Conversa de Sábado à Noite – 3/4/1982 – Sábado [AC V ‑ 82/04.04] . 13 de 13

Conversa de Sábado à Noite — 3/4/1982 — Sábado [AC V ‑ 82/04.04]

O trabalho que o demônio faz em profundidade é sujeitar um homem ao poder de outro homem, não havendo nessa sujeição uma nobreza própria, como ser mais inteligente ou mais digno * O plano igualitário chega ao ponto que aquele que está mais abaixo de todas as criaturas, e que é Satanás, fica com o governo * Temos a sensação de que o homem invade de algum modo os domínios de Deus e dá um curso a coisas que Ele não quer * Um sofisma: se Deus deu ao homem a possibilidade e a inteligência para conhecer certas coisas, não se vê que seja intruso de domínio sagrado * O mais profundo da Revolução não é de ter alterado as relações entre os homens, mas de ter desordenado as hierarquias internamente * E o homem que não aceita a hierarquia é necessariamente um homem odioso e repugnante — Um homem no qual se estabelece a desordem dá-nos a imagem repugnante de toda a inversão de Deus * O homem posto em estado de prova e concebido no pecado original tem uma porção de apetências que se voltam contra seu próprio ser e Deus, e satisfazendo-as faz de si mesmo uma caricatura monstruosa * Quando o homem consente a seu corpo toda espécie de delícia, no fim último está o gosto pela aberração * As missas sacrílegas descritas por Huysmans * Entre os vários aspectos que a virtude tem, uma há que causa horror: é a virtude enquanto raciocinada, obedecendo com entusiasmo às leis da lógica e tirando conseqüências que se impõe ao homem como uma regra de proceder * Em tudo o que o Fundador faz transparece a convicção de que tudo está sujeito a um Deus, a um Rei, a uma regra e uma lei

Vamos rezar três Ave-Marias em louvor da Sagrada Imagem.

Ave Maria Filia Dilecta Dei Patris…

[Jaculat¢rias]

Sim senhores. Surgite! Sedeatis!

O Guerreiro estaria avisado que [a] reunião seria aqui?

(…)

O Amadeu está em casa, deve saber.

Sedeatis!

Então, meus caros, quem é o “pergunteiro”? Se é que há um “pergunteiro”.

Bom, primeiro tem o direito os participantes efetivos da reunião de sábado.

* O trabalho que o demônio faz em profundidade é sujeitar um homem ao poder de outro homem, não havendo nessa sujeição uma nobreza própria, como ser mais inteligente ou mais digno

(Dr. Edwaldo Marques: Se o senhor pudesse falar da execração e ódio que o senhor tem diante dos horrores atuais e o que está por vir na linha da Reunião de Recortes.)

O horror que eu tenho só pode ser, bem entendido, na perspectiva da Revolução. Quer dizer, como um ato revolucionário aquilo. E no seguinte sentido, o trabalho que eles fazem ali em profundidade é o seguinte: é igualar o homem, sujeitar um homem ao poder de um outro homem mais ou menos como um animal é sujeito ao poder do dono, um animal domesticável é sujeito ao poder do dono, o homem pré‑fabricado, e caminhando naquela direção traçada por uma imensa máquina de computação satânica, que faz com que os homens sejam de acordo com determinado plano e não possam escapar desse plano.

No que é que são diferentes de um animal? Quer dizer, no que é que os hábitos animais, os hábitos de um animal e a capacidade de conhecer de um animal — porque isso o animal tem, São Tomás diz, é uma coisa evidente, o animal conhece as coisas, conhece o seu dono, conhece por reflexo de associação de imagens, conhece a pessoa que lhe dá pancada, que pode castigar, etc. —, no que é que divergem?

Há sempre alguma diferença, mas é a menor possível; o homem fica um animal domesticado nas mãos de outros homens.

E é mais uma vez uma realização do plano da Revolução da igualdade absoluta. Porque nessa domesticação, o homem não tem uma nobreza própria, como ser mais inteligente ou mais digno, ou mais isso, não tem nobreza própria, ele foi fabricado como uma fórmula química.

E assim como, por exemplo, se uma partícula de brilhante, carbono, não pudesse se orgulhar de ser brilhante em vez de ser carvão de cozinha, assim também o homem não pode considerar como um atributo próprio ter mais inteligência ou menos, ter mais qualidades ou menos do que um outro, porque ele foi fabricado, ele recebeu aquilo de um outro igual a ele, que o compôs de acordo com o plano dele e para quem ele é um joguete.

Com isso tudo o homem fica reduzido tanto quanto possível ao estado animal. E no estado animal, estabelece mais uma vez a igualdade, com isso, tanto quanto possível sobre toda a superfície da terra.

* O plano igualitário chega ao ponto que aquele que está mais abaixo de todas as criaturas, e que é Satanás, fica com o governo

Agora alguém dirá: “Não é verdade, porque há alguns homens que governam esses outros, e esses homens que governam esses outros, esses são superiores”.

Eu digo: é bem verdade, mas são superiores num sentido diferente da palavra, eles são superiores no sentido de que representam mais intensamente a vontade daquele que está mais abaixo, que é o demônio.

E é algo que coloca a Revolução ainda mais na inversão dos valores, porque o homem que é feito à imagem e semelhança de Deus, que está na terra para um estado de prova, é muito mais digno do que um precito. Mesmo um homem que está na terra em estado de pecado mortal, mas ainda não foi condenado ao Inferno, ele tem uma possibilidade de salvação que o torna mais digno do que um precito. Entra pelos olhos.

Está bem, esse é colocado sobre o governo de como que precitos, que por sua vez são governados pelo demônio.

De maneira que o plano igualitário chega a esse ponto: que aquele que está mais baixo de todas as criaturas, e que é Satanás, fica com o governo!

Isso não é hierarquia, senão no sentido menos na frente. Não é verdadeiramente hierarquia, é uma afirmação ainda mais brutal da inversão dos valores e do igualitarismo. Portanto, é uma espécie de apogeu ululante da Revolução gnóstica e igualitária que aí se afirma.

* Temos a sensação de que o homem invade de algum modo os domínios de Deus e dá um curso a coisas que Ele não quer

E como pode uma pessoa que é favorável à manutenção, entre os homens, das classes sociais diferentes, porque vê nisso a realização de uma ordem feita por Deus e que reflete mais excelentemente a Deus, como é que pode um homem que luta por isso não odiar com toda força um plano que leva a igualdade a esse extremo de degradação? Não é possível! É a ignomínia, o aviltamento levado ao seu último ponto. Isso um homem que tenha o senso da hierarquia não pode deixar de odiar.

Depois há uma espécie de… e aqui entra um ponto de doutrina muito misterioso, eu não ouso me pronunciar sobre ele. Eu digo apenas como o problema se põe, eu não digo como ele se resolve. Mas nós temos uma sensação de que o homem invade de algum modo os domínios de Deus sondando de tal maneira os segredos da natureza, que ele acabe podendo — ele, simples homem — exercer uma forma de poder sobre os homens que parece mais própria a Deus do que aos homens.

É impossível que os senhores ao longo na narração que eu fiz não tenham tido essa sensação de uma intrusão, de uma invasão em um domínio alheio. Mas é muito mais do que isso: é como que num bosque sagrado — mais ainda, é num edifício sacrossanto — onde não se tem o direito de penetrar. Ali o homem penetra e dá um curso às coisas que pareceria que Deus não quer. Pareceria… é certo que Deus não quer.

* Um sofisma: se Deus deu ao homem a possibilidade e a inteligência para conhecer certas coisas, não se vê que seja intruso de domínio sagrado

Agora tem o seguinte, o mistério vem disso: se Deus deu ao homem a possibilidade de conhecer essas coisas, lhe deu inteligência para conhecer essas coisas, então estava no plano de Deus que o homem desenvolvesse a inteligência até o fim. Então não se vê que esta seja intrusão de domínio sagrado, mas é de algum modo — e ainda que para o mal — a realização de um desígnio de Deus da extensão da inteligência humana.

Então se fica assim numa excitação sobre o modo de ver a coisa, mas é certo que alguma coisa dessa sensação de sacrilégio fica e é legítima por algum lado. E não é esse argumento que eu acabo de dar a favor disso que é capaz de eliminar essa sensação de sacrilégio.

Quer dizer, deve haver alguma explicação para isso que nós não sabemos ainda dizer qual é, mas que existe.

Imaginem que o homem chegasse — e eu admito que seja possível — por processos científicos a poder alterar a ordem dos astros. E mudasse as constelações simplesmente para mudar, para afirmar seu poder sobre elas. Ele cometeria um sacrilégio?

Ter‑se‑ia à primeira vista a impressão que sim, e que os astros que brilharam numa determinada ordem na noite do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, que ninguém poderia tirar esses astros desse lugar sem insultar o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Todos: Fenomenal!)

E os senhores aclamam esta afirmação porque é o clamor de seu senso católico que vai nessa direção.

Mas se Deus deu ao homem uma capacidade de conhecer os meios de fazer isso, e deu‑lhe meios para fazer, não estava no plano d’Ele que de algum modo o homem fizesse?

Quer dizer, o que tem na ordem natural de inviolável?

Aqui já vou entrar no terreno que eu percebo que é sofisma, porque é contra a doutrina católica, e tudo quanto é contra a doutrina católica a priori a gente sabe que é sofisma. Estudando encontra onde o sofisma está.

Se Deus deu ao homem a possibilidade de provocar a geração daquela forma, é violar a ordem da natureza que ele a provoque daquela forma? O que é que é a ordem da natureza? Não é a ordem que é natural ao homem executar? Se a natureza humana tem meios de executar essa ordem, ela não é natural? É uma pergunta que uma pessoa pode pôr.

Ó, meus caros, salve! Ó, Guerreiro! Eu já tinha notado por você. Surgite!

Esse problema para resolver segundo o senso católico vê‑se por onde… Vamos dizer, levado esse argumento ao extremo, poder‑se‑ia dizer: Deus permite que o homem saiba como limitar a natalidade, então Deus deu ao homem o poder de limitar a natalidade? Não é verdade.

Mas aí se espraia uma longa série de raciocínios que precisam ser burilados para serem apresentados como irrefutáveis da doutrina contra‑revolucionária. A gente vê qual é o rumo.

Isso é que eu teria que assinalar. Não sei se está claro isso.

* O mais profundo da Revolução não é de ter alterado as relações entre os homens, mas de ter desordenado as hierarquias internamente

Meus caros, há mais alguma pergunta? Eu estou totalmente às ordens.

Os recém-vindos têm algo a perguntar?

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor está num assunto, certamente quererá tratar mais…)

Não, pode desviar de assunto.

(Sr. Guerreiro Dantas: Eu confesso, não sei bem qual é a pergunta a fazer. Minha pergunta seria essa: como absorvermos esse conjunto novo de fatos? Porque eu tenho a impressão que se flutua entre uma espécie de irrealidade e realidade, de tal modo excede tudo aquilo que antecedeu, que a gente fica um pouco náufrago.)

Entra na linha da pergunta que o Dr. Edwaldo me fez há pouco, que acabava… a pergunta dele acabava dando nesse ponto — ele não formulou assim, mas era o fundo da pergunta, e é uma pergunta que provavelmente está no espírito de muitos dos novos que estão aqui também, dos enjolras: como sentir que essa nova etapa é uma continuação da primeira?

A primeira etapa nós entendemos no que consiste e odiamos o mal que ela contém. No que é que a segunda etapa repete e desenvolve a primeira de um modo ainda muito mais agudo? No que é que a segunda não é só uma continuação, mas é um requinte e, a bem dizer, uma exacerbação da primeira? Como é que se liga uma coisa com a outra? Depois então viria a sua pergunta: no interior dessas várias reformas, como fazer uma concatenação para se compreender no seu todo?

Seria uma outra pergunta.

(Sr. Guerreiro Dantas: Assim como temos a “RCR” que nos explica o processo da Renascença para cá, para julgarmos as coisas… Agora, esse requinte que se deu é um tal salto, que a gente fica um pouco flutuante.)

Para entender bem isso era preciso a gente tomar em consideração o seguinte:

As três Revoluções eu apresentei como sendo sobretudo num aspecto que elas têm de Revoluções exteriores ao homem. Quer dizer, elas são transformações internas no homem, mas o que elas têm de mais odioso que eu apresentei — não apresentei como sendo o mais odioso, mas apresentei como caráter delas mais visivelmente odioso — é a transformação que elas introduzem nas relações entre os homens.

Elas eliminaram a hierarquia da Igreja, depois a hierarquia na ordem política, depois eliminam a hierarquia na ordem social, e com isso estabelecem a igualdade completa, a liberdade completa, a fraternidade completa.

Agora, está na ordem das coisas que a Revolução, esses homens que queriam estabelecer essas três máximas da Revolução Francesa — o Mitterrand vem catalogado entre esses pela Mensagem —, os homens que queriam isso se fizessem uma pergunta: “No dia em que nós tenhamos implantado esse trio completo e que os homens estiverem inteiramente soltos e livres, nesse dia, eu pergunto: o que fazer dos homens?”.

A Revolução pára nisso, ou ela vai mais longe?

A resposta é: o mais profundo da Revolução não é de ter alterado as relações entre os homens, mas é que os homens sem as hierarquias adequadas se desordenam internamente.

Assim como a hierarquia externa ordena internamente o homem, assim também a falta de toda hierarquia, de toda ordem exteriormente desordena interiormente o homem. E essa desordem interior é um requinte da desordem exterior, porque tudo que se passa no homem é mais importante do que se passa externamente ao homem.

* E o homem que não aceita a hierarquia é necessariamente um homem odioso e repugnante — Um homem no qual se estabelece a desordem dá‑nos a imagem repugnante de toda a inversão de Deus

No que consiste essa desordem interior que é o fruto necessário das três Revoluções externas? Quer dizer, como é a mentalidade de um homem que não aceita a hierarquia eclesiástica, nem a hierarquia temporal, nem aceita qualquer forma de ordem, de desigualdade, de lei ou de princípio?

Ele é necessariamente um homem odioso e repugnante. Mas por quê? Porque nós vemos que ele recusa, recusando uma ordem interna, a semelhança que ele tem com o próprio Deus. Ele escolhe um modelo oposto a Deus para realizar em si. E nisso ele fere o nosso senso do ser, o nosso amor de Deus no que tem de mais profundo. Então nós odiamos esse homem.

Antes de prosseguir vou dar um exemplo.

Tomem o homem que pratique um dos dois seguintes excessos, excessos, aliás, ambos moralmente reprováveis, não igualmente reprováveis, mas estão na mesma linha, estão frente um ao outro e por isso podem ser comparados: um homem que cuida excessivamente do seu conforto, de sua saúde, é um; o homem que é masoquista, é outro.

O masoquista é o homem que tem um certo prazer perverso em se atormentar a si mesmo, em se torturar a si próprio. E chega a pagar casas de tortura onde torturam, e ele hurra de dor, porque ele gosta de torturar o próprio corpo. Naturalmente ele prejudica a sua saúde com isso, mas ele atende um prazer perverso, um prazer infame. Este é o masoquista.

Por que razão ambas as coisas nos dão uma impressão horrorosa? Não igualmente horrorosa; o homem que cuida de mais do corpo não é tão culpado quanto o homem que atenta contra a integridade do próprio corpo, mas estão na mesma linha. Por que razão é isso?

É porque é próprio do homem enquanto criatura amar o seu próprio ser, mas amar o seu ser na medida em que esse ser merece ser amado por sua própria natureza. Quer dizer, portanto, não amá‑lo como ama a Deus, que merece ser infinitamente mais amado, mas amá‑lo e, portanto, tomar cuidado de si.

Se um homem não toma cuidado de si, mas pelo contrário encontra um prazer na destruição de seu ser, ele diverge de Deus que se ama a si próprio infinitamente, ama a sua própria glória infinitamente e é infinitamente zeloso de si! Se ele cuida demais de si, ele diverge de Deus porque Deus ensina a ele que ele é apenas uma criatura, e ele se ama como se ele fosse o criador. Mas se ele se destrói, ele diverge ainda mais de Deus e nos causa repugnância por causa disso.

Um homem no qual se estabelece a desordem dá‑nos, portanto, a imagem repugnante de toda a inversão, de todo o contrário de Deus, quando nós fomos feitos para amar a Deus. E isso explica o horror que os vários pecados nos causam.

* O homem posto em estado de prova e concebido no pecado original tem uma porção de apetências que se voltam contra seu próprio ser e Deus, e satisfazendo-as faz de si mesmo uma caricatura monstruosa

Então, digamos, lá naquele shopping center de delícias, se a gente toma aquele shopping center e a gente imagina como teria sido o Paraíso terreno, imagina como seria o Céu Empíreo que eu tive ocasião de descrever, no que é que o shopping center diverge do Céu Empíreo? Diverge de tudo! Mas no quê? Vamos apertar.

Porque dir‑se‑ia que o Paraíso era uma convergência de delícias e que o Céu Empíreo o é ainda muito mais. Então no que é que uma coisa não é a outra?

É que o Céu Empíreo agrada o homem na verdadeira ordem, é um deleite que ele tem, mas é um deleite que o toma como já santificado, incapaz de impulsos maus, amando tudo segundo o bem e, portanto, ordenadamente, gradualmente, de acordo com sua própria natureza e de acordo com Deus, onde todos aqueles deleites são tomados por ele como algo que o deleita, mas que o conduz a uma harmonia, uma integração no principal deleite que é a visão beatífica de Deus.

Esta ordem do homem, parecida com a ordem que reina em Deus, nos enche de alegria, é a plena ordenação do homem com ordem a Deus. Então temos apetência do Céu Empíreo, temos apetência do Paraíso.

Mas o homem concebido em pecado original, ainda mais posto em estado de prova — aliás, eu deveria dizer na ordem oposta: posto em estado de prova e ainda mais concebido no pecado original —, ele tem uma porção de apetências que se voltam contra seu próprio ser e que se voltam contra Deus. Satisfazendo estas apetências, ele faz de si mesmo uma caricatura monstruosa. E esta obra de destruir em si a semelhança de Deus nos causa horror.

Por isso, não há nada de mais nojento — mais nojento do que isso só o Inferno — do que aquela catedral do prazer que é o shopping center na perspectiva desses homens. Porque uma vez que nós fomos concebidos no pecado original e temos além do mais os nossos pecados atuais, pessoais, que aumentaram isso, sempre que nós falamos de delícia, o que nos vem ao espírito, mais facilmente, não é a delícia da virtude, mas a delícia do pecado. E sempre que nós falamos de delícia, um desejo de pecado surge em nós. Ainda que falemos em delícia do espírito, pode facilmente surgir em nós desejo de delícia do pecado.

Esse desejo, na medida que é atendido por nós, torna‑nos nojentos. E a recusa desse desejo é uma batalha.

De maneira que um shopping center bem calculado não deveria ter ocasião de pecado nenhum e deveria apresentar apenas as coisas magníficas na medida que nos levam a Deus., uma catedral por exemplo, um castelo gótico por exemplo. Nunca é o que eles querem fazer, que leva a nós, evidentemente, a nossa vontade de pecar ao máximo e nos dá as ocasiões de praticar o pecado de todos os modos.

Não sei se eu estou me exprimindo bem.

(Todos: Sim.)

O resultado é que o festim da liberdade, igualdade, fraternidade, será um shopping center desses ou uma catedral dessas. E essa catedral é o paroxismo de tudo aquilo que é contrário a Deus, que é contrário, portanto, à ordem e que é contrário a nós.

Isso é o que eles querem fazer. Não sei se está bem explicado isso ou não.

Então, muito mais do que uma festa, vamos dizer, dos revolucionários passeando com cabeças de clérigos e de nobres na ponta das lanças, cantando ça ira e outras coisas ignóbeis; ou os revolucionários comunistas disparando contra os grão‑duques e jogando os corpos deles nos poços de petróleo ou coisa que o dera, para atear fogo, para destruí‑los; ou liquidando do modo mais infame possível a família imperial russa, numa pancadaria cruel, numa carnificina abjeta; muito mais do que isso é um shopping center desses, onde o horror é levado a todo seu extremo.

* Quando o homem consente a seu corpo toda espécie de delícia, no fim último está o gosto pela aberração

E há mais. É que quando o homem consente a seu corpo toda espécie de delícia, ele começa por gostar da delícia formosa, do bom odor, do bom paladar, etc. Mas quando ele se cansou de tudo isso, ele começa a gostar da aberração.

O gosto da aberração está na ponta. E o recôndito para os iniciados dessas catedrais do prazer é o masoquismo, é a câmara contendo toda espécie de matérias em putrefação que o homem vai cheirar pelo gosto do cheiro da putrefação e da desordem. E é toda espécie de inversão assim.

O bonito do shopping center “um romano” é um modo de fazer o homem ir correndo para o shopping center “dois romano”, que é o local das abominações e antecâmaras do Inferno. Isso é o que se dá. [Vira a fita]

é para onde eles vão levar essa gente. E é no festim da dor e dos horrores do shopping center “dois romano” que ele aparece e que ele confere ao homem uma espécie de exacerbação do gosto do horror, onde o homem começa a ser o inferno de si próprio. E é evidentemente para aí que conduz tudo que eu dei hoje à tarde.

Os senhores me dirão: “Mas por que o senhor não disse?”.

Não tive tempo! E para isso existem as reuniões complementares. Eu estou dando uma reunião complementar.

Não sei se eu consegui ser claro agora.

(Todos: Claro.)

O ponto terminal.

(Todos: Claríssimo.)

* As missas sacrílegas descritas por Huysmans

Eu me lembro que li um livro de um escritor francês, Huysmans. É um homem de origem flamenga, chama‑se Joris‑Karl Huysmans. Mas ele era escritor, considerado um dos grandes literatos da língua francesa do século passado. Acho que a memória dele está muito esquecida dos franceses de hoje, mas ele foi tido como um grandíssimo literato no tempo dele. E ele descreve a conversão dele.

São livros que a gente não pode ler, a não ser o “L’Oblat”. Pode‑se ler, os outros não pode. Mas era “Là‑Bas”, no tempo que ele era satanolatra. Depois “En Route”, quando ele começa a conversão dele e melhora, enfim, sai da impureza, etc. e tal. Depois tem “L’Oblat”, quando ele vive nos anexos de um convento beneditino ordenado, onde se cultiva a liturgia, e ele tem então o gáudio da liturgia, das coisas santas, etc…

Mas no “Là‑Bas” ele conta que ele era um homem completamente ateu e foi levado por amigos a assistir uma missa de um padre satanista, um padre apóstata que ficou satanista. E ele descreve essa missa, missa negra. Então a missa é um horror, que nos dá a idéia do que seria esse culto nessas “catedrais” com “dois romano”.

Há algumas coisas tão sacrílegas, que eu não posso nem dizer, mas a certo momento a Igreja está cheia de imagens, aquele tipo de igreja daquele tempo, como deve ser, com aquelas capelas laterais, com as imagens, depois no centro uma imagem, um altar, naquele altar que é o altar-mor havia um crucifixo. As imagens todas do altar em posição erótica ou ridícula, esculpidas e feitas em posições eróticas e ridículas, mas de santos da Igreja Católica, de maneira que constituíam blasfêmias contra esses santos.

A igreja cheia de gente deformada, tarada, esquisita, contorcida, nevropática, etc. E a certa hora, hora marcada para a missa entrar, parece que era meia-noite, bate o sino, como nas igrejas católicas, entra a missa. Entra um padre verdadeiramente padre, a missa começa a celebrar‑se e os que estão ali dentro começam a uivar, a ladrar, ter espasmos de blasfêmias, etc., mas que chegam às contorções mais repugnantes à medida que a missa se aproxima do santo sacrifício, quer dizer, da consagração.

Então à medida que chega, o sacerdote vai celebrando, mas ele diz que ele achava que era um sacerdote que tinha um certo fundo de horror ao ato que ele estava praticando, porque quando chega no Sanctus, mas que é então um maledictum, eles cantam tudo ao revés, eles fazem da missa uma blasfêmia, quando chega no momento do Sanctus, mais ou menos, o padre começa a transpirar. E quando chega a hora da consagração o padre está lívido e aterrorizado com o que ele mesmo está fazendo, mas vai fazendo.

Ele conta então que nessa hora a igreja, que tem toda a configuração de uma igreja católica, mas não era na rua, era no centro de um quarteirão e se entrava por uma casinha de ar normal, era num parque, num jardim, no miolo do quarteirão, as pessoas que estão lá se entregam então à volúpia, a cenas de bacanal, a gargalhadas, a estridências, a cambalhotas, a coisas grotescas de toda ordem para injuriar o sacrifício da missa que está sendo celebrado.

Depois chega a comunhão. Então o padre, aquele mundo de bandidos, de réprobos, de tarados, o padre distribui para cada um a comunhão, eles comungam sacrilegamente, no meio das blasfêmias. E eles levam o número das hóstias que querem para injuriar essas hóstias em casa, para profanar, para distribuir para outros que farão a profanação também.

Depois a missa termina, então naturalmente aquilo, aquele efeito, vai passando um pouco, depois começam a sair da casa.

Mas ele saiu com a sua conversão começada, porque ele disse o seguinte: “Esta gente que faz isso assim odeia o que na missa se passa, mas acreditam que na missa se passa o que eles odeiam. Essa gente, portanto, tem Fé. E se esta gente que levou o ódio ao máximo tem Fé, é porque essa Fé é indiscutível”. Está muito bem raciocinado.

Por causa disso começa a conversão dele.

Esses shopping center devem ser vistos assim. Quer dizer, os senhores devem imaginar padres católicos ou da I.O., mas padre com o poder de consagrar, que vão lá e que consagram no meio de todos os horrores, de um ambiente com cheiros de matéria em putrefação, com gritos, com masoquistas se flagelando, com tarados gritando, que é o epílogo de todo caminho da depravação. Porque a depravação acaba nisso. Então o lugar mais horroroso do mundo.

É a ordem que eles querem estabelecer.

Aliás, a atmosfera que as revistas deram como sendo a da revolução da Sorbonne em Paris, quando saíram da Sorbonne e que puderam entrar lá, era inteiramente essa: é um lugar de todos os horrores, dos remédios mais degradantes, dos homens que satisfizeram as suas necessidades ali mesmo e ninguém limpou, de coisas que puseram nas estátuas de homens célebres, debicando desses homens. Era uma espécie de manifestação de civismo negro, do civismo de cabeça para baixo. E foi isso que fizeram.

É isto que tem nesses centros pornô! No mais alto grau! Como não odiar?

É a conseqüência da liberdade, da igualdade, da fraternidade! Quer dizer, quando as seitas calvinistas e quacker acabaram com os últimos padres, quando os protestantes profanavam hóstias e relíquias em cerimônias públicas inenarráveis, quando os anabatistas e aquelas seitas mais radicais se entregaram às desordens mais horríveis. Durante as exacerbações do terror na Revolução comunista russa, etc., as coisas foram desse gênero, caminhando para este ponto, este é o desaguadouro de todas as revoluções.

É a Revolução interna no homem e o homem de cabeça para baixo. Aí claramente guiado pelo demônio, aí não tem computação nem nada, lá vai direto!

Não sei se está claro.

* Entre os vários aspectos que a virtude tem, uma há que causa horror: é a virtude enquanto raciocinada, obedecendo com entusiasmo às leis da lógica e tirando conseqüências que se impõe ao homem como uma regra de proceder

Meus caros, um pouco de tempo ainda me resta, se tiverem mais uma pergunta a fazer.

(Sr. Wellington Dias: “Pugnemos pro Domina”!)

Meu caro Wellington!

Uh, duas horas! É muito mais tarde do que eu imaginava, resta‑me muito pouco tempo.

Diga, meu caro Wellington!

(Sr. Wellington Dias: Dentro deste quadro que o senhor deu agora e…)

Isso não estava claro na reunião da tarde?

(Sr. Wellington Dias: Eu não estava na reunião da tarde, os outros podem dizer…)

Bem, não vou fazer perguntas indiscretas. [Risos]

(Sr. Wellington Dias: O que seria essa manifestação mais protuberante, nova, do polo do bem que, por assim dizer, angelizasse a face da terra, ou aqueles chamados a seguir o senhor, colocando as coisas nos termos para a guerra dos profetas?)

Hummm! [Risos]

Eu naturalmente estou sempre tomando a palavra profetismo no sentido “Réfutation”, o que é evidente.

Há uma focalização do assunto que é assim: aquilo no que eu encontre maior obstáculo em exercer a ação que eu devo, é aquilo que mais tem que ser derrubado e aquilo em que nós devemos mais brilhar.

Ora, em que ponto eu encontro maior obstáculo no exercer a ação que eu devo? Isso é de um modo eminente nos que estão fora do Grupo, mas para usar uma linguagem florida, é de algum modo em muitos dos que estão dentro do Grupo. Isso tudo é florido, hein?

É o seguinte: entre os vários aspectos que a virtude tem, os quais se aceitam facilmente — lá fora não se aceita ou se finge que não aceita, etc. —, há um aspecto que causa horror, é a virtude enquanto raciocinada, lógica, obedecendo com entusiasmo às leis da lógica e tirando daí conseqüências que se impõe ao homem como uma regra de proceder, que, seja dura como for, o homem obedece. E obedece ainda que não queira e com especial empenho quando não lhe é agradável. E mais ainda: com uma forma de vigilância e de cautela por onde ele, naqueles pontos onde lhe é mais difícil obedecer, ele obedece com uma solicitude e um requinte muito maior do que nos pontos em que lhe é fácil obedecer, porque ele sente que ou ele se coloca nessa posição, ou ele degringola inteiro.

Isso supõe um estado de espírito de elevação habitual, de descaso habitual para o que é inferior, de severidade e discernimento entre a verdade e o erro, o bem e o mal, o pulchrum e o feio, contínuo, inflexível, que chega até as últimas minúcias e que faz desse homem fundamentalmente um batalhador.

Isso assim posto as pessoas não gostam porque sentem a contusão com seu defeito principal. Mas não é só por isso. É porque têm uma espécie de antipatia fundamental, uma espécie de preguiça fundamental de viver nessa espécie de sacrossanta tensão.

Aqui está o ponto! Isso supõe uma tensão. Não no sentido de tensão nervosa, mas um tender — a tensão vem de tender — intencional, constante, para certos pontos que forma a vida da vida. Isso as pessoas não querem.

É verdade que a virtude não se reduz a isso, ela comporta a atração de toda verdade, de todo bem, de todo pulchrum. E a posição do homem colocado diante da verdade, do bem e do pulchrum não é só essa posição, não se reduz, quero dizer, a essa posição de severidade que acabo de falar, mas comporta muitos gáudios de alma, muitas doçuras da alma, muitas prelibações do Céu. Comporta tudo isso, é bem verdade, mas é sobretudo verdade que isso que nós fazemos facilmente, nós não temos tanto para estar velando, que é no difícil que se discerne o verdadeiro amigo de Deus.

Há um provérbio romano que é um pouco um jogo de palavra e que diz o seguinte: “Amicus certus in re incerta cernitur — O amigo certo se conhece nas horas incertas”.

Também com Deus nós somos conhecidos por amigos d’Ele. Não quando Ele nos oferece coisas que nos atrai. Aí nós vamos com facilidade! Mas é na ocasião incerta, quando Ele nos oferece a cruz, oferece a dor, ascese, a mortificação, o sofrimento, a batalha, o martírio. Esse que aceita se revela amigo certo.

Amizade não é só isso, mas é aí que a marca, o timbre, se faz discernir o amigo certo. Portanto, é o ponto de insistência de nossa vida espiritual.

Isso as pessoas não querem! Não querem, não querem, não querem! Daí o “nó” com a hierarquia, daí o “nó” com tudo quanto é sério, o “nó” com quem é o contrário a viver na brincadeira, a viver no otimismo, a viver na irreflexão, na inconseqüência, achando que tudo isso não tem nada. Tudo isto participa desta repulsa contra esse traço.

Logo, o Grand‑Retour tem que ser uma posse eminente, esplendorosa, mas quão severa, séria, forte e majestosa desse estado de alma.

* Em tudo o que o Fundador faz transparece a convicção de que tudo está sujeito a um Deus, a um Rei, a uma regra e uma lei

Para terminar, os senhores todos — não há um que se excetue aqui, eu digo isso não porque me contaram, com muitos dos que estão aqui eu nunca conversei em particular, mas eu digo porque eu sei que é, noto que é, é normal aliás que seja, normal dentro da triste condição do homem [que] foi concebido no pecado original — de vez em quando tem um “nó” comigo, uma dificuldade comigo ou uma aridez comigo. Vão procurar no que é que está isso… porque eu estou puxando por esse lado. Isso não escapa! No fundo é isso.

Poderá ser um que tem implicância com minha voz, outro que tem implicância — eu ia dizer, por esse lado não podem mais implicar comigo — com meu modo de andar, outro que tem implicância… não sei, com qualquer outra coisa, o meu modo de abrir a porta ou de fechá‑la. Vai ver o que é que é, é que em tudo isto transparece a convicção de que tudo está sujeito a um Deus, a um Rei, a uma regra e uma lei.

Em mim há um revoltoso que eu tenho que segurar pelo pescoço e reduzir às suas algemas continuamente. Isso há nos outros, até o último momento de minha vida isto haverá em mim, e eu tenho que estar causticando e esbofeteando esse, sem mercê nem trégua, do contrário esse toma conta de tudo. Mas o esbofeteamento que eu me dou em mim tem que dar nos outros também, desde que eu note nos outros o mesmo defeito. E agora vamos para a luta! Não e não!

Então, o Grand‑Retour tem que ser isso eminentemente.

Meus caros… há pouco foi‑se a reunião, agora foi‑se a conversa, foi‑se o dia e ficou no passado. Já-já estamos todos em condições de prestar contas por isso. Já-já… agora! Nós fomos bastante sérios para prestarmos as contas já? Tivemos bastante severidade conosco para dizer já: “Eu agora na reunião fui assim, fui assado, acompanhei o tempo inteiro, analisei‑me com olhar implacável do juiz que não mente para si mesmo nem mente para aquele a quem julga”?

Eu fui esse ou eu me olhei molemente, não quis olhar até o fim, não me julguei e, no total, eu que deveria ter andado esse dia inteiro na presença de Deus — isto é andar na presença de Deus —, eu cambaleei tropeçando sobre os meus próprios pés e rolando de cá, de lá e de acolá. Por que foi? Porque esta seriedade me repugna.

Esse é o Grand‑Retour, é quando ouvindo palavras assim as pessoas se extasiarem de alegria e transbordarem de simpatia. Aí é o Grand‑Retour.

Meus caros, vamos andando. Vamos rezar três Ave‑Marias a Nossa Senhora e um Sancte Michael pela ação do nosso João.

Há momentos minha Mãe…



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