Conversa
de Sábado à Noite ─ 26/9/1981 .
Conversa de Sábado à Noite ─ 26/9/1981
Nome
anterior do arquivo:
Cada coisa tem seu lugar para compor ou refletir um todo que é a Igreja Católica; exemplo: a humildade de São Francisco de Assis e a glória de Carlos Magno * Definição de grandeza: é uma situação ou uma propriedade na qual a pessoa simboliza de algum modo a transcendência de Deus * O que é a transcendência de Deus * Um exemplo do respeito que se deve ao homem por refletir algo de mais alto: como na França se tratavam aos prisioneiros na véspera da execução * A grandeza está afirmada em tudo que em algo simboliza a transcendência de Deus * Segundo a ótica humana a grandeza é o modo de ser das várias propriedades de Deus * Nosso Senhor na humanidade santíssima dele refletia de um modo inenarrável as perfeições de Deus * No que consiste a virtude da majestade
* Cada coisa tem seu lugar para compor ou refletir um todo que é a Igreja Católica; exemplo: a humildade de São Francisco de Assis e a glória de Carlos Magno
[Aqui iria o corte nº 1.]
(…)
…ou um santo, como uma pessoa que esteja, na perspectiva dela, como que com auréola de santo, etc… As pessoas estão vendo que é Carlos Magno, o culto dele é celebrado com permissão da Igreja em algumas igrejas da Alsácia, etc., etc., o que Dom Mayer me disse que envolve a infalibilidade no que diz respeito a ele estar no Céu. Dizer que ele tenha praticado todas as virtudes heróicas, que até lá não chega a infalibilidade, não está engajada a infalibilidade nisso. Mas de que ele está no Céu, que a Igreja não permitiria o culto a uma pessoa ─ nem local ─ a uma pessoa que foi para o Inferno. Aliás, me parece muito concebível, realmente.
Então, tomem Carlos Magno, São Francisco de Assis, em cada um dos dois as características que tinham não deixavam muito espaço para as características do outro. O que naturalmente não se dava em Nossa Senhora, porque Nossa Senhora está acima. E na Humanidade santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo nem se fale!
Mas, nós não podemos imaginar Carlos Magno com toda aquela específica doçura franciscana. Não podemos imaginar São Francisco de Assis na postura carolíngea inteira, a humildade dele com a glória carolíngea. Cada coisa tem seu lugar para compor um todo que é a Igreja Católica ou, para refletir um todo que é a Igreja Católica.
* Definição de grandeza: é uma situação ou uma propriedade na qual a pessoa simboliza de algum modo a transcendência de Deus
[Aqui iria o corte nº 2.]
(…)
…a medida que a gente vai tomando e retomando a palavra grandeza, eu que não sabia dar uma definição de grandeza [ilegível] há condições que me parece que proporcionam essa definição. E que é a seguinte: a grandeza é uma situação ou uma propriedade na qual a pessoa reflete de algum modo a transcendência de Deus. Simboliza é melhor do que a palavra reflete simplesmente, porque é mais específico. Simboliza enquanto símbolo, reflete enquanto símbolo, não é qualquer coisa que reflete enquanto símbolo. Simboliza a transcendência de Deus.
Quer dizer, o que é que são as noções erradas de grandeza que assim ficam colocadas de lado, qual é a noção verdadeira que emerge.
* O que é a transcendência de Deus
O que é a transcendência de Deus?
É o por onde Deus não é ninguém, quer dizer, não é ninguém dos criados, e é infinitamente acima dos criados, o por onde Ele É e é infinito. Ele disse a Moisés: “Eu Sou aquEle que É”. E Ele é infinito em tudo que Ele tem, e não se confunde com ninguém. Ele toca sem ser tocado, move sem ser movido, etc., etc…
Se você vai examinar, em qualquer pessoa, o reflexo do respeito, o respeito se dá quando a gente sente em alguém o símbolo dessa transcendência de Deus. O sentimento de respeito se define assim: isso transcende, há aqui algo que não está na estatura, que não reflete apenas o que é humano, mas reflete algo de mais alto.
* Um exemplo do respeito que se deve ao homem por refletir algo de mais alto: como na França se tratavam aos prisioneiros na véspera da execução
Eu dou um exemplo miserável ─ bom, miserável… quer dizer, o mais baixo, o mais triste dos exemplos, mas é assim. Na França a pena de morte ─ não sei se foi abolida… a guilhotina que foi abolida, não propriamente a pena de morte.
(Sr. Fernando Antunez: A pena de morte.)
Bom, até há pouco havia pena de morte na França.
A condição pior, naturalmente, é a do criminoso que vai ser morto; mas, era tradição oferecerem a ele, na última refeição, na véspera da decapitação, uma refeição esplêndida e que ele podia pedir o que quisesse. Creio eu que também vinho desde que não fosse para se embriagar.
Não sei se vocês percebem que há qualquer respeito à vida humana e a grandeza do episódio da morte, em que antes do homem se despedir da vida, ele que vai ser morto porque é um infame que merece a pena de morte, se presta a ele uma certa homenagem na mera natureza humana. Por quê? Porque ele é homem e o homem enquanto homem ─ ser pensante ─ está para as outras coisas não pensantes numa relação parecida com aquela com que Deus está em relação a todas as criaturas. E pelo fato dele ser homem, respeita isso nele. As últimas vontades, que são cabíveis com a condição de prisioneiro, se atendem. O modo de tratar deixa de ser brusco, cominatório, severo; trata-se com urbanidade. Não passaria pela cabeça de ninguém de vaiar um homem desse que vai caminhando para a morte.
Algo vai acabar ali, Deus vai pôr o dedo ali, vai haver um drama tal que a gente respeita o drama, não respeita o homem. Quer dizer, respeita naquela pessoa a natureza humana, mas não respeita aquela pessoa, vai ser morta, até como infame.
Bom, era uma coisa consagrada que se a esposa, o pai, os filhos quisessem despedir dele se aceitava. E eram introduzidos dentro da prisão, para se despedir dele, com certa deferência. Olhe, que não pode haver situação pior do que o pai, a esposa ou um filho de uma pessoa que vai ser morta por infâmia, por um crime! Mas, respeita-se o quê? A gente sente, em primeiro lugar, é uma coisa intuitiva, que merece respeito. Em segundo lugar, por que é o respeito? [Porque] é o homem, a gente respeita o homem. Por quê? Por causa dessa relação.
* A grandeza está afirmada em tudo que em algo simboliza a transcendência de Deus
Portanto eu não estou aqui falando da grandeza suprema que é a grandeza eclesial, de uma dignidade eclesiástica sobre o fiel. Nem a grandeza do nobre sobre o plebeu nem do rico sobre o pobre. Toda grandeza é assim, a grandeza do professor, etc., é grande na medida em que aquela função, aquela situação, aquela personalidade simboliza em algo a transcendência de Deus. Ali está afirmada a grandeza.
É claro que essa grandeza pode ser, em certas pessoas, uma nota colateral, entre outras. Ela pode, pelo contrário, em algumas pessoas, ser um traço saliente, aí nós dizemos, a grandeza por excelência.
(Sr. Guerreiro Dantas: …a grandeza é uma propriedade por onde aquela alma, aquela pessoa…)
…simboliza, a palavra simboliza é essencial.
(Sr. Guerreiro Dantas: …um aspecto transcendental de Deus.)
Não! A transcendência de Deus. Deus não tem aspectos, Ele é inteiramente todas as suas qualidades.
* Segundo a ótica humana a grandeza é o modo de ser das várias propriedades de Deus
(Sr. Guerreiro Dantas: …mas qual deles mais propriamente exprimiria a grandeza de Deus?)
Não, a grandeza não é, em Deus, uma propriedade como a bondade, como a justiça, etc., em Deus todas essas propriedades se fundem, constituem um só todo que é Ele mesmo. É a ótica humana que distingue. Agora, na ótica humana, segundo a ótica humana a grandeza é o modo de ser das várias propriedades d’Ele. Ele é grande em tudo que tem, transcendente em tudo que tem. Não há uma transcendência como há uma bondade, como há uma sabedoria. Todo Ele transcende.
* Nosso Senhor na humanidade santíssima dele refletia de um modo inenarrável as perfeições de Deus
(Sr. Guerreiro Dantas: …com Nosso Senhor Jesus Cristo seria uma noção, imediata, do conjunto dos valores que Ele era. Seria isso?)
Não, com Nosso Senhor Jesus Cristo não, porque na natureza ─ Ele é uma só Pessoa, mas duas naturezas: divina e humana. Considerada a natureza divina o que você diz é verdade. Considerada a natureza humana, Ele é um Homem e portanto, não é transcendente, mas é um Homem cuja humanidade santíssima reflete, simboliza ─ aí tem tudo, símbolo, reflete, tem tudo ─ de um modo inenarrável as perfeições de Deus. Portanto com grandeza.
Meus caros, vamos encerrar nossa reunião, não é?
Meu bom Edwaldo, o meu muito caro Fernando Antunez teria pedido a você uma ficha ─ por falar em grandeza de Nosso Senhor Jesus Cristo ─ da expulsão dos vendilhões?
(Dr. Edwaldo Marques: Não!)
Ele vai pedir a você amanhã, você então diga sim para ele.
(Sr. Fernando Antunez: …vai pelo correio interno…)
Ah! Correio interno, então, vai servir para te avivar a memória, está muito bom.
(Sr. Guerreiro Dantas: …não tenho uma idéia inteiramente acabada da noção da grandeza, fiquei até um pouco confuso. Eu tenho idéia de que não é possível majestade sem grandeza.)
É, não é.
* No que consiste a virtude da majestade
(Sr. Guerreiro Dantas: …o senhor comentava que há pessoas que tem alguns traços de grandeza, mas não são chamadas a exprimir propriamente a grandeza, mas outras virtudes. Porque também aí, as outras qualidades embora eminentes, não se possam dizer que elas também são grandes nesse sentido.)
A majestade é, etimologicamente: “majos-stat”, o estado de ser mais. E, propriamente, se você quiser bem ao pé da letra, é uma supremacia, o ser supremo. E é um modo de ser de todas as qualidades de alguém próprias a quem é supremo. Mas, especialmente o mando, por causa da função que a pessoa tem que exercer. Então, por causa do mando, nós temos a impressão que a majestade é uma virtude distinta das outras, mas é porque à majestade é própria um traço, uma função, uma missão muito saliente. Mas, de fato, a majestade consiste na supremacia das qualidades fundamentais daquela pessoa.
(…)
[Aqui iria o corte nº 3.]
*_*_*_*_*