Conversa de Sábado à Noite – 31/1/1981 – Sábado [RSN 19] . 5 de 5

Conversa de Sábado à Noite — 31/1/1981 — Sábado [RSN 19]

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SE BEM COM ALGUMAS DIFERENÇAS, VERSÃO IGUAL À 81/01.34. AVELINO

Comunicatividade da imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso * Senhorio: direito de mandar que se impõe não pela força, mas pela admiração e pelo afeto * O rei tem em si a luz do mando; o exército é apenas um fundo de quadro * No terreno natural, o lumen rationis em melhor qualidade é um primeiro título de superioridade * A plenitude do senhorio dá-se quando a sabedoria e a vontade reluzem no modo de aconselhar e atingem a sensibilidade do outro

* Comunicatividade da imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso

o Luiz Antônio me telefonou de Quito, agora, encantadíssimo, mas encantadíssimo, e fazendo elogios da Sagrada Imagem, lá da imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Eu não sei se a imagem se tornou mais comunicativa com a presença dele ou o que é que é, mas ele diz que está… Ele me disse, por exemplo, o seguinte: que não viu uma só fotografia que desse uma idéia adequada do que é a imagem.

(Dr. Edwaldo Marques: Outros também dizem que a fotografia não dá…)

Diz ele que parecem muito bem tiradas, a gente se ilude, de fato não é isso, é muito além.

E me disse que é “tal enquanto tal” a mais não poder. Alegra muito a gente.

Depois estava me descrevendo a Quito antiga, como é e como não é. Eu disse a ele que deviam fazer um audiovisual com a Quito antiga. Nunca pensaram nisso. Não sei também porque, mas é assim.

Depois, então, tivemos uma prosa com o hermano — esqueci de levar você para falar com o hermano —, depois com o Juan Miguel e depois com o brado. E agora estamos aqui para conversar.

Me servi do Guerreiro que, dos que estão aqui, é o único que não me vê durante a semana, dizendo que ele ficaria muito lamentante caso o telefonema levasse mais… e com isso apressei o telefonema um pouco mais. Eu disse a você que lhe usei como espantalho.

E aqui estamos para o que quiserem. Quem é que…

* Senhorio: direito de mandar que se impõe não pela força, mas pela admiração e pelo afeto

(Sr. M. Fiúza: […] O senhor falou no São Bento do senhorio, da tradição viva… o senhor deu exemplo do conselheiro João Alfredo que tomou aquela atitude na fazenda… Qual a relação que teria entre o senhorio, o profetismo e o patriarca? Porque o profeta não é, não tem senhorio.)

Não. A não ser o senhorio profético, da missão que ele leva, é distinto do senhorio pessoal.

(Sr. M. Fiúza: No caso do senhor a gente vê que tem algo muito mais do que o profetismo, na linha do patriarca e depois algo ainda. Parece numa linha maior que entraria o seguinte: algo que como que estaria acima da missão temporal e da missão eclesiástica. Neste sentido pareceria como um guardião da ordem temporal e, mais do que isso, guardião da ordem universal. E que parece que iria um pouco além da missão da Igreja. […] Não basta a pessoa ter ortodoxia católica para fazer isso, porque pelo que conheço de história da Igreja nunca ouvi algo disso.)

Eu tento responder. Pela resposta você verá se eu entendi bem ou não.

A palavra senhorio é uma palavra de uso corrente e nós devemos distinguir dois problemas: o que significa essa palavra, é uma coisa; e outra coisa é qual é conteúdo doutrinário das situações que essa palavra designa. São duas coisas diferentes, porque nem sempre a palavra abarca, a palavra designa certas situações, mas ela não dá o conteúdo doutrinário dessas situações.

Então, qual é o conteúdo doutrinário, o que é que há de doutrina dentro das situações que a linguagem comum qualifica de senhorio?

Isso seria um começo para a elaboração da coisa.

O senhorio na linguagem comum… naturalmente na linguagem comum estas palavras flutuam um pouco de sentido, dependendo, por exemplo, da geração, dependendo do Estado de onde a pessoa é originária, do país onde é originário. Essas coisas se deslocam um pouquinho, mas tanto quanto eu conheço a palavra senhorio, ela designa uma situação em que o direito de mandar baseado em determinadas superioridades se torna patente e se torna de algum modo irrecusável, de maneira que se impõe. Se impõe não pela força, mas pela admiração, pelo afeto. De maneira tal que aquele que exerce o senhorio fica irresistível, se bem que não faça uso da força.

* O rei tem em si a luz do mando; o exército é apenas um fundo de quadro

Ele pode às vezes ter como arrière fond do uso do seu senhorio, inclusive a ameaça do uso da força. Um rei, por exemplo, que se apresenta com seu exército diante de revolucionários, o exército pode ser um fundo de quadro para o exercício do senhorio do rei, diante do qual os revolucionários entregam as armas. Mas aí o exército é iluminado por algo que existe dentro dele, que é o direito que ele tem de mandar em virtude de uma certa superioridade. Esse direito se torna patente na pessoa dele. O exército é um fundo de quadro, mas o que ele tem de régio se torna patente na pessoa dele. E patente de tal maneira, que a menos que se trata de monstros, aquilo é irresistível, o homem comum não resiste àquilo.

Isto seria a manifestação máxima do senhorio num soberano. Mas dos graus que vão da soberania que é o senhorio sumo até as autoridades da ordem civil comum, naturalmente se pode fazer um dégradé.

Eu não sei se isto é bem o sentido que vocês conheceram de senhorio ou não é, não sei o que é que pensam a esse respeito. Ou se vocês não tinham também uma idéia tão definida do que é o senhorio.

(Sr. Poli: Senhorio é uma palavra muito pouco usada hoje em dia.)

Pouco usada, mas todo mundo sabe que existe. A gente empregando a palavra senhorio, o outro entende o que é que a gente quer dizer.

(Sr. Poli: Eu tinha idéia de senhorio como uma aerologia que paira em torno da pessoa, mais dando-lhe ascendência. O senhor falou mais do mando, não é?)

Não essa aerologia, essa atmosfera para dizer melhor do que aerologia. Aerologia seria a ciência da atmosfera, que certa pessoa emana em geral dela mesma. Portanto, tornou-se patente nela através da atmosfera que ela criou em torno de si.

(Sr. Poli: Mas é uma superioridade voltada para o mando.)

Sim, o senhorio é na linguagem corrente, não é usado com uma conotação sobrenatural. Eu estou tratando da linguagem corrente. Eu não estou dando a definição em tese do que seja o senhorio, mas do que é o senhorio segundo a linguagem corrente.

Não sei se vocês concordam… Por exemplo, em castelhano como é que é isso, meu filho?

(Sr. Fernando Antúnez: É isso.)

Em “carioquês”, em “mineirês”, em “paranaês”, como que é senhorio?

(Sr. M. Fiúza: O senhor definiu mais abarcativo, mais completo, mas corresponde ao que se diz.)

Bem, em riograndense eu já sei o que é que é…

Então isso é o sentido da palavra senhorio.

* No terreno natural, o lumen rationis em melhor qualidade é um primeiro título de superioridade

Agora, ele tem mais um núcleo que vai para a idéia do senhorio em tese.

O que é que é o direito de mandar? No que consiste essa superioridade?

O senhorio no sentido comum é uma superioridade, um direito de mandar que se torna patente, nós vimos já como se pode tornar patente: “Fulano tem senhorio”, etc. Agora no que consiste essa superioridade que tem o direito de mandar? É a pergunta.

Em princípio, qualquer superioridade, por modesta que seja, na esfera própria dá direito ao mando. Não há uma superioridade que na esfera própria não dê direito ao mando.

(Sr. Guerreiro Dantas: Sem isso o senhorio não poderia existir.)

Não poderia existir, seria uma impostura.

Portanto, o mero título legal de mandar, desacompanhado do senhorio, obriga à obediência, mas tem qualquer coisa de incompleto, de estropiado, de vazio. Eu não faço, portanto, resultar a autoridade do senhorio, mas o senhorio de quem manda é a plenitude das condições normais para a autoridade.

Agora, qualquer superioridade dá direito a um senhorio.

Então, vamos dizer, de dois músicos. Se um toca notável e definidamente melhor um instrumento do que outro, ele tem o direito de dar ao outro — se os dois vão tocar juntos — as diretrizes do concerto, pelo simples fato de ele ser superior, e dessa superioridade dele lhe dar o conhecimento melhor de como é o concerto. O outro tem que obedecer.

Vamos dizer, as mais modestas das atividades. Eu creio que ser especialista em passarinhos é ornitologia. Se um, por exemplo, entende melhor de criação de beija-flores e outro entende menos, o que entende menos — ainda que seja numa criação de beija-flores inteiramente pessoal dele — deve seguir o que o outro aconselhou.

Por quê? Aqui nós entramos bem na raiz deste mando.

É que todo mundo é obrigado a agir racionalmente, não pode libertar-se do jogo da razão.

Estou falando no terreno natural, ainda não passei para o sobrenatural.

Se um outro possui o lumen rationis em qualidade melhor e ele é reto, quer agir bem, ele fará o que o outro indicou. Isto é o primeiro título de superioridade.

Vamos dizer dois comandantes de navio. Um é o comandante efetivo, o outro é um passageiro que per accidens é comandante do navio, é passageiro do navio e está viajando no navio. Abre-se uma tormenta, o mais experimentado é o passageiro, chega no posto do comando e diz: “Olha, eu lhe aconselho, faça assim, faça assim”.

O outro deve seguir. Ele dirá sob a forma de conselho porque pelas leis da convivência comum não se dá uma ordem a uma pessoa a quem a gente não manda, mas de fato o outro não é livre de não seguir o conselho.

Quer dizer, o comandante efetivo tem autoridade legal, o outro não tem, mas o comandante efetivo não tem o direito de não agir de acordo com a razão, e a razão lhe manda fazer o que o outro está mostrando. Exceto se ele tenha razões muito boas para resistir, ele não tem o direito de resistir, ele deve obedecer.

O mesmo se dá com a vontade. Não é só com a inteligência, mas a vontade. Se a minha vontade é frouxa no querer uma coisa que ele deve querer e o outro quer com uma plenitude comunicativa, eu devo dessedentar a minha vontade na vontade dele. Por assim dizer querer no querer dele, tanto quanto possível a maneira dele. De maneira que a vontade dele como que penetre em mim e me dê calço à minha vontade pernibamba. Eu devo fazer isto. Ou seja, ele manda em mim.

Não sei se está claro.

(Todos: Claro!)

* A plenitude do senhorio dá-se quando a sabedoria e a vontade reluzem no modo de aconselhar e atingem a sensibilidade do outro

Agora, tem algo que não é a simples superioridade da inteligência nem da vontade, isso só não constitui a plenitude do senhorio. A plenitude do senhorio é quando o comandante mais competente do navio dá um conselho com termos tais, que a sabedoria dele e a vontade dele reluzem no modo de aconselhar e atingem a sensibilidade do outro.

Aí é que se caracterizou propriamente o que se chama o senhorio: quando o homem simboliza a própria superioridade, de maneira que o outro entenda por assim dizer pelos sentidos — por assim dizer não, entenda pelos sentidos, e não só pelos sentidos, mas entenda com a inteligência, através de aparências simbólicas nascidas do sentido: “Eu devo obedecer! Eu quero obedecer, eu me sinto levado à obediência”.

Na nossa linguagem, sem essa transparência não se caracterizou bem o senhorio. Existe uma superioridade.

Por que é que é mais bem o senhorio este último caso?

Porque a superioridade toma aqui um caráter cogente, onde ele empurra o outro para onde o homem não quer. E é aqui que de fato se exerce o poder do dominus. O outro não entendia, não concordava e não queria, mas pela argumentação, pela virtude, também pela força simbólica, ele desarmou o outro. Aqui está o senhorio.

Eu estou conseguindo me tornar claro?

(…)

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