Conversa de Sábado à Noite ─ 17/10/81 – p. 12 de 12

Conversa de Sábado à Noite ─ 17/10/81

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O elemento mais ativo da obediência religiosa não é a ordem recebida de fora para dentro, mas é quando o religioso pensa como o fundador * As três etapas para atingir a plena união com o fundador ─ Tentações que correspondem a cada etapa * Nossa Vocação comporta uma amplitude de Contra-Revolução jamais vista na História * Diante de tão grande Vocação, somos tentados de preguiça e tendemos a levar uma vida medíocre * Em geral, antes conhecer a TFP, a pessoa começa a sentir uma saturação do mundo revolucionário * Em certo momento, de dentro da TFP, a pessoa é tentada a considerar com indulgência os “lados bons” do mundo ─ entra então o demônio da tibieza * “Só há uma coisa verdadeiramente construtiva: é destruir a destruição”

Está se aproximando [o dia] da partida do Sr. Paulo Henrique para a Europa. Então eu penso que nós devemos dar a ele a prioridade das perguntas, se tiver alguma para fazer, meu Paulo Henrique.

(Sr. Paulo Henrique: É muita amabilidade do senhor!)

Não! É mais do que amabilidade, é afeto! Diga lá, meu Paulo Henrique!

(Sr. Paulo Henrique: [Inaudível].)

* O elemento mais ativo da obediência religiosa não é a ordem recebida de fora para dentro, mas é quando o religioso pensa como o fundador

a pessoa já pensa como a Igreja, depois ela raciocina uma vez que ela pensa algo, depois vai ver o que é que a Igreja pensa e depois ela vai raciocinar para ver, mas em geral o que ela pensa antes de conhecer o que a Igreja diz, ela já está pensando. E algo sem que a TFP possa identificar-se a uma Ordem religiosa, algo de pré-análogo há…

(…)

fundador da Ordem religiosa…

(…)

Uma excelência da Fé católica, portanto, do senso católico pelo qual o religioso, pela qual a excelência religiosa antes de saber no que é que pensaria seu fundador sobre uma coisa que diz respeito aos assuntos da Fé, já pensa como pensaria o fundador, suposto que o fundador esteja em condições de ser fundador.

O elemento a meu ver mais ativo da obediência religiosa é este: é quando o religioso não obedece apenas uma ordem que vem de fora para dentro, um ensinamento que lhe é dado de fora para dentro, mas às vezes é de fora para dentro. Umas vezes, por exemplo, a mim a Igreja ensinou coisas que eu não tinha atinado que eram assim. Às vezes é uma ordem que vem de fora para dentro, mas a maior parte dos casos são da construção da mentalidade já encaminhada naquela direção.

Então, um membro da TFP naquilo que a TFP tem de análogo, de comparável a uma Ordem religiosa, um membro da TFP deve estar unido a mim, como fundador, deve estar unido com esses vínculos, deve tender a formar para si uma mentalidade assim. O que supõe um grande trabalho que pode ser dividido, a Igreja aplica essa divisão a outros campos, tudo pode ser, inclusive aqui, porque é bom em geral e serve para muitas coisas assim…

(…)

* As três etapas para atingir a plena união com o fundador ─ Tentações que correspondem a cada etapa

por onde a gente vê o verdadeiro religioso, e elimina de sua alma os pensamentos que ele tem que são opostos ao do fundador.

Ele procura conhecer os pensamentos do fundador para fazer os seus.

[Exclamações]

E no terceiro elemento ele procura estar tão unido com o fundador que antes mesmo de ele saber o que o fundador pensa ele já pensa daquele jeito.

[Exclamações]

Alguém dirá: “Mas o senhor não vai pretender que um fundador de [uma] Ordem religiosa seja infalível como a Igreja!”

Não, é claro! Supõe que seja notório para o religioso que seu fundador era um homem unido com a Igreja, e que a união com o fundador seja tal que a Igreja dizendo outra coisa, tanto o fundador quanto ele mudam imediatamente. E em terceiro lugar, que ele compreenda que o espírito do fundador é para ele um modo, uma via…

(…)

o espírito da Igreja. Uma Ordem religiosa não forma um alvéolo dentro de uma colméia separadinho por dentro e até o fundo dos outros alvéolos. São coisas intercomunicantes as Ordens religiosas…

(…)

católicos comunicam neste firmamento que se chama espírito católico. Então, eu também não quero dizer que se passa por etapas assim: primeira, despoja-se dos elementos contrários, depois não, mas uma etapa é preponderantemente despojar-se dos pensamentos contrários. A segunda etapa é preponderantemente de aceitar os pensamentos do fundador. E a outra etapa é do sentir…

(…)

A essas etapas correspondem três tentações. Já que nós somos militantes e que a Igreja é militante, vamos falar também das tentações.

Na primeira etapa a tentação preponderante é de pensar contra o fundador e apostatar. Na segunda etapa é de não pensar nada nem com o fundador nem sem ele para não ter que pensar como o fundador.

Na terceira etapa, que dizer, quando se trata de adquirir a mentalidade do fundador é não olhar para o fundador…

(…)

Então, meu caro Paulo Henrique, a uma pergunta correspondeu uma torrente. Mas de outro lado eu resumi muito o que eu queria dizer. Não sei se eu fui claro?

Escute, baixando, antes de sua pergunta, muito o nível, aqui tem alguns biscoitos dietéticos?

(Sr. J. Clá: Tem sim!)

Se pudesse mandar buscar eu gostaria, porque eu estou com uma fome violentíssima.

(Sr. J. Clá: Tem uma série de comestíveis dietéticos! Dá para o senhor comer até as seis da manhã.)

Se eu pudesse era o caso de não arriscar, ouviu! [Risos]

* Nossa Vocação comporta uma amplitude de Contra-Revolução jamais vista na História

(Sr. J. Clá: O que o senhor deu respondendo ao Sr. Paulo Henrique é algo que é genérico, que é aplicável a qualquer Ordem religiosa. Podia ser aplicado aos jesuítas, podia ser aplicado aos beneditinos, aos dominicanos e tudo mais. Agora, a gente vê que cada Ordem religiosa tem sua característica própria, e no decorrer da história as Ordens que vão surgindo como que vão se sublimando cada vez mais em relação às anteriores. E até uma vez eu vi isso em São Tomás. Ele punha o problema de quando é que Nosso Senhor Jesus Cristo deveria ter nascido: se no começo do mundo, ou seja logo depois de Adão ter sido expulso do Paraíso, se no fim do mundo ou em que momento. E ele dizia que deveria ser na plenitude dos tempos. Ele toma o nascimento de Nosso Senhor como plenitude dos tempos. Eu lamentavelmente não me lembro mais qual é a prova que ele dá a esse respeito. Mas lendo isso me veio à mente o seguinte: O que é que a plenitude, quando é que deveria vir o Reino de Maria? Se logo no começo da Cristandade, se no meio da história da Cristandade.

Então a gente vê que o Reino de Maria estava feito para vir numa certa plenitude, ou plenitude dos tempos.

Plenitude dos tempos é a expressão clássica. Agora não sei qual é o conceito de plenitude dos tempos.

(Sr. J. Clá: O Reino de Maria deve vir num momento…)

Mas tem uma plenitude própria, digamos?

(Sr. J. Clá: Eu não sei qual seria, se seria nos tempos do bem e do mal ou do que é que é. Agora, conjugando com isto o que o Sr. Paulo Henrique perguntava e a resposta que o senhor deu, seria interessante se o senhor pudesse dizer quais são as características próprias desta Ordem religiosa que deve constituir como a espinha dorsal do Reino de Maria e quais são as características próprias deste tipo de relacionamento entre fundador e religiosos desta Ordem religiosa. Porque não é… evidentemente que os princípios que o senhor deu são gerais, mas que devem ser específicos para essa Ordem do Reino de Maria em concreto, e de dentro de uma certa plenitude que eu não sei qual é e que deve portanto influenciar, ser a coluna e tudo mais do Reino de Maria.)

Eu nunca me pus o problema tão de frente como o senhor está pondo. Portanto, é possível que eu reouvindo o que eu vou dizer agora eu tivesse alguma coisa a acrescentar, alguma expressão a tornar mais precisa, até mesmo mais exata, mais clara, etc., isso é possível. Mas vendo no meu pensamento assim como um bloco não [trabalhar?], eu diria o seguinte: que me impressiona quando a gente toma a soma dos conhecimentos e dos instrumentos que possuía um homem quando Jezabel…

(…)

a humanidade, e quando possui hoje, nós fazemos a subtração do que possui hoje, menos…

(…)

que ele tem, o que entrou foi um conjunto de mediação e de conhecimentos surpreendentes que tendem, se isso se desenvolvesse até o fim, para dar ao homem um poder sobre a natureza parecido com o poder que tinha Adão antes do Pecado Original. Um domínio global sobre toda a natureza, etc., mas por um paradoxo curioso criando em virtude disso não uma ordem magnífica, mas…

(…)

Entre esses poderes, todos os poderes materiais que vêm ao espírito quando se fala disso, toda forma de conhecimento e domínio sobre a matéria, inclusive a matéria viva é nada em comparação com a possibilidade de moderar a Revolução e portanto, também essa forma de Revolução da guerra psicológica revolucionária.

Um homem tem a força de sagacidade, de jeito, de experiência, chegando a meter no espírito de outro homem sem que o outro homem perceba claramente, uma idéia contrária ao que o sujeito tem na cabeça e depois é evidente que essa idéia na cabeça do outro homem, sem que o outro perceba que está sendo alimentado, e assim levam ao outro pela ponta do nariz quase sem que ele perceba, é um poder muito maior do que mandar…

(…)

na medida em que um homem vale mais do que Marte ─ aí está João Paulo II para dizer que o homem vale mais que o capital, ele tem razão…

(…)

então vale muito mais do que um planeta…

Nessa medida pode-se dizer que é realmente uma coisa do outro mundo e que não houve um César que tivesse o poder que têm as pessoas que sabem fazer a guerra da Revolução, e a guerra psicológica revolucionária.

Bem, e que nessa perspectiva as coisas ficam de um tal jeito que não se sabe verdadeiramente como o mundo vai existir no Reino de Maria, porque a gente diz: “Bom, a necessidade está, convida [ao] caos, acaba a necessidade. Isso conduz ao caos… fica a guerra revolucionária! Se a gente coloca de um lado todos os homens com toda a cultura e com todo o poder nas mãos e de outro lado os que fazem a guerra psicológica revolucionária, ou fazem a revolução mais amplamente falando, esses mandam muito mais do que os outros. Quer dizer, constitui-se ao lado dos poderes visíveis tradicionais e naturais um poder que tem sido utilizado para trabalhar contra a natureza invisível e que por exemplo, levou a Igreja à situação em que Ela está.

E a TFP deve ser o contrário desse poder!

O que se deve pensar a respeito disso?

Existem dois modos de pensar: Primeiro, o progresso. Se não tivesse sido determinado por Jezabel se teria desenvolvido de um modo diferente. Seria muito mais ordenado, etc., o homem teria sabido como controlar as forças que ele desencadeava, e teria chegado a um progresso material útil para o homem… Em rigor pode-se conceber isso.

Agora, com a guerra psicológica revolucionária, ou por outra, com a Revolução. Foi um progresso da humanidade saber isso? Se a humanidade tivesse vivido do século XV para cá, ela teria lucrado em saber essas coisas, teria sabido essas coisas, ou ela teria ignorado? Mas uma vez que soube o que vai acontecer? Nossa Senhora vai fazer esquecer isso aos homens? Para nós, nós não vamos ter que fazer muita força para esquecer porque nós não temos muita vontade para saber. Mas a Providência vai fazer esquecer isso aos homens, e começar uma vida normal? Se não for isso pode pôr o imperador, Papa, rei, presidente da república, pode pôr o que quiser que todos juntos são arrastados pela guerra também.

Não sei se está bem claro ou não?

Bem, agora, propriamente o que é que é essa guerra revolucionária? As forças que a manobram souberam dela durante toda história ou acabaram sabendo especialmente no século passado?

As forças que manobram a guerra revolucionária manobram a Revolução, já conheciam tudo isso quando Jezabel veio ou o demônio foi revelando aos poucos? Há algo que se saiba por onde se pode frear a guerra revolucionária? Só um jeito de liquidar a guerra revolucionária: É estar movendo continuamente a Contra-Revolução!

Sem dar respostas a essas perguntas para as quais eu não tenho resposta certa, eu também oscilo. Eu devo dizer, entretanto o seguinte: uma coisa é certa, é que a Revolução penetrou de tal maneira até na forma de uma bengala ou de uma xicarazinha de café ou de uma argola de guardanapo e com uma tal carga que ou nós temos de modo muito iminente o espírito de nossa própria obra ou ela nos embrulha.

[Exclamações]



A esse respeito não tem conversa! E quando chegar a data X, depois do Reino de Maria os que me continuarem deixam a Revolução penetrar? São… não sei, uma forma supermoderna de palitos [ou não entra?]. De tal maneira que, ou a união entre nós se estende, é tal, fato de uma tal eminência que cobre todo esse terreno, mas com abundância, uma abundância amazônica, ou nós estamos derrotados antes de começar.

Os senhores se lembram de eu falar hoje à tarde do tapete elástico, necessidades diversas…

(…)

mas até que tempo há se desfigurar-se de maneira a parecer um tapete elástico assim, onde as pessoas têm as necessidades diversas conforme a sua generosidade. Já nesse caso…

(…)

é preciso que nenhum seja em nada assim, e essa é a forma de doação que nossa vocação exige.

Para responder a pergunta do Sr. João Clá, como pode isto ser assim?

Nas Ordens religiosas isto foi sempre assim? De algum modo sim. Há, por exemplo, um estilo beneditino, um estilo cisterciense, um estilo jesuíta e outras coisas. Mas isto é um modo de eles serem. Terá tido uma amplitude suficiente para eles saberem modelar o universo?

Elogiei agora à noite no auditório São Miguel, e enquanto existir não me fartarei de elogiar, a lógica jesuítica. Muito bom! Mas essa lógica só, não defende a pessoa contra as formas de palito e de argola de guardanapo…

(…)

É magnífico! Não há louvores que me bastem, mas suficiente, diante desta investida da Revolução, não.

(Sr. Paulo Henrique: É curioso que em Roma, a Igreja do Jesu foi construída com Santo Inácio em vida, começou a ser construída no tempo de Santo Inácio em vida, ou seja com a aprovação dele. E é uma igreja que o senhor conhece, uma igreja renascentista. Fez todas as concessões com o início da Revolução, ou seja, não abarcava de modo nenhum a vocação de combater a Revolução, de combater a guerra psicológica revolucionária que naquele tempo…)

Eu não sei se Santo Inácio conheceu a decoração interna da igreja.

(Sr. Paulo Henrique: Eu creio que não.)

É, a igreja no seu todo nós não mandaríamos fazer. E esse é o grande e incomparável Santo Inácio.

Bem, então aí a gente compreende bem as nossas, o que é que nossa vocação nos pede. Talvez eu devesse acrescentar mais uma coisa…

(…)

* Diante de tão grande Vocação, somos tentados de preguiça e tendemos a levar uma vida medíocre

e dizia: “O felicidade!” Ele fez negociação. Nem tem o mérito do martírio porque ele estava alegre. Isso não é assim. Ele tinha as duas coisas juntas, e agüentar o espeto era o espeto. A visão não abafava aquilo. Então conosco esta fidelidade dá muita alegria à alma, etc., etc., mas é um espeto. Para o qual é preciso pedir assistência da Mater MisericórdiÀ vita, dulcedo et spes nostra, salve… etc., etc., sem a qual não vai nada.

E genericamente falando, de ponta a ponta do que eu acabo de expor, existe em nós a tentação da preguiça. A gente tem preguiça de se dar tanto assim, a gente tem preguiça de passar por esse verdadeiro martírio. A preguiça nos ameaça de todos os lados. Do outro lado o Céu nos sorri. Em que sentido o Céu nos sorri? Os senhores prestem atenção! Procurem lembrar-se de todas as pessoas que os senhores conheceram antes de entrar para a TFP ou que conhecem fora da TFP, procurem se lembrar das alegrias delas. Não se comparam com as alegrias de um membro do Grupo quando ele vai bem. Eu não conheço coisa que se compare.

É a luz que refulge para o homem que tem o espeto. Mas nós chegamos até a ter preguiça da luz. Até disso nós temos preguiça! Para querermos ser uns “nhonhozinhos” vulgares, comuns, banais, medíocres e tudo mais que queiram.

Então por aí os senhores compreendem o gênero de união que tem que haver entre nós. Uma imolação que eu no auditório São Miguel não apresentei como imolação porque não deu tempo, mas o que eu descrevi lá é uma imolação. Nem todos assistiram, mas vale para os que assistiram. Aquilo é uma oblação, é uma pessoa sacrificar-se a si própria, e é um convite à mesma imolação. Derramemos os sangues nossos na mesma face!

[Exclamações]

Aí está o circuito da pergunta posto. Tão peremptório, tão definido, tão cheio de promessas, mas tão cheio de pedidos que sem a ajuda de Nossa Senhora não creio que se transponha esse caminho. Eu pelo menos nem de longe teria conseguido transpor. Mas com a ajuda d’Ela… Ela ajuda todo mundo. É questão de pedir. Quando não se tem coragem para outra coisa, pedir a coragem de pedir.

Meus caros, voilà! Quem tinha uma outra pergunta?

Meu Paulo Henrique, o tempo vai correndo e você é o prioritário!

(Sr. Paulo Henrique:… oportunamente para outros!)

(Sr. J. Clá: Vai ter que ir para a Itália!)

O primeiro passo é ter que ir a Jasna Gora que está a quarenta minutos daqui, e o segundo Itália. Tem que se deitar cedo, portanto, nós não podemos empurrar a reunião até muito tarde não.

* Em geral, antes conhecer a TFP, a pessoa começa a sentir uma saturação do mundo revolucionário

(Sr. Paulo Henrique: Já que o senhor insiste, eu tomo a liberdade, ocorre-me uma outra pergunta também na linha do que o senhor diz. Quando nós conhecemos o senhor, o lado por onde mais nos entusiasma é o lado da combatividade, o lado do entusiasmo, o lado da luta. Eu tomo como referência uma conferência que o senhor fez ─ até queria ter oportunidade de dizer isso antes de partir porque como fazia vinte anos…)

Vinte anos? É a idade de muito deles aqui!

(Sr. J. Clá: É onde muitos ainda vão ter que chegar!

(Sr. Paulo Henrique: Mas o senhor fazendo aquelas conferências sobre a Reforma Agrária em Belo Horizonte…

(…)

mas enfim conheci o senhor naquela oportunidade. E o lado que me entusiasmou, o lado que eu fiquei tocado para, enfim, um dia se tivesse condições de lutar por aquele estandarte refletido ali, desfraldado e desafiando, chamando à luta, para o combate, foi o lado que mais me atraiu e vejo que o senhor no Santo do Dia, sobretudo, falando para os mais novos, o senhor acentua, não sei talvez mais do que para nós mais velhos, esse lado fica mais acentuado e vejo o início, o auditório entusiasmado com os “ós”, coisas que não são muito características à nossa geração…

(…)

nós somos capazes até de levantar e aplaudir, mas os “ós” não saem de nós, [como] dos caríssimos “enjolras” e que tanto apraz o senhor. Mas enfim…

(…)

a gente não teve essa vibratibilidade tamanha quanto deveria ser ou deveria permanecer em nós, porque naquele primeiro momento que vimos esse lado de luta, esse lado de desafio, essa união que falamos há pouco nesse diapasão. É um fenômeno que infelizmente passou…

(…)

muitas infidelidades, muita coisa não pedimos a Nossa Senhora. E então…

(…)

um pedido ao senhor de como reaver esse tempo perdido, enfim tornar a sintonizar com o senhor esse ponto que acho que é o ponto de partida do Grand-Retour, alimentarmos ainda…)

(…)

O próprio do entusiasmo como ele se dá no calor do “Thau” é uma coisa muito curiosa porque opera da seguinte maneira. Quando a pessoa recebe o “Thau” e é chamada para o Grupo, o “Thau” vem em geral muito antes do momento em que a pessoa pensa, e vem sob a forma de uma crítica que a pessoa vai fazendo, muitas vezes implícita ao mundo aí fora. A pessoa ora nota isso, ora nota aquilo, ora nota aquilo outro e num determinado momento, e essas observações que ela fala, ela faz sobre o que [vê] fora, ela vai construindo um todo com isso até em determinado momento ela dizer para si mesma muito subconscientemente, mas dizer: “Eu estou saturado!”

Quando vem essa saturação é a rejeição do que é mal, o olhar está pronto para ir para cima e dizer: “Como é bom o contrário!”

Aí aparece a TFP! E ilumina ainda mais o que o mal tem de mau e que o bem tinha de bom.

Eu tenho certeza de que se o senhor, por exemplo, for analisar o seu estado de espírito na evolução anterior a essa série de conferências, o senhor vai encontrar exatamente isso, a tal ponto que o senhor já bordejava a TFP pela idéia de que… é muito ruim, etc., etc., que foi se montando provavelmente de um modo mais ou menos gradual, ao menos a explicitação disso foi se montando mais ou menos gradual em nosso espírito, no espírito de todo mundo.

Mas a pessoa nota bem que aquilo que deixa sobretudo os da idade do senhor, portanto, o mundo como se apresentava há vinte anos atrás que é diferente do que se apresenta hoje, tinha muitas aparências boas, muitos lados bons e portanto dava a impressão de um mundo rejeitável no seu todo, mas digno de uma certa atenção, de uma certa estima, de uma certa consideração em alguns de seus aspectos.

Bem, aqui está o um romano da evolução de um homem do tempo do senhor. Do tempo do senhor e para trás. Quanto mais chega para trás, portanto, o tempo da Pará, ainda mais.

No dois romano, acontece o seguinte; é que conhecida a TFP, a TFP passa a ser uma espécie de ponto de condensação de todas as luzes que a fé lhe apresenta porque o senhor vê a Igreja muito mais claramente conhecendo a TFP. De onde entusiasmo, etc., etc…

* Em certo momento, de dentro da TFP, a pessoa é tentada a considerar com indulgência os “lados bons” do mundo ─ entra então o demônio da tibieza

E em determinado momento, depois de ter dado tanto, vem uma prova que não deixa de ter analogia com a prova dos anjos e a prova de Adão no Paraíso, em algum lado. E a analogia é a seguinte: A pessoa, assim como no Paraíso deve ter havido um certo declínio, as graças sensíveis de Deus provavelmente se retraíram pelo menos algum tanto antes da tentação e com os anjos é possível que algo não assim, mas dessa maneira se tenha passado também. Também aí aparece um determinado momento em que a pessoa diz: “Eu estou com o meu espírito formado e chegou a hora de eu rever naquele mundo que eu deixei quais são os valores positivos e negativos, eu deixei ter muito sumariamente com idéias de que algo naquilo existe de positivo. Agora chegou a hora de eu fazer uma espécie de revisão para eu tomar…”

Nesse momento em que a pessoa resolve fazer a tal revisão entra a tentação! “Não, tal aspecto é bom, tal outro aspecto não sei o que, tal não sei o que”. E a pessoa faz a revisão errada como se o mundo que deixou fosse uma costura de coisas boas com coisas erradas, como se fosse, por exemplo, uma maçã na qual a gente pode dizer tal parte está podre, mas a outra parte eu corto e como.

Ora, isto que se pode dar com uma maçã não se dá com o corpo doente. O corpo nunca está doente… ninguém vai dizer o seguinte: “Fulano está com uma doença aqui, mas ele é um homem super-são”. Se ele tem uma doença ele é um doente. E assim também quando o mundo tem um lado ruim que é resultado da Revolução, ele todo é revolucionário, inclusive nos seus lados bons.

Mas isso a gente tem preguiça de tomar em consideração, e o resultado [é que] começa a aprovar modos de ser ainda bons de gente que já é revolucionária. Nisso entra o demônio da tibieza: “Não, tenhamos cuidado porque não é tanto assim, porque bababá…”

Quando não entra o demônio da tibieza, pelo menos pode entrar um demônio do “desentusiasmo”. E essa é a forma específica da provação dos que hoje tem trinta, quarenta anos e por volta disto, ou mais. Trinta não é, é difícil, mas de trinta e tantos para quarenta anos.

Bem, aí o processo de hesitação ao longo do qual eu espero que Nossa Senhora nos colha a todos nós e nos favoreça, nos defenda.

Como é para um “enjolras”? Eles não têm prova?

Uma coisa curiosa, mas silêncio a gente ouve. Pareceu-me ouvir um silêncio: “Como é, agora o que vai sair?”

As vias de Deus são inexcogitáveis. A gente pode descrever depois que a gente viu, que ele tomou a via. A gente não pode prever a não ser com base em coisas anteriores.

Eles tiveram uma vantagem enorme: viram tudo apodrecido com muito pouca coisa de bom para salvar-se, mas realmente muito pouca coisa de bom. Tanto pouca coisa de bom que eu já nem sei o que dizer. Terão outras tentações específicas. Quais serão? Esperemo-las. É prematuro dizer.

Seria o meu comentário às suas palavras. Não sei se o comentário foi…

(Sr. Paulo Henrique: Muito claro.)

Se alguém tiver mais alguma pergunta…

Os pergunteiros são por excelência os membros da reunião de sábado, portanto, os que estão sentados. Meu Guerreiro, você é um pergunteiro insigne. Você tem uma pergunta a fazer, faça.

(Sr. J. Clá: Ele está escondendo trezentas.)

(Sr. Guerreiro: [Inaudível].)

* “Só há uma coisa verdadeiramente construtiva: é destruir a destruição”

(Sr. J. Clá: Se o senhor me permite, o Sr. Paulo Henrique ainda ─ creio eu, não sei ─ estava querendo um pouquinho mais do que o senhor disse, se bem que ele esteja muito contente e encantado com o que o senhor já tenha dado.)

(Sr. Paulo Henrique: [Inaudível].)

(Sr. J. Clá: Ele falava de um primeiro “flash” que se tem ao tomar contato e que é justamente o que toca a todos. E tinha razão, todos aqui são testemunhas disso, que é justamente de ver o aspecto luta, o aspecto combatividade, o aspecto “aggredi”, o aspecto de oposição ao mal. É a Contra-Revolução contra a Revolução, ou seja…

Agora, isto portanto que se vê, a gente vê que ele estava querendo uma descrição um pouco mais minuciosa, mais… porque isso se vê no primeiro encontro.

O senhor mais ou menos por alto disse que a pessoa tem ─ o senhor dizia da geração dos quarenta ─ que a pessoa já achava que o mundo todo não prestava, etc. De repente, quando a pessoa encontrava, diz: “É para lá”. Mas o senhor ao dizer o “é para lá” não disse o que é esse “lá”… [Risos]

Então, eu tenho a impressão de que se o senhor pudesse definir um pouco o que é que nós… enfim, a gente sabe, tem uma noção do que é, mas não tem um conhecimento claro, um conhecimento explícito daquilo que vê. Então, se o senhor pudesse nos ajudar a ver muito claramente aquilo que a gente vislumbra nesse primeiro encontro e que está muito ligado com o que o Sr. Paulo Henrique disse: a combatividade, o ódio ao mal, o “aggredi” contra o erro, contra o revolucionário etc., acho que seria para nós de uma utilidade enorme.)

O senhor imagine uma pessoa que está num leprosário onde todos os leprosos são leprosos em estado adiantado, portanto, um aspecto repugnante. Esse leprosário, vamos dizer que seja construído de uma maneira que tenha internamente um claustro, um jardim dentro. E nesse jardim há rosas maravilhosas, digamos que sejam as rosas mais bonitas que se possa imaginar, rosas quase paradisíacas. Colocado um visitante, colocado, vamos dizer em condições de trabalhar nesse leprosário, mas ele mesmo um homem são, e um homem que não esteja habituado a ver essas duas coisas, que um homem são trabalhe todo dia lá. Mas ele está visitando um leprosário pela primeira vez, ele sai meio aturdido pelo contraste entre o horror das chagas que viu e a beleza das flores. E se ele sair do leprosário, vamos dizer de automóvel ou na cidade que ele mora, vamos imaginar que essa cidade esteja a quatro ou cinco horas de distância, e tem portanto uma longa viagem sozinho, de vez em quando essa contradição lhe volta à cabeça sob a forma de aturdimento e ele não tem saída: ou ele põe aquilo num unum, toma uma atitude global face àquilo, ou ele procurará esquecer aquilo porque aquilo desintegra.

Não sei se está claro?

(Todos: Sim!)

Agora isso de um lado. O aturdimento pior será se ele não viajar sozinho, mas viajar com um grupo de pessoas que visitou o leprosário com ele, e ele percebe que algumas pessoas, vamos dizer que seja um ônibus, todo mundo está conversando dentro do ônibus, e ele percebe que algumas das pessoas estão horrorizadas com aquele lepra e que num canto tem uma senhora que chora de pena dos leprosos, conversando com ela está um homem [que] então monta literalmente aquilo que ele viu. Mais adiante está um que está com mania de que está com sintoma de lepra. O canto do horror viaja de um lado do ônibus. Depois de outro lado estão os [“rosolatras”]. Então: “Que rosas!” Esquecendo dos leprosos. E o grosso do ônibus é um conjunto de pessoas que está fazendo a… [inaudível]… a respeito dos Macadami, dos desenvolvimentos da indústria na zona, esqueceu as rosas, esqueceu os leprosos.

Este homem que viaja neste ônibus fica ainda mais aturdido porque são três formas de desordem diante de um tema a respeito do qual ele não soube impor ordem. E o que ele fará é se isolar e procurar ou pensar, ou dormir porque qualquer das outras três soluções o põe de cabeça para baixo. É o único homem do ônibus!

Assim, há uma parte de todas as pessoas que têm uma verdadeira retidão e que vêem no mundo de hoje de um lado o que ainda sobrevive de belo e de íntegro na Igreja, mas depois vê a lepra circunstante, há uma espécie de desintegração. E, ou uma pessoa toma uma atitude inteiramente vendo aquilo num todo, ou se ela não tomar isso, ela nem viu a lepra, nem viu as rosas, é um cretino.

Bem, se é assim… Eu mal ouso lhes perguntar se está claro, porque eu tenho que encerrar logo.

Bem, se é assim, nós devemos perguntar diante da rosa e da lepra qual é a atitude do homem. Qual é a atitude una diante daquilo? Só pode ser uma atitude assim:

Como o feio pode chegar a extremos que nunca imaginei, e como o belo pode chegar também a extremos que eu nunca imaginei! Como o belo pode ser lindo e como o hediondo pode ser horroroso! Conclusão? Ou eu tomo, faço uma escolha definida pelo belo, quer dizer, procuro excluir de minha vida qualquer condescendência, qualquer apatia, qualquer indulgência falsa para com qualquer coisa que seja um pouco feia porque participa do horror dessa lepra, ou eu terei de algum modo traído a rosa. Eu não posso ser fiel a um ponto sem ser totalmente recusante do outro ponto. Eu seria indigno de mim mesmo se fizer isto”.

Donde acontece que o único estado ordenado entre o mundo e aquilo que é verdadeiramente católico é a indignação. Porque a indignação é a resultante dessa escolha. O indignado sabe de um modo confuso duas coisas: que o bem terá dificuldade em crescer enquanto o mal estiver ali naquele estado de insolência e ele sabe também que aquele mal, à medida em que for expulso, deixará um caminho livre por onde todo o bem vicejará de um modo magnífico, de maneira que o próprio desejo dele construir reverte em sabre.

[Exclamações]

E só há uma coisa verdadeiramente construtiva: é destruir a destruição! O resto vem! É preciso extirpar a Revolução! E portanto cair em cima dela.

Eu ainda pensava nisso quando eu falei, na Reunião de Recortes a respeito do que Monsenhor de Segur ─ prelado francês do século passado ─ chamava “As três rosas dos bem-aventurados”.

O Papa… É, na ordem: a Sagrada Eucaristia, a devoção a Nossa Senhora [e a devoção ao Papado].

Bem, está perfeito! Mas eu acrescentei logo depois os três gládios. Por quê? Porque na época da Revolução que nós vivemos não se pode pensar em rosa se não se pensa ao mesmo tempo em gládio. Do contrário o mal “leprifica” a rosa e a liquida. O pulchrum para nós está nos gládios! E é o modo que nós temos de amar as rosas.

Duas coisas se compreendem: que a TFP seja mais amada quando ela desata mais o [jato] de sua indignação. De um lado. Mas compreende-se de outro lado também que quem não tem a capacidade de se indignar não tem capacidade de amar!

Meus caros, aqui estamos nós! Vamos andando, que Nossa Senhora os ajude!

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