Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1andar)
– 8/8/1981 – Sábado [RSN 024] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1andar) — 8/8/1981 — Sábado [RSN 024]
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As sombras da Igreja têm pulchrum, as do mundo vêem do pecado, da dor, da penitência, do mal * Na ordem natural há sombras que são ornatos, como de uma catedral, do São Bento, dos diversos ambientes da Sede do Reino de Maria * O homem tem um certo horror da sombra, mas a procura, e também se defende da luz * Analogias entre sombra e sono *Enigma: o sono é a delícia da qual não se tem consciência; a sombra é a prefigura da morte * Como pode ser no Céu algo que produza efeito semelhante ao do sono e da sombra na terra * Para o homem, a luz não deve ter certa sombra? — No jogo das cores, umas ressaltam as outras * Deus decompõe nesta terra a síntese de felicidade plena que haverá no Céu * Na terra, a confiança é uma síntese, é o repouso distendido diante do perigo, como o caminhar sobre as águas * A preparação clássica para dormir pensando na morte não exclui estas considerações; o que não é bom é o que perturba * No Céu há superatividade e repouso perfeito: luz e sombra * O sono da fé e da inocência, e o do pai que só quer saber de descarregar todo aborrecimento no travesseiro * Uma princesa que não compreenderia nosso sentir
(Sr. C. Antúnez: Eu disse para ele que guardava, se me autorizava.)
É engraçado, eu não tenho a menor idéia. Eu tinha uma idéia de uma carta escrita daqui para lá, uma coisa assim. Mas, portanto, muito antes da fundação do Êremo. Muito antes, muito antes.
(Sr. C. Antúnez: 63)
É, muitíssimo antes.
Agora, a realidade é esta: que uma carta às vezes pode dizer muito mais do que uma coisa falada. Portanto, o major e o Paulo Henrique disseram bem, você faria bem de entregar a carta a ele.
(Sr. C. Antúnez: Nunca como o olhar do senhor isso aí…)
O olhar humano diz mais do que qualquer outra coisa. Diz mais inclusive do que a palavra. Isto é fora de dúvida.
Mas, então, que temas tratamos? Meu Guerreiro, você que é o pergunteiro, qual é a pergunta que vem tem para fazer, meu Guerreiro?
(Sr. Guerreiro: Uma pergunta que sai um pouco da aerologia que o Sr. Carlos estava introduzindo e estava tão atraente, de modo que.. Assunto das névoas. A gente vê que é um tema cheio de imponderabilidade, de riquezas e a alma sente que transporta a alma para toda uma outra esfera. Daí eu senti que este é um tema que podia ser mais…)
Está feito um bonito laço, uma bonita ponte, não se pode negar, mas agora vamos ao tema. Tanto mais que eu estou percebendo que não vou poder falar muito tempo.
(Sr. Guerreiro: Normalmente quem vem de fora é que tem a …)
(Sr. P. Henrique: Os visitantes ficam um pouco em dificuldade porque eu creio que a reunião vem….)
É, tem uma seqüência. É evidente.
(Sr. P. Henrique: Ficamos inibidos de levantar assuntos, não sei se….)
É evidente.
Então, meu bom Guerreiro, precise sua pergunta!
(Sr. Guerreiro: Sobre esse assunto, eu não sei o que perguntar. Eu sei que o senhor no MNF da semana passada comentou algo a respeito da… a partir de uma insistência do Sr. Átila como o senhor via aquelas rosáceas de um álbum que foi entregue ao senhor e o senhor em certo momento…)
Meu caro Paulo Henrique, o Mário não costuma sentar-se durante as reuniões. De maneira que você pode sentar-se aqui, fica mais à vontade. E se ele quiser, senta lá-se.
Ah, tem o Fernando com o gravador, eu tinha me esquecido. Eu nem tinha mais pensado no gravador, viu?
Diga lá.
* As sombras da Igreja têm pulchrum, as do mundo vêem do pecado, da dor, da penitência, do mal
(Sr. Guerreiro: E o senhor em certo momento comenta o papel que tem… o “pulchrum” e a necessidade que havia para a alma do senhor de ver o mundo através de um prisma meio de sombras e o papel das sombras na vida. E como isto tem algo que traz à alma meios para discernir e ver aspectos da Providência, enfim, de uma ordem metafísico-religiosa muito mais densa, muito mais rica. Seria um tema tão cheio de sugestões e o senhor tendo tantas afinidades com isso, se o senhor pudesse…)
Podemos falar um pouquinho sobre isso.
(Sr. Guerreiro: O que o senhor vê na situação presente, se a situação presente que o senhor descreveu hoje na reunião e um pouco continuação daquele das vacâncias que na reunião passada o senhor dizia que sentiu que o quadro estava feito para apresentar surpresas monumentais. O senhor se lembra qual é? E se esse quadro da Cristandade, o processo RCR, apresenta sombras, no sentido de que deveria ser visto através de certas sombras. Se pudesse comentar um pouco como é que são essas sombras dentro desse quadro RCR.)
Quer dizer, quem está passando, por excelência, por uma grande sombra é a Igreja. E evidentemente essa sombra tem que ter, tem que ser o seu pulchrum no conjunto da vida dela. É uma coisa evidente.
E por essas sombras na história da Igreja, o mundo também está passando. Porque a Igreja está passando por uma sombra, o mundo também está passando por uma sombra do outro mundo! Não se tem o que dizer.
* Na ordem natural há sombras que são ornatos, como de uma catedral, do São Bento, dos diversos ambientes da Sede do Reino de Maria
Essas são as sombras que vêm do pecado, que vêm da dor, que vêm da penitência, vêm do mal. Mas na ordem criada por Deus, há outras sombras que são ornatos, não são efeitos das sombras do mal.
Você, por exemplo, toma a penumbra de uma catedral, a meia penumbra do São Bento, que é um prédio que vive numa meio penumbra. E uma das belezas do São Bento é isso. Um dos atrativos do andar térreo da Sede do Reino de Maria é uma espécie de penumbra que tem, que é um pouco menos luminosa do que… há uma certa penumbra aqui em casa, mas é uma pouco mais luminosa do que a da Sede do Reino de Maria, andar térreo. O andar de cima é comum; eu digo o andar térreo.
A Sala do Reino de Maria, ela mesma tem a penumbra causada pelo vitrais. Se você pusesse vidro comum entrava luz ali aos borbotões, mas o térreo não, não é causada pelos vitrais. E o mais curioso é que a própria eletricidade no andar térreo não vence essa penumbra.
Você toma, por exemplo, a Sala de São Luís Grignion: ela é penumbrosa dia e noite, não tem por onde escapar. Por exemplo, a Sala da Tradição não, ela é clara, mas de dia tem penumbra. Por causa do tecido dourado da sala, a iluminação reflete muito, então quebra a penumbra, mas durante o dia não. Não sei se é porque as janelas são pequenas para o tamanho da sala, praticamente só se abre uma janela, mas o fato é que é assim.
Na Sala São Luís Grignion talvez seja o terraço que causa aquela penumbra. Na capela, as árvores e tudo o mais, depois tem aquela espécie de vitral também que causa uma tal ou qual penumbra. Talvez seja essa a explicação. Tanto mais provável, quanto a sala de expediente não tem penumbra nenhuma, tem uma iluminação quase comum.
Mas isto não vem ao caso, porque é claro que estas coisas têm sua causa natural. O problema é saber o que significa, o significado que tem, posto por Deus, nessas penumbras da natureza.
* O homem tem um certo horror da sombra, mas a procura, e também se defende da luz
A gente tocando um pouco mais longe, tem o seguinte:
No Paraíso devia haver sombra. Ora, o Paraíso era o lugar das delícias e teoricamente falando… Por exemplo, para o inventor do neon não deveria haver sombra nunca. E é mais curioso que a natureza humana tem por alguns lados um certo horror da sombra. O homem se defende contra a sombra. E mesmo a penumbra, ele a procura, mas até certo ponto se defende contra ela.
Por exemplo, com as iluminações da noite, com a iluminação pública, com uma porção de coisas, o homem se defende das sombras.
É fato que o homem criterioso se defende da luz também, e se a gente vai analisar os vitrais, são uma defesa que o homem tem da luz. Quando o homem perde o critério, ele fica… ele entra dentro da luz.
Vocês pegam o auge disto, é a Galeria dos Espelhos. Ela é aberta, não se conceberia vitrais na Galeria dos Espelhos. Ao contrário da Saint-Chapelle. E os espelhos ainda multiplicam a luz.
(Sr. P. Henrique: Na própria Catedral de Notre-Dame há muita penumbra, muita.)
Muita, muita penumbra.
Onde há um combate à penumbra é na Igreja de São Pedro. Tudo na Igreja de São Pedro procura combater a penumbra. Não é verdade?
(Sr. P. Henrique: Inteiramente, não se reza.)
Não se reza.
(Sr. P. Henrique: Não se reza, é impossível, não há ambiente.)
É um monumento, aquilo é um monumento.
* Analogias entre sombra e sono
Aí a gente chega ao ponto central da questão: o sono. O sono é uma penumbra da vida, entra pelos olhos. E o modo do homem agir face ao sono é curioso. Porque, debaixo de certo ponto de vista, o homem lamenta dormir, e gostaria de poder aproveitar o tempo que dorme. Debaixo de outro ponto de vista, o homem tem horror a estar acordado e dorme o mais possível. Ele afugenta o sono e ele ao mesmo tempo atrai o sono por meio de remédios e outras coisas assim. E o homem escreve composições musicais, literárias, a que ele dá o nome de rêverie.
(Dr. Edwaldo: Há uma solidariedade do sono com a sombra.)
Mas solidariedade do sono é sombra. O homem baixa as pálpebras e imerge nas sombras.
(Dr. Edwaldo: Procura lugar escuro para dormir.)
Procura lugar escuro para dormir, precisa de lugar escuro para dormir, e entra na sombra.
(Sr. P. Henrique: A Sra. Da. Lucilia dizia que o sono era uma das manifestações da misericórdia divina.)
É exatamente, exatamente.
E há gente que, pelo contrário, detesta dormir. E o auge da desordem neste ponto é certo tipo da gente que quando está acordado não quer dormir, e quando está dormindo não quer acordar. Há disso. Aliás, muitas vezes as crianças são assim.
Uma criança que deveria dormir às nove, deita à meia-noite, meia-noite e meia. Mas da manhã devia acordar às oito, e às dez horas a criança está levantando, mal humorada, nem sei!
*Enigma: o sono é a delícia da qual não se tem consciência; a sombra é a prefigura da morte
Não sei se percebem por aí o enigma do problema do sono e da sombra, que conduz ao seguinte.
É líquido, dentro de tudo isso, que o sono não é apenas uma representação, mas que durante o sono o homem vive algo. Tanto é que o homem diz: “Passei uma noite deliciosa”. Não é uma noite que ele tenha perdido o contato consigo mesmo. Ele tem uma certa memória do bem‑estar que sentiu quando dormia. Se não uma noite não pode ser deliciosa. Se perdeu consciência de si, não pode ser deliciosa. Não adianta.
Isso visto de um lado. E desse lado também as sombras, as penumbras, etc., são um bem. De outro lado, são uma prefigura da morte.
Eu me lembro da antologia. Quando eu estudava francês em pequeno havia um trecho de antologia — tem que ser um muito bom literato, não me lembro o nome — que dava o primeiro sono de Adão no Paraíso: ele começou tatá-tatá e teve medo de estar morrendo.
Realmente ele, pela natureza dele, era mortal. Ele só não era mortal por um dom preternatural. Teve medo de estar morrendo, mas adormeceu, não resistiu.
De manhã, quando ele acordou, ele ficou radiante e teve uma impressão de estar ressuscitando.
Há um pouco disso. Há um pouco disso.
Eu não sei porque é que as pessoas não se entretêm conversando sobre isso. É um tema proibido. Se vocês procurarem interlocuções sobre isso em nossos dias, vocês não encontram. Mas é…. entretém a vida.
* Como pode ser no Céu algo que produza efeito semelhante ao do sono e da sombra na terra
Eu estava dizendo que a pergunta mais aguda no caso não é quanto ao Paraíso terrestre, é o seguinte: tudo quanto é bom nesta terra e ordenado por Deus, de algum modo nós vamos ter no Céu. No Céu não há sombras e no Céu não há sono, isto é certo. Mas o bem que o sono traz e um certo conforto que as sombras trazem, sem sombra, nem sono, no Céu se deve ter.
(Sr. F. Antúnez: As árvores não vão ter sombras?)
Não.
(Sr. C. Antúnez: Não vai ter estrelas?)
Também não sei como que é.
(Sr. F. Antúnez: Tudo iluminado assim é o Saara.)
É que o bem que há nisso, de algum modo existirá lá. E o interessante da coisa é o seguinte: é que o Céu… Por exemplo, eu tenho a impressão que esta é uma reflexão que dá à gente vontade do Céu, e dá vontade de pensar no tema, fica atraente o tema. Um tema tão repisado por alguns aspectos, fica atraente. Mas acontece o seguinte: o Céu nos é apresentado, entre outros aspectos, como um repouso inefável. Até diz a Escritura que nós estaremos in cubilibus nostris, cada um de nós no seu leito, de tal maneira o Céu vai ser repousante. E, portanto, entre os gáudios infinitos que nós teremos na visão beatífica, nós teremos o de, vendo a Deus face-a-face, ter uma forma de repouso de que na terra o sono e a sombra são certamente um certo prenúncio.
* Para o homem, a luz não deve ter certa sombra? — No jogo das cores, umas ressaltam as outras
Eu não chego a realizar com é, mas tem que ser.
(Sr. F. Antúnez: Por exemplo, tem pedras, elas têm luz. A safira, por exemplo, é escura, tem sombra, o brilhante está cheio de luz, a ametista é escura, o topázio é claro, tem topázio “fumé” também, e cada um tem o seu atrativo. As pessoas têm almas que são mais luz, e outras mais de sombra…)
Você logicamente poderia até chegar e enunciar uma coisa: que toda cor é o branco menos algo e que, portanto, em toda cor se mistura de algum modo uma certa sombra. Talvez pudesse sustentar esse tese.
Ora, então, no Paraíso terreno não haveria cores, quando a vista pede cores? Digo, no Céu empíreo não haveria cores, quando a vista pede cores? É uma ponta que você poderia pôr na sua pergunta.
(Sr. F. Antúnez: Por exemplo, a senhora do quadrinho é sombra, evidentemente a senhora do quadrinho é uma sombra, a sombra de uma árvore é uma sombra, ela afaga como uma sombra.)
Ela é muito sombreada.
(Sr. F. Antúnez: Sombreada, não uma sombra escura. Ela é toda assim… tem algo da luz da sombra, mas não é sombra…)
A pergunta é: a luz para o homem não deve morar dentro de certa sombra? Por exemplo, não fica bem ao prata, à cor prateada, morar dentro do lilás? É uma pergunta que se pode fazer.
A razão pela qual o lilás realça o ouro, ouro sobre azul, não é uma certa sombra que realça ainda mais o ouro? Nós compreenderíamos o mundo das cores se não tivéssemos sombras?
* Deus decompõe nesta terra a síntese de felicidade plena que haverá no Céu
De tudo isto eu vejo bem o alcance da pergunta. Mas eu acho que isso é uma coisa que é misteriosa para nossa natureza e misteriosa para explicar a ordem material criada. Mas é certo que o homem, para lá de tudo, gostaria de um estado onde ele tivesse todo o repouso do sono dentro do ser da vida.
Que o homem pede uma síntese, é certo. E na terra eu tenho a impressão que essa síntese não existe, mais ou menos como a luz que passa por um prisma de cristal que se decompõe em várias cores. Então aqui temos sono, estado de acordado, sombras, luzes, etc., no Céu nós veremos uma certa síntese de que nós não podemos ter uma idéia.
Eu suponho: teremos todo o inefável de um repouso sem nome, e toda uma vida de uma vida sem nome também. E parece razoável.
Eu compreendo que os pintores, etc., não pintem estas coisas, porque não podem. Eu tenho a impressão de que não é dado aos recursos desta terra figurar uma síntese dessas. Mas é claro que essa dissociação nos é um pouco dolorosa. Tanto é que, em geral, a pessoa passa de um estado para outro com certo esforço. Não é negável.
O que dizer o esforço? Quer dizer que haveria uma vontade de não cindir. É positivo.
(Sr. F. Antúnez: É um descortínio, uma coisa….)
Então aí a gente compreende melhor como devem ser as coisas no Céu, a gente compreende melhor como é que não querendo nos dar nesta terra as fruições do Céu, que são próprias do prêmio da vida eterna, etc., Deus decompõe isso em aspectos. E como é bom na hora de a gente se deitar quanto está prenunciando uma noite depois de um dia desagradável, ou uma noite na véspera de outro dia desagradável. O que é muito pior, porque quando o dia desagradável ficou para trás, a gente dorme. Mas a noite-véspera de um dia desagradável é uma noite tantas vezes dura, até o homem durante a noite se agita e dorme mal, etc. Quando na noite do dia desagradável pode ser que o homem durma como desmaiado, para se recompor bem. São coisas que podem acontecer.
É um bom pensamento na hora de a gente dormir dizer: “Eu vou pedir a Nossa Senhora que, se for da vontade d’Ela, eu tenha um bom sono e que o repouso que eu vou tomar até a hora do desagradável, eu passe na confiança e na certeza de que, quando eu estiver no Céu, eu já não vou ter o dia desagradável de amanhã”. É uma coisa agradável.
* Na terra, a confiança é uma síntese, é o repouso distendido diante do perigo, como o caminhar sobre as águas
(Sr. C. Antúnez: A confiança tem algo que ver com o sono.)
A confiança tem algo a ver com a síntese. A confiança é meio luz e meio sombra. Não é mesmo?
(Sr. C. Antúnez: Eu vi uma vez uma mãe que levava um filho atravessando uma rua muito perigosa, mas muito perigosa, então levava o filho apoiado aqui, e o menino dormindo, mas uma coisa… Está num lugar perigoso, porque o carro passava de lado a lado, mas ele como estava nos braços da mãe, dormia tranqüilo. E eu pensava que se nós nos puséssemos como esse menino nas mãos do senhor nos perigos mais atrozes, ficaríamos tranqüilos, os carros poderiam passar roçando em nós como… Ele de tal maneira estava posto nos braços de sua mãe, que ele dormia.)
Mas é uma linda imagem!
(Sr. C. Antúnez: Portanto, o sono tem que ver com a confiança. Porque esse menino estava tão confiante, que estava dormindo no colo da mãe.)
É verdade, está muito bem alegado. Mas a confiança tem algo da atitude de alma da pessoa que, diante do perigo, resolveu dormir. Quer dizer, põe-se tranqüilo, etc. Mas de outro lado — é uma espécie de síntese — tem algo da vida que merece muito mais do que o sono. Há um mérito na confiança, e ela é uma espécie de síntese entre o estado de acordado e o estado de sono. Entre a sombra e a luz, entre o estado da acordado e o estado de sono, é a confiança.
(Sr. C. Antúnez: Então o menino teve que resolver se deixar pôr nos braços da mãe. Aí está…)
O ato de confiança.
(Sr. C. Antúnez: Depois pode dormir, se quer.)
É bem exatamente isso. Repouso distendido e sem olhar muito de frente o perigo que vem. Quando a gente anda sobre as ondas, não pode olhar muito para a água. É evidente!
(Dr. Edwaldo: Há um salmo que o senhor cita: “Ainda que eu estivesse nas sombras da morte, eu não temerei os males”.)
Não temerei os males. O que equivale a não olhar muito de frente as sombras da morte. O “Livro da Confiança” diz que São Pedro quando começou a andar na água, quando deixou de olhar para Nosso Senhor e olhou para a água… psitt! É assim, não tem conversa.
* A preparação clássica para dormir pensando na morte não exclui estas considerações; o que não é bom é o que perturba
Então vocês estão vendo um gênero de meditação antes de dormir que não exclui nem um pouco a meditação clássica: “Eu poderei morrer durante a noite, a cama é a imagem da sepultura”. Em rigor, em qualquer idade se pode fazer essa reflexão: “ Quantos dormiram e não acordaram mais? Quem sabe, ó meu Deus, se eu não acordarei mais, a não ser diante de vossa presença”. É muito bom, mas essas coisas se sobrepõem sem se excluir.
(Dr. Edwaldo: O senhor dizia que o leito de um homem puro é um campo de batalha.)
É um campo de batalha e pode-se dizer mais: é um altar.
(Sr. F. Antúnez: O senhor dizia que era um altar e um trono.)
É isso. E é trono. Mas é verdade.
(Sr. C. Antúnez: Uma coisa meio pessoal, mas me parece difícil essa meditação antes de dormir: “Não vou acordar mais… posso não acordar mais”. Aí não consigo dormir.)
Hahaha!
(Sr. C. Antúnez: Eu prefiro dormir rezando, certo de que estou nos braços do senhor e que vou tocar para a frente.)
Depende muito da via de Nossa Senhora com cada alma.
Quer dizer, eu compreendo que uma pessoa faça como você diz. Eu já fiz muito uma coisa e já muito outra. Aí depende muito do apelo da graça no momento.
A regra de ouro é a seguinte: o que perturba não está bom. Essa é a regra de ouro. Onde está a perturbação, desconfie.
Voltando ao caso, eu acho que uma meditação assim sobre o sono, quer dizer: “No Céu vou ter, de um modo quintessenciado, este repouso”, etc., é uma meditação também boa para a noite sem excluir a outra.
* No Céu há superatividade e repouso perfeito: luz e sombra
E para a gente ter bem uma idéia do Céu, não basta falar da sombra e do repouso, mas precisa pensar também em outra coisa: momentos de superatividade humana, em que o homem deu tudo quanto tinha numa batalha, qualquer coisa assim. São momentos que deixam umas saudades, não só pelo bem que foi feito, que é a razão principal, mas também pelo que se sentiu nessa hora.
O homem gosta de se sentir tenso pelos acontecimentos, não tenso de tensão nervosa, mas no sentido literal do verbo tender. Ele gosta de ser tendido inteiramente, em toda sua arcatura, em determinado rumo.
No Céu, junto com o repouso perfeito, na adoração a Deus, há um pleno pôr-se e um pleno élan, junto com o repouso perfeito, luz e sombra, que nos dão uma idéia do Céu maravilhosa, que não se pode fazer exatamente uma idéia na terra, mas que é muito bom isso para nos ajudar a ter vontade do Céu e compreender como esta terra é mentirosa.
* O sono da fé e da inocência, e o do pai que só quer saber de descarregar todo aborrecimento no travesseiro
Para descer vertiginosamente o tema, enfim, essas coisas são assim, aqui na esquina há um anúncio, semana do pai, uma besteira qualquer deste gênero. Pelo que interpretei do anúncio, a coisa é uma loja chamada Prá Dormir. Foi como eu interpretei o anúncio, o anúncio não é muito claro. Aliás, fazer um anúncio não claro… isso é lá com ele, não tenho a menor das preocupações.
Então a idéia é que, como é a semana do papai, essa loja que fornece travesseiros, sugere que se dê para o papai — e, portanto, também para a mamãe — dois travesseiros para dormir, como se o filho dissesse: “Eu te dou tanta dor de cabeça, aqui está o travesseiro para descansar de mim”. O fundo do que está insinuado no anúncio, é isso.
Eu pensei na cabeçorra do papai afundada no travesseiro e telepatizando para dentro da paina tudo quanto é aborrecimento, nó e tentação, que ele teve durante todo o dia. Se isso molhasse, de manhã o travesseiro estaria gotejando.
Ele não tem idéia do que é o sono de uma pessoa com fé, de uma pessoa com confiança, que se deita, que adormece, é uma outra coisa. O sono da inocência!
E é evidente que o tal papai do anúncio não é isso. É tomado um homem corrente do século XX, de 1981… o homem corrente do século XX não é esse.
Então o papai deve ser louco pelo travesseiro. Ele não compreende o que ele perde, e como essa vida, atrás da qual as pessoas saem correndo, correndo, correndo, não satisfaz, como há uma outra coisa que poderia satisfazer. Enfim, é outro mundo.
É uma meditação de que as sombras têm realmente um papel muito grande. Não é o papel maior, mas é um papel muito grande.
(…)
* Uma princesa que não compreenderia nosso sentir
(Sr. Guerreiro: Uma vez o senhor escreveu na última página de uma pasta contendo o primeiro semestre do pontificado do Paulo VI, o senhor escreveu: “Fantasmagorias da noite”. Aquele tema e depois aquele jardim que o senhor comentou na paradisiologia…)
Uma capa de disco. Em todo o caso, cortado em estilo francês, numa névoa que sublimava o jardim,
(Sr. Guerreiro: A gente vê que o senhor se sente nesse mundo atendido numa série de necessidades de alma que é algo “a la” Ocidente, mas que tem algo “a la” Oriente. Há movimentos na alma do senhor que são diferentes. Há movimentos na alma do senhor que a gente não vê em nenhum ocidental. Quem sabe lá pelas Rússias, algumas semelhanças. Depois, por outro lado, um certo lastro, um ponto de síntese muito interessante. Então como é toda essa movimentação. Se fosse fazer um chafariz com os movimentos de alma do senhor, seria um chafariz que não teria um desenho desses convencionais.)
Eu acho muito difícil responder essa pergunta.
(…)
… é uma alemã de um daqueles grão-ducados Mekemburg, qualquer coisa assim, casada com um príncipe francês, com o filho do rei dos franceses, Luís Felipe. Está bom, dela eu não gosto muito. Eu acho que a seda do vestido está muito bem representada, o brilho da seda está magnífico, mas sobretudo eu gosto do fundo.
Ora, o fundo, o pintor francês do século XIX, muito conhecido. É uma gravura. Representa o quadro de Winterhalter, que pintou. Os quadros dele são muito brisés na França.
Esse homem que pintou aquilo parecia que compreende aquilo com é o nosso sentir. Ora, eu desconfio que ela não compreendia. Ela não compreendia, isto é positivo. É uma coisa complexa
(Dr. Edwaldo: É de antes da revolução ou depois?)
Eu confesso que fico na dúvida. Eu sou inclinado a achar que é depois, mas certeza não tenho.
(Sr. C. Antúnez: Eu acho que o Sr. Fernando tem toda a razão, porque é óbvio que América Latina tem uma bonomia que se sente. Por exemplo, quando um vem de mais do norte, a gente entra na América Latina e conversa com um indiozinho, é uma bonomia, tem algo por onde a gente sabe que esse homem vai ser filho de Nossa Senhora e… ele pode não conhecer o denhor, mas tem algo da promessa de que ele vai ter que seguir o senhor. Então eu acho que essa apresentação da América Latina é por causa da promessa de Nossa Senhora ao senhor.)
(…)
No convívio com ela, ela me ensinou o gosto das penumbras que tem no fundo luz. Ela tinha uma forma de melancolia, no fundo da qual — se eu dissesse “brilhava”, eu não diria bem, se eu dissesse “reluzia”, sim — reluzia um ânimo invencível. E ela tinha um hábito de olhar para as coisas, já acostumada à idéia de que iriam ter um desfecho triste, mas enfrentando o desfecho triste com a resolução de caminhar para a frente, que está em muito ligada à disposição de espírito que a graça me dá de ser enérgico, quase pessimista no formular as hipóteses, mas eu creio que desanimado os senhores nunca me viram. Vem dela.
E onde sombra e luz realizam… aliás, vocês podem ver.
(Sr. P. Henrique: Aqui existe realmente essa bondade, que chegou a um requinte na pessoa dela e do senhor.)
O que tem é que eu acho que esse estado de alma inteligentifica, dá à inteligência uma flexibilidade e uma capacidade de penetrar, maior do que a mesma inteligência teria se não fosse assim. Não estou, portanto, dizendo que quem tem isso é mais inteligente do que seria se não tivesse. Não estou, portanto, comparando brasileiro com ninguém. Estou mostrando que isto, a nós, inteligentifica.
(Dr. Edwaldo: Muito ordenativo da alma.)
Muito.
(…)
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