Conversa
de Sábado à Noite – 10/10/1981 – Sábado
[RSN 026] .
Conversa de Sábado à Noite — 10/10/1981 — Sábado [RSN 026]
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A rejeição que se faz no Grupo não é à ortodoxia, mas à pessoa do Sr. Dr. Plinio * Disposições de alma do Sr. Dr. Plinio pelas quais é rejeitado e que a Sra. Da. Lucilia possuía em alto grau * “Desde o tempo da velha Martim, arranjou-se um jeito daquilo ir esvaziando e acabar só eu trabalhando na Martim” * Esse estado de espírito que se tem em relação ao Sr. Dr. Plinio é o corolário do ateísmo * Trata-se de ver no Sr. Dr. Plinio os princípios exemplificados numa pessoa * Pela observação contínua dos fatos, o Sr. Dr. Plinio nota que a Revolução está preparando uma surpresa em matéria de abominação * Como é o querer bem para quem tem a nossa vocação * Por temperamento, o Sr. Dr. Plinio gosta do harmonioso e detesta as contradições, arranhões e desagrados — Daí sua rejeição a certos tipos de pratos
* A rejeição que se faz no Grupo não é à ortodoxia, mas à pessoa do Sr. Dr. Plinio
Já que o tema é a troca de vontades, eu transponho a coisa para outro grau.
Eu de propósito vou fazer abstração dos enjolras — portanto, do Êremo de São Bento e Praesto Suum e congênere — e vou tratar da parte, portanto, mais antiga do Grupo.
(…)
… que isso representa uma aceitação muito grande de uma parte de minha pessoa e uma rejeição de outra parte. Por quê? Porque, quais são os fatores do entusiasmo?
Os fatores de entusiasmo, a propósito de uma coisa que alguém diz, são: o mérito intrínseco do que a pessoa disse, não é contestado, de nenhum modo eu não vi — em algum fumaça talvez — que se contestasse, o objetivo com que a pessoa diz, a forma que a pessoa usou para dizer e a própria pessoa que disse. Quer dizer, conforme a pessoa, o que ele tenha dito pode ser mais ou menos causa determinante de entusiasmo.
Ora, eu não vejo nenhuma forma, nem nada, nenhuma restrição à ortodoxia e ao valor do que eu digo. Não vejo restrições à forma, não vejo restrições à meta que eu tenho em vista. Logo, a restrição só pode estar na pessoa que diz. E eu tenho uma contraprova disso no seguinte — é incômodo dizer isso, mas para responder à sua pergunta com toda franqueza, todo afeto, é bom dizer:
A prova disso é que eu imagino que este ou aquele dentro do Grupo dissesse e o “oh-oh”seria muito, muito maior. O “oh-oh” eu digo mal; os aplausos dos não enjolras seria muito maior.
Uma vez uma pessoa me chamou a atenção para o seguinte — entra em foco aqui o meu caro Paulo Henrique: houve aquele episódio Walesa. Eu dei a notícia no jornal-falado e houve um surto de entusiasmo, de contentamento pelo procedimento do Paulo Henrique. Eu acompanhei, foi um contentamento geral.
A seguinte idéia não me passou pela cabeça, alguém me disse, depois me passou pela cabeça, alguém disse o seguinte: “O Paulo Henrique desempenhou-se perfeitamente bem da tarefa dele, estava muito bem. Mas a tarefa dele comportava duas coisas: o que ele fez e as instruções que ele recebeu para fazer o que ele fez. Ninguém se lembrou das instruções que ele recebeu, nem de quem deu as instruções. Só se lembraram dele”.
De maneira que se fosse o caso de ele entrar aqui naquela hora, punham ele num andor a carregavam. De quem deu a instrução, de quem teve a idéia, de quem julgou a oportunidade, mandou as recomendações, etc., não.
Ora, é evidente que as instruções entram por algo dentro do conjunto do lance.
(Sr. P. Henrique: Inclusive, para fazer justiça, foi o senhor que tomou a iniciativa de pedir por grafonema para ir à sala de imprensa e saber o que se comentava por lá, o que estava-se passando. Atendendo a um pedido do senhor é que eu cheguei lá e vi que escrito que no dia seguinte haveria essa conferência. Perguntei se o senhor tinha alguma sugestão, se queria que eu fizesse perguntas. Então o senhor mandou todas as instruções, as mais detalhadas possíveis. O que eu fiz foi levantar e ler uma coisa que o senhor havia ditado.)
Agora, aqui vem…
(Sr. P. Henrique: O senhor me permite mais uma coisa? Vão completar vinte anos que eu conheci o senhor, no fim de outubro, naquelas conferências sobre a Reforma Agrária em Belo Horizonte. Ali eu tinha dezesseis anos. Por um ato de profissão de fé pública que o senhor fez lá fui movido, saí entusiasmado tentando mover outros. Hoje o senhor acabou de fazer um Santo do Dia belíssimo sobre a fé, esse entusiasmo meu já não….. )
É uma coisa característica. Mais ainda: eu nunca me abro a esse respeito, mas se é preciso exemplificar, eu exemplifico, para falar das conferências de Belo Horizonte…
(…)
Eu sou aderente a todas as formas de simpatia, de afeto possível para meu Paulo Henrique. Em toda aquela sala eu estou certo que ninguém queria mais bem a ele do que eu. Mas, realmente, quando alguém me falou, me chamou a atenção, a dissonância me chamou a atenção. Eu pensei: “Se eu estivesse vindo de lá, naquele momento, e estivesse fazendo essa exposição… Como foi um outro que fez a repercussão, é diferente”.
Quantas outras coisas poderia dizer no mesmo gênero. Pilhas de coisas assim!
Logo, há alguma coisa em mim que ao Grupo atrai a ponto de que o Grupo é Grupo, e há alguma coisa que o Grupo rejeita a ponto de que o Grupo não é senão o Grupo.
Não sei se estou claro na exposição que estou fazendo.
(Todos: Claro sim.)
Se isto é claro, a pergunta é: o que é que é rejeitado? Porque isto é o objeto do problema.
(Sr. P. Henrique: E porque é rejeitado também.)
* Disposições de alma do Sr. Dr. Plinio pelas quais é rejeitado e que a Sra. Da. Lucilia possuía em alto grau
Porque é rejeitado. Tanto mais que tem o seguinte: os defeitos que poderiam servir de pretexto para isso não se alegam. Não se alega que eu tenha mau gênio, não se alega que eu maltrato as pessoas, não se alega que, não se alega que, não se alega que… Ninguém alega isso. Poderia ser pretexto.
Eu tenho certeza que se eu tivesse mau gênio, o Grupo estaria reduzido a um terço do que é na melhor das hipóteses.
Por que isso? É uma pergunta que cabe.
Eu sou levado a transpor essa pergunta.
(…)
Havia uma diferença entre o modo de ser muito refletido, muito propenso a levar as coisas aos seus últimos pontos, mais altos pontos de panorama e de reflexão, tanto quanto cabe numa dona-de-casa, mas pode caber muito numa dona-de-casa, mas muito.
Por exemplo, vamos dizer, o M. Martim, pai de Santa Teresinha, pequeno joalheiro vivendo de rendas de Alençon que foi morar em Lisieux. O que é que poderia haver de leitura e de estudos? É certo que ele era um homem de conhecimento de um chefe de família de pequena burguesia, mas olha-se para a foto dele e percebe-se todo o horizonte. Nesse sentido ela tinha imensos horizontes.
E conversando com ela percebi-se que, suavemente, discretamente, ela levava as coisas, no espírito dela, sem falar, sem impor tema a ninguém, ela levava ao fundo desse horizonte. E percebia-se também nela uma espécie de tristeza, que a vida é uma vale de lágrimas e que as coisas são assim. E sem ser pessoa queixumeira, percebia-se nela uma espécie de tristeza, o que está no quadrinho, de suave melancolia a respeito da vida, que era um dos atrativos dela aos meus olhos. Mas não se gostava disso também.
Uma forma de vitalidade que era ao mesmo tempo caudalosa — ela foi muito longeva, morreu com 92 anos —, mas uniforme como um rio que passa, sem agitações, sem sacudidelas, sem trepidações sem nada, mas tranqüilo, tranqüilo.
Muitas pessoas gostam do contrário. Gostam da irreflexão, assuntos tomados superficialmente que se sucedem numa ordem de cascata e não o curso de um rio que segue, em que a risota e a brincadeira escachoam a propósito de qualquer coisa, nada de melancolia, o esquecer permanente do que pode aborrecer e, pelo contrário, um lembrar contínuo das coisas episódicas onde a pessoa possa fugir das tristezas da vida. De surpresa em surpresa e de alegria em alegria.
Evidentemente, quem gosta de um certo estado de espírito assim, não gosta de outro estado de espírito, e são modos de ser incompatíveis.
Tanto esses modos de ser são incompatíveis, que imaginem que em vez de ter sido pintado pelo nosso bom Buzzarelo e pelo Dias Tavares, que colaborou na pintura, imaginem que em vez de ser isto assim, houvesse um quadro dela pintada por um grande pintor, mas um pintor famoso hoje em dia, e que, portanto, fosse um quadro, como obra de pintura, extremamente notável. Em muitos ambientes, ainda que dessem o quadro de presente, não quereriam, porque marcaria o ambiente com uma forma de influência muito pacífica, muito acolhedora, mas muito comunicativa, de uma pessoa que, por mais afável que seja, não sai do ponto em que está e que comunica em torno de si esse ponto. E sair dessa espécie de saracoteio leviano, contraditório, nervoso e otimista moderno, as pessoas não querem! Mas positivamente não querem.
E quando certas pessoas estão privadas desse ambiente — eu vou me exprimir até o fim —, a reação é a do viciado a quem tiraram o fumo. Ele pode estar na sala mais esplêndida, pode ter o que for, ele não acha graça, não quer, porque ele quer o cigarro! Ele prefere estar — para mim o lugar que acho horrível, não sei se vocês pensam como eu — no salão da rodoviária, o pátio de embarque da rodoviária. Ele prefere estar ali, fumando, do que estar num lugar, melhor que queiram, não fumando.
É também uma forma de incompatibilidade com o estilo gótico. É exatamente por essas razões que o estilo gótico, o cantochão, a música sacra e as coisas de Igreja tradicional causam distância a muita gente. Reputam aquilo enfadonho e pesado e…. muito bonito, muito bonito, vai mostrar um vitral para essas pessoas, dizem que é lindo, fecham e acabou, fecham o álbum e acabou. É por razão análoga.
Mas isto contém um corolário, ou traz um corolário no fundo: é que um mundo hierárquico, em que todas as coisas terminam em cone, um mundo puro em que a luta é brava para manter a pureza, necessariamente resulta de almas que são como que eu descrevi há pouco e em que o hábito mental é esse.
Pelo contrário, um mundo que tenha este estado de espírito, para ele o convém muito mais uma coisa horizontal, superficial, uma estepe batida por todos os ventos, de todos os lados e onde a vegetação se inclina inesperadamente de todos os jeitos. É o que gostam.
Eu acho isso incontestável. Talvez seja uma das razões, não sei, pelas quais no alto das montanhas não há vegetação, porque os ventos sopram desse jeito.
Imaginem uma montanha bastante alta para acabar desaparecendo a vegetação, tais são os ventos. Haveria gente que gostaria de morar nesta montanha contanto que não tivesse grandes horizontes, porque se tivesse grandes horizontes não quereriam, não olhavam.
Alguém diz: “Eu conheço fulana que é assim e gosta muito de ver tal…”.
É por cinco minutos, dez minutos, depois acabou.
Então, tédio com a Igreja, tédio com a sociedade hierárquica, tédio com a visão das coisas que pode um certo estado de espírito e não pode outro, resultam de hábitos mentais que ficam mesmo quando a gente não tem as idéias. As idéias são retas, mas a gente tomou esse hábito, a gente… É como o fumo: o homem pode estar arquipersuadido de que o fumo não convém, por exemplo, um médico provavelmente estuda na Faculdade de Medicina os inconvenientes do fumo, ouve dizer que nos Estados Unidos tem impresso no cigarro: “Eu sei que cigarro dá câncer” — ouvi dizer, pode ser, si no è vero, è bene trovato —, o sujeito acende o cigarro e fuma.
Assim também nós podemos estar ultraconvencidos de que todas as idéias e coisas da TFP são verdadeiras, algo em nós nos retém, por onde é este mundo com estas quatro características que é, pelo menos para aspectos de nossa alma, o habitat. O resultado é que há um descompasso.
Alguém dirá: “Mas o senhor me decepciona. Então o senhor situa esta dificuldade num ponto doutrinariamente tão comum? Numa falta de hábitos!”.
É, mas é uma falta de hábitos que vai longe, porque impede as boas idéias de ter a sua expansão, de ter a sua irradiação inteira da personalidade como deveria ter. Leva ao despropósito…
(…)
… toca na raiz do amor de Deus.
* “Desde o tempo da velha Martim, arranjou-se um jeito daquilo ir esvaziando e acabar só eu trabalhando na Martim”
Alguém dirá: “O senhor quer dizer, então, que essas pessoas não têm nenhum amor de Deus?”.
Não, eu acabo de dizer o contrário: que por algum lado têm, e é até notório que têm, eu agradeço muito a Nossa Senhora, mas que há uma oblação interior a fazer, que nasceria na alma como que no outro o reflexo disto tudo inteiro dentro dela, e seria para ela por assim dizer a aurora da integridade, ela começaria a ser íntegra a partir desse momento.
Essa aurora de integridade é um momento feliz que nós ainda estamos para viver. Eu acredito bem que seja um obstáculo à união de vontades entre nós. Mas que então se expande de mil modos, porque quase todos os reflexos de muitos dentre nós são marcados de algum modo por isso. Quase todos. É o modo de a gente viajar ou de não viajar, de ir e de não ir, de pensar, de mexer, de se comprazer na companhia dos outros, disso, daquilo, daquilo outro é marcado por isso.
(Sr. Poli: Por estes hábitos mentais?)
Por esses hábitos mentais e que dos senhores são hábitos temperamentais também. É gente que se estivesse no alto do Sinai quereria descer, que se estivesse no Tabor não se entusiasmava e que no Horto das Oliveiras certamente dormiria.
(Sr. P. Henrique: Aqui na Sede do Reino de Maria há uma tendência…)
(…)
Mais ainda: você encontra o segundo andar regurgitando a ponto de causar muitas queixas dos moradores; as salas que estão perto de onde eu trabalho ninguém. Mais ainda: você vai ver, desde o tempo da velha Martim arranjou-se um jeito daquilo ir esvaziando e acabar só eu trabalhando na Martim. Esse atende em casa, aquele arranja um escritório, outro arranja não sei o quê…
Quando a Martim cessou de existir, é fato, quando a Martim cessou de existir, ninguém mais trabalhava na Martim. Era eu na sala do fundo e um plantão que atendia lá. Quando queriam falar comigo pelo telefone, falavam do telefone externo e se comunicava.
São pessoas a quem eu quero muito e que levaram a vida do meu lado. Eu não posso deixar de reconhecer isso e me alegra muito essa união, mas essa união era acompanhada desse traço.
Bom, para não falar da Pará.
Alguém poderia dizer: “Mas o pessoal é louco para vir à casa do senhor”.
Eu digo: em termos é, porque dá prestígio ter vindo aqui. Não é prestígio social; é uma pessoa sobre a qual sopram os ventos do Grupo, então a pessoa quer. Um pouco porque quem vem aqui recebe uma certas graças às vezes, fica consolado com isso, mas acabou-se.
(Sr. Poli: Na Reunião de Recortes hoje, o senhor falou dos seletivos que e preciso ter.)
Eu me lembro bem, é isso. Também esses hábitos mentais criam em nós um contra-seletivo. Nós refugamos isso e selecionamos o oposto.
Isto, meus caros, para responder à sua pergunta como convém, uma pergunta digna de toda atenção, eu teria que passar por aí.
* Esse estado de espírito que se tem em relação ao Sr. Dr. Plinio é o corolário do ateísmo
Esse estado de espírito que eu acabo de descrever não seria diferente se a pessoa fosse ateia. É duro dizer, mas é isso. É um estado de espírito que é o corolário do ateísmo. Eu não quero dizer que quem tem esse estado de espírito é necessariamente ateu, eu sei que não é. Mesmo gente fora aí que está cheia desse estado de espírito não é gente ateia, mas eles vivem temperamentalmente, mentalmente num certo sentido da palavra mental, vivem como se Deus não existisse. Se Nosso Senhor Jesus Cristo não tivesse morrido na cruz por nós, se não tivesse havido… tudo quanto há de história da Igreja não irriga esses estados de espírito. Esse estado de espírito é pétreo, de ateu.
Se não for isto, me digam como que é o ateísmo, eu estou para aprender.
(Dr. Edwaldo: É a rejeição da grandeza.)
Da grandeza e de tudo quanto acabo de dizer: reflexão, gravidade e tudo o mais. As quatro circunstâncias que eu mencionei, as quatro disposições de alma que eu mencionei estão ausentes nesse estado de espírito.
Ora, essas disposições de alma são o corolário, no fundo, da existência de Deus.
Eu sei que uma pessoa pode me dizer: “Mas o Breznev é um homem sombrio, que não tem nada disso e entretanto é ateu”.
Eu não estou dizendo que o único estado de espírito consentâneo com o ateísmo seja este, eu estou dizendo que é um estado de espírito consentâneo com o ateísmo. Se há outros, isso é uma outra conversa, pode-se tratar mais adiante, mas o estado de espírito é esse.
Quer dizer, aí eu deixo bem claro a enorme monta do tema. É uma enorme monta.
* Trata-se de ver no Sr. Dr. Plinio os princípios exemplificados numa pessoa
(Sr. Poli: Tudo que o senhor disse leva a um quadro muito convincente, mas leva a um ponto que há uma necessidade de uma aceitação do senhor, então uma análise detalhada da causa, um conhecimento detalhado da causa, nas suas características, nas peculiaridades, no fundo de ser, de se manifestar, etc., que eu acho que é o único modo de resolver esse caso, essas rejeições temperamentais e os hábitos mentais e temperamentais.)
É, em algum sentido mentais e em todos sentidos temperamentais.
(Sr. Poli: Mas não é isso, Dr. Plinio?)
(…)
… raiz latina, até raiz grega da palavra amenidade e dos vários sentidos dessa palavra na sua raiz grega em Homero, e depois dou três ou quatro manuais de moral, dos melhores, definindo o que é amenidade. Se a pessoa não conheceu ninguém ameno, sem uma graça especial não será amena. Os modos de ser não se reduzem à doutrina. A doutrina é preciosa, em muitos pontos é indispensável, mas não se reduzem a doutrinas.
(Dr. Edwaldo: Uma das razões pelas quais Nosso Senhor se calou.)
É, é evidente.
Quer dizer, dizer: “O senhor reduz a princípios”, je le veux bien. Como eu gostaria de reduzir tudo isto a princípios! Eu acabaria dizendo coisas que todo mundo sabe, os princípios sobre isto para quem não saiba.
Qual o homem que sustenta o seguinte: não se deve ser ameno? Qual é o homem que sustenta isso?
(Sr. F. Antúnez: Quem não vê os princípios encarnados é um cego, não adianta nada.)
A expressão princípios encarnados é uma expressão muito…. princípios exemplificados.
Então eu não vejo realmente um outro modo de por os pingos nos “is”…
(…)
Aí a graça do Grand-Retour deve pegar e dar um amor especial a isso. Mas aí nos sentiremos prodigiosamente um.
Agora, nós devemos preparar o terreno, porque quanto mais preparamos, mais apressamos o dia.
* Pela observação contínua dos fatos, o Sr. Dr. Plinio nota que a Revolução está preparando uma surpresa em matéria de abominação
(Sr. Guerreiro: […] Então o que se passou no mundo interior da Causa… para em certo momento o senhor começar a colocar esse problema? O que pede de nossa parte uma adesão à conformidade com esse sentir do senhor. Aqui é que sinto que entra uma dificuldade não pequena.)
Ahahah! Eu sei que eu respondo o essencial de sua pergunta, respondendo o seguinte ponto, por isto eu vou diretamente ao ponto:
Eu estou observando e maturando continuamente os fatos que dizem respeito a Revolução e à Contra-Revolução. Agora, há um determinado momento em que a evolução dos fatos me dá a impressão de estar se fechando e que além de um determinado ponto não é possível as coisas irem. Por quê? Porque não vai, não vão.
E eu noto que o dinamismo da Revolução está em pleno movimento. Eu digo mal, não é o dinamismo. A fome e sede do péssimo nela está hiante e não está nem de longe satisfeita, ela quer muito mais péssimo do que está aí.
O Marcos não estava na reunião hoje à tarde, eu creio. Eu dei a notícia de um jornal, coisa em ordem e tudo o mais, de um comércio que está se fazendo entre vários países da Europa, de fetos colhidos ainda com vida e levados para indústrias plásticas para fazer cremes que tonifiquem a face das senhoras.
Entre outras coisas, um caminhão inteiro, cheio de fetos, colocados, se não me engano, cada um dentro de saco plástico, uma coisa assim, que transpôs a fronteira de não sei que país com a Suíça, creio que entre a Suíça e a França, não tenho certeza, e que o guarda aduaneiro parou para ver o que era. Quando viu que era um camião cheio de fetos, ele foi procurar no regulamento se havia uma proibição para transporte desse tipo de mercadoria, e como não havia deixou passar. E pelos imponderáveis da notícia se percebe que isto é assim.
E nós sabemos que há um mundo de gente que acaba comprando isso se de fato rejuvenescer. Por mais horrível que seja, tem!
É, por exemplo, uma coisa onde nesta ordem eu não vejo que se possa fazer pior. Na ordem de morticínio, de matança dos inocentes, eu não vejo que se possa fazer pior. Pior é que contando isto, a muita gente não produz o efeito que devia produzir. É uma coisa que você mesmo está ainda com a mão na cabeça, mas não produz o efeito que dever produzir.
É uma coisa onde fecha, mas onde eu percebo que a Revolução quer muito mais. De onde eu sou obrigado a concluir por surpresas. Então, muito naturalmente a idéia das surpresas aflorou ao meu espírito da observação dos fatos. Não é nem um pouquinho o sábio, o pensador que de um dado tirou o outro. É o observador que, terminada uma série de constatações, nota uma disparidade no panorama: “Aqui não pode ir mais longe. Ora, estão querendo mais! Logo, estão preparando uma surpresa, na ordem da abominação”.
Aliás, conversei hoje com o Edwaldo, exatamente com dados que o Edwaldo me deu a respeito disso, não é o momento de tratar, onde se vê que a coisa vai mais para frente. O Edwaldo ficou de estudar, etc.
Você vê que, portanto, aquilo que parece uma rotação de espírito não isenta de uma grandeza, etc., não é isso, mas é um observar sereno dos fatos. Uma coisa leva à outra, de proche em proche. Não há o salto do gênio, existe a penetração do observador paciente.
(Dr. Edwaldo: Tem muita grandeza. )
(Sr. Guerreiro: Mas como o senhor sente que a Revolução tem uma fome e sede hiante de mais absurdo? Aí é algo mais que a simples observação corrente…)
Aqui também é uma boa pergunta. É que os sintomas da abominação satisfeita são diferentes dos sintomas da abominação faminta. E o que eu sinto é que os sintomas da abominação satisfeita não existem. Basta considerar quanto, segundo eu mesmo denuncio, ela se vela, para compreender que ela não pode estar satisfeita. Porque aquilo que se vela não está à vontade. Logo, ela quer mais, quer mais, quer mais.
Como você vê, são raciocínios simples.
(Sr. P. Henrique: Simples como o ovo de Colombo. )
Você dirá que é ovo de Colombo, é.
(Sr. F. Antúnez: Só para Colombo.)
Deixemos de lado. É para você compreender criteriologicamente, você ter em vista criteriologicamente como é que as coisas se sucedem sem caos, ordenadamente. Não há hiatos nem saltos febris ou desordenados de um tema para outro, mas é o curso de um rio caudaloso.
(Sr. Guerreiro: O senhor tem todo um conjunto de hipóteses, como que intuídas a partir do que é a Revolução, para onde as coisas podem ir. O senhor habitualmente não trata nas reuniões e ficam no espírito do senhor. Agora, pelo modo como o senhor comenta os assuntos, fica subentendido que existe muito! E se nós não perguntarmos, deixamos de compreender mais naquele lance.)
Acho ótimo que perguntem, de maneira que estou permanentemente à disposição, até estimulando a fazer perguntas. A pergunta me alegra; a pergunta errada ou a carência de pergunta me entristece.
Esse conjunto que eu estou falando é o que…
(…)
* Como é o querer bem para quem tem a nossa vocação
… nós andamos a pé no meio fio ou no leito da rua, eles são os donos da calçada. Se nós estamos jogando com eles, nós temos que fazer o florete nessa hora.
Hoje à noite você diz que assistiu o Santo do Dia. Viu que eu fiz uma retificaçãozinha, não é?
(Sr. –: Sim.)
É preciso. O Fernando ficou encantado!
(Sr. F. Antúnez: Tudo que é correção do senhor me encanta.)
Olha lá, hein?
(Sr. Poli: Essa escola que o Sr. João faz, talvez o senhor pudesse também fazer alguma coisa. É de querer bem ao senhor, de analisar o senhor e sintonizar-se inteiramente com o senhor. Eu pergunto se não é isso o elemento que falta para vir “Bagarre”, nós querermos ao senhor bem numa clave que dê a troca de vontades. Aí o mundo não se sustenta. Tendo pessoas que querem bem ao senhor, o demônio não pode ficar sossegado, ele não pode destruir, então tem que fazer a “Bagarre” vir.)
Há pouco eu falei do verbo, mais algum tempo atrás eu falei do modo de no auditório se referirem de modo oficial e público ao João Paulo II. O João disse muito amável, depois no automóvel, que aquelas palavras eram literalmente tomadas de Soror Mariana de Jesus Torres, mas que eu… Eu disse a ele: “É diferente Nossa Senhora fazer uma revelação. É Nossa Senhora, Ela pode dizer. Mas uma revelação particular a uma religiosa que circula em particular e oficialmente num ato de uma associação, são coisas distintas”. Ele concordou. Um pouco jururu, mas concordou.
Agora eu falo também da expressão do senhor “querer bem”. Tudo isso graduado e direito, etc., para nós nos entendermos e sabermos tratar com os outros.
O que é que é querer bem uma pessoa?
Aqui agora vem: o que é uma pessoa?
Vamos dizer, por exemplo, em mamãe. Ela era Da. Lucilia Ribeiro Corrêa de Oliveira, com uma porção de peculiaridades pessoais, com várias das quais eu não estava em sintonia.
Me dirão que são bagatelas. São, mas existiam.
Por exemplo, a bagatela de que eu me lembro aqui no momento, duas coisas que ela gostava muito e que simplesmente detesto: mel e mandioca. Eu acho que, aliás, se comem uma com a outra. Olha o que é que eu ia dizer há pouco, agora, ia dizer: “Há gente que eu desconfio que come mel com mandioca”.
Não sei se os senhores percebem… talvez um dos senhores coma. Eu acho que ela comeria e gostaria. Eu tenho horror a ambas coisas. Aquele gosto de madeira que tem todo mel, eu não fui feito para comer pau! Aquela mandioca, aquilo é cola, goma arábica em torno de barbante, aquilo não é coisa que se apresente, eu tenho horror à mandioca.
Eu estou vendo que algum dos senhores gosta da mandioca. Seja dito entre parênteses que quando eu faço essa carga contra a mandioca, os “mandiófagos”, os que comem a mandioca, riem como quem compreende que por algum lado eu tenho razão.
Ela era mais intransigentesinha, ela não achava graça nenhuma. Ela me olhava assim um pouco espantado nas primeiras vezes e dizia:
— Mas, meu filho, você não gosta da mandioca?
— Não, meu bem, isto é barbatada medonha!
— Mas não coma os barbantes.
— Mamãesinha, eu tenho horror, é uma goma arábica.
Você gosta de mandioca, é, meu Guerreiro?
(Sr. Guerreiro: Como, mas…)
Você gosta de mandioca, é, meu coronel?
(Sr. Poli: Como, mas não…)
Fazem muito no quartel, é?
(Sr. Poli: Fazem muito. Eu como, mas talvez não como mais agora.)
Não, coma mandioca à vontade, mas à vontade. E encha-se de mel. Essas são coisas muito individuais que numa pessoa com nossa vocação não devem aparecer, não devem ser escondidas, mas não ocupa lugar, e que cada um tem o seu modo de ser.
O querer bem não é isso. O querer bem, em nós, é querermos aquilo de que aquele que tem a nossa vocação é mensageiro. Aquilo que ele exprime, aquilo como ele deve ser aos olhos de todos para cumprir a missão dele, para levar o que nós poderíamos chamar num certo sentido da palavra mensagem. Isto é querer bem.
Aí eu respondo à sua palavra “querer bem” afirmativamente.
Ela não tinha a nossa vocação, mas tinha alguma coisa para a formação de minha vocação, e por aí da nossa. Eu queria enormemente bem a ela, mas enormemente, o quanto eu possa querer bem a uma pessoa, eu queria bem a ela. Mas essas coisinhas, às vezes até para dar uma animação em nosso convívio, eu mexia um pouco com ela, etc. Como eu volto a dizer, ela mais intransigente e não propensa a levar em brincadeira a coisa. Não se magoava, mas ela tomava a coisa meio a sério.
Ela tinha horror a língua. A língua e a miolos. Mandava fazer para mim, mas eu notava que ela discretamente não me olhava enquanto eu comia miolos. Eu admito que haja muita gente aqui que tenha horror a miolos. Eu acho uma coisa magnífica! Não esses miolos de frigorífico, vagabundos, mas — quem não gosta de miolos vai achar pior o que vou dizer estou dizendo — miolos frescos acho uma delícia.
Bom, eu via que ela tinha uma repulsa. Ela me contava todo um caso a respeito de miolos, toda uma coisa.
Essas coisas não dão incompatibilidade nem nada, mas o que a gente quer bem num outro não é isso. A expressão “querer bem” é preciso tomar cuidado porque para os outros aqui fora o “querer bem” é essas bagatelas: “Ei! meu amigão, olha aqui, gostamos de mandioca, de miolos”. É a base para uma simpatia.
(Sr. Poli: Acho que o senhor podia dizer mais…)
Realmente, nosso tempo está chegando ao fim….
* Por temperamento, o Sr. Dr. Plinio gosta do harmonioso e detesta as contradições, arranhões e desagrados — Daí sua rejeição a certos tipos de pratos
(Sr. Guerreiro: O senhor dizia que tudo quanto há na ordem do universo tem dois aspectos: um, o simbólico; outra, a utilidade prática. Às vezes combinam uma coisa com a outra, outras não. E o senhor dizia que o aspecto simbólico é de longe o mais importante. […] Então, no conjunto das coisas que o senhor gosta ou desgosta, não é uma coisa meramente arbitrária, tem um fundo no metafísico.)
Arbitrário não é. Mas daí se deduz — eu explico daqui a pouco porquê — o que você disse há pouco.
(Sr. P. Henrique: Porque no gosto da mandioca, de ervilha, da farinha, do mel, do coco, tudo isso…)
Note o seguinte: a ervilha é coisa apreciadíssima — você morou na França, sabe disso — pelos franceses, o povo-rei por vários aspectos, mas uma coisa que…
(Sr. P. Henrique: Mas há um denominador comum em tudo o que o senhor não gosta. Isso deve ter um princípio onde o seletivo do senhor diz que não está bem. Não é por acaso, porque as coisas têm um denominador comum, há um princípio, uma causa.)
Tem, é evidente que tem. Há uma causa, há um denominador comum e esse denominador comum tem uma raiz na minha mentalidade. Isso é fato. Mas esse denominador comum não é o único fato da degustação ou não degustação. Há uma outra coisa que se liga a isso, que, por exemplo, no caso das ervilhas é frisante. Os senhores vão dizer que não há, mas é como eu sinto nas ervilhas.
Desde menino quando me davam ervilhas para comer — e a Fräulein, podem imaginar: ervilha, ervilha, ervilha, dava ervilha para comer —, uma certa aspereza que há no conteúdo daquele pirão interno da ervilha me chamava enormemente a atenção. E eu sentia um reflexo disso até quando acaba o céu da boca e começa a garganta. Aquilo me dava um desagrado, não pelo sabor, mas a sensação de aspereza.
A tal ponto que certas sopas de ervilha carregadas de gosto de ervilha até gosto muito, mas a ervilha me causa um desagrado.
Esse desagrado por isto, batendo no meu temperamento que não gosta das contradições, nem de arranhões, nem de desagrados, gosta do harmônico, me leva a detestar a ervilha. Mas é uma coisa que é da conformação do meu corpo que me produz na alma uma certa impressão.
Então, toda esta família, eu poderia mostrar por onde vai. É a mesma coisa o coco.
Eu gosto muito de coco verde, muito, ainda hoje creio que comi. O coco não verde tem qualquer coisa de palha, de raspa de madeira, de coisa assim que me produz uma impressão de aranhaste, mas que é toda em elementos de minha sensibilidade fisiológica, física, e que numa outra pessoa não produz o mesmo efeito.
(Sr. Guerreiro: E batatas, o senhor gosta?)
Muito, gosto muito de batata, enfaticamente, quando é bem feita e batata boa. Não batata plantada por japonês assim desse tamanho.
(Sr. P. Henrique: Mas batata doce o senhor gosta ou não?)
Não. Aquele pirão da batata doce eu….Batata doce é uma edição da mandioca, gênero mandioca.
No modo dos “mandiófagos’ tomarem minha rejeição da mandioca, da batata doce, entra uma objeção para a qual eu sou transbordante de compreensão. É como quem diz: “Há alguma coisa do que o senhor diz, mas o sabor é tão mais eminente do que isso, que com uma certa indulgência a gente deixa passar esse inconveniente e come a mandioca, come a batata doce”.
Aí eu responderia: “Está bem, mas esse sabor às minhas papilas não agrada. De maneira que o que para você compensa, para mim não compensa. Coma a sua mandioca, eu mando comprar para você e mando servir. Ponha mel, eu mando comprar para você. Eu comer não. Porque como em mim isso repercute, é diferente”.
(Sr. Poli: Posso perguntar uma coisa? )
Meu filho, acontece o seguinte: pode, mas depois eu sou obrigado e encerrar o expediente porque eu tomei há pouco uma meia pastilha de um remédio para dormir e estou começando a sentir o sono subir. Mas diga o que é.
(Sr. Poli: Não há gente que sabendo que o senhor gosta, por exemplo, de “beeftea” e que gostasse de “beeftea”, dissesse: “ Como eu sei que o Dr. Plinio gosta, como eu não gosto dele, eu não tomo mais ‘beeftea’”? Eu acho que há gente capaz disso. Nós não temos que fazer o contrário, porque o senhor gosta disso, temos que gostar, e se não gosta, não devemos gostar?)
(…)
(Sr. Guerreiro: O que o senhor estava pensando antes de se levantar?)
Você vai ficar surpreso. Eu estava querendo dizer ao Marcos — não diria sem que se apresentasse uma oportunidade natural — duas coisas. Em primeiro lugar, que eu presto continuamente atenção nos filhos dele e que vão muito bem. Segunda coisa, que cada vez que eu vejo os filhos, eu me lembro dele e muito sinto as saudades.
Você deu oportunidade de dizer isso.
Vocês vêem como o sistema de perguntas é bom.
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