Conversa de Sábado à Noite – 27/2/1982 – Sábado – [AC V ‑ 82/02.24] . 7 de 7

Conversa de Sábado à Noite — 27/2/1982 — Sábado — [AC V ‑ 82/02.24]

As energias colocadas pela Revolução ao serviço do homem e que o vai levando para a loucura; o papel da energia elétrica nesse processo * Havendo conhecido um profeta sem igual seremos julgamos pela atitude de alma que tomamos frente ao seu profetismo * Continuar sendo “qualquer um” depois ter conhecido ao Sr. Dr. Plinio é recusar a vocação; diante do “dilúvio energético” uma atitude que corresponde a ficar fora da arca * O Sr. Dr. Plinio deixa gravar a afirmação de que é profeta e anuncia o “dilúvio energético”: a atitude de alma com que deveríamos corresponder

Índice

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* Criticando e pedindo explicações a respeito da atitude da “Manchete” e de D.Eugenio Sales contra a TFP

deputados dirão: “estamos horrorizados!”. Então CPI, etc., etc., sobre violência da TFP e tal. Então se tornava urgentíssimo escrever uma carta a D. Eugênio Sales, protestando e dizendo a ele que eu esperava só até amanhã, no horário necessário para fazer chegar nosso desmentido nos jornais.

Eu explico a ele: que eu tenho a esperança de que tenha sido algum defeito de redação, porque não posso compreender que seja de outra maneira, mas que se não foi defeito de redação, um edital publicado em nome dele violou o princípio do Direito Romano de que seja ouvida a outra parte. Então a Manchete nos acusa com as acusações mais graves e ele não ouve a outra parte e faz uma censura?!

De outro lado, eu qualifico essa atitude que a “Manchete” nos atribuiu, de burlesca e sacrílega ao mesmo tempo. Até é na ordem invertida: sacrílega e burlesca. E isso vai contra todo o passado da TFP. Portanto não se podia supor que a TFP tivesse feito uma coisa dessas. E ele quer supor.

Em terceiro lugar, ele concedendo benevolamente essa credibilidade a uma reportagem que só tem mentiras, ele envolve, estende essa credibilidade ao que a reportagem toda dá e, portanto, as graves acusações contra a honorabilidade de Dom Mayer e dos padres de Campos, uma parte do clero de Campos.

E que isso mostra bem as repercussões do comunicado dele. E que eu peço a ele que me faça chegar com urgência uma explicação sobre o caso.

Concluo que nesses casos assim quem demora para se explicar, deixa‑se suspeitar de inseguro na sua exposição e que aplica‑se aí o princípio de que, “quem cala consente, quem demora hesita”.

E é verdade mesmo! O sujeito me diz que sou ladrão e eu hesito em desmentir, não estou seguro de que não sou ladrão. De maneira que, terça‑feira, os jornais cedo tinham que ter uma palavra sobre isso. O que quer dizer: eu publico contra você se não chegar a tempo.

(Dr. Edwaldo Marques: O prazo é até segunda?)

O prazo é até segunda. Eu preciso consultar Dom Mayer porque não quero envolver o nome dele e os padres dele sem um placet dele. Já não vou consultar sobre o conjunto da coisa, só sobre esse ponto. Mas esse ponto eu consulto.

E eu quero mandar alguém levar ao Rio, possivelmente de avião. Agora, para entregar na casa dele com nota, urgentíssimo, do lado de fora do envelope. Não pegar resposta, senão me mandar um recado verbal: “diga ao Dr. Plinio que não se incomode com isso!”.

[Defeito na gravação]

Daí já aproveitei também que a “Manchete” está insistindo para nós darmos uma nota sobre a reportagem deles, e [assim] redigi a minuta de uma resposta. Mas isso tudo me tomou uma noite.

(Dr. Edwaldo Marques: Faz parte da guerra.)

Faz parte da guerra. Faz parte da vitória. É óbvio que isso tem relação com Mitterrand, isso é óbvio.

(Dr. Edwaldo Marques: Mas um nível…)

Uma guerra de punhal.

(Dr. Edwaldo Marques: E o pessoal sai da sarjeta, sai do esgoto.)

Da sarjeta! A mais baixa e suja sarjeta.

(Dr. Edwaldo Marques: Coisa de um nível impressionante.)

E que venham extirpar de um cardeal essa atitude, é uma coisa!

(Dr. Edwaldo Marques: E baseado no que a reportagem tem de mais fraco que é a fotografia.)

Eu digo na carta: de dois homens de costas, inidentificáveis e local também inidentificável, é a única prova que eles dão.

Quer dizer, uma coisa do outro mundo!

(Dr. Edwaldo Marques: Não sei se mostraram para o senhor, mas a A.P. [Associate Press ?] saiu também com alguma coisa sobre a reportagem da Manchete.)

Saiu, tendenciosa. Discretamente tendenciosa. Você viu?

(Dr. Edwaldo Marques: Está no quadro de avisos do Buissonnets.)

Essa é a batalha. Bom, o que me dizem de hoje à tarde.

(Dr. Edwaldo Marques: Bom, para falar em batalha, a reunião de hoje à tarde, o panorama da guerra está…)

Está traçado. E eu acho que nós devemos focalizar aí a idéia do dilúvio energético, porque é isso.

* As energias colocadas pela Revolução ao serviço do homem e que o vai levando para a loucura; o papel da energia elétrica nesse processo

(Sr. Guerreio Dantas: Energético ou cibernético.)

Não. De todas as formas de energias desencadeadas pelo homem.

Quer dizer, se você for analisar bem, você deve considerar isso como uma espécie de linha geral que vai desde o descobrimento do vapor e da energia elétrica até nossos dias.

É colocar… uma Revolução que coloca a serviço do homem, energias muito superiores às dele no momento em que ele está atingindo, vai caminhando para a loucura.

E o homem fica assim uma espécie de demiurgo louco. E o demiurgo louco, ao mesmo tempo que o anão louco; meio demiurgo, meio anão, esse chega a…

Quer dizer, a energia elétrica muito mais do que o vapor preparou um clima de febricitação psicológica inconveniente, isso não se pode negar.

Mas não é nada em função de outras formas de energia que se liberam e que não seriam liberáveis se não fosse a energia elétrica, porque com máquinas tocadas a eletricidade… Quer dizer, a eletricidade serviu de chave para abrir uma porta — uma chave assim, se quiserem — para abrir uma porta do tamanho de mil metros de altitude em que a energia cibernética, a mental, etc., desencadeiam sobre o homem.

E todas essas energias aparecem palpitantes, batendo na porta e convidando para mudar a vida do homem. Esse é o quadro.

* O “dilúvio energético” como castigo para o mundo

É um dilúvio energético. Por que dilúvio?

Porque chove energia em cima de nós. Vocês me dirão: “mas Dr. Plinio, houve formas de energias anteriormente descobertas pelo homem: o moinho, moinho a água, moinho a vento, antes mesmo a tração animal, são formas de energia que o homem passou a utilizar”.

É verdade, mas como o homem não estava ainda em Revolução, nem essas formas de energia lhe davam meios de revolucionar o mundo, são descobrimentos de caráter — no fundo energético —, mas que ficam à margem da história da energia como castigo para o mundo.

A coisa visa diretamente a nós num ponto: uma vez que…

(…)

eu reputo que depois do que eu disse, fica entre o certo e o evidente que isto é assim. Quer dizer, por alguns lados é certo, por outros é evidente. Mas as evidências são tais que arrastam para junto de si, quer dizer, tornam quase evidente o que só por si seria simplesmente certo.

Quer dizer, há nesse panorama aspectos evidentes. Por exemplo, o que disse o jesuíta. Porque é evidente que é assim. Uma vez que ele disse, é evidente que isto é assim porque ele disse.

* Havendo conhecido um profeta sem igual seremos julgamos pela atitude de alma que tomamos frente ao seu profetismo

(Dr. Edwaldo Marques: E há dez anos.)

Dez anos. Isso é um lado da questão.

Mas uma vez que o que o jesuíta disse, é evidente, então, tudo quanto se sabe sobre transpsicologia, discos voadores, etc., etc., o que há de certo no que se sabe fica levado por aquilo, para próximo do evidente. Cibernética, etc… E o que está próximo do evidente arrasta para um provável o que é simplesmente possível. É uma cauda.

Então se põe para nós um começo de julgamento. Porque uma vez que nós sabemos disso, que uso fazemos disso? Que uso fazemos disso para a configuração do nosso próprio “eu”? É o problema.

(Sr. –: Isso?)

O dilúvio energético.

(Dr. Edwaldo Marques: Nesse julgamento entra toda a posição nossa face ao senhor.)

Claro!

(Dr. Edwaldo Marques: Porque a reunião de hoje deixou de um modo tão claro, absolutamente claro, que o que tudo o que o senhor disse era verdadeiro durante todos esses anos, que entra pelos olhos. A pessoa precisa ser de muita má fé para negar qualquer coisa neste sentido.)

Quer dizer, tomada a palavra profeta no sentido em que está na Réfutation, tomada neste sentido, a reunião torna evidente que os senhores conheceram um profeta. Agora, uma coisa dessas não se passa em vão, porque marca a vida de um indivíduo no que tem de mais fundamental: ele tem o direito de ser um “qualquerzinho” que não tenha conhecido o profeta?! Esse é o problema.

(Dr. Edwaldo Marques: E não é qualquer profeta nem qualquer época da História. São coisas ápices.)

Um profeta que previu o totalmente “inaceito” por todos, o que não era apontado por nenhum, isso o profeta previu. Nós, baseados em critérios próprios, negamos ou pelo menos pusemos em dúvida, fizemos corpo mole. Na hora extrema nos vêm uma misericórdia: a evidência!

(Dr. Edwaldo Marques: Está escrito na RCR.)

Está escrito na RCR, não é? Bom, mas a RCR é um livro desprezado pela TFP. Por excelência o livro desprezado é a RCR, é o bagaço, o lixo, a porcaria é a RCR.

* Continuar sendo “qualquer um” depois ter conhecido ao Sr. Dr. Plinio é recusar a vocação; diante do “dilúvio energético” uma atitude que corresponde a ficar fora da arca

Agora, aqui entra a pergunta: se é assim, então nós seremos julgados pela atitude que tomamos agora. Se quisermos continuar a ser qualquer um, nós recusamos a História que passou por nós e recusamos a vocação. Quer dizer, Deus nos chamou e nós teremos dito: “não! Eu quero para mim aquilo que Vós sabeis que eu estou certo que está morrendo. Sei que Vós, ó meu Deus, sois a vida, mas eu quero a morte!”.

(Dr. Edwaldo Marques: Quero a maldição.)

Quero, porque ela é gostosa, porque ela me atrai, ela me seduz, eu a quero! Sei inclusive que daqui há pouco Vós vireis me cobrar isso, mas eu a quero!”. É a atitude.

Por exemplo: eu tenho certeza que havia na reunião — certeza hein?! — gente cogitando de negocinhos. Tenho certeza. Então, enquanto se anunciava o dilúvio energético e apontava a TFP como sendo a arca onde nós podemos nos recolher no seu interior, havia gente que respondia: “eu quero fazer antes uma barganha”. Sabe que a quantia não entra em função aí.

O sujeito pode ter esperança de fazer um lucrinho o mais insignificante: “quero vender minha motocicleta e, com essa motocicleta, pagar a primeira prestação de uma outra motocicleta maior. Agora, isso eu quero fazer.

E se o dilúvio me apanhar, que me apanhe, mas essa transação eu quero fazer. Se eu entrar na arca, eu entro de motocicleta. E se eu não entrar na arca, tanto pior, porque a motocicleta eu quero!”.

Bom, isso é o pessoal que não quis crer em Noé e que ficou do lado de fora da arca. A arca trancou, veio o dilúvio.

Eu não vejo na narração bíblica nada que exclua a idéia que, de dentro da água, muita gente gritou: “oh! meu primo, oh! Meu irmão, oh! Meu parente, oh! Meu colega, abra para mim!”. A arca está fechada.

(Dr. Edwaldo Marques: Fechada por Deus.)

Fechada por Deus, é? E aqui eu me pergunto se não seria.

Quer dizer, a reunião de hoje, — não sei qual foi o ambiente depois, porque eu sai correndo também — mas foi gravíssima debaixo desse ponto de vista.

(Dr. Edwaldo Marques: Gravíssima. Talvez a mais grave que o senhor tenha feito.)

É, lembra‑se da reunião da viagem de Nixon à China, com o gato? É o mesmo estado de espírito: ali eu anunciei que, — a expressão não existia — mas que a quebra das barreiras ideológicas, a desmobilização do Ocidente, a entrada da influência comunista e a política toda que mudava. O gato que pulasse na mesa seria incomparavelmente mais interessante.

Quer dizer: “eu quero continuar a ser qualquer um, quero ser ninguém”. Bem, então tranca a arca, fique no dilúvio! Você escolheu a morte, fique na morte!

(Dr. Edwaldo Marques: Tem uma frase bíblica que diz o seguinte: “ele amou a maldição! Que ela o consuma!”.)

É.

(Dr. Edwaldo Marques: Porque aí é amar o que está amaldiçoado por Deus.)

É isso. Tal qual!

* O Sr. Dr. Plinio deixa gravar a afirmação de que é profeta e anuncia o “dilúvio energético”: a atitude de alma com que deveríamos corresponder

Agora, começa por aí: ver se nós que estávamos ali queríamos ver isso assim. Eu não estou certo que cada um queria ver isso assim. Mais ou menos. Na idéia de que Nossa Senhora tem tido tanta misericórdia conosco, terá também mais uma.

Essa é a maior de todas, talvez. Porque o que é considerado ver como firmeza de tudo o que ficou atrás, é incomparável!

Por exemplo: eu nunca fiz a respeito de mim mesmo a afirmação tão categórica quanto fiz agora e deixei que gravasse. Porque é, naqueles termos em que está lá na Réfutation, nesses termos é isto! Não tem conversa.

Agora, que é gravíssimo, que é importantíssimo, que etc., é! Daria propriamente para uma pessoa pedir para fazer e ficar hoje a noite inteira de vigília rezando. Daria propriamente para isso.

Depois, está bom, começa o dilúvio energético, psicológico, etc., etc., etc… Eu disse isso hoje e vou insistir um momentinho: não começa de repente! Se alguém está pensando: “quando começar, eu tomo um susto e crio juízo!”, a resposta é: “a ti não será dado isso! Tu não pode ser a virgem louca que tente dizer ao esposo: ‘volta daqui há pouco que estarei com a lâmpada acesa’. Não é. Chegou, tem que estar com a lâmpada acesa, não tem outra conversa. E agora vamos lá!”.

E portanto essa história de dizer: “eu espero um susto”, não espere, inclusive porque o plano do adversário está feito de não dar o susto. Porque o adversário, quer dizer, o demônio, percebe que esse susto é salvífico e, portanto, ele não quer dar o susto.

Vou contar a vocês uma coisa que talvez vocês não saibam e que é impressionante sobre isso.

(…)

matéria de hoje à tarde.

[Telefonema do São Bento copiado à parte]

Mas o que eu estava dizendo mesmo?

(Coronel Poli: Santo Sudário.)

É evidente que eles estão preparando ou tentando preparar uma situação em que o Santo Sudário sirva de coonestação com isso.

(Dr. Edwaldo Marques: O que o senhor disse já tem sido confirmado.)

É isso. Mas se eu vou fazer uma reunião sobre isso, o Santo Sudário! “Você sabe que eu me dei conta que estou com poucas camisas? Então preciso arranjar camisas! Camisas! Agora, o Santo Sudário, lá vem esse poeta falar do Santo Sudário! E a camisa para mim? Isso ele não fala. Eu é que tenho que arranjar”. É assim.

(Sr. Poli: Isso não é metáfora, é a realidade.)

[Telefonema Sr. João Clá, copiado à parte]

Bom, eu acho que o assunto fica bem temperado, bem tratado.

(Sr. Guerreiro Dantas: Tenho a impressão que a hora é muito tardia, mas que o assunto, sentimos o dever de considerar mais o assunto.)

Não só é dever, mas necessidade brûlant. Como reparação e como interesse. Vocês já pensaram se nosso bom D…

(…)

* Sonhar com a apoteose dos medíocres não é a grande via do espírito

Agora um de vocês poderia dizer: “eu não sou banal porque faço grandes sonhos”. Eu digo: “sim, você sonha praticar as ações que os homens banais admiram muito. Aí se tem uma apoteose dos banais, dos medíocres, isso é bem verdade. Mas acontece que essa não é a grande via do espírito”.

Mas meus caros, de tal maneira o remédio está subindo que vocês devem estar notando que eu, daqui há pouco estou sonhando de olhos abertos…



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