Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) – 18/4/1981 – Sábado [RSN 021] – p. 12 de 12

Conversa de Sábado à Noite (Êremo de São Bento) — 18/4/1981 — Sábado [RSN 021]

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É legítimo imaginar como era o Santo Sepulcro * Numa enorme pedra imaginamos uma ogiva em louvor de Cristo e uma lápide bruta que lembra a tragédia do deicídio * A câmara mortuária sombria, iluminada por archotes, sem ar de festa, contendo, no âmago da morte, o Deus vivo * Nossa Senhora contempla nas entranhas da terra o Filho que teve no próprio claustro, sob a aparente vitória da impiedade * Como junto Àquele cadáver jamais se faria noite completa, uma misteriosa luz florescente seria mantida pelos anjos * Nossa Senhora no Cenáculo e os anjos no Sepulcro adoram o divino cadáver, até chegar o momento da Ressurreição * Duas formas de imaginar a Ressurreição * Fato tocante: durante toda a Paixão, Nossa Senhora teve em si a presença eucarística * A legitimidade desse método para alimento das almas * O Santo Sepulcro venerado através dos tempos até à eternidade * Duplo aspecto da Ressurreição: festa de triunfo e um estampido acompanhado do mais majestoso dos raios * A veneração do Santo Sepulcro na terra, prefigura do que se dará no juízo final e na eternidade * O que poderá haver de simbólico do Santo Sepulcro no juízo final, como coroamento da luta * Uma hipótese atraente: todas as relíquias da Paixão se recomporiam nas peças originais * O Santo Sudário seria um lábaro de dor que nos recordaria a luta e o que custou nosso regate * O quanto o Sudário representa de reprovação do demônio e como o Imaculado Coração de Maria é ainda mais perfeita figura de Nosso Senhor

Bem, meus caros, então, qual é o tema? O João cogita…

(Sr. João Clá: Não chegaram os principais participantes…)

Mas onde estão os outros?

Bom, vamos falar de um assunto que ainda não seja o começo da reunião. Vocês ponham…

(Sr. João Clá: Eu proponho que comecemos pela reunião adentro, assim quando eles chegarem já se encontrarão mais ambientados.)

* É legítimo imaginar como era o Santo Sepulcro

Se sentem menos, menos…

Quem sabe se eu digo um pouquinho alguma coisa sobre um dos mil modos de meditar sobre a Ressurreição.

O comecinho é uma gotinha de ploc-ploc, mas é necessário para a gente… a gente saber manusear o negócio. Mas há ploc-ploc bom e ploc-ploc ruim. Isso, sim, eu qualificaria de ploc-ploc bom.

É o seguinte: o Santo Sepulcro existiu, dentro de uma rocha, escavado na rocha, etc… Oh meu Poli! Entra aqui. Então vamos começar o assunto.

Meu caro Edwaldo, salve Maria!

Meu Guerreiro, vem até aqui.

(Sr. Guerreiro: Salve Maria, Sr. Dr. Plinio. O senhor como está passando?)

Bem, e você?

Falta o Fiúza, que está indisposto.

Eu ia tratar de um assunto enquanto vocês não chegassem. Vocês chegaram tão no começo do assunto, que eu dou rapidamente e depois vocês dão o assunto, sugerem o que quiserem.

Eu estava dizendo o seguinte: que o Santo Sepulcro existiu, e você e quem o visse na rocha, sabendo que Nosso Senhor, Homem-Deus, está ali na sua humanidade, está morto, etc., teria uma certa impressão.

O Santo Sepulcro está encimado por uma igreja, todo o ambiente em volta mudou, tudo está transformado. Nós gostaríamos de saber que impressão daria a Ressurreição se alguém a presenciasse, que impressão daria o Santo Sepulcro que foi a moldura da Ressurreição.

Então é legítimo a gente imaginar como seria… quer dizer, assim, eu vou imaginar que impressão eu teria se estivesse lá e, portanto, vou imaginar um sepulcro de matéria. Ele antes de tudo é de matéria, mas um sepulcro em concreto que me desse essa impressão. E por aí vou descrever a minha impressão.

Não sei se está claro o assunto ou não.

(Todos: Está claro.)

Eu vou imaginar um sepulcro que assim não foi, mas sei que a impressão do sepulcro que vou descrever eu teria se estivesse lá. Então eu vou projetar nesse sepulcro imaginário a minha própria impressão. A minha impressão não é imaginária; o sepulcro daria esta impressão.

Nesse sentido, é autêntico, é legítimo, a gente fazer o que Santo Inácio de Loyola chama, nos Exercícios Espirituais, a reconstituição de lugar. A gente reconstitui o lugar, reconstitui a cena, sabendo que assim não foi, sabendo que, entre outras impressões, dava essa que eu teria e, portando, eu descrevo o que está dentro de mim. Isto é uma coisa legítima.

Está dentro de mim, mas que não é inteiramente imaginário, volto a dizer, porque entre mil outras impressões que aquele lugar daria, daria também esta que está dentro de mim. Portanto, eu vou partir para lá.

Então, em duas palavras, como é que um de nós poderia imaginar o Santo Sepulcro?

* Numa enorme pedra imaginamos uma ogiva em louvor de Cristo e uma lápide bruta que lembra a tragédia do deicídio

Foi só pensando nisso que eu encontrei explicação para uma coisa que… ou de uma coisa que todos os senhores já viram muitas vezes e provavelmente gostam muito também: os portais de pedra das catedrais góticas. Já as românicas têm alguma coisa disso, mas nas góticas é muito mais saliente.

A gente tem a impressão que é pedra assim que forma como se fosse chanfrada, é como se fosse uma enorme pedra na qual em oblíquo se tivesse de cada lado cortado, e depois cada coluninha que desenha um arco dentro daquilo, do arco gótico, arco românico. Cada coluninha dá impressão que é uma camada de pedra, é quase um laivo de pedra, que cada coluninha e cada santo que está na ponta de cada pedra, com um docelzinho em cima, representa um laivo da pedra. E a gente forma assim uma idéia mítica da pedra, da pedra sagrada que envolve o altar que tem o tabernáculo. dentro do qual está a píxide onde está o Santíssimo Sacramento, o Homem-Deus.

A gente gosta muito de ver, aquilo forma um arco gótico lindo, e se a gente atravessa várias espessuras de pedra, a gente tem impressão que atravessa vários séculos de História, várias fases do pensar e do sentir da Igreja, atravessa mil coisas quando atravessa um portal. E fica aqui atrás, a gente não se dá conta, mas nisso está o mais saboroso.

E eu imaginaria, nesse sentido, o Santo Sepulcro, uma coisa completamente tosca, aberta na pedra pelos pedreiros de José de Arimatéia, empresa funerária, talvez das primeiras do mundo, qualquer coisa assim. Uma coisa tosca, mas que para quem soubesse interpretar, uma pessoa que já conhecesse o gótico, olhando para aquilo perceberia que formava um arco prodigioso, não definido de nenhum modo. Um do tempo não podia perceber, mas um medieval, vendo, diria: “Olha o gótico”. Se quiserem, a primeira ogiva da História. Se quiserem.

E a pedra que encerrava aquilo, ao contrário de ter aquela beleza leve, charme grandioso da TFP, é o contrário disso: a pedra que encerrasse isto não teria nada disso, seria uma pedra bruta o colocada no lugar fazendo carranca.

Quer dizer, a ogiva era um louvor do Filho de Deus, mas o horror da morte, a tragédia do deicídio representada por aquela lápide e contrastando com aquilo.

Os senhores diriam: “Fica feio”.

Mas é! É a justaposição do lindo e da morte, da virtude e do pecado. Ficaria perfeitamente bem.

* A câmara mortuária sombria, iluminada por archotes, sem ar de festa, contendo, no âmago da morte, o Deus vivo

Agora, como a gente poderia imaginar a câmara funerária onde estava Ele?

Cada um imagina como quer, mas para exprimir um dos modos de imaginar possíveis e dentro do qual eu me sentiria bem, para exprimir isso a gente teria que imaginar não uma montanha tipo assim Himalaia, seria ridículo, mas uma rocha muito grande, ainda com terra por cima, com plantas, de maneira que a gente sentisse que ela é muito maior do que nossos olhos percebem.

Afastada aquela pedra, a gente entraria numa espécie de corredor. Dentro desse corredor, no fundo, portanto nas entranhas do reino mineral, do reino morto, onde nada é vivo, não entra luz, não entra ar, tudo é inerte, ali, se quiserem, portanto, algo que desse a idéia do âmago da morte, no âmago da morte, o Deus vivo.

Como é que eu imaginaria essa capela funerária?

É bonito a gente imaginar o cortejo entrando, levando o Sagrado Corpo até lá dentro. Os archotes, a resina dos archotes e a fumaça marcando ainda o teto e as paredes, sujando algum tanto aquilo que já era escuro e tenebroso, e pondo uma luz surpreendente naquela escavação.

A primeira impressão que essa escavação teria que dar era simplesmente de uma espécie de forma de um saco indefinido, dentro do qual haveria uma como que mesa de pedra, um bloco de pedra sobre o qual se colocaria o esquife funerário com o corpo divino.

Quem prestasse um pouco de atenção perceberia, não à primeira vista, mas na terceira ou quarta vista, amorosa e meditativa, que aquilo formava uma cruz. Mas uma cruz singela e de uma proporção perfeita. Ela não teria os floreados lindos de nossa cruz, cortada! No âmago da morte não cabe a festa, nem cabe o pulchrum a não ser insinuado, entrevisto, não visto, nem ostentado.

* Nossa Senhora contempla nas entranhas da terra o Filho que teve no próprio claustro, sob a aparente vitória da impiedade

Prestando-se atenção nas paredes e na estrutura geral, se compreenderia que aquilo representa um docel fabuloso. Mas para quem olha é pedra comum. Um docel fabuloso, o docel de todos os séculos colocado ali onde Nosso Senhor estivesse.

A gente pode imaginar — eu não sei se se deve imaginar — Nossa Senhora entrando também, e Ela em cujo claustro esteve Nosso Senhor, Ela em quem Nosso Senhor tomou vida, vendo o sepulcro onde está o Filho d’Ela morto.

(Todos: Nossa!)

O brado dos senhores faz entender que os senhores alcançaram perfeitamente o lancinante, o lancinante do contraste entre a Virgem Mãe e a montanha de pedra, a vida que começa e a morte que dá seu golpe brutal e acaba com aquilo. O crime mais inopinado, mais satânico, mais estúpido se não fosse satânico, que a gente passa imaginar.

Continua clara a narração?

(Todos: Sim!)

Agora, nós podemos também conceber que Ela, de tão lancinante que fosse a cena, julgasse não dever entrar. Como que uma espécie de protesto das entranhas que O geraram contra a entranha de pedra que O vai conter. Uma incompatibilidade intransponível.

E depois haveria algo de ambas as coisas, provavelmente, no modo pelo qual concretamente tudo se passou.

É mais bonito a gente imaginar que todos saem, fica aí o Sagrado Corpo ultra-aromatizado, isolado, na escuridão completa e, na aparência, a vitória deslumbrante, fulgurante, da impiedade, da vulgaridade, da morte, do pecado, sobre Nosso Senhor Jesus Cristo que… enfim, eu não tenho que qualificar.

* Como junto Àquele cadáver jamais se faria noite completa, uma misteriosa luz florescente seria mantida pelos anjos

Ainda aí, uma pessoa que tivesse a felicidade de ver através da rocha, portanto, os olhos celestes de Nossa Senhora a quem os anjos fariam assim e a rocha se abriria, quem olhasse ali perceberia que do corpo emanava uma discretíssima claridade, mas não a claridade de um homem vivo: a claridade de um cadáver, completamente cadáver, e para o qual a claridade servisse para mostrar ainda mais que era cadáver mesmo. Ele foi morto! Condição para a autenticidade da Ressurreição. Para a Ressurreição ser inteiramente o que ela é, era preciso que Ele estivesse morto com todas as características da morte, que não fossem a putrefação, que nEle não cabe.

Essa claridade muito lentamente se fosse acentuando. Mas no período em que ela não estava nem um pouco acentuada, nem nada, era apenas uma coisa, se não fosse irreverência, comparável à fosforescência, fosforescesse glorioso — mas lívida e cadavérica — a glória do cadáver.

Num canto qualquer e no chão, uma luz mantida por anjos, mas que brilhasse de um modo lindíssimo, como poderia brilhar um vitral iluminado por detrás, aqui… Brilhasse assim, num canto apenas, sem chegar a iluminar tudo.

Lembram-se daqueles quadros da escola holandesa? Assim, um ponto de luz que não ilumina tudo, uma coisa assim, mas colocado num canto apenas.

E por que no chão? Porque a glória d’Ele impunha que, junto ao cadáver d’Ele, nunca se fizesse noite completa.

O lumen gloriae, portanto, posto num canto, no chão. No chão porque no lugar da morte a luz não tem a sua residência própria. Ela está como que enxovalhada, posta de lado e brilhando num canto, iluminado só um canto, enquanto a vida não voltar para Ele. E luz angélica, que não precisa de oxigênio, não temos que nos complicar com as leis da física porque não entra nisto em nada. É tout court, tout court.

Nós podemos imaginar que esta luminosidade aumentasse com o tempo, se desdobrando em como que fosforescências cada vez mais bonitas, cujas várias zonas lembrassem os tormentos d’Ele, lembrassem também a vida, e tudo quanto na alma humana d’Ele, em união hipostática com a divindade, se passou durante a vida. As várias etapas da vida, a vida íntima da Sagrada Família, a vida pública, os três anos da vida pública, a aurora radiosa, a glória, a perseguição, as apreensões, o Horto das Oliveiras, tudo isto fosse desdobrando em luzes. Seria como que uma narração.

Nós poderíamos imaginar também que, dentro disso, as feridas, as chagas sagradas, fossem gradualmente tomando, cada uma em harmonia com isso, à maneira de matizes, fosforecências próprias, o significado de cada uma, ao para que Ele tinha expiado naquilo, o que Ele tinha sofrido com aquilo, cada passo.

* Nossa Senhora no Cenáculo e os anjos no Sepulcro adoram o divino cadáver, até chegar o momento da Ressurreição

Quando isto estivesse inteiramente representado, ainda é preciso pensar nas legiões de anjos adorando o cadáver d’Ele ali. Mas, incomparavelmente mais do que isso, Nossa Senhora à distância, no Cenáculo, adorando. Vale mais do que todos os anjos, qualquer coisa que se possa imaginar.

Imaginando isso, nós podemos conceber que, quando tudo tivesse sido expandido para a glória dos anjos… os senhores me dirão: “Está bom, glória dos anjos, mas anjo não precisa de fosforescência”. Talvez para que algum dia fosse meditado por outros.

Então, nesse momento, algo de novo começasse a se dar dentro do Santo Sepulcro.

* Duas formas de imaginar a Ressurreição

Nós podemos imaginar duas formas de Ressurreição.

Uma é, em certo instante, Ele dar sinais de vida. A fosforescência se torna de uma luminosidade extraordinária e o Cristo morto — que estaria deitado numa posição de oração, na posição que Ele tomaria talvez rezando ao Padre Eterno, no primeiro instante em que a alma d’Ele e, portanto, a pessoa do Verbo e, pela concomitância proporcionada, a Santíssima Trindade entrasse, ali — a primeira coisa que fizesse fosse uma glorificação do Padre Eterno, um ato de amor ao Espírito Santo, e levantasse com uma majestade indizível. Caminhar naquilo transformado então em cânticos, em luzes, em glória. Aquilo se transformar, de repente, numa catedral, mas numa catedral só por luzes, feita de luzes.

Chegando junto à pedra, os anjos rodariam a pedra e Ele… os senhores estão imaginando que Ele apareceria a Santa Madalena. Não. Do momento em que Ele se levantou e apareceu, rolou a pedra, apareceu para ela, até o momento em que ela o reconheceu, fica um interstício. Interstício insignificante. É-nos lícito imaginar que, com o deslocamento rapidíssimo dos corpos gloriosos, neste interstício Ele esteve no Cenáculo e apareceu a Nossa Senhora. De maneira que Ela tenha sido a primeira pessoa que o viu.

Ele logo depois se apresentou a Maria Madalena, e tem a cena que o evangelho descreve.

Essa seria uma modalidade de imaginar a Ressurreição. Conforme a piedade e o modo de ser de cada um, poder-se-ia imaginá-la de outro modo, que seria: nas travas inteiras, de repente, algo à maneira de um corisco sublime, a montanha como que racha, Nosso Senhor se levanta como um raio, num instante Ele já está junto à porta, um anjo rola a porta e Ele está diante do olhos e está dentro do Coração Imaculado de Maria. Acabou!

* Fato tocante: durante toda a Paixão, Nossa Senhora teve em si a presença eucarística

Dentro disto há apenas um dado para lembrar, e com isso eu teria encerrado. Um dado para lembrar é o seguinte — que as pessoas que meditam sobre isso nem sempre se lembram de uma coisa tocante, um fato tocante:

Nossa Senhora fez a primeira comunhão d’Ela no Cenáculo. Ele instituiu a eucaristia — não existia antes — ali. Mas a partir do momento em que Ela O recebeu, nunca mais a presença real d’Ele nEla cessou.

De maneira que durante todo o tempo da Paixão d’Ele, no momento em que se encontraram, no encontro em que tiveram o amplexo, até o momento da morte e depois na sepultura, Ele de fato estava realmente em dois lugares no mundo: Ele estava na sepultura, mas estava em Nossa Senhora.

O que forma, a meu ver, um contraste lindíssimo e afirma, de algum modo, mas de um modo tão glorioso que eu não tenho palavras para qualificar, a vitória d’Ele sobre o demônio, porque Ele aparentemente morto estava no paraíso d’Ele. E já durante a Paixão, Ele estava ao mesmo tempo à coluna atado, estava depois carregando a cruz, depois crucificado, o que queiram, até morrendo, mas estava no paraíso d’Ele que é Nossa Senhora — eu acho indispensável considerar isso — e triunfava com isto dentro da derrota d’Ele.

Aqui está, meus caros, uma meditação sobre a Ressurreição que se poderia fazer depois, desdobrando os pontos sucessivamente. Eu dou de um modo esquemático.

(Sr. João Clá: Não, são dez da manhã ainda.)

Hahaha! Me lembrou de ver a hora, já é tarde.

(Todos: Não!)

* A legitimidade desse método para alimento das almas

Os senhores vêem por aí que a introdução sobre a validade desse método imaginativo não é dispensável, porque como esses acontecimentos foram acontecimentos perfeitos, eles tinham todas as excelências. As excelências que nós estamos imaginando que faziam partes deles; eles tinham muitas outras excelências. E se todos os católicos que houve no mundo, até o fim do mundo, meditassem sobre a Ressurreição, haveria alguma excelência que era para aquele ver, que os outros poderiam ver também, mas não veriam tanto porque não tocava sua alteridade, mas formava uma prodigiosa unidade como os senhores estão vendo. Uma unidade catedralícia.

Por isso nós podemos estar seguros do núcleo de realidade objetiva que tem isto, que é um misto, de fato, de imaginações que reconstituem, e de reflexões, de deduções dada a fé, sagrada teologia, revelações de pessoas piedosas, como, por exemplo, santos, como, por exemplo, sobre a sagrada Eucaristia presente em Nossa Senhora desde que Ela recebeu, e outros dados assim.

Então fica mais do que uma meditação, a justificativa dessa meditação e do método.

Eu ensino aos senhores como um longo preâmbulo de uma rápida conversa dos que aos sábados à noite têm a paciência de estar na Rua Alagoas 350, 1º andar. Mas como aquele a quem há mais tempo nós não vemos é o Sr. Guerreiro, faça ele, introduza o tema, levante a questão faça o que quiser, com participação dos outros.

(Sr. Guerreiro: Eu fico um pouco sem palavras, porque o senhor tratou tão plinianamente, de modo que fico um não conclui ainda inteiramente a descrição que o senhor acabou de fazer, eu fico sem voz para de modo que se outros)

* O Santo Sepulcro venerado através dos tempos até à eternidade

(Sr. João Clá: O senhor não poderia considerar um pouco o que se passou no encontro de Nosso Senhor com Nossa Senhora depois da Ressurreição)

Não, eu gostaria de dizer alguma coisa sobre o Santo Sepulcro e a Ressurreição ainda. O que restaria para comentar é o lado profético do Santo Sepulcro.

Quer dizer, Nosso Senhor é tudo e Ele é, portanto, Rei de tudo. Nem tem o que dizer, não há palavras para exprimir o que Ele é. Portanto, Ele conhecia toda a história do Santo Sepulcro que viria depois. E essa história de algum modo, até o fim dos séculos, e depois ainda a parte mais gloriosa da história do Santo Sepulcro, é o Santo Sepulcro venerado durante toda a eternidade por Nossa Senhora e pela corte celeste. Porque isto não vai parar, o Santo Sepulcro vara até o fim do mundo e depois por toda a eternidade ele vai ser adorado pelas criaturas. Portanto, pelas criaturas que se salvaram, portanto por Nossa Senhora e por toda a corte celeste.

* Duplo aspecto da Ressurreição: festa de triunfo e um estampido acompanhado do mais majestoso dos raios

Tudo isto, esse futuro do Santo Sepulcro, essa história global do Santo Sepulcro, teria que estar de algum modo representada também nesta cena que eu descrevi.

Nós podemos imaginar representada no momento em que Nosso Senhor se revelou, saindo. De fato, Ele se revelaria em tudo, mas no momento que Ele se revelou, representado por um duplo caráter festivo da Ressurreição. Não é uma festa qualquer, é uma festa de triunfo. A Páscoa não é, como todo mundo supõe, uma festa apenas caseira, para despertar a bonomia familiar, distribuindo ovos e todos se abraçando. Tudo isso é muito legítimo, acho um encanto, mas a Ressurreição tem qualquer coisa de um estouro, de uma explosão magnífica.

Aliás, vários quadros O apresentam assim, baixos-relevo, etc., o representam assim: saindo com o braço direito levantado, com os dedos em posição de quem ensina ou abençoa, mas um ar de desafio. Mas desafio vitorioso: “ Já atravessei!”.

O que deveria causar no Inferno o terror, a inutilidade de tudo.

O primeiro ódio de Satanás é saber que enquanto ele atormentava Nosso Senhor, Nosso Senhor estava presente no Paraíso d’Ele. O primeiro ódio. O outro é, na hora da Ressurreição, o estampido!

* A veneração do Santo Sepulcro na terra, prefigura do que se dará no juízo final e na eternidade

Aliás, os senhores podem imaginar que a Ressurreição tivesse sido acompanhada pelo maior, o mais majestosos dos raios desferidos numa aurora.

Toda a glória que ao Santo Sepulcro deram os fiéis no mundo, em todo o curso da História, mas eu me comprazo em pensar especialmente nos que derramaram o sangue para libertar o Santo Sepulcro. Portanto, a glória dada pela desolação deles quando souberam que o Santo Sepulcro estava ocupado pelos maometanos e que os católicos do Oriente não podiam ir lá. Depois, além da desolação, a indignação! a indignação do Papa Bem-Aventurado Urbano II que pregou a cruzada. Aquela espécie de santa propagação, como a luz, do furor dos cruzados por toda a Europa: “Deus o quer!” e indo para a cruzada. E aquelas avalanches de cruzados que durante muito tempo lutam e lutam para libertar o Santo Sepulcro.

Tudo isto explodindo, não só na glória, mas na indignação triunfal!

Também, também, também, o Santo Sepulcro menoscabado pela presença, em Jerusalém, de maometanos, de judeus. Depois, com o turismo, de turistas ímpios e desinteressados de toda ordem. Depois — numa ordem de valores cronologicamente, já antes — a presença de IO lá, junto ao Santo Sepulcro, disputando horário com a Igreja Católica. E os protestantes, tudo unido ali, disputando horário e rezando, celebrando cultos ímpios ali.

E o momento da Bagarre em que isso será escorraçado. Não só escorraçado, mas a glória dos primeiros que chegarem ao Santo Sepulcro libertado, os primeiros cânticos.

Será algo como se o próprio Santo Sepulcro Ressuscitasse.

Depois os senhores podem imaginar o Santo Sepulcro cercado pelas labaredas que vão consumir o mundo quase inteiro, no fim. Eu digo “quase” porque alguns lugares sagrados, in capite et liberis o Santo Sepulcro, antes de tudo o Santo Sepulcro, vão ser poupados.

Você pode imaginar aquele incêndio na terra devastando tudo, com os últimos católicos vivos. Vocês podem imaginar o Santo Sepulcro só nas chamas da cólera de Deus que purificam a terra. E a gente tem a impressão de que o Santo Sepulcro sai mais próprio a queimar e a aterrorizar do que todas as cóleras. Aquela rejeição que se nota no Santo Sudário de Turim. Porque o Santo Sudário é rejeitante! há uma rejeição adorável ali, que é preciso ter visto para a gente poder amar adequadamente.

Bem, isto posto, nós temos que imaginar depois a Santíssima Trindade que baixa à terra. Ali os senhores podem imaginar, no incêndio final, o Santo Sepulcro protegido por anjos e aí toda a corte celeste desvelando em torno do Santo Sepulcro, como da casa de Loreto, como do Presépio de Belém e outros lugares.

* O que poderá haver de simbólico do Santo Sepulcro no juízo final, como coroamento da luta

Nós podemos imaginar perfeitamente o Santo Sepulcro velado assim pelos anjos e venerando por toda a corte celeste. Talvez os últimos justos estejam junto ao Santo Sepulcro. É uma hipótese linda que nos agrada. Talvez com alguma imagem do tipo — ou que seria arquétipo, como jogo de expressão, etc. — do que é a imagem de Nossa Senhora Peregrina, hoje em dia uma super-peregrina dos séculos. Não sei, pode-se imaginar.

Tudo isto fazia parte da vitória de Nosso Senhor, porque o que estava ali previsto era a vitória final d’Ele com o julgamento dos bons e dos maus.

E, como eu li outro dia em Santo Tomás, Deus vai mandar para o Inferno os réprobos da seguinte maneira: Ele não manda por ação direia d’Ele; Ele manda os anjos e os santos, os homens que estiverem salvos, por um prélio, por um combate, que é o pendente, é o simétrico com o combate de São Miguel com os anjos. E é assim: combate de São Miguel com os anjos, a luta se acende, até a Encarnação do Verbo em Maria Puríssima, a morte d’Ele vivo em Maria Puríssima, e a Ressurreição d’Ele.

São Paulo disse que se não houvesse Ressurreição a nossa fé seria vã.

Depois a luta continua, no fim do mundo a vitória final. Ele convoca todos que vão tocando por assim dizer com látego para o Inferno tudo quanto o Inferno tenha vomitado.

Ora, eu tenho a impressão de que talvez se possa dizer que no fim do mundo quase todo Inferno esteja solto na terra, e que é preciso meter tudo para baixo. E chefiados por São Miguel Arcanjo… suprema cruzada da história. É o supremo primeiro cruzado, é o supremo cruzado.

E isto tudo está profetizado no desafio da Ressurreição: “Ó morte! eu serei a tua morte”.

Aí está, meus caros, duas e quinze da manhã, está encerrada nossa meditação, não sem dar ocasião aos outros de acrescentarem alguma palavra ou dizerem qualquer coisa.

* Uma hipótese atraente: todas as relíquias da Paixão se recomporiam nas peças originais

(Sr. João Clá: Estão me cutucando aqui dizendo que hoje é dia de Páscoa e que o senhor, portanto, tem todas as disposições para nos conduzir para maravilhas ainda maiores do que essa.)

Infelizmente eu devo dizer, mas é a eterna miséria: eu estou morrendo de fome e tenho necessidade, não me sentirei bem se dentro de uns dez minutos eu não começar a toalete e não me alimentar. Mas dez minutos, Poli, dá para falar o exército.

(Sr. Poli: Gostaria que o senhor desse seqüência.)

Não, realmente o círculo está encerrado, está vista a história toda. Só o que seria possível é entrar em pormenores, mas Agora, pormenores, fale a medicina.

(Dr. Edwaldo: Talvez sobre o Santo Sudário, diante do quadro da Ressurreição.)

Ou fale a subtileza chilena

(Dr. Edwaldo: Dentro desse quadro que o senhor descreveu, o senhor não poderia dizer algo mais sobre o Santo Sudário, no momento em que Nosso Senhor ressuscitou?)

As relíquias todas da Paixão, eu tenho a impressão que para o fim do mundo vão ser reunidas, as que restarem — relíquia é isso, o que restou —, junto ao Santo Sepulcro. Então, o que restar da verdadeira cruz, o que restar… o Santo Sudário e tudo o mais que restar, gloriosamente reunido junto ao Santo Sepulcro.

Eu não sei, seria preciso pensar, mas é uma idéia que me ocorre aqui no momento, não haveria a possibilidade do seguinte: o que resta da Santa Cruz, por exemplo…

(…)

são relíquias certas como eu acabo de imaginar, mas em relíquias duvidosas, das quais umas são certas, outras não, nas quais haverá talvez fragmentos de Santo Lenho e fragmentos que não são de Santo Lenho, misturados. O que de houver de autêntico ser reincorporado, não tem problema, isto é fácil.

Não se poderia imaginar para isso, como para a coroa de espinhos, para os instrumentos da Paixão, os cravos, enfim, o que não esteja inteiro, uma espécie de Ressurreição? A matéria disso ser desentranhada dos lugares onde está e reincorporada a essas relíquias?

É uma coisa que eu precisaria pensar para enunciar, mas é uma idéia pelo menos muito simpática, enormemente atraente. Não é com isso a prova de que seja verdadeira, porque pode haver obstáculos metafísicos e teológicos a isso, era preciso estudar o caso.

* O Santo Sudário seria um lábaro de dor que nos recordaria a luta e o que custou nosso regate

No Santo Sudário eu tenho a impressão de que deverá dar-se isto: de duas uma, ou ele continua com uma espécie de lábaro de dor, lembrando as dores d’Ele, ou acontecerá com o Santo Sudário o que aconteceu já com as chagas d’Ele, ficam ali lembrando todos os crimes cometidos contra Ele, enfim, tudo que nós sabemos. Mas ao mesmo tempo num estado tão glorioso, que nós não sabemos o que dizer.

Quem sabe se o Santo Sudário conservará esse aspecto funerário e doloroso, é como que a fotografia da própria dor, mas irradiará uma glória como as chagas.

Ninguém pode descrever como seria essa glória. A não ser do seguinte: como o Santo Sudário é uma “fotografia” — entre aspas — d’Ele, todo o brilho que emitir vai ser uma espécie de réplica do brilho que Ele emite, e será objeto de enlevo, de adoração, etc., de todos os santos e bem-aventurados.

Mas a nossa vocação é de lutar! E em todas as nossas comemorações festivas, afetivas, etc., tem que estar presente a luta, sob pena de a coisa perder algo do sabor próprio à coisa nossa. Não nos falar à alma inteira, fica uma parte dormindo e implorando se ser acordada. Vamos então acordar ainda mais o espírito para completar o nosso quadro.

Nós temos que imaginar o seguinte:

O corpo sacratíssimo de Nosso Senhor, com suas chagas, portanto analogamente o Santo Sudário, brilharão como nós acabamos de falar, ou mais ou menos isso como acabamos de dizer, mas isto que será o gáudio de todos os eleitos, vai ser o gáudio também porque cada um de nós foi comprado pela morte d’Ele. Quando o coração d’Ele recebeu a última lancetada, quando isto e quanto aquilo, o senhor pode caminhar da frente para trás na narração histórica, até o Horto das Oliveiras, aquilo tudo nos comprou perante a justiça do Padre Eterno, foi sofrendo isso que nós fomos resgatados.

Conclusão é a seguinte: é que cada um de nós vai ver ali o seu próprio resgate e vai adorar com ênfase, com reconhecimento o seu próprio resgate em Nosso Senhor e, portanto, analogamente, no Santo Sudário.

* O quanto o Sudário representa de reprovação do demônio e como o Imaculado Coração de Maria é ainda mais perfeita figura de Nosso Senhor

Mas agora entra o combate.

Tudo aquilo foi desencadeado pelo demônio, e tudo quanto o demônio fez a Nosso Senhor sofrer, e, minguadamente falando, minusculamente falando, tudo quanto nós sofremos en união com isso, lindamente falando, tudo quanto Ela sofreu em união com isso, os demônios vão ver e eles vão ter o terror de não poder olhar, de não querer olhar, mas sentir a reprovação, no sentido próprio da palavra, reprovado, réprobo. E tudo isso se projeta sobre eles de maneira a estertorarem de ódio e de horror. E o pior é que é sem ver.

Como pode ser isso? Como a gente pode olhar o que não vê?

Imaginem que A tem inveja de B. De repente se descobre que B é um príncipe que foi coroado rei. No dia da coroação de B, A nem está presente à coroação, mas está presente em algum antro se contorcendo de inveja e de ódio. Ele não viu a coroação, mas ele se contorce! E cada rito da coroação o dilacera, cada brilhante que tem na coroa, cada… ahh! o dilacera. A inveja o devora, a revolta o devora.

Aí o senhor pode imaginar bem o que é o ódio dos demônios diante do Santo Sudário, diante de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas entre o Santo Sudário e Nosso Senhor Jesus Cristo há uma representação mais alta de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os senhores dirão: “É o véu da Verônica!”.

Não é. É o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria. Por todas as razões, os senhores já sabem, eu não tenho que dizer. Por todas as razões.

Tudo quanto há de belo se representa adequadamente no Sapiencial e Imaculado Coração de Maria. Aquele que foi, que é infinitamente belo, representava ali com complacência.

E me passa a idéia absolutamente final, como ponto final, que também a beleza desta pedra se reflete no Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.

Os senhores podem imaginar como seria belo que alguém arranjasse uma pedra, mas do tamanho normal do coração de uma dama, mandasse fazer com esta pedra um coração e mandasse cercar, enfim, com as representações do Coração Imaculado, com as espadas da dor e tudo o mais que queiram, para fazer uma catedral do Imaculado Coração.

São as possibilidades em que a heresia branca não pensa, mas que fica para o dia do Reino de Maria.

Bem, meus caros, agora vamos dormir.

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