Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) – 9/5/1981 – Sábado [RSN 022] – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) — 9/5/1981 — Sábado [RSN 022]

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A sedução do mal no Reino de Maria será como a vertigem no alto do Pão de Açúcar: não se pode só contemplar * A sedução tem proporção com a altura atingida: quanto maior a altura maior é o tombo * Simetria entre bem e mal: o bem cresce sempre ou satura; o mal ao chegar ao ápice suscita adversários * Há um ponto de vértice misterioso e ainda não definido que, deslocado um pouco, exerce tremenda atração * A torre de Pisa inclinada é pitoresca; não se admite que a cruz o seja * O normal da virtude é transparecer em quem a pratica — É o que se dá com a excelência da fé do Sr. Dr. Plinio * O pulchrum tem belezas complementares e ele pode ser contemplado com elas ou sem elas * Dois modos de ver o pulchrum: num só lance de olhar, ou parar para aprofundar o raciocínio * Não há contradição dos dois métodos, mas é preciso conferir com a doutrina católica, controlar a premissa, para alcançar pulcritudes novas * A própria limitação nossa faz desconfiar de nós e confiar em Deus — Perigo do oposto: censurar a Deus * Um pequeno voltar-se para si, com menos sensibilidade da graça, pode deteriorar tudo, como no pecado original * A confiança se manifesta com clareza meridiana e calma * A doçura de Sra. Da. Lucilia atrai pelo estável, pela confiança com humildade, que é dependência completa com relação a Deus * Algumas fotos lembram ao Sr. Dr. Plinio algo de incomunicável, uma arquiverdade inocente que vê por cima do palpável

* A sedução do mal no Reino de Maria será como a vertigem no alto do Pão de Açúcar: não se pode só contemplar

(Sr. C. Antúnez: … a parte da união que teve com Nossa Senhora, uma união como nunca houve na História. Queria saber como se dará isso, até o fim do mundo. Tomando em consideração a doutrina do membro separado e também a Opinião Pública de hoje.)

Acontece que uma pergunta que se pode fazer sobre o Reino de Maria — que não caberia hoje na noite, nem para perguntar nem para responder, porque é outro problema — é a seguinte:

A Revolução esmagada perderá o seu poder de sedução? Ela tem hoje em dia um poder de sedução igual a X; qual era o poder de sedução dela na Idade Média? Qual era no tempo dos romanos? Qual era nos tempos apostólicos? Como é que esse poder se tornou com a Revolução, como é hoje em dia? Como será no Reino de Maria?

Uma vez que se trata de um combate entre a Revolução e a Contra-Revolução, é mais do que razoável que se ponha essa pergunta, e que todo o Reino de Maria seja condicionado em parte por isso.

Mais ou menos como quem está, por exemplo, no alto… eu não sei porque, eu acho que é por simpatia, o Pão de Açúcar me volta com freqüência à cabeça. Vamos considerar o Pão de Açúcar.

Uma pessoa está no alto do Pão de Açúcar, ela vê o mar, o panorama, etc., e procura abstrair do abismo, mas de fato ela tem tal conhecimento do abismo, que ela não vai além de uns certos metros, porque ela sabe que aquele negócio resvala. E o tempo inteiro, sem ela perceber, o abismo está solicitando a ela ou criando embustes para ela. E não basta ela se admirar com panoramas: ela tem o problema do abismo.

Assim será a atração do mal no Reino de Maria. E isso a gente tem que tomar muito em consideração, porque do contrário… todas as coisas de deslocam, se descolam.

* A sedução tem proporção com a altura atingida: quanto maior a altura maior é o tombo

Agora, a sedução do mal, então, vai ser maior ou menor lá?

Uma pergunta que, à primeira vista, está bem posta e não está bem posta, porque a sedução do mal — como, aliás, a atração do bem — não provém apenas de uma liberdade que Nossa Senhora dá ao mal de exercer sua força, mas provém de uma abertura interna da pessoa para o mal.

Então a sedução do mal resulta de dois dados: da atração que o mal exerce, mas de abertura da pessoa, da vulnerabilidade da pessoa para o mal.

Esta vulnerabilidade, por sua vez, depende da altura em que a pessoa esteve. É impossível ter chegado a uma grande altura sem que a pessoa, ao debruçar-se, não role muito baixo.

Há um proverbiozinho em língua portuguesa, não sei se os senhores conhecem: “Quanto maior a altura, maior é o tombo”. É do bom-senso elementar, qualquer Conselheiro Acácio sabe disso sem provérbio também.

Então, no Reino de Maria a altura vai ser fenomenal. Mas se uma pessoa der uma qualquer pequena abertura a um ponto X da Revolução, do qual vou falar daqui a pouco, se a pessoa der uma qualquer abertura a isso, pssit!… ele vai água abaixo.

* Simetria entre bem e mal: o bem cresce sempre ou satura; o mal ao chegar ao ápice suscita adversários

O mesmo se dá, de modo curioso, com o mal. Quando o mal se expande muito e se intensifica muito, há qualquer coisa nele em que ele de algum modo perde a força junto a alguns. Ele nauseia e uns resíduos tendem a se descolar dele.

Não sei se querem que eu me exprima melhor ou se está claro.

(Todos: Está claro.)

De maneira que nós falávamos, há pouco, dos erros do mal. O mal fica nessa alternativa: ou ele nunca chega ao fim de si mesmo, ou na hora em que ele arranca a máscara, ele triunfa, mas suscita os seus adversários. É fatal.

Então o mal, chegado ao auge, provocou o aparecimento de uma continuidade do filão eliático. O bem, chegado ao auge, tem algo disso no seguinte sentido: por causa do pecado original, etc., o grande bem, bem, bem, em certo momento enfastia certas almas. É ultra-irritante, desagradável, mas é a pura realidade. Enfastia certas almas e a pessoa começa a pender para o mal.

É muito subtil, eu não quero entrar muito na coisa, mas acontece que o enfastiamento do bem começa quando os bons não estão continuamente crescendo. Porque se o bem cresce, ele não enfastia. Mas se ele diminui a ascensão ou pára, aí se torna monótono, para alguns maus residuais e para uma porção de lados maus de alguns bons.

De maneira que o bem ou está continuamente subindo, ele é como um foguete, ou ele sobe, sobe, ou se pára, a lei de Newton se exerce sobre ele: ele cai no chão. Assim também ou sobe, sobe, sobe, ou cai. São leis meio parecidas.

O que tem a ver fundamentalmente com a pergunta que você pôs, pelo seguinte:

Os senhores estão vendo que há aqui luta entre duas apetências, de vértice e de vórtice: quando a apetência do bem estiver subindo, subindo, subindo, a força de sedução do mal é insignificante; como quando o vértice estiver descendo, descendo, a força da apetência do bem é muito pequena. O mal ou o bem nestas ocasiões costumam encontrar as formas de expressão mais desajeitadas e mais infelizes.

(…)

* Há um ponto de vértice misterioso e ainda não definido que, deslocado um pouco, exerce tremenda atração

Há, portanto, um ponto de olhar, um ponto de vértice, a partir do qual a segurança tem mais força e tem mais entrada. A partir desse ponto de vértice, quem olha ali está seguro; mas deslocando-se um pouco, porque está-se muito alto, a força de atração é tremenda.

Agora, qual é esse ponto?

Esse ponto é um ponto que eu creio — os senhores vão ficar desapontados com o que vou dizer, mas é assim — que está involucrado no “tal enquanto tal”. Não é o “tal enquanto tal”; é alguma coisa que ao mesmo tempo orienta, é um núcleo que eu não consegui ainda explicitar. No MNF, eu nem sei se é explicitável.

Porque o mais terrível é isso: é que assim como… Eu quando estava dando a reunião hoje à tarde, lá em Jasna Gora, estava pensando nisso, nesse problema que vou dar agora.

Assim como no Céu há mistérios ao lado da visão beatífica e a alma repousa na conjunção do mistério e da visão beatífica, assim também nessas coisas há coisas que se vêem clarissimamente, e outros mistérios juntos que a gente não chega a desvendar e que formam um todo perfeito. Quase que se diria que da clareza para o mistério e do mistério para a clareza há um “tal enquanto tal”.

(…)

É esse ponto de atração ou de repulsa das multidões.

(Todos: Fenomenal!)

Os senhores vêem a reação que isto teve nos senhores, porque os senhores sentem até que ponto isto pega o fundo da realidade. E uma coisa não é bagatela na medida em que ela pega o fundo, pega este ponto, se ela nesse tal ponto misterioso, parece que cheio de filamentos, está involucrado no “tal enquanto tal”.

De tal maneira que dizer, por exemplo, ouço esta expressão horrível, moderna: “Fulano de Tal durante esta semana — ou fulana, se se trata de acontecimentos sociais — foi manchete”. Eu digo: isso não tem importância ser machete. Pode publicar por cima do título o que quiser, que dá no que nós estamos vendo.

(…)

* A torre de Pisa inclinada é pitoresca; não se admite que a cruz o seja

Não quer dizer que é toda oscilação de pêndulo do relógio. Ela pode estar inteiramente à esquerda da linha de gravidade, mas então oscilará entre o ponto mais alto para a esquerda e o ponto que veio logo depois. Ela oscila na trajetória para o ponto extremo e nessa oscilação é que nós nos encontramos. Mas é a opinião inteira que sente junto o tal ponto e que uns se contagiam uns aos outros. Esse poder à maneira de anjo que tem a opinião sobre todos, vêem um pouco — ou muito, eu mesmo não saberia dizer bem — da força deste tal ponto “tal enquanto tal”.

Pensem um pouco na cruz torta e vejam como são as coisas. A torre de Pisa é torta; nós não temos idéia de uma desordem, é pitoresco. É um pouco chanchada, mas é interessante, nenhum de nós gostaria de endireitar a torre de Pisa.

Está bem, a Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que … [inaudível]… não tem por onde escapar. Juxta crucem lacrimosa, stabat Mater dolorosa. Não podia estar aos pés de uma cruz inclinada.

Os senhores imaginem a cruz aqui e a cruz inclinada para lá, não vai! Os senhores imaginem Ela lá com o perigo da Cruz cair por cima d’Ela. Não vai!

Alguém dirá: “Mas isto é tão subtil, que não vale a pena tomar em consideração”.

Então decapite-se, porque tem algo errado.

Meus caros… João, diga.

* O normal da virtude é transparecer em quem a pratica — É o que se dá com a excelência da fé do Sr. Dr. Plinio

(Sr. João Clá : O senhor dizia numa das reuniões que fez na Comissão B sobre, se não me engano, a cavalaria, o senhor dizia que quando se trata da glória de Deus, quer queiram quer não queiram os adversários, os homens acabam tendo antena para perceber. E o senhor está tomando um ponto muito mais profundo e muito mais específico dentro da glória de Deus que está correlacionado com o “tal enquanto tal”. O que é que há na causa de Nossa Senhora nos dias de hoje em que a gente percebe não só o “tal enquanto tal”, mas também o que está dentro do “tal enquanto tal”, que é a grandeza que choca e ao mesmo tempo atrai.

Por vocação Nossa Senhora acabou dando à TFP uma visão arquitetônica do universo, uma visão harmônica do universo criado, desde os espíritos até os grãos de areia, ressaltados os pontos que a Revolução procurou combater durante o processo revolucionário. Mas esta visão Nossa Senhora deu à TFP com uma grandeza tal, que nunca deu a nenhum outro movimento na história.

Então, o que é que há disto para ser dito ainda e se de fato este é um ponto que se relaciona com o “tal enquanto tal”, se é isto que choca mesmo ou se é isto que atrai? Ou, por outro lado, o que o senhor teria no momento a dizer sobre isso?)

Eu preciso… marchons au petit pas, ne faisons point de bruit. Écoutons, parlons bas. É preciso ir devagar.

É evidente que se a gente for, a partir desse ponto “tal enquanto tal”, considerar não a sociedade temporal nem o universo, mas uma coisa que é muito mais alta do que isso, que é o conjunto da fé católica, fé da Igreja, se for considerar isto, tem que ser que isto resplandeça aí mais do que em qualquer outro lugar, e tem que ser que forneça uma intelecção e um amor quintessenciado à Santa Igreja, o colocar-se aí. Tem que ser.

Isso seria, portanto, se o senhor quiser, uma excelência da virtude da fé.

Agora, se é próprio de toda virtude transparecer em quem a pratica, de maneira que é corrente, por exemplo, uma pessoa que encontra um velho avô dizer.. É um elogio velho, hoje não é mais elogio, mas até alguns anos era. Os senhores pelo menos que são de grupos menos novos terão alcançado isso, um velho avô a quem um conhecido encontra na rua e diz: “Olha, encontrei sua netinha hoje, estava um encanto. Uma inocência, uma pureza encantadora transparecia nela”. Hoje isso não é mais elogio. O avô fica contente, volta para casa babão.

É uma coisa banal, não seria uma coisa banal? O que a pessoa está afirmando nisso é que a virtude da criança transparece na própria criança, que a posse entranhada da virtude reflete nela.

Se é assim com as virtudes, o deve ser sobretudo com as virtudes mais excelentes. E a mais excelente das virtudes é a fé. Se isto é uma excelência da virtude da fé, compreende-se bem que possa reluzir especialmente naqueles que se orientam para ela. Éuma coisa que se compreende normalmente, ou todo o resto está quebrado. É preciso reformular o vocabulário corrente, é preciso reformular os modos de sentir, de agir, etc. É uma coisa que está na lógica.

* O pulchrum tem belezas complementares e ele pode ser contemplado com elas ou sem elas

Vamos dizer aqui: o que procurou o escultor que fez o molde onde foram fundidos estes soldadinhos? Fazer transparecer na atitude dele um unum que nós poderíamos chamar muito modestamente — porque há “tais enquanto tais” por debaixo do “tal enquanto tal”, não vamos abusar do termo — o “tal enquanto tal” do estado de espírito militar, guerreiro. Ele procurou fazer reluzir aqui.

O que equivale a dizer que ele reconhece que há um conjunto de virtudes próprias ao militar e que um bom militar corrente pode fazer reluzir ainda mais com a ajuda desses uniformes, desses símbolos, etc.

Mais ainda: o próprio modo de andar do cavalo exprime em algo a virtude que tem no cavaleiro. Foi o que ele pôs aqui.

Não foi o que ele quis pôr aqui?

(Todos: Sim!)

É evidente.

Se isto é assim, por que não pode ser com a virtude da fé?

A gente poderá dizer:

Esse “tal enquanto tal” é uma fantasia, e não é uma coisa anexa à virtude da fé.

Está bom, então vamos discutir isso, se é ou não é uma fantasia, se é uma coisa anexa à virtude da fé. Conceda que, em princípio, a virtude da fé pode comunicar isto. Agora vamos discutir.

Aí entra outra questão do “tal enquanto tal”, e isso, aquilo, aquilo outro, lá vai mar-alto.

Não sei se a lógica do pensamento está bem expressa.

(Todos: Sim.)

Está expressa talvez sem pulchrum, mas eu gosto muito de contemplar a verdade revestida do pulchrum e depois gosto muito de contemplá-la sem os atavios do pulchrum, na sua mera beleza. É um pouco como uma pessoa pudesse gostar muito de ver um céu azul com um jogo lindo de arco-íris, mas no total chega o momento em que a gente tem vontade de apagar o arco-íris com a mão e dizer: “Quero ver só o céu azul na sua unidade, sem o enfeite que o arco-íris representa. Como é este céu azul? Vamos ver”.

Então, por mais que a gente tenha entusiasmo pelo arco-íris, às vezes a gente o apaga para olhar o céu.

Não sei, meus caros se estou claro, como é que a coisa está, como é que a coisa não está, mas… é o meu pensar.

Meu caro Guerreiro!

(Sr. Guerreiro: O senhor acabou de fazer uma distinção entre o “pulchrum” e esta beleza ao qual o senhor se referiu e a gente sente que esta beleza faz parte desse tal ponto.)

Faz parte. Seria um erro de ploc-ploc querer reduzir este ponto a mero raciocínio. Ele é raciocínio, é racional, mas ele normalmente é foco de ornato.

Vamos então.

* Dois modos de ver o pulchrum: num só lance de olhar, ou parar para aprofundar o raciocínio

(Sr. Guerreiro: Se o senhor não poderia nos conduzir um pouco mais a este foco, a esta beleza. Porque já no Êremo uma que outra vez, num momento de muita paz, de muita tranqüilidade que Nossa Senhora dá uma graça especial, a gente tem um ponto, que é um ponto muito luminoso, mas que é uma luz. Dá a impressão que não é uma luz material, uma luz que está mais ligada às coisas espirituais, e que isto traz então uma atração muito grande. Como isto me passou pela cabeça, não ficou muito claro, e agora o senhor fez referência a esse ponto, obviamente não é esse ponto, mas a gente vê que são coisas que vão aproximando desse ponto e coisas que se afastam, eu senti aí uma sugestão de beleza muito intensa, que é uma beleza como que vestida com outras luzes que não são as luzes que a gente vê, são mais intensas, mais espirituais, mais diáfanas.

Não sei se o senhor poderia tratar como é esse ponto na alma do senhor. Desde que o senhor adquiriu consciência de si, o senhor certamente adquiriu consciência deste ponto.)

Eu sempre tive dois movimentos simultâneos na minha alma, mas acho que é de todo o mundo:

A contemplação deste verum, bonum, pulchrum num só olhar. De maneira que, com naturalidade, passando da beleza para a bondade da coisa e da bondade para a verdade, assim como, não sei… como o pássaro corta o ar, ele não distingue massas de ar que ele corta, nem as massas de ar têm fronteiras, ele passa de um lado para outro e acabou-se. Seria uma maneira.

Agora, outra maneira era de vez em quando um parar, abrir a cortina e dizer: “Não, agora vamos de frente. Como é que é isto?”. Analisar e reduzir a raciocínio, não para fazer uma separação, mas para depois voar em mais altos ares. É, portanto, não como quem quer colocar uma cúpula prematura numa pretensa torre de dois andares, mas é como quem, depois de cada andar que constrói, faz uma verificação de alicerce para depois pôr mais outro andar, outro andar, outro andar…

* Não há contradição dos dois métodos, mas é preciso conferir com a doutrina católica, controlar a premissa, para alcançar pulcritudes novas

Por exemplo, eu me lembro do contraste que eu sentia em mim mesmo — para falar da praia do Zé Menino, lindamente evocada hoje à noite — quando às vezes eu brincava com as conchas, algumas delas rosadas e nacaradas, outras umas conchinhas muito plebeiazinhas. O mar também tem a sua plebe.

Eu brincava com essas conchas, de repente parava e via uma coisa que me intrigava na areia úmida: formava-se um círculo, dentro do círculo — que se destacava por ser um pouco mais úmido e um pouco mais saliente — um orifício muito menor, e eu percebia que dentro do orificiozinho saía um bolhazinha. Eu dizia: “Eu não continuo a brincar enquanto não tiver esgravatado o que tem nessa bolha. Conchas nacaradas, ficai de lado; mar, fique de lado. Chegou a hora de descer aqui. Dedo, extirpa”.

Enquanto eu não sentisse do outro lado do dedo a areia seca, indicando que eu tinha perfurado tudo e conhecido tudo, eu não sossegava. É preciso esgravatar.

Mas isto para mim não constituía uma contradição. Não era o tipo, por exemplo, horrível do homem que, por exemplo, se ocupa com afazeres mecânicos e por isso detesta o que é pulchrum. A funilaria sofisticada.

Não é isso nem um pouco, mas é um movimento de alma natural: “Agora chegou a vez de reduzir isto a esqueleto e ver direito como é que é. Eu serei mais disto, isto será mais meu, quando eu tiver afastado estas lindas cortinas. Eu sinto que as premissas estão bem postas — coisa em que é preciso ser exigentíssimo — ou não? Se estão, agora vamos raciocinar! Anjos da lógica, vinde a mim! Raciocínio, raciocínio, raciocínio”.

Às vezes o raciocínio não dá certo. A gente vai controlar a premissa, controla o próprio raciocínio, volta até perceber que deu certo. Deu certo, evidentemente, não é apenas a lógica. Também, mas é porque confere com a doutrina católica. Dar certo é isso, estar de acordo com a infabilidade. Se está de acordo com a infabilidade, então vamos navegar.

Daqui a pouco eu digo uma coisinha sobre esse assunto.

Agora, quando se chega ao ponto terminal, as premisas estão bem controladas, foram buriladas, estão certas, o raciocínio está impecável, dá uma segurança e dá uma capacidade de perceber — é o que eu ia dizer há pouco — distritos novos. O raciocínio bem feito dá a todas as partes do pulchrum da alma antenas para pressentir pulcritudes novas, pressentir santidades, retidões morais novas, de maneira que isto anda assim numa colaboração que é própria à natureza humana.

Eu creio assim ter respondido à sua pergunta.

Meus caros, eu estou um campeão invencível.

Meu caro, Andreas!

(Sr. A. Meran: Adão tinha esse ponto…)

* A própria limitação nossa faz desconfiar de nós e confiar em Deus — Perigo do oposto: censurar a Deus

Está muito bem.

Há uma disposição de alma em nós pela qual nós sabemos, pelo nosso senso so ser, que somos criaturas e somos limitados. E a própria limitação nossa faz-nos desconfiar de nós e confiar em Deus. É o próprio. Eu não tenho sentido se não houver Deus em que eu confie. E bem entendido por meio da Mãe d’Ele, porque si iniquitatis observaveris, Domine, quis sustinebit. Mas por meio d’Ela eu posso obter misericórdia, beneplácito, então lá vou.

Se não for isto, se eu não tiver esta confiança, eu perco o sentido.

Mas há momentos em que o senso do ser passa nesse ponto por um eclipse e o homem em vez de raciocinar com esse pressuposto, ou pensar, ou viver com esse pressuposto, substitui. Diz: “Eu sou eu e confio em mim, porque querer-me como eu me quero ninguém me quer. E é, portanto, a partir da sensação do meu ser, dos meus interesses, de minha conveniência, coisa que ninguém entende como eu, que eu vou julgar o próprio Deus”. E põe-se numa posição desconfiada.

A confiança é uma convexidade e a desconfiança é uma concavidade.

E a pessoa então se põe, às vezes em relação ao próprio Deus, numa atitude mais ou menos subconsciente ou consciente de censura. Vai ver qual é a razão: ele cometeu a loucura de se transformar em juiz de seus próprios interesses e árbitro de si próprio. Ele fica então desconfiado.

* Um pequeno voltar-se para si, com menos sensibilidade da graça, pode deteriorar tudo, como no pecado original

É de se admitir que o pecado de Lúcifer e o pecado de Adão tunham tido relação com isso. Porque quando a serpente disse a eles: “Vós sereis como deuses”, entrava a idéia para ele, ele fez um cálculo de seu próprio interesse: “Deus está cuidando de mim como eu mesmo cuido? Eu entenderei melhor o meu próprio interesse do que o próprio Deus, porque esse Deus me dá tudo, mas me deificar não. Agora aqui está esta boa serpente tão simpática, mimosa, interessante, com o fruto, e passando-me esta lábia. Quem sabe lá se Deus em relação a mim não tem uma disposição rival, Ele não quer que eu seja deus e por isso Ele me limita, engazopa. Eu vou meditar dentro de mim sem que Ele saiba”.

Pode acontecer, pode acontecer.

Então, costuma-se afirmar — e eu acho muito verdade — que em certo momento Deus diminuiu um pouco o seu pulchrum, seu bonum, seu verum diante de Adão. Não eliminou, nem deixou em grau suficiente, mas diminuiu aquela plenitude com que Ele brindava Adão. E Adão, meio entregue a si, pumm!… a serpente entrou nessa hora e veio a vacilação.

Por quê? Porque como aquilo não estava de tão evidente que ele não podia achar o contrário, houve um pequeno ocaso na manifestação de Deus, a serpente disse: “Olha lá, olha lá! Ele não quererá para si uma coisa que não dá para você?”.

Não sei, meu Andreas, se a minha resposta responde a sua pergunta.

* A confiança se manifesta com clareza meridiana e calma

(Sr. A. Meran: Esta forma de entrega, o senhor não podia mostrar como foi esse lado de confiança.)

Essa confiança, a partir do “tal enquanto tal”, se a gente é reto, é o pressuposto, se quer ver, isto se apresenta a nós com uma clareza meridiana. Mas uma clareza tal que não permita a desconfiança. A razão está sempre no fato de a gente ter apetecido algo que não deveria querer.

Às vezes é uma coisa sensível, às vezes é embriaguez de si mesmo…

(…)

A retidão pousa com uma calma, com a calma com que a água reflete o luar e com que o luar se reflete sobre a água. A luz olha o universo com calma. Os senhores olham uma noite de lua, ela ilumina, ela vê, mas é com doçura, com bondade, com… assim, mas ela ilumina.

Com esta calma a retidão olha para o verum, bonum, pulchrum, que teria com o “tal enquanto tal” uma relação quintessenciada. E isso se entrega. Mas é!

Como eu digo, por exemplo, que eu estou nesta sala do Êremo de São Bento, estou! Não tenho dúvida, não tenho a menor… nada, estou! Eu abri os olhos e vi, estou, pronto.

* A doçura de Sra. Da. Lucilia atrai pelo estável, pela confiança com humildade, que é dependência completa com relação a Deus

Não sei se lhes é claro isso ou não.

(Todos: Sim!)

Diga, meu João… fugit… os senhores sabem o resto da frase ou não?

(Sr. João Clá : Pela fotos, pela história e tudo o mais, a gente vê que havia uma luz qualquer nela… [Vira a fita]

a respeito dessa luz que Nossa Senhora deu à TFP, qual é a luz que atrai e que ao mesmo tempo repele e dá em indignação em Santa Teresinha do Menino Jesus.)

A atração seria o “tal enquanto tal” com tudo que lhe é próprio. Ele não pode ser… ele sem o conjunto da doutrina católica seria como um esqueleto sem corpo. Ele tem que ser visto com tudo que lhe é próprio. O “tal enquanto tal” feito… senso de sobrenatural, portanto, elevação e doçura. Seria isso.

O que atrai, pelas óbvias razões, mas repele. Repele o quê? Repele duas espécies de almas.

Primeiro as que gostam do contínuo variar, porque a doçura tem qualquer coisa de estável que não varia muito. A doçura não é descontínua, ela é contínua, mas as pessoas que se entregam à Revolução gostam do descontínuo. Tudo quanto é Revolução tem uma nota de descontínuo, tem uma nota de interrupção. Em francês se diz haché, picado a machado. É picado a machado. E a expressão de fisionomia dela me parece inteiramente incompatível com isso.

Agora, a outros é porque convida para um estado de espírito de confiança, mas uma confiança que contém esta humildade fundamental que toda confiança pressupõe. Isto é, uma boa ordenação em face de Deus, em face da Igreja, bem entendido, em face de Nossa Senhora.

Qual é essa humildade? É sua própria insuficiência.

Pessoas que dizem: “Eu sou o último dos homens, eu sou não sei o quê”, eu queria saber um pouco se você tem noção de sua insuficiência radical em função de Deus e da confiança sem limites que você tem por Ele. Vem, me conta um pouco essa história, depois você me fala de sua humildade, etc. Está bom, mas venha antes… porque a sua humildade não nasce de suas relações com os inferiores a você, com os quais você se vulgariza. Que você os trate mito bem, está muito bom; vulgarizar é outra questão.

A humildade nasce originalmente de uma impostação de dependência absoluta e gaudiosa em relação a Deus.

Diante desta…

(….)

para algo que tem relação com o “tal enquanto tal”. Assim em outras conjunções destas aflora algo.

Está claro, meus caros?

(Todos: Sim.)

Bem, mais uma pergunta. Estou encantado de poder ficar mais uns momentos, depois eu ficarei desolado de sair.

Meu Carlos.

(Sr. C. Antúnez: …)

Olha aqui, por exemplo. Me permita a interrupção, mas aqui está, os senhores vejam o contraste disto. Assim se pode observar em várias coisas, são filamentos daquilo que nós dissemos.

* Algumas fotos lembram ao Sr. Dr. Plinio algo de incomunicável, uma arquiverdade inocente que vê por cima do palpável

Bem, mas eu estava respondendo outra coisa que já não me lembro o que era. Meu Carlos, você perguntou e eu me esqueci, não sei se você também se lembra.

(Sr. C. Antúnez: Se o senhor podia dizer tudo que pensava na hora que iam passando os “slides”.)

As notas eram várias. As duas notas dominantes e fazendo arco eram eu se lembrar de mim naquela idade, e me lembrar da Oração da Restauração, a comunicação com Nossa Senhora, a inocência, e certas impressões que são incomunicáveis, intransmissíveis. Mas parecia-me ouvir ainda aquele barulho do mar, depois das ondas… a praia, e as impressões então intraduzíveis que aquilo tudo pode causar. Ao menos em mim concretamente causava.

Depois quando falaram da Igreja do Embaré, a mesma coisa. Apareceu a Igreja do Embaré e eu pensei — eu não sei se o Embaré era bem exatamente assim naquele tempo, as torres se acabaram mais tarde, mas a imagem do Embaré ficou-me num todo: “Como esta igreja me pareceu grande. Como também esta baiazinha de Santos como me pareceu grande outrora”. E como, portanto, eu engrandecia aquilo que via.

E pensei: “Uma pessoa poderia dizer: ‘Está vendo, não era tudo senão sonho’, e eu respondo, eu replico: ‘É o contrário, era arquiverdade! Er a dimensão da inocência vendo por cima da realidade palpável as dimensões naturais e a ordem das coisas”. E eu me encantava com isso.

Via também, no espírito que presidia a organização daquilo e nas reações que aquilo estava tendo no auditório, na silhueta dos meus eremitas que apareciam ali, no traje e em tudo mais, uma continuação daquilo. Isso me encantava. Eu dizia: “Há um arco aqui que encanta”. Era o essencial.

Está bom, meu Carlos?

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