Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 10/1/1981 – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 10/1/1981

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Para fazer face à malícia da Revolução é necessária uma forma inédita de amor a Deus * Estabelecida a Revolução, é quase impossível haver uma tentação desacompanhada do espírito revolucionário * Um tema que há muito o Sr. Dr. Plinio queria tratar: o entusiasmo dos “enjolras” e o desamor de pessoas de outras gerações * “Por que o convívio comigo não produz o efeito do ‘Jour le Jour’?” * Se não fosse o fervor dos “enjolras”, ninguém prestaria atenção à Reunião de Recortes * Dormilões e átonos que se indignam com os “enjolras” e usam o Grupo como um ornato para si * A terrível “fumacinha de querer ser qualquer coisa” * No Reino de Maria, o Grupo deverá ser uma Ordem soberana com poder mundial

* Para fazer face à malícia da Revolução é necessária uma forma inédita de amor a Deus

...E é verdade. Quer dizer, um amor sem entusiasmo não é amor, é uma meleira qualquer.

(Sr. Guerreiro Dantas: ...a idéia de luta, de processo e agora o senhor mostrou que só entende bem dessa luta quem tem amor de Deus).

Para o discernimento e os lances do processo, essa destreza supõe, diz você bem, um amor. Mas não é qualquer forma de amor, porque outros podem ter tido um amor em um grau muito alto, entretanto não terem tido essa destreza. Portanto, o problema não se reduz a uma questão de grau, mas há uma questão de estilo e de modo também. É claro que quanto maior o grau, dentro desse estilo, maior será, certamente –– quaisquer que sejam os dotes nativos do indivíduo –– quanto maior o amor que ele tiver maior o proveito que ele tirará dos seus dotes nativos.

Eu não quero dizer que o sujeito terá mais dotes, quanto mais amar. Isso é diferente. Mas o certo é que ele tirará tanto mais proveito dos dotes que tem quanto mais ele amar. Isso não é questionável.

Agora, essa noção, essa atitude de amor a Deus gerando isso, como é que ela nasce, como é que ela se forma?

Ela se forma a partir do pressuposto de que quando a Revolução chegou a um determinado grau de intensidade, não é possível a alma nenhuma, ao comum das almas –– alma nenhuma está um pouco categórico demais –– mas é impossível ao comum das almas existirem sem correr o grave risco de serem arrastadas por ela. E no experimentar a sedução da coisa, no experimentar também o horror da coisa, vem o discernimento da coisa como um corolário necessário do amor de Deus. Uma conseqüência. Porque se algo me afasta de Deus, necessariamente, eu devo combater esse algo. Então eu devo conhecer esse algo para combater adequadamente.

A universalidade da tentação gerou essa coisa que ninguém pode mais amar a Deus sem se dar conta — ninguém [não] — que o comum dos homens não pode mais amar a Deus adequadamente sem se dar conta desse problema.

* Estabelecida a Revolução, é quase impossível haver uma tentação desacompanhada do espírito revolucionário

(Sr. Guerreiro Dantas: Agora ficou mais uma vez claro que é inseparável o amor de Deus sem esse complemento outro que dá ao amor de Deus a solidez e a garantia de que possa ser praticado).

A partir de certo ponto de poder da tentação revolucionária, de universalização, etc., da tentação revolucionária.

Antes de você acabar de formular sua pergunta me veio à mente essa reflexão: em última análise, se uma pessoa, por exemplo, quer resistir –– uma pessoa tentada pela Revolução –– quer resistir ao pecado de inveja, ela não pode resistir a essa tentação de inveja, ela não pode resistir como resistiria uma pessoa no tempo de São Tomás de Aquino. Porque todos os sentimentos de inveja por causa da generalização da revolução, já vêm com uma conotação revolucionária que levanta até coisas piores, pode-se dizer isto, do que a própria inveja em si. É a tentação da inveja num estado de deterioração pior do que a inveja corrente. Uma inveja que já entra com um certo grau metafísico.

Uma é a inveja seguinte: “Eu não quero que fulano seja dono de tal coisa porque eu quero para mim, eu quero ser mais do que ele”. Outra é a tentação seguinte: “Ninguém pode ter mais do que eu. Eu não quero ter mais do que ninguém, porque somos todos iguais”.

Ora, não é possível hoje –– ou ao menos muito difícil –– ter uma tentação de inveja que desde logo não seja, por algum lado, penetrada por isso, por quê? Pelo poder a que chegou a Revolução.

Então, para muitas almas quase não é útil, ou ao menos não produz todo resultado devido à resistência a uma tentação, se essa tentação não for considerada dentro do processo, em função do processo, como elemento do processo.

* O Reino de Maria terá tão grandes santos porque eles praticarão as virtudes em função da Contra-Revolução

(Dr. Edwaldo Marques: Também não pode combater uma tentação se não se voltar para a causa da Contra-Revolução).

É claro, porque não se pode combater a Revolução sem se voltar para a causa da Contra-Revolução. Ela está fazendo Contra-Revolução na medida em que ela combate. E se ela tem ao seu alcance ensinamentos exemplos bons para se mover no contra a tentação revolucionária, ela tem a obrigação de fazer.

(Dr. Edwaldo Marques: Enquanto mais o cerco aperta mais isso necessário se torna).

Mais isso necessário se torna, perfeitamente.

(Dr. Edwaldo Marques: E não é de modo aéreo).

Não de modo concreto, digamos, específico.

(Sr. Guerreiro Dantas: …A sistematização da arte Revolução e Contra-Revolução já não tem de si um valor metafísico, e isso uma vez explicitado os homens fazem a Revolução ou a Contra-Revolução?)

Eu acho que pôr esse conhecimento no corrente, no conhecimento do conjunto dos homens, é pôr ao alcance deles uma coisa de si de um valor terrível para o bem e o mal. E quase se diria que o conhecimento da guerra psicológica revolucionária pelo adversário, na medida em que se generalizasse, tornaria impossível o convívio humano, é mesmo um problema que eu nem sei como resolver.

De posse dos princípios da guerra psicológica revolucionária ou, se você quiser, de nossas teorias de opinião pública, o indivíduo pode ser levado a querer realizar em escala individual o que a guerra ensina em escala coletiva. E se dois homens conhecem isso e resolvem aplicar, o trato entre eles fica impossível.

Quer dizer, são dos tais estudos científicos que conforme se ampliam pode constituir uma bênção ou uma maldição.

Eu dou num campo totalmente diferente um exemplo e fica bem claro: a telepatia. Se os estudos sobre hipnose se desenvolvessem de tal maneira que qualquer homem –– e se a natureza, a ordem natural se presta a isso, não sei também –– qualquer homem pudesse hipnotizar o outro, o convívio humano se tornaria impossível. Já a telepatia tornaria difícil o convívio humano. Bom primeiro, o convívio humano é difícil; em segundo lugar, acrescentando essas coisas torna-se ia muito mais difícil, mas muito mais a ponto de a gente quase não saber o que dizer. Vamos dizer que fosse possível fazer, aí o progresso poderia constituir um problema insondável.

(Sr. Guerreiro Dantas: …Agora o conhecimento da tática Revolução e Contra-Revolução não daria ao convívio um nível angélico, elevadíssimo?)

Eu acho que sem dúvida, imaginada uma sociedade como o Reino de Maria, o que você diz é muito verdadeiro muito bom. Eu, quando falava do convívio humano, eu não entendia o convívio humano especial, muito elevado em graças, do Reino de Maria, mas eu entendia o convívio humano medíocre como, por exemplo, foi há cem anos atrás, ou duzentos anos atrás, qualquer coisa assim. De revolucionários e contra-revolucionários. Mas num grau mais moderado. Aí o que você diz é bem verdadeiro.

Vou dizer mais, explica, a meu ver, pode explicar, deve haver outros títulos, mas o por onde os santos do Reino de Maria serão tão grandes, é que se eles tiverem todas as virtudes consideradas e vividas do ponto de vista da Contra-Revolução, na linha exatamente do que você acaba de dizer, isso daria numa coisa extraordinária. A gente compreende, portanto, que o demônio de nenhum modo queira. E compreende que Nossa Senhora queira favorecer.

* A exímia correspondência à graça dota a pessoa de um particular discernimento

Só queria dizer a vocês uma coisinha para acrescentar ao que falávamos há pouco, para ficar encerrado. Sobre o conhecimento da guerra psicológica revolucionária e das regras da Contra-Revolução.

A gente tomando qualquer pessoa que tenha por luz primordial uma determinada virtude, desde que essa pessoa corresponda eximiamente à graça, ela fica dotada, a respeito daquele ponto de virtude muito especialmente, de uma sensibilidade que lhe faz perceber as coisas mais delicadas da psicologia do outro, quer no sentido positivo quer no sentido negativo. Tomem, por exemplo, São Luís, os mil requintes de pureza de São Luís eram mil requintes de pureza, antes de tudo e mais nada, mas eram também mil discernimentos da marcha cavilosa da impureza, das jogadas infames da impureza e como a impureza pode fisgar os homens e arrastá-los. Uma coisa é meio conexa, meio correlacionada com a outra. E, em virtude disso, São Luís, de fato, em muitos e muitos pontos, praticou eximiamente a Contra-Revolução tendencial “A” em matéria de pureza. Por exemplo, quando ele não queria mostrar o pé para a mãe, que de fato parece um exagero. E de fato não é pecado mostrar o pé para a mãe. Mas você vê que ele discernia uma vantagem para a pureza nisso. Veja até onde vai o discernimento e o que o discernimento pode dar.

Agora a gente imaginando uma sociedade tonicamente virtuosa e, sobretudo com a virtude da Contra-Revolução, nós chegamos ao que você dizia há pouco.

* Um tema que há muito o Sr. Dr. Plinio queria tratar: o entusiasmo dos “enjolras” e o desamor de pessoas de outras gerações

(Dr. Edwaldo Marques: O modo como o senhor deu a Reunião de Recortes de hoje foi de muita grandeza, uma grandeza bíblica realmente. Além da finalidade do assunto, que outra razão o senhor teve para falar assim? Porque vejo nisso muito os fins dos tempos).

Há muito tempo eu estava esperando uma boa ocasião para dizer o que eu disse. E, hoje, algumas coisas que não me lembro quais foram, se puseram a mim mais fácil de explicitar a respeito desse assunto do que anteriormente. Portanto, entrei no assunto sem intenção especial. Mas acho que a reunião se relacionava e feita, …está tardando! Então tudo quanto falei se dirige a isso.

Agora eu vejo que a formulação que a coisa tomou ela excede claramente a esse ponto, porque era o ponto de minha intenção imediata e que ela realmente toma uma proporção de uma espécie de “vue d’ensemble” de todo o nosso procedimento, e do estado atual da Contra-Revolução. Mesmo porque nós não agiríamos com o zelo adequado se nós julgássemos os “enjolras” confirmados em graça e, portanto que eles também não podem dar decepções. Eles estão no começo de um lindo vôo, o que pode sair amanhã só Nossa Senhora que sabe, e sabe em Deus que conhece o futuro.

Então nós deveríamos, sofregamente, aproveitar essa lição e levados por esse pensamento, se eles falharem ao menos me encontram a mim resgatado pelo exemplo deles. Ou recomposto –– a palavra resgatada não é adequada –– recomposto pelo exemplo deles. Mas é o vôo deles…

(…)

* “Por que o convívio comigo não produz o efeito do ‘Jour le Jour’?”

[Relato do Fernando Antúnez]

Na conversa da noite ele dizia que a Reunião de Recortes, o aspecto que nos deu, se relacionava muito com o aperto que Nossa Senhora nos deu com “affaire enjolras”. E que isso se relacionava com a teoria das vinganças que ele deu lá pelos idos de sessenta e três, que se o Grupo não melhorasse, não mudasse, viram afegãos e kirguises.

Então, com os “enjolras” Nossa Senhora nos mandou uma espécie de kirguises Kirguises muito suaves, podiam ser bem mais brutos, são os mais suaves que se possa imaginar.

Numa antiga reunião, na sala da tradição da Pará, ele se perguntava, e [aos] presentes, o que aconteceria se aparecesse algo melhor do que nós. Um dos presentes respondeu que morreria de inveja.

Ora, apareceu de dentro do próprio Grupo um Grupo que nos ergue a face, e a esse propósito discute-se muito, mas a emenda não vem.

Então, falam dos “enjolras”, que dizem isto, aquilo, fazem muito “ohhh” etc., mas as pessoas mudarem, tentarem se pôr na perspectiva dos “enjolras” quanto à Vocação, isso não fazem! O que eles viram? Eles viram incontáveis “Jour le Jours” para exercer esse efeito.

E ele se perguntava: “Por que o convívio comigo não produz o efeito do ‘Jour le Jour’? Vocês convivem comigo e não produz esse efeito! Isto mesmo contado para outros produz um efeito, desperta o amor, o entusiasmo, etc.”…

vou agir o quanto antes. Não! “hã, hã”. Naturalmente isso me preocupa muito.

(Dr. Edwaldo Marques: E o senhor deu um tom muito solene).

É verdade, porque eu não fui inteiramente deliberado em tratar deste tema, eu tinha estas cogitações na cabeça durante o trajeto quase todo, o João foi me lendo aquela carta de João Paulo II. Eu resolvi explicar ao pessoal por que é que eles deveriam ler a carta de João Paulo II e estudá-la. E diante da idéia de explicar isso, a comporta se abriu e saíram outras idéias que estavam antes. Mas muitas delas pensadas de cá, de lá e de acolá sem formarem um todo ainda. Formaram um todo, inesperadamente para mim, durante essa reunião. É o que se pode chamar uma reunião improvisada. É mais ou menos como a reunião agora à noite no auditório, improvisada com peças pré-fabricadas. Quer dizer, eu não fui encontrando cada uma daquelas reflexões naquela hora, eram coisas muito pensadas, mas que não tinham no meu espírito formado definidamente, precisamente, o todo que saiu.

Pois o amor é bem isso: é ter visto e ter sido solicitado a se deixar assumir por essa doutrina especial. Não querer, por uma espécie de bairrismo do indivíduo — não é o bairrismo do bairro ou do estudo, mas é uma espécie de isolacionismo seu, próprio — dizer: “Não, não quero!” Então tudo começa a cair.

Aliás, eu notava muito que havia isso…

(…)

* No desamor está a raiz do pecado, principalmente contra o ponto central de nossa Vocação

[Relato do Fernando Antúnez]

Depois ele dizia que a falta de amor, é um efeito que cai sobre as pessoas que pecaram contra o ponto central da Vocação, daí essas pessoas gemem sob o peso desse pecado e a graça tarda em vir, tarda em vir para que a pessoa se arrependa.

Citou o caso de uma pessoa que dizia não ver o porquê do pecado contra o sexto Mandamento, que obedecia porque a Igreja ensinava, mas não via o mal do ato. Ele dizia que essa pessoa não se recuperará enquanto não odiar especialmente a impureza!

E também quanto àquele ponto, a pessoa não melhorará enquanto não odiar a frieza, a falta de entusiasmo, a indiferença etc. A pessoa não mudará se não se arrepender e pedir perdão.

Não é um problema de método, é a remoção de um castigo. Não que o método do Sr. João Clá dá certo ou não, dá certo para “enjolrinhas” e para outros não. É o problema de fazer remover um castigo que pesa sobre nossas cabeças.

Disse que na origem do mistério está não a recusa do bem, mas sim um menor amor. Por exemplo, os anjos, quando lúcifer caiu, por que caiu? Porque anteriormente tinha havido um desamor. Nesse desamor não havia pecado, tanto que estava no Céu, mas estava o terreno pronto para o pecado, abriu-se o caminho.

Então, esse desamor [está] no começo da história.

Se você soubesse até que ponto isso é um disparate, ter-se posto o problema e aquela resposta “lá não se liga isso”, é um tal disparate, porque isso é tão fora de qualquer peso conta e medida como não sei o que dizer.

Há pessoas, que de fato, como você constatou, não querem ver de outro modo ou não queriam ver de outro modo. Acabou-se! Pronto! Não tem conversa.

Agora, pode-se dar isto com outro, com um terceiro, ele diz:

Não quero ver!

Mas olhe, é uma coisa patente.

Está bom, você me entendeu? Eu não quero! Pronto! Então você vai plantar batata, pois se eu não quero, está acabado!

Quer dizer, a gente poderia provar que isto é assim da seguinte maneira…

(…)

* Rejeição em relação à Senhora Dona Lucilia

[Relato do Fernando Antúnez]

Disse que notava muito isso no trato com a Sra. Da. Lucilia. Que viam o que ela era, mas o problema é que não queriam reconhecer, [mas] viam. Citou um caso de uma pessoa que tratava muito mal a Sra. Da. Lucilia, mas um dia querendo conseguir uma coisa dele [Sr. Dr. Plinio], a mesma pessoa fez um elogio à Sra. Da. Lucilia que era exatamente o que ele faria, perfeito. Portanto ele via.

* Se não fosse o fervor dos “enjolras”, ninguém prestaria atenção à Reunião de Recortes

Mais para frente ele dizia que se não fossem as graças novas, graças de afervoramento dos “enjolras”, ninguém prestaria atenção na Reunião de Recortes. Prestam atenção porque sabem que os mais novos olham, vêem etc… Só por isso, senão não dariam bola, pensariam no jogo de futebol, comentando quem ganhou e não perderiam um minuto com a Reunião de Recortes.

mas eu estou vendo quantas e quantas reuniões anteriores. Agora, por quê? “Não quero! Você entendeu? Não quero!”

* É preciso pedir a graça de ter uma visão amorosa

(Sr. Guerreiro Dantas: Mas como o senhor falou: torrentes que passam por nossas mãos e o que fica…?)

É preciso uma graça. Eu acho que a questão, uma fagulha de uma graça nova que pegue pode mudar tudo. Mas é preciso uma graça.

(Sr. Poli: A graça de ver.).

É a graça de ver. É uma graça de ver, mas um ver amoroso, um ver amando. Porque sem o amor não se vê e sem se ver não se ama.

(Sr. Poli: E esse ver ordena tudo.).

Ordena tudo.

(Sr. Poli: O ver é uma luneta por onde todos os raios de luz têm que passar, e quem passa por fora cega.).

Não, aí é preciso andar devagar. O que na reunião é muito verdadeiro, o lado verdadeiro, uma parte do que falei existe, uma parte do que eu queria está feito. E de fato está criada uma instituição, uma comunidade de almas, etc., tudo isso está criado. Que nem de longe chega aonde deveria chegar, mas que existe, isso não se pode negar. E que normalmente, na economia normal da graça, levaria anos para se poder chegar até lá, se já não existisse. Porque de algum modo existe um restinho de ver, existe algum fator de amar. E isto já gera o que existe.

O que era preciso era um “cair em si” e que a pessoa abrisse os olhos e dissesse…

(…)

* A maior parte dos mais velhos tem um visão deformada da Senhora Dona Lucilia

[Relato do Fernando Antúnez]

Mais para frente dizia que a maior parte dos mais velhos deformou de tal modo a visão da Sra. Da. Lucilia, que não tem mais recuperação. Só uma graça pode solucionar isso.

Isso como um todo. Aí é o ponto.

Como foi que aconteceu? Como é que eu fiz isto? Mas é uma graça. Acho que nós devemos esperar e pedir uma graça.

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor poderia fazer mais reuniões desse como agir…)

É uma coisa que se poderia fazer, e que assim aos pedaços eu vou fazendo, hoje mesmo um pouco eu fiz, mas eu não acho que se tem o direito de pôr nisso o melhor da esperança, porque isso, no máximo, poderia conduzir ao que conduziram anteriores estudos do mesmo gênero. Se não houver uma “mea culpa” e um abrir dos olhos.

(Sr. Guerreiro Dantas: Isso não ajudaria a abrir os olhos?).

Não, a Providência poderia tomar isso como ocasião para abrir os olhos, mas poderia tomar tantas outras coisas como ocasiões que se fica meio assim.

(Sr. Poli: Nos “enjolras” a gente vê que há uma relação entre a visão que eles têm e o abrir os olhos.).

Eu estava hoje comentando o seguinte: é que os…

(…)

* Dormilões e átonos que se indignam com os “enjolras” e usam o Grupo como um ornato para si

[Relato do Fernando Antúnez]

Noutra parte dizia que há estados de espírito que são de uma tal miséria e de uma tal deturpação que não tem nome. Por exemplo, os mais dormilões e átonos na Reunião de Recortes são os que mais se indignam pelos “enjolras” e pelas exclamações que têm. E são exatamente as pessoas que usam o Grupo como um ornato para si, se apresentam como diretores, como grandes homens, dirigentes, e também dentro do Grupo se mostram grandes homens, que são grandes homens fora.

* A terrível “fumacinha de querer ser qualquer coisa”

Nosso Senhor, enquanto os apóstolos dormiam, se Ele tivesse chegado a eles e tivesse dito –– acordados, eles não queriam acordar –– Ele tivesse dito: “Olha, Eu estou na dúvida a respeito da constituição do meu Ministério. Estou com vontade de pôr fulano na frente de sicrano”. Todos acordavam!

Quer dizer, eles estavam dormindo, em última análise, e em parte o tédio deles é porque não se chega o reino de Nosso Senhor. Mas a fumacinha de ser qualquer coisa pô-los-ia fora de si, eles acordavam imediatamente. Eu imagino. E logo discussão: “é, não é”. Sentavam todos, sairiam círculos de estudos animadíssimos. Quando os verdugos chegassem encontra-los-iam brigados uns com os outros, em clãs, etc.

A mentalidade humana tem assim coisas do outro mundo, do outro mundo! Quer dizer, se…

(…)

[Relato do Fernando Antúnez]

Depois de comentar os apóstolos no horto ele disse que se agora viesse o Reino de Maria e tivéssemos que tomar lugares de destaque, ninguém imagina os apegos que sairiam. Que se tivessem ministérios a distribuir, surgiriam apóstatas bradando: “Eu que entreguei tantos anos para a TFP e agora não vou mandar num ministério!” O Adolpho Lindenberg, Du Plici, por exemplo, apareceria: “Eu dei dinheiro para a TFP, eu acompanhei a TFP, dei vinte anos de vida!” Ora ele nunca apareceu no grupo! Nunca entregou nada! Deu dinheiro que acabou, porque foi posto por pedido do Sr. Diretor da CAL e, no entanto ele viria com essa cobrança. Os mais frios, os piores, seriam os mais interessados nisso”.

não tenhamos mais rango humano do que tiveram os discípulos de Santo Inácio. Quer dizer, compara um discípulo de Santo Inácio com um cardeal, com um rei, com qualquer coisa, não é nada! Sobre outro ponto de vista, é incomparavelmente mais.

(Sr. Fernando Antúnez: É querer servir, amar, porque pensar em lugar…).

Está liquidado, seria mais ou menos como um jesuíta que aceitasse –– um jesuíta da grande época –– de ser confessor de um rei com intenção de depois ser nomeado duque, ser reduzido ao estado laical pelo Papa, casar-se e fazer carreira de corte. Quer dizer… [o Sr. Dr. Plinio gesticula, batendo as mãos]…não vem em consideração!

* No Reino de Maria, o Grupo deverá ser uma Ordem soberana com poder mundial

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor falava de como veria o grupo no Reino de Maria, etc.).

Eu não consigo imaginar para o grupo outra situação a não ser –– eu já disse isso aqui –– uma Ordem soberana sobre um pequeníssimo território, como foi a Ordem de Malta. Com um poder mundial e fazendo a favor da Contra-Revolução –– sobretudo psicológica –– o que a Ordem de Malta fez na repressão aos sarracenos no Mediterrâneo. Não consigo imaginar a coisa de outra maneira, acho que ele será assim.

* Duas maneiras erradas de desejar exercer o mando – características de alguns povos e estados

Aí há duas –– para usar uma metáfora que uma vez vi num escritor fora –– há dois modos de amar a realeza: um é amá-la pelo cetro, outra é amá-la pelo veludo do trono. Quer dizer, alguns querem ter a realeza pelo gosto de mandar, ainda que não se saiba que são eles que mandam. E outros querem ter a realeza pelo gosto de parecer que mandam, embora não mandem. Naturalmente pode haver um que queira o cetro e o veludo do trono, mas a escolher, as famílias de alma se dividem. Os dois são errados.

Mas, as almas que gostam do cetro e não do veludo do trono teriam mais facilidade em aceitar esta condição do que as que gostam do veludo do trono. Mas elas também [se] dariam mal porque não eram desapegadas. Quer dizer, é preciso não gostar de uma coisa nem de outra.

Quase que se pode dizer que isto é por religião e por família, de tal maneira essas escolas são típicas. Há os que gostam de mandar de um jeito, ao que gostam de mandar de outro jeito. Por exemplo…

(…)

[Relato do Fernando Antúnez]

Falando do veludo e do cetro ele dizia que os argentinos fazem muito mais questão do cetro do que do veludo e os chilenos mais do veludo do que do cetro. E que o paulista antigo é mais veludo do que cetro, ele é mais senhorial, calmo e ostensivo. Ele é elegante mas não a la argentino, é uma elegância mais feudal. O paulista é de organizar a vida. Por exemplo, as sedes de fazenda de São Paulo não chegam aos pés das do Rio de Janeiro que são muito mais bonitas. A vida mundana no Rio de Janeiro, quando havia, tinha outro brilho que não em São Paulo. No Rio era mais brilhante, mais ligado à Europa. São Paulo era mais feudal. O fazendeiro paulista enriqueceu mais tarde e as casas eram mais feudais que as do Rio. Por exemplo, faziam face ao poder público muito mais que os outros estados.

facilmente se incrustaria como praga, porque não mais pretende o veludo. Ora! É muito fácil você servir da obediência religiosa para impor ao indivíduo que renuncie ao veludo do trono, você chega a ele e: “Tal cargo você não pode ocupar! Vai ocupar tal outro carguinho que todo mundo fica vendo que você não é nada”. Acabou com o veludo do trono, porque ele não aparece. Como o gozo dele está numa aparência e ele não se aparece em nada, acabou-se.

Agora, tirar ao indivíduo essa possibilidade de mandar nos bastidores… É de bastidor, é imponderável, ele faz o que ele quiser. Muito mais difícil. Depois exigem do sujeito que ele faça um voto, que ele obedeça, etc., ele faz o voto, está feito o voto, que problema tem… Depois recomeça a jogar.

(Sr. Guerreiro Dantas: É este tipo de gente que vai nos dar trabalho no Reino de Maria).

Ah, trabalho enorme! Depois os há aos borbotões.

(Sr. Guerreiro Dantas: …como de repente um povo adquire mais essa tônica e outro outra).

É dificílimo saber. O romano tinha uma arte de organizar a vida, o grego tinha menos a arte de organizar a vida. Eles, por assim dizer, não tiveram um grande império como Roma, sobretudo não com a estabilidade enorme que teve o Império Romano, mas eles tinham outra largueza cultural, artística, etc., que os romanos não tinham.

(Sr. Guerreiro Dantas: …o senhor falava que o horizonte da alma paulista, que ela tinha aptidão de descortíneo e de uma certa vastidão…)

Sim, cultural ou literária fulgurante, charges bonitas. Nada… E depois, o próprio é de organizar a vida pública e a vida privada.

(Sr. Guerreiro Dantas: …um lado do Brasil, um traço do Brasil que é um traço paulista…).

Mas a marca paulista não se confunde com outras marcas, são muito diferentes. A coisa realmente precisa ser tomada com muita sutileza, você quer ver…

(…)

[Relato do Fernando Antúnez]

Citou o caso do discurso que fez no congresso eucarístico, discurso esse ultra contra o Getúlio, a tal ponto que o Agenor Magalhães, pernambucano que depois foi interventor em Recife, disse que se ele fizesse esse discurso em Recife iria preso. Ele respondeu que por isso não estava lá… Agora aqui em São Paulo não o poderiam prender, ficaria mal visto, porque o paulista faz face ao governo.

Dizia que o governo do Estado em São Paulo não tem prestígio, o paulista se interessa por ele como pelo juiz de paz do distrito.

Logo mais [adiante] dizia que os fazendeiros deveriam ter dado para o Brasil sacerdotes, diplomatas e militares, mas não deram porque a aristocracia não se sustenta em cima de um fio de capim.

Disse que o brilho da aristocracia, os paulistas espelharam por todo o Brasil.

o desprestígio social…

(…)

[Relato do Fernando Antúnez]

No final da reunião ele falou do espírito helênico, que fica na filosofia, nos critérios, etc., e por isso cai numa série de deturpações por falta de base na realidade. Enquanto que há uma outra escola, correta, que a partir das atitudes, vê princípios. Assim pega a realidade e tem vida.

Isso ele falava a propósito das pessoas que vêem nas atitudes o “lúmen” etc…

franceses que ele me emprestou que tem um broche que eu reputo uma obra-prima do gênero! Não é um tratado de arte, mas entrou mais arte do qualquer tratado de arte. Ou em muitos tratados de arte. É uma atitude.

Quer dizer, o discernimento puramente helênico, que eu aprecio muito, não é necessariamente a fina-ponta dos discernimentos. Você quer tocar com a mão, pega qualquer coisa grega e com qualquer trecho do Evangelho.

(Sr. Mario Navarro: Se o senhor pudesse explicar noutra reunião o providencial do fato de o senhor não ser inteiramente paulista)

Ahahah!

[Risos]

(Sr. Mário Navarro: Mas deve ter uma explicação bonita)

Tem sim. Achei graça é do polido desabafo carioca…

(Sr. Mário Navarro: Considero-me paulista)

Coitado, chegou a esse ponto a renúncia! Chegou a esse duplo grau de renúncia, acho que esse segundo grau quase é mais doído que o primeiro… Eu te contei uma vez de um professor…

(…)

(Sr. Guerreiro Dantas: …quando João Paulo II começaram a cantar aqui uma porção de musiquetas e a las tantas cantaram uma música popular de São Paulo. De repente começaram a querer cantar sobre Minas Gerais e foi uma vaia tremenda)

Olha lá, Fiúza! Pode a gente… Onde está o Fiúza. Aí?… Mas olha, ali está o Amadeu… Essa história hein!

(Sr. Guerreiro Dantas: mas o senso do povinho, inclusive, mas bramiam de indignação!)

Isso lá em Minas nós ouvimos e não comentamos… Ahahah…

(Sr. Guerreiro Dantas: Achei curiosíssimo.)

É, são singularidades.

Meus caros, que Nossa Senhora os ajude.

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Alagoas, 1º andar