Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1
andar) – 1/8/1981 – Sábado [RSN 024] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1 andar) — 1/8/1981 — Sábado [RSN 024]
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O ingrato não discerne onde estão seus verdadeiro interesses * A ação de D. Hélder tem algo de hipnose, em que o demônio faz sentir o que tem de agitado e delicioso * Ação hipnótica do demônio, macaqueação da ação de Deus sobre a alma através da graça * A graça não hipnotiza, não se impõe, por ela discernimos um ser muito maior — A liberdade é não ter tentação * A graça faz sentir o divino por uma luminosidade indefinida que estimula a vontade e deleita a sensibilidade * No desfile do viaduto houve uma luz natural aumentada pela graça do discernimento que deu confiança no Fundador * A solidariedade do congênere superior dá uma sustentação indispensável ao inferior * O discernimento sobrenatural da representação legítima dá uma confiança indispensável para a eficácia da ação * A Revolução quebrou tanto o desejo de transesfera, graça metafísica e inocência, o que resultou num ateísmo prático que julga tudo isto um trambolho e só se interessa pelo concreto * A resistência à capa resultou do cepticismo indiferente ao símbolo, à Opinião Pública, e do regozijo com a banalidade concreta * É uma tentação típica dos bons essa insensibilidade, como os Apóstolos com a Ressurreição * A Sra. Da. Lucilia, toda posta na transesfera, ajudou a conservar a graça do batismo
Bom, vamos sentar, meus caros.
O Guerreiro não veio, não? Não estará lá em cima?
Não deve estar porque ele não tem chave, não é?
(Sr. –: Tem.)
O Guerreiro tem chave do segundo andar?
(…)
* O ingrato não discerne onde estão seus verdadeiro interesses
É difícil a pessoa ser grata, em parte porque a pessoa não sabe notar no que estão os seus verdadeiros interesses.
Por exemplo, eu estou longe de afirmar que o pessoal do segundo andar não tenha defeitos, mas eles são de uma largueza quanto a abrir o segundo andar que é uma coisa que toca ao excessivo. Mas as pessoas beneficiadas não noto que agradeçam, ficam sentidos porque não têm participação na geladeira. Essa é a natureza humana.
(Dr. Edwaldo: Eles têm a quem imitar para essa largueza.)
Eu sou obrigado a não ter a largueza deles.
(Dr. Edwaldo: Sim, mas a que o senhor tem é impressionante.)
Eu vou até o último limite onde posso. Mas estabeleci um princípio, senão eu fico louco! E depois, volens nolens, acabam me estragando tudo e liquidando com o apartamento que para mim representa muita lembrança de mamãe.
Mas então, meus caros, o que é que me perguntam?
* A ação de D. Hélder tem algo de hipnose, em que o demônio faz sentir o que tem de agitado e delicioso
(Dr. Edwaldo: É impressionante, a história de D. Hélder está realmente um jogo aberto, porque há pouco o senhor tinha previsto, mas de um modo escancarado. Eu nunca imaginei que fosse jogar deste modo.)
Eu fiquei espantado quando li. Quer dizer, eu sabia que se deve conjecturar aquilo, mas que D. Hélder dissesse assim… É uma coisa espantosa!
(Dr. Edwaldo: Mas daí pode — não sei o que o senhor acha — vir a segurança com que eles estão atacando, porque a coisa de si é meio louca.)
É, é de um louco.
Agora tem o seguinte: dado no Canadá — ele deve ter andado por lá fazendo conferências, qualquer coisa — de passagem para o jornal, se a coisa produzir muita desordem, ele pode dizer: “Não, ele não entendeu bem, eu disse uma coisa parecida”, e todos os jornais que comentarem a coisa dizem: “É”. É muito diferente do que se fosse dito por nós.
De maneira que ele tem meios de recuo indecentes, a la ele. Ele é indecente, mas ele tem meios de recuo seguros.
Eu creio que o verdadeiro prejuízo que ele sofre é no fato de nós ficarmos com esse dado a mais. Porque quanto à opinião pública, fica pelo ar.
(Dr. Edwaldo: O fato de ele dizer, eles todos estão apoiados nisso, não é só dele.)
Não, não, é da grei toda.
(Dr. Edwaldo: Isso explica o modo que eles atuam, conforme o senhor tem dito. É outra religião, religião do demônio.)
Religião do demônio.
(Dr. Edwaldo: E eles sentem esse apoio para se lançarem como estão se lançando.)
Tal qual, é precisamente isso. E preparam-se para… Eu vou mais longe, creio que nós já conversamos sobre isso em outra ocasião: João Paulo II é um guru dessa história. Não tenho dúvida. E se o curso das atividades dele não tivesse sofrido o hiato que sofreu, eu não sei até onde ele estaria agora. Como não sei, se ele estivesse atuando, quanto mais esses fatos teriam ido para a frente.
Vocês estão vendo, por exemplo, que a nomeação do arcebispo de Paris, daquele homem escândalo de abominação, já foi feita de propósito. Outra coisa é a designação do legado para o Congresso Eucarístico de Lourdes. Ele haveria de mandar para lá um cardeal negro! Parece feito de propósito para achincalhar mais.
Não vamos perder o tempo dizendo banalidades: “Nós somos a favor de que haja também negros no Sacro Colégio”. Mas daí a levar a coisa a esse pé… Ainda mais uma nação que teve colônias de negro, receber um cardeal negro… na França, tenha paciência! Que propósito tem isso, um judeu e um negro? Quer dizer, ele não podia achincalhar mais.
(…)
Você dirá: “Isso não corresponde ao conceito de hipnose?”.
Acho que sim, porque eu imagino que a hipnose produza esse efeito. É como eu imagino.
(Dr. Edwaldo: E na hipnose a pessoa só é hipnotizada quando quer, ela abre a porta por dentro.)
É, ouvi dizer isto, que a pessoa não hipnotizada, se ela não quiser, não se deixa hipnotizar.
(Dr. Edwaldo: Abre a porta, digamos, não para algo, mas para alguém, na explicação do senhor.)
Exatamente, é precisamente isso. E é uma espécie de delícia de sentir entrar em si outro mais potente e acioná-la como uma espécie de fole.
Você imagine um asmático ou uma pessoa com uma respiração insuficiente que entra num pulmão de aço. A pessoa tem uma respiração a mais. Eu não sei como funciona o pulmão de aço, mas ela tem uma capacidade de esticar e de encolher os pulmões maior do que a sua capacidade natural. Poderia ser que a pessoa gostasse disso, ficasse viciada nisso.
A hipnose é assim: é um outro — quer dizer, o demônio — que se move e que me faz sentir a agitação dele, a movimentação dele como uma coisa maior do que nós, e deliciosa, na qual nos sentimos ampliados e para a qual, portanto, abrimos intencionalmente as fronteiras do nosso ser.
(Dr. Edwaldo: E o curiosíssimo é que antes da Revolução Francesa isso se fez pela França inteira de um modo intensíssimo, os tais magnetizadores.)
Muito maior.
Eu acho que o hipnotizador e os mágicos, etc., têm seu papel dentro disso, mas que é apenas um sintoma de uma apetência geral em que o demônio… Então daí vem a idéia de a minha idéia de um mar hipnótico, de nuvens hipnotizantes, etc.
* Ação hipnótica do demônio, macaqueação da ação de Deus sobre a alma através da graça
(Sr. F. Antúnez: Isso tudo dá uma união de pessoa com o demônio que é espantosa, porque a pessoa vive de uma vibração do demônio, uma espécie de troca de vontades.)
Uma espécie de troca de vontades.
(Sr. F. Antúnez: Eu pergunto se o senhor poderia falar algo a propósito do que se dará de similar no Reino de Maria, mas do outro lado. Porque dá a impressão que se levar isto a esse ponto, essa vida que quase que é a vida de um outro, no pecado de Revolução, como seria no Reino de Maria, etc.)
Quer dizer, você conhece um provérbio espanhol, uma máxima espanhola que diz: “La masonería es la mona de la Iglesia”.
(Sr. F. Antúnez: Isto é argentino certamente, é nacionalista.)
Bem, mas é verdade.
Essa ação do demônio, que eu acabo de descrever, é apenas uma macaqueação da ação da graça, só que macaqueando dá uma coisa meio parecida no acidental e o contrário do substancial.
Agora, por que razão isso?
Porque São Paulo diz: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo Jesus que vive em mim”. Mas o que quer dizer exatamente esse conceito? Aonde é que conduz isso?
A pessoa no contato com Deus não se sente usurpada por um terceiro. Ela se sente ajudada a caminhar por sua vontade própria rumo a um terceiro.
De maneira que, para fazer uma comparação, imagine uma criança que é tão pequenininha, que tem dificuldade em andar, está passando da fase do engatinhar para a fase de andar. Portanto, às vezes cai, tem incertezas, depois continua a andar, etc.
Agora, imagine que essa criança tem uma mãe santa e um pai diabólico, hipnotizador. O pai, para a criança não cair, hipnotiza a criança que vem durinha até ele. A mãe, amável, afável, atrai a criança, a criança esquece-se de suas hesitações e, por vontade de chegar até o regaço da mãe, anda depressa.
As duas ações têm efeitos parecidos: tiraram a criança da vacilação e lhe deram uma deambulação com um recurso psicológico que não era o dela. Mas quanto a criança é livre quando se dirige à mãe e quanto ela é escrava quando o pai a chama!
Aí você pega bem o ponto fundamental do contraste. Eu creio mesmo — pode ser que me engane — que sem uma comparação um pouco mais ou menos deste gênero seria difícil atinar com o fio da meada. Mas eu acho que a comparação deixa claríssimo, claríssimo.
Então, no Reino de Maria, Nossa Senhora nos chama. O que é que é? É uma ação externa da mãe. Essa ação entra e aumenta a força da criança para ela querer aquilo que a retidão de seu ser diz que deve querer.
No demônio, a ação do demônio entra, mas não aumenta a força da pessoa, substitui-se a força da pessoa, silencia a pessoa e leva a pessoa para realizar um desejo que ela não deve ter, que é contrário à ordem de sua própria natureza. No caso do pai hipnotizador é exatamente isso.
* A graça não hipnotiza, não se impõe, por ela discernimos um ser muito maior — A liberdade é não ter tentação
(Sr. F. Antúnez: O senhor dizia que o demônio provocava uma vibração. Agora, na graça o que é que dá?)
Há uma coisa que eu estou até para mostrar para D. Mayer. Lembra-se que eu pedi para você me separar, daquele material, um trecho de um padre francês, creio que é o Pe. Chenu, sobre a ação da graça, mais especialmente sobre o dom do conhecimento? É um trecho que tem uma expressão ali que me deixa com o pé atrás; no resto me parece de uma ortodoxia relevante.
Ele põe a coisa assim: por uma operação do Espírito Santo em nós, nós discernimos um ser muito maior do que nós, que nos convida e nos atrai. Não nos hipnotiza, nem se impõe.
Bom, consolações espirituais todos já tivemos, e sabemos como são. Em nenhum momento nós nos sentimos confiscados pela consolação espiritual; nós nos sentimos mais donos de nós.
Se você quiser pegar na raiz, eu creio que aí termina qualquer obscuridade no assunto. Pela doutrina católica, a liberdade consiste na faculdade de realizar aquilo que é de acordo com a razão. Aquilo que não é de acordo com a razão e que nós somos obrigados a fazer, nos tolhe a liberdade. A liberdade não consiste em escolher entre a tentação e a solicitação da graça, mas consiste em não ser tentado. Quer dizer, a tentação limita a nossa liberdade.
Essa é a doutrina católica, que não é o conceito corrente. O conceito corrente é uma balancinha, as duas conchas e o pêndulo, mas não é o conceito católico.
* A graça faz sentir o divino por uma luminosidade indefinida que estimula a vontade e deleita a sensibilidade
(Sr. F. Antúnez: […] Eu queria perguntar do ponto de vista da graça o que é que o senhor pudesse desmontar esse pegar da graça, como é que é, etc., esse atrair, discernir…)
A graça começa agindo sobre nós, tornando mais evidente, mais luminoso algum ponto de verdade.
Habitualmente há os pontos revelados. Nos pontos não revelados, às vezes é algum ponto de verdade que nós já tínhamos visto pela razão, mas que não atinge aquela luminosidade quando a graça entra.
Daqui a pouco eu dou um exemplo.
Essa luminosidade é uma coisa difícil de definir, porque parece brotar da própria coisa, mas é a nossa alma que é ajudada pela graça e percebe melhor uma misteriosa analogia daquilo com Deus. Então aquilo toma uma certa luz.
Agora, com base nisso, por uma ação simultânea, a vontade se sente muito mais destra e se sente inconformada em não ter aquilo e quer ter. Então o esforço para realizar aquilo que, sem o auxílio da graça, seria para ela insuportável. Por culpa dela, mas seria. A vontade recebe uma espécie de leveza, de destreza, de firmeza, por onde ela realiza, e a sensibilidade recebe uma como que filtração disso e ela percebe, a seu modo, um deleite naquilo, que sem o auxílio da graça ela não perceberia.
Eu dou um exemplo que é claro, que são as parábolas do Evangelho.
Nosso Senhor naquelas parábolas torna alguns princípios de sabedoria muito altos, Ele torna tão, tão acessíveis e tão evidentes, que a pessoa fica pasma de estar posta diante de uma coisa tão clara. Mas ao mesmo tempo aquilo reluz com uma certa beleza que é uma analogia daquilo com Deus, um liame daquilo com Deus, de onde aquilo toma um aspecto divino.
Toma qualquer das parábolas: o filho pródigo, por exemplo, está cheia de coisas destas. A gente ouve aquela narração, a gente sofre com o pai, a gente se desconcerta com o filho, a gente se arrepende com o filho, a gente volta para a casa com o filho e ao mesmo tempo a gente está alimentando dentro da alma as objeções do filho fiel, vai tudo ao mesmo tempo. A gente é descrito inteiramente por dentro e a vida é descrita naquela parábola, mas com uma certa luminosidade, por onde a gente percebe que Deus nos toca naquilo.
A própria simplicidade nos faz sentir o divino ali, porque se houvesse um enfeite, uma palavra preciosa, bonita, antiga, um neologismo fulgurante, a gente diria: “Esta palavra é uma palavra talismã”. Não tem nada de talismã não evangelho.
* No desfile do viaduto houve uma luz natural aumentada pela graça do discernimento que deu confiança no Fundador
(Dr. Edwaldo: Mas isto se dá também na presença de um intermediário.)
É, aquele advogado que diz que viu Deus no Cura d’Ars.
(Dr. Edwaldo: Quando se fez aquele desfile no viaduto, era evidente que era um desfile que devia ser feito, mas ficava evidente ali. Acho que todo mundo se deu conta disso, que se o senhor não estivesse presente, aquilo seria um desastre, dissolveria na primeira tentativa contrária que houvesse. Um sujeito que tentasse contra o desfile, uma gargalhada, uma coisa que… ou mesmo que não fizesse nada, não teria consistência para ir para a frente. Quer dizer, a presença do senhor ali deu a todo mundo uma segurança que cada um não tinha. Como é que se dá isso de alma a alma aí?)
É o seguinte: os que estavam lá — a TFP era muito mais nova naquele tempo — percebiam de um modo confuso, os franceses dizem la hulle, o mar bravio da Opinião Público, caso eles desfilassem. E não sabiam definir bem no que consistia, apenas viam vagamente e não sabiam também que reações dar, que reações ter na hora. Nem tinham muita vontade de ter essa reações, porque isto supõe uma força de vontade que não era de cada um de nós naquela ocasião.
Agora, em presença de uma pessoa, dentro da qual eles viam que a pessoa conhecia a Opinião Pública, a hulle da Opinião Pública, e viam que pessoa teria o que responder, mas viam na reatividade da pessoa, na hora, que teria o que responder e viam que a Opinião Pública ficava esmagada, olhando para essa pessoa, isto dava a eles, por uma espécie de evidência, a certeza a cada passo de que a Opinião Pública ia ser contrastada. Mais ainda: eles viam no público uma vontade de reagir que era contida, porque, olhando para essa pessoa, o público percebia que ia levar na cabeça.
Isso os participantes do cortejo percebiam por um conhecimento psicológico direto. Então achavam que eles podiam andar porque a coisa não dava em fiasco. Mais ainda: na hora de fazer força de vontade, não era preciso eles terem uma força de vontade proporcionada à onda da Opinião Pública; bastava eles terem uma vontade que acertasse o passo com aquela vontade mais forte que eles conheciam ali.
Eu creio, se não engano, acabar de descrever meticulosamente o fenômeno.
Agora, acho que eles tudo isto viam por uma graça de discernimento dos espíritos. Quer dizer, eles algo viam por uma luz natural, mas era aumentado pela graça do discernimento dos espíritos. De onde o desfile.
(Dr. Edwaldo: O que o senhor descreveu está perfeito, é como uma coisa como que raciocinada, mas tinha que haver uma ação da graça nesse momento.)
Esse discernimento dos espíritos é uma graça e vem acompanhada com outras graças.
(Dr. Edwaldo: Nesse momento, são momentos apenas, porque a realidade é outra. Mas são momentos em que há uma certa união de alma com o senhor inegável.)
É verdade, é verdade.
* A solidariedade do congênere superior dá uma sustentação indispensável ao inferior
(Dr. Edwaldo: Essa união como é que dá? É só esse processo que o senhor disse ou mais alguma coisa?)
Eu acho que a graça conserva isto na nossa memória e que, de nossa vontade, isto nunca se apaga inteiramente. A tal ponto que eu tenho a impressão — pode ser que eu me engane, eu hipertrofie na minha imaginação o meu próprio papel — que se você toma uma campanha qualquer, por exemplo do “Sou Católico”… Olha que o resultado do “Sou Católico” está brilhante, vinte mil exemplares já vendidos, é uma coisa brilhante, brilhante! Ainda mais no clima em que nós estamos. Podia estar a campanha estar bem como fosse: se eles soubessem simplesmente que eu fui internado num hospital e vou passar vinte dias sem comunicação com ninguém e sem poder responder consultas, eu temo que a campanha murchasse. Mas murchasse ao pé-da-letra, porque eles ficariam sem sustentação.
(Dr. Edwaldo: Ainda que eles não soubessem.)
É, talvez provavelmente isto, ainda que não soubessem.
É provável que começasse a dar neles insegurança que eles não saberiam explicar como é, acompanhada naturalmente de baixa e fiascos. Daí então: “Não vamos para a rua, vamos consultar Dr. Plinio”. Vem uma tentativa de consulta, não sai resposta… ou sai resposta que Dr. Plinio não teve tempo de atender, mas que x, y e z se reuniram e mandam aconselhar…
(Dr. Edwaldo: Aí ainda é pior.)
Talvez pior.
Agora, o que é que é? É essa ação que nós procuramos definir no MNF com a idéia de uma solidariedade de tudo quanto é congênere, a tal ponto que se sobrasse de uma espécie animal só dois entes na vida, um num continente, outro noutro, quando um morresse, o outro morria.
* O discernimento sobrenatural da representação legítima dá uma confiança indispensável para a eficácia da ação
(Dr. Edwaldo: Mas na pessoa fazendo campanha, ela de algum modo representa o senhor ali, não é só essa relação das duas cabras que é o exemplo que foi dado.)
Você tem razão, você tem razão, há a mais isso também.
Quer dizer, você pode perguntar qual é a natureza dessa representação. E creio que mesmo naquele desfile se não houvesse uma sensação, uma percepção sobrenatural, um discernimento — vamos usar bem a palavra — desta representação, eu creio que o desfile também fracassava. Ainda que eu estivesse presente.
De que natureza é essa representação?
É muito difícil de dizer.
(…)
… o Bem-Aventurado Urbano II convocou as cruzadas, lá vão os cruzados pelo caminho para tomar Jerusalém, está perfeito. De repente alguém convence os cruzados ou prova aos cruzados de que aquele homem que falou em Clermont não era Urbano II, era um chantagista, e que de fato Urbano II morreu, a sede está vacante e eles não estão executando nenhum mandato dado por Urbano II. A cruzada… o pessoal não chega aos pés de Jerusalém, volta para trás, não houve cruzada. Embarcam todos e vão com o mesmo furor matar o chantagista, que é por onde a coisa acabava andando. Matar o chantagista que de tal maneira abusou da confiança deles.
É a idéia de que eles representavam o Papa, representavam a Igreja e tinham essa união sobrenatural com o Papa, que fazia com que as estocadas que eles dessem eram de algum modo estocadas do Papa.
(Dr. Edwaldo: De algum modo eles eram o Papa.)
De algum modo eles eram o Papa. Eu acho que é uma coisa evidente.
(Dr. Edwaldo: Fica claríssimo aí aquela frase que às vezes o senhor cita “ferirei o pastor e as ovelhas”, que é uma conseqüência: se o pastor for ferido, a dispersão das ovelhas.)
É, não há meio, aquilo se esvai, não segura, as ovelhas vão embora.
* A Revolução quebrou tanto o desejo de transesfera, graça metafísica e inocência, o que resultou num ateísmo prático que julga tudo isto um trambolho e só se interessa pelo concreto
(Sr. Poli: […] Parece que seria uma ação especial de Da. Lucilia no introduzir as pessoas num relacionamento com o senhor, por onde isto, esta conversa nos encharcasse, não apenas batesse e rolasse.)
O que vou dizer é um pouco duro, mas consiste no seguinte:
Essa retidão da inocência, por onde a pessoa compreende que o significado mais alto das coisas está naquela forma de semelhança de Deus, que nós simbolizamos com a palavra transesfera, está na Revelação, está na graça, está de algum modo na metafísica, esta impostação da inocência a Revolução quebrou, não só desviando disso completamente ou quase completamente as cogitações dos homens, mas levando o homem a apetecer de tal maneira o que fica abaixo dessa esfera, que o indivíduo cria a sensação de que ele tendo isto, ele está atendido completamente nas suas exigências, e que as cogitações de transesfera, de sobrenatural, de metafísico, portanto também de maravilhoso, não têm valor nenhum, apenas são trambolhos para a vida.
Isto forma de tal maneira uma mentalidade resultante do gozo da coisa concreta e, é muito duro dizer, é uma mentalidade de tal maneira lógica com o ateísmo, que redunda numa posição do espírito, por muitos aspectos, atéia, que faz com que todas estas coisas a pessoa entenda intelectivamente e tome diante disto a posição que um indiferente à música toma diante de um concerto bem executado.
Quer dizer, há muita gente que não tem senso musical desenvolvido. Se levam para um teatro, executam um concerto, a pessoa reconhece que a música é bonita, que foi bem executada. A pessoa diz: “Assisti um bom concerto”, mas não lhe diz nada. Ela entra, mantém-se durante o concerto como ela entrou e quando saiu era a mesma coisa que quando entrou, não mudou nada. É como a água que não molha.
Eu acho que essa é a nossa atitude quando se fala de transesfera, de sobrenatural, de maravilhoso, dos grandes problemas de Opinião Pública, de todas essas coisas. Não nos dizem respeito porque nós temos a nossa atenção voltada ou para partes muito pequenas disto, ou exclusivamente para o concreto.
Nossa atenção, nossas apetências, nossos gostos são todos voltados para o concreto, para mais nada. Então é muito explicável que isto para nós seja um flatus vocis.
* A resistência à capa resultou do cepticismo indiferente ao símbolo, à Opinião Pública, e do regozijo com a banalidade concreta
Vamos dizer, portanto, a capa. Por que é que nós tivemos tanta dificuldade em aceitar o uso da capa? Dificuldade que se exprimiu numa indiferença céptica, não numa oposição, mas tivemos dificuldades.
Porque não queríamos reconhecer que era normal o indivíduo romper na vida quotidiana com uma capa dessas, não queríamos reconhecer que os símbolos têm este efeito, e não queríamos causar este efeito em ninguém, porque não queríamos sair nem tirar os outros do circuito da banalidade concreta, na qual nos regozijamos. E isto continua a existir.
Por exemplo, eu reputo uma verdadeira graça para a pessoa, lhe dizer respeito a Opinião Pública. Mas acho que a grande maioria das nossas pessoas têm insensibilidade para lhe dizer respeito a opinião de outros, alguns. E não só por vaidade, é por zelo. Mas compreender esta majestade da Opinião Pública, os desvarios da Opinião Pública, ver a glória de Deus reluzir nessa Opinião Pública, como eu procurei explicar quando falei do paraíso, não há. Porque transcender a bitola individual, o âmbito individual, a pessoa não se interessa.
* É uma tentação típica dos bons essa insensibilidade, como os Apóstolos com a Ressurreição
(Dr. Edwaldo: Olhar do mirante profético.)
Nada!
Muito curioso é o seguinte: que isto afeta mais os bons do que os maus. É um verdadeiro mistério, mas é uma tentação específica que a Providência permite e que o demônio tenta para quem é bom para que o bom não leve o seu bom até o último, mas mantenha no caminho. Porque o mal percebe qual é a capa, sente-se contundido, vibra com os assuntos de Opinião Pública, etc. É própria a nós bons a insensibilidade.
A tal ponto que vocês não encontram nas fileiras do mal o símile da “heresia branca”. O “nhonhô” não é o “heresia branca” do demônio. Não há!
(Dr. Edwaldo: Nosso Senhor morreu e os Apóstolos voltaram para as redes para pescar e os judeus foram pagar os guardas para guardar o sepulcro.)
É isso, tal qual. Os Apóstolos tomavam em relação à Ressurreição uma atitude de ceticismo completo — lembra-se de São Tomé: “Não vai haver Ressurreição. E se houver não vai mover este povo. Tudo está encerrado!”.
Eles tinham pânico da Ressurreição, entendiam a Opinião Pública como era, etc. Está muito bem lembrado.
Não sei se está claro isso.
Meus caros, eu dormi ontem às 4:30 da manhã, estou muito interessado na conversa, vou conversar mais um pouco, mas daqui a pouquinho eu interrompo porque…
* A Sra. Da. Lucilia, toda posta na transesfera, ajudou a conservar a graça do batismo
(Sr. Poli: O senhor ia complementar com o relacionamento do senhor com Da. Lucilia e eventualmente essa via ser um caminho para nós também.)
É nesse lado. Pelo feitio de alma que ela tinha, ela era inteiramente voltada para o que nós chamamos transesférico, para o sobrenatural, à maneira do espírito de uma senhora, e também para o metafísico. E ela me ajudou muito, portanto, não por conselhos, mas por ação de presença, por modos de ser, modo de querer bem, ela me ajudou muito a conservar nesse ponto as graças do batismo. Isto foi o que se deu.
(…)
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