Conversa de Sábado à Noite ─ 20/12/80 ─ Sábado [AC V 80/12.17] – p. 10 de 10

Conversa de Sábado à Noite ─ 20/12/80 ─ Sábado [AC V 80/12.17]

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Vocês não sentem que está uma aragenzinha mais humana por aqui?

Tenho bebido água de um modo prodigioso. Se não fosse a glicemia triunfante de ontem, eu teria me preocupado. Na Reunião de Recortes bebi pelo menos uma garrafa de água, estava quentíssimo.

Eu tenho a impressão de que os arranha-céus tapam muito a ventilação. Suponho, pelo menos. Jasna Gora estava muito quente, mas as janelas estavam bloqueadas. Muito bem bloqueadas, mas bloqueadíssimas.

Bem, do que tratamos hoje, quais são os temas, as matérias?

* A quem sensibilizar com a radicalização do progressismo na Igreja?

(Dr. Edwaldo: A estrutura está fazendo jogo aberto mesmo.)

Recebi um grafonema do Pedro Morazzani dizendo que os jornais de Caracas não dão isso, que há umas declarações do arcebispo de Manágua que são muito menos categóricas do que isso. De maneira que o negócio de El Salvador é preciso tomar um certo cuidado.

(Dr. Edwaldo: As Comunidades de Base de lá já receberam palavra de ordem para a guerra civil. Face a este quadro todo, o senhor tomaria alguma atitude?)

A questão é a seguinte: nós iríamos sensibilizar quem?

Por exemplo, na ocasião da Resistência, nós tínhamos esperança de sensibilizar uma certa onda. Mas, agora, no momento, iríamos sensibilizar quem?

A própria evidência meridiana da coisa tem como efeito que quem possa sensibilizar-se e que mostrar, não adianta muito.

(Dr. Edwaldo: Mas de tal modo é a confirmação de tudo quanto o senhor disse e previu, seria para marcar diante de Deus uma espécie de Resistência II, reunindo tudo numa visão de conjunto, porque o total é impressionante.)

O total é arrasador.

Mas isso se poderia fazer e deveria se fazer se nós ficássemos ilesos de circunstâncias muito nocivas.

* Se atacarmos João Paulo II, ainda perdemos umas aparências de apoio que temos, algo que não convém romper

Agora, acontece concretamente que boa parte do centro decisivo, aquilo que ainda é direita no centro decisivo, a gente vê que está desapontadíssimo com João Paulo II. Cessaram os elogios a ele, mas críticas não fazem. Não fazem e estão dispostos a não endossar. E se a gente fizer a crítica dirão: “É verdade, não é o papa de nossos sonhos, mas nós devemos reconhecer que, por alguns lados, [é] um pobre coitado. Depois é cercado por Mons. Casaroli. Olha, Mons. Panciroli já disse que quando for posto fora, o Mons. Casaroli tudo vira. Tudo está em torno de Casaroli ou não Casaroli. É só o golpe que Mons. Lefevbre resolveu dar, por intermédio da Irmã Conegundes, contra Mons. Casaroli, [que], dando certo, tudo muda”.

No fim: “Tudo está nas mãos do Mons. Lefebvre”.

Se formos nos jogar por cima de João Paulo II, nós ainda perdemos umas aparências de apoio que temos, umas coisas que não convém romper. De maneira que a situação é muito pior do que no tempo da Resistência.

Sendo preciso notar o seguinte: a Resistência foi seguida logo por uma descarga de bobeira, de Bagarre de pus, do outro mundo.

(Dr. Edwaldo: Chegará esse momento.)

Acho que sim.

Devo conversar com o JL na segunda-feira. Ele afinal chegou. Passou um dia no Paraguai, no aeroporto, imobilizado, mas devo conversar com ele na segunda-feira sobre a questão da nova direita. Quero ver fatos concretos, mais do que impressões.

Isso pode esclarecer algo, mas eu acho no total da situação muitíssimo pouco propícia a que nós nos mexamos.

* Um reflexo da nossa semifidelidade é a indiferença em relação à paixão da Igreja - Preocupação pelas bagatelas no dia-a-dia

Aliás, nós vemos o reflexo disso na nossa semifidelidade. Porque, por exemplo, tudo isso não causa entre nós o burburinho e indignação que deveria causar. Dizem: “Nós já sabemos o que eles são, a estrutura: são nada. Para quê estar conversando? Vamos tratar de outra coisa”.

Quer dizer, com outra atitude, com outro pretexto, é a mesma atitude: “Esqueçamos o affaire João Paulo II, não existe”.

(Dr. Edwaldo: Profecias da “Bagarre” já são conhecidas, estão se realizando.)

Estão se realizando. Para que mais? Para que estar comentando? Já sabemos. Deixe que se crucifique, que se flagele, vai acontecer mesmo. Nós vamos ficar no fundo da casa olhando para o rio que passa no jardim e bebendo alguma coisa. Não pensemos neles”.

Mas, por exemplo, o que eu disse hoje, eu acho que acompanharam, concordaram, mas a reação interna foi a seguinte: “É verdade. Então agora vamos jantar porque é o que se põe”.

(Dr. Edwaldo: Também a confirmação de tudo o que o senhor vem dizendo, está claríssimo. Esse lado devia nos mover muitíssimo.)

Também, absolutamente. Já se sabe que Dr. Plinio acerta, para quê estar tratando disso? Dr. Plinio acerta? Acerta. João Paulo II não presta? Não presta. Agora, vamos jantar. E tenho o problema desse botão aqui: se cai, tenho que comprar todo um jogo novo de botões no alfaiate, não está barato. Aliás, em que alfaiate vou encontrar botão de osso e não de matéria plástica? Esse é de osso. A gente perde assim um jogo de botões de osso. Onde terá ficado o botão? Vou ter que procurar embaixo da cama. Às vezes salta em cima do armário, vou procurar em cima do armário”.

Teleférico: panoramas do botão. É uma coisa fantástica.

* Dentro do Grupo interessamo-nos pelos temas na medida em que sentimos uma tal ou qual consonância disso com a mentalidade do mundo de fora

(Sr. Guerreiro: A semifidelidade aumenta na medida em que não se quer contemplar esses panoramas. Como resolver essa situação? Porque de um lado há as infidelidades enormes, de outro lado há as graças extraordinárias sempre que estamos com o senhor. Como uma reunião como a de hoje tira a pessoa da situação de semifidelidade? Antigamente havia discussões a respeito desses assuntos, se tinha até uma boa torcida, prognósticos, etc. Hoje não há mais isso. Por que isso é assim?)

Isto é assim porque no tempo em que isto era objeto de torcida, de prognósticos, entre nós, também era objeto de trato fora. E nós sofremos o contragolpe do que se passa fora, porque somos por demais sensíveis ao que se passa fora.

Os modos de tomar os temas dentro do Grupo é mais ou menos a raiz quadrada do que se faz fora, mas é análogo.

Então, nós nos interessaríamos por esses temas na medida em que nós sentíssemos consonância, uma tal ou qual consonância disso com o mundo fora, com a mentalidade do mundo de fora. E nós somos sempre a raiz quadrada da infidelidade total. A semifidelidade… podia se fazer uma equação: raiz quadrada de infidelidade total é igual a semifidelidade. É assim!

Nós sempre seremos dentro de casa o eco do que há fora. Para fazer uma comparação:

Passou há pouco uma motocicleta aí. O barulho que essa motocicleta produz aqui dentro, digamos que seja a raiz quadrada do barulho que ela produzirá nos ouvidos de quem esteja montado nela. Assim, também, em nossas paredes domésticas as coisas têm, exatamente como fora, mas postas na raiz quadrada.

* A semifidelidade decorre do fato de não se amar como deveria ter se amado, no momento em que se olhou para a Causa

Agora, por que damos tanta importância a fora quando temos tudo o que temos dentro?

É porque quando vimos o que tem dentro, em determinado momento, fomos convidados a um peso, a uma confrontação: “Dentro temos tal coisa, fora temos tal outra. Nós amamos bastante o que tem dentro a ponto de romper totalmente com o que tem fora?”.

A resposta foi: “Não! Nós nem queremos romper com o que está dentro nem com o que está fora, vamos arranjar uma combinazioni”.

Feita a combinazioni, dá na semifidelidade, com tudo o que ela tem: o propósito de não romper comigo e o propósito de não romper com o mundo.

Isso decorre do fato de, no momento de se ter olhado para a Causa, não se ter amado como a causa deveria ter sido amada. É isso. Não tem grandes complexidades, nem grandes problemas, é isso.

(Sr. Poli: Não se amou com a integridade que deveria.)

Exatamente.

Agora, por que não se amou?

Amou-se no começo, mas quando vieram as dificuldades, os problemas, quando veio a necessidade de romper com o mundo, a gente percebeu que a coisa era outra. Daí começou-se querer uma composição.

(Sr. Poli: Mas a pessoa deixou de olhar para o senhor e começou a olhar para a TFP…)

(…)

Dr. Plinio tem razão contra o mundo. O mundo, muito lentamente, muito vagarosamente, parece caminhar para tal rumo, mas é tão vagaroso e tão lento, que os que estão agora aqui têm uma responsabilidade pequena pelo fim que se chegará lá. E, por causa disso, Dr. Plinio que tem razão quando ao mundo considerado em suas tendências, não tem razão considerado o mundo agora”.

(Sr. Guerreiro: Isso tem vigência hoje. Larga vigência.)

Larga vigência.

Resultado: “Essa distinção que Dr. Plinio não faz, e no total faz bem de não fazer porque se prestaria a abusos, eu, homem sereno, que vejo os acontecimentos com uma frieza, que faz parte de meu talento e de minha personalidade, compreendo bem que posso fazer concessões no meu foro interno e de atitude externa que ele não aprovaria, mas que se prendem a este aspecto da realidade que ele não toma em consideração”.

(Dr. Edwaldo: E, pelo fato do senhor não poder dizer tudo quanto quer, insinuavam que o senhor concordava com o modo de ser que o senhor descreveu, porque fazia silêncio sobre ele…)

* “Aceitar inteiramente minha posição, seria entrar em choque com o mundo”

(Sr. Guerreiro: A recusa ao senhor veio principalmente da catolicidade do senhor. Havia uma recusa do senhor enquanto amando o aspecto espiritual das coisas. O senhor não teve então que salientar aspectos de caráter temporal e social para manter-nos, não serem levadas às temáticas mais profundas?)

Tem algo disso, mas o aspecto mais profundo é o seguinte:

A relação que eu escrevo, com base na doutrina católica, entre o ambiente espiritual e temporal, mostra no ambiente espiritual profundamente empenhado na ordenação de uma situação temporal católica, e o ambiente temporal profundamente desejoso de reconhecer a regência, no campo próprio, do assunto espiritual.

Eles sentiam que, aceitar inteiramente minha posição, seria entrar em choque com o mundo. E, por causa disso, ao invés de aceitar essa posição, eles caíam simultaneamente em dois erros: percebiam que a heresia branca era aliada do mundo aí fora, e tratavam a heresia branca exatamente como tratavam o mundo fora: ”Tal padre, tal bispo, etc., é censurável, mas não como Dr. Plinio diz. Nunca chegarão a fazer as coisas que Dr. Plinio diz, a Estrutura não vai até os pontos que Dr. Plinio diz. Isto é Estrutura para o ano 2100, Dr. Plinio aproxima e põe no século XX.

De outro lado, o Dr. Plinio não toma em consideração… quer dizer, ele tem, portanto, uma visão religiosa severa demais com a heresia branca. Eu posso ser heresia branca sem ser colaborador do comunismo, de um lado, e com isso adquirir a simpatia do mundo fora. Do outro lado, o pessoal do mundo, fora, leva uma vida temporal que não é sacral, mas ainda não é diretamente pecaminosa. Então vou participar do mesmo erro: vou ser ao mesmo tempo pouco religioso demais, enquanto temporal; e pouco temporal demais, enquanto católico”.

Pecado guelfo e gibelino ao mesmo tempo, que era a sociedade aí fora. Era isso.

* Ser ao mesmo tempo pouco religioso demais, enquanto temporal; e pouco temporal demais, enquanto católico

Pegue, por exemplo, um clube de Curitiba, no tempo em que você freqüentava clubes. Aquela gente que freqüentava esse clube, a média - não digo os extravagantes, a média - quereria fechar a paróquia próxima: “De nenhum modo”. Funcionários do clube, no sábado, domingo, a certa hora, vão também à missa, está acabado.

Mas antes do Concílio eles não queriam o padre dentro do clube, nem teria capela ou oratório no clube, queriam as coisas separadas. Na hora de ir para a igreja, estavam em paz com a heresia branca e eram católicos. Na hora do clube, o padre não pie, fique na igreja dele fazendo uma novena com as beatas.

São dois mundos separados. De vez em quando se intercomunicam, mas são separados.

Esta posição nunca aceitei. Minha tese foi sempre: é preciso que no clube haja um oratório e é preciso que na igreja se fale mal do clube, se oriente o clube para que seja bom. Uma interfusão.

Pelo contrário, vamos imaginar um clube bom, a igreja ainda ajudaria, ainda faria apostolado para esse clube ser mais tradicional, para ser um clube melhor, etc. Mas não haveria esse hiato entre a matriz e o clube.

Agora, eu garanto que seu clube em Curitiba não é assim. Se você aparecesse, por exemplo, com uma imagem e dissesse: “Aqui está uma imagem para uma capelinha que eu pago, no terreno no clube”, em qualquer clube que conheçam, isso seria abominado.

Vamos dizer, por exemplo, aquela imagem de Jasna Gora, que está do lado de fora da sala de reuniões. Dar aquilo para um clube e montar ali aquela tendazinha, seria impossível!

(Sr. Guerreiro: A recusa da Igreja, de Nosso Senhor, nesses lugares é uma coisa…)

Mas, o padre fingia que não sabia.

(…)

“… Pe. Janjão hoje, imagine o que esse homem queria de mim!” Todo mundo: quá-quá-quá!

Agora, como o padre não dizia, fingia não saber, ele, no fundo, dava o respaldo ao Janjão.

E uma coisa que perturbava aos dois era nossa posição. Então, ir ao clube, fazer ali dentro campanha da TFP, fazer o nome do Padre antes de uma refeição no clube, era, por excelência, o que os dois não queriam. Eminentemente não.

Está bom, nós ao invés de tomarmos nossa posição, babamos, querendo ver o Pe. Janjão e o diretor do clube como sendo cada um perfeitamente bem.

A pergunta: “Nesse clube se faz imoralidades? Na casa não, sou sócio do clube. Na igreja do Pe. Janjão se ataca o clube? Não. E, como sócio do clube, vou à missa do Pe. Janjão, está acabado”.

Diga, meu Major.

(…)

uma grande graça, está sujeita a uma provação a respeito da graça que recebeu.

* Se se tivesse amado, na hora da obnubilação seria-se fiel

(Sr. Guerreiro: Isso é matemático?)

Me exprimo com cuidado: está sujeita. Quer dizer, pode vir. Não quero dizer que, É certo que muito freqüentemente, ou sempre, eu não saberia dizer, vem a provação a respeito da graça.

Agora, para a provação ser possível, traz uma certa pequena obnubilação a respeito do que a pessoa viu e que a entusiasmou. E, junto com a obnubilação, a apetência do contrário.

Na hora em que existe esta obnubilação, se a pessoa tivesse amado mais, ela resistiria a essa obnubilação. Como ela amou pouco, ou ao menos não amou tanto quando devia, ela resiste pouco à obnubilação.

Vem a prova e seu segundo elemento que já não é a obnubilação, mas é a sedução do contrário.

A pessoa que se deixou obnubilar tem todas as razões para cair.

Isso está de tal maneira na natureza das coisas, que muito das pessoas que têm escrito sobre a tentação de Lúcifer dizem isso: que no momento da tentação ele teve algo, todos os anjos, por onde a glória que ele via em Deus, num pouquinho se empanava. Deus, vamos dizer, se distanciou um pouco ou algo como isso.

Isto feito, o próprio Deus apresentou ao anjo o assunto da Encarnação e Imaculada Conceição que o colhe. Se ele amou muito, o colhe em estado de reatividade: “Não entendo nada, mas vou sustentar, escorar, etc.”. Se amou pouco, o colhe em estado de condescendência.

Adão e Eva no Paraíso. Há muita gente que diz isso, que Adão e Eva tiveram, pouco antes da serpente tentar, uma espécie de obnubilação a respeito de Deus, de que o autor seria o próprio Deus, que se afastou um pouco para provar. E aí…

Isso é fundamental, todos passaram, e em parte - induzidos por outros, em parte pela própria fraqueza, “n” razões, na hora da obnubilação - eles não resistiram.

(Sr. Poli: Foi um rompimento…)

* Todo o cabível em matéria de gentileza, nosso Pai e Fundador nunca deixou de ter para qualquer um

Porque quiseram.

Vou acrescentar mais: o que o demônio gostaria muito é que eu tivesse um mau gênio, um trato esquisito, qualquer outra coisa assim, e então pudessem dizer: “Dr. Plinio, com o mau gênio dele, me colheu num dia em que eu estava nessa obnubilação. Resultado: ele tem uma certa autoria na minha concessão”.

Queixar-se com fundamento de que alguma vez eu deixei de ter toda gentileza cabível. Só não fiz o descabível, graças a Deus não fiz, mas todo o cabível eu fiz até o último ponto, disso eu tenho certeza. Não tem conversa.

(Sr. Guerreiro: Isso é de tal maneira assim, que ninguém tem coragem de dizer o contrário.)

Graças a Nossa Senhora não, porque seria realmente um pecado muito grave.

(Sr. Guerreiro: Agora, quem no mundo pode dizer isso de outra pessoa?)

Bom, você sabe o medo que tenho de comparações, não me comparo. Mas que eu tenho, nesse ponto, graças a Nossa Senhora, minha consciência tranqüila, eu tenho.

(Sr. Poli: Eu posso dizer, as pequenas aberturazinhas que o senhor via em nossas almas, o senhor se debruçava para ajudar, parece que o senhor estava esperando a abertura…)

Espreitando.

(Sr. Poli: … deitava a mão em cima, acalentava.)

Oferecendo desde logo toda forma de bom trato, de galardão, de honra que eu pudesse, que fosse cabível. Isso tudo.

Outra coisa: nunca se poderá dizer, isso também tenho certeza, que alguém é contrário à TFP porque eu tratei mal esse alguém. Nunca. Não ouviram dizer isso em nenhum lugar, que fui bruto, etc. Não ouviram. Eles mesmos não ousam dizer.

(Sr. Poli: E gostaria muito de poder dizer.)

Muito, muito, muito.

Dizer a vocês: “Vocês levam vida dura, mas eu ia procurar o Plinio em tal dia, sabe que eu ia aderir a vocês, encontro o Plinio na rua, digo: ‘Bom dia, como vai você?’, ele: ‘Bééémmm’. Você compreende que desanimei e não fui procurar, depois me tornei inimigo de vocês. Está bom, não andei bem; o Plinio andou bem?”.

Eu tenho certeza de que vocês inundariam esse homem de compaixão: “Coitado, Dr. Plinio respondeu assim um cumprimento dele!”.

(Sr. Guerreiro: E gente ficaria provada…)

Muito, muito. Mas não podem dizer.

(Sr. Guerreiro: Isso é muito bonito. Essa presença de Nossa Senhora assim. Setenta e dois anos, nunca ninguém poder afirmar isso do senhor, para considerar apenas esse aspecto. A gente vê que realmente é algo fabuloso, extraordinário. E o senhor é assim.)

Graças a Nossa Senhora, é.

(Sr. Guerreiro: E a despretensão também, foge de qualquer padrão. E o demônio às vezes pode soprar: “Este senhor é completamente o oposto do padrão que eu tinha como figurino de um varão, como deveria ser. Polidez, não se comenta. Despretensão, atinge os pontos que o senhor levou. Meu amor próprio não tem o que dizer!”.

No início do dia 13, o senhor, ao rezar, lembrou-se da Sra. Da. Lucilia. Havia uma simplicidade grandiosa, uma candura nos afetos, uma coisa tão leve, tão familiar, um modo de ser, que alguns gostariam que o senhor fosse mais empáfia em certos momentos. E o senhor não tem isso. Então as pessoas ficam cercadas e desconsertadas.)

Mas se as pessoas gostariam que eu tivesse empáfia…

(Sr. Guerreiro: Qualquer ponto de consideração sai das nossas medidas.)

Essa despretensão, você diz o seguinte: que a pessoa poderia achar que eu não me prezo a mim mesmo e que, por não me prezar a mim mesmo, eu induzo os outros a me menosprezarem, subestimarem, estimarem menos do que seria natural. É isso ou não?

(Sr. Guerreiro: É um pegar nas coisas apenas com as pontas dos dedos, não se deixa engolfar naquilo, que isso as pessoas não gostam de ter.)

Isso concordo.

(Sr. Guerreiro: Aquela coisa tem um valor X, o senhor aprecia, etc. Mas não coloca ali afetos mais intensos que todos homens colocam.)

Porque tudo isso vai para a Igreja.

(Sr. Guerreiro: Mesmo com relação ao senhor, o senhor tem uma forma de estima que nenhum homem tem para consigo, um crivo… uma ausência de consideração ou estima por isto ou aquilo que o senhor tenha feito, uma distância que é uma coisa… E a gente vê que, realmente, deste mundo o senhor não tem nada, afeto nenhum.)

Espero não ter.

* Isto deveria nos comover e dar ternura; em vez disso dá dureza

(Sr. Guerreiro: E isso deixa as pessoas desconsertadas. E vejo um pouco isso nos rapazes do São Bento, já estão pegando isso, uma distância de certas coisas que fazem…)

Tem. Hoje à noite senti isso.

O jeito de eles entrarem no sábado passado na Igreja, entravam numa coisa que não era deste mundo. Muito mais alto, mas tão fora…

(Sr. Guerreiro: Estalando todas as medidas.)

(Dr. Edwaldo: E ali qualquer apego ou megalice se perceberia.)

Logo, logo, sairia como uma ponta de lança ali pelo meio. E hoje à noite, algumas reações deles durante o Santo do Dia, era de chamar atenção. A posição deles: “Eles estão no São Bento mais ou menos como objetos preciosos numa vitrine, trancada, posta em exposição, mas não tendo nada com a vida da sala. Os odores da sala, as vibrações da sala não entram na vitrine”.

(Sr. Guerreiro: Citei apenas de passagem, não queria desviar para os rapazes do São Bento.)

Me fica mais cômodo, com referência aos rapazes do São Bento.

Nosso Senhor não deu esse exemplo? Não foi o que Ele fez?

Olhem aqui para essa imagem que está atrás. Naturalmente ninguém tem comparação com Ele, Ele é divino, mas você olha para essa imagem atrás. Por exemplo, Ele sabe perfeitamente quem Ele é e se preza a si próprio, mas é a própria personificação da despretensão. Não tem nada.

Vamos dizer, acho que o Pilatos era muito mais enfeitado do que Ele: “Eu sou o governador romano, procônsul, o que você está pensando?”.

Anás e Caifás, tenho a impressão de que eram homens de uma megalice sem limite. Qualquer limite ainda era pouco para eles.

Bom, portanto, a impressão que eu tenho é que isto deveria nos comover e nos dar ternura. Em vez disso dá dureza.

É esse o caso, dá dureza.

(Sr. Poli: Com ninguém se é tão duro quanto se é para com o senhor.)

Ah! não, com ninguém, ninguém, ninguém.

(Dr. Edwaldo: A pessoa suportaria melhor uma superioridade apegada.)

Fora de dúvida.

(…)

Vou dormir na casa do outro. Ninguém faz isso.

(…)

Ufano porque quer. Certo que vai ser bem recebido no dia seguinte, nem lhe passa o contrário pela cabeça. Mas isso não comove.

Bom, há uma coisa que me consola: é que Nosso Senhor foi tratado exatamente assim, exatamente assim, sem tirar nem pôr.

(Sr. –: …)

Se depois de eu ter com uma pessoa um ano inteiro de trato corretíssimo, eu fizer um lapso por onde, em algo, meu trato não seja como o que o sujeito imaginou, é uma crise. Quer dizer, não é dizer que ele seja insensível, não. Tem uma sensibilidade prevenida contra mim, de maneira que tudo quanto eu possa fazer de bom, é subestimado, e tudo quanto eu possa ter de equívoco, é logo sobrevalorizado o aspecto negativo: “Olha lá, está vendo? Eu estava dizendo! É tal coisa assim”.

Agora, isso… eu estava no domingo passado falando com o Luizinho, eu disse: “Isto aqui se chama maldade. Não tem outra designação, é maldade. Diante de um trato impregnado de cordura, de consideração, um trato que, pela graça de Nossa Senhora, não se desmente jamais a si próprio, a pessoa chega a este grau de insensibilidade, a pessoa é má”.

No sentido corrente da palavra pessoa má é isso.

Quer dizer, imagine-se cada qual tratado assim, diria que o outro que o trata assim é mau.

* Desaforos que o Sr. Dr. Plinio teve que suportar

(Dr. Edwaldo: Há gente que acha a paciência do senhor excessiva. É tal a paciência, que é deixar o outro impaciente. Mas, com o próprio não.)

Não. Eu me lembro do…

(…)

Por exemplo, um deles [enjolras] vendo eu agradar um outro, fica contente. Isso entre nós, não é assim, absolutamente.

E não é representação. Depois, representar para quê? Quer dizer, um rapaz levar a vida que eles levam por representação?…

Bom, meus caros, a prosa está muito boa, mas tenho que ir andando.

Termino lembrando uma coisa que me disse um, não sei se lembram.

A primeira que veio aqui em casa - eu estava instalado na casa há uns dois ou três anos - me disse:

- Olha, gostei muito de sua casa, mas devo dizer ao senhor que se eu morasse na sua casa, eu teria vergonha.

Isso é uma coisa que não se diz a ninguém.

(Sr. –: Nem da choça de um mendigo não se diz isso.)

Não diz!

Eu disse:

- Por que, meu caro, você teria vergonha?

- Tudo o que o senhor tem é muito bom, está tudo em ordem, mas eu teria vergonha de não ter o que há de mais rico no gênero.

A resposta direta seria: “Você tem?”.

Eu sei que não tem, sei que é muito inferior a casa dele. Mas com essas coisas não se raciocina.

Eu:

- Olha, está bom, está bom, hêhêhê - amável, etc.

Mas isso ninguém diz a ninguém.

É como um homem junto a quem me sentei depois que me restabeleci dessa amputação do pé, membro do Grupo.

Estávamos no Auditório São Milas, ele voltou-se para mim e disse: “Aleijado!”. Eu calei-me.

Dali a pouco ele me disse de novo: “Aleijado!”. Eu calei de novo.

Dali a pouco me disse: “Estou dizendo isso a você porque, quando eu era menino, tive um tifo, fiquei muito fraco e fui à fazenda. Quando saía com alguém da família me apoiava no braço desse alguém e os colonos comentavam que eu era aleijado e eu ficava exasperado. Eu estava me lembrando desse fato e, a esse propósito, chamei a você de aleijado”.

Eu: “Ah, pois não”, etc.

O homem não se comoveu com esta cordura em nada.

(Sr. Guerreiro: Se tivesse levado o que merecia, se espatifaria no chão com muita alegria.)

Sim, ficaria contente, porque aí teria justificado a oposição que eu estava fazendo a ele.

Agora, vocês não conhecem um só homem que tenha chamado um outro com defeito físico de aleijado. Você concebe…

(…)

com toda naturalidade.

Mas o fantástico é que as pessoas a quem eu conto isso, na maior parte dos casos não se comovem: “É, é mesmo”.

(Sr. Guerreiro: Por que a pessoa diz isso? É uma maldade sem nome, mas ela já sabia que o senhor não iria dizer nada.)

Sabia, ah! sabia, que eu não me vingaria em nada, porque eu teria mil vinganças mesquinhas a tirar dessa pessoa se eu quisesse. [Muda de fita]

A cordura leva à violência. Os soldados que perseguiam a Nosso Senhor fizeram isso.

Bom, meus caros, vamos dormir.

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