Conversa de Sábado à Noite (Êremo São Bento) – 10/4/1982 – [AC V-82/04.34 e RSN 031] – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Êremo São Bento) — 10/4/1982 — [AC V-82/04.34 e RSN 031]

Nome anterior do arquivo: 820410--Conversa_Sabado_Noite.doc

[Sr. Avelino: Esta é, de fato, a CSN a que o senhor se refere na nota do arquivo 820411–pal. Este texto foi datilografado a partir da jaqueta RSN 031, mas em AC V - 82/04.34 está bem mais completo. Em RSN 031 foi “penteado”, faltando trechos bem interessantes. Alguma coisa completei, mas pediria o favor de fazer uma conferição mais cuidadosa. Tanto para este caso como para o da Palavrinha em Jasna Gora, já fiz as devidas correções na base de dados (Luiz Alexandre)]

Meus caros, quando esta reunião se realiza em casa com um quorum evidentemente e infelizmente menor, costumamos rezar umas jaculatórias a Nossa Senhora de Fátima. E quando a gente adquire um hábito em relação a Nossa Senhora, nunca abaixa. Só pensa em outro maior. De modo que vamos rezar aqui.

[O Sr. Dr. Plinio reza jaculatórias a Nossa Senhora]

* O Sr. Dr. Plinio faz o papel de um “temerário pergunteiro”

Eu hoje vou fazer o papel de “pergunteiro”. “Pergunteiro” temerário, “pergunteiro” que pergunta a si próprio uma coisa e tem certeza que a resposta não é prematura, mas é quase prematura. Mas um “pergunteiro” perguntaria. E eu então responderia ao “pergunteiro”. A pergunta seria a seguinte:

Dr. Plinio, em profundidade — não para dar uma opinião superficial, banal, mas em profundidade — o que o senhor achou da cerimônia de hoje à tarde?”

Não se preparem para uma censura, porque vêem os mais debandados elogios. Mas os elogios — e aqui é que há o prematuro — os elogios convidando a uma determinada forma de reflexão. E essa forma de reflexão eu quero que nós nos habituemos a fazer para uma porção de efeitos.

Um tipo de reflexão que a gente faz assim, evidentemente nos firma em nossa vocação. Mas não é um tipo novo de reflexão; mas tem qualquer coisa de novo que eu queria fixar bem.

Tem duas vantagens: faz-nos compreender em profundidade ainda mais, ainda melhor a função do cerimonial dentro da nossa vocação. Quer dizer, tomado o cerimonial enquanto cerimonial, o que ele tem que ver dentro de nossa vocação; faz-nos compreender isto, de um lado. De outro lado, faz-nos compreender muito melhor — é uma coisa colateral, mas de muita importância — o papel da opinião pública, como se compõe a opinião pública, o que é esta famosa opinião pública de que nós tanto falamos; e que ao mesmo tempo todo mundo acha claríssimo o que é mas, ao mesmo tempo, é um mistério para a maior parte das pessoas.

Então eu gostaria de manusear um pouco este tema, um pouco pesado para as alegrias de um Sábado de Aleluia mas, de outro lado, um tema necessário para pegar a coisa ao vivo. E, portanto, vamos entrar, sem mais rodeios.

* Análise dos vários aspectos da cerimônia do Sábado Santo

O que dizer a respeito disso? Eu analisei profundamente a cerimônia da qual participei. O que é aqui a cerimônia? O que é uma cerimônia? O que é cerimônia, no caso? A cerimônia é um conjunto, é aquele conjunto de ritos. Por rito, o que a gente entende? Aquele conjunto de idéias, de gestos feitos pelo padre, pelos acólitos, pelos que estavam ali com o gládio e com as alabardas, constituem a parte de cerimônia eclesiástica propriamente dita feita pelo padre. O resto era um acompanhamento dos fiéis na cerimônia eclesiástica. É uma cerimônia. Mas esta cerimônia não consistia apenas em gestos, mas ela consistia também em palavras. O padre dizia coisas. Os senhores, diante de alguma coisa que o padre dizia — ou por outra — os senhores e o auditório todo reagiam o tempo inteiro diante do que o padre dizia, pelos silêncios, pelo recolhimento, pela impressão que aquilo estava causando e que os senhores, por sua vez, externavam; e pelos gestos e pelas palavras dos que estavam com lança e alabarda, e cantavam, e que participavam assim. Era a reação dos fiéis ao que estava se passando.

* O poder impetratório de uma oração oficial da Igreja

Mas eu falei de padres e de fiéis. Falei de clero mais especificamente e de fiéis. O que fazia ali o clero, o que faziam os fiéis? O clero era ali personificado pelo Cônego José Luís Villac. O clero fazia ali uma oração oficial da Igreja. Quer dizer, não era a pessoa Cônego José Luís Villac que estava rezando. A oração que ele reza pode ser uma oração privada. Por exemplo, se ele estivesse puxando um Terço e nós acompanhando, era uma oração privada. Ele como padre, como pessoa particular, ele rezaria em nome dele e como é o padre que está presente, portanto, é o primeiro na oração, ele puxaria a oração de que todos nós participaríamos; é a oração privada. Mas ele estava fazendo o que se chama na Igreja uma oração pública.

O que é a oração pública? É uma oração que ele faz em nome de toda a Igreja. De maneira que como ele é, dentro da Igreja, uma pessoa pública, ele fazendo aquela oração era toda a Igreja universal que falava pela boca dele. E notem especialmente o seguinte: não só era a Igreja universal, mas era o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo Quem falava por ele. A Cabeça mística da Igreja é Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo. E quando a Igreja fala oficialmente, é Nosso Senhor Jesus Cristo Quem fala; e todas as coisas que ele pede, Nosso Senhor Jesus Cristo está oficialmente pedindo ao Padre Eterno, está pedindo à Santíssima Trindade. Está pedindo aquelas coisas. De maneira que era uma oração oficial da Igreja que assim se fazia, a Igreja inteira estava rezando ali pelos lábios dele.

* Nossa participação no poder impetratório da Igreja

Agora, nosso papel, qual era lá? Nós éramos uma associação de ordem temporal, mas inspirada pela doutrina católica, que estava ali presente oficialmente — porque a TFP não estava inteira ali, mas ela estava presente oficialmente — e que, enquanto tal, representava todos os seus membros e pedia a Nossa Senhora, dizia a Nossa Senhora e, por meio D’Ela, a Nosso Senhor, que aquilo que o padre dizia em nosso nome — porque o que está dito em nome da Igreja, é dito em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou melhor, Ele diz, mas nós podemos dar a isto um assentimento maior ou menor — que nós estamos dando todo o nosso assentimento àquelas palavras também, e que a TFP como tal assente de toda a alma àquilo que está sendo dito.

Aquilo se compõe de várias cerimônias. Há o Círio Pascal, há o fogo, há a renovação das promessas do Batismo etc. São várias cerimônias que preparam a Missa de Páscoa e antecedem as alegrias da Páscoa, e que de um ou outro modo se relacionam com a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vai ser comemorada pela Missa. Este é o fato que vai se dar.

Tudo conflui, portanto, para a Missa. E na Missa é que se dá a renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário, o sacrifício da Cruz se repete, mas repete-se em alegria pela Ressurreição D’Ele, que a Igreja festeja. E como Igreja festejando isto na terra, a Igreja Gloriosa festeja no Céu, há alegria no Céu porque na terra é Páscoa.

Os senhores me dirão: “Mas a zona dolorosa da Igreja Penitente?” Inúmeras almas são libertas do Purgatório nesse dia. Nossa Senhora vai ao Purgatório sorridente, risonha, e simplesmente leva uma quantidade enorme de almas para o Céu, cujo tormento Ela abrevia. E Ela alivia o tormento de muitas que ficam ali e enche de gáudio pela presença D’Ela. É a Páscoa da Ressurreição!

Vejam que firmamento de idéias, cada uma mais rica do que a outra, povoam esta cerimônia. E para uma pessoa participar de uma cerimônia dessas de alma inteira, será conveniente, quando tivermos outras assim, fazer uma preparação em que se lembrem, de maneira que no dia seguinte, ou dois dias depois, quando a gente for à cerimônia, a gente tenha isso em mente; e talvez até possa ter num papelzinho escrito, numa coisa qualquer, que se leia antes da cerimônia para se lembrar bem; para a gente ter uma participação inteiramente consciente, inteiramente madura do que está se passando.

* O brado de nossa Vocação simbolizado pelas espadas e alabardas na cerimônia

Agora há um dado especial: é que a organização que está ali não é uma organização apenas de ordem temporal e cívica, com inspiração católica. Isto ela o é. Mas estão ali reunidos os mais militantes dentre os fiéis e os mais fiéis dentre os militantes. E está ali representada uma aflição de nossa alma da qual brota alguma coisa de novo. A aflição de nossa alma é a convicção de que nós estamos em plena batalha, estamos, portanto, em pleno sítio de Jerusalém, estamos com a Cruzada mar alto, em plena, pleníssima epopéia; e que, portanto, não são uns quaisquer fiéis, em qualquer época da história — porque o que eu disse aqui é para todos os fiéis em qualquer época da história, desde a primeira festa de Páscoa, até a última no fim do mundo, isto é assim — mas são os fiéis nesta conjuntura histórica, e que eles sentem a necessidade de relacionar a batalha em que estão com o acontecimento que está se dando. Porque nós não somos homens em abstrato, nós somos homens em concreto; somos estes, aqueles, aqueles outros. E como tais, levamos nossas almas atormentadas, sofredoras, cheias de anelos nobilíssimos, cheias de grandes esperanças, mas de grandes aflições; é isto que levamos ao pé do altar. E as súplicas que nós levamos são as súplicas pela Igreja até o fim do mundo, é verdade, mas são muito especialmente as súplicas para a Igreja deste momento. E de tanto ver essas cerimônias praticadas por gente que não tem isto em mente, e de tanto ver, na cerimônia, a ausência da noção da situação concreta em que estamos, nós temos um anelo de bradar, por ocasião de dar o brado que qualquer católico daria, bradar a nossa própria esperança, a nossa própria aflição, bradar as preces da nossa vocação.

Não sei se notam, que isto é um raciocínio em profundidade, vai até o fundo da coisa. A consonância especial quando a gente vê as alabardas presentes, os gládios presentes, as espadas que se levantam, e as alabardas que se levantam etc., o hábito com tudo quanto quer dizer, nós todos sentimos qualquer coisa que reverdece em nossas almas, e que constituem uma verdadeira necessidade. E para nós é um gáudio ver que o sacerdote ali presente sente que aquelas atitudes nossas são bem a propósito do que ele está rezando, e que ele, como ministro da Igreja, sente uma adequação entre uma coisa e outra e gosta, aceita que nossas aflições, nossas esperanças, nossa vocação bradem no momento em que ele reza, faz o hífen entre uma coisa e outra, que ele recebe bem. Penso que numa outra cerimônia que se faça, fazer com uma participação ainda maior de marchas e contramarchas, preces, enfim, enriquecida ainda mais por um cerimonial nosso; mas muito mais, largamente mais.

Para ver bem as coisas sempre em profundidade, eu lembro a distinção fundamental que eu marquei, porque a doutrina da Igreja a marca, entre a prece litúrgica, que o padre faz em nome da Igreja inteira, e nossa prece de fiéis. Nós estamos fora do presbitério, estamos além da capela-mor, estamos para cá da mesa da Comunhão. Nós, portanto, somos ali aqueles fiéis que estão lá presentes. Nós temos a liberdade, temos o direito de, com propósito, com espírito católico etc. etc., apresentar e pôr tudo quanto é nosso a propósito daquilo; sem alterar em nada a liturgia imutável e sagrada da Igreja mas, pelo contrário, não completando a liturgia, porque nossa ação não é litúrgica, é uma ação privada, mas no nosso campo, refletindo-a segundo nossos meios próprios em função de nossas próprias necessidades e anelos.

Estou procurando sempre dar a visão — compreendo que possa ser um pouco fatigante ver tudo isso de tal maneira em profundidade, mas eu gostaria de…

* Uma cerimônia em que tudo agradou ao Sr. Dr. Plinio

Bem, o que é que se passou? Eu prestei atenção na pessoa respeitável do celebrante, prestei atenção nos meus filhos que estavam lá de hábito, manuseando as alabardas, as espadas e dando os brados, prestei também atenção nos outros filhos que enchiam o auditório. Discretamente, olhando de vez em quando etc. mas prestei toda atenção.

Quando eu sentei no automóvel e o automóvel saiu dos Buissonnets, eu disse o seguinte aos que estavam dentro do automóvel: todas as cerimônias nossas no São Bento e no Praesto Sum me agradam muito, mas que a cerimônia de sexta-feira passada tinha chegado ao extremo limite do elogio. Eu gostei muito, muito, muito! A cerimônia de hoje passou do limite do elogio. Eu gostei tanto que não saberia dizer com que palavras manifestar meu contentamento aos senhores, a quem eu várias vezes tenho feito…

[Risos]

Aqui está uma fotografia que…

[Exclamações]

Os senhores compreendem bem, sabem bem que a minha atitude quando alguma coisinha não me agrada, é dar muito mais realce, nas minhas palavras, ao que não me agrada, do que ao que agrada. E assim se vive; não se vive de outra maneira. Mas eu posso dizer que nada me desagradou, tudo me agradou, e que a palavra que brota, o comentário que brota daí se exprime em palavras muito simples por não encontrar palavras inteiramente adequadas. É: Muito bem, e daí para a frente.

* Ao apresentar a fisionomia da Igreja, a cerimônia cria um ambiente próprio à prática da virtude

A parte não litúrgica da cerimônia teve um complemento muito bonito que também não é litúrgico; não é anti-litúrgico; vai no sentido da liturgia, é o momento em que se descerrou o véu e apareceu a Sagrada Imagem. Mas eu olhei para os outros também, e tive a impressão de que havia um estado de espírito coletivo no auditório que era de quem no fundo da alma, numa zona da alma que a gente pouco sente — porque o que na alma é mais profundo a gente sente pouco; não quer dizer que aquilo não viva muito, mas a gente sente pouco — que no fundo da alma todos estavam bebendo, em pequenos goles, o licor mais delicioso e mais seleto do espírito católico; e que havia um recolhimento sacral, uma paz, uma alegria, um bem-estar que nem sequer pode ser adequadamente descrito com as palavras “felicidade de situação”. Porque a felicidade é um comprazimento do homem com uma determinada situação terrena, e o bem-estar da alma que se sentia lá é muito mais do que isto; e lembrava mais o Céu empíreo, com lampejos de visão beatífica, do que qualquer outra coisa.

Acontece que ali as pessoas estavam como que vendo uma fisionomia, que era a fisionomia da Igreja, e que estavam ali, aprendendo a respeito da Igreja, um modo de ser da alma, uma impostação da alma feita de uma seriedade cheia de alegria, feita de um bem-estar que não é nem um pouco o que aí fora entendem por bem-estar, aquela delícia horrível que a computação e estas coisas pretendem trazer, mas é um bem-estar feito de harmonia e de equilíbrio que reúne junto de si as coisas mais heterogêneas numa harmonia suprema. Por exemplo, o maior recolhimento mas, ao mesmo tempo, com a maior naturalidade. É o recolhimento sem esforço em que a alma, sem tentar pensar em outras coisas, é atraída para aquela… seriedade, dignidade, que a música exprime, que tudo quanto está ali dentro exprime, que faz entender fiapos do que é dito em latim, mas que tem um sentido, uma significação extraordinária, em que a pessoa se percebe num mistério cheio de luz — não é um jogo de palavras, mas um outro sentido da coisa — uma luz cheia de mistério. E assim fica posto um estado de alma diante do qual, de bom grado, [se] passaria o Céu.

E o efeito disso sobre a alma é direto o seguinte: torna a alma propensa a todas as virtudes e suavemente propensa, amoravelmente propensa a todas as virtudes. Diretamente é isto. De outro lado, estabelece vinculações profundíssimas, cuja natureza nem se pode definir inteiramente, entre a alma e a TFP. No fundo mais fundo da alma a gente sai mais TFP do que tinha entrado.

Esta impressão é conjunta. Não é a impressão somada deste, daquele ou daquele outro, mas todos sentem que todos estão com esta impressão. E do fato de no conjunto todos terem esta impressão, isto ainda ganha mais do que se fossem elas sozinhas.

Imaginem, por exemplo, que um dos senhores estivesse assistindo a esta reunião, mas que estivesse público comum ali dentro. Ainda que a cerimônia fosse tudo quanto foi, os senhores não teriam a impressão que [tiveram] com um público católico verdadeiro, contra-revolucionário que, todo junto, estava assistindo àquela cerimônia.

* A cerimônia é uma ocasião utilizada por Deus para agir em nossas almas pela graça

Então, nós tratamos há pouco o que se passou entre Deus e o celebrante em nome da Igreja e depois a participação nisso daqueles que concorriam para a cerimônia à maneira dos leigos. Agora, uma coisa mais funda, que é a seguinte. Este estado de alma que é meio indescritível — eu quis pegá-lo exatamente quando ele era recente, quando os senhores também tinham saudades dele, pela impossibilidade de descrevê-lo inteiro — quem viu, viu, quem não viu, não viu…

[Defeito na fita]

este estado de alma, o que é ele? De onde ele nasce e o que ele é perante Deus? Então, as duas perguntas que são as duas avenidas da exposição. O que o celebrante faz em nome de Deus e da Igreja ali, e o que os fiéis, na medida em que se associam, fazem. Outra coisa é: aquela ação da qual eles assim participam produz neles um estado de espírito; aquela cerimônia produz neles em estado de espírito. Considerando que Deus, pela graça atua continuamente sobre as almas, considerando que os fiéis que eu enunciei há pouco, a aptidão para todas as virtudes — desde logo a primeira é a fé; a fé sai revigorada — são fruto da graça; esta impressão que se teve ali, como se relaciona com a graça? Esta impressão individual e coletiva que se teve ali, como se relaciona com a graça? O que se passou entre a graça e nós, ali? Os senhores estão vendo que é distinto do que o celebrante fez em nome da Igreja perante Deus, ou para com Deus. A graça que entrou, que pairou sobre nós.

Nós temos a graça habitual do batizado. Esta graça, graças a Deus, pelas súplicas de Nossa Senhora, nós já entramos na cerimônia com ela, com esta graça. Mas além desta graça temos, habitualmente, a graça da vocação, a graça do Thau; entramos com esta graça aqui dentro. Mas outras se acrescentaram a essas de maneira a incrementar as graças do batismo e do Thau. O que se passou aí? Nesta ordem interior em nós, o que se passou? É uma coisa correlata com o que o padre estava fazendo, porque tudo isto constitui um todo. Não são dois pedaços, mas a correlação entra pelos olhos, mas é distinta. Apresentada a distinção, vou tratar dela.

Eu vou dizer a este respeito a mais banal das coisas: a graça teve como ocasião a cerimônia. O que quer dizer aqui ocasião? É uma palavra de sentido muito precioso. Quer dizer, a causa da graça é Deus; Deus é o Autor da graça; a graça é um dom criado de Deus por onde o homem participa da vida divina, da própria vida de Deus, Deus liga a concessão da graça D’Ele, muitas vezes, a fatos externos. Este fato, aquele, aquele outro são ocasião para Ele conceder tais e tais graças. Quer dizer, a graça é concedida a propósito daquilo; e porque é concedida a propósito daquilo é no contemplar aquilo que ela fala a nossas almas; quando consideramos aquilo, ela fala a nossas almas. Então, o que é aquilo? É a ação do celebrante e são as ações dos fiéis que estão presentes ali. Quando nós contemplamos esse conjunto de ações correlatas, nós sentimos, nós conhecemos um verum, bonum, pulchrum; uma verdade, ou todo um horizonte de verdades da fé que vem ao nosso espírito, a santidade dessas verdades e a beleza dessas verdades em si e depois, por outro lado, como aquilo que está se passando exprime bem aquelas verdades, mostra bem, faz sentir bem a santidade delas, e faz sentir bem a beleza delas. Então, as aparências sensíveis são também elas uma ocasião para que a graça intensifique em nós a sua ação.

E vendo, por exemplo, as respostas varonis dadas às perguntas do padre sobre a renovação das promessas do Batismo, ou vendo os eremitas que levantam os gládios e as alabardas para responder, aquelas formas, aquilo tudo são ocasiões para a graça da virtude da fortaleza operar em nossa alma. Isso opera de várias maneiras, porque nós raciocinamos e vemos o nexo entre as coisas, mas também — e eu queria chamar a atenção para este pormenor — pelo lado simbólico da coisa. Quer dizer, a graça é um símbolo, ou melhor, esses gestos, esses objetos, esses sons, essas cerimônias, esses paramentos são símbolos; esses símbolos, como todo símbolo, nos faz ver de um modo que para nós é meio misterioso, por uma série de analogias, nos faz ver aquilo que está sendo simbolizado. É o próprio do símbolo.

Vamos dizer, por exemplo: A Sagrada Imagem está com uma coroa. A coroa é o símbolo da realeza. Vendo-a sobre a cabeça da Sagrada Imagem, nós temos uma idéia de realeza ainda mais plena, mais perfeita, de Nossa Senhora como Rainha ainda mais perfeita, de maneira que o símbolo nos fala prodigiosamente dentro da alma. E é essa simbolização que produz em nós este estado de espírito que notamos lá; mas produz o quê? Pela graça. Não é só a simbolização. Eu me exprimi mal, mas ela produz também, além de outros fatores, ela é uma ocasião para a graça. A graça desperta em nós um certo estado de espírito.

* Através dos vários simbolismos da cerimônia, o Espírito Santo nos faz compreender como Ele quer que a sociedade e os homens sejam

Uma vez que a cerimônia assim vista é uma ocasião para a graça, se olharmos os paramentos do padre, o modo pelo qual o texto é cantado, o modo pelo qual, por exemplo, o padre tem aquele barrete, depois o próprio paramento, e a cor do paramento, a forma do paramento, e os gestos que o padre faz, tudo isso tem grandezas, tem cintilações de grandezas que todo o passado da Igreja aparece assim por pequenas chamas. Os senhores devem ter sentido que há uma certa grandeza quando ele fala do fogo etc., uma certa grandeza patriarcal, dos tempos primitivos, ainda do Antigo Testamento; e a gente tem impressão de ver a Igreja sair das névoas mais profundas da História, quando Ela nem era nascida, mas havia a pré-Igreja, que eram os justos do Antigo Testamento e o culto verdadeiro de Jeová etc., e a gente tem impressão de ver sair a Igreja daquelas névoas cantando o fogo. E é um padre de 1982, voltado para os problemas da cibernética e de todos esses horrores e posto em plena Revolução. De repente este mesmo homem emerge misteriosamente do fundo desse passado. Assim são aspectos da vida da Igreja.

Quem é que coligou esses trechos? Quem é que escolheu que para aquele Sábado Santo essas eram as impressões que era preciso causar sobre os fiéis? Quem é que indicou que tais paramentos eram indicados para tal ocasião? E que tal era o gesto e tal outro que se devia fazer nessa ocasião? Quem é que reuniu tudo isto para formar isto que está ali? Porque é assombrosa a naturalidade com que o sacerdote toma os ritos, por exemplo, tirar o fogo da pedra para tirar o fogo novo pascal. Isto é do tempo em que não havia fósforo, é ainda quase a época da pedra lascada, da pedra polida. É ali que aquilo nos leva! Pois com toda a naturalidade o padre faz uma invocação que é alguma coisa tirada do Evangelho, então, de dezenas de séculos depois; e depois ele fala do Império Romano, mas com uma alusão ao Sacro Império Romano. Então, são outros séculos para cá. E depois ele está falando em nome da Cristandade atual. Ele desliza pelos séculos como um pássaro… [Exclamações]

Preciso ver um pouco a hora.

(Nããão!)

Eu cheguei muito tarde e…

(Nããão!)

Mas eu abrevio. Os senhores têm que levantar cedo.

(Nããão!)

Como é que não têm que levantar cedo?! Têm, é evidente que têm.

(Nããão!)

Mas enfim, continuando, os senhores sabem que aquele barrete que o padre usa em certos momentos, no fundo, corresponde à idéia de que o homem deve ter adornos que o completem porque sem o adorno o homem não realiza inteiramente aquela beleza que ele perdeu quando saiu do Paraíso; portanto, é uma espécie de vergonha do pecado e uma vontade — não vergonha pudor, Sexto Mandamento — mas é vergonha da condição de pecador e vontade de algum modo recompor a dignidade humana o que leva os homens a usarem chapéus. Aquele barrete corresponde a esta idéia. O barrete é preto, em sinal de luto pela Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, como a batina é preta; ele é dividido naqueles três gomos, depois uma coisa inteiramente lisa do outro lado, Deus Uno e Trino. Mas o barrete que eu gosto muito é um barrete que dá ao padre uma dignidade perfeita o acabada, porém não suprema. Para indicar a plenitude do sacerdócio a Igreja tem para a fronte humana um símbolo mais augusto, que é a mitra; e para indicar a plenitude conjunta dos três poderes, a Igreja tem a tiara que pousa sobre a cabeça de um só, que é o Papa.

[Exclamações]

Símbolos, símbolos e símbolos, graças, graças e graças dizendo coisas misteriosas à nossa alma. Até o sapato. Por exemplo, o padre não pode celebrar de tênis; pode celebrar de sandálias, mas não de tênis. A capa magna, a capa de asperges, a estola para se rezar, tudo aquilo tem aquela beleza! O cantochão! O órgão! O harmônio é um filho do órgão. Que maravilha! Mas como é que se juntou isto ao longo dos séculos? A gente vai ver historicamente, foi tal que entrou, tal que aconteceu, tal que fez. Para quase todas essas coisas, ou para muitíssimas delas, há uma explicação. Mas a explicação é insuficiente, porque a pergunta não é quem propôs isto, quem propôs aquilo, mas quem incrustou isso definitivamente na vida da Igreja.

Porque propor, um propõe, o outro diz não, outros “zuppam”. Como é que isto não se “zuppou”?

A campainhazinha da qual tão… um episódio encantador da queda… [risos]

É preciso dizer o sumo tato com que se procedeu desde o primeiro momento até o fim. Teria sido um erro se meu JM [Janio Macambira?] tivesse se abaixado para apanhar. Teria sido um erro. Era deixar ali. Era depois vir um “ejolrinhas” para tirar… O jeito que tirou foi perfeito.

Bem, mas quem fez tudo isto?

[Exclamações]

Eu tenho 73 anos, mas não tenho dois mil…

[Exclamações]

Isto tudo estava feito quando eu nasci. E eu nasci espiritualmente pelo fato de ter aberto para isto meus olhos trans-extasiados. Eu nasci para isto, para olhar e…

Quem fez isto foi o Divino Espírito Santo. Ele foi dispondo as coisas ao longo da história da Igreja para construir. Ele é o Espírito da Igreja, e Ele foi juntando, dispondo, arranjando tudo isso para chegar onde chegou e a maravilha que estava lá.

De maneira que tivemos ali naquela simbolização toda uma comunicação do Espírito Santo aos homens, de como quereria — ou melhor, como Ele quer, não tem condicionais — que os homens fossem; como as mentalidades deveriam ser, como a sociedade espiritual e a temporal deveriam ser, e o ambiente no qual habitualmente o homem se move deveria ser. Então, os senhores tiveram ali a Igreja de todos os tempos movendo-se, mas no caráter pugnaz das cerimônias dos senhores, a Igreja do Reino de Maria que vai nascendo, que emergirá de seus próprios escombros, indignada e triunfante. E que, ou eu me engano muito, ou timbrará em conservar, com caráter mais saliente do que nunca e manifestar com todos os esplendores, a todo propósito, o seu caráter de militante e que há séculos se vem conspirando para que os católicos ignorassem esse caráter. É, portanto, uma reparação em que Ela mesma clama sua própria virtude, e proclama e a canta. E o tato enorme que para isso servem os nossos hábitos, o modo de ser do maintien, as alabardas, as espadas etc., tudo isto entra como uma moção do Espírito Santo já dando os primeiros lampejos do Reino de Maria.

* “Sede filhos da luta, deixai-vos inspirar por ela, sede batalhadores a vida inteira e eu farei convosco uma aliança”

Mas há mais. No momento em que isto se dá com o gênero humano, porque nós somos integrantes do gênero humano; com a Igreja Católica, nós somos integrantes da Igreja Católica; mas no momento em que isto se dá com a Igreja Católica, com o gênero humano, nesse momento a graça insultada pela “nhonhozeira”, pela pasmaceira, pela covardia, por tudo aquilo que na cerimônia de Sexta-feira Santa a Via Sacra fazia entender e esbofeteava indignada. A Via Sacra de Sexta-feira não é senão a meditação indignada, ao longo da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, da ausência dos Apóstolos que lá não estiveram e dos católicos de hoje em dia que dormitam indignamente. De ponta a ponta essa Via Sacra era um protesto indignadíssimo contra isto. E era uma convocação para que os outros fiéis entrassem nesse fluxo de indignação; a única coisa que podia reparar esse pecado adequadamente na Sexta-feira Santa era uma coisa assim. Então, põe-se que a graça, nesse momento, como que esquece, ou melhor, a Providência como que esquece todas essas ofensas por onde as virtudes, enxotadas da Terra, como que se recolhem sentidas e mortificadas no seio do Padre Eterno, voltando as costas para os homens, e Deus seria voltado a dizer:

Vós estais cortados comigo. Eu corto convosco, já que cortais comigo, e me retiro de vós.”

Nossa Mãe de Misericórdia reza por nós e a graça volta a bater em nossa porta. E volta a dizer ao gênero humano, na pessoa de alguns que ela chamou para ouvir esta pergunta:

Eu, Deus, estou ofendidíssimo com esta pasmaceira, com este abandono da qualidade de militante com que Eu marquei a minha Igreja. Eu vos pergunto: Quereis ser militantes? Quereis abrir em vós campo e alma para essa virtude que os homens enxotam? Se quiserdes, eu vos darei esta graça de militante abundantemente. Mais: vós sereis o ponto de apoio de uma ponte que desce do Céu sobre a Terra e pela qual os Anjos da fortaleza descerão para lutar convosco pelo mundo. Se vós quiserdes, se tomardes a sério, Eu me abro. Tomai a sério!”

Isto se repetiu a seu modo, hoje. Não mais nas indignações diante de um crime — diante do crime; aquele foi o crime — não mais isto, mas diante das alegrias da Ressurreição, alegrias que vingam e que proclamam Aquele que tinha sido reduzido ao último estado do tormento e da humilhação.

Então, trata-se do seguinte: Naquela graça que recebemos, porque é dela que estamos falando, e que nos leva de tal maneira a estar voltados para aquilo tudo, há um nota preponderante: “Tudo quanto constitui um chamado nesta cerimônia para toda espécie de virtudes, concebei-o, vede-o à luz da batalha; sede batalhadores até o fim que o resto vos será dado abundantemente! Sede filhos da luta, deixai-vos inspirar por ela, sede batalhadores vossa vida inteira e cada vez mais, e eu farei convosco uma aliança”.

* “A cerimônia é um modo eficassíssimo de fazer a Contra-Revolução”

Os senhores vêem, portanto, numa cerimônia como a de hoje à tarde, qual é o resultado: é que se nós assistimos refletidamente esta cerimônia e tendo tudo isto em vista, nossas almas se abrindo para isto, do Céu descem mais abundantes os Anjos, mais vivos, mais caudalosos, mais aguerridos, e sacodem na terra, no fundo, as pasmaceiras dos “nhonhôs”; as quais pasmaceiras constituem, mesmo hoje em que os adversários declarados são tão poderosos, um obstáculo pior do que esses próprios adversários. Porque se os homens que estão em pasmaceira se transformassem em Anjos de luta, o adversário ipso facto ficava reduzido a formiga. Ele só é forte na medida em que somos fracos. Única e exclusivamente.

Se os senhores imaginassem, por exemplo, um clero e um laicato entregues completamente à virtude da fortaleza, bombas atômicas, Brejnev, Reagans, porcarias, tudo isto não era nada, tudo isto sumia nos seus antros; eram minhocas que iam fugindo para dentro da terra, para não serem liquidadas pelos raios do sol que nasce. Daí minha indignação permanente.

Mas não se trata só de ter uma impressão enquanto se está lá dentro. É preciso ter a alma aberta para a impressão, mas não se trata só disso. É depois levá-la como uma recordação saudosa e analítica do que houve e, de vez em quando, retomá-la, sabendo o seguinte: as nossas almas vão ser as pontes. Nós vamos fazer entrar mais Anjos no mundo e para estes Anjos, Uri Geller, cibernética, transpsicologia, tudo isso é nada, tudo isso foge espavorido. Quando o sol está longe, eles fazem de tudo. O remédio não é ir matando coruja por coruja, o remédio é não criar obstáculos ao sol que nasce.

[Exclamações]

É mais: é apressar o nascer do sol.

[Exclamações]

E então, nós guardarmos essa recordação das coisas e compreendermos qual é o papel que nossas cerimônias têm nesse sentido. Naturalmente, num grau eminente, as cerimônias ligadas à sagrada liturgia, em que a Igreja fala e pede. Nosso Senhor Jesus Cristo pede oficialmente em nome de toda a Igreja. Mas também, e de modo autêntico, se bem que menos eminente, em todas as nossas cerimônias. A cerimônia enquanto tal é ocasião para graças deste gênero. Ela exterioriza, torna sensíveis, põe na sensibilidade do homem aquilo que não basta que esteja só na sua inteligência e na sua vontade. Mais ainda: não entra inteiramente na inteligência, nem inteiramente na vontade enquanto não tiver entrado de algum modo na sensibilidade.

E aqui os senhores têm um apelo para a compreensão também de qualquer cerimônia; desta cerimônia que marcou a minha chegada e que daqui a dez minutos vai marcar a minha saída. Nesta cerimônia, por exemplo, qual é o alcance? O que traz? Quando na hora de nossa despedida eu brado “Inimititias ponam et ipsa conteret”, isto quer dizer que estamos no momento de nos separar, mas lembremos que, mesmo separados, a nossa combatividade não deve diminuir em nada; a impressão de luta que resultou de nosso convívio deve continuar íntegra e crescente. Mas isto bradado assim, os Anjos descem. É o fato que fisicamente se contém nos limites da nossa galeria que eu chamei há pouco de “Pedra de Escândalo”, e que eu acho que com isto fica inteiramente denominada. Mas do lado sobrenatural, até onde vai isto!

Aí os senhores têm algo para compreender que a cerimônia é um modo da TFP combater, é um modo eficacíssimo dela fazer Contra-Revolução, na medida em que nós levemos o espírito de luta para dentro dela. Evidentemente não é uma luta besta, que não tenha razões de ser, nem causa; a causa é a Fé. É por Deus que lutamos; se não O amássemos, não amássemos Nossa Senhora, não teríamos razão para lutar. Mas diante D’Ele, diante D’Ela e diante do pecado, a atitude é a luta. A oração com luta, se compreende; a oração sem luta não se compreende, como não se compreenderia a luta sem oração a fortiori.

Aí, meus caros, fica aí uma análise de nossa Vocação, do caráter cerimonial de nossa Vocação, como elemento indispensável e capital da luta. E essa sensação de que na cerimônia está se acontecendo, está se fazendo, está se marcando a história a fundo ainda que seja nos limites exíguos da “Galeria da Pedra de Escândalo”, isto assim se define.

Eu não poderia lhes manifestar meu comprazimento mais do que manifestei, porque cada palavra que disse redunda numa aprovação enfática do que foi feito.

Meus caros, com isso, meus “pergunteiros” não puderam funcionar. Por exceção, fui eu, uma vez, o “pergunteiro”.

Vamos rezar e depois entra minha cadeira.

[Orações finais]

(Sr. –: Mais uma vez a Senhora Dona Lucilia quis agradecer ao senhor todo o bem o que senhor fez a ela, através da cerimônias e ontem e de hoje.)

Ah, acredito muito, acredito bem. E pensei nisso durante a cerimônia.

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Êremo São Bento