Conversa
da noite – 17/4/1982 – Sábado [RSN 30] – p.
Conversa de Sábado à Noite — 17/4/1982 — Sábado [RSN 30]
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…tratar da matéria de hoje à tarde. Parece-me que seria um tema. Mas eu não proponho o tema. Se tiverem outro assunto falem.
(Sr. GD: …umas confabulações aqui.)
(Sr. MRD: Confabulações, mas não exatamente dentro desse tema. De modo que nós estamos hesitando. Não foi dentro do tema da Reunião de Recortes especificamente.
O senhor está delimitando o tema?)
Ah, não! Podia ser outro tema se quiserem.
* A Revolução conseguiu a obra-prima de, através dos símbolos, incutir em todo mundo uma atitude face às coisas concretas que conduz ao panteísmo e à gnose.
(Sr. MRD: Eram três perguntas. Das três talvez o senhor possa escolher a que mais conviria. Eu acho que não vai haver tempo para abordar tudo. A primeira aliás, o senhor viu durante a viagem de volta, e que foi ventilado a questão da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, e que há a promessa de afervoramento dos tíbios. E que dona Lucilia tinha muita devoção ao Sagrado Coração e a prova é que nós temos ali uma imagem gasta pelos ósculos diários que a devoção dela fazia. Então, todo um relacionamento entre uma coisa e outra, seria um tema. Quer dizer, o afervoramento dos tíbios aí no caso aplicando-se a nós seria um afervoramento nosso, preparação para o Reino de Maria, etc. Esse seria um tema.)
Aliás, muito bom tema.
Quais são os outros temas?
(Sr. MRD: O outro tema seria talvez um pouco mais rápido, mas não menos importante para nós, pelo menos a nossa quadra histórica atual. Seria uma palavrinha sobre a certeza de que virá a troca de vontades, para nós dar mais oxigênio.)
Posso dizer com muito gosto.
(Sr. CP: É na linha dessa pergunta do sr. Marcos que é a certeza final de que por vocação nós deveríamos ter a troca de vontades. E como a experiência tem mostrado que a única viabilidade para nós termos qualquer coisa… Nós somos completamente inviáveis se não for através de uma proteção de dona Lucilia… Como é que nós devemos nos portar diante desta realidade? Ou dona Lucilia resolve nossos problemas ou nós somos inviáveis em relação ao senhor e como isso dá em ordem à troca de vontades. Seria isso.)
Eu tenho a impressão que as duas últimas perguntas poderiam ser vistas de uma mesma perspectiva, e que aí se poderia tratar da questão. Eu vou tratar um pouco depressa porque eu sinto que o remédio que eu tomei para dormir começa a subir e eu tenho que tomar esse remédio bem antes do lanche senão não faz efeito. E já tive que tomar o lanche porque estava morto de fome. E assim ainda tem mais esse revés para nossa reunião.
Mas enfim, vamos abordar o tema. Eu compreendo o pedido de uma prova para aumentar o nosso fervor, mas essa prova só pode estar dentro tendo como ponto de partida outras teses já admitidas por nós. Então, a essência da exposição vai ser que é conforme as nossas teses mais fundamentais e mais básicas. Portanto, mais… É conforme essas teses que tenha que haver a troca de vontade.
Então, a linha A seria qual é uma das teses inconcussas nossas. É que a revolução tendência mais a revolução sofística dominaram de tal maneira o espírito humano, quer dizer, o espírito de todos os homens que estão no circuito da revolução.
Não digo, portanto, algum malgache, algum chinês, etc., que ainda não atingido, mas que… todo mundo está atingido. De tal maneira dominaram a revolução que eles conseguiram esta verdadeira obra prima que é através de sofismas, mas sobretudo através de símbolos, ter incutido em todo mundo uma atitude face as coisas concretas que conduz ao panteísmo e à gnose. Então, enquanto antigamente um homem poderia olhar, por exemplo a forma de uma xícara sem relacionar com o panteísmo e com a gnose hoje se tornou impossível. Porque todas as xícaras que estão no uso corrente que não são xícaras de museu, de raríssimos colecionadores, mas isso não forma o público. Todas essas xícaras são xícaras constituídas para num determinado contexto conduzirem para o panteísmo e a gnose.
É a xícara, é a cinta, é o guarda chuva, é o poste na rua, é o que for. Tudo conduz nessa direção. O que equivale no fundo a que sem querer o demônio sob o aspecto de formar uma civilização laica e uma cultura laica criou algo que é a mais religiosa de todas as culturas.
Porque enquanto antigamente um grão-mogol qualquer podia tomar alguma coisa numa xícara que não fosse laica, que não fosse religiosa — fosse no meio de uma xícara onde alguém pintou um passarinho, está acabado.
Bem, isto como está feito leva para a gnose. E leva, portanto, para uma posição religiosa.
* Para estar em consonância com a época, fazer carreira ou gozar a felicidade, o homem é obrigado a se revestir de uma mentalidade postiça, que implica numa troca de vontades com a Revolução.
Agora, segundo ponto: é que isto invadiu de tal maneira a mentalidade humana que o que eles aceitam da Revolução Sofística mais o que eles aceitam da Revolução Tendência, cria neles uma mentalidade que não é a mentalidade originária deles, mas é uma mentalidade da qual eles se revestem, e que eles assumem para estar em consonância com a época e para fazer carreira na época, para viver na época, para gozar felicidade. Há portanto uma mentalidade postiça à qual eles em parte aderem e à qual em parte não aderem e que os reveste como a luva pode revestir a mão.
Esse fato para se ter idéia, aqui houve uma nota explicativa da natureza desse fato, não é mais o fato, mas é uma nota explicativa. Todos que estão aqui nestas ou naquelas épocas freqüentaram estes ou aqueles meios onde sentiram o seguinte: que para afinar com o meio era preciso se revestir de uma mentalidade artificial, oficial e comum ao meio. Essa mentalidade entrava no indivíduo, ia forçando a se tornar habitual, acabava dominando a ele. Esse estado de espírito implicava numa verdadeira troca de vontades mirim, mas era. Por exemplo, com um clube, freqüentar certo clube. Quer dizer, uma mentalidade própria dos clubes do gênero, mas depois uma mais específica daquele clube que ou a pessoa tomava, que não era da diretoria do clube evidentemente, é da roda dirigente do clube, roda dirigente do ambiente, do ambiental do clube.
Uma pessoa entrava dentro daquilo ou não cabia naquele clube, ele não podia freqüentar aquele ambiente, era uma coisa impossível. Então, a gente compreende que tenham procurado, que tenham feito com esta gente uma verdadeira troca de vontade. Por que?
O que é troca de vontade aí? O caso do clube é um pequeno exemplo das mil formas de troca de vontade que a pessoa está o dia inteiro fazendo. O que é aí a troca de vontade? É assumir toda uma estrutura tendência, toda uma vibração tendência, todo um modo de considerar os símbolos tendência, mais algumas chicanas sofísticas que fazem com que no Grupo, no indivíduo passe a viver a mentalidade da revolução e não ele, e ele pode dizer já não sou eu que vivo, mas é a revolução que vive em mim.
* A impossibilidade de se sair de uma troca de vontades com o demônio sem colocar a troca de vontades com Nossa Senhora.
Bem, se isto é assim nós estamos diante de um mundo que fez todo ele um holocausto a um deus falso uma troca de vontade fenomenal. O que representa uma derrocada prodigiosa porque [o] deus é falso. Mas representa uma pequena elevação no sentido de uma visualização em função de deus, de um deus panteísta, de uma coisa que religiosamente não era considerada antigamente.
Bom, agora, o revés disso é o preço disso, é que o mundo só se salvará disso fazendo, introduzindo nas profundidades assim abertas na alma humana o oposto do que estava. E que, portanto, é só mediante a uma troca de vontade com Nossa Senhora, mas com fenômeno geral, habitual, largo é que o mundo poderá subsistir.
Como você dizia há pouco, ou o Marcos, eu não me lembro bem, é tal a fragilidade do mundo de hoje… que sem essa troca de vontade nem subsiste.
A outra deglute, e mesmo quando ela tenha expulsado essa vontade a cratera fica aberta. Fica um vácuo onde uma outra troca tem que caber.
Aqui está o nervo da demonstração. O resto é tudo introdução.
Fica um vácuo onde a outra troca tem que caber. Ou a primeira troca toma conta. Nosso Senhor tem uma parábola de uma pessoa que tinha sete demônios. Sete demônios foram expulsos, uma casa endemoniada foi expulsa e a pessoa não limpou, não cuidou convenientemente da casa. E o resultado é que vieram sete demônios ainda piores e criaram uma situação pior. Quer dizer, aquele de onde se expulsa um demônio ou limpa a casa melhor ainda quer dizer, se coloca completamente do lado de Deus, faz uma troca de vontade mais enérgica por outro lado, ou voltam os sete demônios piores.
E então o êxito do Reino de Maria consiste em que o Grand Retour apresentará uma troca de vontades, um convite para troca de vontades prodigioso. Eu tenho impressão que já Pentecostes foi uma troca de vontades, e que daí irradiou para o mundo. Uma troca de vontade prodigiosa, um convite prodigioso para uma troca de vontade. E se a humanidade não aceitasse ela acabava. É claro que é porque essa recusa se dará no fim do mundo que a humanidade acabará. Ora, esta impossibilidade de sair de uma troca de vontades com o demônio sem colocar uma troca de vontades com Nossa Senhora demonstra que se o mundo deve sobreviver ele precisa fazer uma troca de vontades.
Que essa troca de vontades venha pelo Grand Retour é uma coisa que é mais ou menos evidente, não precisa de demonstração. E aí ficaria a prova que de que o Grand Retour e a troca de vontades são indispensáveis.
Não sei se está claro ou não?
Bom, eu chamo a atenção para esse ponto. Não é uma prova, portanto, tirada dos argumentos comuns da teologia, mas é de uma análise da situação histórica como nós a vemos.
* O êxito do apostolado do Sr. João Clá com os enjolras.
(Sr. CP: Estava tão bonito o senhor falando que parece que o senhor pegou uma realidade… uma visão abarcante de tudo.)
Propriamente o que acontece é que nossa semi-fidelidade vem do fato de que nós temos a idéia que nós podemos expulsar os demônios sem uma troca de vontade, conservando-nos na posição de um fiel clássico da Igreja constantiniana. E aqui evidentemente… é feita em relação a esse ponto de referência, é óbvia pelo próprio êxito do apostolado dos enjolras, aos quais não é falado de troca de vontades, mas que evidentemente são levados pelo João a uma posição assim.
De onde a gente vê um êxito nas menores coisas, nas últimas coisinhas, neste “eclatant”que indica a promessa do que seria se nós fizéssemos a troca de vontade. E é preciso bem acrescentar o desastre que há em não fazer essa troca de vontade…
(…)
* Para os não enjolras só há uma solução: a contrição.
(Sr. GD: Quando o senhor fala de A ou B ou C, eles são uma ilustração viva de uma realidade interna que nós carregamos.)
E que abrange a muitos de nós.
(Sr. GD: O senhor falava em eremita, uma pessoa que não seja eremita, mas como é que são esses passos para se obter aquilo que não se fez é uma coisa que…)
Eu acho que os passos, meu filho, é uma contrição. É ver a realidade inteira, entender qual é a causa desta realidade, e bater no peito, porque Nossa Senhora não desprezará o coração contrito e humilhado.
Para a alma contrita eu espero qualquer coisa. A alma tem que ser para isso limpa e franca e ver sua própria culpa até o fim. E isso é preciso dizer nós não gostamos muito, de nossa culpa até o fim nós não gostamos muito. É tão evidente que eu não tenho nada que dizer a esse respeito.
(Sr. GD: Agora sem o ver essa culpa não haveria troca de vontades?)
Ah, eu não acredito, eu não vejo. Ao menos segundo os caminhos comuns da graça. São Paulo quando foi fulminado pela graça ele parece que antes não via, ia todo assanhado para Damasco para conseguir perseguição contra os católicos. E ali ele foi assaltado, mas ele teve que fazer um ato de contrição e teve depois a terrível ameaça da cegueira e tudo mais até que ele teve um milagre para lhe facilitar a contrição. Você deve perguntar se nosso milagre não será feito para facilitar a nossa contrição. É possível. Mas que sem a contrição não se chega lá é claro. Ninguém volta ao estado de graça — aqui não se trata de pecado mortal tanto quanto eu vejo — mas ninguém volta a um estado mal, de um estado mal para um estado bom sem ter se arrependido.
É tão evidente. E até elementar.
(Sr. CP: O senhor ia tratar mais algo.)
Não, quer dizer, muito esquematicamente o assunto está tratado.
* A ação da Sr. Da. Lucilia nos prepara remotamente para uma atitude que conduza à troca de vontades.
(Sr. CP: O tratado pelo senhor está claro. Agora, nós queremos que o senhor complementasse como Dona Lucilia se tornou…
(…)
…o senhor dissesse como é que é a intercessão, qual é a nossa obrigação para com ela?)
Eu acho que nós temos obrigações para com ela dos mil modos discretíssimos e muito hábeis pelos quais ela vem agindo no fundo de nossa alma preparando remotamente uma atitude que conduza à troca de vontade. É claro que ela faça uma preparação remota porque nós estamos prodigiosamente apegados às independências constantinianas e as frioleiras de bagarre azul. Prodigiosamente. Então, compreende que ela tem que fazer maternalmente toda uma preparação. Mas essa preparação é uma preparação admirável a vários títulos. Nós ficamos obrigados perante Deus… Agora, de outro lado eu acho que o modo dela entrar nas almas tem qualquer coisa de um comecinho de troca de vontade, porque na medida que a alma aceita de corresponder à graça, que ela encaminhou, de que ela foi canal, a alma fica meio substituída por um estado de espírito que é o dela. E isso tem um “quezinho”de troca de vontade.
(Sr. CP: Quer dizer, que a devoção a ele não pode se confundir com outras devoções? É uma devoção específica, de um caráter específico.
Agora esse ponto é um ponto que precisava ser muito claro, não é?)
É, esse ponto como outro eu não estou pondo, é claro, porque fica muito pessoalmente posta em foco.
(Sr. CP: Esse ponto que o senhor diz, a devoção a ela de tal maneira é uma coisa que condiciona… a um estado de espírito que já representa um começo de troca de vontade.)
Ela tinha sobre mim essa forma de ação quando eu era pequeno, que o contato com ela em vários pontos, não em todos naturalmente porque do contrário… Mas em vários pontos era de tal maneira que a vontade muito apegada a uma coisa ruim ficava mais ou menos como uma palavra ímpia escrita a tinta sobre a qual se passa eureca. A eureca dissolve a tinta e faz com que deixe de existir a palavra. Seria uma violência. Um mata borrão depois aplicado com cuidado sobre o livro de que ali se forma isso faz desaparecer a palavra. Ela faz evaporar aquele apego na pessoa, e evaporar suavemente, bondosamente criando um clima que leva a pessoa a viver inteiramente nesse clima criado.
Aí os senhores tem o comecinho da troca de vontade!
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