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Conversa de Sábado à Noite — 14/2/1981 — Sábado [AC IV – 81/02.14] (HVicente)

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Patriarca

(Sr. Fernando Antúnez: Dia 14 de fevereiro de 1981, uma e meia da manhã.)

Está bom. Ah! Ah! Ah!

Você me pedia para falar sobre o senhorio, o senhorio do ponto de vista sobrenatural e depois profético.

Se a gente fosse dar uma definição filosófica do senhorio, acabava sendo o seguinte: provavelmente, acabava sendo o seguinte: todo ser que existe tende para sustentar-se na própria existência, na consideração de um outro ser mais alto que é mais plenamente do que ele, aquilo que ele deveria ser.

Nesta constatação de que encontrou um mais pleno, o indivíduo de baixo recebe uma espécie de corroboração de todo seu ser e — melhor dizendo — de todas as suas profundidades. E ele por assim dizer frutifica e floresce com mais riqueza, mais abundância, etc. por causa desse contato. E, com isso, ele é levado naturalmente ao respeito de sua causa e à obediência. Porque o menos que encontra a plenitude é levado ao respeito da plenitude, é respeito. Respeito se define como sendo atitude, disposição de alma daquele que é menos em relação àquele que é mais. Isso é respeito.

Agora, o que é mais, encontra uma espécie de idéia do que aquilo que ele tem não ficou amaldiçoadamente engorgitado nele, mas que ele soube distribuir e dar de acordo com a ordem que é interna nele, como ele de outrem recebeu. Aquilo que ele recebeu, ele entende que ele deve dar. Que na ordem do ser, ele deve fazer isto.

De maneira que a coisa vai indo, vai indo, falando de um modo inteiramente teórico, acaba no trabalho manual, onde o homem que é senhor da natureza, acaba fazendo à natureza o bem que recebeu de um que na ordem das relações humanas é superior àquele. E ali, no tapete da natureza,podemos deixar essas relações paradas aí. Para a nossa análise no momento morre. De fato, não morre, como que morre para nossa análise no momento.

Agora, esse senhorio encontra, na condição de patriarca, algo de mais sagrado, pela conjugação de duas circunstâncias… Vamos dizer de outra maneira: o patriarca deve ser em tese o ponto de partida genealógico da tribo. Aí que ele é patriarca no sentido pleno da palavra. E é num sentido menos pleno, mas real, digno, autêntico, quando ele é primogênito, do primogênito, do primogênito.

Qual é a razão pela qual o patriarca é a plenitude daquele, ele deve ser a plenitude dos que dele descendeu? Pela mesma razão dele ser a origem genealógica. Além de outras superioridades, ele deu a transmissão da vida, que é uma ação que tem semelhança com a criação e, portanto, enquanto tal é análoga, semelhante a Deus de um modo esplêndido, de um modo todo especial.

Naturalmente, aquele patriarca, tem por isso uma plenitude a um título especial. Mas, eu acho que há um carisma, se não o carisma, uma graça especial no patriarca por onde ele fica com uma plenitude maior do que todos os outros pelo fato de ser fundador daquilo. Há algo que parte dele e se distribui aos outros, pelos desígnios da Providência e que não é apenas da hereditariedade física, mas é também nas relações das almas, por onde ele é a pessoa por excelência da raça que ele fundou. E na qual os outros se miram como na sua plenitude. Ainda na ordem natural, mas de um matriz vivo muito especial.

A gente sente bem, reportando-se à reunião de hoje à tarde, pensando na questão dos primogênitos.

O primogênito é o elemento mais nobre da família porque, com a primogenitura entra uma participação mais nobre no patriarca, e há aí uma espécie de herança patriarcal que, de fato, é uma fonte de plenitude maior e de nobreza maior por isto.

Hoje vimos o que o Egito tinha de mais nobre, inclusive os primogênitos dos escravos, foi dizimado. E até, para mostrar algo de físico nisso, até os primogênitos dos animais foram dizimados. Quer dizerH

, reconhecendo que há uma qualquer excelência na primogenitura até enquanto animal, que coexiste no homem com outras excelências. Isso torna o patriarca especialmente sagrado. Da ordem natural, do sagrado natural.

Agora trataríamos da graça.

Mas, o canal de todas as graças está chegando, de maneira que nós devemos começar por rezar.

[Jaculatórias para a chegada da Sagrada Imagem]

Na ordem sobrenatural acaba sendo que o senhorio, ou melhor, ainda voltando à ordem natural, a autoridade do patriarca não encontra na autoridade do rei senão a plena expressão de si próprio. Como o Estado e a sociedade humana são expressões inteiras da tribo primitiva. Mas, todas as autoridades tem alguma coisa de paterno. A autoridade que não tenha alguma coisa de paterno, não é verdadeira autoridade.

Neste sentido é que honrar pai e mãe é honrar toda autoridade. E, segundo o que corre aí, honrar pai e mãe é só honrar o pai e a mãe, de maneira que o sujeito pode tratar, por exemplo, prefeito, delegado ou o diretor do colégio como se trata um [colega] [colégio?], que não pecou contra o Quarto Mandamento. Essa é a interpretação miserável, a versão simplista que corre por aí.

Mas, porque de tal maneira o princípio princeps está no patriarcado que a tintura mãe de todas autoridades está no patriarcado. E toda autoridade é, por si, paterna.

Agora, daí podemos passar para o sobrenatural.

Acontece que o sobrenatural é uma participação na vida divina, que nos foi obtida mediante a redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta participação eleva o homem a um grau de vida que ele não tem, é como, mais ou menos, se um animal tivesse participação na vida do homem, tivesse uma participação na inteligência do homem, uma coisa análoga.

Não é um grau de vida a mais, não é participação da condição angélica, mas é participação na vida de Deus, que tem uma perfeição maior do que qualquer outra, é a suma perfeição. Então isso confere ao homem um esplendor e uma abundância de vida… Nossa Senhor disse: “Eu vim para que tenham a vida, e para que a tenham abundantemente.” Então confere um esplendor de vida, uma irradiação, uma força que o comum não tem e que é um reflexo do esplendor de Deus.

Originariamente falando o patriarcado seria em dois sentidos: Um, seria o patriarcado de Pedro, por razões óbvias, ele que tem o poder das chaves, está na regulação de toda essa economia no que diz respeito à salvação dos homens através da Igreja. Depois é do bispo, é do vigário, é da Hierarquia Eclesiástica.

Mas, acontece que, quando um homem batizado — aqui entra o conceito de Cristandade — quando um homem batizado é patriarca de um homem também batizado, como a ordem sobrenatural é lesada por qualquer violação da ordem natural, assim também ela é propícia a toda observância da lei natural. E as obrigações naturais entre o patriarca católico e o membro de sua grei, também católico, passam, portanto a ter um caráter sobrenatural porque são operações que a graça favorece, cuja má ordenação pode determinar a cessação do estado de graça, e cuja boa ordenação pode ocasionar o incremento da graça. E, portanto, se envolve completamente com a graça e tem algo de participativo na graça como toda moralidade do homem, é um elemento de moralidade do homem. E isto transparece nas relações.

Então a gente toma um patriarca antigo, por exemplo que, em virtude dos meros princípios da revelação primitiva e da lei natural é um patriarca, ele pode ser muito venerável, a gente pode até se arrepiar com ele, mas ele não é um patriarca naquela plenitude em que o é, de uma tribo católica um patriarca católico. É completamente diferente.

Esse poder patriarcal, como que deixa transluzir a graça em tudo, aparecer em tudo, mais ou menos como a gente nota numa igreja a presença do Santíssimo, ainda que não saiba se o Santíssimo está ou não está, muitas vezes nota-se se o Santíssimo está presente. Assim também essa graça nas relações patriarcais.

Depois, por transposição, tudo isso se diz de todas as outras autoridades. Daí a unção do rei, ou de quem governa o Estado em outras formas de governo. Não é ungido, mas podia ser se ele fosse pelo menos vitalício, podia ser. Aliás, certos sacramentais não são vitalícios. Bem, daí o caráter patriarcal e nobre de todas as relações superior-súdito dentro da Cristandade.

O que é Cristandade?

É uma sociedade na qual as relações sociais tem essa infusão de sobrenatural e reluzem com esse esplendor sobrenatural a um título todo especial. Isto é propriamente a Cristandade. Aqui entra a questão da chave de prata e tudo o mais, do livro Cristandade, etc., etc..

Agora, a um outro título é patriarca quem funda uma família de almas. É até um título mais nobre do que ser patriarca no sentido genealógico da palavra.

Eu acabo de fazer os maiores elogios do patriarcado no sentido genealógico, mas ser ocasião para que se forme uma família de almas e atrair essas almas para esta família, basta ver as cartas dos jesuítas do tempo de Santo Inácio — São Francisco Xavier, por exemplo, à Santo Inácio — para a gente compreender bem o que é que representava e o que representa.

A respeitabilidade suma de São Bento. Aquele fassur hoje, quando queria falar, propriamente queria era um patriarca do demônio que gerasse para o demônio o Ocidente, é propriamente isso. Como estão com esperança, a meu ver frustra, de que o Waleza gera para o demônio o Oriente. Portanto, essa condição tem uma nobreza, uma respeitabilidade especial.

Qual é o papel do senhorio dentro disso? É o mesmo que falei no começo, a irradiação dessa plenitude, desse vínculo patriarcal, leva ao respeito e à obediência. Ela é, por excelência o senhorio.

*-*-*

Profetismo. No sentido Refutation da palavra, no sentido Cornélio a Lápide, profeta não é apenas nem principalmente aquele que prevê o futuro, mas aquele que abre uma via para a qual os povos devem seguir, porque ele tem de Deus uma missão para isso. Neste sentido ele prevê o futuro, quer dizer, ele intui, ele discerne, ainda que passo a passo, o que tem que ser feito no momento em que cada parcela do futuro vai-se tornando presente, ele sabe qual é o passo que tem que ser dado. Neste sentido ele é profeta.

Profetismo, no que diz respeito à salvação, é um carisma sobrenatural. Envolve… Vamos dizer, é a plenitude do patriarcado espiritual quando aquele que tem patriarcado espiritual é profeta também. Porque aí ele abre as vias, etc., muito mais do que o simples patriarca, na ordem espiritual.

E o profetismo tem, evidentemente, o tal título um senhorio ainda maior do que a paternidade espiritual, quando ela não é acompanhada do profetismo.

Agora, no que está isso? É que, através do profeta, ainda que ele seja um homem não bom, mas ter carisma profético. Ainda que seja isso, enquanto profeta, reluz nele algo de Deus especial. Portanto, daquela plenitude venerável que é o senhorial que ocasiona o senhorio.

Aí nós temos Express o conjunto das definições. Aliás, eu até gostaria que você desse esta fita ao Átila porque pode servir para muita coisa do MNF. Algumas coisas que eu, no MNF, quereria ter dito e não encontrei o momento, a formulação adequada, hoje è noite saíram com facilidade. Valeria a pena, portanto, dar uma cópia dessa fita para ele.

*-*-*

(Dr. Edwaldo Marques: … conforme a circunstância e conforme a missão também.)

Também. Eu estou tomando o profeta com a missão de patriarca.

(Dr. Edwaldo Marques: Sim, mas, no correr da História, conforme o fundador de uma família de almas, conforme a circunstância que ele é escolhido, tem missão determinada e se exige um vínculo maior do que o sangue, conforme a grandeza da missão e conforme as circunstâncias.)

Isso é bem verdade. Quer dizer, não há uma uniformidade nisso. E a vinculação pode chegar a ser muito relevante, muito grande, como pode chegar a não ser.

Vamos dizer, por exemplo, um jesuíta que recusasse ser jesuíta e se colocar sob a direção de Santo Inácio — que a meu ver foi um profeta caracteristicamente — esse jesuíta estaria muito mais próximo de ser protestante, se ele recusasse, do que um outro que não quisesse entrar para os franciscanos. O que indica uma vinculação dele com Santo Inácio, que importaria numa coisa parecida com a excomunhão se ele rompesse com Santo Inácio.

Santo Inácio é muito mais para ele do que o geral dos franciscanos para com os franciscanos. Quer dizer, nesse sentido, quando mais a Revolução aperta, parece que mais o vínculo do profetismo é cogente. Maiores obrigações, maior dependência.

Aqui estaria…

(…)

se São Domingos Sávio disse a D. Bosco que, se ele fosse mais santo, teria levado mais gente, São Pio X podia recear que, se ele fosse mais santo, poderia ter evitado a Primeira Guerra Mundial. Como São João Bosco — sabem que são dois santos que venero de um modo especial — São João Bosco podia recear que se ele fosse mais santo, Francisco José pudesse ter dado importância àquela carta dele.

Quando São João Bosco foi curar o conde Chambord, curou, mas não converteu. Pouco depois o conde de Chambord recaiu e morreu. Quem sabe, se ele fosse mais santo, ele teria curado e convertido o conde de Chambord? A gente lá sabe essas coisas?

A questão é a seguinte: não se atormentava com isso, ele contou o fato com naturalidade. Naquela fita de cinema que não tem nenhuma garantia de autenticidade, São Pio X se atormentava com isso. Eu preciso — desde que me ouse comparar a eles — não me atormentar além de certa medida. Mas, não posso abrir mão da questão, isso é evidente.

(…)

Estou só e estou convidando muita gente para esta solidão. Alguns chegam à meio caminho, me fazem umas visitas dentro da solidão, mas muitos que recusam de dar um passo, ficam se fritando no lugar onde estão. E a eficácia dessa ação está no estado de alma dos que se fritam. Esses são muitos. Internamente.

Agora, uns sabem dos outros que ficam se fritando. Entende? Agora, isto foi assim, a bem dizer, desde sempre. As aparências não eram, agora não.

Vou dar a vocês dois casos… P estava só, mas tragicamente só. Aliás, … você já pensou aquelas trevas, o que a pessoa sente imerso dentro daquelas trevas, aparecendo o demônio e fazendo figuras para ele.

(Cel. Poli: Os remorsos, a impossibilidade de resolver os casos.)

A gente vê que eles tinham remorso à maneira de Judas, que levaria para o suicídio se levasse a um extremo mas não levaria para a contrição. Ali não há referência a uma pessoa que tenha se arrependido. Não é só o Faraó. É um povo que apanhou como cachorro, depois parou de apanhar ma não se arrependeu.

(Dr. Edwaldo Marques: Reconheceram até que o povo judeu era o povo de Deus. Mas, não fala em correção.)

Nada, continuam aquelas pirâmides, aquela lenga lenga toda, continua tal qual.

Agora, para hoje à tarde, uma pergunta: até que ponto nos isolamos e começamos a pensar que isto poderá nos acontecer tal qual? Trevas totais e o demônio pondo figuras, e a vela benta que não acende. Ou, a gente acende, testa com o dedo que está acesa a vela, mas não ilumina, que é pior. Então como é agora. Vi que o fósforo riscou, senti aquele barulhinho das chamas que pegam no fósforo, senti o contato do palito com o pavio, aproximei a mão, senti o calor, não vi a chama.

Pior que tudo são as figuras, porque você está vendo que são trevas carregadas de demônios, gotejando demônios.

O que fazemos para nos preparar para isso? Por exemplo, que apelas a Nossa Senhora? Nós já imaginamos esse pessoa aí fora posto dentro disso? Quer dizer, nós achamos que eles merecem? Nós temos a vivência de que eles merecem? Ou achamos que no fundo são bonzinhos e que há uma… no fundo, a maior parte daquela sala achava que há uma composição. E, se eles pedissem para acontecer alguma coisa daquilo e acontecesse, eles ficariam com um remorso mortal. Remorso mortal.

(Sr. Fernando Antúnez: E se olhassem para Moisés, para o Deus de Moisés?)

(…)

conhece-se o itinerário deles, parece que ficaram andando por aquele istmo do Sinai, andavam, andavam, andavam, andavam e não chegavam.

[Um dos presentes conta um pouco a história do êxodo dos judeus.]

Nossa Senhora! Nossa Senhora!

Quero dizer o seguinte: “Minha Mãe, se é que sou tão duro, que as melhores graças que Vós me destinais ou possais me destinar, eu resista, eu prefiro que Vós me faleis pelo castigo do que, que Vós silencieis completamente, porque, neste sentido, o pior castigo é não ser castigado, é o homem que Deus abandonou e não castiga mais sobre essa terra porque ele vai cobrar na hora que vai levá-lo embora. Ele está pagando àquele, com uma vida sossegada, aquilo que ele fez de bem na terra. E, quando tiver recebido a paga dele, ele é chamado para a eternidade. E aí para pagar eternamente o que fez de mal.

Não há pior do que o homem andar mal e a quem Deus não manda sofrimento. Não há pior. Tirai-me pelo menos desta categoria de desventurados. E se não adianta que Vós me visiteis pela graça, visitai-me pelo chicote.” Isso se pode dizer.

Então, a pessoa não pede um castigo para si mesmo — seria uma maldição contra si — mas pede uma forma de benção. Aí pode perfeitamente fazer e é uma boa oração.

Aliás, o que achei, no contato com a reunião à tarde, é que uma boa dose de medo far-nos-ia muito bem. Medo. Porque uma das nossas coisas é uma zombaria de Deus por onde nós tomamos ao pé-da-letra o que nos diz o pessoa da Bagarre Azul, que é que nunca virá castigo nenhum porque Deus não castiga, Deus é bonachão e tem uma cumplicidade feita com o pessoal que não presta, por onde Deus não castiga e Deus se ri na orelha deles, dos que ficam esperando o castigo dEle.

Há muita gente nossa que pinta o caneco, tem visto castigos de assustar conosco, mas está certo de que não acontecerá o que estamos dizendo.

Aliás, durante a reunião eu me cruzei com um olhar — não vou dizer quem é — que a pessoa me disse pelos olhos: “Você sabe que não vai acontecer nada disso porque nunca acontecem coisas assim. Como é que você está aí dizendo o que está dizendo?” Eu olhei para ele e nem fixei, passei os olhos, mas nós nos entendemos.

E que eu acho que um bom castigo é uma coisa que… e não nos tem faltado hein! Nós temos visto castigos espetaculares, de gente que saiu e de gente que ficou. Ainda agora, por exemplo, um pouquinho….

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