Conversa
de Sábado à Noite ─ 25/4/81 – p.
Conversa de Sábado à Noite ─ 25/4/81
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O que é refletir segundo o conceito do Sr. Dr. Plinio; qual é o nosso defeito nessa matéria * Qual é o grande problema da pessoa que não adere às graças da inocência primeva * “Eu para defender a minha vida não teria feito os esforços que fiz, pelo que tenho feito para defender a minha inocência”; como o Sr. Dr. Plinio progrediu na inocência * A preocupação do Sr. Dr. Plinio em proteger e cultivar a própria inocência * No Sr. Dr. Plinio as explicitações vão surgindo, mais ou menos, como as irisações da madrepérola * Na luta para manter a inocência esta fica enobrecida como uma árvore que tomou tempestade e cresce em irisações com os vendavais * Fatinho que explica porquê o Sr. Dr. Plinio usou a metáfora da madrepérola para esta exposição * Definição de enlevo e de admiração
(Sr. Guerreiro: …sabermos o que o senhor cogita, mais do que perguntarmos… [inaudível] …isso nos daria rumos…)
(Sr. Marcos Fiúza: [Inaudível] …o senhor diante da perspectiva atual.)
* O Sr. Dr. Plinio externa uma preocupação a respeito da Reunião de Recortes: as pessoas refletem pouco sobre os temas tratados
Quer dizer, numa noite eu posso falar… [inaudível] … porque… [inaudível] … agora habitualmente eu não acharia indicado. Porque umas das coisas que me preocupam é o fato do comum das pessoas, [o] grosso das pessoas que assistem a Reunião de Recortes, refletem pouco, depois, sobre a matéria. E se eu não tenho uma conversa para poderem dizer o que estão pensando para que eu possa puxar o gancho que emerge nas perguntas… [inaudível] …, eu… [inaudível] … sobrevoar… [inaudível] … E é exatamente o contrário do que eu quereria.
Eu vejo que minha resposta os deixa em certa perplexidade.
Mas… [inaudível] … por uma noite, é explicável, compreende-se… [inaudível] …
A sua pergunta se trata no fundo do seguinte:… [inaudível] … há um belvedere interior… [inaudível] … no belvedere interior seu… [inaudível] …
Por exemplo:… [inaudível] …
… [inaudível] … várias vezes a palavra tema. O que é um tema? Refletir sobre um tema, o que é refletir? O que [é] que é tema?
* O que é refletir segundo o conceito do Sr. Dr. Plinio; qual é o nosso defeito nessa matéria
É preciso cerner [rodear] ─ como se diz em francês ─ num tripé para a gente poder responder. Isso toca na nossa coisa agora a noite. Refletir não é o refletir escolar, universitário, é uma outra coisa. É ter a mentalidade de um modo tal que se sinta posto em causa pelo tema. Essa é a questão. E que refletir, portanto, como reflete sobre as questões de quando a gente está em causa. Ou seja, que a gente procure pensar várias vezes, dando argumentos, contra-argumentos, explicitando-se, desenvolvendo-se, em função daquilo que a gente está pensando. Porque a gente está concernido naquilo.
E eu acho que o defeito nosso é que temos personalidade feita de tal maneira que nós não nos concernimos senão vagamente com essas coisas. E por cima. E que nós deveríamos responder a pergunta seguinte: o que nos concerne de fato? E deixar isto, tentar vencer isto. Agora, é estimulante, é benfazejo, etc., etc., que se converse um pouco de como é que pode ser isto numa pessoa mais velha, e portanto mais experiente. E que esse belvedere de tempo lhes dê ânimo para caminhar nessa direção. Portanto da História, História do nosso tempo, História do passado de tantas coisas, de tantas coisas realmente.
(Sr. Guerreiro: “Belvedere” do profetismo.)
É bem verdade no sentido refutation da palavra, e entrarmos no belvedere. A expressão é um pouco pretensiosa, se a gente faz a etimologia da palavra “bel-vedere”, coisas belas. Vamos tomar a expressão no sentido corrente: São Paulo tem um belvedere, que eu saiba, é na ponta da [avenida] Higienópolis, aquela espécie de pracinha banguela, que está ali. Vamos tomar nesse sentido, belvedere, no sentido corriqueiro e comum e não no sentido de saboroso italiano.
Vamos entrar dentro do tema.
* Qual é o grande problema da pessoa que não adere às graças da inocência primeva
Eu acho que se a gente recebe graças da inocência primeva e [não] adere a ela com toda alma, o grande problema para a pessoa, não é de fazer carreira, de se deixar admirar pelos outros, etc., etc., a pessoa pode ter para isso tudo um apego fenomenal, mas não é o grande problema. O grande problema é não ser compelido a ser de outra maneira. Essa é a questão. É, mais ainda, conseguir ser cada vez mais aquilo. Quer dizer, isso passa por cima da fortuna, passa por …, porque a pessoa tem isso internamente: vê-se a si mesma, como é na sua inocência. E tem uma identidade com aquilo que a pessoa defende essa identidade contra os assaltos dos outros mais do que defenderia a própria vida.
* “Eu para defender a minha vida não teria feito os esforços que fiz, pelo que tenho feito para defender a minha inocência”; como o Sr. Dr. Plinio progrediu na inocência
Eu para defender a minha vida não teria feito os esforços que fiz, pelo que tenho feito para defender a minha inocência. Pela idéia de que se fosse viver sem minha inocência eu seria um mero rebotalho ─ minha caricatura ─, eu me tornaria sórdido com os sórdidos e pecador com os pecadores. Isto não! É o que não admito, não quero, não pode ser.
Daí uma dupla faixa de pensamento até hoje, dentro do belvedere e, uma é: como cada vez mais divisar as coisas que a inocência vê. E outra é: como cada vez mais encontrar explicitações, argumentos, expressões, etc., etc., para jogar contra o pecado e para deixá-lo sem jeito.
Combater a Revolução, quer dizer, fazer recuar e levar à derrota o que é Revolução.
* O contentamento do Sr. Dr. Plinio em menino no manusear os artefatos de madrepérola
Eu me lembro que naquele tempo, no tempo de menino, de mocinho, tudo mais, onde a indústria no mundo era muito menos do que é hoje e era muito mais freqüente o uso de madrepérola para uma porção de usos. Chifre e outros materiais que [não] esse plástico. Portanto ─ como pelas mãos de qualquer menino ─ me passava de vez em quando madrepérolas: canivetes de madrepérolas, outros objetos assim de madrepérola com uma certa freqüência. Botões em quantidade, quase todos os botões eram de madrepérola, era uma torrente. No Chile, mais antigo, devia ser a mesmíssima coisa. E por coisas que me abstenho de analisar, essas madrepérolas, depois foram se tornando ordinárias, foram preparando o advento da matéria plástica, mas antigamente eram as madrepérolas muito desiguais e algumas eram muito comuns, não tinham mais do que o que tem no fundo da ostra, para a gente ver. E, outras, eram muito bonitas, como que por acaso, pelo meio. A gente mexia com o botão na hora de preparar o pijama ou a camisa para vestir ou qualquer outra coisa assim, e dava com o reflexo da madrepérola. Lindo!
Porque o canivete de madrepérola era ordinário ou havia, pelo menos, muitos ordinários, mas menino, no meu tempo, gostava muito de mexer com canivete. Canivetões, canivetinhos, compravam canivete, coisa de menino.
* O Sr. Dr. Plinio se perguntava porque as pessoas não paravam para comentar as belezas da madrepérola
Naturalmente eu comprei canivete também e mexi com canivete de outros, etc., etc., e com isso muita madrepérola me passou nas mãos. E chamava-me atenção de vez em quando uma madrepérola alvíssima, nacarada.
Eu pensava: “Como é que essa gente não pára, ─ essa gente era todo mundo ─ não se detém, porque nós não conversamos agora sobre isso?” Eu estou dizendo bobagem porque sou um menino, ele está dizendo mais bobagem, ainda mais, porque é quando se dava o caso, às vezes podia ser um menino bom, quando era um menino ruim: “Você está dizendo bobagem e coisa facinorosa, não é melhor pararmos e agora comentar esse botão?” Agora, se eu for comentar esse botão, esse canivete, a madrepérola do canivete, vão dizer que eu sou louco, disparatado, etc., etc., que isso não deve ser, que é uma bobice. E vão me dar como razão que a madrepérola custa barato. Mas, se a madrepérola fosse cara, porque seria rara, eles estavam usando jóias de madrepérola. Faziam relógios revestidos de madrepérola. Punham um distintivo na lapela com madrepérola; eles empanturravam de madrepérola o que pudessem.
Mas, como Deus fez isso com abundância, embora tenha a beleza de uma jóia, eles não apreciam porque não é caro. E no fundo eles estão apreciando o dinheiro, não estão apreciando a madrepérola!
* A preocupação do Sr. Dr. Plinio em proteger e cultivar a própria inocência
Ora, não aceitar as idéias deles, não aceitar…, enfim, tudo mais. Pensar nas coisas por onde a minha inocência cada vez fique mais ela mesma, por assim dizer, para enriquecer o pulchrum da minha madrepérola.
Não sei se percebem como a questão doutrinária, aí, me concerne! E é diferente de uma questão vista no livro. Por exemplo: no livro para fazer exame.
E eu não sinto que o mesmo seja com cada um de nós… Eu os acho muito menos concernidos pelos problemas. Então, por exemplo, (…)
…aparece, de repente, uns óculos escuros quaisquer. Vocês prestem atenção ele passa dois, três anos com aqueles óculos nos olhos. Às vezes será uma necessidade, tem oftalmia, tem qualquer coisa, é preciso, está bom. Mas, às vezes é porque o oculista ficou com medo que desse conjuntivite nele, pelas mais simples razões. O oculista vira para ele e diz: “Olha, eu vou receitar uma modificação de óculos para você, mas eu acho conveniente você usar tal cor assim”. O sujeito vai, põe aquela cor diante dos olhos sem discutir e passa a ver o mundo daquela cor. O que vale a luz para ele? Os antecessores dele já eram assim. Não eram concernidos pela luz. Eu não sei se os concerne. Eu fico pasmo, mas não sei o que [é] que concerne a eles, mas as coisas que concernem a madrepérola, nos concernem pouco.
Bom, estávamos no belvedere. Aqui a gente vê um roteiro de preocupações. Esse roteiro tem um que aponta, com o curso do tempo a ponta. A ponta de tudo quanto eu deveria ser nesta vida. Mas não basta! Por que o que é ver? Uma coisa é um brucholinho, percebido no fundo de meu firmamento, mas que brucholeiam. Outra coisa é saber dizer para mim mesmo e depois saber dizer para outros. Não é só explicitar, não, é correlacionar, estabelecer de maneira tal, em doutrina, ordenar uma doutrina. E essa doutrina seja explicitável, demonstrável, possa ganhar foros de cidadania. De maneira tal que a madrepérola possa pelos séculos continuar a… [inaudível] …
Ela, que eu conheci tão indecisa e tão trêmula dentro do desdém.
Vamos dizer, por exemplo, vocês assistiram hoje uma reunião ─ o Fernando teve a paciência de assistir duas dessas reuniões.
* No Sr. Dr. Plinio as explicitações vão surgindo, mais ou menos, como as irisações da madrepérola
Vocês tomam tudo que eu disse e notarão que há de vez em quando uma certa progressão, na ordenação, na explicitação, na sistematização de coisas que anteriormente já estava apresentada por alguma forma, algum jeito, alguma coisa. Essa elaboração, quer dizer, transformar em quadro fixado em tela o que eu vi no esplendor da realidade viva, é a minha atual preocupação.
(Sr. Guerreiro: … [inaudível] …)
[A sua pergunta] eu respondo figuradamente para andar mais depressa, nunca se vê, a imobilidade absoluta do homem não existe, o homem move-se sempre um pouco. E nunca se vê uma madrepérola verdadeiramente nacarada de modo durável sem que ela… há uma irisação como o pulsar de uma estrela. Só que o pulsar de uma estrela repete. As irisações nunca se repetem inteiramente. Eu estou falando de madrepérola, podia falar da opala, mas a madrepérola pela alvura, me parece exprimir. A madrepérola é uma imagem mais casta do que opala, a madrepérola tem aquela alvura ─ a boa madrepérola ─ aquela alvura muito bonita.
Então, se me perguntarem, nesse sentido, o que eu fiz hoje; mil pequenas reflexões, que não dão para uma exposição, que não dão para uma conferência, não dão para nada, de tão pequeninas que foram; mas, que de repente dão uma metáfora, de repente dão num ponto novo, etc., etc., que vão sendo acumulados ao longo do dia por um trabalho assim, contínuo, que não cessa. Que não se descrevem num dia, mas que vão andando, andando, andando. E que se descrevem por etapas.
Isso mesmo, que estou dizendo aqui a vocês, é semi-preparado. Há um ano atrás eu não saberia dizer isso como estou dizendo, mas eu quis muito poder dizer o que estou dizendo e semi-preparei, mais ou menos, tudo que agora estou terminando, enquanto falo, porque uma pergunta ─ acolhida, vocês bem vêem como ─ me leva, ─ não digo precipitar ─ mas antecipar um pouco uma coisa que estava longamente em elaboração.
Quer dizer que eu conheci o belvedere, claro que conheci. Ter esta garra no descrevê-lo, eu não tinha.
* O adversário queria reduzir ao Sr. Dr. Plinio criando-lhe uma vida temporal insuportável
Tem, de outro lado, a luta contra o adversário. Quer dizer, ele quer me reduzir ─ e aqui entrava uma parte que era legítima, mas não era tão nobre da minha reação primeira. Ele quer me reduzir e eu me oporei como uma fera, porque ele está querendo me tirar algo que vale mais do que a minha vida. Como ele quer me reduzir? É criando condições, para mim, de uma vida temporal insuportável. Ora, eu não tenho nenhuma vocação para nenhum convento, não tenho vocação para padre, não posso fugir desta coisa que está por aqui, portanto, e, dentro disso, sou mais ou menos como peixe fora d’água. Então, que solução para o caso?
Eu não quero viver do jeito deles, eu não posso viver sem eles, é preciso compelir para viverem como eu quero.
Aqui há qualquer coisa de muito nobre e qualquer coisa que é desejosa de uma vida terrena agradável, o que foi durante muito tempo um anelo meu. Foi com a luta e uma porção de coisas, etc., etc., que esse desejo pode ser… restringido.
(Sr. Guerreiro: Mas é um agradável diferente do agradável…)
Completamente. Totalmente diferente.
(Sr. Fernando Antunez: É inocência, paradisíaca.)
Paradisíaca, é preciso dizer bem, muito terrena. O gosto que eu tinha pelo luxo.
(Sr. Fernando Antunez: Vê-se que é um luxo bom.)
Aliás, eu ia dizer isso, do luxo ainda gosto, mas gosto por razões mais altas.
(Sr. Fernando Antunez: Mas a gente vê que isso é da inocência.)
Que havia muito de nobre nisso, havia.
* Na luta para manter a inocência esta fica enobrecida como uma árvore que tomou tempestade e cresce em irisações com os vendavais.
Mas voltando à madrepérola, para encurtar caminho, acontece o seguinte: é que quando eu… [inaudível] … com a madrepérola eu notava muito que às vezes as irisações mais bonitas dela [apareciam] porque ela tinha levado alguma pancada, talvez por quem a modelou para ser botão, nos pontos tinham se formado umas mossas, uns quebrados, uns chanfrados. E ali, pela configuração da pedra, as irisações mais bonitas ficavam. E também na pancada dessa luta a inocência deita, fica, não inocência quebrada, mas ela fica como uma árvore que tomou tempestade. Fica enobrecida, mais trabalhada como um couro lavrado. E, aí, com isso, a inocência lucra em irisações.
Ela lucra com a luta, lucra em bater e lucra em apanhar. Ela cresce em irisações com os vendavais. E, portanto, eu sentia isso e compreendia quanto essa luta contra eles me ajudava mais a eu ser eu mesmo. Razão a mais de gostar de lutar, de destruir para mim uma mentalidade, um modo de ser, de lutador que não era nativo. Vinha daí.
(Sr. –: Isso foi quando?)
* Desde menino o Sr. Dr. Plinio sabia que para ser fiel às irisações da madrepérola deveria lutar pelo Reino de Maria
Isso começou a ser lá pelos dez anos, vai até setenta e três… quer dizer, ao longo da vida. Não tem limite, oxalá Nossa Senhora me ajude para ser até o último suspiro.
Pari passu, com isso começa aparecer, ─ pari passu como? Pouco depois ─ uma elaboração natural. É o terceiro aspecto do belvedere, e esse é muito mais alto ─ já não é mais a reivindicação de condições que me permitam viver, mas é a força de lutar pela vida, compreender que a causa valia incomparavelmente mais. E que se eu quisesse ser fiel às irisações da madrepérola era preciso lutar pelo reino d’Ela. Absolutamente falando independente de mim. Então o jogar-me na luta com todos os sacrifícios, todas as renúncias, etc., que a luta trouxe. O segundo ponto, sempre dentro do razoável, eu tenho podido eliminar o suficiente para ter um grande gosto pela ordem temporal, mas não para mim, pelo ideal. Isso sim. E o ideal foi identificando-se, cada vez mais, com a Igreja Católica e a ponto de ser só Igreja Católica. Igreja Católica, entendam bem, vista como… como ela deve ser vista na coerência de sua própria doutrina, sua própria santidade.
Estas coisas, também, se decompõem numa porção de panoraminhas. Eu preciso dizer, nessa luta, no segundo ponto, (…)
* Fatinho que explica porquê o Sr. Dr. Plinio usou a metáfora da madrepérola para esta exposição
…um papel de carta muito fino, do pai do Luizinho. Mas como ele era o Luiz Assunção Filho, o papel de carta com a iniciais do pai ficaram para ele. Então ele ficou com esse papel de carta. O Andreas Meran, acho que sem ter idéia do preço das coisas ou tendo e querendo ser amável, etc., como ele é, pegou esse papel e escreveu em cima uma carta. Parece que meio ajudado pelo Luizinho, não sei bem, mas a nota é vienense, a nota da carta é vienense. Eu até guardei a carta, tenho aqui.
As letras, as iniciais, são feitas de madrepérolas, não sei se coladas, enfim, fixadas sobre o papel. Mas madrepérolas de muito boa qualidade. E eu fiz reluzir, à noite, a madrepérola diante do abatjour e lembrei-me da madrepérola como simbolizando, adequadamente, todo aquele passado que eu espero tenha se tornado um presente. Daí o fato de me ocorrer agora a metáfora quando eu comecei a fazer a exposição.
Nós podíamos, então, pensar na madrepérola de nossas almas.
(…)
para usar uma expressão muito mais interessante, como tinha que ser, é dos franceses, não é? Há certas pessoas que quando a gente mostra a lua com o dedo, olham para o dedo e não olham para a lua… isso é apenas quem admira toda, toda a Igreja, tudo, pela análise. É uma constatação de algo de bom, meritório, etc., etc…
Mas, aí, não há… [inaudível] …
* Definição de enlevo e de admiração
(…)
O enlevo é admiração que a gente tem em vista de algo que a gente conheceu num “flash”. Admiração é algo que a gente conheceu sem “flash”.
(Sr. Guerreiro: “Flash” é uma visão da realidade…)
Discernimento, a palavra visão é perigosa.
(Sr. Guerreiro: …o “flash” é um discernimento naqueles aspectos em que essa realidade é cheia de sugestões em número mais universal. É isso o “flash”?)
É, mas entra no “flash”, a meu ver, algo de sobrenatural e da graça. Não é portanto o aperçu de um analista muito vivo que de repente pega o jogo. É isto mais o sobrenatural, que nos faz discernir um imponderável qualquer. Eu acho que o “flash” participa do discernimento dos espíritos.
Essa surrada imagem de uma luneta que concentra os raios do sol e pode pegar fogo numa folha. Há um tempo igual a zero, que vai do momento em que o raio do sol penetra na atmosfera e toca na luneta. Pela idéia que eu tenho não sei se é verdade cientificamente ou não, mas a luz do sol é tão rápida e a atmosfera é tão pequena em comparação com os espaços anteriores que ela transpôs, que isso na cronologia, na cronometria da história de um raio de sol, isso é minúsculo. E, talvez, o tempo que levasse para ir da luneta para a folha, em concentrar-se para ir para a folha, fosse, digamos, hipoteticamente, bem maior.
* Algumas coisas que se vê na inocência primeva pode levar uma vida para ser explicitada; o que o Humanismo e a Renascença varreram da Idade Média
Assim nós poderíamos dizer que o que a gente vê pela inocência primeva, se a gente é fiel, fica essencialmente vista… [inaudível] … Mas que é preciso uma condensação, uma concatenação até se explicitar inteiramente, que leva mais tempo do que a primeira visão, o primeiro discernimento, a palavra visão não é boa. Pode levar uma vida. E a tristeza dessas coisas foi que elas iam se exprimindo na arte medieval, no ambiente, nas instituições medievais e foi varrida pelo Humanismo, Renascença e Protestantismo, depois pelo resto que você conhece bem, cada vez mais varrida.
Eu não tenho nenhum pouco a idéia de que eu seja um homem com dotes artísticos próprios a fazer a contra-ofensiva disso, por meio artístico. Essa contra-ofensiva que entretanto eu desejo custe o que custar! O resultado é que eu fico reduzido a fazer contra-ofensiva dialética, por meio da discussão: explicitando, concatenando, concentrando, portanto, e desfechando, para pegar fogo na folha seca que está embaixo.
(Sr. Guerreiro: …a gente vê que em certo momento o senhor se aproximou mais de um foco de luz, como quem vê um riacho maravilhoso e segue para ver a fonte…)
Talvez com uma alteração, para me servir da sua imagem eu acho o seguinte: que a gente pela graça ─ tenho a impressão, precisaria pensar, naturalmente sujeitando tudíssimo quanto eu digo ao magistério da Igreja, à teológica, tudo ─ mas eu tenho a impressão de que de fato a alma com a inocência batismal é imersa nisso. E que ela pode ter a desgraça de emergir disso em que ela está imersa. E que se ela conserva aquilo se entranha nela, no sentido mais… [inaudível] … da palavra, entranhar, chegar até as entranhas.
Não sei se me exprimo bem?
(Sr. –: Sim, claro!)
Meus caros, eu não quero abusar da paciência de todos, mas proponho que… [inaudível] … está extraordinariamente tarde e Fernando Antunez… [inaudível] …, de maneira que acho que é o caso de nós nos retirarmos, eu vou dar habeas-corpus… [inaudível] … pesado cativeiro.
(Sr. Poli: O Sr. Guerreiro e eu viemos conversando de [que] quem tem o senhor não pode se queixar de mais nada, porque tem tudo.)
Não, não!
(Sr. Poli: Quem tem o senhor tem tudo.)
Esta é a matéria sobre a qual eu vou lhe ser mais… [inaudível] … e mais esquivo.
(Sr. Poli: Mas nós temos que ser mais abertos.)
(Sr. Guerreiro: Menos esquivos.)
Menos esquivos.
Na linha da oração da Restauração tudo quanto nós conversamos. Tudo aquilo que é dito… “recomponde…”, tudo! É o pressuposto dela o que nós conversamos.
Há momentos Minha Mãe…
(…)
Analisando ponto por ponto da oração percebem que é essa doutrina que está dentro.
Meus caros…
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