Conversa
de Sábado à Noite – 6/12/80 – Sábado
[AC V 80/12.06] .
Conversa de Sábado à Noite — 6/12/80 — Sábado [AC V 80/12.06]
As relações entre as almas dentro do Grupo são como os sinos de um carrilhão: cada som desempenha o seu papel, mas a música é uma só * A menor fendinha nessas relações pode provocar uma ruptura * A Bagarre Azul impediu que víssemos todo o alcance da luta da TFP * Atitude dos da Pará na Bagarre Azul: marmelosa, negativista, de onde meio se punha um pé num ramo, meio o pé em outro, e no fundo não se deitava o peso do corpo em nenhum dos dois lados * Se tivéssemos amado muito a promessa na hora em que a recebemos, quando os fatos colidissem com ela, diríamos: “Eu sou fiel à promessa de tanto que eu a amo, ainda que os fatos pareçam desmenti‑la” * Segundo um membro da Rua Pará, a aliança de Deus com o Sr. Dr. Plinio era muito pequena
Índice
* _ * _ * _ * _ *
Quem é que me diz algo, me pergunta algo, meus caros?
* As relações entre as almas dentro do Grupo são como os sinos de um carrilhão: cada som desempenha o seu papel, mas a música é uma só
(Sr. Fernando Antúnez: Os maus têm uma união muito grande com o demônio, com tudo o que é mal. Como deveria ser essa união dos bons com a vocação?)
Eu creio que se pode dizer o seguinte:
Isto se pode conhecer por assim dizer experimentalmente quando a gente conhece as relações das almas, dentro do Grupo, entre si, quando estão nos felizes períodos ascensionais. Quer dizer, quanto mais a ascensão é direta, tanto mais há uma tal inter‑relação, que aquele que atrai o outro para dentro do Grupo e aquele que deve ser atraído, debaixo de certo ponto de vista quase não precisam conversar: um pensa uma coisa, o outro pensa; um quer, o outro quer; o querer de um multiplica o querer de outro; o pensamento de um dá bem‑estar, dá harmonia e dá ânimo ao pensamento do outro.
Assim ficam como dois sinos de um carrilhão tocando juntos, completam‑se, nenhum fica supérfluo, cada um desempenha o seu papel, mas a música é uma só.
* A menor fendinha nessas relações pode provocar uma ruptura
Quando começa a primeira reticência, isso trinca. A primeira é uma fendinha insignificante, depois… conforme o curso das coisas a fenda pode alargar, pode até se transformar nessas fendas que a gente prende com grampo para a coisa não arrebentar. E assim pode durar, preso com o grampo, muito tempo, como pode desvair‑se de um momento para outro. Mas já aí não é mais a feliz consonância de outros tempos.
E minha intenção na reunião de hoje à tarde foi de mostrar isso. Eu falei veladamente, mas é claro que fiz a Reunião de Recortes para o bem dos que estavam em frente de mim, do que dos que estavam dos lados meus. É evidente, eu me dediquei, pensei, me preocupei muito mais com esses do que com os outros. Falei um pouco veladamente, não sei até que ponto os outros entenderam ou não o que estava sendo dito, mas eu não me preocupei muito com eles, eu me preocupei com os que tinha diante de mim e que são a magna parte ‑ como vocação, como thau ‑ da reunião.
* Qual foi nossa atitude face à Bagarre Azul?
E o que eu dei a entender é exatamente isso ‑ aliás, na hora do almoço já mais ou menos eu disse isso: é que a Bagarre Azul convenceu essa nossa gente de que nada é absoluto, nada é sério, nada é grande, que tudo vai se passar na dejadez, em virtude de um certo feeling, por onde a pessoa sentia no ar que havia uma estabilidade nas coisas que não se deixaria abalar. Mas, de outro lado, a pessoa deveria crer nesse abalo. E aí é uma espécie de aparente contradição da Providência, diante da qual era preciso ser herói. Não foi nosso heroísmo… mas a coisa deveria ter sido.
De fato, como a coisa foi.
Eu disse ao João hoje no automóvel, mandei a ele, Gugelmin e o Arnolfo que ficassem quietos, não dissessem a ninguém, estou fazendo disso um pouco… seria um segredo de Polichinelo se eu não lhes mandasse que mantenham a reserva…
(…)
… tudo é terrível, etc., etc., mas o feeling concreto, do mundo externo, desmentindo flagrantemente. Contradição, na aparência, de saltar os olhos, de agredir, esta é uma contradição agressiva.
(…)
… resposta válida, assim para uma discussão, resposta…
(…)
* A Bagarre Azul impediu que víssemos todo o alcance da luta da TFP
… resposta para discussão. Quer dizer, nós devíamos ter resistido independente dessa resposta. Porque uma resposta direta não tinha, resposta para discussão eu não tinha. Ou é cada um face à marmelada da Bagarre Azul e seu feeling, de um lado, e seu thau dizendo outra coisa, ou não tinha nada!
A resposta começou a aparecer nas conferencias do Férreos, na psy‑war. Porque ali apareceu argumentação mostrando que, de outra maneira do que nós esperávamos, a Bagarre já ia alta. A conquista do mundo já ia alta e que as proezas que nós esperávamos ter feito num campo, nós fizemos em outro. E depois ainda das conferências do Férreos é que começou a ficar inteiramente evidente o resultado da TFP.
Isso veio depois.
E que, portanto, as esperanças que nós concebíamos naquele tempo também de outra maneira, de modo detourné com a ascensão do mito se verificara. Não até o fim, porque não veio a Bagarre inteira, não veio… Mas para isso há os acontecimentos vindouros.
Então a Providência nos permitiu que fôssemos lançados num despojamento e num aparente non sense, em que no fundo da cabeça de cada um o que funcionava era isso: “Eu sinto que Dr. Plinio quer de mim uma atitude, mas que a realidade promete outra…”.
Resposta muito simples seria a seguinte: “Então por que Dr. Plinio não nos explicou isso?!”.
Nas comissões de Opinião Pública, naquelas que eu fazia antes de adoecer e depois, para a comissão de Opinião Pública tudo rumava para explicar isso. Mas não havia crença nisso.
* Atitude dos da Pará na Bagarre Azul: marmelosa, negativista, de onde meio se punha um pé num ramo, meio o pé em outro, e no fundo não se deitava o peso do corpo em nenhum dos dois lados
(Dr. Edwaldo: O senhor falava da “Bagarre” na Igreja e que como conseqüência devia trazer todo o resto, mas nisso não se tinha convicção profunda.)
A impressão profunda faltava, porque a gente dava muito crédito ao tal feeling que tinha algo de verdadeiro, mas era sobretudo uma mentira. Porque realmente toda a derrocada que parecia impossível de outro modo estava vindo.
O que é que se formava?
Aqui está a história de Nossa Senhora não permitir que tirasse a… [palavra censurada]. Não era uma negação: “Dr. Plinio, está errado!”, mas era uma atitude marmelosa, negativista, de onde a gente meio punha um pé num ramo, meio o pé no outro ramo, e no fundo não deitava o peso do corpo em nenhum dos dois lados. O resultado é semifidelidade com tudo que ela traz consigo!
Então, também junto com isso, muitas admirações pelo mundo da Bagarre Azul. Homem! tudo isso já está falando, que não é o caso de acrescentar nenhuma palavra, está arquifalado.
Bem entendido, cada um vivia a Bagarre Azul com as notas tônicas do ambiente do qual procedia e tudo mais!
Mas daí, por exemplo, a decadência do cerimonial na Rua Pará. Essa decadência precedeu disso.
Tinha isso de curioso: que diante das manifestações muito tônicas, desde que partissem da base e não de mim, havia aceitação. Mas essas manifestações eram raras.
Eu me lembro da primeira cerimônia que fizemos na Rua Pará. Por um jogo qualquer de coincidências, o leitor dos textos foi o Átila, e o Átila leu muito bem, com muita determinação, com muito fogo. Fogo a la maneira dele, quer dizer aparentemente… aquele gênero alemão, mas muito bem. Aquilo chocava de frente o gênero Bagarre Azul, mas como era uma manifestação muito sensível, em primeiro lugar, segundo, e sobretudo, não provinha de mim ‑e o Átila naquele tempo era enjolras, quer dizer, quase periferia do Grupo ‑, então impressionava. Se proviesse de mim não impressionava em nada, absolutamente nada.
Bom, começa aí a ascensão do pátio como poder fundamental, como muleta onde se apoiavam os que não ousavam dar inteiro assentimento. E começa os desbotamentos sucessivos, quer dizer, decadências, etc., etc. Começou a partir disso.
* Temas relacionados com o demônio não eram manuseáveis: a irrupção do preternatural declarado era contra a concepção da Bagarre Azul
Agora, qual é a utilidade da conferência hoje sobre o demônio?
É que mais ou menos todos sentiram que aquele texto era um texto muito de se tomar nota. E o assunto demônio, a Bagarre Azul tirou qualquer utilidade ao assunto demônio. A gente podia dizer o que quisesse, ouviriam, não tem dúvida, mas não era manuseável. Não era manuseável, não adianta.
Para não estar falando perpetuamente do grupo de São Paulo, se alguém fosse ao grupo do Chile nas vésperas da queda do Frei fazer uma série de conferências sobre o demônio, não teria adiantado de absolutamente nada. Porque o grupo do Chile se deixou engolfar nisso exatamente como o grupo do Brasil. Mas exatamente. E Nossa Senhora fez a mesma coisa, não permitiu que lhes fosse tirada a vida.
Devem, humanamente falando, sua salvação a Salvador Allende, porque senão teria acabado o Grupo! E pela mesma razão, tudo é a mesma coisa de ponta a ponta.
Jaime Antúnez ainda é o último rebento disso.
Agora, é claro que a irrupção do preternatural declarado é contra a concepção que a Bagarre Azul tem dessa existência: “A tragédia não existe, não é benquista, não vem, Deus assim não pune, a visão disso é da heresia branca. Eu, Bagarre Azul, creio no Inferno, creio em tudo quanto a teologia diz sobre o Inferno, eu só nego uma coisa: é que a ação do demônio possa tomar as proporções… nego não; eu não sinto que as proporções do demônio ou que a ação do demônio possa tomar proporções anunciadas para a Bagarre no grupo. Isso eu não aceito!”.
Agora, não podia deixar de trazer uma espécie de respeitoso silêncio diante de algumas afirmações inteiramente características do meu próprio espírito. Não podia deixar de trazer!
(…)
* Se tivéssemos amado muito a promessa na hora em que a recebemos, quando os fatos colidissem com ela, diríamos: “Eu sou fiel à promessa de tanto que eu a amo, ainda que os fatos pareçam desmenti‑la”
Há um fenômeno que tem muito disso. Não se identifica inteiramente com isso, mas tem muito disso. É com o público aqui de São Paulo quando há o menor desastrinho de automóvel pára o trânsito completamente. Eu, que fico muito agastado com isso, resmungo dentro do automóvel que só falta um berço dar um choque num outro berço ou uma coisa qualquer assim que pára o trânsito. Porque pára! Todo mundo quer ver como foi o negócio, por mais insignificante.
Às vezes você chega perto e no primeiro relance percebe que foi uma bobagem. Pára. É como se dissesse: “Esse desastre, esse desastre, esse desastre…”. E não é para socorrer, hein! O sujeito pode estar morrendo que eles não socorrem, não ligam! Não é para nada! É assim: “Esse desastre, esse desastre, esse desastre…”.
Qual é o ponto de partida? Aqui seria a origem disso.
Se a gente na hora em que recebeu a promessa tivesse amado muito a promessa, quando os fatos colidissem com a promessa, a gente diria: “Eu sou fiel à promessa de tanto que eu a amo, ainda que os fatos pareçam desmenti‑la. Os fatos que se arranjem, a promessa fica de pé”.
Nós não desamamos tanto que tenhamos abandonado a promessa, mas nós não abandonamos tanto que nós disséssemos: “Os fatos se explicarão depois, a promessa falsa não pode ser”.
(Sr. Carlos Antúnez: A promessa é o senhor…)
(…)
* A vida bipolar daqueles que foram chamados a seguir Jó
… vamos dizer que os servidores de Jó, em relação a Jó, deveriam ter a idéia de que um dia Jó sairia do monturo e deveria ter continuado a servir Jó. Mas supunha que eles tivessem amado muito a Jó..
Ora, na hipótese que nós estamos imaginando, os servidores de Jó o que fizeram? Disseram: “Olha Jó como profere lindas palavras a respeito de seu infortúnio. Jó é mesmo um literato, um homem inteligente Jó, hein!… Depois, olha como ele foi bem relacionado, olha os amigos que vêm conversar aqui com ele como eram homens que atestam pela própria presença o passado brilhante que Jó teve. Jó teve um período brilhante na sua vida, mas, agora, esperar que Jó se reergue desse monturo, que sua fortuna se reconstitua, que há um desígnio para Jó que vai além dos seus desastres?… Não. Ele está tão doente, tão escangalhado, tão desprestigiado!… Jó não dá mais nada. Tenha paciência!”.
Naturalmente, esses servidores de Jó, pelo bom efeito das palavras dele, podiam continuar em torno de Jó, mas cada um pensando na cidade próxima, no prazer e… enfim, instalando‑se… uma vida bipolar entre Jó e seu monturo, e a capital ou a cidade próxima e seu luzimento, seu “clan‑clanca”.
* A nossa vocação está como um vidro, sobre o qual foi passado uma palha de aço
(Dr. Edwaldo: Mas não gostaria de viver ao lado de Jó.)
Não. Também não tinha a sinistra coragem de romper com Jó, é assim…
Se Jó dissesse a eles: “Não, um dia virá que… que isso, aquilo, aquilo outro!…”, eles diziam: “Hë, história… Olha como é bonito isso! Mas há uma demasia qualquer nisso, eu sinto que há uma demasia nisso! É só eu ir à cidade e travar contacto com qualquer um, que eu percebo que não cola com o curso das coisas”.
Eu estou falando uma adaptação ao caso de Jó, mas feita a adaptação, as coisas correm por aí.
O modo pelo qual onde a coisa dá é exatamente que aquela coesão do primeiro esplendor da vocação fica com isso mais ou menos como um vidro que a pessoa deveria limpar com uma flanela e limpa com uma palha de aço. Risca todo o vidro! Não quebra, mas risca o vidro e o quadro atrás fica pouco visível.
Então, também, todas aquelas concepções ficam arranhadas; quebradas não.
É das tais coisas, há ouro, há ouro! Graças a Nossa Senhora há ouro. Seja Ela mil vezes louvada por isso. Há também alguma coisa que não é ouro…
* Segundo um membro da Rua Pará, a aliança de Deus com o Sr. Dr. Plinio era muito pequena
(Sr. Carlos Antúnez: Quando li Jó, tive a tentação de que de fato ele foi abandonado por Deus.)
É uma tentação, ao pé da letra é uma tentação.
(Sr. Carlos Antúnez: Não sei se isso já aconteceu a outra pessoa…)
Há cem outras pessoas. Isso está no substratum da mentalidade da Bagarre Azul com que tantos dentre nós foram educados.
Quer dizer, não acontecem na vida desgraças desse tamanho! Quando acontecem é porque Deus abandonou. No fundo, entenda: Deus não agiu bem.
Aliás, um da Rua Pará me disse uma vez isso. Ele dizia não como quem afirma, mas como quem explica uma coisa que saía dos porões da alma dele. Nesse tempo quase todos da Pará me tratavam de você. Volto a dizer, não quero atribuir a ninguém uma monstruosidade; não era um pensamento que ele desse adesão, mas era uma impressão contra a qual ele pedia, implicitamente, um recurso. Ele me disse: “Deus é menos aliado seu do que você é de Deus! Você se esforça, faz uma batalha! e você tem razão dizendo que Deus às vezes intervém a seu favor, mas é muito pouco”.
É um pouco a impressão com Jó…
Eu lamento estar remexendo a reunião de hoje à tarde. Mas é assim.
Por exemplo,…
(…)
… eu não afirmo o que vou dizer, mas é uma coisa para estudar se não é verdade na História Sagrada que toda grande promessa é provada por ziguezagues tremendos! É o caso de se investigar se há uma promessa que se tenha cumprido linearmente.
* A cumplicidade do pátio com a Bagarre Azul
(Sr. –: Nosso Senhor.)
Bom! Nosso Senhor então nem sei o que dizer! Ele, Ele!
O Profeta Isaías disse d’Ele aquela frase: “Vermis sum et non homo, obprobrium hominum et abiectio plebis”, uma coisa assim. Mas era o Verbo Encarnado, era o fruto das entranhas de Nossa Senhora e do Divino Espírito Santo. Este geme assim.
Mas, voltemos ao caso, a Bagarre Azul não quer aceitar a possibilidade disto! Isso não.
É engraçado, mas o pátio é triunfalista.
Quem é o pátio? Quem é hoje em dia o pátio? Isso é uma outra questão, mas o pátio é triunfalista.
Então a Bagarre Azul mais facilmente se ajusta ao pátio do que a mim. O espírito Bagarre Azul. Porque eu apareço dentro do mito da TFP, é verdade, mas esmolambado pelas desventuras. E os aspectos de minha pessoa não esmolambados não reluzem aos olhos do povo.
O que eu tenho de não esmolambado?
Por exemplo, eu trabalhei hoje como poucos homens de minha idade trabalham. Isso eles nem ligam: “Pouco importa! porque não é negócio, quer dizer, não é trabalho que produza dinheiro, é fala‑fala, literatura, hipótese bonita, poetas! Olha aqui, nous en avons assez, nós queremos produção econômica, você não tem! Não venha me chamar isso de trabalho porque não é! Eu quero saber onde está a sua máquina registradora! Onde está o dinheiro que está fazendo!”
Então eu poderia vir:
‑ Não, mas a questão é que meus livros dão ocasião a que se dê muito dinheiro, etc., etc., ajudam a manter a TFP.
‑ É! é verdade, mas não faria nada se não tivesse o pessoal para vender. Eles produzem! Eles levam o livro, fazem a produção econômica, você fez uns panfletozinhos que eles vendem! Não tem importância. Você dá a parte intelectual do trabalho, mas a parte trabalho, levar o livro para o sertão do Caxangá… e lá falar com o Cel. Zé Pafúncio… com Laurindo Pulga, Chico Tunga e Zé Vicente! fazê‑los comprarem e pingarem o ouro, isso você não faz. Você fica em São Paulo fazendo discurso!”.
Com tudo isso de modo consciente, meio subconsciente, a gente adere.
Resta apenas uma pergunta:
Quem é o pátio? Hoje o que é o pátio?
São laivos desse estado de espírito que persistem nessas ou naquelas almas. Não poucas! Nem persistem pequenamente, não. Persistem em grande gênero.
Agora, não queria que repetissem, nem que mostrassem que falei contra ele porque nunca eu fiz parte de nenhuma ofensiva contra ele, nenhuma orquestração contra ele. Quando ele foi… dei a chave da Rua Pará para ele…
(…)
… inegavelmente esse.
(…)
Bom, meus caros, isso já dá uma longa exposição que nos dá o direito a dormir…
Meus caros, está tarde, mas diga então.
(Sr. Fernando Antúnez: Como seria a união dos servidores de Jó se tivessem sido fiéis?)
(Sr. Guerreiro: E nós já nascemos num tal mundo, que muito do que o senhor dizia na Reunião de Recortes já havia em gérmen. Então me pergunto quem nós somos… o quando somos péssimos.)
A Sorbonne é uma espécie de intensificação, etc., de algo cuja germinação foi em Yalta. Yalta marcou a saída dos demônios furibundos que, por exemplo, se manifestavam em Hitler, e a entrada dos demônios molengos e sorridentes que se manifestavam em Kennedy. E a Sorbonne é a passagem do estado pré‑natal para o estado natal desse fenômeno.
* Como levamos muito tempo para nos darmos conta de que estamos em plena Bagarre, também estamos levando muito tempo para considerar as relações da graça conosco ao longo dos extensos anos de vocação
(Sr. Guerreiro: E nós fomos gerados, concomitantemente, à maior monstruosidade de que a história tem notícia.)
Foi.
(Sr. Guerreiro: Aqui entra a dependência que temos que ter em relação ao senhor, devido a isso, é uma como nunca houve…)
Eu não posso me alongar muito nisso, eu digo alguma coisa com a seguinte metáfora, com a seguinte coisa:
O que é dependência?
Uma coisa é mando, mas outra coisa é uma relação pela qual algo fica condicionado a algo. Naturalmente, como corolário ao mando, mas não é a principal coisa.
Por exemplo, um homem que tenha — é ridículo eu perguntar, a palavra francesa me ocorria e não a brasileira — as comportas, tenha na mão as chaves ou mecanismo que aciona as comportas de uma represa que deve soltar água para fertilizar uma região. Esse homem não tem um mando direto sobre os agricultores interessados, mas esses agricultores estão condicionados a ele! Portanto, isso não se pode chamar um mando, por exemplo, feudal, mas é um condicionamento.
Então, para ter esse fenômeno inteiro, você imagine cristais constituídos exclusivamente para vibrarem de uma determinada maneira, do contrário não vibram. Há um cristal que recebe um som e transmite para todos os outros. Essa transmissão de sons é por consonância, mas essa consonância importa numa dependência.
Você pode imaginar que esses cristais de laboratório de física tivessem começado a entrar em consonância com os ruídos da rua e não com uma harpa que está tocando e de onde — não existe na física, mas estou imaginando — um cristal mestre deveria enviar o som para os outros. Resultado, aqui tudo fica no desvario.
Depois você fala com muita razão, nasceram nessa ocasião, traziam dentro de si uma carga… é verdade…
Mas assim como nós levamos muito tempo para nos dar conta de que nós estávamos na Bagarre e que estávamos em plena luta épica contra a invasão comunista do mundo, etc., assim como levamos muito tempo a nos dar conta disso, também estamos levando muito tempo para considerar o maravilhoso, extraordinário que foram as relações da graça conosco ao longo desses extensos anos de vocação.
Por exemplo…
(…)
* Faz parte das máximas da Bagarre Azul e do mundo burguês, que a delicadeza é rebuscamento, enfeite inútil, não produtivo e que se deve evitar
…faz parte das máximas da Bagarre Azul e do mundo burguês, que a delicadeza é rebuscamento, enfeite inútil, não produtivo e que se deve evitar. Em vez do afeto, do respeito, da consideração, vale a solidariedade. E onde não tem solidariedade, o resto é perda de tempo e é inútil, não conduz a nada.
De maneira que, por exemplo, essa atenção com a metáfora do cristal, por nihilo abétur não deve ser considerado em nada! Era muito melhor dizer na batata! Francamente! em pouco tempo todos íamos descansar e depois trabalhar, em vez de estar com essas voltas, essas metáforas, essas gentilezas.
Porque o homem da Bagarre Azul, o burguês verdadeiro, acha que a verdade não deve ser dita com brutalidade, mas com uma franqueza desabotoada. Porque é só assim que se ganha tempo para produzir dinheiro! E a introdução nas relações humanas desses valores morais, dessas metáforas e dessas coisas todas, só complicam a vida de negócio que é o centro da vida. Aquilo de cortesia que não cabe numa carta comercial deve ser reputada inútil. Joga fora!
Então, todo o meu trato parece, de um lado, superado pela voragem dos acontecimentos e, de outro lado, atrapalhante porque estabelece uma padrão que os outros não querem acompanhar, não julgam necessário acompanhar, não se incomodam.
E a delicadeza morreu dentro da Bagarre azul sendo substituída pela correção comercial do trato. Não é a brutalidade, mas é a correção comercial do trato.
Isso é um movimento tão possante que começou a “era da soja”. Todos os elementos estão virando soja e plásticos congêneres, até que venha a época em que os médicos ‑ não meu Edwaldo ‑ receitem uma pastinha assim…
(…)
* De um modo ou de outro, aos horrores do mundo moderno demos algum consentimento
… que você ainda pode cortar com a faca em vários pedaços e te vale por um dia de alimentação. Pronto!
Você dirá: “Bom, e as graças de outrora, as baixelas, a conversa de mesa e a divisão da mesma comida…” Diz a Escritura “Tu que comigo comias doces frutas”, doces manjares ou doces frutas, não me lembro bem… Não podia dizer isso: “Tu que comigo comias a mesma pastilha de soja condensada…”. Não há mais essas graças, tudo isso desapareceu, o cafezinho desapareceu, museu tudo isso! Até que se queimem os museus para pôr hospitais. Queima os museus, os arquivos, bibliotecas e põe hospitais de pronto socorro…
A estes horrores, de um modo ou doutro, nós demos um meio consentimento…
Meus caros, lembrem‑se da fila de Jasna Gora antes de começarem os enjolras… Aí os senhores compreenderão bem o que é a fisionomia da semifidelidade. Eu digo para o estímulo de todos nós, digo transbordando de afeto, se eu soubesse ser mais delicado eu procuraria sê‑lo. Por quê? Essa delicadeza não…
(…)
… parece que isso se chama isocromia dos cristais, se dá pela afinidade da constituição mais molecular, mais íntima entre cristal e cristal. Foi o que você aludiu no começo da conversa.
Conservemos isso tanto quanto podemos.
Agora, me permitam, eu vou dormir e lhes desejo uma noite merecidamente boa depois dessa espichada conversa.
*_*_*_*_*