Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
22/11/80 – Sábado [AC V 80/11.30] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 22/11/80 — Sábado [AC V 80/11.30]
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No convívio diário nos primórdios do Grupo, acabou-se concentrando e formando um todo, que era um entrelaçamento para a vida inteira, debaixo de todos os aspectos * Uma forma de união que só tende a existir entre nós, que pressagia as relações entre os religiosos e seu fundador, e que vislumbra algo do que deve ser a mútua relação das almas no Reino de Maria * O unum, a tintura-mãe de todos os vários * Laivos de unum no coronelato que sabia entrar na perspectiva de cada um de seus colonos * De um só olhar apanhar o unum presente nos vários e os vários presentes no unum — A divisão entre o essencial e o acidental quebra a unidade do centro da visão * O “manja essenciais” descarta o acidental de uma metáfora * Preconceitos revolucionários que atrofiam personalidades * As almas bem ordenadas em função de Deus, se ordenam bem em função do mundo material * Afinidade de alma gera modos de trato o comportamento que se chamam costumes e que por sua vez geram leis — Fruto dessa evolução, se forma o Estado * O Reino de Maria é uma glória de Deus, de Nossa Senhora e da Igreja, que resplandece em sentido oposto ao da Revolução
Índice
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Que inveja, hein?! Sábado que vem ele está na Salita del Grillo… achei que a brincadeira não foi gradita. Em português se diria que não caiu no gosto.
Então?
(Sr. –: O senhor tinha pedido para trazer a Oração da Restauração.)
Tem muita coisa para alterar ou pouca?
Eu estou preocupado em aproveitar o mais possível o tempo do Nelson que está no último sábado dele aqui. Quem sabe se vemos isso amanhã no almoço.
(Sr. –: Por favor! A oração é tão bonita que…)
Está aí dito muito amável, mas… de um tema. Entoe a sinfonia.
* No convívio diário nos primórdios do Grupo, acabou-se concentrando e formando um todo, que era um entrelaçamento para a vida inteira, debaixo de todos os aspectos
(Sr. –: O tema foi dado pelo senhor hoje na Reunião de Recortes. Se no campo metafísico o senhor pudesse dizer o que lhe ocorre sobre o “unum”, isto destruiria o Ralliement. Pareceu‑nos que a “Bagarre” se dará numa luta em torno desse ponto.)
(…)
Eu estou dando para os enjolras uma história que, em linhas gerais, vocês conhecem: é a história do Grupo desde os seus ultraprimórdios até hoje em dia. Estou naquele período em que o “Legionário” foi fechado, antes de ser fundado o “Catolicismo”, e que não tínhamos ação externa.
Eu estava dizendo a eles que, hoje em dia, me dou conta de que nós passamos insensivelmente de diretor e redatores de um semanário católico, e ao mesmo tempo congregados marianos, passamos para membros de uma entidade que nós mesmos fundamos sem perceber e que é chamada “o Grupo”.
Porque os redatores de um semanário não têm entre si as relações que nós naquele tempo já constituíamos entre nós. Os congregados marianos também não. Eles se reuniam uma vez, duas vezes por semana para fazer o trabalho, depois no domingo para comungar juntos e participar de uma reunião, depois “até logo!”, cada um vai para sua vida, para onde queira.
E nós não. Com aquele convívio diário e espremidos de fora para dentro de todos os lados, nós acabamos nos concentrando em nós e formando um todo que era um entrelaçamento para a vida inteira, debaixo de todos os aspectos.
* Uma forma de união que só tende a existir entre nós, que pressagia as relações entre os religiosos e seu fundador, e que vislumbra algo do que deve ser a mútua relação das almas no Reino de Maria
Me lembro desse fato curioso que se deu com o pobre do PS:
Ele era filho único, estava discutindo com os pais se vendiam ou não vendiam uma fazenda de café que tinham, que era o único patrimônio da família, e durante a coisa ficou muito indeciso. Estava no andar térreo. Ele subiu para o andar de cima e da extensão telefônica de cima telefonou para mim perguntando o que eu achava.
Eu disse a ele:
— Olha, P, eu não entendo de fazenda, não entendo de café, não entendo de nada, não posso lhe ser de nenhuma…
— Mas diga!
— Para lhe dar uma vaga idéia, não dê importância à minha idéia: se eu fosse dono dessa fazenda, eu estaria na maior perplexidade se vendo ou não vendo. Basta dizer que importaria na avaliação sobre se o preço do café vai ou não subir em Nova Iorque. O que entendo disso? Mas, para lhe dar uma impressão assim de momento, é tal coisa assim.
Ele foi ao telefone que estava ligado com os pais e disse:
— Acho que deve fazer tal coisa assim.
Os pais disseram:
— Está vendo? Você subiu e vimos que você ia telefonar para Dr. Plinio para saber o que era para fazer. E nossa vida acaba sendo dirigida pelo Dr. Plinio.
Bom, era um excesso da parte dele, uma pessoa muito nervosa. Eu dizendo que eu não entendo, deveria se resignar ao fato de que não entendo, resolva lá com seus botões. Ele insistiu, insistiu, e acabei dizendo qualquer coisa.
Onde é que um redator de jornal tem essas relações com o diretor do jornal? Onde é que um congregado mariano tem essas relações com outro?
É uma forma de união que, realmente, só tende a existir entre nós e que pressagia as relações, prevê, faz pressentir entre os religiosos e seu fundador. Estas relações poderiam ser ainda muito mais internas, muito mais vinculantes, a força da atração muito maior, se não houvesse uma série de circunstâncias sobre as quais não vale a pena insistir.
Aí nós entenderíamos algo do que deve ser a mútua relação das almas no Reino de Maria. Enfim, seríamos nós, e outras obras da Igreja, o píncaro de um tipo de relacionamento que se deve ter seus congêneres em todo corpo social.
(…)
Não sei se está claro.
* O unum, a tintura-mãe de todos os vários
(Sr. –: Dir‑se‑ia que o “unum” chega à própria expressão de sua força e sua essência, na medida em que, nas latitudes, as variedades se expressassem também. Como entra aqui o assunto e como isso romperia o “Ralliement”?)
Eu tenho idéia de que um povo catolicamente inspirado em sua alma, quer dizer, ordenado em sua alma, esse povo é de um tipo tal que ele, facilmente, se diferencia em regiões, essas regiões tomam características carregadamente próprias, e o unum é dado por um poder central que é tão variado, que realiza de um modo arquetípico tudo aquilo que aquelas regiões têm de comum. Mas ele sabe entrar até a última ponta em tudo aquilo, ele sabe ser até a última ponta tudo aquilo que cada região tem de próprio.
Imagine, por exemplo, que alguém — e este alguém nunca seria o Franco — fosse um espanhol muito dotado do unum. O Franco não sei até que ponto era espanhol, mas imagine um que fosse realmente uma expressão da Espanha. Ele conversando com um andaluz, o andaluz olhando para ele dizia: “Opa, Espanha!”.
Ele seria mais andaluz do que qualquer andaluz; mais biscaino do que qualquer biscaino; mais galego do que qualquer galego. Ele saberia, pelo fato de ter o unum, entrar no papel de cada um e chegar até a ponta.
Um exemplo mais doméstico: um arquipai de família, um arquipatriarca pode ter descendentes muito diversos, mas quando ele trata com cada um, ele sabe entrar no espírito, na mentalidade, nas apetências e nas vias de cada um como se ele tivesse só aquele.
Mais do que aquele, ele indica àquele o seguinte: “Para você chegar ao extremo limite de si mesmo, eu aconselho que faça assim, faça assado”, etc. Isso ele tem porque ele tem o unum.
O unum é uma tintura-mãe de todos os vários. É desse unum que os vários se alimentam.
* Laivos de unum no coronelato que sabia entrar na perspectiva de cada um de seus colonos
Se você quiser, o arquicoronelão. Eu vi laivos disso em manifestação de coronelato na metrópole ribeiro-pretana, que era bem diferente, imagino, do que ela é hoje. Mas patriarcas da zona que vão andando a cavalo, passam pela colônia, depois tem isso, tem aquilo, tem uma fazenda, depois entram na fazenda do vizinho, depois chegam até a cidadezinha.
E eu de cavalo, me agüentando no cavalo como eu podia porque não era nem um pouco familiarizado com a equitação, mas mais prestando atenção no coronel do que no cavalo.
Então passava o coronel diante da fazenda. Era um homem que falava o mesmo português que estamos falando. E aquela caipirada para fora, alguns até louros e claros, devia se italianos do norte, não sei o que eram. Passava o coronel, eles vinham para a porta. Pelo passo do cavalo notavam que era o coronel que estava passando. Vinham para a porta, era uma mulher, era um homem, era uma criancinha, e diziam com sotaque caipira:
— Tarde.
O coronel vinha andando, olhando para frente, mas acompanhando com o rabo do olho o movimento da colônia. Alguns ele respondia sem virar:
— Tarde.
Depois tinha algum que ele… E a outro ele parava:
— Fulano, você já esteve na cidade fazendo o que lhe mandei?
— Já.
— Sua mulher já sarou? Olhe aqui, falei em casa com Da. X. Tomando tal coisa assim ela melhora. Manda arranjar para você na cidade. Olha, quer saber de uma coisa? — e mandava um filho arranjar para o homem.
Ele adaptava isso a cada um, de tal maneira que o paulista, o cearense, o mineiro, o italiano, o português, cada um se sentia tratado pelo coronel na maravilha. O coronel ia para a frente, a gente percebia que eles olhavam um minutinho ainda e voltavam para a vida de todos os dias. O coronel tinha ganho a colônia.
Mas muito era a arte de, de tal maneira, representar o papel do patrão patriarca, que sabia entrar na perspectiva de cada um que estava lá. É o unum.
Não me queiram muito mal pelo que vou dizer, mas eu acho que a geração de vocês terá dado poucos patriarcas, poucos coronéis, se é que os deu. E cada vez menos, porque as pessoas capazes do unum vão rareando.
(Sr. –: A civilização urbana industrial acabou com isso.)
Completamente.
Por exemplo, um prédio de apartamento, a senhora que mora em cima eu cumprimentei numa média talvez uma vez por ano, nem sei que cara tem. Se encontrar na rua, nem sei que cara tem. Mora no terceiro andar e, por assim dizer, o segundo também é meu. Ela mora aqui desde que vim para esse prédio em 1950. Estamos em 1980… É assim..
* De um só olhar apanhar o unum presente nos vários e os vários presentes no unum — A divisão entre o essencial e o acidental quebra a unidade do centro da visão
(Sr. –: Numa civilização católica, todos os que têm representatividade, o “lumen” deles brilharia muito mais e as pessoas perceberiam e amariam muito mais isso.)
É.
Agora, na palavra “brilhariam” é preciso ver o seguinte: muitas vezes o lumen brilha, mas há um certo tipo de pessoas apagadas que falam pouco e que, assim, vendo à primeira vista, impregnam um pouco um ambiente, mas que às vezes influenciam o ambiente a fundo. É uma espécie de lumen de sombra — há uma contradição nisso, mas é assim — que tem uma espécie de doçura, mais ou menos como uma flor escondida atrás de um quadrinho como este. Ninguém vê, mas a sala inteira sente o perfume dela.
Há almas assim também, que é uma forma de brilhar, desde que se entenda a palavra brilhar.
(Sr. –: Na análise da ordem do universo, para o senhor vem primeiro o “unum” ou o vário? O “unum” vem instantemente ao senhor ou é fruto de uma transcendência, um certo esforço que o senhor faz?)
Vou tratar de uma coisa muito delicada, mas é assim: não é de nenhum desses modos, mas é de um só olhar que apanha o unum presente nos vários e os vários presentes no unum, é um olhar único. E se não fosse um olhar único, eu nem pegava o vário nem o unum.
O delicado entra agora: minha geração ou gerações mais novas do que a minha, que tiveram a honra e felicidade pôr vocês no mundo, essas gerações ensinaram muitas vezes a vocês uma coisa que é o desastre do pensamento: é um modo errado de proceder diante do assunto essencial, acidental.
O sujeito começa a prestar atenção numa prosa, começa a querer equilibrar na cabeça o que a prosa teve de essencial e rifar o que a prosa teve de acidental. Nisso ele fica com uma idéia pobre do essencial e nenhuma idéia do acidental. E forma uma espécie de compartimentização em que ele não se move, simplesmente.
O essencial nunca se entende bem a não ser também presente no acidental. E o acidental nunca se entende bem a não ser em função do essencial. Isto tem que ser apanhado num olhar só.
Sei que isso pode parecer para vocês uma quimera, pode produzir uma rebuldosa, mas isso é muito importante para o que chamaria a escola de pensamento da TFP.
Se não me quiserem mal, as escolas de engenharia fazem especialmente mal ao espírito por causa disso.
Vou mais longe. Vou fazer aqui defesa de certas pessoas.
Às vezes se chama entre nós de tirolês uma pessoa que tem a intenção de evitar as metáforas, evitar os momentos de sensação da exposição para pegar o essencial. Mas de fato estão empostados a la moderna, não pegam a coisa como devem pegar.
Se você quiser, imagine numa terra de caolhos um sujeito pergunta ao que tem dois olhos:
— Mas tal coisa se deve ver com o olho direito antes, ou antes com o olho esquerdo?
— Não! Um só olhar.
Isso aqui dentro forma uma imagem só, há um centro da visão. E esta divisão entre o essencial e o acidental quebra a unidade do centro da visão.
* O “manja essenciais” descarta o acidental de uma metáfora
(Sr. –: Como o senhor procura corrigir isso no Grupo? Por exemplo, as metáforas…)
Há uma pessoa respeitável do Grupo — não vou dar o nome, é uma pessoa que estimo muito e a quem eu dou freqüentes manifestações de estima — [que] quando era novo no Grupo uma vez me procurou dizendo o seguinte: “O senhor não poderia fazer umas reuniões parecidas às aulas a que estou habituado? Nas aulas a gente empurra de lado todas as metáforas e dá o esqueleto do assunto. Depois metáforas o pessoal se distrai. O senhor põe meia hora depois para metáforas, mas a mim me atrapalha, porque o senhor começa uma exposição, põe uma metáfora, depois o senhor volta ao tronco da exposição, já não sei mais nada”.
Essa pessoa já não tem poucos anos, mas ela conversa e nunca, nunca, nunca aparece uma metáfora, uma figura, nada que indique algo a não ser o essencial que ele pegou. É um “manja essenciais”.
Não estou dizendo que cada engenheiro é assim; eu estou dizendo que cada escola de engenharia tenta exercer sobre seus alunos uma influência deste gênero. Mas é todo o pensamento moderno que é assim.
(Sr. –: Apreciador de esqueletos.)
Não sei se você viu umas imagens que havia antigamente, todas feitas de arame que só aparecia a cabeça e punha‑se a roupa em cima da imagem. A vida para eles é isso sem a cabeça, o essencial.
* Preconceitos revolucionários que atrofiam personalidades
(Sr. –: Posso dizer uma coisa a favor de nossa geração?)
Ahahah! Diga, meu M, se até quiser defender a engenharia…
(Sr. –: Engenharia concordo inteiramente. A pessoa pode não ser isso apesar de ser engenheiro, tem que superar uma dificuldade… Eu ia falar da questão do coronel. Acho que a nova geração recebeu uma carga revolucionária que diz que exercer um domínio sobre outro é uma coisa má. Condicionamento em não exercer papéis desse tipo.)
Concordo inteiramente. A questão é que esse preconceito, essa disposição de alma atrofia muitas vezes personalidades que seriam muito mais vigorosas se não fosse isso.
(Sr. –: Mas se move num meio onde tudo conspira contra.)
E onde, portanto, a Providência nos chamava a resistir a tudo.
(…)
Vamos dizer, chega cinco horas da tarde, o perigo de anoitecer começa e, em chifres de boi, começam a tocar, chamando pelas vastidões porque o patriarca está ordenando a hora de recolher. Então vem chegando os rebanhos levados pelos respectivos pastores. Já os pastores com seus filhos adultos ou mocinhos ajudando‑os a pastorear. Dentro de uma hora todo mundo está montando suas tendas e começando a se unir para os perigos do anoitecer.
Agora, imagine que o toque de trompa, para que os tocadores de trompa se reúnam para tocar, seja dado pelo patriarca. Imagine um homem vestido com uma túnica branca, já velho, eventualmente cingindo a cabeça um tecido qualquer de uma cor feita com a casca de qualquer fruta e que toca sozinho, tendo ao fundo uma montanha ou um lago. Pápápápá… Os corneteiros em outras vastidões pápápápá, e daqui a meia hora os rebanhos estão chegando…
Aquilo tem a majestade de uma cena de corte.
Até vou dizer mais, as futilidade de muita vida de corte empanam essa majestade régia.
(Sr. –: Agora, no “thau” que Nossa Senhora deu ao senhor, não deu acréscimo em relação ao passado, essa força de aglutinação e de chamar a si?)
É difícil responder…
(…)
Enfim, todo o Te Deum eu tenho a tendência de considerar… é claro, primeiro em Deus, mas depois, feitas as adaptações devidas, a Nossa Senhora, à Igreja Católica. Então: “Te Deum laudamus, te Dominum confitemur. A ti a Igreja, nós louvamos, a ti reconhecemos como Senhora nossa. Tibi caeli et universae potestates, Tibi Cherubim et Seraphim, proclamant: Sanctus, Sanctus, Sanctus. A ti o céu, todos os poderes, a ti Igreja, os querubins e serafins e toda terra proclama: Santa, Santa, Santa, Senhora Rainha dos Exércitos”… Daí por diante se pode aplicar. O que se diz de Deus, mutatis mutandis se diz de Nossa Senhora — é evidente! — e diz‑se da Igreja.
* As almas bem ordenadas em função de Deus, se ordenam bem em função do mundo material
Diga, meu Guerreiro. Depois dou ao meu Nelson a última pergunta da noite e da temporada.
(Sr. Guerreiro: …)
Você tem que quando as almas estão bem ordenada em função de Deus, elas se ordenam bem em função do mundo material, ipso facto. E ordenam‑se também, muito bem, em função uma das outras. De maneira que a boa ordenação em função de Deus… e eu, falando de Deus, entendo incluir dentro a Igreja e Nossa Senhora, quer dizer, são os meios para chegar até Ele, indissoluvelmente ligados, etc.
Quanto mais estejamos voltados para Deus, por meio de Nossa Senhora e da Igreja, tanto mais a capacidade de nós nos unirmos uns aos outros, dentro do Grupo ou fora do Grupo, aumenta, porque estamos absolutamente feitos e postos para isso.
Essa capacidade de união, quando é muito grande, pode formar teores de relação diversos, de tal maneira que cada pessoa acaba sendo ou um elemento de um círculo ou de um centro de um círculo, mas inserindo‑se num grupo que são famílias, são grupos sociais, ou o que possam querer, mas reunindo‑se em grupos. Ou tais grupos, por sua vez, formam grupos, tudo de relacionamentos psicológicos, de compreensão, de afeto, de entreajuda psicológica, moral.
* Afinidade de alma gera modos de trato o comportamento que se chamam costumes e que por sua vez geram leis — Fruto dessa evolução, se forma o Estado
E isto, essa afinidade de almas gera, toma um certa estabilidade e gera modos de trato, modos de comportamento. Esses modos de trato e modos de comportamento, a gente chama de costumes. Os costumes por sua vez geram leis, porque o próprio do costume é que, quando se estabiliza, não é legítimo a pessoa violá‑lo, está posto, é uma lei.
E é como um fruto, como termo dessa evolução, que normalmente se põe o poder público, se põe o Estado, etc. Ele é antecedido pela formação de uma contextura moral de alma, que é o que a nação tem de mais dela, mais intimamente dela. Depois de um todo de uma riqueza de costumes. Depois de todo um tecido de leis não escritas, costumeiras, que são o ponto de partida de uma coisa muito secundária em comparação com essas e que são as leis feitas pelo Estado.
A principal coisa que o Estado recebe é a missão de servir, de proteger, de se fazer inspirar por esta mentalidade que é comum, resultante desse bom relacionamento em função de Deus.
* O Reino de Maria é uma glória de Deus, de Nossa Senhora e da Igreja, que resplandece em sentido oposto ao da Revolução
Então, o Reino de Maria deve ser um certo pulchrum de Deus, um certo pulchrum de Nossa Senhora e da Igreja que resplandecem em sentido oposto ao da Revolução, e com um esplendor que acresce a todo aquele que a Igreja teve anteriormente. Como gravidade e como ornato.
De maneira que, para considerar a coisa apenas no lado menor, a explosão desse espírito seria o contrário do Concílio Vaticano II. Mas sobretudo o contrário do espírito do Concílio Vaticano II e da era post conciliar. E como a Igreja está passando por todas essas humilhações, esse espírito oposto, mas inimaginavelmente oposto, terá que resplandecer de um modo que a gente também não sabe qual é.
Você tome o análogo com a ordem temporal e você veja as duas coisas no unum que falamos hoje à tarde. Então você tem uma idéia do que deve ser, segundo meu modo de entender, o Reino de Maria. É uma glória de Deus, de Nossa Senhora e da Igreja, que aparecem sob uma figura inimaginavelmente contrária ao processo revolucionário. Um esplendor maior do que foram as trevas desta época, um esplendor que nós não podemos dar bem idéia, mas que tomam as almas no que tem de mais interior e mais fundamental e as move às multidões. E elas, com uma naturalidade incalculável, começam a mover‑se, a relacionar‑se, e tudo nasce sem que nem tenha passado pela cabeça de alguém planejar isso.
(Sr. –: Não entra aqui uma noção, da parte do senhor, muito nítida, da constelação de glórias e esplendores que o Reino de Maria tem que dar?)
Eu preciso dar os devidos descontos. Mas o senso de governo não é o senso de governo com o pulso que você fez há pouco, como quem governa um cavalo bravo. Sendo necessário também o cavalo bravo, mas… é mais a batuta do maestro do que a espora do cavaleiro. Talvez, e sempre que necessário, mas sobretudo é um atrair.
Agora, no que diz respeito a mim é preciso dar toda ordem de descontos.
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