interior para fazer dilatar o âmbito da clareza dentro do meu espírito.
(Sr. N. Fragelli: O senhor poderia dar um exemplo de uma recente?)
Eu estou procurando enquanto falo, mas não estou me lembrando de nenhuma assim inteiramente clara.
(Sr. Poli: Estaria na linha das coisas que o senhor comentou no almoço, de que a Igreja move os acontecimentos, mexe os acontecimentos gerais?)
Por exemplo, aqui está:
Isto no meu espírito foi sempre uma convicção, mas durante muito tempo no meu espírito uma convicção não bem expressa. Eu sabia bem o que era, mas era uma coisa assim confusa, que eu não sabia explicitar bem para mim mesmo. Depois consegui explicitar para mim, depois consegui explicitar para outros. E hoje aproveito sempre as evidências que aparecem para prover mais uma vez isso. Mas eu não cesso de insistir a esse respeito.
Isto é uma clareza que se explicitou assim: a Igreja está sempre no centro dos acontecimentos, e tocar nos acontecimentos pelo seu centro é tocar nos problemas da Igreja, de onde cuidar dos problemas internos da Igreja é fazer Contra-Revolução, com C e R maiúsculos.
Eu acho que debaixo deste ponto de vista… nós não conversamos até agora, mas sua presença em Roma lhe tem sido muito útil, porque isto, em Roma, entra pela pele, pela respiração cutânea entra isto no espírito.
Mas quem não está em Roma, como é? Ou a gente explicita e prova, ou fica uma idéia vaga, fórmula tonta. “A Igreja é muito poderosa” é uma fórmula tonta. O que quer dizer “muito poderosa”?
Vamos dizer, por exemplo, a Inglaterra é muito poderosa? O que quer dizer isso de definido? As grandes potências, que não são as duas superpotências, são muito poderosas? O que quer dizer “são muito poderosas”? O que quer dizer “poderoso” e o que quer dizer aí “muito”?
A gente podia argumentar a mais não poder. A gente podendo dizer que a Igreja é muito poderosa, não disse nada. A gente só diz a verdade quando diz que ela está no centro de todos os acontecimentos.
Conseqüência fácil que se tira daí, fácil, direta, que é muito difícil demonstrar fora desse ponto, é que toda guerra séria é religiosa. A gente pode tomar guerra com aspecto laico, como a de 14-18, a gente encontra no fundo uma guerra de religião. Pronto, acabou. Mas é preciso saber explicitar.
* O Sr. Dr. Plinio vê mais a ajuda de Nossa Senhora quanto toma um grupo grande de fatos do que quando toma este ou aquele fato concreto
Diga, meu Nelson.
(Sr. N. Fragelli: No caminho das suas explicitações, o senhor sente propriamente a ajuda que Nossa Senhora dá a quem Ela somente concedeu esse dom do profetismo, que vem como uma mão, ou um sopro que leva a uma conclusão mais alta, ou a um esclarecimento mais nítido daquilo que o senhor procura? Quer dizer, o senhor sente o momento e como age esta ajuda, e que não viria a um intelectual que não tem a graça do profetismo?)
Se eu for tomar este, aquele ou aquele fato concreto, eu seria mais bem levado a dizer que não. Não sinto. Mas se eu tomar um grupo grande de fatos, aí eu sinto sob a seguinte forma:
Eu não vou fazer humildosa e sei que não sou bobo, mas por subtração eu tenho consciência de que o bloco do que eu penso vale mais do que a minha capacidade de pensar; o bloco tomado em conjunto. E que aí, nessa diferença, eu posso ver a ajuda de Nossa Senhora, mas sem que eu possa dizer neste, naquele ou naquele outro caso. É tomado o conjunto.
Ultimamente, com as preocupações e as cogitações crescendo de um modo enorme, eu tenho notado alguma coisa que me surpreende. Não é freqüente, mas é raro. Eu estou pensando, volto para um assunto para procurar solução e, por assim dizer, deparo com a solução no primeiro olhar, já toda feita. Quando o encontrar solução já toda feita não é de meu espírito. Meu espírito é muito processivo, não é de pegar as coisas logo de uma vez. Parece, mas não é. Eu sou muito processivo, muito lento, muito, cauto, eu penso aos poucos. Eu falo aos saltos, mas penso aos poucos.
Bom, isso me dá desconfiança de que se trata de uma ajuda de Nossa Senhora. Uma desconfiança, não é uma certeza, mas uma desconfiança bem acentuada. Mas é só até onde eu vou.
* “Com Deus eu sou muitíssimo cerimonioso também”
(Sr. N. Fragelli: Mas o senhor que nos ensinou e que dá muita importância à análise de todas as percepções, de todas as sensações que recebemos ou que temos, a todos os movimentos de alma a que intenção correspondem, nós vemos que nisso o senhor tem uma finura imensa no discernir, sejam as impressões recebidas de fora, sejam os movimentos de alma que levam normalmente um homem a uma determinada ação. O senhor tem que discernir aquilo que normalmente a gente crê, que o profetismo é uma intimidade com Nossa Senhora, uma proximidade d’Ela, e como o profetismo toca de forma particular, diz respeito de forma particular a um dom do Espírito Santo, seria com Ele mesmo essa forma de inspiração própria a Ele que um profeta sentiria no seu pensar, no seu agir. E isso me parece que deveria vir como um sentimento interno, como um agir interno, aí extraordinário. Não falando de visão, não falando de um arrebatamento místico, mas processo de pensamento, de discernimento, de análise da realidade.)
Eu acho que — pelo menos em linhas gerais — está inteiramente de acordo com sua concepção, talvez até ponto por ponto. Mas acontece o seguinte:
Ao contrário disso, no meu caso concreto, eu sou, por temperamento, por natureza, uma pessoa muito cerimoniosa, é meu modo de ser. Mesmo com mamãe, com quem eu tinha aquela união de alma enorme, eu era muito cerimonioso. Aliás, ela era cerimoniosa comigo também. Ela era uma pessoa muito cerimoniosa, e era cerimoniosa comigo. Dentro da intimidade absoluta que existe entre mãe e filho, éramos muito cerimoniosos um com o outro. E nos sentíamos nisso inteiramente à vontade, como outro se sentiria à vontade sem cerimônia.
A tese é: a cerimônia é o modo das pessoas se sentirem à vontade umas com as outras.
E com Deus eu sou muitíssimo cerimonioso também. Quer dizer, eu me deleito em considerar a superioridade infinita d’Ele sobre mim, e em considerar, inclusive, a severidade com que Ele me olha. Eu me encanto considerando essa severidade. E O trato como uma pessoa que está sendo acolhida com severidade. Daí o recurso a Nossa Senhora.
A extensão do recurso a Nossa Senhora provém da convicção de é que só assim que eu posso preencher as distâncias siderais que separam Deus de mim. Portanto, no meu caso não existe essa intimidade muito grande, embora possa haver uma ação muito constante da graça. Eu não a sinto, mas acredito que possa existir. E me parece até lógico que exista.
E assim, de esguelha, eu percebo um ou outro vislumbre, mas é só.
Não sei se respondi bem sua pergunta.
De modo desconcertante, porque as pessoas, hoje em dia, tratadas com cerimônia, se sentem afastadas. E eu não sinto isso, eu acho que cerimônia é, exatamente, a regra de caridade cristã, o por onde as pessoas se sentem bem. Aqui já levaria para outros campos.
Meus caros…
(Sr. João Clá: O Coronel disse que o senhor ontem, quando entrou no primeiro andar, bem tarde, disse que tinha tido o dia de uma certa senhora. Depois o senhor andou um pouco mais e disse: “Não, foi um grande dia dessa senhora”. Depois o senhor ainda retificou e disse: “Não, foi um grandissíssimo dia dessa senhora”. Se o senhor pudesse falar algo sobre isto, numa palavra.)
Tudo quanto ela era e para onde sua alma tendia, era idêntico com os fins que temos em vista. Portanto, ela vê que nossos modos de atender esses fins se afirmavam tão vigorosamente, era uma alegria sem nome. Não é?
(Sr. João Clá: O senhor não está com muito sono, não?)
Está começando a subir. Por que, respondo errado, é?
(Sr. João Clá: Não, não.)
Talvez as pálpebras pesadas, não é?
(Sr. João Clá: É que no convívio a gente já sente…)
Ainda mais meu sagacíssimo andaluz, hein? Aliás, eu estou também no último gole, e com isso…
Nelson, você já tinha visto este açucareiro que encanto? Vale a pena ver. É para conter adoçantes.
(Sr. N. Fragelli: De onde veio?)
Mágicas “clássico-velentonianas”. Eu acho um encanto. Uma obra-prima.
Bem, meus caros, vamos rezar porque realmente o sono está subindo.
*_*_*_*_*