Conversa de Sábado à Noite (Êremo do Amparo de Nossa Senhora) – 27/6/1981 – Sábado [ACIV – 81/06.30] (HVicente) – p. 6 de 6

Conversa de Sábado à Noite (Êremo do Amparo de Nossa Senhora) — 27/6/1981 — Sábado [ACIV — 81/06.30] (HVicente)

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Quem é que me faz a pergunta?

(Sr.–: O senhor disse ontem que sempre quando diz alguma coisa, considera sempre o que um fariseu poderia dizer deturpando aquilo que o senhor afirma. Quando é que o senhor começou considerar assim as coisas?)

A partir de lá da reunião do livro da Ação Católica, eu comecei a ser objeto da metralhagem da opinião pública, em série. Mas, essas rajadas de metralhadoras percorriam faixas diferentes da opinião pública e, portanto, invocando os princípios próprios a essa faixa. Então, vamos dizer, dentro do meio católico, o objetivo era desacreditar, enquanto líder católico: “Não sou capaz de representá-los bem porque estou em desunião com a Hierarquia.”

Ora, a Hierarquia é que exprime o verdadeiro pensamento da Igreja. Logo, a atitude não é certa. Naturalmente vinha minha réplica: A Hierarquia faz isso, faz aquilo, não está direito. Eu publico e afirmo.

Aqui começa o fariseu.

Porque o fariseu não podia ficar quieto. Então tinha que começar uma série de calúnias metódicas, mas que eram assim interpretações daquilo que eu fazia.

Por exemplo, ...a heresia branca no nosso convívio interno. Quer dizer, com o heresia branca eu procurava liderar de longe, converter, mas nunca introduzir dentro da casa antes de se converter, porque do contrário no que ia dar?

Por coincidência, com o Grupo da Pará, o antigo grupo que era a única coisa que tínhamos naquele tempo, por coincidência esse grupo era de gente de um nível de famílias muito melhor do que o da heresia branca. Logo, máfia: “Eles só aceitam gente da aristocracia de São Paulo.” Estão vendo que é uma torção, mas a torção destinada a nos colocar mal. Outra coisa, nós costumávamos ir de vez em quando a restaurantes, um lugar ou outro: “Glutões!” Bem, eu levava meus alunos com muita disciplina: “Déspota!”

Bom, mas isso tudo circulava assim, zunzuns. E quanto o zunzum parava, entrava outra coisa. Mas, ficava aquilo assim...

(Sr.–: Eu peguei a máfia ainda de que o senhor fazia o sinal da Cruz com a mão esquerda. Que o senhor só tomava sorvete de limão...)

Só tomava sorvete de limão!? Eu!

Mas, vamos dizer que eu só tomasse sorvete de limão — não gosto de limão —, mas se eu tomasse, que crime há nisso?

(Sr.–: Que o senhor tinha fundado uma ordem religiosa que usava hábito cor-de-rosa.)

Ah! Ah! Ah!

(Sr.–: Em 1956.)

Em 56.

Não sei se percebem que tudo isso é feito para definir um certo perfil moral que a heresia branca recebe mal. Um homem que é autoritário, aristocrático, um homem que só toma sorvete de limão, quer dizer, um homem ácido funda uma ordem religiosa. Não sei bem o que é que o hábito cor-de-rosa faz na ordem religiosa, mas os senhores estão percebendo que isso tudo é para definir o perfil moral que a heresia branca veria mal, que me colocaria mal perante a heresia branca.

Bem, o outro lado da medalha, é que, vamos dizer, nos meios já não de heresia branca, portanto, não nos meios especificamente católico mas nos meios da sociedade. Homem puro. Ora, o homem puro é um homem antipático porque a pureza não é uma atitude para homem, é uma atitude para mulher… naquele tempo se achava, hoje já não se acha isso, é uma atitude de mulher, esse homem assim é um homem de uma religiosidade fanática. Portanto, um homem muito agradável de estar quando a gente está com ele, mas que a gente deve manter numa certa distância, porque se penetra no meio da gente convulsiona o meio da gente. Então, manter distância.

Assim, cada um tinha sua mentalidade própria, eu quase diria sua ortodoxia própria, seu padrão próprio e a máfia procurava nos comprometer em face desse padrão, daquele padrão, daquele outro padrão.

Mas, com outro jogo interessante, a máfia falava muito contra mim naquele tempo e falava pouco do Grupo. E, quando falava de mim e do Grupo, atacava o Grupo coletivamente, mas não atacava as pessoas do Grupo. De maneira que, quanto estavam com as pessoas do Grupo, tratavam com muita amabilidade.

Então, cada um dentro do Grupo era levado a achar que era por uma espécie de inabilidade minha, porque tanto é que, com a mesma pessoa eles tiveram, sabiam que aquela pessoa era contra mim, mas não era por causa de minhas idéias, porque ele também tinha minhas idéias e a pessoa abraçava a ele, tratava bem. Não sei se percebem o jogo.

Eu percebi então, que havia um trabalho organizado, em primeiro lugar. Em segundo lugar, que esse trabalho tinha técnicas específicas. Naturalmente não era difícil perceber qual era o foco do trabalho. Depois as máfias foram se sucedendo uma à outra, até o estado atual. Muitas dessas coisas já nem me lembrava mais. Da batina cor-de-rosa, agora que você está me falando me vem à memória, mas eu tinha me esquecido completamente. Sorvete de limão não há meio de me lembrar.

Eu ouvia o contrário: Tomava sorvete de creme com cerejas — que era um sorvete dispendioso — porque cereja americana ou européias, portanto, caras. Dispendioso, era um gastador que jogava dinheiro pela janela, sorvete de cereja. Quer dizer, esse pessoal… Nem sei… É ridículo comentar, nem tem comentários. Coisa desse gênero.

Daí veio a preocupação com os fariseus e as máfias. Não sei se isso corresponde ao que você me perguntou.

(Sr.–: O senhor não poderia dizer como era a atitude de alma do senhor antes e depois? Como mudou?)

O feitio de alma meu corresponde um pouco aos dados biográficos que eu dei hoje à tarde. Meu feitio de alma era um feitio, não era propriamente feitio de alma, o meu estado de espírito foi mudando de acordo com os acontecimentos que eu tinha diante de mim, mais ou menos como um homem que está dirigindo um navio e cujo estado de espírito muda conforme muda o mar: Se o mar está borrascoso, ele se levanta, vai ao leme ver o que tem que fazer.

Assim era minha posição também. No tempo anterior ao entrar no movimento católico, meu estado de espírito era muito preocupado, embora não aparentando toda essa preocupação porque ficava mal ser-se tão moço quanto eu e ser-se preocupado. Eu percebia que ficava mal. E eu então deixava transparecer a décima parte da preocupação que eu tinha. Mas, de fato eu era muito preocupado.

Compreende-se, por causa da muralha que eu tinha diante de mim. Quando a muralha se abriu, uma surpresa e uma baforada de esperança. E eu era então, me custava muito aclimatação que eu tive que fazer em outros ambientes, mas eu fazia com muita esperança num grande resultado.

Os senhores não calculam o que era a minha adaptação, quer dizer, dificuldade de adaptar no meio da heresia branca! Uma coisa incalculável: Sensaboria, a ininteligência, a falta de tato, a agitação vã, a falta de substância, a placidez estúpida, tudo quanto quiserem de elementos da heresia branca, mas eu abominava! E eu vivia dentro daquilo como peixe dentro d’água, vivia eu dentro da heresia branca. Mas, muito esperançado porque eu percebia que dava para fazer uma grande articulação.

E eu não contava aí com a máfia, nem contava com o fariseu. Foi quando veio a grande trombada… um pouco enquanto deputado, eu percebia umas máfias, mas aquilo se absorveu numas ninharias. Foi na grande trombada do meu tempo da Ação Católica, de presidentes da Ação Católica, é que eu percebi o tamanho da máfia.

Mais ou menos como se alguém arrancasse do chão uma árvore com muitas raízes. Arrancando, a gente vê camadas geológicas, vê pedaços de ervas, vê minhocas, vê bichos que correm lá dentro, etc., etc..

Também eu, arrancado daquele estado de espírito otimista — otimista não era, era esperançoso — eu via um formigar de infâmias, de torpezas, de manobras, etc., onde outrora havia uma árvore pujante, a árvore da esperança.

E aí meu estado de espírito passou a ser diverso, quer dizer, muito sombrio de novo, e muito preocupado, compreende-se, está na lógica das coisas.

Não sei se era o que queriam saber.

(Sr.–: Como a Sra. Da. Lucilia via o bem e o mal, qual a noção que ela tinha?)

Uma coisa longa e difícil de dizer.

É preciso notar o seguinte: A mentalidade dela formou-se no século XIX, numa geração, como já disse, mais antiga ainda do que a dela, e em que a instituição da família era completamente diferente do que se apresenta hoje. Para o senhor ter um pouco idéia da instituição da família, o senhor precisaria folhear um pouco o que diz respeito — modelo superexcelso que está ao nosso alcance, de Santa Terezinha do Menino Jesus, a casa, M. Martim, a Mde. Martim, aquele ambiente toda da casa, aquilo tudo, dá um pouco a idéia do que poderia ser a versão Pirassununga disso, a versão paulopolitana disso, o que é que poderia ser.

O pai era, em geral, homem sério, de sobrecasaca, cartola, andando de bengala, em geral com esse castão aqui de ouro, brilhantes, outras pedras, e com a bengala posta assim…

(Nossaaaa!!!!)

Um ou outro mais velho ainda usava caixa de rapé. Os mais recentes não usavam caixa de rapé, mas fumavam uma coisa que eu acho que os senhores não sabem o que é: fugo goiano. Já viram isso? Um fumo de corda assim, em torno de um pau, não sei porque colocam aquilo em torno de um pau. E é um fumo preto, mas parece húmus da terra, meio preto dado à verde, e meio úmido. Se corta aquilo e coloca-se dentro de folhas pequenas e quadradas, feitas de pé de milho, mas secas. E então corta, enrola dentro da folha e toca fogo.

A pontinha do cigarro só tem pé de milho, então pega fogo, queima assim, e depois começa a fumar. É um fumo fortíssimo, coisa horrorosa, mas gostavam muito. E, nossos patriarcas aqui gostavam muito disso.

E a mentalidade dela, formando-se nisso, formou-se como… por exemplo, as donas de casa, receber um outro homem, mas era coisa como que nunca. E era um escândalo à maneira de um terremoto, uma coisa assim. Para dizer que uma senhora tinha um fassur, não se dizia assim: “Ela tem um fassur.” Diria: “Coitada — “coitada” porque é uma coisa tão horrível que ia ser dita que vale a pena até tapar os ouvidos antes — coitada, ela, às vezes, segundo se diz, é meio leviana.” Quer dizer, tem um fassur, fassurou uma vez com um homem que não era marido dela. Isso já era um escândalo.

E a família era assim uma espécie de relicário, serenidade, de dignidade, de mil coisas que é difícil ter uma idéia hoje. Mas, para a criança formada nesse tempo se apresentam, pelo seu lado razoável, porque tudo isso é inteiramente razoável, se apresenta como o próprio bom senso, como a própria evidência. O bem é aquilo — ambiente da casa. O mal é o que está nos bairros de perdição, nos antros da decomposição geral, ali estará o mal. Então são homens que são bêbados, mulheres que levam surras, ruas nas quais há crime, roletas nas quais as famílias perdem os patrimônios, tudo desse gênero. Uma espécie de Geena na terra. Isto fica longe. É o mal.

Na linha do mal ficavam também as opiniões políticas. Determinado partido era dos sérios, conservadores, queria as coisas como são. Outros eram meio cúmplices do mal, queria que o mal progredisse em relação ao bem. Donde tal enquanto tal.

Para ela, portanto, tudo isto era a coisa mais evidente que há. E ela comunicava as idéias de bem e de mal pela evidência com que ela tratava e pela naturalidade que se punha dentro dela. Era da primeira evidência. E a educação já era assim. Ela não raciocinava muito para provar que aquilo era bom ou mal. É! Está acabado.

Eu dou um exemplo e com isso vamos nos aproximando de nosso termo. É o seguinte: A respeito da questão do bem e do mal:

Nunca ninguém teve que demonstrar para os senhores, antes de pertencerem ao Grupo que a caridade é uma coisa boa. Dar esmola para um pobre, se entende, é a própria evidência. Um homem que negar que a caridade é boa, é um brutamontes, um tardo, duro e baixo de sentimentos, um homem rejeitável, reprovável, um homem que nega a bondade intrínseca desse ato.

Isto que vale para a esmola, que é uma virtude cristã, valia para todas as outras virtudes cristãs de alto a baixo. No tempo que minha mãe era menina, até para os homens…Os homens que tinham fassura, escondiam das respectivas famílias, de maneira que cada família imaginava que o respectivo chefe era de uma fidelidade ilibada à esposa. E há casos de esposas que descobriram uma fassurada do marido e tiveram ataques, desmaiaram, coisas desse gênero.

Para terminar, conto um caso que mamãe contava. Havia uma senhora aqui em São Paulo, riquíssima. Era uma senhora que foi tão, tão conhecida em São Paulo que se eu desse o nome, facilmente os senhores pegavam a pista dela.

Bem, essa senhora morava numa casa muito grande. Aliás, é preciso dizer, no meu juízo pessoal, monumentalmente feia, que tomava uma quadra inteira. A casa dela era no centro, uma vila, portanto, muito espaçosa. E o marido dela era um fassur, um trocista de marca.

Essa senhora era uma senhora mais ou menos da geração de minha avó. Essa senhora… o marido pintava o caneco. Ela soube, mas ela agüentou com muita dignidade, com muita serenidade, com muita tristeza, passou a tratar o marido com muita frieza. E o marido envergonhado, mal ousava se dirigir a ela.

Na presença dos filhos, eles conversavam. Fora da presença dos filhos, não falavam com ninguém e ela contava isso para uma ou outra amiga íntima que ela não falava com o marido porque ela sabia que o marido tinha uma fassura, deixou e depois pegou outra fassura. Era uma coisa que não era suportável, não era calculável.

Bom, passam-se anos, esse casal tinha filhas e filhos. Uns e outros se casaram. Uma filha pe uma senhora que, na geração de minha mãe se tornou célebre pela beleza, era uma [senhora] muito bonita mesmo, muito fina, muito rica, prolololololó.

Bom, casou-se com um homem na mesma condição. E o homem foi morar na casa dos pais dela que era ultra-espaçosa, foi morar com ela. E um dia, ela recebeu uma carta anônima de que o marido dela quando acabava o almoço, saía e ia para uma casa pouco distante onde tinha uma fassura.

Então almoçaram, comum. E um dia o marido saiu e ela foi correndo para uma janela da casa dela de onde se podia perceber o itinerário do marido. E, assim, atrás da cortina ficou olhando, e viu o marido sair e entrar na casa da fassura. Então ela se pôs a chorar. E o pai dela passava e perguntou: “Minha filha, porque você está chorando?”

Ela disse: “Papai, olha lá que desgraça… etc., etc..”

O pai abraçou-a, agradou, etc., “é preciso conformidade…” Ele não tinha muita coisa para dizer. “É preciso conformidade, etc., etc.” Então a senhora — mãe da que chorava — passa por lá e pergunta: “O que é isso?” A filha diz: “Olha, aconteceu assim, olha essa carta, etc.” Com o pai ali. A mãe diz: “Minha filha, é pena que você tenha que sofrer agora o que eu sofri a vida inteira.”

Bem, agora vejam a posição do marido. O marido moderno, esbravejava… primeiro as mulheres modernas não tem essas ilusões, nem de longe, nem passa pela cabeça ter essa ilusão. Segundo, se tiver a desilusão, vai procurar outro fassur, não vai criar esse caso. Desde que o marido dê dinheiro, não sai encrenca.

Bem, se ela fizer encrenca, ela faz esbravejando, não faz chorando. E o pai diz para ela: “Deixe de ser tola. Seu marido faz o que todos os outros maridos fazem.”

Tudo se passa diferente. Este marido abaixou a cabeça quando a esposa dele, mãe da tal, ele abaixou a cabeça, ficou quieto e não disse nada.

Depois disso é só tocar na música… o encerramento.

Mas, é para verem com no ambiente de família a impureza do homem era tida como uma coisa reprovável, pelo menos para o homem casado. Uma coisa ultra-reprovável e inaceitável. E como havia, portanto, um repúdio geral das coisas.

Assim, ela tomava o bem e o mal. Coisas evidentes. Tudo era como os senhores tomam a caridade, tomavam a caridade antes de entrar no Grupo. Assim também não tem propriamente demonstração porque é evidente que às 2:35 da manhã a gente tem que ir dormir.

Vamos rezar três Ave-Marias e executemos esse bom desígnio.

[Três Ave-Marias.]

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Êremo do Amparo de Nossa Senhora