Conversa de Sábado à Noite – 3/7/1982 – Sábado [AC V ‑ 82/07.03] . 14 de 14

Conversa de Sábado à Noite — 3/7/1982 — Sábado [AC V ‑ 82/07.03]

Convidando os participantes menos assíduos da conversa a ir a Amparo assistir as estupendas cerimônias que os eremitas lá costumam fazer * A beleza das espadas, das alabardas e do passo de marcha — Adoração ao Santíssimo com marchas e contramarcha: uma cerimônia de toute beauté * O desejo de que os participantes da reunião conheçam os progressos da camáldula * Os capítulos de culpa * Por detrás de todos os avanços, a pessoa do Sr. João: “Um benemérito de a gente não saber o que dizer” * Como saiu a vocação camaldulense do Dr. Luizinho: “Ele ia fazendo devagar os passos que eu aos brados reclamava” * Dr. Luizinho padecia de um mundanismo burguês que deteriorava, corrompia e não aristocratizava ninguém * Medidas que o Dr. Luizinho tomou ao ficar camaldulense * O indispensável das arbitrariedades para uma ordem de cavalaria * Antes de voltarem para Curitiba, os enjolras pedem para levar suas respectivas pedras * Notando a impressão favorável e o frescor de alma que produz a evocação desses fatos aos participantes da reunião * Arbitrariedade sem abuso — Como o Sr. Dr. Plinio fiscaliza o que o Sr. João faz, sem receio de o corrigir * Vendo o refrigério de alma dos participantes da reunião, a esperança de uma graça para lhes indicar um caminho * Ao contrário dos outros Fundadores que tinham uma especial união com os primeiros da Ordem, com o Sr. Dr. Plinio se dá com os últimos, os enjolras * “O João por assim dizer me traduz para eles” * Atitudes do Sr. Dr. Plinio diante do apostolado que o Sr. João sempre fez de sua pessoa: fingia que não via, não felicitava, não estimulava…

Então, quais são as perguntas? Se é que as há.

Quem vem de mais longe tem também direito de fazer mais perguntas, não é?

(Sr. Nelson Fragelli: Estou ainda nos antigos temas…)

Então!

* O desenrolar do cerimonial que precede as Reuniões de Recortes em Jasna Gora

(Sr. Nelson Fragelli: […] Impressionou‑me muito a Reunião de Recortes, em particular o cerimonial feito antes, de um esplendor, uma seriedade…)

Bonito, não é? Mas muito bonito!

Bom, mas também você viu que…

(Sr. Poli: …)

Um papel grande nos eremitas, entre os quais os jovens André e Felipe Dantas… ahahah!

(Sr. Nelson Fragelli: […] Mas esta cerimônia da Reunião de Recortes o senhor não tem mais participado?)

Não, porque eu me resfrio muito. Poder eu poderia, mas é sempre uma hora em que me resfria com muita facilidade.

Mas eles tinham o costume de estender ali… entre os dois braços daquela escadaria que fica ali eles colocam um tapete — tapete de fabricação nacional — com um leão rompante, grande,… [inaudível]… fabricar.

Eu fico sobre esse tapete com o Luizinho, quando ele comparecia. Agora como camaldulense não comparece, mas, enfim, os próceres de Jasna Gora e os que vão participar do cerimonial, ficamos naquele tapete. Aí se desenrola a cerimônia inteira.

Eu espero que a qualquer momento essa sucessão de resfriados passe e eu possa participar. Manter‑me de pé eu me mantenho, naturalmente não ando.

Depois eu deixo afastar‑me e vou de cadeira de rodas. Mas depois de se ter afastado bem o desfile, porque fica ridículo um homem na cadeira de rodas… [inaudível].

* O que deveria ser um cavalo, uma cadeira de rodas…

(Sr. Nelson Fragelli: Não, não…)

Ah não! O que deveria ser um cavalo, uma cadeira de rodas! Não vai, não.

(Sr. Nelson Fragelli: O senhor não se dá conta, mas a cadeira de rodas não aparece… O Pierre Angel não se lembra…)

Mas ele não me viu de cadeira de rodas, viu‑me de muletas.

(Sr. Nelson Fragelli: Ele não se lembra disso, eu fiz referência e ele contestou…)

Coisas dessas se dizem de cada um que usa cadeira de rodas. Também quando usam muletas dizem: “Ninguém percebe…”, isso é clássico. É ou não é clássico?…

(Sr. Nelson Fragelli: Mas objetivamente…)

Se diz isso também… ahahah!

(Sr. Guerreiro: […] No contato com o senhor é o mundo do senhor que a pessoa percebe. Isso é que ela leva, o mais não percebe.)

(Sr. Nelson Fragelli: […] O trono de um imperador só é observado quando está vazio.)

Olha que amável, hein?! Ahahah!

(Sr. Nelson Fragelli: Mas o senhor imagina Luís XIV na “Galerie des Glaces” e a gente diante dele vendo se o trono é bem esculpido, etc.?)

* Vendo Luís XIV em cadeiras de rodas, os nobres da corte também passaram a usá‑las

Ahahah! Você sabe que ele chegou a usar cadeira de rodas, Luís XIV?

Ele chegou a usar cadeira de rodas e o efeito inesperado, aliás de um mimetismo contristador: um número enorme de cortesãos mandaram fazer cadeira de rodas e andar de cadeira de rodas como Luís XIV. Mas aí foi uma coisa toda episódica.

Ele teve uma queda e machucou. Era uma coisa de um restabelecimento longo e os médicos daquele tempo — mete medo imaginar o que é que era — recomendaram a ele, pelo menos isso, recomendaram imobilidade, e ele observou. Então tinha uma cadeira de rodas.

E tudo quanto príncipe, etc., mandou fazer cadeira de rodas e andavam de cadeira de rodas. Já vi gravura de Luís XIV em cadeira de rodas e outros em cadeira de rodas acompanhando, levados por gente atrás. Ahahah!

* Convidando os participantes menos assíduos da conversa a ir a Amparo assistir as estupendas cerimônias que os eremitas lá costumam fazer

Mas você precisava ver, Nelson. Queria que você me lembrasse para fazer quando vocês estiverem aqui au grand complet, quer dizer, Mário Navarro, Marcos, Caio naturalmente.

Caio chega amanhã, não é?

(Sr. –: Sim.)

A que horas ele deve chegar?

(Sr. –: Por volta de uma hora)

Caio, enfim, os que não moram aqui e fazer. E se avisassem o Marcos para vir ver, valeria a pena, meu caro Marcos. Era o seguinte: uma cerimônia no Êremo de Amparo de Nossa Senhora — é um pouco longe, portanto, mas vale a pena — na capela com recitação de ofício, exposição do Santíssimo Sacramento. Tudo se faz menos a bênção, que é um padre que dá. Não tem padre, mas o mais, tudo. Feito pelos eremitas do São Bento.

Eduardo viu, Poli também, Fernando… você viu, Guerreiro?

(…)

É uma coisa estupenda!

Olha aqui, o desfile de Jasna Gora é muito bonito, mas este é mais ainda e de longe! Uma coisa estupenda, é preciso ter visto. Para fruir a alegria de ser pai de dois eremitas vale a pena fazer essa viagem. Aliás, dois muito bons eremitas, é preciso que eu te diga.

(Dr. Marcos: Graças a Deus! Quando será isso?)

É preciso marcar. Isto faz‑se assim: eu preciso decretar que eu vou lá estudar uns papéis — estou cheio de papéis para estudar — ou que eu vou lá ter umas confabulações com vocês, no Êremo de Amparo de Nossa Senhora soit disant mais tranqüilo — aí vale a pena você ir também, meu Guerreiro — e enche de gente até por cima dos tetos. E almoço, jantar… são conferências.

(Sr. Poli: É fenomenal, fenomenal!)

Mas as cerimônias que se realizam nessa ocasião são estupendas. Isso vocês precisavam ver. Eu não me consolarei que vocês saiam daqui sem ter visto.

(Sr. Nelson Fragelli: Agradeço muito ao senhor, gostaria muito.)

Agora você precisa me lembrar, porque com uma multidão de coisas rodando na cabeça, pode me escapar, e eu tenho muita vontade.

(Dr. Edwaldo Marques: […] Eles vão ter uma vantagem que o senhor não tem: poderem ver o senhor lá.)

Ahahah! Voltamos à cadeira de rodas… ahahah!

(Dr. Edwaldo Marques: Mas é fenomenal.)

(Sr. Nelson Fragelli: […] Como o senhor nos prepararia para assistir a essa cerimônia, qual o “flash” que o senhor teve?)

* A beleza das espadas, das alabardas e do passo de marcha — Adoração ao Santíssimo com marchas e contramarcha: uma cerimônia de toute beauté

Eu talvez tire um pouquinho a graça da cerimônia dizendo, mas a questão é essa:

É que o João arranjou espadas, mas espadas muito bonitas e muito bem cuidadas. Quando elas saíram da forja, elas não podiam estar mais limpas e mais bem cuidadas do que estão, a última palavra.

Havia espadas hoje à tarde no cerimonial?

(Sr. –: Uma espada.)

Você viu como são bem conduzidas.

E alabardas muito bonitas também. E eles executam marchas, que não são as marchas militares clássicas, mas são muito mais do que a marchas militares, com uma precisão e um passo de parada. E com um sistema que eles inventaram aqui, que é de arrastar o pé no chão, que se diria que é feiíssimo. É lindo!

Eles esvaziam aquela nave — a capelinha tem uma nave só, eles esvaziam de bancos aquela nave — e só ficam ali embaixo os eremitas. No que seria o presbitério, a capela-mor, do lado do Evangelho fico eu, e do lado da epístola D. Luiz e D. Bertrand, quando estão. Quando D. Bertrand está; D. Luiz está sempre lá. A Sagrada Imagem fica em frente e essa relíquia, quando está lá.

Então fazem o exercício e o pessoal que assiste fica em cima, no coro. Mas o coro é muito sólido. Eu tinha medo, porque o coro fica tão apinhado, que tinha medo que caísse, mas o João me garantiu que é muito sólido.

Vocês, aliás, são engenheiros, podem ver antes. Fica muito sólido, muito garantido.

Enche de gente, entre os quais os camaldulenses de lá, que não participam, mas que eu faço assistir porque é um bem enorme para eles, enorme!

Mas são cerimônias de toute beauté. Aqueles exercícios que eles fazem no terreiro são muito bonitos, mas não dão o que é uma exposição do Santíssimo e recitação do Ofício com marchas e contramarchas. Você vai ficar boquiaberto, você também, você também. Vocês já viram elogios, mas isso vai exceder os elogios que estou fazendo.

(Dr. Edwaldo Marques: […] Do coro se vê de cima e as figuras que eles formam são de uma precisão extraordinária.)

Depois, Edwaldo, como eles não erram um passo! Não erram um passo!

Eu vou te contar uma que lhe diz o resto.

* Cerimônias impossíveis de se realizarem por qualquer exército por serem fruto de muita Fé e dedicação

Eu perguntei ao nosso coronel — agora, coronel, não sei se você sabe disso, acabou o tempo de major — o que é que ele achava de eu convidar uns dois ou três generais para verem exercícios daqueles, aí não na capela porque eles não entenderiam, mas no… Mas ele me disse uma coisa, o seguinte: “Cuidado com a inveja”.

(Sr. Poli: O grau de disciplina e aplicação nesses exercícios não é pensável em qualquer outro lugar.)

Não é tentável.

(Sr. Poli: Pensável […] E nota‑se muito — quem sabe onde eles conseguem — para concatenar aquilo.)

Efeito de muita dedicação, não é, Poli? Aí é que está, com muita Fé, muita dedicação.

(Sr. Poli: Muita luz.)

Muita! É a graça, há graças para isso.

(Sr. Poli: Eles vêem bem a luz de onde vem.)

Eles recebem graças para isso. É uma coisa admirável. Admirável!

Vale a pena, em uma palavra, vale a pena vocês me lembrarem, vocês não podem sair sem ter visto isso.

* O desejo de que os participantes da reunião conheçam os progressos da camáldula

(Sr. Marcos Fiúza: […] Parece‑me que a partir dessas cerimônias o senhor pensou mais a respeito de uma ordem de cavalaria, de regime de obediência, etc.)

Foi e não foi. Quer dizer, eu julguei que maturam passos nessa direção. Isso eu julguei. E por causa disso eu falei várias vezes, de vez em quando falo em cavalaria e coisa e tal, que me parece que já é o caso de se começar a falar. Mas é só. Porque daí até lá tem muito.

Agora, uma coisa que nessa ordem de idéias vocês precisavam muito ver também — Marcos também, eu queria muito que Marcos visse — era a camáldula. Não é do estilo da camáldula permitir visitas, mas para vocês — e para vocês apóstolos no exterior e para o Marcos, para o meu querido Guerreiro, por debaixo do pano, Edwaldo, Poli, assim — aos pouquinhos eu pretenderia que conhecessem, por exemplo, porque impressiona.

O Luizinho está com sessenta camaldulenses. Além disso ainda há talvez dez no Êremo de Elias, mais ou menos uns dez — não garanto bem o número — no Êremo de Amparo de Nossa Senhora e uns sete ou oito no Êremo de São Paulo Apóstolo camaldulenses. E com uma ou outra exceção, mas rara, levando vida estrita e até em progressos. Alguns progressos comovem, eu vou contar daqui a pouco um se me lembrarem.

Mas em Jasna Gora é a camáldula por excelência.

* Os capítulos de culpa

Por exemplo, eles estão agora fazendo capítulo de culpa. O capítulo de culpa é uma coisa de arrepiar, porque o sujeito se deita no chão como numa ordem religiosa — agora, isto naturalmente não pode assistir quem não é camaldulense, eu mesmo não assistiria — e cada um é obrigado, sob pena de pecado mortal, porque eles têm voto de obediência, a dizer todos os defeitos que nota no outro. Todos dizem todos os defeitos.

(Sr. Poli: Todos de todos?)

Não, todos dizem de dois ou três escolhidos para aquela sessão.

(Sr. Poli: Mas isto é fenomenal!)

Fenomenal!

Eles fazem assim como dois coros, uma coisa desse gênero, um em frente ao outro, e o interessado fica bem no meio, deitado no chão, com a cabeça para o chão, de bruços, com a mão apoiada aqui… sem dizer uma palavra, mas sem perder uma palavra.

(Dr. Marcos: Em ordens religiosas era assim?)

É, trapa e essas coisas, assim.

Eles descascam! Tal defeito, tal outro. E a coisa assim, um diz: “Sr. Fulano de Tal diz tais coisas, eu queria acrescentar tal coisa, queria acrescentar tal matiz”. Não é permitido invocar atenuantes, dizer: “O Sr. Fulano de Tal declarou tal coisa, está um pouco puxada porque eu observei…”. Não é permitido.

(Sr. Poli: É uma coisa fenomenal.)

Eu conheço um caso para o qual eu peço que guardem reserva…

(…)

* Por detrás de todos os avanços, a pessoa do Sr. João: “Um benemérito de a gente não saber o que dizer”

repleto, atulhado de gente, gente nova, etc.

É um aspecto que é um aspecto muito bonito. Mas este aspecto, a meu ver, não fica atrás do primeiro, absolutamente, é de toute beauté.

Bem entendido, animador de uma coisa e outra o João. E nesse ponto um benemérito de a gente não saber o que dizer. Não saber o que dizer!

(Dr. Edwaldo: E tem um animador…)

Isso, ele diz que tem. Ele quer imaginar, ele quer imaginar que tem.

(Sr. Fernando Antúnez: É a cadeira de rodas que o anima…)

Ah, é a cadeira de rodas que o anima. Então é cadeira de rodas… ahahah!

(Sr. Poli: É impressionante.)

* Como saiu a vocação camaldulense do Dr. Luizinho: “Ele ia fazendo devagar os passos que eu aos brados reclamava”

(Dr. Marcos: Bonito o Luizinho também na camáldula.)

O Luizinho na camáldula, coisa impressionante!

E você soube como saiu a vocação camaldulense do Luizinho?

(Sr. Nelson Fragelli: Não.)

Do modo mais incrível, Nelson. Saiu da seguinte maneira:

O Luizinho jantava comigo todo domingo no Cá d´Oro. É um jantar que… para mim, que estou velho e com o feitio de espírito que eu tenho, não era mundanizante, era um jantar gastronômico. O Sr. Luizinho tinha sua pontinha de mundanizante.

Um modelo por muitos lados, vocês sabem bem como eu quero bem o Luizinho, etc., aprecio, vocês estão fartos de saber isso. Mas vamos dizer as coisas como elas são. Eu, aliás, muitas vezes apertava o Luizinho.

E uma vez fez parte dos apertos que eu dei no Luizinho… não sei se essas recordações interessam a vocês, sim ou não, ou como é.

(Todos: Sim.)

Fez parte dos apertos que eu dei no Luizinho o seguinte, tempos atrás:

Eu sempre reclamava com ele que era mundano, mas era o diálogo da truculência com a suavidade.

Luizinho, você é muito mundano, precisa acabar com isso, onde é que se viu!

Hã, hã, hã hã.

Ele ia fazendo devagar os passos que eu aos brados reclamava. Cada um tem seu modo de ser.

* Dr. Luizinho padecia de um mundanismo burguês que deteriorava, corrompia e não aristocratizava ninguém

Uns apertos que dei no Luizinho foi o seguinte:

Ele falou que afinal de contas a TFP deveria cultivar o espírito antiigualitário. Eu disse: “É verdade, mas eu aí te pego, porque seu mundanismo não é mundanismo aristocrático, é mundanismo de burguês. E mundanismo de burguês deteriora, corrompe e não aristocratiza ninguém”.

(…)

e começou a falar: “É verdade, o senhor tem razão, devo ficar camaldulense”.

Eu caí das nuvens quando ouvi aquilo. Mas como eu vi que era um bom movimento da alma, eu achei que meu papel era estimular e conversamos a noite inteira sobre isso, depois.

Na manhã seguinte Luizinho me telefona: “Porque camáldula, porque vou fazer isso, isso…”, e acabou entrando na camáldula nesse equívoco.

A certa altura eu desfiz o equívoco: “Você sabe que eu não tem aconselhei, foi um puro movimento da graça [que] se serviu de uma palavra minha para dar a você o conselho que eu não dei e que talvez devesse ter dado”.

Está um camaldulense de primeira, de primeira! Um modelo. Desfez‑se de vários objetos, enfim… das coisas mais “Luizinho”.

* Medidas que o Dr. Luizinho tomou ao ficar camaldulense

Outro dia eu cheguei ao barbeiro e o barbeiro me disse: “Olhe, aqui tem um creme de barbear muito bom, para o senhor, francês, que o Dr. Luiz mandou entregar ao senhor”.

Eu não uso isso, meu creme de barbear é o do barbeiro. É, de fato, uma marca Équipage, boa, bem boa. O Luizinho mandou entregar pelo Márcio ao barbeiro para o barbeiro ir usando, porque ele depois de camaldulense não usa mais.

Você vê até onde ele leva a meticulosidade.

Aqueles dois apartamentinhos dele, aquelas duas salas dele, mudou, “austerizou”, diminuiu, arranjou, etc. Dá gosto de ver, dá gosto de ver!

Você não esteve com ele ainda?

(Sr. Nelson Fragelli: Não.)

Se você tiver vontade, peça a ele para fazer uma visitinha, eu acho que ele recebe de bom grado.

(Sr. Nelson Fragelli: Já falei com ele, mas ele me mandou pedir ao senhor.)

Licença? Dou licença, sim, dou de bom grado.

Mas é edificante, edificante!

(Sr. Nelson Fragelli: […] A destruição das embaixadas da Revolução que temos dentro de nós, o capítulo de culpas, me parece…)

Ah, põe a nu…

(Sr. Nelson Fragelli: E acho que não existirá ordem de cavalaria para nós sem isso.)

Acho que não.

Depois, é uma coisa que a gente tem que reconhecer que é assim: se fosse dito por mim, os interessados ficavam sentidos; dito uns pelos outros, engolem.

(Sr. Poli: Isso é maldade que também tem que acabar.)

Bom, mas isso é outra etapa.

* O indispensável das arbitrariedades para uma ordem de cavalaria

(Sr. Nelson Fragelli: Tem que chegar até lá.)

Mas eu acho que você diz bem, para uma ordem de cavalaria é um passo indispensável. As arbitrariedades, Nelson.

Por exemplo, você se ponha bem na vista o indivíduo, o Áustria.

Marcos tem tratado menos com ele, mas liga bem o nome à pessoa, Guerreiro e vocês têm tratado muito mais com ele.

(…)

(Sr. Poli: .. eles fazem isso só pelo senhor, não há outro motivo que os leve a fazer absolutamente nada.)

(Dr. Edwaldo Marques: […] Noutra ocasião em Amparo apanhou à beça, disse: “Se não fosse pelo Sr. Dr. Plinio, eu não apanharia”.)

Ahahah!

(…)

e ele tomava nota muito direito de tudo que eu ditava, é um secretário muito bom. Mas o ouvido dele estava colado no exercício e o tempo inteiro querendo saber o que é que se passava no terreiro. Ele não olhava, não manifestava o menor pesar por não poder participar, estava escrevendo muito direito, mas quando saía assim uma punição mais chibante, ele me olhava lisonjeado e dava uma risotinha. Porque eles se sentem flattés com isso, eles sentem densidade da instituição deles, o tonus da coisa.

E muito bonito foram os enjolras do nosso coronel.

Ele entornou um balaio de enjolras lá para participar dessa história. Porque lá é assim: sendo enjolras, já entra, já vai participando das coisas e tal. Em certo momento, naquele sol todo, deu idéia no João de cada um carregar uma pedra. Vão todos correndo pegar pedras e carregar. E um que saísse com alguma fraude, ele mandava trocar de pedra.

O Andreas Meran, por exemplo, arranjou um jeito de pôr um lencinho acolchoado em cima da cabeça. Ele tem cabeça raspada e a pedra acho que estava arranhando a cabeça, não sei o que é que é, pôs um lencinho acolchoado. O João viu o lencinho e disse: “Sr. Andreas, troca de pedra e ponha o lencinho no bolso!”.

* Antes de voltarem para Curitiba, os enjolras pedem para levar suas respectivas pedras

Na hora de tudo terminado, a enjolrada do major — do coronel, que major! — ia para Curitiba de automóvel, eles estavam de Kombi. O que é que eles fazem para levar como lembrança? Todos foram a um monte onde tinham jogado as pedras procurar as pedras que eles tinham carregado — quase todos reconheceram — e levar para Curitiba como lembrança. Era o que deixava eles contentes.

(Sr. Poli: Mas antes devidamente analisadas pelo senhor…)

Não me lembro mais, é?

(Sr. Poli: Sim.)

(Dr. Edwaldo Marques: Foi a razão pela qual eles levaram.)

Não, não foi assim.

(Sr. Poli: Sim.)

Eu não me dei conta, pensei que fosse por amor à pedra. [Risos]

Não me dei conta. Aliás, nem me dou conta bem de ter analisado essas pedras.

(Sr. Poli: Foi.)

Eu nem me lembro bem.

Aí está… eine Rundeschau sobre o conjunto das coisas. Muitíssimo bonitas.

Quando o Felipe e o André entraram no Êremo eram plutôt tímidos, não é, Marcos? Ao menos no meio do Grupo eram.

Você precisava ver o André declamar com voz de estertor no Auditório São Miguel. Gesticula, faz atitudes. Mas… o Filipe é um pouco mais franzino do que o André, mais mocinho também, não é?

(Dr. Marcos: Sim.)

Ah, também deita o verbo e fala [com] desembaraço, na perfeição.

Mas qual sua pergunta, meu Nelson?

* Notando a impressão favorável e o frescor de alma que produz a evocação desses fatos aos participantes da reunião

(Sr. Nelson Fragelli: Quais as esperanças do senhor… Porque na época das Itaqueras, quando houve a graça para os mais velhos em Serra Negra, o Átila foi um dia lá e por arbitrariedade…)

Não é uma pessoa sobre quem se exerça muito bem a arbitrariedade, não… ahahah!

Mas então?

(Sr. Nelson Fragelli: […] Ele então, mandado falar, disse que aquela graça era como o chafariz: nasce do ponto mais baixo e vai molhar até os que estão em cima.)

Ahahah! Disse muito bem.

(Sr. Nelson Fragelli: Eu pergunto que esperanças o senhor tem de que o chafariz atual…)

Eu respondo a você da seguinte maneira:

Você está notando… todos estão notando que eu estou adaptando, adequando a conversa muito especialmente para você. Você está fazendo as perguntas, eu estou dando as respostas e praticamente a nossa noite aqui é uma interlocução. Mas eu tenho obrigação para com todos que estão aqui. Tomo em consideração o meu Marcos que faz horários muito menos selvagens do que esse aqui e que fica presente aqui às vezes com sacrifício. E os outros todos que estão aqui. Evidentemente tenho obrigação de tornar a conversa proveitosa para todos.

Por que é que eu estou fazendo o que estou fazendo? É em atenção a eles também, por quê?

Porque eu observo que comentando… quando eu comecei a comentar esses fatos com você, no começo para atualizá‑lo, para ver como é que pegava a conversa, enfim, para lhe manifestar a minha estima, mas também para ver como é que a conversa ia em geral, eu não tinha nem um pouco intenção de falar de tudo isso. E estou repetindo diante deles coisas que quase todos sabiam inteiramente.

Mas — agora vem a coisa — enquanto eu falo, eu noto uma espécie de impressão favorável e uma espécie de frescor de alma que produz em todos a evocação desses fatos que já conhecem. Vistos assim em conjunto e destacados da realidade cotidiana em que esses fatos se arrebentam, tirados assim à parte e às vezes com alguns pormenores mais íntimos que nem todos conhecem, eu vejo que dá uma espécie de alegria de alma e uma possibilidade de compreender que uma coisas dessas possa ser muito refrigerante para a alma, muito benfazeja para a alma, ao contrário de parecer opressiva e acompanhada desde logo do pânico do abuso.

* Arbitrariedade sem abuso — Como o Sr. Dr. Plinio fiscaliza o que o Sr. João faz, sem receio de o corrigir

Todos mais ou menos intuem que a coisa se passa num clima onde não é de se temer o abuso, mas que se passa em clima… E todos vêem mesmo, pela natureza da enjolrada e da formação que eles recebem, etc., que eles são para engolir arbitrariedade, mas não são para engolir abuso. Nenhum deles tem ali um feitio de armazéns de pancada que engole abuso.

Eles compreendem que a arbitrariedade tem uma razão de ser e que, num regime todo ele sapiencial, uma exceção de arbitrariedade se explica inteiramente, mas que o abuso não é de se temer lá.

Tudo isso todos estão ouvindo e entendendo, e eu noto que é uma graça para todos. Todos percebem bem também que eu estou de olho atento e que por mais que eu queira bem ao meu João, eu fiscalizo. Todos me conhecem, sabem que eu fiscalizo. E que se eu notasse alguma coisa, eu diria. Eu tenho toda liberdade, o João é muito obediente, qualquer coisa que eu queira, eu digo a ele, ele acerta imediatamente, acerta na perfeição.

* Vendo o refrigério de alma dos participantes da reunião, a esperança de uma graça para lhes indicar um caminho

O resultado de tudo isso, no que é que dá?

Eu não sei também o que desejar, porque, in concreto, [de] vocês não posso querer que deixem de fazer o que estão [fazendo].

Preciso de gente da idade de vocês para fazer o que estão fazendo, não posso fazer de outra maneira. Mas eu acho que daí alguma graça virá e a graça fará seu caminho.

Eu não sei qual é esse caminho. O que é bem positivo, é um caminho superiormente escolhido, maternalmente escolhido e que andará.

(Sr. Poli: Supermaternalmente.)

Supermaternalmente escolhido e que andará. Isso eu não tenho dúvida.

E não sou amigo de planejar, muito mais de ver qual é o plano da graça e seguir, do que de eu planejar e executar, porque… Vamos ver como é que a graça faz. É o verdadeiro, o que não for isso é conversa fiada.

Mas me digam vocês, vocês não sentem um refrigério no que estou contando?

(Todos: Sim.)

Um refrigério que descansa mais do que um dia de repouso.

(Sr. Poli: […] O senhor teve a bondade de me aceitar uns dias lá em Amparo, o contato com o senhor e de ver o clima voltado para o senhor, eu me senti muito favorecido por graças…)

É, é fora de dúvida. É fora de dúvida!

Não, é muito bonito, nós só podemos é agradecer a Nossa Senhora e louvá‑La por isso.

(Sr. Poli: […] Havia lá um clima em viver em função da Causa, tudo era exclusivamente em função da Causa.)

Depois a autenticidade da graça nisso. Você quer ver uma coisa?

(…)

* Ao contrário dos outros Fundadores que tinham uma especial união com os primeiros da Ordem, com o Sr. Dr. Plinio se dá com os últimos, os enjolras

(Sr. Nelson Fragelli: […] A última ponta disso redunda nessa facilidade de comunicação com o senhor.)

Redunda.

(Sr. Nelson Fragelli: […] Nas ordens religiosas não era claro que fosse assim, era para um aprimoramento espiritual, etc. Mas aqui no nosso caso desimpedem esses canais por onde nós melhor compreendemos o senhor.)

Você sabe que isso é e não é.

Quer dizer, a razão do estado religioso é essa que você indica, o indivíduo deve entrar para o estado religioso pelas razões próprias ao estado religioso. Agora, por que escolher aquele estado religioso?

A ação pessoal do fundador sobre os primeiros era determinante, a atração pessoal era determinante. E há coisas de espantar, da união, por exemplo, dos primeiros jesuítas com Santo Inácio, mas coisas de espantar! São Francisco Xavier, apóstolo do Extremo Oriente, que escreve a Santo Inácio de Loyola: “Vós sois o meu Deus na Terra”. Ó, é lindíssimo, é fortíssimo!

(Sr. Poli: E ele rezava diretamente para ele, Santo Inácio.)

É.

Quer dizer, nesse sentido a coisa é… Também a atração de São Francisco, de São Domingos, São Bento, sobre a primeira geração, era uma ação determinante.

No nosso caso aqui parece que a geração que corresponde aos enjolras tem mais facilidade para essa comunicação comigo do que as gerações anteriores. Quanto mais anterior a geração, maior a dificuldade. A velha Pará… ahahah! Aí é multiforme.

É preciso ver um pouco as horas, meus caros. Ó, quinze para as três?!

(Sr. –: Sim.)

Fernando, quer dizer ao Amadeu para me mandar trazer o remédio?

(Sr. Poli: […] Essa dificuldade das gerações mais velhas é infidelidade, tudo quanto há a esse respeito é quase inexplicável.)

* “O João por assim dizer me traduz para eles”

(Sr. Guerreiro Dantas: […] Tudo quanto representam hoje os enjolras para o dinamismo do Grupo, se não fosse um certo gênero de fidelidade do Sr. João Clá à Causa, eles por si só não se articulariam e não teriam essa disposição interior.)

O João por assim dizer me traduz para eles.

(Sr. Guerreiro Dantas: De modo que dizer que os enjolras são mais abertos para o senhor do que nós, me parece apreciação incompleta, porque a rigor é uma pessoa de nossa geração que se abriu para a Causa e graças a isso esses rapazes estão cheios de entusiasmo. Não se trata de “canal necessário”, mas à medida que uma pessoa é fiel ao senhor, a irradiação do espírito do senhor passa para os outros.)

O que o João faz nessa ponto é uma coisa mais admirável… [Vira a fita]

(Dr. Edwaldo Marques: E eles, enjolras, não são voltados para ele, mas todos voltados para o senhor.)

E é porque ele estimula. Não é porque ele laisser faire, não. É porque ele empurra, ele antes fala, conta e “andaluzia” a respeito desse assunto a la Sevilla. Depois então o pessoalzinho começa a deitar atenção em mim.

Mas o João é meu tradutor juramentado, ele que me traduz para essa gente.

(Sr. Fernando Antúnez: …)

Que “refonfunho” é esse, meu Fernando?

(Sr. Fernando Antúnez: Se ele ouvisse, acho que não concordaria muito.)

Ah, ele protestaria, eu sei. Mas é isso.

* Atitudes do Sr. Dr. Plinio diante do apostolado que o Sr. João sempre fez de sua pessoa: fingia que não via, não felicitava, não estimulava…

(Sr. Guerreiro Dantas: […] Como é esse mistério da alma que se deixa penetrar pela graça, como o senhor viu isso no Sr. João Clá?…)

Nunca tive uma queixa do João, nunca tive uma queixa do João! Sed contra: ele, sem combinar comigo, sem trocarmos uma palavra sobre isso, prestou serviços desde mocinho, dos mais assinalados, para desobstruir condutos entupidos para minha influência junto ao Grupo. E eu olhando, sem comentar e fingindo que não via. Fingindo que não via!

Ele muito perspicaz, porque ele com aquele olhão andaluz dele vê toneladas de coisas. O que é que ele via, se via ou não via, não sei. Nunca o felicitei, nunca o estimulei. Pelo contrário, tomei algumas atitudes que pareciam um desabono feroz em relação a coisas boas que ele tinha feito.

(…)

e fugit irreparabile tempus.

Eu gostei de os ter aqui, especialmente o meu Nelson, e acho que nós servimos a Nossa Senhora nesta noite. Vamos rezar a Oração da Restauração e nos retirar.

(Sr. Guerreiro Dantas: […] O mundo da camáldula, São Bento, etc., comentados pelo senhor ficam ainda mais bonitos…)

Isso fica para a conversa que vem.

Há momentos minha Mãe…



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