Conversa de Sábado à Noite – 13/2/1982 – [AC V ‑ 82/02.12] . 14 de 14

Conversa de Sábado à Noite — 13/2/1982 — [AC V ‑ 82/02.12]

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O Sr. Dr. Plinio compreendeu que em toda sua vida os “misericordiosos” seriam de uma intransigência e inclemência fenomenais para com ele * Como estes “misericordiosos” procurariam isolar o Sr. Dr. Plinio * Qual é a idéia do homem e do gênero humano que virá no Reino de Maria, como a Providência nos faz ver algo do futuro refletido no presente * Qual foi o ambiente em que a santidade de Santo Agostinho brilhou; quem conheceu Santo Agostinho de alguma maneira viu a Sainte‑Chapelle * Nossa vocação pede de nós uma espera contra todo o verossímil * A espera é grande provação do profeta e para quem participa da sua vocação é a participação da espera * A vocação só seleciona as almas que queiram entregar‑se a esta espera quantitativa e qualitativa * O desejo do Sr. Dr. Plinio de que os membros do Grupo tenham um rico vocabulário para poderem se expressar com toda precisão possível

Índice

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* Na perfeição absoluta está o sumo bem

Um minúsculo apêndice à reunião dos Buissonnets agora, uma coisa que eu ia dizer lá e que me esqueci de dizer:

Do ponto de vista do mero raciocínio, o fundo, o fundo do raciocínio está naquela afirmação daquele élan primeiro, instinto em nós, que nos leva a desejar o sumo bem. E portanto, o que se entende por sumo bem é a perfeição, a perfeição absoluta é o sumo bem.

Daí o elemento regulador de todo ser humano, pelo qual se deve ser intransigente, não à maneira “pseudomisericordiosa” ou à maneira fleumática calvinista, etc., etc., é o ponto de partida.

* Definição de “ploc‑ploc”

Agora, o que diferencia uma exposição que foi assim estritamente doutrinária, de uma exposição “ploc‑ploc”?

Os senhores sorriem, eu compreendo, é tão diferente que se pode perguntar como é que se faz a pergunta. Mas eu acho interessante para “sentar a pua” no “ploc‑ploc”.

O “ploc‑ploc” como é que se define?

É um homem anacrônico, sedento de glórias universitárias e intelectuais. Isso é o “ploc‑ploc”, no fundo, antes de qualquer coisa é isso.

Ele tem o espírito anacrônico, por onde ele se forma a ilusão de que a glória universitária é o pináculo das glórias, e ele só está hipnotizado com a idéia de que malabarismos fazer com sua pobre cabeça para conseguir uma glória universitária, defender uma tese, ser doutor por tal faculdade, professor com curso tal… “tará tá, tá”, e fazer uns livros que tenha um tipo de raciocínio que os “ploc‑plocs” aplaudam.

Então ele vai procurar qual é o tipo de raciocínio que habilita a ele ganhar a áurea universitária que é a idéia fixa dele. E com isso ele se ajusta num figurino inumano que é o figurino… “ploc‑ploc”.

Por quê? Porque é um raciocínio, outro raciocínio, outro raciocínio. Está muito bem. O que os senhores encontram em São Tomás é isso. Mas que coisa diferente entre São Tomás e o raciocínio universitário “ploc‑ploc”!

* O modo do Sr. Dr. Plinio raciocinar e o modo de raciocinar “ploc‑ploc”

Nós fizemos agora à noite isso, pusemos uma porção de dados. Em cada dado que púnhamos, nós fazíamos uma inspeção do contexto daquilo, como é aquilo na prática, no real, em que contexto vai aquilo.

Depois nós dávamos uma posição doutrinária e da posição doutrinária tirávamos [a] conclusão doutrinária. Depois nós descíamos novamente ao contexto para darmos outros dados. Era uma marcha contínua do concreto ou do contexto doutrinário para o ponto.

Enfim, caminha assim. E isso para o “ploc‑ploc” não é bonito. O bonito é o malabarismo desses tipos que andam no circo com uma bengala em cima do nariz, assim. Então fazem isso com o raciocínio: não tem nem preocupação do contexto, nem de saber bem se eles entendem qual é a realidade que aquela doutrina exprime. As premissas são premissas descuidadas, arrancadas do chão de qualquer jeito. Dá um raciocínio viciado.

O verdadeiro estudo é assim cheio de concreto e do abstrato depois, mas o concreto não se presta para a beleza “ploc‑ploc”. Porque a beleza “ploc‑ploc” é simplista como a armação de um guarda chuva.

E há disso no verdadeiro raciocínio. Sem isso, o verdadeiro raciocínio não é verdadeiro nem é raciocínio, mas não basta isso. É preciso compreender cada dado que entra no raciocínio.

E ao fazer isto, a gente percebe… meu pobre “ploc‑ploc” percebe que ele não vai ter áurea universitária. Então ele não está de acordo, ele não percebe que a ambição dele não está de acordo com o modelo que eu dei. Então, torcer o pescoço da ambição.

Bom, mas isso vai a título de pua. Deixemos a pua de lado e vamos dar a palavra aos nossos “pergunteiros” da noite.

Quem vem de mais longe tem o direito de fazer as primeiras perguntas.

(Sr. Carlos Antúnez: Parece que o senhor estava seguindo uma linha nas Conversas de Sábado à Noite. Seria bom seguir a linha das Conversas de Sábado à Noite…)

* Como o Sr. Dr. Plinio via na Santa Igreja o equilíbrio, a perfeição e a santidade

Enfim, muito hábil, amável, agradável. Mas estava combinado que a Conversa de Sábado à Noite seria sob algum ângulo, um certo ponto de vista, o ponto final de si mesma. De maneira que você está com a palavra na mão. Se quiser, se não quiser…

(Sr. Carlos Antúnez: O ponto final segue…)

Ahahah!”. Há certo tipo de reunião que a gente pode fazer diante de cinco amigos e não pode fazer diante de cinqüenta, ainda que esses cinqüenta sejam a multiplicação dos cinco por dez.

Outros façam as perguntas que quiserem.

(Sr. Carlos Antúnez: O senhor poderia tratar o que tratou num Chá do “Praesto Sum” desta semana sobre as borrascas? E a visão clara do triunfo no subconsciente. E na lógica, uma visão da coisa como que não iria para frente. Eu nunca tinha ouvido falar que o senhor tivesse passado por uma provação assim.)

Está muito bem. Eu dizia no Chá do Praesto Sum o seguinte:

Foi terça ou quarta, não me lembro. Eu dizia que a grande dificuldade que eu tive na vida foi de fazer… dúvidas, graças a Nossa Senhora, dúvidas a respeito da Fé nunca tive. O que um pouco eu expliquei à noite mostrando como eu via aquele equilíbrio. O equilíbrio rumo à perfeição é a santidade, eu via esse equilíbrio na Igreja Católica. E portanto, a priori, não é católico, cai fora! Cai fora só, não. É…

(…)

* Eu compreendi que em toda minha vida os “misericordiosos” seriam de uma intransigência e inclemência fenomenais para comigo

Os senhores estão vendo que a tendência é: cai fora!… Para não dar trabalho, não amolar, etc., etc… Então, a tendência é essa. Portanto qual era o caminho?

Eu tinha bem claro. Mas eu percebia bem claramente também a intransigência dos misericordiosos. E que a inclemência deles me seria um flagelo a vida inteira, uma perseguição a vida inteira e que estaria colada em mim, e que não me abandonaria em um só momento da vida.

E eu percebia que os tais “misericordiosos” são onipotentes hoje em dia, e que eles esmagam qualquer coisa que não seja o unto da misericórdia deles. E que eu encontraria diante de mim, portanto, obstáculos fenomenais para vencer. E portanto, uma vida duríssima, mas duríssima! A mais dura das vidas!

* Como estes “misericordiosos” procurariam isolar o Sr. Dr. Plinio

Para dizer uma expressão que… para fazer uma comparação que para mim falou muito naquele tempo. Eu não sei até que ponto falará aos senhores, enfim, vai ela aqui:

Houve um período de nossa formação em que para nos entreter a minha irmã e a mim, mas também aos nossos primos que viviam conosco, minha mãe se pôs a contar muitas coisas de livros que ela lia e que depois nos contava.

Assim ela contou “Os Três Mosqueteiros”, uma série de coisas assim ela contou. E que nós ouvíamos com um empenho enorme.

Eram sempre livros franceses. À certa altura de alguma das coisas que ela contou, entrava a descrição da vida de um carrasco no Ancien Régime. Então era uma casinha numa aldeia, uma casinha lá fora da aldeia muito bem cuidadinha, muito bem arranjadinha, com trepadeira, — o quadro clássico — trepadeira do lado de fora, jardinzinho, cortininha, criancinha brincando, etc., etc., etc., o carrasco, um homem apresentado assim com uns quarenta anos, que para meus doze, treze, quatorze anos, parecia uma idade provecta, quarenta!

E sério, calmo, um pouco sinistro, mas bom, um chefe de família modelar, a família do carrasco unidíssima. Mas viviam sós. Ninguém freqüentava o carrasco, visitava o carrasco, andava com o carrasco.

Ele vivia só e, quando chegava o domingo que ele ia para a aldeia, para a missa, ninguém… todo mundo se afastava dele. E até na igreja, nos bancos onde ele se ajoelhava, ele ajoelhava com a família e mais ninguém se sentava, porque todos reconheciam que era uma profissão honrada e que ela deveria existir, mas consideravam que era uma profissão que importava numa espécie de naturalidade e capacidade em derramar sangue.

E que isso tornava a profissão de algum modo repudiável e punha o carrasco à margem de todo mundo. Não como um infame nem como um criminoso, mas como um homem diante do qual se deve fazer o vazio.

Eu pressentia para mim a vida do carrasco não casado… porque, diante desses misericordiosos, eles consideram como intransigente, como os antigos consideravam o carrasco. Aliás, um modo de considerar que nem vou analisar aqui, não tem fundamento. Mas enfim é isso, é o que eu pressentia diante de mim.

* Uma opção que se colocava em função da luta

E naturalmente então me vinha ao espírito a pergunta: toda esta luta dará certo? Porque isso é em função da luta. Se eu ficasse quieto, não dissesse o que penso, deixasse eles dizerem as asneiras que quisesse e os freqüentasse pouco, eles nem notariam o que eu penso e até onde eu penso. E viveríamos com um abismo entre eu e eles, mas não entre eles e eu. Porque eu conheceria o abismo e eles não. Viveríamos.

Portanto é em função da luta que se punha isso, a pergunta:

Valerá a pena essa luta?

Dará certo essa luta?

Essa pergunta era evidente, coirmã da tentação de não lutar para não levar a vida do carrasco. Os senhores precisam notar que naquele tempo não havia TFP nem nada, nem eu considerava possível uma coisa como a TFP.

Então, como era? Era o problema.

Agora, sobre isso que eu dei como fundo de quadro da reunião de quarta‑feira passada, meu Carlos me fez agora uma pergunta. Se eu podia falar mais sobre isso.

* Por uma graça eu percebia bem pelos imponderáveis que viria a “Bagarre” e o Reino de Maria

Eu estava dizendo agora no Auditório São Miguel que, em geral, a reunião que pega é uma espécie de sincronia entre a apetência dos que me ouvem e o raciocínio que eu fiz sobre o caso, a última reflexão, a última metáfora que eu tenha feito sobre o caso. Aí há uma sincronia e a reunião pega.

Se for falar com o tema só aquilo que eu falei há dez anos atrás, não pega. Mas também se não houver apetência de momento, não pega. A sincronia é essa.

Então, vou dizer qual é a minha mais recente cogitação.

Essa cogitação me veio ao espírito ainda agora quando estávamos no automóvel, fomos rezar diante da imagem de Nossa Senhora Vítima dos Terroristas que eu estou começando a freqüentar de novo, porque aquela baiúca lá perto parece que se deixa conter agora em limites razoáveis e, portanto, estamos recomeçando. A coisa é essa.

Juntamente com esse problema vem uma, vinha naquele tempo, vinha uma graça pela qual eu percebia bem que viria a Bagarre, que viria o Reino de Maria, que as coisas não podiam ser como estão, que essa luta compensava, etc., etc., etc…

Mas eram imponderáveis que me faziam ver isso. Aquilo que é ponderável, que se pode pegar na mão como eu estou pegando essa bengala, isto absolutamente não falava neste sentido, falava até num sentido oposto.

* Como os imponderáveis da Bagarre e do Reino de Maria se apagavam no meu espírito e eu era assaltado pelo ponderáveis que tinha diante de mim

Havia portanto, aspectos da realidade, aspectos imponderáveis mais nobres, mais altos, em que eu estou certo que entrava muito e intensamente de sobrenatural, que faz parte das vias comuns da graça para um católico, entrava muito intensamente. E eu percebia isso.

Mas de outro lado, quando chegava o momento de pegar no ponderável, há uma espécie de alternação que na hora de se pegar no ponderável, algo de imponderável naquele momento se empalidece no espírito.

E no momento em que o ponderável está nos impressionando, o imponderável, — porque não podemos prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo — o imponderável se apaga um pouco. E às vezes até, se for um espírito com pouca distância psíquica, apaga‑se muito, apaga‑se completamente.

Bem, o que quer dizer isso?

É que eu vendo o tormento armado, a borrasca pelos “misericordiosos” contra mim, inflexível e sem entranhas, a misericórdia sem entranhas, a perseguição dos “misericordiosos” contra mim; vendo isto, eu tinha diante de mim ponderavelmente a imensidade do adversário com que era preciso lutar.

Os imponderáveis por onde eles certamente, pela sua imensidade, tinham que ser derrubados, não podia crescer mais, isto se escapava do meu espírito. E então a minha provação ou a minha tentação estava em momentos em que o imponderável se apagava no meu espírito. Havia uma aridez do imponderável e um assalto do ponderável.

* Como são os eclipses do imponderável dentro da nossa vocação

Eu vejo vários dos senhores, aquiescerem, eu tenho a impressão de que estou sendo claro.

E acontece que isto assim, posto assim, e assestada a atenção nesta dificuldade, os eclipses do imponderável eu vejo que esses eclipses são mais ou menos numerosos no que diz respeito à vocação.

Quer dizer, há momentos em que a vocação que é toda feita de imponderáveis, está tão presente à alma que ela parece, nossa alma parece um céu interior. E nós, olhando para nosso interior, temos vontade de exclamar o que diz a Escritura: “Que os Céus e a Terra bradam, aclamam a grandeza de Deus”.

Mas vem os ponderáveis e os ponderáveis encolhem, desviam a atenção desses imponderáveis. E arrastam. Em certo momento a pessoa titubeia.

Titubeia no sentido de “continuarei ou não”?

Graças a Nossa Senhora, depois de um certo tempo do Grupo, isso se torna mais raro. O grande titubeio é outro: aqui eu fico porque é bastante claro para eu não querer sair, mas aqui eu não me entusiasmo porque não me é tão claro a ponto de eu me entusiasmar.

É aflitivamente assim, mas é assim.

* Os dramas na viagem de Colombo para descobrir a América com os vários tipos marinheiros que lhe acompanhavam

Eu dou um exemplo corriqueiro, mas que é tão psicológico que convém para o momento. Eu, aliás, de vez em quando exemplifico com isso para outros efeitos.

Os marinheiros que vieram com Colombo para cá e que quase desanimaram na vinda, etc., etc… nosso Cabral não teve esses dramas porque tudo leva a crer que o Brasil já estava descoberto, e que ele sabia bem onde ia parar, a coisa toda estava feitinha. Mas até nisso a História do Brasil não teve dramas…

Muito hispanicamente, a História do descobrimento da América espanhola tinha que ter dramas, foi o drama de Colombo. Então o pessoal acreditava que mais valia a pena voltar para trás, queriam, Colombo não queria, “bá bá bá”.

Bem, eu posso compreender uns marinheiros que tivessem um pouco de espírito mais científico e tivessem, participassem das razões de Colombo para não querer voltar para trás, mas não participassem com tanta clareza quanto Colombo, de maneira que eles seguissem a viagem, mas com um entusiasmo menor à medida em que o ponto de partida ia ficando mais para trás.

Eu não justifico, mas eu compreendo. Eu estou dando a explicação psicológica, não estou fazendo a justificação. Eu compreendo.

Imaginem, por exemplo, um jovem devorado pelo desejo de glórias intelectuais e universitárias, um anacrônico, que não compreende que hoje é muito mais bonito ser piloto de avião do que professor universitário… muito mais bonito. Para não ir mais adiante.

Então, os senhores imaginem que um jovem desses com as láureas universitárias na cabeça, sente que o tempo vai correndo, que ele já está com uma idade de livre docente e que a idade de catedrático já está próxima, e que se passar o tempo ele nunca realizará sua ambição. Mas a América não chega, Palos está longe. E agora, como é?

A medida em que Palos vai ficando mais longe, vão ficando mais abatido, mais na “baixa”.

Compreende‑se navegantes assim. E compreende‑se também que eu queira conversar com navegantes para os quais as coisas, eventualmente algum dia, podem vir a pôr‑se assim. É uma coisa que a gente compreende.

* Como se dá este acender e apagar de luzes numa vocação

Então a minha cogitação é essa: isto é um episódio, um tipo de dificuldade criado por nossa… que está nos desígnios da Providência para nossa vocação enquanto nossa? Ou isto está em toda epopéia de fidelidade, seja qual for a vocação?

Em última análise, isto é, são fraquezas individuais ou é uma contingência da vocação da TFP, ou é uma contingência da condição de católico?

A pergunta não é uma pergunta no ar, porque o modo de enfrentar e de analisar o fato e de tomar atitude perante o fato, resolver o fato, é condicionado a isso.

Então, qual é a impostação que a gente deve tomar?

A minha mais recente cogitação é essa: eu fico na dúvida.

Porque, o que é que é quando eu pergunto: isto é uma cogitação da vocação? Eu pergunto: o que [é] quer dizer aqui a palavra “isto”? Vamos ao fato concreto. Do que é que estou querendo falar? Eu estou querendo raciocinar a respeito do quê? Para meu raciocínio sair límpido é preciso que isso esteja claro. O que estou falando?

Esse acender e apagar de luzes, tudo leva a crer que já houve no Céu quando não havia demônios, todos os anjos eram o que eram e Deus quis prová‑los. Na hora da prova, Deus diminuiu um tanto o esplendor exuberante de sua presença. E comunicou ao demônio a Encarnação do Verbo e a Imaculada Conceição, Nossa Senhora. Propriamente não a Imaculada Conceição, mas a virgindade de Nossa Senhora, e que uma mulher seria a Mãe de Deus.

Nesse momento o demônio, neste apagar, estava sumamente comprazido consigo mesmo; “eu, que grandeza, que estupendo!…”. Imaginem, para Lúcifer ser chamado “aquele que leva a luz diante de Deus. Aquele que leva a luz diante da Luz”. Quanto haveria de luz em Lúcifer? Uma coisa que nós nunca poderemos saber. Ela sabe porque é mais luminosa do que ele. Mas é só Ela.

Neste momento, um certo eclipse, Deus revela a ele que vai criar homens e vai se Encarnar em homens, num Homem. Agora, como é? Aí uma revolta.

Houve um esquema, portanto:

1) Esplendor e élan, amor;

2) Esplendor diminui e vem a pergunta: continua o amor?

Os senhores estão vendo aqui que Deus para colher do homem o ato de amor que seria o louvor perfeito que voltaria a Ele e se encerrariam as provas, Ele quis um esplendor que se faz ver, um amor que vai além da simples impressão de esplendor, um esplendor que diminui e o amor fica. Este é o saldo do homem, é o saldo da criatura, é o esquema.

* O que vem a ser consolação na vida espiritual

Livros de vida espiritual falam com freqüência… São Francisco de Sales fala com que freqüência, com que música e ao mesmo tempo com que pua! Ali é uma pua musical.

Embaixo de um quadro de São Francisco de Sales se poderia colocar: “Pua e música!”. Então, São Francisco de Sales fala com freqüência, — para não ir mais longe — ele fala das consolações da vida espiritual e depois da secura da vida espiritual.

Mas o que é que ele entende como consolação? Não é o sentido corrente: alguém que está chorando, vem outro tapoter nas costas, dá um lencinho, ele então se consola. Não é isso não!

Consolação é a hora em que a vida espiritual está inundada de imponderáveis deliciosos, fruto da graça; às vezes se somam. É alguma coisa da natureza sobre a qual baixa a graça. Um panorama muito bonito, uma música muito bonita…

Então, num certo período da vida espiritual as almas vivem como que do Céu, mas São Francisco, outros autores já vão dizendo: “Virá o momento em que isso cessa e que na ausência disso você não só vai ter que continuar a amar, mas a amar mais ainda”. É claro.

* As consolações e desolações dentro de nossa vocação profética

O esquema não é o mesmo? Parece, o esquema parece o mesmo.

Então, o que haveria de específico nosso?

Ah! Eu ia esquecer de dizer: comunhão. Em geral a primeira comunhão é inundada de graças. Quando uma pessoa começa comungar todos os dias, não é raro acontecer que tem um período de consolação enorme.

De repente, começa não prestar atenção, tem a impressão que comunga mal, começam aparecer dificuldades para ir comungar, o professor marca uma hora de aula na hora da comunhão, o vigário briga, o sacristão zanga com a gente, acontece tudo. A comunhão fica difícil, acaba árida.

É preciso progredir na devoção Eucarística apesar da consolação ter cessado. A prova de que nós andamos bem no tempo da consolação é que fica algo e muito quando ela passou. O que fica é o saldo.

Então, o que é específico de nossa vocação?

É o assunto a respeito do qual essa prova se dá.

Quer dizer, a respeito de Revolução e Contra‑revolução há para nós toda espécie de consolações, toda espécie! É concebível de acordo com esse esquema, é concebível que essas consolações em certo momento sejam seguidas pela secura, pela aridez, e que esses imponderáveis se passem e tenha que ficar algo, é compreensível, está no esquema.

Sendo nossa vocação uma vocação de uma missão profética, no sentido já explicitado da palavra, compreende‑se bem que essa vocação, que esse assunto, — quer dizer a vocação, e se a esperança profética se realizará ou não — seja tema de tantas consolações e tema de tantas desolações.

Eu estou me espraiando um pouco sobre isso, mas é que eu tenho a impressão que enquanto não sentir bem in concreto, a teoria não foi apanhada ao vivo. É exatamente do que o “ploc‑ploc” não gosta. Exemplos, etc., o “ploc‑ploc” não gosta, porque não dá láurea universitária.

* As consolações e as aridezes de uma religiosa que foi chamada pela Providência para cuidar de doentes

Muitos dos senhores passaram por universidades. Não sei quantos se formaram. Alguns eu sei que se formaram. Os senhores viram professor de universidade dar metáfora em aula? É… já um professor secundário se julga desonrado de dar uma metáfora em aula, quanto mais um universitário! É o “ploc‑ploc”. Vamos deixar o “ploc‑ploc” de lado. Vamos nós para frente.

Mais um exemplo: a gente compreende perfeitamente que uma freira, chamada pela Providência para cuidar de doentes num asilo qualquer ou de velhos, tenha um primeiro período de consolação.

Vamos dizer, um asilo de velhos faz ver em cada velhinho Nosso Senhor Jesus Cristo que está ali: “Bem‑aventurados os que… ‘tá tá tá’…”. Se Ele fosse capaz de ficar velho: “Eu estive velho e tu tivestes pena de Mim, ‘bá bá bá’…” É uma bem‑aventurança cuidar de doente. E a pessoa vai cuidar do doente, sente os imponderáveis daquilo tudo, é um sol, cada velho é um sol, cada velho é um outro sol.

No primeiro período a freira nada na consolação. E pode escrever no seu caderno de notas ou nos seus papéis espirituais: “Oh! Louca que eu era quando eu seguia as alegrias do mundo! Como eu encontro naqueles que o mundo abandonou a razão de uma alegria! Como os homens mais ricos da Terra não tem!”. Eu compreendo.

Mas é certo em que virá o momento em que ela vai ver no velho apenas, — não sei porque as palavras francesas me estão ocorrendo hoje, mas é que não sai a palavra portuguesa para dizer isso — vai ver no velho apenas a bouderie. Se quiserem, um pouco “refonfunho”. A debilidade, a desagregação da natureza, o egoísmo que não abandona o homem de ponta a ponta da vida, a falta de gratidão, aquilo, aquilo, aquilo outro.

E a freira: pam! Passa daqueles mil imponderáveis para “aquela velha coroca” que está elogiando para a freira, uma filha que a freira sabe que é mulher perdida, mas que ela, velha, quer mais bem do que quer a freira. A filha abandonou e jogou a mãe lá.

Qual é a gratidão que ela recebe? O que é aquela velha?

Pum! O assalto do imponderável. Nessa hora os imponderáveis murcharam um tanto. Sem culpa dela, é uma prova. Não é um pecado dela, murcharam um tanto, é uma provação. Como satanás, os anjos rebeldes, os bons também, quando a glória de Deus minguou um tanto para eles, não tinham culpa. Tiveram culpa depois, quando se deixaram arrastar.

* Nossa vocação pede de nós uma espera contra todo o verossímil

Então, a gente compreende que em todas vocações seja isso assim. A gente compreende a propósito do que isto se dá, também é fácil de compreender. A gente compreende menos bem que na nossa vocação essa espera tenha que ser enorme. E tenha que ser contra todo o [verossímil ?].

Por quê?

Porque está na natureza humana que quando vem esses esplendores, a gente os interpreta como se eles tivessem dizendo a nós que isso durará eternamente. E a freirinha de que falei, pensa que ela vai ficar assim atendendo velhos seráficos e querúbicos até o fim da vida. Até em certo momento o imponderável assaltá‑la. Surpresa, ela não contava com aquilo.

* A espera é grande provação do profeta; e para quem participa da sua vocação é a participação da espera

Também os anjos no Céu supunham, provavelmente, que aquilo duraria a eternidade, não contavam com esse minguamento. São surpresas de Deus.

Para a provação ser provação, — e é preciso ser provado — tem que pregar uma surpresa. Não tem conversa!! A surpresa é da natureza da vocação. Para o profeta é a espera.

E para quem participa da vocação dele, é a participação da espera. É claro!! Pois, se ele é o homem que prevê o futuro, é assim, ele passa por cima do tempo para prever o futuro, o específico dele é a espera, porque o futuro parece tardar. É racional, é razoável.

Bem, para os que participam da vocação dele é a participação na espera, não tem conversa!

Se é a participação na espera, nós temos que nessa espera, dessa espera fazer um meio para amar cada vez mais.

Mais ainda: quanto mais extraordinário o fato esperado, tanto maior tem que ser a espera. E não é de desconcertar que para a maior vitória que houve no mundo depois da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, que para a maior vitória que houve no mundo, seja a maior espera!!

Os senhores vêem como tudo isso é razoável, tem cabimento, etc… Mas se fosse só isso, não é nada.

Não é apenas uma espera longa, porque o longo é quantitativo. Tem que ser uma espera qualitativa.

O que é uma espera qualitativa? O que é a espera multiplicada pela surpresa?

Se fosse a gente saber que vai demorar, essa espera não era tão difícil de agüentar. Vamos dizer, por exemplo, uma pessoa que entra num submarino e sabe que é uma viagem de submarino de um mês.

Acho que no mundo de hoje não há mais viagens submarinas de um mês, mas estou imaginando. A pessoa vai, leva para o submarino o necessário para passar um mês lá. Leva livros, leva tudo quanto é necessário para passar um mês lá, certo de que o submarino… de que a tripulação leva comida, bebida e, que de vez em quando sai, põe o famoso tubo a funcionar, entra ar fresco, etc., etc., sobretudo se for um submarino não em guerra, a coisa vai, enfim, a gente se instala por um mês, vai lá, a gente arma a paciência para um mês.

Não é o nosso caso!

* A vocação só seleciona as almas que queiram entregar‑se a esta espera quantitativa e qualitativa

A Providência quer que nós tenhamos esta forma de espera por onde nós esperemos a todo momento, ou seja, quando Deus quiser! Ou seja, seja como o Céu… nós estamos certos de que o Céu nos aguarda, se nós formos pela intercessão d’Ela do número dos justos. Mas quando? Posso eu não terminar aqui minha frase. É menos provável, mas pode acontecer com um dos senhores de não acabar de ouvir minha frase: foi para o Céu.

Mas isso que pode acontecer a qualquer momento, acontecerá por certo, ao cabo de algum tempo mais longo ou menos longo.

Assim é o Reino de Maria. Assim será o fim do mundo, assim são as grandes esperas de Deus.

E a espera qualitativamente bem esperada é tão viva como se a Bagarre devesse vir daqui um minuto. E com ela o Reino de Maria. Mas ao mesmo tempo, tão resistente que dure ela quanto durar, a gente chega até o fim.

Aqui estão as flexibilidades inerentes à coisa. E é preciso pedir a Nossa Senhora graças especiais para conduzir isto assim, porque mesmo na análise dos fatos, no plano humano, isto é assim.

Não há um aqui que lendo regularmente os jornais, possa dizer que é absurda a notícia de que a esta hora as tropas russas estão invadindo a Polônia e as tropas norte‑americanas estão invadindo a Europa, não há um aqui. Vindo a notícia, nenhum dirá: “Ora, quem haveria de dizer!?”. Mas não é só aqui. Não há na Terra um homem que diga: “Quem haveria de dizer!?”. É de um momento para outro que isso pode dar‑se.

Mas ao mesmo tempo, sabemos que pode demorar. Temos que ter a flexibilidade dessa espera.

Na parábola das virgens prudentes e das virgens loucas essa espera é bem qualificada: o esposo pode chegar a qualquer momento e quer encontrar todas com o azeite na lamparina. Umas “zupponas”: “Ah! longa espera”. Deixa morrer o azeite na lamparina. Outras estão esperando para qualquer momento, mas já há muito tempo. A essas o esposo leva.

A vocação só seleciona as almas que queiram se entregar a essa dupla espera!! Aqui está a ponta!

Esse é o estágio mais recente de minhas elucubrações.

É linda a efervescência das almas que estão no borbulhar da espera que ainda não foi provada, como era lindo o Céu antes de Lúcifer e de seus anjos caírem. Lindo, lindo!

Mas como é mais belo o Céu com os anjos provados e que foram fiéis!! Está tudo dito! Eu não tenho outra coisa a acrescentar, senão ouvir o meu Guerreiro e consultar a hora. São cinco para as duas, mas dá tempo para ouvir o meu Guerreiro e responder. O que é meu filho?

(Sr. Guerreiro Dantas: Problema que nunca consegui resolver: o que é o Reino de Maria? Porque, conceito abstrato sempre tivemos, mas o que é? Para mim o Reino de Maria hoje é uma questão secundária…)

Oh!!

(Sr. Guerreiro: No seguinte sentido: Reino de Maria é estar aqui ao lado do senhor…)

[Exclamações]

(Sr. Guerreiro: Digo isso para afirmar que para nós a provação é outra. Para o senhor é a espera. Agora, nós temos que esperar por outro lado: ver o senhor vencer tudo. Então, aí como se coloca a provação?)

Eu tenho dito aos senhores, tenho lembrado aos senhores, muitas vezes a propósito de várias coisas, diante de nossas reuniões, graças a Nossa Senhora com uma nota de internacionalidade muito presente, porque há gente das mais variadas nações, — só faltam os afegãs e quirguizes… — eu tenho dito várias vezes que eu não sou senão brasileiro, não tenho outra origem, outra coisa senão Brasil, eu sou totalmente brasileiro. E posso, portanto bem dizer, é muito perigoso ser brasileiro.

Porque a gente sendo brasileiro tem uma facilidade muito grande para perceber as coisas antes das idéias se terem tornado nítidas. E uma vontade muito grande da gente dizê‑las antes de ter encontrado as palavras adequadas para dizer…

[Risos]

* O desejo do Sr. Dr. Plinio de que os membros do Grupo tenham um rico vocabulário para poderem se expressar com toda precisão possível

E se há tantas risadas aqui, elas têm mais o timbre do brasileiro do que do não brasileiro, porque os senhores sentem em si a realidade do que estou dizendo. Mais ainda: que como nós nos comunicamos nessa linguagem perfeitamente e entendemos o que queremos dizer, acaba sendo que a linguagem precisa não é para o intercambio entre nós uma necessidade de primeira ordem.

E com isso, acabamos dizendo o que não pensamos, escrevendo o que não pensamos e pensando não o que pensávamos, o que nós dissemos. A nossa formulação nos trai.

E quando eu procuro dar aos meus queridos ouvintes, que eu sei que [estão?] na sua grande maioria brasileiros, eu procuro dar o exemplo — que eu consigo ou não consigo — de um vocabulário muito preciso para dizer toda coisa com toda precisão possível, e apresentar sempre meus pensamentos muito precisos; — é um empenho que eu tenho continuamente, continuamente, continuamente — é um pouco para um uso dos meus brasileiros. Um pouco… muito!

Largamente para uso dos meus brasileiros, para ver se eles tomam este gosto da coisa pensada a ponto de poder ser formulada.

E meus caros, vamos pôr o pé no concreto: do vocabulário bastante vasto, para poder dizer com toda precisão o que pensamos.

* A riqueza de vocabulário que tem a língua portuguesa

Até vou dizer mais.

Pode ser que eu me engane, eu não estudei línguas. Eu entendo algumas línguas, mas não estudei línguas. Mas eu tenho a impressão que nossa língua tem uma riqueza de vocabulário exemplar.

Eu tenho impressão, que por exemplo, é bem mais rica em vocabulário — não me queiram mal — do que o castelhano. O que os meus chilenos substituem com toda espécie de riquezas de inflexão de voz… e, para isso escamoteiam as consoantes, para a coisa ficar mais cantada, etc., etc…

Mas acaba sendo que, de um modo ou de outro o português tem uma amplitude de vocabulário fenomenal! E é uma necessidade de nosso pensamento, muito impetuoso, veraz no primeiro jorro, mas que ou tem mais muitas palavras para se exprimir ou acaba não exprimindo o que nós pensamos. Daí vem a ciranda e o erro.

De maneira que eu tomo aqui o exemplo respeitável pela meia “veteranidade” do meu querido Guerreiro, do que ele disse de inteligente, de veraz, mas que não dá a riqueza inteira do pensamento que está no espírito dele.

[Risos]

Olha a brasileirada!… Saiu um comentário pessoal… “ãhãhãh”… “brasileiragem” debandada.

* Qual é o conceito de Reino de Maria

Vamos para frente!

Eu interpreto o que meu caro Guerreiro quis dizer, da seguinte maneira:

O conceito de Reino de Maria é um conceito assim: é uma ordem de coisas que nós consideramos sobretudo no aspecto temporal, mas que tem sua essência numa esplêndida ordenação, num apogeu espiritual da Santa Igreja Católica Apostólica Romana sem a qual não há nada, mediante o qual Nossa Senhora chegue ao fastígio de poder sobre as almas que é a maior glória da História depois da Ressurreição e Ascensão de Nosso Senhor. É o conceito do Reino de Maria.

Conceito perfeitamente exato, magnífico, mas que dando a coisa indispensável para se pensar no assunto… — não se pode pensar no assunto a não ser em função desse conceito — mas que brasileiramente falando, e eu acho que legitimamente falando, pede e suplica a transposição do mesmo pensamento para terrenos menos abstratos, a procura da realidade total. Isso eu louvo.

* Qual é a idéia do homem e do gênero humano que virá no Reino de Maria, como a Providência nos faz ver algo do futuro refletido no presente

Então, a pergunta dele é: está bem, é uma ordem espiritual assim, de uma santidade que São Luís Grignion descreve quando ele fala dos Apóstolos dos Últimos Tempos e da qual, portanto, com os padrões antigos nos é difícil formar até uma idéia, embora os padrões antigos sejam de uma magnificência estupenda.

Então, sabemos que virá isso e podemos imaginar para o âmbito de nossa vocação uma ordem terrena assim. Mas esta ordem terrena tem que ser admirada e amada por homens que não são anjos e que, sendo seres racionais e lógicos, não são raciocínio puro.

E para este amor ser um amor de homem, — é o que Deus pede a nós, Ele não nos pede um amor de anjo — para este amor ser um amor de homem é preciso estar revestido, o conceito é preciso estar revestido de certas implicações na ordem prática, sem as quais nós não podemos dar em favor desses conceitos tudo o que devemos dar…

(…)

e nós brasileiros, voltamos um tanto as costas para a cultura, porque a cultura não nos dá isso, a cultura “ploc‑ploc”. Mas nós queremos isso.

Então, meu Guerreiro anda muito bem perguntando como é que nós podemos idear isto que vem. Quer dizer, o que quer dizer aqui “idear”? Fazermos a idéia de homem, de gênero humano. Eu tenho certeza que é o que ele quis dizer, hein?! Ele me olha inteiramente distendido e sorridente, é o que eu enuncio para aqueles a quem ele está dando as costas.

Mas o cuidado de exprimir isto assim não é natural ao brasileiro. Deve ser.

Vamos para frente!

Não disse ele, mas eu sei que é o pensamento dele.

Encrencou qualquer coisa aqui, não?

(Sr. –: Não.)

Telefonema é?

(Sr. –: Não.)

[Risos]

Nós sabemos de tal maneira que este Reino transcenderá o atual, que nós não podemos nos fazer uma idéia de como esse Reino será.

Mas está nos padrões humanos, quer dizer, que Deus usa com o homem com sua providência comum, que quando Ele quer que um homem pressinta o futuro, viva em função do futuro e prepare o futuro, Ele deixa, — como Ele deixa o sol se mirar numa gota d’água — Ele deixa esse futuro se refletir em algo no presente.

E a nossa esperança do Reino de Maria não terá tomado uma proporção inteiramente para homens, nos deixa nós brasileiros asfixiados e com ar rarefeito, se até lá a focalização da esperança não for feita.

Então, pergunta‑se: se nós temos atualmente, na atual noite, na atual penumbra, nós temos alguma coisa que possa nos dar a esperança do reino que virá, e que irrigue de algum modo com proporções humanas aquilo que nós em abstrato já sabemos como é? A idéia abstrata preside, mas ela não exclui, para nós homens ela pede o complemento. Então está ai a pergunta dele.

Eu acho que a pergunta assim tem todo propósito, uma pergunta muito boa. É preciso dizer que isso não estava muito claro no que ele disse, mas é o espírito, o impulso da alma é esse.

* Qual foi o ambiente em que a santidade de Santo Agostinho brilhou; quem conheceu Santo Agostinho de alguma maneira viu a Sainte‑Chapelle

Agora a resposta. Eu me tenho perguntado isso a respeito dos católicos das catacumbas [em] função à Idade Média.

Aqueles santos todos do período catacumbal, mártires, etc… Depois o período pós‑catacumbal, Império Romano, grandes doutores — Santo Agostinho! Para não ir mais longe. A gente lê Santo Agostinho e as obras dele são tais, que se lidas dentro de um monumento medieval qualquer, à luz de um vitral, elas encontram uma ambientação completa! A gente diria que aqueles arroubos de inteligência e de coração dele estavam na proporção inteira da idade que veio.

Mas ele não teve aquela ambientação. Como seria Hipona? Que vendedores de pipocas e bananas haveria em Hipona? Um pessoal tíbio, vagabundo, que se entregou aos árabes, uns descendentes degenerados de vândalos, de quantas outras raças, de cartagineses que se entregaram aos árabes, não sei lá de que jeito, com que poltronice. Uns visigodos que não tiveram o seu Cid e que foram aceitando e que nem ficaram mozárabes, se paganizaram e se arabizaram completamente. Vergonha do Mediterrâneo! Ali brilhou Santo Agostinho.

Ele tinha algum lampejo da época em que ele seria glorificado como merecia? Pode‑se fazer a pergunta. E a resposta é: de algum modo evidentemente tinha. E quem conheceu Santo Agostinho, — se as coisas pequenas podem se comparar às grandes — quem conheceu Santo Agostinho de algum modo viu a Sainte‑Chapelle. No tempo em que havia uns tupiniquins possivelmente louros e de olhos azuis, pulando e matando gente no lugar onde hoje existe a Sainte‑Chapelle. É assim a História.

Então se compreende que os membros da família de alma da TFP procurem ver, dentro da própria TFP…

[Exclamações]

* Que beleza seria termos um vocabulário adequado

o início do Reino de Maria. E digam: esse prenúncio nos é indispensável para que nossos pulmões respirem a todo hausto.

É belo que um brasileiro tenha feito essa pergunta. Muito mais belo será o dia em que todos os brasileiros saibam transpor essa precisão e para o vocabulário adequado. Meu Guerreiro tem todos os recursos de inteligência para isso, vários outros têm. Fica aqui respondida a pergunta, lembrado que o relógio deve estar indo…

[Exclamações]

indiscreta e que meu dia de amanhã me permite esperar a aurora pensando em nosso João que gostaria de estar presente.

Vamos portanto, meus filhos, andando.

(…)

repitam, por nós e por cada um dos da TFP, dos que foram para que voltem, dos que são para que subam, para os que devem ser, para que cheguem; oração da Restauração, altamente desejável para nós.

Meus caros, vamos andando! Meu bom Gugelmin… eu não quero abusar de um moço que tem torcicolos.

(…)

a intenção é: que Nossa Senhora nos faça compreender, aceitar bem o que foi exposto agora aqui.

(…)

*_*_*_*_*