Conversa
da noite – 20/2/1982 – [RSN 29] – p.
Conversa de Sábado à Noite — 20/2/1982 — [RSN 29]
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* Providências a propósito de uma lei de Miterrand.
(Sr. –: Como é realmente impressionante toda a questão do Miterrand e aquele nova lei que o senhor leu! É uma coisa simplesmente inacreditável!)
Isso era uma coisa que não podia passar pela cabeça de uma pessoa, já não digo no tempo mais remoto que eu conheci você e o Fiuza.
(Sr. –: Não se acreditava que aquilo em casas de perdição fosse habitual; aquilo é capaz de chocar gente que freqüentara casa de perdição! Hoje, um governo propor isso.)
Porque naquele tempo dava uma revolução… das prostitutas. Elas se indignariam e iriam à rua para protestar.
(Sr. –: Eu nunca ouvi dizer que numa tribo de índios botocudos, a mais primitiva, se visse uma coisa parecida com esta!)
É uma coisa do outro mundo! E a hipocrisia desses jornais, que não contam. É uma coisa que se viu que este jornalzinho dá a fotografia, como quem diz o seguinte: “Ou eu sou falsário, ou isto se passou assim”.
(Sr. –: Maior do que dos jornais, só da estrutura. Eles estão sabendo disso.)
Aliás, Fernando, eu queria que você tomasse uma nota para escrevermos para Paris, ou melhor, escrever para esse jornalzinho de Brescia, mandando a Mensagem, felicitando pelo artigo deles, e pedir se eles podiam mandar para o grupo de Paris uma fotocópia boa. Aliás, melhor que se pedisse ao Ofício que procurasse por eles. Pedir se eles podiam mandar para o Ofício uma fotocópia boa dessa circular e uns quatro ou cinco exemplares da revistinha deles, que nós queremos mandar tudo para Paris, para nosso Bureau em Paris. Diga para o Bureau de Roma que para estimular um pouco o pessoal, vale a pena pedir uns 20 exemplares. Em parte para distribuir a quem nos visitasse em Roma, em parte mandar para o grupo de Paris. E três fotocópias: uma para o Bureau de Roma, outra para o de Washington e outra para o Conselho, para mim aqui em São Paulo. E são quatro, portanto, porque eu quero que mande uma para Paris.
(Sr. –: Um documento público, Dr. Plinio ?)
De si não é um documento público. Qualquer documento de uma repartição pública nem por isso é um documento público. Mas não é um documento secreto, que se viola um sigilo. Por exemplo, se uma pessoa escrever uma carta comum para você, não é um documento secreto. Você recebendo a carta, pode publicar. Documento público é aquele que é passado por tabelião, autenticado, etc. Isto não é. Mas… Viva publicando, nós temos em quem nos encostar.
(Sr. –: É um documento oficial do governo?)
É oficial. Assinado pelo ministro da justiça. É de Brescia. O coronel parece que tinha uma pergunta?
* A devoção à Sr. Da. Lucilia, caminho indicado pela graça para ajudar-nos no cumprimento da Vocação.
(Sr. Poli: O senhor outro dia conversando fez referencia ao mundo empresarial que organiza as coisas como se fosse, o senhor disse “exagerando um pouco, como se fosse uma outra religião”. Por outro lado, todo o fundo de quadro da reunião de hoje aparece o interesse de reformular o homem em outra base para a sociedade socialista.
Por outro lado, o Ofício que nós temos, nós que não somos propriamente enjolras, por estarmos mais inseridos nesse outro mundo que tem como fundo de quadro esta outra religião empresarial, isto deitou em nós, provavelmente, certamente deitou em nós deformações muito profundas na linha da Revolução. Por outro lado, se dissermos que para esmagar o pecado de Revolução, que é fundamentalmente um pecado de orgulho e de sensualidade, que Dona Lucilia teria uma missão especial, de caráter RCR, não apenas de acordo com a doutrina geral católica que o senhor descreveu nas outras vezes, mas no contexto RCR de ser uma protetora especial para aqueles que precisam ser resgatados, precisam ser limpos do pecado de Revolução. Ainda mais um dado: Todo o problema que aflige as gerações que não são propriamente enjolras, de querer ser alguém no contexto que não é o contexto de acordo com nossas obrigações, então a pergunta é isto: Nesse contexto, como é a intercessão de D. Lucilia, o patrocínio de D. Lucilia.)
(Sr. –: O que entendi, Dr. Plinio, é que a Senhora Dona Lucilia, por toda a configuração da alma dela, da vida que ela levou, etc., ela teria um papel e uma força especial exatamente para combater este núcleo de defeitos que o senhor comentou que era uma espécie de outra religião, esta religião que nasce com o mundo empresarial, etc. Na vida dela, ela foi exatamente o oposto disso.)
(Sr. Poli: E nós, portanto, ou nos vinculamos, nos pomos de um modo não apenas correto e conveniente, mas num ponto vital nos pomos sob o patrocínio dela, ou não estamos de acordo com os desígnios da Providência e também não resolvemos nosso problema, não cumprimos nossa obrigação para com o que nós devemos.)
Aqui é preciso distinguir dois aspectos do assunto: um primeiro aspecto é que vocês recebem certas graças interiores as quais discernem e que os atraem para rezarem a ela. Ao discernir essas graças, correspondendo a esta atração, vocês rezando a ela percebem que certas disposições de espírito más que a Revolução implantou em vocês se atenuam ou se dissipam ao menos de momento, e vocês tem idéia de que ao longo dos tempos rezando para ela seguidamente, etc., isso pode passar. E vocês têm uma certa sensação de bloqueio, quer dizer, se não fizerem isso, as coisas não se resolverão, não terão andamento.
Isso é seguido, confirmado para vocês pelo fato de que vocês percebem que isso não se dá individualmente apenas com este ou aquele, que não [é], portanto, uma impressão isolada e individual, mas que é uma impressão que muitos outros partilham.
Vocês percebem de dois modos porque vêem os outros, porque os outros dizem, porque vocês comentam, mas porque vocês olhando para os outros percebem que se passou uma coisa análoga com o que se passa com vocês. Quer dizer, as dificuldades que vocês conseguem resolver assim são irmãs das dificuldades delas e que a ajuda é do mesmo tipo e provém da mesma fonte. Isso dá a vocês uma certeza que é alguma coisa da graça e da Providência. Se isto é assim, bastaria esse fato para ser uma não correspondência à graça vocês não pedirem, não rezarem, não seguirem este caminho.
Porque se dentro de uma situação tão difícil como é a nossa vocação, maxime semi- correspondida nos dias de hoje, vocês não vão seguir os caminhos que a graça indica para quê? Para seguir caminhos próprios? Como podem esperar os auxílios extraordinários que uma situação assim difícil pede? Não é possível, fica claramente demonstrado, independente de qualquer consideração, que é isto que se tem o que fazer.
* Elevação e doçura: duas qualidades da Sr. Da. Lucilia que, segundo os conceitos revolucionários, se excluem.
Diferente é perguntar: Por quê para esta ação foi escolhida ela e não outro, outra pessoa… sem a intermediação dela, de Nossa Senhora, que é canal de todas as graças, jorrassem favores desse gênero. Por quê a intermediação dela? Haverá alguma relação especial entre ela e a Contra-Revolução que vocês devem combater? É onde se situa a pergunta. A resposta que eu vou dar à pergunta não aperta muito o ponto primeiro, que de si é inteiramente apertado. A pergunta é muito razoável como fundamento de um fato não comum, e que é até normal que devemos conhecer, é até um dever procurar conhecer o caráter, as razões, a origem disso, etc. E há toda uma série de deveres que procedem disso.
(Sr. –: O coronel levantava essa temática porque dizia o seguinte: Este ponto tem um ponto que está no polo oposto do problema que o senhor comentava na reunião de hoje à tarde.)
À vista da religião nova, como se põe isto? Da religião, digamos assim, estrutural, da estrutura, como se põe isto. O que chama mais a atenção nela é o conjunto de duas qualidades: a retidão — até se poderia confundir, a elevação, se quiserem, porque a elevação não é senão uma forma excelente de retidão; é a retidão perpendicular, não a retidão horizontal. Então, a elevação, de um lado, e a doçura de outro lado. Sendo que há nela uma espécie de tau enquanto tau, no sentido de que era elevado porque doce, e doce porque elevado. São duas qualidades que, segundo o conceito revolucionário se excluem.
Uma pessoa muito elevada, afasta e tende ao severo, tende a impor-se sem doçura, na saga revolucionária, no pesadelo revolucionário.
* Por estar com a alma sempre no píncaro, ao inclinar-se para tratar com um filho ou com outra pessoa, a doçura dela era mais penetrante.
Pelo contrário, na apresentação que ela dá de si mesma é o contrário: quanto mais elevado é o espírito dela, mais tem ímpeto inicial para penetrar em todos os meandros da alma. Para dar uma comparação, quando a gente desce pela estrada de ferro — ela, aliás, gostava muito de ver isto — quando se descia por estrada de ferro, da inglesa, de São Paulo para o Rio, o trajeto é lindo, naquele tempo era lindíssimo! De atrair turistas.
Os manacás floridos! Eu me enganei, não era para o Rio, mas para Santos. Quando começava descer a serra — são duas partes da viagem muito definidas — muitas vezes era de dia, etc., ela se punha em pé junto à janela do trem e ficava sem conversar, extasiada, fixada no panorama que se desenrolava.
Dava-se com muita freqüência nesse panorama a gente ver, de pontos muitos altos da montanha, irromperem pedras; acho que eram os “pães de açúcar”, encobertos por pedras ali, e eram inenarráveis; e via-se um olho d água, uma fonte descer; e aquilo abria um rasgão dentro da floresta, que é pedra de alto a baixo; e a água vem correndo assim como uma espécie de cortinado luminoso sobre a pedra; naturalmente chega em baixo e se mistura na terra. Vai para o mar. E ela gostava muito de ver isto. Quando mais do alto cai a água, tanto mais ela tem energia e pureza para misturar-se depois das capilaridades das raízes das plantas no chão.
De maneira que o muito alto convida a entrar a fundo, num profundo e, num certo sentido da palavra, muito baixo. Esta ação da doçura quando vem do alto os antigos entendiam muito.
Mas a Revolução fez perder esta noção completamente. Ela a substitui quando muito, por uma forma comercializada de doçura, que é a amabilidade. Por exemplo, a rainha da Inglaterra, ou então a despretensão do rei da Espanha, carnuda e imbecil.
(Sr. –: Ali nem é despretensão. É não ter noção do que ele é.)
Não é nada. Ele dá idéia de carregador de cais, revolucionário barato, ordinário, monstro.
Isso se sente nela. Tratando-se com ela percebe-se de que elevação procediam essas cogitações. Percebia-se muito, por exemplo, quando ela descia a serra. Via-se que não era uma pessoa simplesmente que faz do panorama um hobby e que gosta de olhar. Mas uma pessoa que, sem comentar, pelo olhar, pela seriedade, pela forma sacral do entusiasmo, etc., chegava a altas considerações, de grande repercussão afetiva, sobre a obra de Deus, a beleza daquilo em sim, porque ela tinha isso intenso dentro da alma.
Mas porque a alma estava nesse píncaro, quando chegava a hora dela se inclinar para ver isso, ou melhor, quanto mais chegava a hora dela tratar com um filho, ou tratar com uma pessoa, etc., tanto mais aquela doçura era penetrante; por que, como a queda d água, havia uma mistura que formava isso de delicioso dentro do convívio dela.
* “Ela sempre se apresentava como uma autoridade definida e firme, mas exercendo-se dulcificantemente”.
Nos campos em que ele exercia autoridade como mãe, como patroa, dona de casa, como filha mais velha da irmandade ela tinha uma certa liderança para alguns e feitos — aliás, muito raramente — ela sempre se apresentava como uma autoridade definida e firme, mas exercendo-se dulcificantemente. A gente via que se fosse preciso, ela fecharia a pressão, mas que ela tinha certeza de que, na maior parte dos casos, pela bondade dela ela moveria; até onde não conseguia a severidade, pela bondade ela moveria.
E isso formava uma interpenetração.
* “O sofisma revolucionário de que a autoridade é incompatível com a doçura”.
Já eu tive diante de mim, na minha educação, o sofisma revolucionário de que a autoridade é incompatível com a doçura; a elevação conduz ao desprezo e que a fraternidade só se encontra no mundo da liberdade e da igualdade como a Revolução Francesa entendeu. De maneira que a Revolução Francesa foi uma irrupção da doçura no mundo depois da tirania dos reis, do desprezo dos nobres, etc.
Durante o começo da Revolução, o abade Siéyes — péssimo padre — deputado dos Estados Gerais, definia a ordem de coisas do Antigo Regime como uma “cascata de desprezo”; o desprezo vem dos reis para os príncipes, etc., e atinge depois o povo.
É porque esta concepção se impôs — concepção falsa — que muita gente é favorável à Revolução; e em geral, contra toda autoridade que queira se exercer, por maior que seja a doçura da autoridade, a increpação que se faz é nesse sentido: “Você autoridade, em você falta a caridade, falta a bondade, falta a doçura”.
Portanto, mais ou menos da Revolução para cá, todas as autoridades que tem recuado, e não tem cumprido seu dever — ou melhor, grande número de autoridades — o fazem pelo pavor de serem increpadas como não tendo doçura, orgulhosas, más, etc. E a Revolução ganhou defecções fenomenais para o lado dela. Mas aí, muita gente que tem simpatia com o aparato do Ancien Regime, desde que se convença que aquele brilho todo redundava em desprezo para quem era menos, retira a simpatia desse aparato, porque não pode simpatizar com a doçura. Assim poderíamos dar os casos aí por fora e incontáveis exemplos. É uma montanha de derrotas da Revolução, ou melhor da Contra-Revolução por causa disso; derrotas potenciais; antes de travada a batalha, a Contra Revolução já perdeu terreno.
* No mais profundo, o problema da autoridade e da doçura é metafísico, atingindo a própria ordem do ser e a própria natureza de Deus.
Eu dei o aspecto psicológico e agora estou dando o aspecto tático; devo dar agora o caráter mais profundo. E então não atinge somente o aspecto tático, mas atinge a própria ordem do ser e a própria natureza de Deus; porque quando o gnóstico considera que é mal existir porque Deus é mau, e Deus é mau porque é infinitamente maior do que nós. E aquele que é maior do que nós não pode nos querer bem, só pode nos desprezar, e só pode querer esmagar-nos e conter a nossa rebeldia; por um conceito de luta de classes. O conceito de luta de classes é este: O maior querendo necessariamente esmagar o menor e o menor necessariamente se revolta contra o maior. A concórdia de classes, nunca; sempre a luta no desfecho. E então a gente vê que Deus constitui para a criatura humana uma classe diferente, e que se trata para o homem de tomar um Deus amigo, um Deus camarada, um Deus igual, o Deus de todas as igualdades, e deixar de lado o Deus hierárquico e o Deus mau porque hierárquico, e sumo-hierárquico; e que o principio do mal é Deus e o princípio do bem é o demônio, é esse outro deus. Porque esses são igualitários, são amigos, etc., enquanto — são ecumênicos, se quiserem — enquanto o princípio do bem condena, traça regras, impõe sua autoridade, pune, não tem pena, até leva para o inferno.
Então vocês estão vendo que este problema que, num primeiro momento, é apenas um problema psicológico — no primeiro aspecto — e que depois, aprofundado, mostra também o aspecto tático possantíssimo, é de fato, um problema metafísico, que é o seguinte: É bom ou não que o homem seja inferior a Deus; e quem nos criou inferior a Ele fez-nos um favor ou arranjou-nos uma prisão? Mas tudo é na base da doçura. Se a Ele faltou doçura ou não.
(Sr. –: O “sapo”que quer se despojar da propriedade seria, em última análise, por causa disso? O nobre…)
Ele julga comungar na bondade universal dando o que ele tem, e se libertando do peso de uma diferenciação na qual ele tem a idéia de que ele não é bom e que esse permissivismo mútuo, que é a única forma de bem, que esse permissivismo mútuo cria essa afabilidade. Então não quer ter fortuna, não quer ter nada.
(Sr. –: Algo assim deve ter entrado na tentação do pecado original.)
O demônio não diz que não houve pecado original, ele diz que o pecado original está na nossa origem, e é o fato de Deus nos ter criado, e que nós devemos resgatar isso. Sereis como Deus. Isso já é mais do que o pecado original, é o pecado dos anjos. Mas está misturado o negócio. É também o pecado de Adão e Eva, ou melhor, é o pecado de Adão e Eva.
* O modo de ser do Sr. Dr. Plinio , contrário do permissivista, incute no membro do Grupo semi-fiel a idéia de que ele não pode ser verdadeiramente bom.
Quer dizer, parte da ação de uma boa senhora sobre almas, etc.
Mas tem um desfecho. Agora, tem uma ação de caráter colateral. É que se tornou impossível, em grande parte por semi infidelidade, um trato inteiramente desanuviado dos membros do Grupo comigo. Porque todo o modo de ser meu incute do lado deles influenciado pela Revolução a idéia de que eu não posso ser verdadeiramente bom. E isso porque eu sou [o] contrário do permissivista e porque eu falo e quero uma ordem de valores em que a bondade não estaria representada; quer porque eu quero uma ordem de valores em que todas as formas de governo estejam presentes e também a monárquica, portanto, quer porque eu diga, como Pio XII, que até as democracias cristãs precisam ter instituições de caráter aristocrático, quer porque eles acham que eu reivindico isso, reivindico a falta de bondade. E falando isso por ocasião da celebrática, eles sentem isso fantasticamente.
* Por exemplo, o exercício da autoridade em nome de uma regra, é falta de bondade.
Por exemplo, eles devem intuir que eu seria favorável à restauração da ortografia antiga. Deve causar neles uma verdadeira revolta. Vocês sabem bem; se puséssemos no programa da TFP a restauração da ortografia antiga, era uma revolta. E por quê?
Porque, no fundo, é uma falta de bondade. Porque era o exercício da autoridade em nome de uma regra. Este exercício não se pode fazer sem maldade. Então, torna-se impossível que uma pessoa que tenha essas idéias e que é chamada a exercer no grupo mais esta influência do que esta autoridade, porque a autoridade estatutária que eu disponho é pequena — tem inteira paridade com a DAFN — eles deduzem que eu não posso ter essa forma de bondade. Ela tem o meu nome por mim, como eu gostaria de ter, é um super perfeito complemento de mim e desfaz um preconceito que continuamente em torno de mim as idéias revolucionárias despertam.
Aqui está até o mais miúdo fundo do quadro, a explicação da coisa.
* A transmutação do temperamento da Sra. Da. Lucilia para nós seria o melhor ou o único remédio.
(Sr. –: Há tempos atrás, logo depois do senhor ter ganhado o quadrinho, o senhor estava dizendo a respeito da consonância e da placidez. Há pouco o senhor se referia ao modo dela tratar com a empregada, chamar a atenção, o senhor dizia que ela tinha facilidade de passar pelos diversos estados de espírito, sem mudança brusca, sem alteração no temperamento. E o senhor dizia que era a transmutação do temperamento dela para nós, que seria o melhor remédio. Não o melhor remédio, mas é o único remédio.)
É uma graça específica. Eu concordo inteiramente.
(Sr. –: O senhor disse isso em 77, numa conversa à noite.)
Eu não me lembro de ter dito, mas subscrevo isto inteiramente. É realmente como se eu tivesse dito.
(Sr. –: E o senhor dizia que esse era o ponto de atrito entre o temperamento revolucionário ou semi contra-revolucionário, com o temperamento contra-revolucionário.)
É que o temperamento revolucionário não acredita na harmonia como condição natural do trato humano. Ele acredita no interesse, ou no pânico do soçobro da situação. É uma forma diferente de interesse. Não mais o interesse individual, mas o interesse comum. Mas isso feito por uma forma de afeto, que é o sentir harmonia ontológica entre uma pessoa e outra, isso a Revolução não tem; Ela queimou completamente; e ela transbordava disso. E aí vinha que a bondade dela era hierárquica, hierarquismo bondoso. Ela sorriria com compaixão se estivesse presente aqui, mas o remédio que tomei está produzindo um efeito quase fulminante e eu estou ficando sonolento.
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