Conversa
de Sábado à Noite – 24/4/1982 [RSN 031] –
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Conversa de Sábado à Noite — 24/4/1982 —Sábado [RSN 031]
[Nota: Foi utilizado um trecho desta reunião para a apostila “Uma Senhora de Fábula”. Arquivo 820424sn.i]
* Clóvis em seu batismo recebeu uma graça que pôs a França em movimento. Mas de que natureza terá sido o ato de virtude por ele então praticado? Terá sido um ato de virtude imenso?
(Sr. –: O senhor poderia tratar do tema do Santo do Dia?)
Segundo a “heresia branca”, segundo os modelos “heresia branca”, seria muito bonito o que eu fiz, porque hesitei humildemente antes de falar etc. Mas nós estamos saturados do gênero. Absolutamente não é o que está em cena. O que eu disse lá é verdade. Não só examinei com uma sadia unilateralidade o tema que os senhores propuseram, mas também há outra questão: por causa disso, muitos matizes do tema ficam difíceis de dar porque eu não tive tempo de pensar neles.
Por exemplo, parece — não é inteiramente certo — que a graça que Clóvis recebeu por ocasião do batismo foi uma graça que pôs em movimento todo o povo dos francos, e pôs a França em movimento no rumo do que sabemos. Clóvis teria praticado, naquela ocasião, o ato de virtude imenso? Porque de Clóvis para as descendentes veio se acentuando a caudal de graças, e a coisa chegou até quem não era descendente dele, como Carlos Magno, e veio o zênite etc. E a gente vê que o ponto de partida foi dele. Tanto é que os monarcas posteriores quiseram ser sagrados com o óleo que o sagrou. Se isto é assim, a gente tem toda razão de perguntar se ele pôs ali um ato de virtude imenso, ou não pôs. Se os efeitos estão na linha de um ato de virtude imenso, entretanto, a causa parece não estar. Porque Clóvis fez algumas coisas boas, mas estava longe de ser um homem de virtude imensa, muito longe. Ele fez coisas macabriosas de toda ordem. Então, esse ato de virtude que foi dominante, que natureza verdadeira terá tido?
* O ato de virtude que abriu as comportas da Contra-Revolução completa terá sido um ato de virtude imenso?
O problema se aplica ao caso da Contra-Revolução completa. Houve um ato de virtude. Este ato de virtude que abriu as comportas da Contra-Revolução completa terá sido um ato de virtude imenso? A gente pode sem rationabilitar e sem humildosa pôr as suas dúvidas no caso. Assim, com esta hipoteca sobre o assunto, lançando sobre o assunto esta hipoteca, a gente pode dizer que houve ali um ato de virtude considerável. Este ato de virtude inicialmente qual foi? Não se pode dizer que houve um, mas houve um condicionado por outra virtude.
Tanto quanto eu me lembre de mim, na minha mais nova infância, eu tinha muitas graças no sentido de ver as coisas na transesfera, flashes de toda ordem proporcionados à mentalidade de uma criança. Eu nunca fui o que se poderia chamar um menino precoce, quer dizer, dos tais meninos que ao dez anos sabem enciclopédias, resolvem os problemas de álgebra aos 11 anos. Nunca fui desses meninos assim, e não tenho grande entusiasmo pelo gênero. Eu estranho um pouco menino precoce, e eu não fui precoce. Mas dentro das condições da mentalidade de uma criança, em alto grau essas coisas se davam.
* Desde sua infância, nosso Fundador recebia graças mais insistentes ao considerar os aspectos naturais e sobrenaturais da ordem temporal do que da ordem espiritual
Eram graças que eu recebia, mas que eram diretamente voltadas, essas graças eram mais insistentes no considerar aspectos naturais e sobrenaturais da ordem temporal do que da ordem espiritual. De maneira que a vida como ela se põe comumente e nos seus aspectos comuns me falava enormemente daquilo que ela tem — naquele tempo eu não sabia dizer que era isto, mas hoje eu sei que era — de imagem e semelhança de Deus. Isto enormemente, enormemente me falava. E vinha confusamente uma idéia de que eu conhecia isto, via isto, e isto abria tais horizontes para mim, [que] um desenvolver da vida proporcionado a estes horizontes deveria haver.
Portanto, uma vida muito diferente da vida comum das pessoas que viviam em torno de mim, e que eu percebia muito limitadas a preocupações onde esses flashes todos estavam ausentes. Não era ainda perceber a Revolução; eu os imaginava substancialmente contra-revolucionários, imaginava-os como eu; mas eu via que isto ocupava neles um papel muito menor do que ia ocupando no meu espírito.
A esta graça correspondia uma abertura inocente completa. Isto se punha para mim de frente, e eu olhava assim, de frente. Sem ter idéia do que eu estava fazendo, entretanto, me deixava penetrar inteiramente, mas de preferência, quer dizer, muito seletivamente. De maneira que não só eu não recuava diante de tudo quanto nisto podia haver, mas seletivamente, quer dizer, com muita preferência sobre as bagatelas da vida de menino; todo mundo pensa nisto, e se entretém, e se deixa atrair etc. [É necessário verificar bem esse parágrafo e o seguinte]
E de modo marcante; porque eu sempre fui muito apreciador dos deleites da vida. Eu nunca correspondi a este tipo de alma que diante de uma coisa diz: “Deixe! Eu sou levado a …” Não, eu não sou levado a nada. Se isto é bom, me dá cá, porque eu quero. E nas coisas em que a gastronomia ocupava um papel especial, pernambucanamente ávido. Mas não só isto.
* Embora preferisse cadeiras cômodas, a fim de melhor pensar em temas elevados, nosso Fundador, quando ainda menino, mantinha reservas em relação aos móveis norte-americanos
Eu me lembro bem, há uma idade em que a gente começa a diferenciar entre cadeira e cadeira, e sentar-se nas cadeiras diversas da casa onde vai. O gosto de sentar-se confortavelmente numa cadeira confortável e de largar o corpo era um gosto acentuado, marcado. Portanto, antes de aparecer os gostos ruins, um gosto bom era enfático. Pela graça de Nossa Senhora, mas também por uma correspondência minha — porque seria heresia admitir que um graça atue sem correspondência, ou melhor, que uma graça prevaleça sem correspondência — isto era muito seletivo, e a atração do espírito pelas outras coisas era muito maior.
E mesmo esta atração por essas banalidades vinha acompanhada de um fundo de quadro que ia até lá. Por exemplo, a conaturalidade entre a noção de conforto e a noção de despreocupação de espírito para poder pensar nessas coisas. A boa cadeira era, de algum modo, algo agradável. Estava começando a entrar em São Paulo, com a americanização, esses móveis de couro com molas macias, bem diferentes dos móveis de palhinha e madeira do Brasil antigo. Destas praticamente não havia em casa, com exceção da sala de jantar. Eu não gostava dos móveis da sala de jantar por causa disso: não eram da gente afundar neles polifasicamente. Havia móveis de estilo francês; muito bonito o estilo, mas muito menos cômodo do que o estilo norte-americano. Então, uma adesão muito viva ao móvel cômodo. Mas aí os senhores vêem o seletivo, a reserva feita: “O móvel me fala de outra coisas, e eu não posso gostar do móvel norte-americano sem reserva, porque me leva para onde [não] quero”.
* Ao tirar uma fotografia, embora aceitasse assumir a postura e a fisionomia espiègle ordenada pela fraülein, tomou cuidado para que não se acendesse em sua alma um fogo de travessura
Isto se nota numa fotografia minha, que já vi em mãos dos senhores: menino de uns sete ou oito anos, com a perna em um móvel e com a cara mais ou menos vivaz. E eu me lembro perfeitamente do que se passava na minha alma naquela fotografia em concreto, por uma coisa onde entrava uma certa vontade de ficar com a atenção posta nas coisas superiores, bastante vontade, mas também um certo comodismo; andavam juntos. Eu oferecia às ordens que eu recebia o mínimo de resistência, ainda que eu achasse que as ordens não eram muito razoáveis. “Eu vou opor resistência, vai sair uma briga. Eu faço, toco para frente e me reservo para as coisas que eu quero”.
Eu tirei aquela fotografia com a fräulein. E me vestiam para tirar a fotografia: “Ponha estas roupas, porque é hora de fotografar.” Fotografia tinha um pouco de solenidade, porque era difícil tirar fotografia, não era assim a qualquer hora, supunha um indumentária especial etc. Me levaram para lá e eu não sei porque tiraram aquela fotografia. “Aqui vale a pena ceder para não perder.” A fräulein me disse que eu tinha que tomar uma atitude vivaz, lampeiro: “O fotógrafo vai indicar a você uma pose que traduza isto, porque é o que fica bem na sua idade”. Ela misturava um pouco o alemão e o francês e mandou que eu fizesse uma pose espiègle. Eu pensei: “Mas eu não sou espiègle, eu gosto de ficar pensando em outras coisas, não tenho essas vivezas, e vou ter que fazer uma cara de vivacidade aqui que não me traduz. Vá lá. É possível que ela ache que não está muito espiègle e comece: “Mais espiègle!”.
Ela tinha coisas dessas e podia acabar numa coisa que atingisse o supremo tribunal de mamãe. Eu então tratei de fazer um cara vivaz. Cheguei à sala de fotografia com uma cara vivaz de encomenda. O fotógrafo, um holandês, Sr. Quans, entrou; acho que a fräulein disse a ele que tinha que ser uma fotografia meio espiègle, porque ele me indicou uma posição meio esportiva, com um pé em cima de um lugar, ar de menino que vai fazer uma travessura. Eu estava pensando em tudo, menos em fazer uma travessura naquela hora. Eu disse: “Vou pôr esta coisa, mas tem um perigo: se eu fizer uma cara muito de travessura no momento em que adoto esta atitude física de travessura, de repente acende um fogo de travessura na minha alma, e eu não quero!” Não me deram tempo de resolver o problema: “Entra aqui, põe o pé aqui etc.”. E saiu aquela fotografia.
* Apesar de um inegável comodismo, o ato de virtude inicial do Senhor Doutor Plinio se compunha de bom senso, humildade, amor à hierarquia, lealdade aos valores superiores e retidão
Os senhores estão vendo ali os vários componentes desse fato de virtude inicial e também os elementos opostos a este ato de virtude inicial. Porque, que há ali um inegável comodismo, há. Mas que neste comodismo há um inegável bom senso, há. Que há um inegável bom senso, que há também uma inegável dose de humildade e de aceitação de bom grado do que me mandam fazer — “Eu faço o que eu quero!” não me parecia razoável; ….[?] não me aconselhava isto, e meu bom senso achava que era uma trabalheira inútil. Mas havia uma qualquer coisa de hierárquico dentro disso; havia junto uma inegável lealdade para com os valores superiores que começavam a me solicitar. E, como os senhores vêem, uma lealdade meticulosa presente em todos os atos, e já cuidadosa de não se perder a si própria, e com uma certa noção da oposição que o ambiente lhe punha.
Havia, portanto, graças a Nossa Senhora, uma lealdade muito grande, uma retidão muito grande em aceitar este convite enorme. Daí vede [?] este convite inicial; a Providência foi pedindo dele desdobramentos sucessivos. Em todos esses desdobramentos entravam certos sacrifícios, entrava um certo enlevo, entrava um certo sacrifício e, portanto, um certo esforço. Com o correr do tempo, desdobramentos, esforços e sacrifícios colossais, que foi possível fazer por causa da lealdade primeira e da abertura primeira com essas graças primeiras.
* Ao entrar no São Luís, sua lealdade e seu amor ao maravilhoso o fizeram ter uma visão íntegra do fenômeno revolucionário, vencer as molezas originárias e praticar todos os holocaustos
Vamos dizer, então, que a entrada no colégio São Luís tenha representado algo dentro disso. Em que sentido? Em dois sentidos distintos. Um foi o choque com a Revolução, e esculpir a idéia da Revolução, e portanto da Contra-Revolução, com a mesma lealdade. Donde veio a visão íntegra do fenômeno revolucionário. Uma pessoa menos leal, mais preguiçosa, que tivesse amado menos — porque o fundo estava nisto — uma pessoas nessas condições evidentemente não teria feito com esta amplitude: teria procurado desenvolver uma batalha contra a evidência para diminuir a carga de deveres e para tornar menor o seu esforço.
Ali, não: a visão do holocausto e a realização do holocausto ao longo das várias etapas em que ele foi pedindo mais e mais, este foi sendo praticado. A luta contra as molezas originárias se praticou em duas formas. Uma forma foi a necessidade da luta, da batalha com eles e, portanto, da constituição da fortaleza. Passar da moleza por assim dizer suma, até uma fortaleza muito aguçada, era quase me revestir de personalidade nova: sem deixar a antiga, colocar por cima uma outra, amada — eu via bem como isto era bonito, como isto deveria ser — mas conquistada à força.
Os senhores vêem mais uma vez, graças a Nossa Senhora, a integridade presente: “É preciso ser forte, é preciso ir ao píncaro da fortaleza, senão rola para o abismo da moleza. A alternativa não comporta meio termo. Portanto, para o píncaro da fortaleza. Vamos! Tem que ser!”
* Tendo grande senso da pureza e entendendo quanto a impureza é contrária às coisas adamantinas, o Senhor Doutor Plinio venceu a enorme batalha de preservar e manter sua pureza
De outro lado — eu não tenho nenhuma vergonha de dizer isto, porque está na natureza do homem concebido no pecado original — o problema da pureza começou. Começa para todo mundo, se põe para todo mundo. Evidentemente, para mim também. Este problema tem isto de terrível: na alma de pessoa mole, a impureza amplia todas as molezas a um grau inimaginável. Todas as molezas são cúmplices dela. E a fortaleza luta a favor da pureza. Como, reciprocamente, a pureza luta a favor da fortaleza. E Nossa Senhora me deu a graça de entender bem como a impureza era o contrário de todas as coisas adamantinas que eu tinha visto desde pequeno; como ela era a inimiga frontal a ser combatida, mas combatida com a imolação, mais uma vez, da moleza.
A luta que cada um conduz para preservar e manter a pureza é uma batalha! Em certa idade, sobretudo, é uma batalha. É uma batalha sobre os sentidos, mas é uma batalha sobre a previdência também. A falta de vontade de ser previdente, de perceber, de ser conseqüente, de ser lógico, de evitar as ocasiões mesmo as mais remotas; os estados de espírito mais remotamente contíguos à impureza, expulsá-los, enxotá-los, isto constitui obviamente uma batalha. Eu não tenho vergonha de dizer, em mim a batalha foi enorme. Eu era favorecido por um senso da pureza muito grande e, portanto, também, por um senso muito grande de ignomínia que havia na impureza. Mas o apelo para a impureza, um apelo enorme!
* O encanto do Senhor Doutor Plinio, ao descobrir no Padre Costa a lógica inaciana e ao verificar que ela sempre conduz ao dever, ao sacrifício e à luta
Ao lado disso, uma batalha de espírito que eu também não tenho dúvida em revelar, e que é a seguinte. A fé eu tive desde os primeiros instantes de que me lembro. Os primeiros tempos de que a gente se lembra, já lembra crendo em Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas a questão é outra: em determinado momento, o advento da lógica numa ordem de coisas que era muito mais impressão; impressão coerente, impressão sem fraude, mas era a mentalidade de uma criança, na qual as impressões afins vão se estabelecendo, mas não era a lógica. A entrada, para mim encantadora, da lógica: perceber o Padre Costa fazer raciocínios. “O raciocínio, mas que coisa fenomenal!” O encanto de minha alma mover-se ao apelo da lógica. Mais ou menos como é o de uma criança que deixa o berço e que começa a andar: o corpo todo pede para andar. Assim também, quando chegou a entrada da lógica, a alma inteira pedia para andar, pedia para raciocinar, discorrer, para concluir, para martelar as premissas umas nas outras e tirar as conclusões. “Magnífico!”
Mas muito cedo, verificando que a lógica conduzia a conclusões que eram sempre o dever, o dever, o dever; o sacrifício, o sacrifício, o sacrifício; a luta, a luta e a luta; e que se era verdade que a lógica levava para altas montanhas, no alto dessas montanhas havia piras onde a gente tinha que oferecer o holocausto de si próprio, lógica e fortaleza apareceram para mim como correlatas. O varão forte é lógico. Mas faz que lógica? A lógica objetiva, inflexível, que não admite dolo nem fraude, mas que vai para a frente. É a lealdade primitiva que se desdobra para um campo novo, mas que obriga a sacrifícios novos. Dá encantos novos e obriga a sacrifícios novos. Juntando-se a esse panorama, o panorama do sobrenatural.
* Com a eclosão da lógica, apareceu a relação entre a fé e a atmosfera de maravilhoso na qual seu espírito se movia: só um Deus pessoal dá sentido à transesfera e à batalha da pureza
Eu tinha idéia vaga do sobrenatural, a fé etc. Mas aquela atmosfera toda, em função da qual meu espírito se movia, não tinha a mínima incompatibilidade com as coisas da fé. Pelo contrário, muita afinidade. Mas eu não tinha feito a relação. Com a eclosão da lógica, aparecia a relação. Mas a lógica me deu um amor à fé, de um outro lado. Com a batalha da Revolução, a batalha da impureza, ou da pureza, — será melhor chamá-la assim — me veio ao espírito a pergunta: “Vale a pena lutar tanto? Para que esse sacrifício? Afinal, o que é isto? Olhe em torno de si como ninguém luta. Que sentido tem você estar lutando dessa maneira? Vamos raciocinar”.
Aí a lógica traçou o quadro: “Todas essas transesferas etc. não tinham sentido, se não tivessem a sua explicação num Deus pessoal. Porque amar um panorama, amar uma bonita pedra, amar o macio de uma seda, de um damasco; ora, amar, amar, amar, ou me serve… ou vá plantar batatas! Sacrificar-me por isto, não! A menos que haja um Deus pessoal, do qual tudo isso não é senão a expressão, e que tem o direito de mandar, tem o direito de querer que eu seja dessa maneira e eu quero ser como Ele. E então é preciso introduzir o sobrenatural nesse panorama”. Então, enormemente mais coruscante, enormemente mais belo, mas muito mais convidativo para holocausto, ou muito mais convocatório para holocaustos cujo tamanho eu vou medindo desmedidamente, compreendendo que era a avalanche dos sofrimentos que vinham. Eles foram menores do que eu imaginava…
* Frutos da graça, esses estados de espíritos virtuosos e esplêndidos se desdobraram na luta contra a Revolução, primeiro fora, depois dentro da própria Santa Igreja
Esses estados de alma, segundo a moral católica, são estados de alma virtuosos. O eu ter praticado essa virtude durante tantos anos, segundo a doutrina católica, não poderia ter feito sem a graça. Logo, isto é fruto da graça. Fruto da graça, com minha correspondência, mas é fruto da graça. Se é fruto da graça eu não posso deixar de dizer que são estados de espírito esplêndidos: seria a humildosa no sentido mais deteriorante. Esses frutos da graça, esses estados de espírito esplêndidos, as circunstâncias foram obrigando a que eles se desdobrassem invencivelmente, ou melhor, incontenivelmente, pelos tempos e pelos ventos afora.
Eu já falei de vários outros episódios de minha vida, eu me refiro apenas passageiramente a eles. Mas depois da luta da Revolução contra o adversário externo, apareceu a luta da Revolução contra o adversário interno da Igreja, e todo o drama do corpo a corpo com aquilo que eu amava mais do que a luz dos meus olhos e amava mais do que a mãe que Deus me deu: a Sagrada Hierarquia da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana. Não é dizer que eu amasse mais essas pessoas: são os cargos, as instituições, os carismas, a missão, a coerência delas com a missão. Com as pessoas eu até nunca fui muito entusiasta, dos muitos que eu conheci. Mas deste lado, amar de um modo indizível, fruto daquela lealdade inicial, daquela virtude inicial, que eu mencionei. E entrar nesse terrível corpo a corpo é uma coisa que é verdadeiramente inimaginável.
* Permanecer fiel, após a ruína das ilusões sobre a Hierarquia e apesar da prova axiológica, não terá sido um ato de virtude igual ao recusado pelo místico e pelo príncipe da Revolução?
Depois da ruína das minhas ilusões sobre os integrantes dessa Hierarquia, a ruína do que eu considerava, e considero, a prova axiológica: desenvolver-se um futuro completamente diferente do que eu imaginava as vias da Providência, e levar uma vida que era inteiramente diferente daquela para a qual eu me sentia chamado pela própria graça. Em todas elas, o ato de virtude inicial, ver de frente, querer inteiramente, seguir com fidelidade, era a raiz primeira. Teria sido um ato de virtude do tamanho do ato de virtude do místico da Revolução? Teria sido um ato de virtude igual ou comparável ao do príncipe da Revolução? São duas figuras diferentes — um na ordem interior e outro na ordem da execução? Essa espécie de condição de condestável da Contra-revolução não pode ser considerada como uma espécie, no sentido latino da palavra, que não tem a nota nobiliárquica que tomou depois, mas é uma espécie de generalato, ou uma espécie de principado da Revolução, ou melhor, da Contra-revolução? A esse respeito eu tenho dúvidas.
Eu sinto que a atenção dos senhores e a abertura dos senhores deve cair sobre o que há de edificante no que eu estou dizendo; pede aos senhores uma abertura para isso análoga à que houve em mim. Portanto, eu não vou dar aos senhores as razões pelas quais a esta altura do meu raciocínio eu entro em dúvidas, porque não lhes faria bem. Portanto, simplesmente dizer isto já provocou um certo errefesismo [?]que não é bom. Eu deixo então o entusiasmo voar, e o soa contra [?], o porém em sentido contrário, eu não ponho. Mas, assim como no início da exposição eu mostrei que as [?] pode fazer um grande bem, pode-se ser o ponto de partida de um grande bem não sendo senão um Clóvis, eu pego o início da minha exposição e introduzo para cá, e os senhores compreendem o cabimento que tem o que eu estou dizendo. E deixo a coisa assim no ar para ulteriores discussões [?], quando for o momento. Mas o tema está tratado.
* Os sacrifícios de nosso Fundador foram maiores do que ele imaginava: encontrar no recinto da Santa Igreja o que encontrou… e levar nas costas a sua Ordem de Cavalaria
(Sr. –: O senhor disse que quando teve diante de si todas os sacrifícios que teria que fazer, o senhor disse que foram menores do que os que o senhor teve que enfrentar? Foram menores ou maiores?)
Os sacrifícios que eu tive que fazer depois foram maiores do que eu imaginava, foram muito maiores. Eu não imaginava encontrar no recinto sacrossanto da Igreja o que eu encontrei. Mas fundada a minha Ordem de Cavalaria, queira Nossa Senhora que cada um dos senhores conheça de futuro — os mais velhos aqui conhecem — o que é o peso de levar nas costas o Grupo. É uma coisa tão do outro mundo que eu lhes cito um episodiozinho minúsculo.
Eu estive agora junto à imagem de Nossa Senhora vítima dos terroristas. E o nossos enjolrinhas, os mais novos, estava ali fazendo ….[?] enormemente pitoresca que os senhores conhecem. Em certo momento foi possível abrir um sulco no meio deles para eu poder ver a imagem e poder rezar. Eu estava rezando e meu olhar maquinalmente elevou-se e penetrou dentro da sala que fica em cima do oratório. É uma das salas da Martim, onde eu em várias circunstâncias trabalhei; não era minha sala, mas tive direção espiritual etc. Olhando para aquela sala, e lembrando-me das proporções, vieram-me recordações da alegria com coisas daquele tempo, que intensamente me alegraram. Mas logo depois me veio uma recordação tão torrencial de sofrimentos, que eu procurei desviar os olhos e o pensamento. E isto é o que se dá em todos os lugares onde o Grupo tem vivido. Ao mesmo tempo saudades e muito sofrimento, a ponto de me fazer mal de lembrar.
Se eu tivesse que penetrar de novo na linda sala da Tradição da rua Pará, eu tenho certeza que é o que eu sentiria. Alguns anos depois de ter deixado a Martim, estando já instalado na Rua Maranhão, eu entrei na sala do fundo da Martim. A sala do andar térreo, no fundo, era minha sala. Aquilo me lembrou muitas coisas agradáveis, muitas graças daquele tempo, mas logo depois também enorme sofrimentos. Eu senti um aperto no coração. O inenarrável se tem somado ao inenarrável, eu não sei o que dizer. A Bagarre não deve trazer muitas coisas assim? Quais coisas? Não há o que dizer. Então os senhores compreendem qual é a marcha do sofrimento.
* Embora tenha ficado muito alegre com a Mensagem, nosso Fundador não fecha os olhos para a ascensão dos sofrimentos: o peso da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo nos ajuda a subir
Os senhores dirão: “Mas o senhor não ficou muito alegre com a Mensagem?” Muito, fiquei muito alegre. Eu sei que à força de sofrer eu aprendi muito menos a exprimir alegria do que a preocupação, o mundo [?] e outras coisas, mas de fato é apenas uma carência de expressão. Fiquei muito, muito alegre. Mas eu não posso fechar os olhos ao fato de que é natural que a coisa venha em ascensão, que o sofrimento venha em ascensão. Como pode não ser? Assim são as coisas, quer dizer, é uma montanha para carregar. Assim como todos os pesos, pesa tanto mais quanto mais dura nos ombros. Aqui [não] é só o peso do cansaço, mas o peso que se multiplica. Eu digo isso aos senhores de propósito, porque como é que este peso deve ser visto? Não como algo que desanima, mas como algo que a gente carrega, e quando nós prestamos bem atenção no fundo, nós somos carregados pelo peso. Quer dizer, ele nos eleva tanto, nos ajuda tanto a subir, que vale a pena. Os pesos que ajudam a subir não existem na ordem da matéria. A cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é assim. Cada um tem que tomá-la nos ombros e tocar para frente.
* O que mais impressiona o Senhor Doutor Plinio na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo é o longo tormento que aumenta aos poucos, atingindo sucessivos e incalculáveis auges
O que me impressiona mais na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo é que é um longo tormento que vai aumentando aos poucos, mais cruel porque cada um vem sobre uma pessoa da qual diria que atingiu o limite do tormento, o auge do tormento; e ali vem outro tormento. Uma pessoa que está com o corpo inteiro lacerado pela flagelação, a ponto de aparecerem pedaços de ossos, a esta pessoa se acrescenta a coroa de espinhos! É uma coisa incalculável. Sobre este Corpo lenhado e coroado de espinhos ainda vem a cruz. Quer dizer, quando se pensa que ele atingiu o auge, vem algo que leva o auge ao incalculável. Ele deixou claro para todos os séculos, que esse incalculável é tal que levou à exclamação: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?” Quer dizer, é um incalculável de dilacerar, de estraçalhar. Ele chegou até lá. Mas como Ele nos elevou carregando a cruz! E ato de virtude imenso mesmo foi o d’Ele.
Se nós vivermos os nossos atos de virtude, que talvez não valham mais do que os de Clóvis, vivermos em função disso, e para completar o que faltou ao sofrimento d’Ele, porque pelos desígnios Ele quis que alguma coisa fosse completada por nós, aí os méritos d’Ele entram, e Clóvis fica superado completamente a perder de vista. E é o que o católico deve ser. Quando eu mando os senhores de vez em quando fazerem via-sacra, minha intenção é esta; quando eu redigi duas Vias-Sacras, minha intenção era esta.
* A Senhora Dona Lucilia foi uma permanente lição de lealdade para com Deus: tinha extraordinária fortaleza para enfrentar os sacrifícios, sem perda da suavidade e de outras virtudes
(Sr. –: Como o senhor colocaria dentro desse quadro todo, que o senhor mostrou na primeira parte, e depois começou a tratar do sofrimento, como o senhor colocaria todo o auxílio, todo o apoio de…)
Convivência com Mamãe. O afeto dela, o carinho, a elevação de alma, tudo aquilo que nós admiramos no Quadrinho, tudo isso eu era criança e sentia nela. E foi nela que eu aprendi uns flashes correlativos etc., recebidos a propósito dela. Eu aprendi as primeiras noções de psicologia humana, compreendendo na alma dela como as virtudes se entrelaçavam, o que elas eram, e a beleza de uma alma virtuosa, e uma lição permanente dessa lealdade para com Deus. Eu não estou fazendo aqui o elogio da lealdade basta [?] protestante. Isto não foi da minha mãe. É esta a forma de lealdade. Ela o era fundamentalmente. Ela via as coisas de frente, ela tomava o dever de frente, tomava o sacrifício de frente, tinha uma fortaleza extraordinária para enfrentá-lo, sem perda da suavidade e de outras virtudes que ela tinha.
E digo que ela foi, em algum sentido, a minha memória, ajudando-me porque ela era precisamente uma simples dona de casa, sem estudos maiores do que uma dona de casa medianamente estudada no tempo dela. Levando uma vida que não exigia grandes meditações, pelo menos explícitas, ela tinha aquilo a partir do que eu construí; ela tinha de modo excelente, mas sem a floresta toda das coisas que vieram depois de mim. De maneira que eu apreciava essa jóia inicial na sua beleza inicial na alma dela por inteiro. Eu poderia me ter esquecido desses dados iniciais se não fosse ela, mas ela era o reluzir contínuo desse fundamento sem o qual nada teria sido nada, me encaminhando até a velhice.
* Para evitar brincadeiras e não dar trabalho aos outros, a Senhora Dona Lucilia, pouco antes de morrer, rasgou com certa tristeza muitos papéis que havia guardado a vida inteira
Algum tempo antes de ela morrer, — mas a saúde dela, nas condições de uma pessoa de 92 anos, estava normal — eu percebia que ela ia à famosa gaveta dela e rasgava muitos papéis. Ela sofria de catarata, e às vezes lia os papéis, e eu não percebia bem até que ponto ela via ou não via, ou até que ponto ela estava lendo mesmo, ou estava tendo uma idéia ilúcida do que estava lendo. E via que ela rasgava coisas que tinha guardado a vida inteira. Às vezes ao rasgar eu notava nela uma certa tristeza, uma certa desilusão. Mas eu tinha tomado como regra não desgostá-la em nada. Para mim, o que ela rasgava não tinha especial significado, porque eram coisas escritas por mim, alguma coisa também escrita por outros. Mas eu absolutamente não queria contrariá-la em nada, depois que ela atingiu uma certa idade. O que ela quisesse fazia, e estava acabado.
Mesmo as minhas como que discussões com ela, e brincadeiras cutucando um pouco, com um certo sal, a partir de certa idade não tinha mais nada; era o que ela quisesse. Ela era a lei absoluta. Nem eu tenho que dar aos senhores a menor demonstração de que assim devia ser. É tão óbvio que entra pelos olhos. Eu não fiz oposição a que ela jogasse tudo isso no lixo. Foi algum tempo depois que eu percebi que ela tinha pressentimento da morte dela e que ela mesma queria destruir o que ela receava que os outros não conservassem. Ela percebia que eu não conservaria o que era meu, e ela percebia também que os outros não conservariam, e que portanto nada ficaria. Cada uma daquelas fotografias ou daqueles papéis seria devolvido aos interessados no caso quando ela morresse. E isto desapareceria. E ela preferiu, em vez dos comentários, das brincadeiras a que essas coisas se prestam, ela mesma destruir. Então ela preparou os funerais das recordações dela antes dos funerais dela.
Eu creio que percebem bem a firmeza de alma e a lealdade de vistas que isto representa: “Eu estou nessa emergência. Nessa situação, o combate razoável, de frente, é este. Este eu terei”. Os senhores dirão: “Mas não era razoável”. Em função dos dados que ela tinha, era. Tão razoável quanto era a minha permitindo a destruição de quase tudo aquilo. Porque me parecia precisamente que o que era meu não interessaria; e o que não era meu, o que adiantava?
Aí vemos bem como ela caminhou para a morte ainda acompanhada com a idéia de pôr em ordem a gaveta, para não dar este trabalho a quem viesse depois. Tudo isto eu acho extraordinariamente bom.
(Sr. –: Como o senhor constrói a infância dela a partir daquilo que o senhor conheceu dela já adulta? Como o senhor imagina a inocência dela, na mais tenra idade? O senhor conhecendo-a como conheceu, como imagina a fonte inicial de tudo aquilo, quando ela era bem menina como iam se pondo os problemas para ela, dentro da família, em contato com o mundo?)
O problema põe-se no contexto da época em que ela viveu. Como já disse, era o século XIX e ela não saiu do século XIX. Fim do século XIX e ainda voltado para trás. Por uma série de circunstâncias, diferença de idade entre os pais e ela, é assim.
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