Conversa
da Noite — 9/1/1982 — Sábado – p.
Conversa da Noite — 9/1/1982 — Sábado
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Nossa Senhora é como um magnífico poliedro em que, ao se contemplar uma das faces, percebe-se a excelência de todas as demais * Aspecto de Nossa Senhora que, de início, mais tocou o Sr. Dr. Plinio * "Um olhar que me deixou calmo para a vida inteira" * Relação entre a misericórdia, a pureza, a fortaleza e a sabedoria de Nossa Senhora * Uma graça que ficou como um sol para a vida inteira: "Meu filho, eu te quero" ─ "Minha Mãe, eu sou vosso" * "Se não fosse a confiança na misericórdia de Nossa Senhora eu me desintegraria"
…é bonito ouvir de perto, é bonito ouvir de longe, indiscutivelmente. [Refere-se ao canto.]
Bom, meus caros, quem é o pergunteiro?
Senhores dos sábados!
* Uma súplica para que o Senhor Doutor Plinio trate com mais profundidade sobre a devoção dele a Nossa Senhora
(Sr. João Clá: Pode-se fazer súplica ao invés de perguntar?)
Qualquer coisa.
[Entra o Sr. Guerreiro]
Chega aqui, meu Guerreiro. Está bom?
Olhe, fechem uma daquelas janelas, fechem a que está mais perto daqui.
(Sr. João Clá: Pode-se fechar as três.)
Não.
(Sr. João Clá: Feche três.)
Não, feche duas.
(Sr. João Clá: Estando quente, a gente abre.)
Mas então, meu João…
(Sr. João Clá: O senhor não gosta de meias medidas.)
Ahahah! Mas então?
(Sr. João Clá: O senhor hoje, no Santo do Dia, acabou tratando de um assunto que, no fundo, é o cerne da Contra-Revolução e, tomando no sentido inverso, é o cerne da Revolução. Hoje à noite o senhor quase que deu o fundo da alma, o fundo da Revolução, da Contra-Revolução; à noite a gente vê que o senhor pode dar muito mais, mas mais do que isso é passar do fundo.
Mas há um tema que o senhor sempre tratou com base na doutrina, não indo até as minúcias como o senhor foi hoje. Mas há um outro tema em que o senhor não vai ao fundo, eu não sei por que razão. Se o senhor disser que já foi ao fundo eu posso mostrar ao senhor que não foi e que há mais coisas a dizer: e é toda a devoção a Nossa Senhora, que deve ser a característica essencial do Reino de Maria, e que é a característica essencial do senhor, e que sendo do senhor deve ser nossa também por participação, por desdobramento.
Há uma devoção a Nossa Senhora que o senhor tem e que é, por assim dizer, resumitiva de toda devoção a Nossa Senhora que houve na História e até, sob certo sentido, é mais profunda do que tudo aquilo que já houve na História; e que se notam em mínimas coisas, por exemplo, hoje à noite, no Santo do Dia, o senhor falando a respeito da obra da Criação, o senhor poderia ter dito: Deus Criador, Nosso Senhor Jesus Cristo - mas imediatamente o senhor se vira e diz: Nossa Senhora foi o X dessa… Enfim, há todo um relacionamento do senhor com Nossa Senhora que a gente sente nos imponderáveis, a gente sente no convívio, algumas coisas a gente não só sente mas chega até a explicitar. Por exemplo, a vinda da Sagrada Imagem, quando o senhor recebeu a lágrima de Nossa Senhora de Rocca Corneta, naquele algodão que foi trazido pelo Cônsul Gomide; o senhor mandou fazer aquele relicário lindíssimo, hoje em dia meio banalizado, mas é de uma beleza suma.)
Como não fui eu que fiz, posso dizer que é muito bonito.
(Sr. João Clá: O senhor não foi o ourives, mas o senhor deu a idéia…
(Sr. Andreas Meran: Foi monarca do assunto.)
[Exclamações]
Eu me arrependi daquela comparação. [Risos]
(Sr. João Clá: Quando o senhor recebeu aquela lágrima, o senhor tratou com aquele carinho onde se via o fundo da alma do senhor, percebia-se o fundo da alma do senhor em matéria de devoção a Nossa Senhora, e o senhor disse que quando uma imagem de Nossa Senhora de Fátima chorasse, que nós deveríamos rachar o mundo em dois mas deveríamos conseguir a imagem para que pertencesse ao senhor.
Alguns anos depois houve uma imagem de Nossa Senhora de Fátima que se supunha que houvesse chorado no Rio de Janeiro, e o senhor moveu todo o Grupo do Rio de Janeiro para ver se se confirmava o acontecimento, e se se confirmasse, o senhor disse que era preciso fazer de tudo para se conseguir a imagem.
E de repente vem a Sagrada Imagem; passa alguns dias, vai embora. Havia um relacionamento do senhor para com ela que o senhor sentia que ela havia de voltar, a tal ponto que as palavras mais comovedoras que o senhor teria dito a respeito dela foi no momento em que ela partia, e o senhor dizia:
"Essa Imagem deve voltar e deverá vir para estar no comando da batalha assistindo os grandes acontecimentos durante a «Bagarre». Ela não parte definitivamente, mas ela voltará."
Não me lembro dos termos exatos, mas existem fitas gravadas que até hoje se reouvem etc. Aí está a Sagrada Imagem e a gente nota que a devoção do senhor à Sagrada Imagem - é uma coisa que o senhor não pode notar, porque o senhor não vê - mas quando [se] estava junto da Sagrada Imagem e ela estava longe do senhor, o que mais tocava a gente que estava junto da Sagrada Imagem era ver como Ela tinha como que uma saudade do senhor. Há um relacionamento tão profundo, tão entranhado entre o senhor e Ela [Nossa Senhora], Ela e o senhor - evidentemente ressaltado o princípio que o senhor deu ontem: Ela é Ela, o senhor é o senhor; Ela é Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, merece o culto de hiperdulia etc., e o senhor é filho dEla.)
Um filho dEla.
(Sr. João Clá: Então, eu não faço uma pergunta, mas uma súplica: Eu suplico ao senhor que o senhor mostre o fundo desse relacionamento, não com o intuito de a gente ver como funciona; não é bem isto; mas é com o intuito de a gente ver se pode participar mais disso, e acabar saindo daqui mais devoto dEla ainda, do que aquilo que já temos em matéria de devoção, pelo fato de conviver com o senhor. Não há pergunta a fazer. É um pedido.)
* Nossa Senhora é como um magnífico poliedro em que, ao se contemplar uma das faces, percebe-se a excelência de todas as demais
Está exposto com uma ênfase bem à la meu João. Eu às vezes tenho procurado responder-me a mim mesmo sobre essa pergunta, porque tinha certeza que, respondendo-a, eu poderia depois pensar algo que pudesse fazer bem para o Grupo. Primeiro, para mim mesmo, para meu próprio uso. Mas para meu próprio uso não precisaria muito, eu não me daria ao trabalho de explicitar. Mas porque eu tenho certeza de que poderia fazer bem para o Grupo. E só mais recentemente é que encontrei uma figura tão simples como mais não se pode imaginar, mas que exprime bem a coisa. Eu até não sei se ela em geometria é inteiramente exata. Sabem que meus conhecimentos de geometria, etc., são os mais sumários e os mais desinteressados possíveis. Mas, enfim, digamos.
Imaginem um poliedro. A pessoa tem diante de si um corpo com várias faces; é essa a idéia, também muito primitiva, que eu tenho de um poliedro; não sei se o poliedro é exatamente isso, mas digamos que seja.
Bem, num poliedro bem construído, a gente olhando para uma face, só essa face, a gente intui como são as outras faces. De maneira que tendo em consideração, por exemplo, um poliedro cujas faces sejam triangulares, a gente, vamos dizer, vendo uma das faces triangulares, a gente percebe que ele é todo triangular, e que olhando uma face se vê todas as outras.
Assim é Nossa Senhora, em virtude da perfeição supereminente que Ela tem e do culto de hiperdulia que a Igreja vota a Ela. Quer dizer, Ela tem as qualidades em grau tão, tão alto, que a gente considerando uma qualidade qualquer, percebe que, necessariamente, para Ela ter aquela qualidade tão alta, Ela tem igualmente altas todas as outras qualidades de que uma criatura humana seja capaz…
[Exclamações]
Bem, e que, portanto, vamos dizer, a Fé que Ela tem, a Esperança e a Caridade. Conhecida, por exemplo, a Fé, conhece a Esperança, conhece a Caridade; conhece depois as virtudes Cardeais etc., etc. Porque, conhecido um lado do poliedro, se intuem todos os outros lados com as dimensões… Ao menos é a idéia que eu faço de um poliedro. Se um poliedro não for bem assim, aceitem … [inaudível] …[02:28.6] como sendo válido e vamos tocar para a frente. A metáfora serve. Bem.
* Aspecto de Nossa Senhora que, de início, mais tocou o Sr. Dr. Plinio: compaixão com que Ela, de dentro de sua excelsa santidade, olha para quem não é santo
O que mais me tocou, primeiramente, em Nossa Senhora ─ eu procuro démêler, desentranhar os aspectos uns dos outros para responder a sua pergunta ─ não foi tanto a santidade d’Ela, foi — é das tais coisas do poliedro —, mas foi a compaixão com que essa santidade olhava para quem não é santo.
Quer dizer, é a santidade virginal, régia, enfim, tudo o mais quanto possam querer — nunca se dirá bastante d’Ela — mas é a compaixão com que Ela olhava para quem não é santo, e atendendo com pena, com vontade de ajudar, com uma misericórdia cujo tamanho era o das outras qualidades. Quer dizer, inesgotável, pacientíssima, clementíssima, pronta a ajudar a qualquer momento, de um modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de impaciência, de nada disso, mas sempre disposta não só a repetir-se a Si própria, mas a superar-se a Si própria. De maneira tal que a gente… feita tal misericórdia e mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos vão atraindo a luz para o fundo.
[Exclamações]
E quanto mais nós fugimos d’Ela, mais as graças d’Ela se prolongam e se iluminam em nossa direção.
* "Um olhar que me deixou calmo para a vida inteira"
Como eu vi isso? Eu só poderia comparar — os senhores se lembram que eu falei há pouco, no auditório São Miguel, do miosótis — comparando o miosótis com o sol, eu só poderia (nem isso, transcende ainda mais) eu só poderia comparar com o efeito do olhar de São Pedro… de Nosso Senhor para São Pedro.
Quer dizer, quando Nosso Senhor olhou para São Pedro, São Pedro teve uma… durante a Paixão d’Ele em que São Pedro O renegou e que o galo cantou, Nosso Senhor olhou para ele. Quando Nosso Senhor olhou para ele, ele se sentiu tomado inteiro; e ele que tinha visto tudo quanto os Evangelhos narram, enfim, ou ele tinha visto, tinha sido testemunha direta, ou tinha ouvido uma repercussão imediata, mas ele conhecia aquilo tudo, e ele conhecia Nosso Senhor perfeitamente, ele, naquele olhar, recebeu uma comunicação de tudo o que ele conhecia, mas, vamos dizer, com tal acento, com tal esplendor, que derrubou a ingratidão dele. E o Evangelho diz: Et flebit amare, “E chorou amargamente". Daí vem a grande contrição de São Pedro; um dos fatos mais bonitos da história dos santos é o grande arrependimento de São Pedro.
Quando eu era menino e que eu fui ao Coração de Jesus e que pela primeira vez a imagem de Nossa Senhora que eu… a primeira vez atinei com a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, eu não tive nenhuma visão, nenhum êxtase, nenhuma revelação. Mas eu me senti tocado como se a imagem me olhasse.
E senti-me tocado, quer dizer, tive conhecimento, não sei como — mas nós sabemos pela nossa Sagrada Imagem como é que ela olha sem olhar, eu não preciso explicar isso a ninguém — eu tive conhecimento como que pessoal dessa misericórdia insondável, dessa bondade que me envolvia todo, de maneira tal que ainda que eu quisesse fugir ou renegar, Ela me pegaria afetuosamente e diria: "Meu filho, volte de novo, aqui estou Eu.” E isso me… fazendo-me entender a profundidade dessa misericórdia.
Em primeiro lugar, eu fiquei calmo para a vida inteira.
[Parece que houve um pequeno corte aqui]
Porque seja o que for e como for, uma vez que nós homens estamos envolvidos por essa misericórdia, nós podemos descansar; porque Ela, no fundo, aquele que se volta para Ela, que não é brutalmente insensível com Ela, Ela acaba arranjando, ajudando, etc. E, vejam bem, o que eu… uma das notas que dentro da indefinição de minha mentalidade de menino, entretanto eu tinha bem claro é o seguinte: que — e foi das coisas que mais me enlevaram — que isso não era um privilégio para mim; que era a atitude d’Ela diante de todos os homens. Quer dizer, eu não me senti tratado nem um pouco (Ela poderia fazer isso, poderia condescender em querer tratar um "x" como um privilegiado) mas não foi do que eu tive cognição; eu tive cognição do contrário: "Veja que você é um Zé da rua, e Ela trata assim todos os Zés da rua.
[Risos]
Quer dizer, para qualquer um, para todos os homens que existiram, que existem, para todos os pecadores que estão enchendo aí as ruas, as casas, os bondes e os automóveis, para tudo, Ela é exatamente assim. Eles é que A rejeitam, mas Ela é assim".
Bem, eu volto a dizer, eu fiquei calmo para a vida inteira.
Eu tenho muita pena quando eu vejo uma pessoa, inclusive um "enjolras", nervoso e com problemas, etc., etc. e penso: "Por que eu não posso comunicar a ele um olhar como o que eu recebi de Nossa Senhora? Ele ficaria calmo para a vida inteira".
Eu não consigo exprimir o que foi. Volto a dizer, sem visão, sem revelação, sem… Os senhores conhecem a Sagrada Imagem e sabem como são os olhares dela.
Agora, medindo a profundeza dessa misericórdia sem limites, a tal ponto que no “Magnificat”, sempre eu apliquei aquele “et misericordia ejus (que Ela disse de Deus) a progenie in progenies timentibus eum”, quer dizer, a misericórdia de Deus vai de geração em geração a todos os que O temem, eu sempre pensei: "É bem verdade, e por meio d’Ela. Ela é a misericórdia insaciável, que não acaba, que se multiplica, solícita, bondosa, que toma a nossa dimensão, que se faz até menor do que nós para nos pegar, de pena de nós". É uma coisa que eu não saberia dizer como é…
Esse pessoal aí fora pensa que eu sou uma fera e que eu estou querendo matar todo mundo. Eles não têm idéia do que é essa noção, da cognição da misericórdia de Nossa Senhora.
* Relação entre a misericórdia, a pureza, a fortaleza e a sabedoria de Nossa Senhora
Bem, mas na dimensão dessa misericórdia, como idéia mais próxima, mas contida nessa — porque essas idéias se contêm umas as outras, por assim dizer — contida nessa, vem a idéia da virginalidade. Ela é pura, mas pura, de uma pureza igual, de igual dimensão, é a figura — geometricamente certa ou errada — do triedro, do poliedro, conhecida a misericórdia se conhece a pureza. Quer dizer, um grau de pureza do qual não se tem idéia. Todas as purezas que a gente possa imaginar, possa conceber não chegam nem de longe à pureza d’Ela, que é feita não só de uma ausência de pendor, de qualquer pendor para o mal, mas de um jorro de alma direta e exclusivamente para Deus, sem compromisso com mais nada e ninguém, diretamente; um élan inteiro, de uma força, de uma integridade, de um absoluto, de um desejo do absoluto, como também não se pode medir. Está na dimensão da misericórdia. E daí, nem preciso dizer, uma pureza no sentido de Sexto Mandamento perto da qual a neve seria um carvão.
Bom, mas esta pureza assim traz consigo a idéia da fortaleza, ao menos para mim, para minha ótica, para minha perspectiva; uma fortaleza que não é dizer que nada quebra, que não… é diferente: nada tem comparação possível com essa fortaleza. O que Ela, na sua pureza decidiu, o resto do mundo se flecte e se liquida…
[Exclamações]
…e o universo inteiro não é nada, pela força da vontade d’Ela, Ela decidiu.
[Exclamações]
É um ímpeto, uma decisão, uma resolução…,
[Exclamações]
…uma ausência de possibilidade de resistência de quem quer que seja e no que quer que seja, uma soberania, um domínio da mesma dimensão; mas dimensão para a qual não há palavras humanas, paira acima de qualquer… Falam aí de obuses, de… pobres caranguejolas inofensivas e bestas em comparação de um ato de vontade d’Ela, uma preferência d’Ela.
Bem, por sua vez, essa fortaleza… essa misericórdia, essa pureza, essa fortaleza trazem uma idéia de sabedoria, para mim. Quer dizer, Ela conhece tudo, mas conhece ordenadamente, de maneira que Ela conhece tudo e as inter-relações entre tudo, e com uma ordem tão superior que Ela penetra até as entranhas de todo ser, vê como é e vê a ordem de Deus no universo como é.
[Exclamações]
Bem, agora, o universo é tão grande, tão imenso! Para Ela medir essa ordem do universo assim e compreender o ponto monárquico da ordem do universo como é, para ser assim, nós por aí mais uma vez medimos qual é a imensidade da pureza, qual é a imensidade da fortaleza, e dá uma volta. Quer dizer, uma sabedoria! Mas uma sabedoria lúcida, adamantina, dispositiva de todas as coisas, sem nenhuma dúvida nem nada, com uma força: isto é, aquilo é, aquilo é, acabou-se, lá vai. Também não tenho palavras para dizer.
Essas são as virtudes que, de momento, mais me chamam a atenção quando eu me lembro do olhar na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.
* Uma graça que ficou como um sol para a vida inteira: "Meu filho, eu te quero" ─ "Minha Mãe, eu sou vosso"
Os senhores dirão: "Mas esse olhar o senhor teve como menino, onze, doze anos; nunca mais houve nada disso?"
Eu digo que, para mim, essa graça foi dada de tal maneira que ficou como um sol para a vida inteira, e é como se tivesse sido ontem. Ficou aquilo, é assim!
Quer dizer, propriamente deu-se como se no momento Ela me tivesse dito: "Meu filho, eu te quero". E eu disse: "Minha Mãe, eu sou vosso".
Bem, os senhores me dirão: "Mas onde é que o senhor põe nisso a Nosso Senhor Jesus Cristo?" Eu digo: “Meu filho, tudo!” É a idéia — que, aliás São Luís Grignion desenvolve muito — que Nossa Senhora é o Claustro sagrado, o Oratório sagrado, o Tabernáculo sagrado onde está Nosso Senhor Jesus Cristo, e que quanto mais nós estivermos próximos d’Ela, tanto mais estamos próximos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor está em tudo e por tudo dentro disso.
Imaginem Nossa Senhora, quando do período em que Ela, no seu corpo virginal, Ela estava formando o Menino Jesus, por ação do Espírito Santo, que alguém quisesse adorar ao Messias que se encarnou, abstraindo d’Ela. Isso não é possível! É uma gagueira, não tem sentido!
Bem, eu vejo Nosso Senhor Jesus Cristo — sei que não está presente no claustro virginal d’Ela; não sei, eu precisaria, não tive tempo de estudar, se Ela não tem a Eucaristia presente no corpo d’Ela por toda a eternidade.
[Exclamações]
Mas eu sou propenso, propenso simplesmente, submeto-me ao juízo da Igreja, mas eu sou propenso a achar que sim, porque uma vez que Deus faz a Ela algum benefício, não tira nunca, só pode acrescer. E eu não posso imaginar que uma vez que Ela tenha recebido o Santíssimo Sacramento na primeira Ceia, na Ceia no Cenáculo, que depois a Presença Real tenha cessado n’Ela. Se não cessou na terra, haveria de cessar no Céu? Acho duvidoso.
Ninguém venha me dizer que é inútil no Céu, porque Ela vê Deus face a face. A Presença Real é a Presença Real, acabou-se!
Bem, agora… E portanto, eu me sinto, eu me sei — "eu me sinto" é uma expressão que é boa e não é — eu me sei, pela fé, eu me sei tanto mais unido a Ele quanto mais eu me unir a Ela.
Bom, naturalmente, daí decorre que a minha devoção a Ele passa por Ela; e os senhores não me vêem ter uma referência de adoração a Ele nem de nada, que eu logo depois não fale d’Ela, sistematicamente, é sistemático. E eu creio que mesmo nas ocasiões de maior cansaço — eu espero, pelo menos — isso eu não omita: referir-me a Ele, referir-me a Ela.
Alguém dirá: "Mas muitas vezes o senhor refere-se a Ela sem se referir a Ele". É isso mesmo, porque Ele é infinitamente maior do que Ela. Porque Ele é infinitamente maior do que Ela, eu, me referindo a Ela, Ele está implicitamente contido, mas eu referindo-me a Ele, Ela não está implicitamente contida. E por isso eu faço mesmo; e se Ela me ajudar, farei até morrer.
[Exclamações]
Queiram ou não queiram, gostem ou não gostem me é totalmente indiferente: farei até morrer.
É curioso que sua pergunta se encontra com elucubrações recentes tendentes a uma explicitação. De maneira que saiu o que eu podia explicitar. Talvez pensando mais e explicitando mais, de futuro tenha mais a dizer. Mas de momento, é isso.
E agora, meus caros, eu vou fazer uma coisa que me indica que são quinze para as duas, e fugit irreparábile tempus e que chegou a hora de nós nos despedirmos. Os senhores vão ter que levantar amanhã cedo.
(Todos: Não!)
Como não?
(Sr. João Clá: O "Praesto Sum" sempre começa ao meio-dia.)
É, tem que levantar às onze.
(Sr. João Clá: Mas às onze…)
Diga, meu bom João, diga lá, diga uma pergunta só e…
(Sr. João Clá: A gente passaria a noite aqui, que não seja por nós, por favor…)
Não, não.
* "Se não fosse a confiança na misericórdia de Nossa Senhora eu me desintegraria"
(Sr. João Clá: Isso que o senhor disse do relacionamento do senhor com Ela desde a infância, sobretudo na infância, e o senhor foi explicitando depois durante a vida, evidentemente que a nós encanta, e atrai, e enleva. Mas sente-se que há algo que o senhor talvez não tenha explicitado, mas que nós gostaríamos de, ainda que não explicitado, ter um certo conhecimento a mais do que nós já temos, e que é evidente que não pode ter havido, a Providência não pode ter dado ao senhor o chamado que deu, sem ter ligado o senhor profundamente a Ela.
E o que o senhor diz não é o móvel ainda; é como o verniz do móvel; não é a lapidação da pedra, mas é a pedra em bruto. Há algo de mais profundo, de mais íntimo entre o senhor e Ela e que leva o senhor a ter esse desejo de esmagar a Revolução e leva o senhor a ter esse desejo de implantar o Reino dEla, que a gente vê que existe, às vezes num momento fugaz.
Por exemplo, chega a Sagrada Imagem, o senhor vai oscular as mãos da Sagrada Imagem, ou vai oscular os pés da Sagrada Imagem, ou o senhor se refere a Ela enquanto viajando, enquanto peregrina, está fora; há certos momentos em que a gente vê que o senhor está querendo encontrá-La, está querendo vê-La. São coisas assim fugazes da vida quotidiana que revelam, mais ou menos como aquele poeta grego dizia: "No caminhar ela deixou-se perceber…" Ele se referia a uma divindade pagã. […] No caminhar, pelo passo…
Pelo passo. Quando ela ia embora manifestou que era uma deusa.
(Sr. João Clá: Às vezes são coisinhas minúsculas que deixam transparecer mais que uma conferência que possa ser feita ─ doutrinária, concatenada, etc. ─ sobre a devoção a Nossa Senhora. Às vezes, por pequenas coisinhas, percebe-se um universo que existe por detrás e que a gente não consegue dizer, e que sobretudo, para os mais manifestativos, escapa um "oh!" de exclamação, porque sente-se que houve algo. Nesse momento o senhor não pode estar olhando para a fisionomia da Sagrada Imagem, pode ser subjetivismo, mas conferi com outros ─ há qualquer coisa na fisionomia da Sagrada Imagem que se mostra radiante. Ela fica contente, fica prazerosa, fica alegre de poder ser osculada pelo senhor. Não que o senhor seja maior do que Ela, mas Ela fica contente. Portanto, há algo do senhor para com Ela e dEla para com o senhor, que vai além dos limites do que o senhor disse.)
Eu respondo, mas respondo de um modo que pode ser decepcionante, mas eu respondo com minha franqueza habitual. Exatamente, eu disse há pouco que, quando eu estava no Coração de Jesus, rezando para Ela nessa ocasião, o que me — um dos dados, não foi o que — que me enlevou, mas contribuiu para um enlevo máximo em relação a Ela, [foi] o fato de eu me sentir pecador e uno ex populo, Zé da rua; quer dizer, [com] qualquer alma, [com] qualquer coisa Ela é assim. E nunca — com exceção talvez um pouco na graça de Genazzano — eu tive uma sensação de predileção d’Ela por mim sobre outro qualquer. Nunca! Que Ela tem para comigo essa misericórdia, essa benevolência, eu me desintegraria se eu pusesse em dúvida; eu perderia, ficaria nervoso imediatamente, sem segurança, me desintegraria. Mas certo da misericórdia d’Ela, eu vivo. Mas não enquanto uma pessoa a quem Ela tenha amado especialmente, mas é um uno ex populo; como quem me diz:
"Eu sou tão boa, que eu sou para você [o que sou] para um prequeté que está passando na rua nessa hora ou para um outro que está fazendo uma compra, não sei, na farmácia, qualquer coisa. Eu sou assim para todo mundo. E portanto, se você quiser que os outros se beneficiem, diga aos outros que eu sou assim para todo mundo, que não são…"
[Exclamações]
Não como quem dá uma missão, mas como quem deixa entrever isso. E, por exemplo, no trato com a Sagrada Imagem, perceber alguma vez que Ela tivesse mais gosto em receber meu culto do que o do outro, nunca vislumbrei, nunca vislumbrei. É qualquer, qualquer prequeté que passe pela rua [e] que cultue a Ela, eu tenho impressão que Ela gosta tanto quanto do culto apresentado por mim.
[Risos]
Nunca notei outra coisa.
E — o que é que eu posso fazer? — eu quase diria, eu tenho receio que não seja bem respeitoso, se não for, eu dou por não dito, que isso me maravilha mais do que se Ela me amasse especialmente, se Ela me mostrasse que me amou especialmente e que eu visse isso. Eu, pela razão, vejo bem que Ela condescendeu em me suscitar para uma determinada obra e vejo o alcance dessa obra. Pela razão orientada pela fé, eu vejo; precisaria ser louco para não ver. Mas no trato dEla comigo, absolutamente nunca. O que me faz pensar naquele fenômeno solar muito bonito que houve no ano passado, que todos viram, exceto eu. Eu olhava e não via. Aqui me faz lembrar isso. Eu não vejo. Desaponta.
Como seria bonito que eu dissesse, depois de um suspiro: "Meu caro João, algum dia eu te confiarei a predileção especial que Nossa Senhora tem por mim". Eu vejo pela razão que Ela condescendeu em me dar uma graça, a qual eu vou correspondendo cahin-caha. Conto exatamente com a misericórdia dEla para não me desintegrar. E se não fosse eu ter confiança na misericórdia dEla, eu me liquidava. Inclusive por causa dessa graça:
"O que você fez dessa graça? Você está com 73 anos, morre antes de ir para o quarto onde você está presumindo que vai dormir. O que você fez dessa graça? Redde rationem tuam".
Aí, nessa hora, eu não sou o prequeté da rua; sou o homem favorecido por uma graça especial; o que eu fiz? Agora, explique-se. Dies iræ, dies illa, calamitatis et miseriæ. Nisso eu gosto de pensar.
Para falar com toda a franqueza que você pediu.
Meus caros, eu me darei a mim mesmo o gosto de cumprimentá-los pessoalmente. Agora vamos encerrar nossa conversa que vai mar alto. Não sem três Ave-Marias para Ela.
[Três Ave-Marias]
[O Sr. João mostra algo ao Senhor Doutor Plinio. Parece ser a caixa para o xale da Senhora Dona Lucilia.]
Sim, para quem vê à primeira vista está muito bonito. O que é que é?
(Sr. João Clá: A idéia é fazer num couro bordeau com esta parte queimada.)
Deixa eu ver a parte queimada… Sei, está bem.
(Sr. João Clá: E aqui o medalhão onde vai o Sagrado Coração de Jesus.)
Está muito bonito. Mas aqui seria o Coração ou…
(Sr. João Clá: Uma estampa do Sagrado Coração de Jesus.)
Muito bem.
(Sr. João Clá: Isto é a tampa da caixa. Por dentro teria o medalhão da devota do Coração de Jesus e dentro o manto.)
É, mas…
[Exclamações]
A idéia é até bonita, mas é muito audaciosa. Não, não! Ela ficaria arrepiadíssima.
(Sr. João Clá: Ela ficaria contente.)
Se pusesse aqui, ou aqui, ou aqui…
(Sr. João Clá: Fora da tampa?)
Podia ser. Vamos dizer…
(Sr. João Clá: Então quatro fisionomias dela!)
Não, não!
[Risos]
Parece que a Andaluzia só pode querer coisas ardidas, hein!
[Risos]
Vamos dizer, três símbolos, qualquer coisa, numa delas o medalhão com o rosto dela, iria.
(Sr. João Clá: Quatro símbolos e o medalhão embaixo ou em cima…)
Ahahah! Não, aqui… aqui estaria bem. Conservaria proporção, fora disso não teria proporção, mas aí, ou aqui e aqui estaria muito bem. O que pôr nos outros eu não sei.
(Sr. João Clá: Fica complicado.)
Se fosse praticável, não sei, pôr aqui, por exemplo, aspectos fotográficos internos ou externos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.
(Sr. João Clá: Pode ser, o Menino Jesus entre os doutores.)
Perfeitamente.
(Sr. João Clá: O conjunto da igreja…)
Exatamente. Da torre, da fachada.
(Sr. João Clá: Nossa Senhora Auxiliadora e aqui ela.)
Apenas se Nossa Senhora vai aqui. Ponha aqui para conservar as distâncias.
(Sr. João Clá: O senhor prefere em couro ou metal?)
Acho que em couro é muito mais bonito. Eu gosto muito desses trabalhos em couro, assim. E se é para ficar como meu pára-vento aí, como pára-vento está muito bonito, eu gosto muito.
(Sr. João Clá: E por dentro apenas o céu.)
Está bem. Pode perfeitamente ser.
Meus caros, vamos dormir! Amanhã levantar cedo, hein… Enquanto eu estiver dormindo, os "enjolras" estão indo embora.
(Sr. Andreas Meran: [Inaudível].)
O que é que ele disse?
(Sr. João Clá: Que eu sou o culpado de pôr os "enjolras" fora amanhã.)
Por que é que é culpado?
(Sr. João Clá: Porque não deixo ficar ninguém, obrigo todo mundo a ir lá.)
Ahahah! Atrai, atrai. Está claro.
Então, vamos arranjar a cadeira e fazer andar as coisas.
* * * * *