Conversa
de Sábado à Noite ─ 2/5/81 .
Conversa de Sábado à Noite ─ 2/5/81
A esperança está relacionada com um discernimento dos espíritos e com a atração pela vocação * A amnésia que Nossa Senhora permite que venha provar a quem Ela deu muitos “flashs” * Nossa vocação no começo é uma chama acesa que depois mingua um pouco para que a pessoa possa ser tentada; as tentações que seguem a isso * Como era a confiança da Sra. Da. Lucilia * O campo no qual se opera a troca de vontades é tão profundo que as diversidades harmônicas existem, mas pela união que há na nossa vocação não as percebemos
* A esperança está relacionada com um discernimento dos espíritos e com a atração pela vocação
(Sr. Poli: …a relação da esperança do senhor com a Senhora Dona Lucilia parece ter um nexo muito grande.)
(Dr. Marcos R. Dantas: Tenho uma pergunta também…)
Não vale apenas fazer várias que tenho o receio de me esquecer. É melhor fazer duas, depois, havendo outra, a gente responde ou pelo menos tenta responder.
A questão é a seguinte: essa esperança não é um cálculo de probabilidades como se costuma fazer, por exemplo, na vida comum, um diretor de um estabelecimento qualquer que tem um funcionário que ele vê que está ficando irregular, etc., etc., ele avalia um pouco se vale a pena ou não despedir de acordo com um cálculo de probabilidade que a análise da pessoa dá. Não é isso. Isso joga um papel muito secundário no caso, para dizer que joga algum papel.
O que… [inaudível] …da esperança é um discernimento do espírito por onde a gente percebe na pessoa que está em causa o que, [ou pode mencioná-la bem como sendo uma atração pela vocação??]. Mas essa atração… [inaudível] …a gente percebe ter uma atração pela vocação.
O que é essa atração?
É, em forma maior ou menor, sentir uma alegria ao pensar em certas coisas da vocação, pelo menos, e uma noção de que a gente seria muito feliz se por um lado conseguisse desvencilhar-se de certos defeitos, certas coisas e viver, imergir naquilo. Não exclui, portanto, apego ao oposto. Mas significa uma espécie de estado brumoso e melancólico do indivíduo no seu próprio apego, porque ele compreende bem que ele teria outro vôo de alma, seria outra pessoa se ele se abrisse para aquela esperança.
* A metáfora do foco de luz; o perigoso é quando o foco da atração vai decaindo; os dois modos de decadência
Essa esperança ─ para adaptar um pouquinho a imagem que você usava há pouco ─ pode decair. Quer dizer, essa atração pode decair de duas maneiras: uma seria se nós imaginássemos um foco de luz, uma lâmpada, o que quiserem, num quarto escuro. Uma pessoa vai, cada vez mais, fechando a zona opaca em torno do foco de luz. Então o foco vai se tornando cada vez menor, mas a luz que brota tem sempre a mesma força. Naturalmente a capacidade dela de iluminar é menor, mas a força que sai é sempre a mesma.
Outro caso é quando, fechando ou não fechando esse círculo em torno da luz, em todo caso o foco vai decaindo.
Ambas as crises são perigosas, mesmo porque uma coisa pode atrair a outra. Mas, perigoso, perigoso, é o segundo caso. É alarmante! É quando o foco de atração vai decaindo. Quando o círculo de luz vai se fechando mas o que passa ainda tem a mesma intensidade, então pode-se esperar sempre que por uma coisa que seja um movimento interno dessa luz ─ estou imaginando uma luz viva; a luz viva é a graça ─ vare e rompa de repente aqueles enclausuramentos… [inaudível] …plenitude.
O difícil, realmente difícil é quando o foco começa a diminuir.
Acontece que há uma certa inter-relação entre as duas coisas e que à força de a pessoa ser indiferente ao círculo que vai estreitando, em certo momento a corrente de luz também diminui de intensidade. É psicológico, é evidente. Mas a Providência faz coisas maravilhosas nesse sentido! De tal maneira que, às vezes, contra toda expectativa, aquilo ainda fica. Por causa disso…
(…)
* Exemplo de Jaime Antúnez: “Nunca notei um movimento de entusiasmo nele”
Não sei, portanto, [se] eu respondi adequadamente as duas primeiras perguntas.
Bem, Jaime Antúnez, eu sempre notei que o Jaime era dos chilenos da antiga leva, aquele que tinha menos atração pelo Grupo. Ele nas nossas conversas no Bhrama e no Giordanno e, aquelas coisas todas, ele tinha um sorrizinho amável, de uma pessoa que está satisfeita. Nunca notei um movimento de entusiasmo nele. Nunca! Quando eremita, ele estava bem, lá levando a vidinha dele, mas fechado, isolado e sem entusiasmo por nada.
Não sei se os dois irmãos dele aqui presentes atestam isso.
(Sr. F. Antúnez: Sim! O senhor sempre disse isso.)
É, eu sempre achei dele, uma coisa evidente!
Uma vez no período de secessão dele, ele me disse isto: “Nosotros que saímos daqui, [de] São Paulo, nas primeiras vezes, y llorando a mares…” Eu pensei: “Você deve talvez ter visto outros “llorando a mares”; não vi isso de você. [Você] nunca me lloró nem com mares nem sem mares”. Não pode deixar de ser!
* Outro exemplo de quem teve essa luz intensa e que depois perdeu a intensidade: Bento Ribeiro Dantas
Vocês mencionaram uma outra pessoa, não me lembro quem é a outra pessoa, mas impressionante foi no pobre Bento [Ribeiro Dantas]. O Bento teve essa luz bem intensa, mas ─ não me diga nem sim nem não ─ com influência da esposa dele em certo momento tive a impressão de que o jogo vergou e que em algo o Bento cedeu àquela influência. E que algo desapareceu, algum tempo antes de começar a degringolada. De fato ele saiu, a meu ver, eu não notei saudades nele. Aquele [“Kós”?] contribuiu muito para isso. Mas muito! Se o [“Kós”?] fosse mandado por uma “tripingança” para fazer o que fez, ele não teria feito nem mais nem melhor do que ele fez. Mas ele engolfou o Bento no mundo das armas, no mundo das coisas assim, extirpando-o do interesse pelas coisas do Grupo. Jeitosamente. Pegando o Bento quase por aquilo que nós chamaríamos o lado meninão dele.
E, depois, o Bento ficou sem defesas para a ação da… [inaudível]. E aí a coisa foi. Creio até que eu presenciei um começo disso, porque uma vez estando no Rio, o Bento me convidou para jantar no apartamento dele. Eu não conhecia a E. [deve ser a esposa do Bento], conheci naquela noite. Eu vi que o Bento tinha, naquele convite, a esperança de que eu produzisse sobre a E. um efeito análogo ao que produzia sobre ele. E, portanto, uma espécie de meia batalha ganha de conseguir que ela me convidasse e conversasse comigo. Mas ela foi mais “tiroleza” que se possa ser! Sem que o Bento percebesse claramente. E teve uma conduta que era glacial. Naquela ocasião.
O jantar, portanto, não deu o efeito que o Bento queria, porque diante de uma dona de casa com que a gente é obrigado a conversar, tinha ali também o Oto, eu tinha que… ela era a destinatária principal da conversa. Mas, para ver o fracasso da conversa, acabou-se falando sobre peixes, sobre a criação de peixes, longamente, porque era um denominador comum que encontrei entre a E. e eu. Quão efêmeros nos dois, um pontinho de contato.
Naturalmente, acho que ele ficou decepcionado e não entendeu bem o que se passou. E que ela glosou depois o negócio, sem que eu tivesse liberdade de eu glosar com ele. Coitado… assim afundou.
Mas, de fato, em certo momento, foi a luz por detrás que perdeu a intensidade. E assim por diante.
* Por que as pessoas sentem atração pela luz e recusam
(Sr. Carlos Antúnez: Mas é uma loucura a pessoa sentir atração e pôr a mão, não querer, por que isso?)
Pelo seguinte: porque há no homem dois pólos de atração: um é a atração do homem [carnal] ─ no sentido amplo da palavra carnal, quer dizer, não é só sexto Mandamento, não é isso ─ e outra é do homem espiritual, também no sentido amplo da palavra.
Você imagine um homem a quem a gente quer dissuadir de tomar drogas alegando que ele está convidado para ir ver um panorama muito bonito, depois fazer uma excursão altamente [cultural] pela Europa, etc., etc… Contanto que ele não tome drogas.
Mas ele já tomou uma vez droga, já sentiu o prazer da droga. É uma loucura que ele faz pôr a mão nessas perspectivas que lhe são [oferecidas] e optar pela droga. Mas, pode ser que por culpa dele, ele dê preferência ao apelo do carnalis homo… [inaudível]. Pode ser.
Para você considerar ─ falamos… [inaudível]…que Deus que conversava com Adão nas tardinhas do Paraíso… vinha com um zéfiro… [inaudível] …e conversava com Adão; a serpente pode mais do que Deus em certa hora!
(Sr. Carlos Antúnez: Como pode ser isso assim?! Como se pode vencer isto inteiramente?)
Ah! Como se pode vencer é outra coisa. Como se dá é uma coisa, como se pode fazer… [inaudível] … é outra.
Como se dá é, propriamente… para mim o caso é um caso remoto. Para a geração de vocês, então, quase teórico.
Salomão, que chegou a escrever um dos livros inspirados e foi o que foi. Tudo que nós conhecemos [que] Salomão conheceu. E Deus ditou a ele o que ele escreveu.
Agora, ele em certo momento ─ parece que foi uma egípcia toda feiticeira e mágica, nem sei que espécie de porcaria ─ que casou com ele ─ era princesa. [Inaudível] palácio… [inaudível] …cheio de respeito humano. E ela parece que “psit!”, deitou a garra. Parece que é isso.
Bom, ele passou a ser o que você sabe que ele foi depois.
Agora, como é que é?
* A amnésia que Nossa Senhora permite que venha provar a quem Ela deu muitos “flashs”
É que a tentação do animalis homo tem isto que ela é próxima. E… [inaudível] …spiritualis homo parece próxima, nós estamos juntos, temos o deleite de estarmos juntos, mas não é palpável. Em certo momento, para provar o homem a quem deu muitos “flashs”, Nossa Senhora se retira um pouco. [Inaudível] … acontece.
E pior do que retirar-se, vem uma espécie de amnésia, a pessoa esquece de algumas tantas coisas. E, outras, a pessoa perde a esperança de que voltem.
Então, vem o demônio e diz: “Olha aqui! Olha aqui isso, para você! Segure! Pegue aqui! Isso você tem!”
Quer ver um exemplo?
É típico de nossa vocação ─ eu estou fazendo um longo solilóquio, mas… um se converte no outro, isso que é conversa…
Ah! Eu falava desse fenômeno e ia contar um fato engraçado, um fato característico e o fato me escapou da cabeça, desse desaparecimento.
Ah! É um fato que todos aqui conhecem.
* Nossa vocação no começo é uma chama acesa que depois mingua um pouco para que a pessoa possa ser tentada; as tentações que seguem a isso
Nossa vocação, no começo, é uma chama acesa. Para alguns é já no comecinho, para outros não, é a certa altura. Uma chama acesa. Depois de andados os primeiros… [inaudível].
Bem, em certo momento, ainda que a pessoa tenha sido muito fiel, essa chama mingua um pouco. Porque ela é uma chama tão grande que se a chama não minguasse… [inaudível] …era difícil o sujeito ser eficazmente tentado. Isso dá-se assim, não tem conversa.
E quando mingua a chama o demônio começa com tentações, qui pro quo, mal-entendidos, pequenos acessos de amor próprio, aridezes. A pessoa perde a esperança de que a chama inicial volte. Que é o que o demônio quer. Sobretudo a pessoa perde a esperança de que venha uma chama ainda maior do que aquela. Perdida essas esperanças, ladeira… pode-se lutar durante essa ladeira, mas é a luta de um exército que está embaixo contra um exército que desce a rampa de cima.
* Se a pessoa foi fiel a chama pode voltar; esperança da volta da graça dos “Giordanno”
E, às vezes, se a pessoa é semifiel, por isso mesmo essa provação pode demorar. E a pessoa alega: “Olha, está demorando!” A gente tem vontade de dizer para ela: “Mas é porque você é semifiel!” A resposta: “Pois você está louco, pois para mim ser semifiel já é tão difícil, quanto mais ser fiel inteiro, nunca eu agüentarei”. Ele não compreende que se ele for fiel inteiro a chama podia voltar.
Aqui está a explicação do fundo do caso.
Por exemplo: “Giordanno”. A gente tem que conservar a convicção de que aqueles “Giordannos” voltarão ainda aprimorados. A convicção. Se não conservar essa convicção, [uma] simples dúvida já abala a resistência. E prolonga a prova. É como o povo judeu naquele peregrinar. Tal qual! À medida que eles duvidavam o caminho ia ficando mais longo.
Bom, meus caros, meu solilóquio… está encerrado.
(…)
* Como era a confiança da Sra. Da. Lucilia
Ah! A relação dela com isso. Ela era uma pessoa que ─ dizia ontem à noite no São Bento, eu falei disso a respeito dela ─ tinha uma confiança heróica na Providência. Uma confiança que tinha um matiz diferente da nossa.
A vocação nos pede a nós, que nós confiemos em que tal coisa se dará ou em que tal coisa não se dará. Nós devemos confiar. Com ela não era propriamente assim. É que se dê o que se der, um certo lumen da vida dela acompanhará até o fim. Ainda que esse lumen entre em ocaso não desaparecerá do horizonte dela sem que ela tenha entrado no Céu. E por isto ela vivia nessa confiança. No fundo, não é dizer que não acontecerá nada de ruim; por pior que seja, tudo se arranjará em função dessa esperança. Era essa a posição dela.
* A intercessão da Sra. Da. Lucilia pode ajudar a reacender a chama
E eu acredito bem que a intercessão dela ─ eu acredito bem não, eu vi casos que me tornam isso patente ─ produz um certo reavivar disto, que se nós pedirmos bastante, pode chegar ao reacender da chama. Quer dizer, ela torna mais leve a coisa, mais agevole, mais praticável, encurta os caminhos pelo deserto, etc… E eu creio que isto involucra uma promessa de reduzir o caminho, de nos fazer encontrar a chama a qualquer momento e… [inaudível].
(Sr. Poli: Por onde podia acontecer o que acontecesse que para ela o “lumen” não desapareceria…)
Eu não aludo a mim, não era eu esse lumen, eu acho que se eu morresse ela ainda confiaria nisso.
(Sr. Poli: Eu acho que esse “lumen” era o senhor.)
Não, não.. [inaudível] …eu poderia ser um lumen, mas o lumen eu posso dizer a você, dar traços a você para saber qual é.
(Sr. Poli: Se nós tivermos nossa vida em função do senhor… o “lumen” está posto, não falta.)
* O “lumen” que se percebe no olhar da Sra. Da. Lucilia antes mesmo de ter o Sr. Dr. Plinio e que ela conservou até o fim
Uma [coisa] é a relação dela comigo, outra são as relações minha com você, com vocês. Não se confundem. Tome fotografias dela em moça, antes de se casar, por exemplo, por ocasião do aniversário dela que os eremitas do São Bento e do Praesto Sum ornamentaram um quadro dela aqui que estava muito bom, uma fotografia dela muito bem ornamentada. Está bem! Era dela moça e, se minhas avaliações não estão erradas, bem tempo antes de se casar. Ou algum tempo antes de se casar. Um olhar…
Bem, aquilo era o lumen dela. E que ela conservou até o fim, quer dizer, algo que ela via, que ela procurava e que ela maturou ou que maturou nela… e para o que ela olhou até o último instante.
(Sr. Carlos Antúnez: [Inaudível].)
* Em todas as fotografias da Sra. Da. Lucilia percebe-se que ela está considerando um “lumen”
É difícil dizer, mas você tome todas as fotografias dela, ela no fundo está considerando esse lumen. Aqui…
(…)
…ainda. Você vê, aí no “Quadrinho”, que ela não está olhando nada de concreto, aliás, ela estava com catarata avançada, por causa da idade, e eu creio que ela via muito pouco, nunca quis perguntar a ela assim, eu levei ao médico, o médico me disse: “Isso é só operando”. Ela já estava numa idade que operação seria um trauma impossível. Ele disse baixinho. Ela não ouviu. Não fiz operar, acabou-se.
Mas, de um modo qualquer ou de outro, acaba sendo que ela apesar disso, olha aqui para um ponto indefinido, mas que acende uma luz nela.
* O que era propriamente esse “lumen” na Sra. Da. Lucilia
(Sr. Guerreiro Dantas: Isso sempre me impressionou, o senhor poderia explicar esse “lumen”?)
Evidentemente era algo de substância, de fundo religioso. Mas como uma senhora o concebe, não portanto, teologicamente expresso, mas era creio eu, uma graça ─ tenho certeza de que era uma graça ─ que pelos efeitos que essa graça produzia na fisionomia dela, era a graça que a fazia ver um horizonte longínquo, cheio de sublimidade e, ao mesmo tempo, exigindo dor e dando afabilidade. E que a fazia relacionar muito as coisas de maneira a ela achar bonitas, agradáveis, belas, quando eram criadas por Deus, essas coisas todas.
E comentários de um pormenor… ela era muito pormenorizada em tudo. Comentar, por exemplo, o franzido das pétalas de um cravo e como esse franzido numa pétala era diferente de outra e, a bonita variedade que isso fazia. Eu não me lembro em concreto que ela tenha comentado, cravos comentou; que comentários fez, não me lembro. [É] minha má memória. Mas eram nessa clave.
Mas vendo nisso uma beleza que ficava assim situada nesse horizonte. Todas as coisas da natureza, ao contrário de mim, ela era mais sensível à natureza do que eu e, menos sensível à arte do que eu. Isso se explica, porque eu vejo, no fundo, na arte, um fenômeno de opinião pública, e os fatos de opinião pública ela pegava de um modo muito vago, muito incompleto. Como era vocação dela, era tão ligada à minha, mas era outra! É compreensível, é até absolutamente natural.
Tomem, por exemplo, uma fotografia que ela tirou em Paris, à maneira daquele tempo, sentada num banco de madeira laqueado de branco. Muito pouco bonito o banco. Mas era o modo daquele tempo, sentada e assim. Ela sabia que estava sendo fotografada e tomou uma atitude conveniente a uma fotografia, como se tomava naquele tempo. Depois era impossível não saber, com aquele sistema daquele magnésio, acendia aquela história toda… era inteiramente… aquilo era antes da Primeira Guerra Mundial, era impossível ela não saber.
E ela tomou a atitude que se tomava quando uma senhora era fotografada naquele tempo, por exemplo, uma das atitudes possíveis era aquela, ela tomou aquela atitude.
A gente vê que ela está prestando atenção, mas que o olhar dela está noutra cogitação. Que era continuamente a consideração daquilo e uma interpretação da humanidade, da vida, portanto, dos próximos dela, em função de uma desilusão, que vinha crescendo, crescendo, crescendo…
(Sr. Carlos Antúnez: Uma desilusão contra todos, menos…)
Espero, não é? Fiz o possível para [que] não houvesse essa desilusão a meu respeito.
(Sr. Carlos Antúnez: Digo com tudo que não tinha relação com o “lumen”.)
É isso. Era ver as devastações que a ausência desse lumen produzia nas almas.
* O Sr. Dr. Plinio recebeu muito desse estado de espírito da Sra. Da. Lucilia e ela percebia isso
(Sr. Carlos Antúnez: É óbvio que a vocação do senhor tinha que haver com o “lumen”.)
Tinha, no sentido que eu recebi muito disso. E que ela devia ver em mim. Mas ela dava disto manifestações mínimas. Dava muito carinho, mas palavras faladas, não. E disso eu dei ontem no São Bento uma longa explicação, creio que foi gravada, não é Fernando?
(Sr. Fernando Antúnez: Sim!)
Você poderia pedir para você ouvir. É tão longa, mas de outro lado, mostra tanto um lado de pulchrum dela que você poderia perfeitamente ouvir. Mas ela de nenhum modo, é uma coisa que não me consta, que mamãe me tenha feito um elogio a ninguém. As cartas dela transbordam de carinho e de um carinho altamente elogioso, de maneira implícita, mas ela diz muito como ela me quer bem, mas não fundamenta a razão do querer bem. E isso…
(Sr. Guerreiro Dantas: Isso é de paulista…)
Paulista, mas entra muito do modo de ser antigo, uma porção de coisas, vocês não têm idéia. Se vocês apelarem para a fita do São Bento, podem ouvir.
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas a Da. Gabriela, avó do senhor, parece que era um pouco mais explícita.)
Não. Ela tinha um filho pelo qual ela tinha loucura, era o primogênito dela. Ela…
(…)
…nunca… [inaudível] …uma cena em que ela elogiasse o pai para ele. Ela me fazia elogio do pai dela, para ele nunca fez.
É todo um modo de ser antigo, que tem muita substância e que valeria a pena vocês pegarem a explicação na fita que gravei no São Bento.
(Sr. Guerreiro Dantas: Há um princípio medieval nisso, ecos.)
Muito, muito. Mas tem outras explicações ainda, é preciso ─ é uma coisa enorme e se vocês têm interesse no assunto, precisam ouvir a fita, mas ouvindo a fita pode explicar largamente.
(Sr. Poli: Esse “lumen” da Senhora Dona Lucilia, que ela sempre teve, era primeiro uma expectativa do senhor e depois no considerar o senhor o dom de Nossa Senhora.)
Eu acho que sim. Eu não estou negando, mas eu sou obrigado a dizer por probidade, por objetividade que isto é uma impressão que eu tinha, mas que as palavras explícitas dela não justificavam, a conduta justificava. Eu sei que vocês ficam desconcertados.
(Sr. Carlos Antúnez: E aquele elogio que ela fez do senhor, que ela só tinha ao senhor, mas o senhor tinha mesmo!)
Mas isso não é um elogio. É uma manifestação de afeto, não confunda. Manifestação de afeto [de] toda espécie, a toda hora. É diferente de elogio.
(Sr. Carlos Antúnez: Mas aí não estava dizendo que o senhor era o “lumen” dela?)
Não… eu acho muito provável que isto houvesse pelo meio, mas dito não está.
(Sr. Carlos Antúnez: Mas ela disse que só tinha o senhor…)
Não! Depois […]1e […] se você visse o modo de ela tratar comigo, é […], Poli, por exemplo, viu, é [de] todas as formas e graus de união, de consenso, de respeito, ─ até respeito ─ de afeto, de submissão, tudo! Mas, dizer ela não dizia. Porque antigamente isso se exprimia de outra maneira.
Para te dizer tudo numa palavra só, dizer dito: é fruto da influência norte-americana. Os antigos não diziam. Você toma a “História de uma Alma”, de Santa Terezinha, você percebe que ela transbordava de veneração e afeto pelo pai dela. Procure uma cena em que ela dissesse isso para o pai. Segundo a influência norte-americana ela devia dizer.
(Sr. Carlos Antúnez: A relação entre Nosso Senhor e Nossa Senhora também era assim.)
As palavras finais: “Filho eis tua Mãe; Mãe eis teu filho”. São palavras que você pode entender repassadas de afeto. E só se pode imaginar… “Mulher, eis o teu filho; filho eis tua Mãe”. Pode entender repassadas de afeto, mas são palavras sóbrias.
Agora, eu sei que vocês se desconcertam muito.
(Sr. –: Não, absolutamente. Aprendemos.)
* O Sr. Dr. Plinio nunca viu a Sra. Da. Lucilia rezar com cara de “heresia branca”
Como, por exemplo, eu vi ─ noutra clave, inteiramente diferente ─ mamãe rezar inúmeras vezes. Nunca a vi rezar com cara de “heresia branca”, sorrindo para a imagem ou atirando beijinho… Nada, nada, nada, nada, nada disso, absolutamente nada. Muito recolhida, muito respeitosa. O afeto transbordava dela, de “pézinha”, rezando… [inaudível]. O próprio das coisas.
Vocês dirão: “Bom, nós não nos adaptamos”.
Isso é uma outra questão, já é uma outra questão.
(Sr. Guerreiro Dantas: É um estilo de conceber a vida absolutamente superior, diferente do que se via…)
Quer ver uma coisa? Nós aqui estamos reunidos, estamos conversando e é evidente que temos um certo deleite em estar conversando. Agora imaginem que eu julgasse obrigação, na hora da despedida, significar esse deleite dizendo para cada um, na hora do cumprimento: “Prazer em vê-lo”. Que desolação! Vocês são seis ou sete aqui na sala; imaginem na hora da despedida: “Então, Guerreiro, prazer em vê-lo. Fiúza, tátá… prazer em vê-lo. Então, apareçam sempre, que terei prazer em vê-los”.
Dá… [inaudível]. Vocês não ficariam sumamente… [inaudível]. Qualquer um de vocês sentiria que estou querendo pôr fora da casa, não é? Você não teria a sensação de que estou empurrando para fora?
* O olhar da Sra. Da. Lucilia
(Sr. Carlos Antúnez: O senhor falava agora, no São Bento, [sobre] o olhar que ela tinha…)
Ah! Uma coisa assombrosa!
(Sr. Carlos Antúnez: …no saudar, o olhar…)
Ah! Isso, desse ponto de vista nem tem dúvida. Mas, por exemplo, por assim dizer, nunca paramos para nos olhar um ao outro. Por assim dizer, uma vez ou outra, quase mais por gracejo, assim, instantaneamente, uma coisa assim… [inaudível] …muito passageiro.
(Sr. Carlos Antúnez: Mas, o senhor peregrinou nesse olhar.)
Uf! Oh, e quanto! Eu usei metáfora, como uma ave voa no céu, no céu atmosférico.
Então, meus caros, está respondida a pergunta ou não?
* A personalidade de Da. Gabriela; os atuais “cartõezinhos de visita”
Tomem de outro lado, o quadro de minha avó, aqui. Ela não está dizendo: “Eu sou Fulana… eu me tenho em conta disso e daquilo”. Aparece. Entenda quem ela é, quem ela não é, está dito.
Agora, vocês todos, com certeza, têm o desprezo por esse tipo de gente que se apresenta e vai estendendo cartãozinho de visita, com… O que aliás é muito americano, no Bureau já mandaram imprimir toneladas de cartões de visita, porque vão… cartãozinho, cartãozinho com endereço, hora em que… [inaudível]. Relações comerciais, já está tudo comercializado, lá.
(Sr. –: É o rótulo.)
É o rótulo. Qual é o conteúdo?
Lembra-me de uma pessoa chegada a nós que telefonou há algum tempo, antes do Mário partir para os Estado Unidos, dizendo ao Mário que estava aqui um príncipe vendendo para ele o título de marquês… E perguntava um pouco ao Mário o que achava disso, etc… Dá mal-estar!
E há outro que comprou de um príncipe desse gênero, aqui, o título de “duque”. O indivíduo tinha o nome de uma família antiga de São Paulo, […]2Dom Pedro me contou. E disse: “Olhe, de acordo com as regras da antiga nobreza, eu não poderia aceitar um título de uma potência estrangeira sem licença do meu Imperador. Então venho pedir a Vossa Alteza que me dê licença de… ratifica o título de duque que eu recebi”. Príncipe grego de charlatanice, descendente dos imperadores de Bizâncio…
E Dom Pedro disse a ele: ─ ele mostrou o título a Dom Pedro ─ Dom Pedro leu, enrolou o título e disse: “Você quer um conselho? Guarde esse título no fundo de sua gaveta e não conte a ninguém. É o único comentário que eu tenho que te fazer”.
[Inaudível] …cartõezinhos de visita são meio parecidos com isso. Não é nada! Nada!
Então, também… [inaudível] … falar, é pouco. A questão é marcar pela maneira de ser. Isso diz tudo.
Eu desconfio que lá a nossa Venezuela está cada vez mais americanizada.
(Sr. Carlos Antúnez: Inteiramente!)
Inteiramente, não é?
* Não se pode ser espontâneo; o mais autêntico do homem não está no “élan” que ele teve, está na deliberação que ele tomou
(Sr. Carlos Antúnez: A espontaneidade tem isso, ir dizendo tudo. Mas o olhar tem coisas que não há palavra que diz.)
É porque eles não acreditam no pecado original e não acreditando acham que o homem dando vazão ao que há dentro de si só sai coisa boa. Para quem [acredita] no pecado original, sabe quanto isto é falso.
Então quem acredita no pecado original não pode ser espontâneo… [inaudível]. E sabe que o mais autêntico do homem não está no élan que ele teve, está na deliberação que ele tomou. Que é muito diferente do… [inaudível].
Mas para essa pessoa aqui, a substância da civilização norte-americana é… [inaudível] … é negar o pecado original.
Eu esses dias vi uma norte-americana que não nega o pecado original, acho que… [inaudível] … a senhora T. [Taton]. Aquilo… [inaudível] … uma verdadeira israelita na qual não há fraude. Uma pessoa direita, católica verdadeira, respeitável, eu tenho a melhor das impressões dela.
Então, meus caros, se há mais algo, vamos, se não há caminhamos. O que [é] que há…
* O campo no qual se opera a troca de vontades é tão profundo que as diversidades harmônicas existem, mas pela união que há na nossa vocação não as percebemos
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: …união de Nossa Senhora com o senhor…)
Eu estou no perpétuo projeto de ler algo sobre a troca de vontades e não encontro tempo. Vocês estão vendo a minha vida como é barbaramente bloqueada a esse respeito. Eu lamento de estar me reportando assim às exposições que já fiz, mas eu recentemente fiz umas duas exposições que talvez tenham chegado ao Rio, não sei bem, sobre exatamente esse ponto, visto apenas com vocabulário diferente: “alteridade e união”.
(Sr. Poli: Vai essa semana para o Rio.)
Vai essa semana. E eu penso descrever no que [é] que nós somos outros, um em relação a cada um… [inaudível] …e no que nós somos um. E como aquilo que nos une é de um lado o que temos de afim e, de outro lado, a alteridade harmônica. As duas coisas constituem uma… Alteridade harmônica digo mal, a diversidade harmônica.
Eu acho que o fenômeno da troca de vontades tem uma coisa mais profunda, o campo no qual essa troca se opera é tão profundo que as diversidades harmônicas existem, mas a gente como que não nota. Mais ou menos como quando aparece o sol, as estrelas continuam no firmamento, a gente não vê porque o sol ilumina. Então, não se percebe nada.
Assim também, essas diversidades harmônicas, quando a união dentro de nossa vocação é muito grande nem se percebem. Nem se percebem. Se alguém chamar a atenção… [inaudível] …a gente diz: “Por que é que ele está falando sobre essa bagatela?! Não vem ao caso, não é nada!” E, aí, há uma verdadeira unidade.
(…)
…não há nada de idêntico ao “Giordanno” e ao “Bhrama”, mas há uma fosforescência disso, nas reuniões à noite. Basta essa fosforescência para que qualquer coisa em que um esteja diferente do outro, a gente não tem vontade de chamar atenção nem de notar, nem nada disso. Imagine, por exemplo, ─ nunca houve, porque não trata de nações vizinhas ─ mas que houvesse uma questão limítrofe entre Chile e o Brasil. Como soaria mal eu agora evocar isso com o Carlos Antúnez.
(Sr. Carlos Antúnez: Não me importaria.)
Mas imagine se eu evocasse, era pior do que o “prazer em vê-lo”. Se eu evocasse agora para vocês e dissesse: “Meu caro Carlos, tomando na devida consideração seus brios de chileno, na questão dos limites e, portanto, a prevenção com que você deve receber tudo quanto eu digo, eu entretanto, tenho que lhe dizer a seu respeito tal coisa”. Caía o teto!
Mil outras coisinhas assim. Rivalidade de São Paulo com Minas Gerais, um certo momento, dizem as más línguas, Minas Gerais e Rio Grande do Sul se aliaram contra São Paulo… Tudo isso… o que é essa “besteirada”? Não vão falar das asneiras. Não nos separa em nada, não existe! Pronto, acabou!
É só o “flash” se retirar um pouco, então…
(…)
…puder imaginar, não se apresenta, em comparação com…
(…).
(Sr. Carlos Antúnez: Não deveria ser uma relação que nunca na História houve…)
(…)
[Orações]
(Sr. Guerreiro Dantas: Com esse assunto se sente mais explicável, etc., o próprio profetismo. Sem esse assunto, fica…)
Fica vazio, é uma coisa que fica oca. Por maior que seja a casca.
(…).
Vamos pedir a Nossa Senhora… [inaudível] … rezado.
(Sr. Carlos Antúnez: [Inaudível].)
…um homem tão magro carrega um outro tão… [inaudível] … oitenta e quatro quilos… [inaudível].
…nos direitos do homem… [inaudível] … o Carter se soubesse disso lavrava um protesto contra… [inaudível].
(Sr. Fernando Antúnez: Por isso que ele perdeu.)
[Risos]
Meus caros, que Nossa Senhora os ajude.
*_*_*_*_*
1 ) As reticências entre colchetes parecem ser nomes que o datilógrafo suprimiu.
2 ) Foi suprimido o nome da família.