Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1andar) – 13/3/1982 – Sábado [RSN 030] – p. 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1andar) — 13/3/1982 — Sábado [RSN 030]

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Deus atende nossas orações com imponderável clemência: estabelece mediadores além de Maria, mas por vezes é inflexível em seus desígnios, como no Horto * Não é pelo critério do supérfluo que podemos distinguir o possível do impossível, mas por toques internos da graça * Há um trato da alma com Deus que ajuda a discernir o limite do cálice de dor que precisamos beber e a sentir a justiça divina falar dentro de nós * Uma intercessora pode fazer recuar a justiça em favor da misericórdia, por puro amor materno e até em bagatelas, como a mártir que temia a pantera — Na dúvida, pedir sem cessar * Cumpre desejar com ardor que nenhuma graça seja perdida aceitando as perplexidades, que compreendemos melhor quando é o outro que está em causa * É preciso cuidado extremo em voto e oferecimento de qualquer espécie, desde vítima até confiança * Com intercessora tão especial, a justiça de Deus recua ao mínimo — Não podemos pôr nosso arbítrio no que Nossa Senhora manda * Deus põe certas mediações, além da necessária de Nossa Senhora, e não podemos fazer uso mole e desatento delas como temos feito

* Deus atende nossas orações com imponderável clemência: estabelece mediadores além de Maria, mas por vezes é inflexível em seus desígnios, como no Horto

(Dr. Marcos: Em primeiro lugar foi dito, ou melhor, inicialmente foi dito que nós estamos num navio que já zarpou do porto. Quer dizer, nós já encontramos o nosso caminho, com a graça de Nossa Senhora, que seria a devoção e Ela, em tudo e por tudo. Mas restavam uns aperfeiçoamentos a fazer nas relações de todo dia. Sobre isto é que versou a conversa. Surgiu então uma dúvida, que é a seguinte:

Foi dito numa conversa anterior que, por imperfeição nossa, nós só recorríamos a Ela quando a corda estava no pescoço, quer dizer, em última instância. Isto ocorreu comigo.

Resolvemos fazer um pedido quando a corda não estava no pescoço e não foi atendido. Então, sugiram algumas versões para explicar o fato, e uma delas é a seguinte: que nós pedimos com bastante veemência quando a corda está no pescoço nosso. Então, queríamos uma confirmação do senhor para melhorar este relacionamento.)

O tema é muito compreensível, muito explicável etc., mas muito difícil de a gente desenvolver bem, porque há dentro disso um imponderável. Mas eu dou daqui a pouco a questão.

Tomando em princípio, uma pessoa, uma intercessora, como é o caso dela, representa, em determinadas circunstâncias históricas sobretudo a fina ponta da misericórdia de Nossa Senhora.

Quer dizer, Deus deu tudo a Nossa Senhora. Tudo o que Ele dá, Ele dá a Ela e por meio d’Ela dá a nós. Mas Ela pode escolher de dar certas graças por meio de X que é quem ela quer dar as suas graças mais eleitas, por razões da Providência.

Em última análise, é bem entendido que o que está em jogo é a clemência de Deus. E a clemência de Deus tem um limite até o qual ela se deixa levar pela oração, e até quer ser levada pela oração. E exige, deseja a oração empenhada, ardente, deseja até que se faça violência à Providência, para ser atendida. Ela tem alegria em que se lhe faça violência. É Jacó com o Anjo e tantas outras coisas desse gênero. Os anjos das nações que discutem ao pé de Deus e tanta coisa desse gênero.

Mas depois há uns certos pontos que correspondem a um desígnio superior de Deus, no qual Deus não se deixa flectir, no qual Ele não faz concessão e aquilo Ele cobra da criatura humana.

A gente vê isso bem na agonia: “Se for possível, afastai de mim este cálice, mas faça-se a vossa vontade e não e minha”. Quer dizer, o “se for possível”, que sentido tem esta cláusula, quando a gente se dirige ao Onipotente? E quando é uma Pessoa da Santíssima Trindade que fala com as outras, que sentido tem essa cláusula? Mais ainda: quando é a humanidade d’Ele que pede à sua própria divindade, como as três Pessoas da Santíssima Trindade, que sentido tem essa cláusula?

Deixa evidentemente ver que havia um superior desígnio de Deus de que Ele fosse morto porque era o Messias, o Redentor que tinha que se imolar, etc. O instinto de conservação, a tristeza diante do que vinha, levou-O, na sua humanidade, a pedir. Mas Ele mesmo sabia que se esbarrasse no impossível, Ele não obteria nada.

* Não é pelo critério do supérfluo que podemos distinguir o possível do impossível, mas por toques internos da graça

Como é que nós podemos distinguir o possível do impossível?

A gente diria que é esse critério do necessário e do supérfluo. Ora, isso não é verdade, porque há uma porção de situações espirituais e de vias da Providência, pelas quais Ela dá o supérfluo largamente, e outras situações em que o que pareceria necessário Ela não dá, mas ela aumenta a capacidade da pessoa de enfrentar a coisa, que foi o que se deu na Agonia: veio um anjo e deu a Ele aquele cálice que O consolou. Consolou etimologicamente, quer dizer, deu força. Aliás, é como se interpreta: deu força e Ele para sustentar o que vinha.

Portanto, não é por aí que se distingue quando é que um pedido da gente esbarra no impossível ou não esbarra, o que acaba desfechado nEle.

Quando é que Ele atende ou não atende?

De proche en proche — não há proche en proche aí —, de insondabilidade em insondabilidade, toca em Nossa Senhora. E de insondabilidade à infinitude toca no próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.

É esse problema que está em cena. E isso não sei se estou me exprimindo com clareza ou não.

(Todos: Está claro.)

O problema é tão tenebroso, que os livros de piedade tradicionais não se pode dizer propriamente que eles… eles nunca dizem o contrário do que estou dizendo, mas não enfrentam o problema assim. Ora, o problema é este e não outro. Então, nós devemos analisar o problema assim.

(Sr. Poli: É um problema santíssimo)

Santíssimo, lindíssimo e fundíssimo.

Agora, como é que nós resolvemos o problema? Isso tem que ter solução.

A graça, por determinados toques interiores discretíssimos, dá-nos a entender — eu daqui a pouco vou dizer como — que devemos esperar uma coisa e devemos esperar outra, ou ás vezes nos deixa no escuro. E nós temos que ter uma conduta para cada uma das três hipóteses.

Como é que a graça nos dá a entender isso? De mil modos.

Há, por exemplo, situações em que a gente se sente tão atraído a pedir, e são as melhores apetências e energias da gente que sentem-se atraídas a pedir, que é sumamente provável que a gente seja atendido. Às vezes leva tempo, etc., mas é sumamente a provável que se seja atendido.

Há outras ocasiões em que o infortúnio, a decepção, a provação caminham de encontro a nós e nós mesmos temos uma misteriosa intuição de que aquilo é um cálice que é preciso beber. E a gente, então, tout court pede para o cálice se desviar, mas recebe forças para enfrentar.

* Há um trato da alma com Deus que ajuda a discernir o limite do cálice de dor que precisamos beber e a sentir a justiça divina falar dentro de nós

Quais são os modos pelos quais a graça dá a entender que é o caso de enfrentarmos, de bebermos o cálice? O cálice da dor, não o cálice do Anjo.

Há momentos em que a gente sente a justiça divina falar dentro de nós do seguinte modo:

A gente sente a superabundância do que tem em certo campo, superabundância de saúde, disso ou daquilo que está sobrando, e raras vezes a pessoa sente a superabundância de dinheiro. Mas é por falta de franqueza consigo mesmo, porque muitas vezes também a pessoa se prestar atenção vê que o dinheiro é superabundante. E sente, sobretudo, dentro de si uma espécie de rejeição de sua própria moleza e de sua própria podridão, com uma sensação de que é só sofrendo que aquilo se corrige. Aquilo precisa de uma cauterização. Isso muitas vezes na vida a gente sente. E a gente chega até a desejar a dor, a desejar sentir de um modo dolorido o contraste entre a superabundância e nossa moleza e aquilo que precisamos expiar. Então, nós temos uma vontade da dor que nos faz muitas vezes até pedirmos a dor — não só não pedir para que não venha, mas até pedir para que venha — e vem a dor.

Naturalmente, durante a dor, às vezes a pessoa acha que está sendo atendida um pouco demais, ou muito demais. Também depende. Mas uma pessoa que nessa situação pedisse para não vir aquela dor, aquela pessoa seria infiel e não seria atendida. O pior é se fosse atendida. Quer dizer, a infidelidade é tão grande, que a pessoa pede a Deus dá. Mas não redunda em bem para a pessoa.

Eu conheço senhores que em situação de aflição disseram, por exemplo: “Eu prefiro perder meu filho a que tal coisa aconteça”. Vai e morre o filho.

Ahhh!

Como?! Você não disse a Deus?!

Ahhh!

Tarde acordaste. Você pediu ou não pediu? Deus te levou o filho.

Quer dizer, há todo um trato interno de alma com Deus, um modo de se ver a si próprio, uma porção de coisas assim, que conduzem a pessoa a muitas vezes discernir o que lhe convém.

* Uma intercessora pode fazer recuar a justiça em favor da misericórdia, por puro amor materno e até em bagatelas, como a mártir que temia a pantera — Na dúvida, pedir sem cessar

Quando se trata de uma intercessora que se põe nas condições em que ela se põe, nós percebemos que se não fossem as orações dela, normalmente não teríamos o que estamos recebendo, e muita coisa a justiça divina nos cobraria — que não nos cobra — por causa dela.

E ela recua os limites da justiça em favor da misericórdia — bem entendido, não pode suprimir, porque há o tal arcano de um todo além do qual Deus não se deixa levar, até para a oração do filho d’Ele — para nos adestrar, para tudo, inclusive por mera clemência. Muitas vezes, por meio de uma intercessora assim, nós somos atendidos até em bagatelas, simplesmente por amor, como uma criança que é atendida por sua mãe por bagatelas. Pede uma bagatela, a mãe dá, por amor.

Mas isso deve robustecer a alma em certas situações, para agüentar algo que está na ordem das coisas.

Para nós compreendermos bem a complexidade do que eu seria tentado a chamar de jogo, eu lembro aquele caso de uma mártir que foi para a arena e que tinha pânico de morrer devorada por pantera. Ela estava disposta a qualquer forma de martírio, mas de pantera ela tinha pânico. Ela assim mesmo foi para a arena onde, entre outros bichos, soltavam a pantera. E o pessoal viu uma pantera se desviar dela e ele ser comida por outro bicho.

Quer dizer, Deus lhe deu a coragem de enfrentar o martírio, mas não lhe deu coragem de enfrentar pantera, e quis que ela fosse para a arena com a confiança de que aquilo em que ela não era capaz, a Providência proveria. E a pantera se desviou dela.

É uma das coisas mais tocantes que eu conheço que eu em matéria de oração.

Não sei se estou claro no que estou dizendo.

(Todos: Sim, claro.)

Uma pessoa poderia me dizer: “Dr. Plinio, eu quero tudo, já e para sempre”. Eu digo: Meu filho, esse é exatamente o arcano. Nesta vida não pode ser. Tudo não pode ser. Tem uma cota de sacrifício que é preciso pagar. Só se quiser morrer já e ir para o Céu já.

Nós sabemos que isto é um vale de lágrimas. Para sempre, no Céu, aqui as coisas são contínuas.

Quando a gente está na dúvida, como é que deve fazer?

Na dúvida, a gente deve pedir, pedir, pedir, pedir sempre, pedir tudo e pedir para já. Se não for atendido, a gente terá chegado até o limite do atendível. Porque a gente pediu tanto, que chegou até o limite. No limite, que venha um anjo e nos dê força, porque não há outra coisa para dizer.

Bagatela, a gente deve pedir? Largamente. Mas devemos compreender que nós não podemos ser atendidos em toda bagatela que peçamos. As bagatelas têm um papel nos desígnios da Providência. Dando a bagatela, a Providência quer nos mostrar o quintessenciamento materno que existe no amor de Nossa Senhora. Por causa disso devemos pedir bagatelas, que exigem da solicitude de uma mãe.

Eu não saberia dizer outra coisa.

Vejo-os ficarem muito pensativos com o que eu estou dizendo.

Por que ri, meu Fiúza?

(Sr. Fiúza: É tanto que a gente precisa, que…)

É, é preciso de uma infinitude de coisas. Por isso, creio que é São Paulo que diz: “Oportet semper orare et non deficere — É preciso rezar sempre e nunca parar, não cessar”. Pedir, pedir, pedir. Quando nós chegarmos ao Céu, pelo favor d’Ela, veremos que na terra muita coisa sofremos, que não era para sofrer porque não pedimos.

* Cumpre desejar com ardor que nenhuma graça seja perdida aceitando as perplexidades, que compreendemos melhor quando é o outro que está em causa

Eu concluo com aquela aparição de Nossa Senhora na Rue du Bac, com o anéis. Conhecem a história, não é? Diz tudo. Eu não quereria de nenhum modo que aquela pedra do anel de Nossa Senhora ficasse fosca a meu propósito, no que eu pude pedir e não pedi.

Eu acho que é uma forma de oração muito boa que se pode fazer a Nossa Senhora — querendo, por meio de mamãe — é isto: “Minha mãe, que nenhum de vossos anéis esteja apagado a meu respeito!”. Compreende-se bem.

Nossa Senhora pode de fato fazer delicadezas exquises. Agora, que de vez em quando vem a cruz com suas austeridades sobre nós, é claro.

O que é terrível é que nós compreendamos isto sempre bem quando se trata do outro. Quando se trata de nós é que fica difícil.

(Sr. Poli: A doutrina ou a necessidade de pedir?)

A doutrina toda.

Se, por exemplo, acontecer um infortúnio para outro… Vamos dizer que nós dois estejamos conversando sobre um infortúnio que aconteceu a um terceiro, eu lhe digo: “Aconteceu por causa disso, logo ele está em caso assim”, dirá: “Sim, claro”. Se fosse consigo: “ Bem, a doutrina está muito clara, mas afinal…”.

É o homem!

Meu Guerreiro está assim tão cheio de elucubrações e coisas. O que é que é?

(Sr. Guerreiro: Estou tentando assimilar o que o senhor está dizendo. O senhor abre tantos quadros e tantos panoramas!)

Mas é preciso.

(Sr. Poli: Sobretudo eu tive impressão de ter entrado, pela palavra do senhor, num ambiente sagrado, numa consideração sagrada. Está muito santo, muito em ordem, muito bonito, muito nobre.)

Você imagine que Nossa Senhora tivesse sabido de antemão — é claro que Ela não soube — que o Menino Jesus ia desaparecer durante a volta do Templo de Jerusalém e que Ela tinha que passar por aquela aflição. Se Ela não fosse Ela, de uma excelsitude inimaginável, Ela poderia ter pedido para não acontecer aquilo.

Já imaginaram se São José tivesse previsto a perplexidade dele, se ele não teria pedido para não ter aquilo? É claro, ele não faria mal em pedir, mas se acontecesse uma coisa do gênero, fiat! Que dizer, compreende-se.

Às vezes o próprio paciente não entende. Mas a sabedoria do caso salta aos olhos dos outros.

(…)

* É preciso cuidado extremo em voto e oferecimento de qualquer espécie, desde vítima até confiança

(Sr. Fiúza: … conversar com uma pessoa, ele disse que tinha feito isso condicionalmente, mas que esta pessoa estava em tal apuro, que ela pensou o seguinte: que ela tinha que ter uma superconfiança em Nossa Senhora para poder resolver as coisas dela, e por intermédio da intercessora que Nossa Senhora tinha dado.

A situação do mundo é de tal maneira, levando em consideração essa questão da cibernética, cerebrática, depois de tudo tão perdido que ele via, que ele falou o seguinte: como existiam os três votos, pobreza, obediência e castidade, ele ia fazer um outro voto, que era o voto de confiança. Ele ou tinha uma tal confiança na linha do voto, ou senão nada ia para a frente. […] Ele disse que depois que fez isto as coisas foram mudando.)

Eu sem conhecer o caso concreto não ousaria aprovar o voto. Num caso muito concreto, muito especial, talvez. Às vezes a gente vê que é uma moção da graça. Aí talvez. Mas é preciso tomar muito cuidado. É preciso tomar muito cuidado.

(Sr. Fiúza: Não sei porque a pessoa veio me dizer isto, mas ela disse que ela mesma ficou com medo: “Eu faço tal voto de confiança, depois podem vir tais e tais provas! Porque eu faço um voto de confiar, inclusive não perder a calma. A situação pode estar preta que eu não vou perder a calma”. Na hora de fazer tal voto de confiança, veio um grande temor: “Vai desabar tanta coisa em cima de mim!”.)

Pode ser.

Sabe que os diretores espirituais tradicionais — os de hoje nem se menciona, acho que nem falam sobre essas coisas aos penitentes nem nada — recomendavam muito que a pessoa não fizesse, por exemplo, oferecimento de si mesma como vítima expiatória sem muita certeza, porque sendo feito de modo meio imaturo, a Providência colhe, descarrega e a pessoa não está preparada.

Foi uma imaginação da pessoa, uma imaginação orgulhosa. É preciso ter muito cuidado nessas coisas. Portanto, no voto de confiança também.

As pessoas se enganam muito. Inclusive sobre os movimentos interiores se enganam. Eu mesmo vi uma coisa no Grupo.

Um membro do Grupo sério e de muito bom thau fez o seguinte:

Eu uma vez estava num lugar e me chegou este membro do Grupo, ofegante, e me disse:

Olhe, sobre Fulano do Grupo pesa a suspeita de estar com tal doença assim, gravíssima, e ele está fazendo análise, etc. Eu venho comunicar ao senhor que tive uma moção da graça que me revelou que ele tem mesmo essa doença. Eu assisti a entrada dele na sede X, tal dia assim, e ele entrou com tanto orgulho e se pavoneando de tal maneira, que eu nesta hora tive um flash da Providência enunciando-me que ele ficaria doentíssimo e morreria. Agora está acontecendo, eu queria avisar o senhor.

Eu disse:

Está bom, meu caro. Vamos ver os fatos — isso há vários anos atrás.

Para resumir, a pessoa está aí inteiramente sã, como também o falso profeta está inteiramente são. Ele se enganou a respeito do movimento da graça, mas percebia-se que ele era movido por certa rivalidade com o outro. E a gente compreende como uma rivalidade possa chegar a um delírio desses.

Meu Marcos. O que é que é, meu Marcos?

(Dr. Marcos: Estamos encantados com os horizontes que se abriram aqui.)

* Com intercessora tão especial, a justiça de Deus recua ao mínimo — Não podemos pôr nosso arbítrio no que Nossa Senhora manda

Eu volto então a dizer: às vezes Nossa Senhora, acendendo no nosso firmamento uma intercessora tão especial, decidiu recuar os limites de Deus, da justiça de Deus, até o estrito limite do mínimo, e para glorificar essa intercessora secundária Ela concede tudo por meio daquela, faz ajudar, etc., e se a gente não pedir por meio daquela não obtém nada.

(Dr. Marcos: Isto ficou claro outro dia.)

Bom, então está dada a doutrina. Qual é o outro ponto?

(Sr. Poli: Observando a vida dentro do Grupo — minha vida pessoal, mas também vejo que é a dos outros — cheguei à conclusão de que os melhores movimentos nossos só têm uma condição de perseverarem no bem e não se desviarem para coisas ruins, e até muito ruins, se forem através de Da. Lucilia. Por exemplo, se a gente inventa de fazer uma adoração ao Santíssimo Sacramento, que é uma coisa de si excelente, mas não fizermos através de Da. Lucilia, a gente sai…)

(…)

inteiramente ortodoxo que isto seja assim e os sinais… quer dizer, ortodoxo que seja, mas poderia também não ser. Não é como a devoção e Nossa Senhora, que não pode não ser. Poderia não ser. Mas os sinais que você dá falam muito a favor da idéia de que é. Logo, é legítimo que você tenha a certeza de que é.

(Sr. Poli: Eu desejo que o senhor diga um pouco a respeito disso: isso não favorece uma obrigação de responsabilidade nossa para sermos o que devemos ser em relação ao senhor, para cumprirmos nossa vocação que é através do senhor, sermos pedras de Reino de Maria, termos a devoção a Da Lucilia numa outra clave, numa outra situação? Quer dizer, não é apenas, ou melhor, não passa a ser apenas um problema pessoal, mas um problema de responsabilidade.)

Eu acho que é como você diz, porque se a gente forma com maturidade, com propósito a convicção interior de que isto é assim, a gente não tem o direito de recusar o que Nossa Senhora manda.

É como uma rainha a quem a gente pode socorro e ela manda que alguém da corte desça num barquinho para nos pegar. Ela está num navio e nós estamos no mar. Nós não podemos dizer: “Eu quero chegar até aí, mas não dentro desse barquinho”. Não pode. Ela mandou esse barquinho, mandou aquela pessoa para nos ajudar, nós temos que tomar esse embarcação. Não podemos pôr nada de arbitrário dentro disso.

É o que nós devemos fazer.

(Sr. Poli: Seria pedir muito o senhor dizer como a coisa?)

É isto, eu estou confirmando.

* Deus põe certas mediações, além da necessária de Nossa Senhora, e não podemos fazer uso mole e desatento delas como temos feito

(Sr. Poli: Gostaria que o senhor discorresse sobre isto, e o que eu disse todo atrapalhado o senhor dizer certo.)

O que eu posso fazer é o seguinte: você me faz uma pergunta, eu posso responder. Se você quiser, eu posso até formular sua pergunta e formular sua resposta. Nessa matéria eu sou obrigado a toda veracidade, mas a uma certa sobriedade. É o que me toca e, portanto, eu não posso estar estimulando.

Aliás, a resposta que eu dei à anterior pergunta, neste ponto sobretudo, foi muitíssimo sóbria também. Uma resposta ampla, eu dei muita doutrina junto com a resposta, mas sóbria. Aqui também eu digo o mesmo.

Você me perguntou o seguinte: “Uma vez que os fatos nos fazem ver que nós não conseguimos a perseverança dentro do Grupo sem a intercessão dela, há razões para temermos que não tomemos isso tão a sério quanto deveríamos tomar, e que por causa disso recorremos a essa intercessão, sempre tão poderosa, de um modo relaxado, bissexto ou qualquer coisa assim. Nós queríamos da parte do senhor uma palavra que nos ajudasse a recorrer ordinariamente, comumente, a todo propósito a esta intercessão. O senhor poderia dar essa palavra?”.

Essa palavra eu dou sem fazer nenhuma indicação de intercessor ou intercessora, eu dou em tese. Em tese é:

Nossa Senhora é a medianeira necessária de todas as graças. Já foi mil vezes dito entra nós, necessária nesse sentido: que é porque Deus quis que Ela fosse. Não estava na natureza de Deus — portanto, na natureza da Criação — que Ela fosse essa Medianeira universal. É uma coisa que poderia ser ou não ser. Deus quis que fosse. Mas a vontade d’Ela é soberana. Ele quis que fosse, está acabado, é. Então é necessária. Dessa mediação, nenhum homem pode prescindir sem ir para o Inferno.

Agora, há muitos outras mediações dentro da riqueza inesgotável da Igreja Católica, há muitas outras mediações às quais nós podemos recorrer ou não recorrer. São incontáveis.

Por exemplo, as pessoas que nós sabemos, de nossas famílias, que morreram em estado de graça, por exemplo, porque morreram sem atingir a idade da razão, foram batizadas e morreram sem terem atingido a idade da razão, nós sabemos que essas pessoas estão no Céu. Nós podemos rezar a elas? Podemos! Até que ponto devemos? Aí depende muito de uma moção da graça, de um movimento interior, qualquer coisa assim. Genericamente devemos confiar na intercessão delas. Sabemos que rezam por nós, nós devemos confiar. Mais do que isso não.

Há tantas outras situações assim que são incontáveis.

Por exemplo, eu tenho rezando mais de uma vez ao Bem-Aventurado Pe. Anchieta, por uma porção de razões. Mas nunca fiz propaganda disso, porque é uma coisa muito pessoal. Eu vejo que um outro pode, por exemplo, ser mais levado a rezar aos quarenta mártires, ou rezar diretamente a Nossa Senhora.

O que não pode é rezar a Deus Nosso Senhor, abstração feita de Nossa Senhora. Ele pode não mencioná-La na oração, mas tem que saber que Ela é a medianeira que vai tomar sua oração grata a Deus Nosso Senhor.

Assim eu respondo que a Providência poderia pôr ou não pôr certas mediações para nós. Ela pode tomar uma determinada alma e atender muito as orações dessa alma por nós, e fazer-nos ver assim que é grato a Ela que aquela alma seja glorificada daquela maneira.

Nós temos obrigação ou não de recorrermos a essa alma?

Temos. Se se forma em nós, como autoridade, essa certeza, nós não podemos não recorrer. Daí vem o exemplo da rainha que está a bordo de um navio que manda alguém com um barquinho, etc. Foi o exemplo para ilustrar isso.

Dirá alguém: “Mas nós fazermos o devido uso disso?”.

Acho que não. Acho que tudo isso se faz, de nossa parte, meio enjolraticamente ou geração-novescamente.

(…)

Quer dizer, em doutrina é o que eu posso dizer.

Agora, isso em doutrina impele muito. Não impele muito a sensibilidade, mas as coisas que falariam à sensibilidade, sobre esse tema, eu não posso falar.

(Sr. Poli: Como assim? Não entendi.)

Sobre este tema, que impele a sensibilidade, eu não posso dizer, pela necessidade de ser sóbrio.

Não sei se está claro.

(Todos: Claro.)

Então, meu coronel, qual a outra pergunta? Vocês têm outra?

(Sr. Poli: Este tema é tão sugestivo, que eu gostaria que o senhor falasse mais um pouco.)

(…)

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