Conversa
de Sábado à Noite ─ 30/5/81 – p.
Conversa de Sábado à Noite ─ 30/5/81
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O Sr. Dr. Plinio gostava de analisar as pessoas pensativas dentro dos bondes; nas cabeças mais tontas, às vezes ele via aparecer uma idéia de conjunto * A alma inocente é como uma ogiva: séria, sólida, pensativa, levando tudo para cima * As torres tragicamente incompletas de Notre Dame nos convidam para o sonho; a Sainte Chapelle é como uma bonbonnière, feita para ter almas dentro de si, e não bombons * Os primeiros contatos do Sr. Dr. Plinio com o prédio do São Bento, e as graças que sobre ele pairavam * Considerando a obra de São Bento, o desejo de acrescentar a ela o timbre da polêmica: “Ora, pugna et labora”; os “flashes” do Sr. Dr. Plinio com o São Bento II * A ogiva constituída por São Bento e Santo Inácio, tem muito mais do que um florão, tem um gládio; esse gládio é a família eliáticat
Então, quem é o pergunteiro? Estou vendo o Andreas Meran tão lá no fundo, é você o pergunteiro meu Andreas? Quem é que tem pergunta, hein! Meu bom Fernando Antúnez?
Hoje aliás, é noite do Êremo de Elias e conexos. Eu estava me esquecendo. É tal o hábito de entrar aqui e perguntar pela pergunta que a gente faz meio mecanicamente, mas, realmente os pergunteiros da noite são esses e, mais especialmente meu caro Guerreiro Dantas que é borbulhante de perguntas. Diga lá, meu Guerreiro!
(Sr. Guerreiro Dantas: Seria bom que nossos amigos aqui do São Bento…)
Não, não. A reunião é para os senhores. Eles são os assistentes.
(Sr. Guerreiro Dantas: Então faço uma pergunta: tudo aqui no São Bento nos remete para um universo de coisas, de temas e disposições interiores de alma que não tenho verbo para exprimir. Nas conferências da Sacralidade o senhor comentava que uma das razões pelas quais a Idade Média decaiu, foi porque os medievais não tiveram bem presente para si o magnífico daquilo que eles tinham realizado. O senhor poderia comentar que forma de contentamento o senhor sente quando aqui entra, quando aqui reza, etc…)
Está muito bem. Com muito gosto.
* O Sr. Dr. Plinio gostava de analisar as pessoas pensativas dentro dos bondes; nas cabeças mais tontas, às vezes ele via aparecer uma idéia de conjunto
É preciso considerar o seguinte: pela doutrina boa, vistas as coisas como elas devem ser, eu acho que tudo quanto o homem tem realizado na Terra, se insere, em seqüência, etc., procede originalmente daquilo que, em linguagem comum se chama, um certo estado de espírito.
Há um estado de espírito inicial. Daqui há pouco vamos ver o que é este estado de espírito, a partir do qual vertem, a partir do qual nascem uma série de critérios para ver as coisas, para analisar as coisas, para rejeitar umas, para aceitar outras, para depois batalhar contra umas coisas, a favor de outras, para construir algumas coisas e demolir outras, um critério que é fundamental no homem e que parte desse primeiro estado de espírito.
O que chamo aqui o estado de espírito?
É a inocência vista na posição que ela toma quando ela contempla as mais altas verdades que ela é chamada a contemplar. Mas, é um estado de alma tranqüilo, sereno, do qual, depois, vão partir estados de alma os mais diferentes, mas aquilo é uma espécie de matriz fundamental, central, da qual todo o resto parte.
Desse estado de espírito, procede depois a história de um homem, a história de uma instituição, a história de uma nação. A História do mundo pode proceder sucessivamente disso. Mas, há esse estado de espírito originário. Que o homem toma quando?
Sem ele se der bem conta, é quando o seu olhar cai simultaneamente sobre as seguintes coisas, vistas em harmonia: (…) … quando cai, veremos daqui há pouco. Vamos pegar o assunto e aprofundar o quanto eu consiga, e descrever em profundidade o quanto eu consiga.
Um homem, vamos dizer, que está andando, fazendo, mexendo, etc., etc., tem certos momentos em que ele não se dá conta, mas ele deita um olhar de conjunto sobre as coisas. Eu tenho pouca oportunidade de ver isso hoje, porque os metrôs são fechados e eu nunca fui a uma estação de metrô. De outro lado, os bondes não existem mais e os ônibus têm janelas proporcionalmente pequenas, de maneira que só se vê a cara dos indivíduos. E então, aquela carinha atrás de um vidro, num veículo que passa depressa e um vidro que reflete ao sol de maneiras diferentes ou, a luz dos réverbères de maneiras diferentes, não dá para a gente ver grande coisa.
Mas se via muito no tempo de uns bondes abertos que alguns dos senhores devem ter alcançado ainda aqui em São Paulo. Não sei se chegaram a alcançar. Mas, eram completamente abertos. Os bancos eram de cinco assim, havia muito menos trânsito e os bondes andavam devagar. De maneira que o indivíduo tinha uma espera dentro do bonde enorme. E eu gostava. Era um dos momentos que eu mais gostava. Era ver as pessoas passarem de bonde.
Havia em frente a minha casa, na rua Barão de Limeira, depois na alameda Glete, ─ minha casa era na esquina das duas ruas ─ havia uma linha regularmente movimentada de bonde, na [alameda] Glete menos, mas na Barão de Limeira, regularmente movimentada - e a [minha] casa era ponto de parada. Em quase toda esquina o bonde parava. Era ponto de parada. E um ponto de parada importante, porque tinha um pouco de movimento ali, etc., etc… Para São Paulo daquele tempo era um ponto de parada importante. E, algumas salas de minha casa eram construções antigas, davam diretamente para a rua.
De maneira que quando eu conseguia, tinha tempo e conseguia fazer isso sozinho, ─ porque isso não se pode fazer conversando, a gente tem que fazer sozinho ─ eu ficava olhando os bondes passarem, pararem, seguirem de novo. Vendo, naquele vagar, vamos dizer que a maior parte dos bancos tinham duas pessoas, três pessoas, muito largadas e o bonde ia “tãtãtã, tãtãtã”, as pessoas vinham, não tinham o que fazer e, em pouco tempo deixavam de olhar para as margens da rua, porque aquela sucessão de coisas eram mais ou menos iguais, “zuppam” aquilo e ficam pensando num ponto “x”. Aí são as horas em que vêm as idéias as mais variadas à cabeça e as vezes uma idéia de conjunto.
Na cabeça mais tonta, às vezes aparece uma idéia de conjunto.
* A alma inocente é como uma ogiva: séria, sólida, pensativa, levando tudo para cima
Quando o espírito é reto, é inocente, a idéia de conjunto vem mais ou menos umas revertendo nas outras, porque são mais ou menos umas revertendo nas outras.
A pessoa se volta para si mesma e deixa falar aquela apetência que ela tem de um certo unum, de um certo estado de espírito. E, deixando falar isso, examina, se lembra desta ou daquela coisa, mas lembra por associação de imagens, sem fixar o espírito, lembra-se disso, daquilo, daquilo outro que era parecido. Depois lembra-se também de que era muito contrário, faz um certo contraste, mas aos pedacinhos, não é nada assim raciocinado em tipo assim de soldadinhos andando. Não.
Os senhores devem imaginar cardumes de peixes [nadando] no mar assim. As ondas vão, as ondas vem, os peixes atravessam, eles mesmos [nadando] assim, etc., aqui flutua nessas horas o pensamento humano, mesmo quando é reto.
E, em certo momento em que ele encontrou, que ele mediu bem, ele sentiu bem esse ponto dele em várias coisas, o ponto se torna mais nítido. Mas antes de se tornar mais nítido, inteiramente nítido, fica assim uma idéia de conjunto dessas coisas como são contrárias, como são a favor, etc., e ele mais ou menos pensa o seguinte: “Essa vida hein! Essa vida hein!” Há momentos em que ele pára e diz isso. De um jeito ou de outro diz isso.
É uma hora em que forma o conjunto de afinidades e de repulsas de um determinado ponto.
Depois, vem a análise do conjunto com o que está de fora do conjunto. Se a pessoa fixa mais a atenção: “Ah! Mais tal coisa, tal coisa, tal coisa”. E aí começa pensar em Deus.
Não é sempre, claramente em Deus. Tanto mais que não se ensina às pessoas que quando vem isso ao espírito é a própria idéia de Deus que está mais próxima, que se trata de pegar. Não se ensina. De maneira que fica aquilo assim. Mas, de fato é a idéia de Deus.
Então, se se tomasse [se fosse tomado] um homem neste estado de espírito e se dissesse a ele: “Olha, o Céu é assim”. Ele teria uma vontade de ir para o Céu, muito maior do que para esse Céu que se costuma pintar em certos quadrinhos e que atrai pouco. Porque ele, naquele Céu, sente a morada de todo mundo, mas não sente a sua própria morada. E ele quando pensa assim, sente a sua morada ali. Ora, o Céu é ambas as coisas, é a morada de todo mundo, ─ Deo gratias, Maria gratias ─ mas também é a morada individualíssima de cada um. E é preciso sentir ambas as coisas.
Agora, imaginem um estado de espírito que fosse feito assim: um gosto por uma certa forma de seriedade que abrange esses vários aspectos da vida e que se compraz em notar a grandeza desses vários aspectos da vida, ao mesmo tempo que nota a grandeza, nota a majestade, a distinção dos vários aspectos da vida, mostra a lógica interna que eles têm e como ela se toma a sério a si própria e se respeita a si própria, e nota como todas as coisas boas podem ser vistas enquanto tendo algo disso. E todas as pessoas boas também, podem e devem ser vistas enquanto tendo algo disso.
Dir-se-ia que é uma alma em ogiva, séria, sólida, pensativa, levando tudo para cima, calma, mas pesando tudo, analisando tudo e inflexível, disposta tanto a se recolher dizendo: “Quanta coisa existe de bom nisso tudo. O que é que é bom? O que é o bem?” E subir. Estando disposta a redargüir os que afirmam o contrário, ou mesmo usar de qualquer meio legítimo de luta para fazer triunfar a verdade contra o erro.
Mas, sem agitação, sem trepidação, sem excitação, com a naturalidade com que cada um de nós tomaria essa bengala, passaria de uma mão para outra, colocaria assim, faria assim, tranqüilamente, tranqüilamente.
* As torres tragicamente incompletas de Notre Dame nos convidam para o sonho; a Sainte Chapelle é como uma bonbonnière, feita para ter almas dentro de si, e não bombons
Dão essa impressão, sobretudo, certas catedrais medievais.
Outro dia ainda comentei com o doutor Átila um desenhozinho numa revista, qualquer coisa que me mandaram, tinha um desenhozinho à pena, feito pelo famoso [Le Duc?], da catedral de Notre Dame, vista um pouco de frente, de lado assim, e imaginada de cima para baixo. Era uma grande reflexão desse jeito. E eu gostava de ver [em] Notre Dame, aquela seriedade, daquela igreja que é toda feita, [como ela se descreve assim?]: ela é toda feita de seriedade, gravidade, estabilidade, pensamento, grandes considerações das linhas gerais, mil pormenores e detalhes harmônicos, panorama, mas as torres vão para o céu.
Tão magnificamente para o céu, que nenhum artista se atreveu completar aquelas torres. Porque só quem planejou tem alma para completar. E as torres estão ali, ao mesmo tempo tragicamente incompletas, mas fazendo cada um imaginar no subconsciente uma torre ideal, segundo o seu próprio feitio. Dir-se-ia que aquelas torres terminam num pontilhado, de acordo com o espírito de cada um. De maneira que se nos dissessem: “Olha, sabe de uma novidade!? Completaram as torres de Notre Dame!” A gente tomaria um susto: “Será que completaram errado!?” Errado com o quê? Com um certo pontilhado que, subconscientemente, cada um faz olhando aqueles dois magníficos fragmentos de torre, que convidam a voar a partir de lá. São torres que convidam para o sonho.
A partir daquele ponto se sonha.
Esse estado de espírito que eu acabei de descrever, tão fundamentalmente católico, eu não o encontro refletido ou, encontro refletido apenas em parte na basílica de São Pedro. Bem, e em quantos outros edifícios civis e religiosos. Eu elogio tanto o castelo de Saumur. Os senhores já devem ter visto as iluminuras do castelo de Saumur, é magnífico, mas esta grande seriedade ele não tem.
Ele termina, não num bimbalhar de sinos, mas num bimbalhar de cores, de flechas… magnífico, eu gosto imensamente! Mas, ele termina meio festivo. E este estado de espírito que eu descrevo, não é inimigo da festa, mas ele olha a festa de cima.
Quando para o comum dos homens a festa é o epílogo das coisas, para este estado de espírito, a festa é apenas um dos aspectos das coisas. Há muito mais do que isso. Há a grande estabilidade contemplativa, satisfeita, disposta a qualquer luta. E eu vejo maximamente expressa em Notre Dame.
Os senhores dirão: “Mas e a Sainte Chapelle?”
São vitrais lindos, são encantadores, é uma bonbonnière feita para ter almas dentro e não bombons, é o que pode haver de magnífico. Mas, esse estado de espírito solene e único, esse estado de espírito, eu não vejo que a Sainte Chapelle tenha. Ela é admirável… eu já disse aos senhores que quando eu entrei na Sainte Chapelle, foi a única vez em minha vida que eu me lembro de ter tido uma surpresa tão agradável, que eu disse de mim para mim mesmo: “Ah! Eu não imaginava tanta beleza!”
Pois bem, esse estado de espírito… é uma das refrações de Notre Dame.
Eu não sei dizer aos senhores o que eu sentia dando a volta em Notre Dame… é certo que me vinham aquelas palavras da Escritura ao espírito: “Cidade de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro”. A igreja de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro.
* Os primeiros contatos do Sr. Dr. Plinio com o prédio do São Bento, e as graças que sobre ele pairavam
Eu tenho certas razões para afirmar que esse estado de espírito foi o ponto de partida da Idade Média. Que a Idade Média foi ela mesma na medida em que ela cavalgou, rezou ou lutou, ou construiu com rumo a isso. E que tudo o que sentimos de medieval, de belo, ou se reduz àquele estado de espírito ou vamos ver, está em discrepância com a coisa da Idade Média.
Então, os senhores podem tomar a cavalaria, podem tomar a armadura do cavaleiro, a coroa de um rei, o pulchrum de uma aldeia, a estabilidade de uma corporação, a majestade [inaudível] de um castelo, podem tomar o que quiserem, é um dos estados de espírito secundário, derivado deste grande estado de espírito central.
E, tenho minhas razões para supor que este estado de espírito viveu e se expandiu a partir de Cluny. Mas, mais remotamente do que a partir de Cluny, a partir da pessoa de São Bento.
Eu peguei nesgas deste estado de espírito no velho São Bento de São Paulo. E eu creio que contei aos senhores, uma vez estando lá com o senhor Carlos Antunez e o senhor Marcelo Pereira de Almeida numa tarde, tivemos uma impressão singular de que a igreja de São Bento revivia inteira. A impressão que eu tinha era essa: de estar havendo esse estado de espírito.
Quando aqui, no atual Jardim São Bento, cujos nomes todos ou quase todos são ligados à história beneditina no mundo ou no Brasil: rua Dom Domingos de Silos, era o velho abade o Dom Domingos, que eu conheci bem e que era um homem respeitável. Enfim, “n” coisas da antiga chácara daqui. Eu estive várias vezes nessa chácara. Por cima da vegetação, entretanto tropical, pairava esse estado de espírito.
Eu estive nesse prédio no tempo que era observatório [astronômico]. Estive sem prestar atenção, olhei no prédio por alto e pensei com meus botões: “Aqui está mais uma construção feita com material moderno e que, provavelmente, polui este ambiente sacral e antigo que tem aqui.
Passaram-se os tempos, creio que falei aos senhores de um certo lago que havia aqui, com uma vegetação verde miúda, de uma água estagnada e pensativa, com mil e mil folhinhas que vinham não sei de que raízes do chão e que faziam com que o lago parecesse de esmeralda. E creio que falei para os senhores do olhar azul de dois beneditinos alemães que moravam aqui e que eram irmãos leigos, muito direitos, muito sérios, muito pensativos. Me lembro de, uma vez, eu falando com um deles, eu acho que eles nunca falavam, eram carpinteiros, eu disse qualquer coisa para ele, ele parou de trabalhar, me olhou assim como olhasse um ser vindo não sei de onde: “Ãh!” E deu uma resposta em duas ou três palavras amáveis, mas de fim de conversa e continuou no trabalho dele.
Eu pensei: “Eu passei dentro de um olhar, nunca isso me sairá do espírito”. Ponto final.
Bem, deixei essas coisas, não pensei mais nisso. Aqui tinha havido um retiro de Congregados Marianos e eu tinha vindo visitar aquele a quem eu, naquele tempo tratava de príncipe, [era] D. Pedro Gastão de Orléans e Bragança, que hoje trato de Pedro Gastão, que tinha vindo fazer o retiro aqui. Fez absurdos. Tomou banho de chuva nu, nesse terraço aqui. Ele me contou. Não havia água e estava chovendo, ele foi para a chuva, estava ensaboado, tirou todo o sabão, uma coisa indigna…
Bem, passou-se tempos, eu entro em luta contra o movimento liturgicista, isso determina meu afastamento de São Bento. Nunca vim mais aqui, isto foi loteado, foi dividido.
Muito tempo depois Dr. Adolpho fala desse lugar aqui. Dr. Martim Afonso começa a se interessar, nós visitamos aqui. Eu nem me lembrava, ─ lembrava muito da chácara ─ mas desse prédio não tinha mais noção. Quando, pela primeira vez eu entro aqui e venho visitar o prédio, acabava de ser residência de uma família que ainda é proprietária disso aqui. Eu entro e sou tomado pela mesma impressão que me davam nesgas do mosteiro, que me davam contacto com um ou com outro beneditino, com coisas beneditinas que tenho conhecido ao longo de minha vida. Vida de São Bento eu li, vida de Santa Escolástica eu li, é aquele mesmo estado de espírito.
O mesmo?
* Considerando a obra de São Bento, o desejo de acrescentar a ela o timbre da polêmica: “Ora, pugna et labora”; os “flashes” do Sr. Dr. Plinio com o São Bento II
Pairando aqui em todos os ângulos, dominando, exprimindo-se como eu nunca tinha visto na minha vida, estava aqui. Olha que eu tinha estado aqui e não tinha notado. Mas, vendo certas coisas beneditinas, o sino [cantabona?] que toca aqui, por exemplo e, outras coisas do gênero, rezando dentro da igreja de São Bento e tendo a sensação da força daquelas paredes, daquilo tudo… várias vezes eu pensava: “Falta aqui o timbre da polêmica, falta a verruma do espírito que aprofunda, certamente para essa serena contemplação, mas com uma adequação especial para uma investigação que increpa… falta ouvir aqui o vozerio da Revolução que ruge e da Contra-Revolução que se afirma”.
Está muito bom. No ângulo da igreja de São Bento, tem uma imagem de São Bento do lado de fora, escrito: Ora et labora. Eu pensava comigo mesmo: Ora et labora, mas se eu pudesse completar a trilogia: Ora, pugna et labora… Eu sei que a palavra labora pode incluir a batalha no latim, etc., eu sei. Mas, como era bom dizer os três!”
Quando eu vi o Êremo I instalar-se aqui e que eu sugeri esse hábito que é por exemplo, como estão vestido o senhor Wellington e o senhor Fernando Teles, etc., eu achei que era o hábito próprio para o São Bento. E quis esses móveis que estão aqui na capela. Eu tinha visto, não me lembro bem se em Curitiba ou Blumenau, numa igreja de franciscanos, tive a idéia: “Como estavam bons para nós, mas não temos dinheiro”. Em certo momento o senhor Martim Afonso vai à Curitiba, sabe desses móveis, compra, eu vejo aparecerem aqui na capela, eu penso: “Era o ponto justo, o mobiliário exato, o que eu queria, está estupendo!”
O hábito, é o hábito para este ambiente.
Mas, o ambiente traduz o ora et labora. Tem a venerabilidade dos pensamentos antigos, mas eu ainda não vejo o borbulhar da TFP sair de dentro disso como de um jato.
Nossa Senhora dispôs as coisas de tal maneira que, do São Bento, nascesse a minha querida Jasna Gora, agora tão intensamente arejada e bafejada pelos sopros que procedem daqui. E encontram-se em ogiva lá.
Depois de um período de desolação eu vejo o São Bento que renasce. E eu tive a impressão: agora sim! Como da água límpida que nasce da pedra imemorial, sai de fato um jorro da TFP. Aqui é a TFP. Dotada desse espírito, de reflexão, disso, daquilo, daquilo outro, mas, ao mesmo tempo jorrando, lotando, borbulhando e vivendo com algo que é o quê? É o velho espírito de São Bento, se quiserem, o espírito da Igreja, mas é no choque contra a Revolução, modelado pela batalha, para a batalha, na luta, na alegria da Bagarre que vem, na prefigura do Reino de Maria que baixará sobre a Terra, enfim, enfim, é uma amostra do meu sonho que se realiza.
Coisas que eu nunca disse a ninguém se realizam aqui, ou meu João vai empurrando para se realizarem, de maneira tal que eu não sei como essas coisas se põem, mas elas são exatamente assim: coisas de nosso ritual, coisas de, por exemplo: o copo d’água, o serviço, ─ sem falar do cerimonial, porque estão comentando que eu só vou falar dos pormenores ─ meu quarto, aqui essa sala… Homem! Tudo o mais, tudo o mais, tudo o mais, corresponde em minúcias àquilo que eu gostaria! Mas eu gostaria como expressão deste espírito originário, de encontro com a Revolução, na hora em que parece esmagado por [ilegível], mas no momento de vencê-la e na alegria de todas as proezas e de todas as ousadias.
Aqui está o São Bento.
Alguém dirá: “Mas, e o Praesto Sum?”
[Risos]
“E Jasna Gora, e a Sede do Reino de Maria que o senhor ornou?”
Eu digo, eu ornei, mas a Sede do Reino de Maria que é tão boa, o Praesto Sum que é tão aprazível, tão agradável, Jasna Gora que é tão digna, tão distinta, tão boa, tudo isso, tudo isto junto, não tem a graça morando que tem em São Bento. Não tem a graça milenar de São Bento e não tem mais do que, além do bimbalhar dos sinos e do belo toque de harmônio, ─ nós desejamos o dia em que venha o órgão ─ além disso, tem algo que me agrada como um complemento indispensável, no qual vai minha alma inteira: as alabardas que se chocam, os cristais aristocráticos que reluzem, os vitrais que eu não sei, têm algo que não sei como exprimir; tudo isso, no seu conjunto, forma o São Bento que eu desejava.
Luxuosa? Não se pode dizer. Sólida, estável, refletida, em que as coisas parecem tomar tamanho quando não têm. Esse corredor de entrada, é apenas um corredor. Quando se realizam cerimônias ali, é uma galeria. Cresce.
A capela. A capela é um quarto. Mas, que tamanho tem essa capela!!! Como ela é!
E daí para fora.
O refeitório, que magnificência o refeitório! Aquele vitral sobre a porta, que estupendo! Isso, aquilo, aquilo outro, não vamos nos perder em outras considerações. De tal maneira a Providência quis ligar isso ao prédio que o São Bento II, tão útil, tão bom, tão excelente, o São Bento II [o prédio mais novo] não tem o que tem isto aqui, este prédio é incomparável. Ele é habitado por uma graça.
[Exclamações]
Não sei se eu descrevi tanto quanto os senhores o sentem, mas é isso.
Bom, o Êremo do Amparo de Nossa Senhora. Terreiro. Velho terreiro. Rampa construída por escravos, em ponta. Depois, dois grandes terreiros do qual um se “encapinzou”, mas o outro ainda está visível e no qual nós vemos as velhas lajotas de antigamente, depois podemos imaginar os montes de café, os escravos que levavam café, os imigrantes que levavam café, tudo o mais.
(…)
O pitoresco de tudo aquilo. De repente, cerimônia. Os eremitas vêm cantando da capela e desfilam no terreiro, todo iluminado com tochas, entra a Sagrada Imagem, a gente tem a impressão que os anjos reconstituem em torno daquilo este prédio, e é o mesmo ambiente que fica pairando lá.
[Exclamações]
Provém dessa graça originária, desse estado de espírito originário de que eu falava há pouco no começo. Meu caro Guerreiro, aqui está a resposta que eu sei dar à sua pergunta. Talvez haja coisas que eu não saiba dizer. De nosso modo, o assunto aqui está.
* O hábito além de ter aspectos de São Bento e de Santo Inácio, leva em si o espírito de Santo Elias; o especial entusiasmo do Sr. Dr. Plinio pelo fogo de Santo Elias
(Sr. Andreas Meran: O senhor dizia que o hábito estava composto pelo espírito de São Bento e pelo espírito de Santo Inácio e dividido por um escapulário que era o escapulário de Santo Elias. Agora, o senhor descreveu São Bento e Santo Ignácio, a luta. Mas, o senhor não descreveu o escapulário de Santo Elias.)
São Bento representa ali, algo do espírito de Elias contemplando, meditando sozinho no deserto. Mas, há em Santo Elias ─ a Igreja não gosta dessa comparação entre santo e santo, essa comparação qualitativa. Vou evitar o qualitativo. Sua pergunta é legítima, não estou me referindo a ela. Mas, se eu fizesse uma comparação de qualidade entre Santo Elias e São Bento, eu não estaria agindo de acordo com o espírito da Igreja. E Ela tem razão, é claro. Ela tem sempre razão, mas, Ela tem razão em não querer.
Não vou dizer, portanto, o que falta. Eu digo que, manuseando as coisas de Santo Elias, nota-se tudo quanto ─ eu noto ─ acabo de descrever em São Bento, mas algo que a mim me parece ─ não quero dizer que é objetivamente, não estou comparando santo e santo, estou comparando as impressões que eu tenho pensando em um e outro, sabendo bem que essas impressões são muito mais subjetivas do que entre santo e santo.
Então, a mim me parece que Santo Elias tem incomparavelmente mais uma determinada coisa: é que ele tem um certo fogo, uma certa chama, por onde tudo o que ele fazia, tudo o que ele dizia, tudo em direção do que ele se moveu, parecia tendente, com um vigor todo dele, ao chegar ao extremo limite de si próprio.
Não havia nada, não conheço nada em Santo Elias que não tenha tendido continuamente para um inimaginável extremo de si próprio.
Tomem qualquer episódio, ─ da nuvenzinha ─ a seca que ele tinha que vencer pelas preces, não podia ser uma seca mais completa do que aquilo. De outro lado, o céu não podia estar mais azul, Elias não podia estar mais só, a chuva não podia ser mais improvável, o pedido do rei não podia ser mais cogente… Elias sobe e começa a rezar. Ele tinha contra si um auge de inverossimilhanças de desmaiar. Mas, ele nem de longe desmaia. Ele tem a atitude de quem vai escalar o Céu com as orações dele.
E sobe. Começa a rezar, rezar, mas [inaudível] a impressão que ele me dá à distância, pode ser que eu me equivoque, é que ele, um pouco ou muito suplicava. Mas, de outro lado da alma dele, quase cobrava. “Senhor, pensai: Vós que sois o Criador da Senhora vindoura, incomparável, a Mãe de Deus, Vós Senhor, em Vós eu vejo fundamento para a existência d’Ela. Em nome d’Ela Vos suplico, antes d’Ela existir, eu Vos peço, eu quero, eu quero, eu quero!”
E, parece-me ver Deus comprazido com aquela escalada e dizendo: “Este homem, mera criatura, é uma imagem da minha Onipotência”.
Bem, ele via que era a hora de ser atendido. E que o Céu se abria para ele, mais ou menos como um manto azul com um escapulário, pelo qual ele subia até o trono de Deus.
Chega pouco depois a hora de desafiar os sacerdotes de Baal. Que desafio! Ele ainda rega com água aquilo tudo. “Façam vir o fogo!” Nada! “Está bom, eu faço vir!” Que fogo vem!!!
Matar? De uma vez quatrocentos! É para derramar sangue, é uma sangueira!!
Mas há um momento em que Deus não faz sentir sobre Ele a sua proteção de imediato. E ele se encontra sozinho diante de Jezabel.
E ele vê que é hora de fugir, que se ele não fugir, não há saída para ele, porque Deus lhe dá uma proteção na fuga. “Minha proteção é: corra para longe! Agora corra!” Que corrida! Que medo! Que pânico! Que corrida! E como ele vai para longe!
O super-pânico, o super-medo, a super-distância, a super-garantia, e ele fica só. Que solidão! Que solidão! É a solidão por excelência!
[Vira a fita]
Ele fez maravilhas, ele fez tudo, ninguém quis saber dele, ele está só.
Eu não me lembro bem agora a seriação dos fatos, se é nesta solidão que aparece Deus a ele, mas assim mesmo Deus vai aparecer, mas Deus conhece a criatura humana tão frágil. Manda Elias ficar de costas e Deus aparece apenas pela sombra. Que aparição! Que aparição! É a aparição daquele que o homem não ousa enfrentar, em que ele apenas vê uma sombra. Com que grandeza Deus se faz ver numa sombra! A gente tem a impressão de que o que a vontade dele queria, era ver [a] Deus, pelos menos vestígio dessa Grandeza, mas é um píncaro de Grandeza que não se pode imaginar.
Deus pergunta a ele: “O que fazes aí?”
A resposta dele, derrotado, só, isolado, o apavorado: “Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercituum!” “Eu me desvelei com grande zelo pelo Senhor Deus dos exércitos!”
Os senhores estão vendo o que ele estava pedindo a Deus.
Ele vai para aquela cidade de Sarepta, fala com a viúva. A viúva que devia auxiliar a ele, ela mesma estava a pé. Ela tinha um pouco de azeite e um pouco de farinha. E ele tinha que pedir para a faminta o necessário para subsistência do filho. Quer dizer, ele pede a alguém que arranque os olhos para dar para ele. Isso que ele é reduzido a pedir! Que mendicância! Mas, que mendicância!
Ele pede, a mulher tem para com ele um ato de generosidade. Que generosidade!
Ele paga. Que pagamento! Aquilo não acaba mais.
Não sei se torno aqui clara a noção de um pêndulo que vai de um ponto a outro. Está bem, sempre tão fogoso, me parece ver no fundo da alma dele aquela serenidade, arqui, aquela serenidade de São Bento.
O que havia de acontecer? Esse filho ia morrer. Na casa onde ele estava hospedado, o tesouro daquela senhora, o filho morre. O que ele obtém de Deus, ele não faz luxo. Deita-se em cima do menino, começa rezar e soprar. O menino ressuscita!
Para a mulher, ver o filho dela morrer, é a frustração dela em relação a Elias. Vê depois o filho ressuscitado. Que pêndulo! Que força desse pêndulo! Que coisa extraordinária!
Bem, aparece-lhe um discípulo perfeito. Como é que ele faz com o homem? Ele chama, deita o manto em cima, que é um símbolo de escravização. Eliseu abandona tudo e o segue. “Pan, pan!” Está feito o discípulo perfeito dele.
Em certo momento é chamado por Deus. Chamado de que jeito! Ele vai num carro de fogo, lança o manto dele para Eliseu e funda uma posteridade espiritual que deve durar até o fim do mundo. Quer dizer, passa a garra dele pela História até o fim. E fica esperando o ponto final que é ele que dará, virá increpar o Anticristo com Henoc, [e serão] mortos. Ponto final da História, porque começa depois o desastre todo e o fim.
Também que ausência! Tão presente, os filhos dele se multiplicam, para frente, para frente. Tão ausente que ele passa milhares de anos fora. Isolado sim, mas com um companheiro ─ que companheiro! ─ Henoc que segundo os cálculos de meu Átila, contestado pelo Dr. G., teria conhecido Adão.
Os senhores estão vendo um que conheceu Adão e que vai ficar até o fim do mundo. O outro que conheceu Maria. Um conheceu Eva, o outro conheceu Maria. Conheceu sob a forma de nuvenzinha, mas fica até o fim do mundo. Que colóquio! Que boa companhia!
Se o provérbio diz: “Antes só, do que mal acompanhado”, ninguém está mais só do que aqueles dois. Ninguém tem melhor companhia do que cada um dos dois.
Ele vem para increpar um homem. Quem? Ao Anticristo! Ao filho da perdição, ao tipo imundo que vai ser o contra Jesus. Não preciso dizer mais nada, Jesus Homem-Deus. O sujeito é o contra Jesus, é tudo, é o summum de todas as descomposturas. Basta, para dizer algo, dizer o seguinte: é um homem cujo nome é tão indecente, que o nome de Judas não basta para definí-lo. Quando o nome de Judas não basta definir um homem… contra este, ele vai combater. Increpa e, majestosamente, afunda na morte.
Que estalidos! Que extremos em tudo! Que magnificência!
Bem, perguntar-se-á: há disso aqui?
[Exclamações]
* A ogiva constituída por São Bento e Santo Inácio, tem muito mais do que um florão, tem um gládio; esse gládio é a família eliática
Somos chamados para isso? Para uma prefigura disso, na medida em que isto que nós vemos hoje é a prefigura do fim do mundo, como se compreende que aqui haja uma prefigura do fim do mundo e uma prefigura do Reino de Maria.
Eu me reporto à Reunião de Recortes de hoje. Eu acho que quase todos ou todos assistiram a Reunião de Recortes. Os senhores viram aquela “coisarada” da Rússia.
Elias não teria sido dos que duvidariam mais, se ele estivesse vivo, de que aquilo, a grosso modo é verdade. Como é que ele increparia aquilo?
Qual seria a indignação dele sabendo que aquilo está montado daquele jeito? E que a serpente infernal usa aquilo? Que oração ele faria a Nossa Senhora, para Ela com o calcanhar d’Ela, esmagar aquilo!? Nem sei o que dizer.
Santo Ignácio. Santo Ignácio me parece um Elias incumbido especialmente da Contra-Reforma. E um dos deleites nos “Exercícios Espirituais de Santo Ignácio”, é porque Santo Ignácio é assim, leva tudo assim, é um discípulo de Elias, ao pé da letra, ele fez a Contra-Reforma neste espírito. O espírito da Companhia [de Jesus] é esse, a lógica levada ao último ponto, tudo o mais, é isso. A Companhia sendo o que deve ser é isso!
Bem, a ogiva São Bento, Santo Ignácio, tem muito mais que um florão, tem um gládio que sai. Esse gládio é a família eliática, São Luís Grignion de Montfort, até o fim do mundo.
E, com isso, meu Andreas, enquanto você perguntava e eu falava, o tempo corria. E são duas e vinte. Dispomos exatamente de dez minutos para alguma pergunta complementar que queiram me fazer.
Se não fizerem, eu faço a pergunta.
[Exclamações]
Sobre a reunião da tarde, aquela parte da Rússia, todos nós tivemos as disposições eliáticas? Se Elias soubesse daquilo, que magnífico e leonino rugido! Que precauções ele teria! Que investidas! Que recuos! Que movimento pendular magnífico!
Foi bem exatamente este o estado de alma do conjunto do auditório? Não me refiro especialmente a isto aqui. Também, mas não especialmente. Foi bem esse conjunto? Nossas almas reagiram a la Elias ou falta-nos algo para termos essa pendularidade de fogo e magnífica? É uma pergunta que poderia caber. Não seria despropositada.
Pensemos nisso e despeçamo-nos porque eu terei a alegria de dormir aqui e vai alto a noite no solar da seriedade.
Meus caros, vamos rezar três Ave Marias. Não é isso meu Dustan?
(Sr. –: São dez minutos que faltam.)
É verdade. Então, se há alguma coisa, me perguntem.
Então, sobre esta ou qualquer outra coisa, alguém quer me perguntar algo?
(Sr. –: O senhor disse que se a Senhora Dona Lucilia conhecesse o Êremo, ela gostaria muito de estar aqui.)
Muito!
(Sr. –: Agora, o senhor deu todo o panorama, Santo Elias, etc., o senhor não poderia localizar como estaria o “Quadrinho” nesse panorama?)
É muito difícil dizer.
(…)
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