Conversa de Sábado à Noite – 25/10/1980 – Sábado [RSN 017] . 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite — 25/10/1980 — Sábado [RSN 017]

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Cada vez que uma surpresa é absorvida como sendo rotina, há uma graça que a gente recusou * Tudo o que se passa de físico e material polariza muito mais a nossa atenção do que o que se passa no mundo das idéia, das opiniões e dos princípios * Temos que estar com a atenção posta em todos os quadrantes do horizonte, pois qualquer coisa de péssimo e inesperado pode sobrevir a qualquer momento * O espírito humano gosta de se mover nas dúvidas, segundo sua fantasia, e é preciso olhar os acontecimentos com olhos de fé e amor pela fé * O carregado da atmosfera produz a impressão de que algo tem que explodir * “O ato de Fé supõe uma primeira retidão, em nós, que é em si uma obra da graça” * Na alma da criança inocente há um desdobramento da idéia de ser, a idéia de que a luz é boa e que as trevas são más * Não há criancinha que, por nascimento, seja seguidora da arte moderna * O brado da Contra-Revolução não é só serviam, mas “não me adaptarei”

(Sr. Nelson Fragelli: … comprou uns biscoitos alemães para o senhor.)

Oh, essas coisas a gente folheia. Eu conheço essas caixas de biscoito, são excelentes.

Como ele conseguiu isso, o bom Ezcurra?

(Sr. Nelson Fragelli: Lá é zona livre, na fronteira, embora camaldulense é obrigado a…)

Ótimo, mas isto é um regalo. Não só regalo, mas uma boa sugestão.

Agora que os gaufrettes estão me fazendo mal, isto aqui pode ser outra saída.

Olha aqui, diga para o Amadeu me servir agora à noite com o chá.

* Cada vez que uma surpresa é absorvida como sendo rotina, há uma graça que a gente recusou

Então, meus caros, vamos aos nossos temas.

(Sr. G. Dantas: O senhor esperava até o final do ano ou antes alguma coisa de muito excepcional… uma guerra, um crime ou uma grande blasfêmia…)

É extremamente complexa pelo seguinte:

O quadro coloca-se de tal maneira, que eu não tenho… enfim, eu sou obrigado a olhar as coisas fora e as coisas dentro, e pelo modo de ser, com que nós mesmos fizemos a nossa própria maquete, acaba sendo que toda grande surpresa é rapidamente absorvida e se transforma numa rotina. E a coisa que de hoje para amanhã noticiava como surpreendente, depois de amanhã a pessoa se esquece que teve surpresa com aquilo, que tem a impressão que nasceu naquilo.

Eu sou obrigado a graduar muito o que eu digo, porque se eu digo que a coisa é muito importante e a coisa acontece, a pessoa acha muito importante. Mas daqui a alguns meses fica com a impressão de que não aconteceu nada e que nunca acontece nada.

Este trio, surpresa-susto-amnésia, quer dizer, rotinização, é uma coisa que vem desde não sei quando. E cada vez que uma absorção destas se dá, e uma surpresa é absorvida como sendo rotina, há uma graça que a gente recusou, porque aquela graça nos deveria abrir os olhos e deveria nos fazer entrar em nosso próprio papel e na nossa própria missão.

Mas nós arranjamos um jeito de não entrar no papel nem na missão esquivando a coisa e dizendo: “Afinal de contas não foi se não só isso”.

* Tudo o que se passa de físico e material polariza muito mais a nossa atenção do que o que se passa no mundo das idéia, das opiniões e dos princípios

Por exemplo, hoje eu disse apenas de passagem uma coisa, porque eu senti que por mais importante que ela fosse, ela não pegava, ela daqui a uma hora, uma hora e meia, teria virado rotina.

Se fala em invasão de um país e outro, etc., mas isto do Vaticano chamar tão ostensivamente a si a solução da crise polonesa é uma verdadeira invasão. Não é uma invasão que se dá apenas na Polônia, mas é evidente que ela contém a intenção de assumir a direção da crise nos seus aspectos temporais no mundo ocidental inteiro.

Isto é fazer uma maquete — não é para fazer um movimento depois, é também para, não é só para isso — para ser copiado pelo mundo inteiro. A palavra maquete indica isso, exprime isso.

Portanto, se tivesse havido — a hipótese é risível — uma marcha, um drump da Guarda Suíça, da Guarda Palatina e da Guarda Nobre para entrar em Varsóvia, isto teria chamado a nossa atenção fenomenalmente, porque seria um fato material, físico.

Agora, como este aqui não é um fato físico, passa no mundo das idéias, das opiniões, dos princípios e fisicamente nada se passa, só tive oportunidade de referir-me a isso de passagem.

Mas é verdade que no auge da Idade Média nunca houve papas que se permitiram aquilo que João Paulo II está sendo não autorizado a fazer para a Revolução, mas pressionado a fazer. No seguinte sentido: não que ele esteja opondo resistência, mas que se ele pusesse resistência, obriga-lo-iam a fazer. Ou lhe dariam o chá que bebeu João Paulo I.

Este meu modo de ser, da Igreja e da Revolução torna extensivo a uma mudança tão grande, que eu nem sei o que dizer.

(Sr. M. Navarro: …)

Depois ostensivamente, é publicado. A tal ponto que essa notícia eu não li.

Quer dizer, não vai ter ressonância. Qualquer coisa que aconteça e que não seja da ordem material e concernente a nossa própria vida, nós rotinizamos. Assumimos e rotinizamos, continuamente. Isto não é negável.

(Sr. G. Dantas: …)

Mas a questão é que no caso da Polônia tem isto de especial que o Brasil não despertou movimento de opinião: na Polônia ele está fazendo uma reforma de Estado. Quer dizer, uma reforma radical, porque ele está realizando o impossível. Parecia impossível um estado comunista manter-se sem polícia porque é um estado antinatural, uma situação antinatural. E antinatural que supõe uma coisa que obrigue.

Agora, ele está realizando o antinatural…

(…)

e antinatural pega por causa da força que ele e mais o adversário dele tem. Força total, porque o indivíduo e o mundo, se os dois se somam, formam uma espécie de águia bicéfala da maldição.

(Dr. Edwaldo Marques: […] Parece uma forma de teocracia do ateísmo.)

É isso, teocracia do ateísmo. Aliás, eles pregam a morte de Deus. A coisa é simplesmente fantástica.

Se, por exemplo, João Paulo II decretasse que o Vaticano vai mudar-se da Praça de São Pedro para os fundos da Igreja de São João de Latrão num bairro comunista, como é uma mudança física, material, etc., nossa atenção ficaria facilmente polarizada com esse fato. Mas como é um fato todo ele político, espiritual, intelectual, e é preciso fazer um esforço racional para acompanhar, etc., teleférico está a dois passos, entra no teleférico.

E se a gente perguntar a alguém:

Por que você entrou no teleférico?

Pobre de mim, eu tenho uma indisciplina da imaginação, eu não consigo dominar, e depois é tão gostoso… Agora, o acontecimento está arqui consumado, é o acontecimento do ano.

(Dr. Edwaldo Marques: Previsto e consumado.)

Está previsto e consumado. Foi previsto que a coisa ia caminhar assim, caminhou, está em vias. Quer dizer, se não consumar é por uma surpresa, porque não se percebem no ar obstáculos capazes de cortar os passos a uma coisa destas. Eu pelo menos não percebo.

* Temos que estar com a atenção posta em todos os quadrantes do horizonte, pois qualquer coisa de péssimo e inesperado pode sobrevir a qualquer momento

(Sr. F. Antúnez: […] E que o senhor sentia no ar o fim de uma era, etc. O senhor poderia descrever… e qual seria o papel do senhor nesse ponto?)

Apesar de tudo que eu estou dizendo, eu tenho a impressão de que a coisa vai sendo organizada em nível eclesiástico de tal maneira que, aconteça o que acontecer, dá impressão de não ter acontecido nada de importante. Portanto, a gente não pode fazer nada para impedir e quase nada para comentar.

Quer dizer, a coisa vai se pondo cada vez mais assim: ou Nossa Senhora intervém ou nós não temos o que fazer.

(Sr. Nelson Fragelli: Como seria a intervenção?)

Se não for o soldado Hang — que eu volto a dizer, nós podemos girar sobre o soldado Hang, garantia de que não seja uma manobra comunista nós não temos — de um lado, com o enigmático que há nele, e o Segredo de Fátima, era o caso de a gente não saber como responder à sua pergunta. É qualquer coisas que de repente Nossa Senhora, não sei como, intervém nos acontecimentos e… force aí um curso de coisas inteiramente imprevistos durante os quais a gente também não sabe o que fará.

(Sr. F. Antúnez: …)

Você pega, por exemplo: se vocês consideram o dia de hoje, passou-se para nós na maior das regularidades, com um horário, calendário que se desenvolveu de modo inteiramente rotineiro, tirando o fato desse telefonema do Canadá e dos Estados Unidos, que seria de outro dia. O resto é tudo inteiramente rotineiro, mas o dia inteiro com a atenção posta para todos os quadrantes do horizonte onde temos interesse, porque qualquer coisa de péssimo e inesperado pode sobrevir a qualquer momento.

De maneira que seria mais ou menos como um sentinela que está ao pé de uma torre, guardando a torre — ao pé, não em cima — e perto tem uma floresta. Ele passa a noite inteira vendo movimentos suspeitos dentro da floresta, mas não são tão suspeitos que teria de acordar a guarnição, nem são tão equívocos que permitem a ele distender-se um pouco. Ele passa o tempo inteiro olhando e se perguntando: “Damos o alarme, damos o alarme, desde o pôr-do-sol até a aurora”.

Que noite passou este homem? Esse foi o nosso dia.

Vocês sentem isso ou não?

(Sr. Nelson Fragelli: …)

Eu não vejo. Eu digo nenhum sinal especial de Bagarre ou que nos dê esperança próxima, não tem nada.

(Dr. Edwaldo Marques: …)

Aquilo, por exemplo, normalmente nos deveria ter chamado a atenção de modo fabuloso, mas nós rotinizamos. Se continuar, não tem nada de novo, continua a viver.

Que Nossa Senhora tome Ela a aparência de impassível, é fantástico! Porque Ela podia pelo menos fazer este modesto milagre em não fazer mais milagre.

(Dr. Edwaldo Marques: …)

Você veja, não há o que acrescentar.

* O espírito humano gosta de se mover nas dúvidas, segundo sua fantasia, e é preciso olhar os acontecimentos com olhos de fé e amor pela fé

(Sr. G. Dantas: …)

A expressão abanar com uma dúvida me agrada muito, porque é a nossa miserável ventarola. A certeza de algum modo nos escraviza, não nos dá possibilidade de fuga, não nos dá possibilidade de construir para nós um mundo que nós gostaríamos que fosse. Nos escraviza a Deus: Deus fez assim e agora tem que aceitar porque é isso.

Nós deixamos um pouco de criadores que… de maneira que de vez em quando, lá ou acolá, eu percebo um estertor que é do truculento de uma afirmação, menos porque é truculento, mas porque é afirmação. Até em tal pormenor tem introduzido uma… por quê? Ele não poderia pelo menos a mim dizer não? A mim me agrada que seja de outra maneira? Mas há ou não há um Deus que criou todas as coisas, que deu ordem? Sim, mas o espírito humano tem penumbras agradáveis atrás das quais ele é uma espécie de guerrilheiro da verdade, ele está camuflado dentro do erro como um guerrilheiro camuflado dentro da mata, ele se move nas dúvidas segundo sua fantasia. Isto é agradável.

É o non serviam, é mesmo. E é gente que propriamente manuseia a dúvida como uma ventarola. Eu falo e vejo a pessoa dizer: “Pode ser, pode não ser. Pode ser, pode não ser”.

Muitas vezes cara de tirolês é máscara para a dúvida: “Não, porque Dr. Plinio, absolutamente entestar com ele… conservo o meu direito de ser de outro jeito. Imaginar, portanto, o mundo de outro jeito também é um direito meu”.

A resposta é: “Você tem o direito de você ser como Deus quis que você fosse, esse é o único direito. E quando eu imaginar um mundo como não é, isto é mentira e você se revolta contra Deus”.

É preciso ver as coisas como são e deixar de conversa. É tão banal até.

Mas há gente que diz, como guerrilheiro camuflado dentro do mato e passeando nas próprias dúvidas: “Gostoso…”.

Eu gostaria que Nossa Senhora fizesse de mim cada vez mais um homem de fé, porque todas as certezas no fundo desta certeza primeira que é a fé. A fé procede no senso do ser reto sobre o qual pousa a graça, a graça da fé. A pessoa corresponde, tem fé.

(Sr. G. Dantas: …)

É propriamente olhar os acontecimentos com olhos de fé e de amor pela fé.

(Sr. G. Dantas: …)

* O carregado da atmosfera produz a impressão de que algo tem que explodir

Mas a questão é que tempo para reunião não tem. Você não calcula até que ponto o meu tempo é tomado, é uma coisa… não tenho tempo. Ninguém pode calcular. Eu nunca em minha vida pensei que fosse possível, ao menos a mim, trabalhar tanto, porque desde que eu abro os olhos de manhã e acabo as orações, eu trabalho até a hora de dormir. Trabalho o tempo inteiro.

O que poderia fazer de vez em quando, para algum grande tema, à medida que vão pedindo, eu podia fazer numa Reunião de Recortes, quer dizer, como foi a jogada.

(Sr. G. Dantas: …)

Em primeiro lugar a questão do fim do ano.

Evidentemente a gente diz fim de ano exemplificativamente. Quer dizer, como ordem de grandeza, dois ou três meses. Agora, como o fim do ano está aí pelo meio, a gente coloca como limite natural o fim do ano, para dizer alguma coisa. Essas coisas não têm espaços e este fim de ano não tem esta ligação com o número 80 ou com esses doze meses.

Agora, quanto à impressão, é mais ou menos como quem sente uma atmosfera.

Não sei se sentem agora, por exemplo, mas agora em sinto uma atmosfera física pesadíssima. Vocês sentem ou não? Um calor balofo. Se uma pessoa estivesse dentro de uma ferida e sentisse em si o calor da ferida, sentiria esse calor que me parece ver aqui no momento. Uma coisa horrorosa, mas é um exemplo.

Eu quero dizer que numa atmosfera muito carregada a gente diz: “Uma fagulha tem que explodir em qualquer lugar”. É o carregado que produz essa impressão.

Agora, eu dei exemplificativamente essas três coisas porque são três famílias de acontecimentos mais prováveis, mais verossímeis. Então eu não falei: “Vai haver no sentido de que é certo que haverá”. É normal que haja, é conjecturável que haja, provavelmente haverá, é um modo caseiro de falar.

Portanto, acho que minha expressão tem o alcance que tem, mas não é assim uma previsão segura. É uma conjectura que é tão provável, que raspa pela certeza moral, mas muito vaga. Que é o que é o razoável nesta emergência.

* “O ato de Fé supõe uma primeira retidão, em nós, que é em si uma obra da graça”

(Sr. F. Antúnez: …)

Eu vou procurar resumir a resposta porque já está muito tarde.

Mas, resumindo, quando a gente diz: Deus é infinitamente bom… Vamos dizer que o indivíduo considere a Igreja Católica e diz: “Eu aderi à Igreja Católica por causa do bem que havia nela, eu vi que ela era a Igreja divina”.

Então, antes de eu pôr o ato de Fé, segundo o qual eu cria na Igreja, eu tinha uma noção de bem, com o qual eu vendo a Igreja senti que conferia. E eu não podia aderir à Igreja sem uma razão anterior ao ensinamento dela, porque do contrário o ato de fé fica vazio.

O ato de fé supõe, portanto, uma primeira retidão em nós, que é em si uma obra da graça, mas ainda não é a fé pela qual a gente adere, porque do contrário não há a possibilidade de adesão.

Vamos dizer, por exemplo, aqueles índios que se comoviam com a música de São Francisco Solano, quer queiram, quer não queiram, tinham uma noção, está no senso do ser, eles tinham uma harmonia interna que era despertada pela música. Se eles não fossem musicais, eles não seriam sensíveis àquela música.

Portanto, antes de eles terem um bom ato, se comoverem com a música, eles tinham uma musicalidade, quer dizer, uma ordem interna em direção ao auditivo, uma ordem interna que era prévia.

Isto são exemplos por onde se percebe de modo vivo os filamentos do senso do ser e que o que estes filamentos são prévios ao ato de fé.

Agora, quando o indivíduo recebe a graça e ao mesmo tempo lhe dão a notícia do que foi revelado, ao que foi ensinado e ele adere, é a sua lógica, a sua retidão que colocado diante de uma coisa divina, isto é Deus. É, portanto, prévio.

A tal ponto que eu estava dizendo outro dia que o senso católico é o senso do ser enriquecido pela fé, é uma só coisa.

Depois que o indivíduo fica católico, aquilo tudo é aperfeiçoado, assumido, enfim, aprimorado de todos os modos pela graça e pelo ensinamento da Igreja. Mas continua sendo uma espécie de raiz do indivíduo enquanto indivíduo que está num contínuo colóquio com a fé e por onde a fé nos torna retos, e nossa retidão nos aumenta nossa fé.

* Na alma da criança inocente há um desdobramento da idéia de ser, a idéia de que a luz é boa e que as trevas são más

(Sr. G. Dantas: Esse senso do ser se poderia dizer que vem das duas vertentes? Dos princípios que estão por detrás da ordem criada, no seu estado como que estático. Agora pergunto se haveria outro dado da fé que seria o discernimento da alma humana…)

Eu compreendo a pergunta.

O senso do ser é uma coisa, é o seguinte: a noção do ser, é uma noção que não tem definição, a gente nasce com ela e há uma espécie de abismo luminoso que cada um tem dentro de si e que é inesgotável. Quando Nosso Senhor apareceu a Moisés e disse: “Eu sou aquele que É”, Ele deu uma definição de si mesmo de uma profundidade assombrosa, mas que deixa o problema bem claro.

Quando uma criança, por exemplo, começa a mexer e pegar uma coisa, está pendurada no toldo do berço, ela já trabalha com o senso do ser, aquilo para ela é. E é uma noção que, metafísico, é incapaz de dar e com que a criança procura primeiro no berço. É uma coisa fenomenal: “Eu sou e aquele é, e eu não sou, não é eu”.

Agora, nisto que é tão elementar que se diria que daí não se tira nada, há umas mil implicitudes que ao longo da vida vão se desdobrando.

E assim como uma criança, por exemplo, vê um objeto luminoso diante de si e quer pegar porque é luminoso, ela não tem nem um pouco a idéia de que é bom, a luz é boa e que as trevas são más, mas ela chora no escuro e procura pegar a tetéia luminosa.

De onde a gente vê que de um modo germinativo nela está a idéia — não é uma idéia inata, mas é um desdobramento da idéia do ser — de que a luz é boa e que as trevas são más. Todos os seus indícios, todos os seus movimentos, mas uma noção de algo que não é ela que quer pegar, já traduz uma idéia de insuficiência experimental que talvez essa criança seja capaz de realizar quando tiver 50 anos.

No ela querer pegar algo, a gente vê que ela tem uma sensação de sua própria insuficiência. Ela quer pegar mesmo, porque se tirar do toldo e derem para ela, ela sossega durante um tempinho.

Depois, naturalmente, com essa idade da criança ela se volta para outra coisa, mas não é dizer que são gestos instintivos que ela não quer pegar. Ela quer. Se alguém cortar o cordão de que aquilo está suspenso e dar para ela, ela se regala.

(Sr. F. Antúnez: […] Porque ele é encaixado na ordem do universo…)

Na criança que quer a tetéia, há uma coisa que causa admiração também: é que assim como a criança foge das trevas e procura a luz, em geral todas as coisas que a criança apetece são boas, são de acordo com essa ordem — eu digo criancinha no berço — e todas as coisas que a criança não apetece são contrários a essa ordem.

Em geral. Há exceções, há ignorâncias, há coisas, mas de um modo geral é isso.

E que mostra que todas as coisas existentes, pelo fato de que elas existem, elas de algum modo têm imerso com tudo aquilo que é.

* Não há criancinha que, por nascimento, seja seguidora da arte moderna

Logo, tudo o que existe e compreende, no fundo compreende tudo. No fundo compreende tudo. Desde que a criancinha [esteja] entregue à sua retidão, compreende tudo.

Eu vou dizer uma coisa que massacra, mas que mostra isso.

Não há criancinha que por nascimento seja seguidora da arte moderna. A criancinha pode-se encantar com as coisas mais convencionais, os balangandãs mais sem valor artístico, mas ela olhar para uma figura de arte moderna e querer pegar, não tem perigo. Há uma relação que estigmatiza a arte moderna, que daria títulos para se condenar a arte moderna, de tal maneira o universo é unido, é um só. A criança, por ignorância, por não ter tido meios de medir, pode pegar numa coisa que é até repugnante, mas é porque ela não conheceu. A partir do momento que ela conhece, ela rejeita. As coisas da arte moderna a criança normalmente rejeita. Nós não podemos imaginar nesses monstros da arte moderna a criancinha abrindo os braços.

O mais curioso é o seguinte: ninguém observa isso. Isto que daria até para fazer uma literatura, ninguém observa, ninguém incomoda. E, bem entendido, vocês não ouvem sermões sobre isso. É minha eterna lamentação, mas…

Agora, isto dá a entender que no fundo de sua própria ordenação, a pessoa de senso do ser reta faz com o universo um pouco o que faz com a fé. À medida que vai conhecendo o universo sente a sua consonância com o universo… [Vira a fita]

* O brado da Contra-Revolução não é só serviam, mas “não me adaptarei”

esse prédio que foi moderno, do lado de fora é feíssimo, e se ele fosse mobiliado com móveis do gênero dele, era monstro, nós vivemos dentro de monstros. Mas como eu digo conaturais, nós desde logo trivializamos, nosso senso do ser se adapta. Naturalmente com deformações.

A vocação é a fidelidade a esse lumen inicial que é o lumen sobrenatural e o recusar-se a aceitar a adaptação. O brado da Contra-Revolução não é só serviam, mas: “Não me adaptarei, porque eu sirvo. Não me adapto. Eu não me adapto e não consinto em que os outros se adaptem tranqüilamente, eles vão ouvir a verdade”.

Aliás, São Miguel Arcanjo foi por excelência quem não se adaptou. Uma terça parte dos anjos rebeldes se adaptaram à monstruosidade de Satanás. São Miguel Arcanjo depois do pecado, foi iniciativa dele, deu o brado “quis ut Deus”e partiu para a luta. É o inadaptado.

Para responder à sua pergunta, meu filho, e com isso nós terminarmos, eu diria o seguinte:

Há, portanto, no homem, no senso do ser do homem, algo por onde ele de fato olha para fora de si e algo por onde ele olha para dentro de si, e a seu modo pode conhecer a obra de Deus fora de si e dentro de si. Como é que ele conhece as almas dos outros? Elas ficam a cavaleiro entre as duas posições: um pouco porque estão fora e um pouco por conaturalidade como sendo a nossa própria natureza e sente como é nos outros.

Responde muito sumariamente à sua pergunta.

(Sr. G. Dantas: Todo o lado da ação e do operar…)

Do operar é a aprovação que se recusa, é a contracarga da adaptação: como eu não adapto, eu verifico, eu protesto, tiro o pé e vou caminhando em sentido oposto. O simples nome já faz ferver.

E nós em vez de compreendermos que na presença causa tanto ódio ao demônio e enxota, nós devemos a presença que ela… o que é propriamente não pensar do modo de hoje à tarde, que existem am algumas casas.

Agora, Fernando, você está mais habituado, feche a veneziana, vamos rezar.

Não perguntaram o nome do homem, nem nada, não é? Acho que fizeram bem.

Agora, imagine que alguém da TFP dissesse: “Fulano merece ser assassinado”. No dia seguinte estava em todas as manchetes dos jornais.

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