Conversa
de Sábado à Noite – 16/8/1980 – [AC III ‑
80/8.11 e 80/8.12] .
Conversa de Sábado à Noite — 16/8/1980 — [AC III ‑ 80/8.11 e 80/8.12]
O conhecimento de Deus que se tem através de outro homem, é maior do que se pode ter por meio de livros, imagens ou vitrais * A troca de vontades é uma certa perfeição da ordem do universo, visível primeiramente por um, e que se transfunde depois para toda uma família de almas, com a qual se dá uma tal união, onde todos têm o mesmo inteligir, o mesmo querer * Exemplo da troca de vontades: o religioso que de tal maneira deixa‑se assumir por seu Fundador, que não tem um ato de inteligir e um ato de querer ao qual seu Fundador não esteja associado * A troca de vontades irreversível com nosso Fundador, é o único meio de fazer o Grupo desencalhar * “Nós devemos, junto a Deus, junto a Nossa Senhora, fazer o papel daqueles anjos que arrancam as graças de Deus à força de rezar” * Deus age através da vontade do Fundador para operar a troca de vontades
Índice
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* O conhecimento de Deus que se tem através de outro homem, é maior do que se pode ter por meio de livros, imagens ou vitrais
(Sr. Fernando Antúnez: Como se dá a troca de vontades, a insinuação no sentido etimológico, a centelha, etc., entende‑se intelectivamente, mas na linha do sentir, do querer, como se dá?)
Vou dizer uma coisa que naturalmente para um “intalacta” é muito duro, mas que representa o que eu penso.
Nós podemos imaginar duas situações:
Uma é de uma pessoa que lê um livro escrito por Santo Tomás de Aquino. Esse livro de São Tomás de Aquino falando de Deus, aliás, tudo quanto ele escreveu, próximo ou remotamente falava de Deus.
A pessoa lê e entende o que São Tomás escreveu e a graça dada por Deus é dada pela generosidade, pela sabedoria d’Ele, modelada de tal maneira, que se ajusta ao tema que a pessoa está lendo e ao modo de ser da pessoa que está lendo. De maneira que a Providência dispõem que o indivíduo leia aquilo e a graça sabe como é o olhar do que lê. E ela se ajusta de maneira tal, que o indivíduo tire, então, ele, aquele proveito que é próprio a ele tirar daquela leitura.
Isso é uma coisa banal! Eu gosto muito de começar pelas banalidades de uma evidência de arrebentar, porque elas são o chão sólido para a gente construir em cima.
Chamou‑se na Idade Média, as catedrais, de “bíblias de analfabetos”, porque não sabiam ler, mas havia a possibilidade de entender toda a história Sagrada através daquelas imagens, etc., vitrais e tudo mais.
É claro que o mesmo que a graça fazia a propósito do livro e faz a propósito do livro e do leitor, fazia a respeito da imagem de um santo e daquele que estava contemplando a imagem. Uma imagem de uma cena evangélica, de uma cena do Novo Testamento, um grupo de imagens, e aquele que estava olhando para o grupo de imagens. É o mesmíssimo tipo de operação.
Conscientes disso, os artistas da Idade Média procuravam modelar aquelas figuras, ou dos vitrais ou da pedra, o mais possíveis piedosos. Como eles concebiam a piedade, como a coisa se passava neles, eles procuravam modelar. E aquilo através de feições humanas postas na pedra falava de Deus.
Então, a graça de Deus iluminava aquela alma para, através da imagem, da estátua, poder pensar em Deus. E é o que acontece correntemente com todas as imagens que existem nas igrejas quando são imagens dignas, adequadas ao culto. Tudo isso é banal.
Agora, o que é que há no homem de inferior a isso para que quando o homem é vivo se há de afirmar que ele não pode fazer o mesmo em relação a outro homem?!
Quer dizer, a partir de uma banalidade que fica a meio milímetro de uma verdade que se não costuma focalizar, a gente torna essa verdade irrecusável! Porque é tão sólida a banalidade a partir da qual se saiu, que é irrecusável o que estou dizendo.
Então, como é essa história? Uma pedra que um artista modelou em um material que não é a carne humana e que é uma concepção 20que ele tem do que é um homem, fala mais de Deus do que um homem vivo 20que tem a mesma natureza que teve o Verbo Encarnado enquanto encarnado! E só porque esse homem está vivo! Então, São Tomás de Aquino vivo não podia falar, posto em estátua fala! Quem é que pode admitir uma coisa dessas! E o livro fala mais que o homem!
Eu sei que o “ploc‑ploc” não gosta do que eu estou dizendo, até o delírio 20de não gostar. Mas é isso! Até digo mais: acho que o homem fala mais do que o livro! É necessário o homem, é necessário 20o livro, isso é outra questão; mas que dos dois necessários o mais necessário 20é o homem. É! Por exemplo: valeu muito mais a pena ter conhecido Nosso Senhor Jesus Cristo do que ter lido o Evangelho. Porque viu Nosso Senhor Jesus Cristo!
* A troca de vontades é uma certa perfeição da ordem do universo, visível primeiramente por um, e que se transfunde depois para toda uma família de almas, com a qual se dá uma tal união, onde todos têm o mesmo inteligir, o mesmo querer
Então, em face disso, o que é que é a troca de vontades?
É quando a graça é dada a “A” tão plenamente, que tem — vou usar uma expressão muito vulgar —, mas tem pano para manga nessa graça para vários. E ela é difundida para cada um de acordo com o que em “A”, “B”, “C”, “D”, etc., de acordo 20com a graça que teve a intenção de dar a “A”, em vista do plano de aglutinar “B”, “C”, “D”, “X” a Providência estabelece isso.
Agora, deve tratar‑se de uma graça supereminente que eu considero que é relacionada com a ordem do universo, próximo ou remotamente, talvez muito no fundo e no que há de mais alto. É uma visão em comum da ordem do universo que assim se comunica, enquanto espelhando a Deus, enquanto sendo o mais excelente espelho de Deus. O mais magnífico espelho de Deus. Mas nesse universo em que a parte central é a humanidade! Não são estrelas ou pedras, ou qualquer outra coisa. Isso é a moldura. A parte central é a humanidade!
Então, é mais precisamente a ordem do universo com saliência na idéia do que é o homem!, a natureza humana, o conjunto dos homens.
Depois, mais precisamente, o que é a Igreja que é o templo dentro do qual a humanidade inteira deve viver e que abarca toda a humanidade de todas as épocas.
Então, é uma especial visão de uma família de almas a respeito de um ponto da ordem do universo vista no seu todo, que, a meu ver, opera a troca de vontades.
(Sr. –: Repetir.)
É uma certa perfeição da ordem do universo que é visível a toda uma família de almas com o que se dá uma tal união, quando todos são fiéis a essa visão, dá‑se uma tal união, que todos têm o mesmo inteligir, o mesmo querer. Saiu de um e se permuta, se transfunde em todos os outros.
* Exemplo da troca de vontades: o religioso que de tal maneira deixa‑se assumir por seu Fundador, que não tem um ato de inteligir e um ato de querer ao qual seu Fundador não esteja associado
(Sr. –: Um exemplo desse operar.)
Tome um bom católico de qualquer época da história da Igreja. Ele formou‑se, vamos dizer, ao sabor da vida, ele estudou no catecismo paroquial, depois foi aluno de uma escola diocesana, depois estudou numa universidade Católica… imagine tudo ainda nos tempos “constantinianos”, tudo direito. Ele tem um espírito, uma espiritualidade, etc., formada ao sabor de circunstâncias que se diriam fortuitas, casual, se não fosse a Providência. Ele tem essa formação in generi, comum a todo estabelecimento e famílias de almas, etc., dentro da Igreja. Ele pratica seriamente a religião, ele é um bom católico. Está em estado de graça, etc…
Esse bom católico recebe — poderia ser uma figura atualizada do moço bom do Evangelho — em determinado momento um chamado para a perfeição espiritual. A perfeição espiritual é um estado muito mais definido do que a simples posse do estado de graça. O estado de graça é o grau mínimo de perfeição, mas o grau máximo é a santidade heróica. A santidade heróica é uma coisa muito mais definida e tem tantos modos de ser, tantas escolas, tantos estilos, etc., e forma a floresta soberba da vida religiosa dentro da Igreja. Bem, aquilo é muito mais especifico e contém uma visão da Igreja, uma 20visão das coisas, uma visão do universo em função de uma determinada missão que aquela ordem deve realizar, e em função de um certo estilo de santidade que ela deve ter independente da missão, por causa da missão, mas também independente da missão, ela deve ter aquele feitio religioso para completar o paraíso de belezas espirituais que é a Igreja Católica.
Então, por exemplo, surgem os franciscanos. Ou então esse rapaz bom recebe uma vocação franciscana. Na vocação franciscana que ele recebe entra nele o espírito de São Francisco de Assis. E é algo que nele se define e para o que ele tende, que ele não conseguiria realizar nem nada, enquanto ele não conhecesse aquele espírito para o qual ele é feito. Portanto, algo de São Francisco entra e vive nele. Portanto, um fenômeno parecido com a troca de vontades.
E você compreende a legitimidade desse fenômeno em vista de como é a alma humana e como é o ideal de santidade.
Então, são uma porção de coisas que estavam potenciais nele e que desabrocham, mas desabrocham a la S. Francisco.
E de algum modo S. Francisco vem morar nele. Isso ainda não é troca de vontades.
Troca de vontades é um fenômeno muito mais radical, mas que eu concebo — não li Mère Marie des Vallées —, mas que eu concebo na mesma linha. Quer dizer, é um ato pelo qual São Francisco de Assis que está no Céu e como está no Céu, forma um tal convívio e tão íntimo com aquela alma, que aquela alma não tem um ato de inteligir e um ato de querer ao qual São Francisco não esteja associado.
São Francisco mora dentro daquela alma. E como ele é muito mais do que aquela alma… e que ele se move dentro da alma junto com a alma, o inteligir da alma é inteiramente dela, mas é mais dele do que dela em certo sentido. E o querer é mais dele do que dela em certo sentido. Ele por supereminência assumiu aquela alma.
A palavra troca compreenderá alguma 20coisa mais enérgica? Quer dizer, que São Francisco de Assis, ele mesmo recebe também algo da alma?
(Sr. –: Que mal negócio…)
Não, nós devemos dizer a coisa como ela é. Quer dizer, é possível que uma determinada alma no que ela tem de peculiar, São Francisco vivendo nela, dê ocasião a ele a explicitações de si próprio que ele ainda não tinha feito.
* Na troca de vontades a alma planeta se vê explicitada nas singularidades das almas satélites
(Sr. –: Repetir.)
Vamos dizer, que São Francisco tinha… ele era Francisco filho de [Pietro] Bernardone, portanto, Bernardone Francesco, era o que ele era. Bernardone Francesco tinha todas as graças destinadas a todos os franciscanos em potencial. E que ao longo da história da ordem de São Francisco vão se distribuindo por aí por fora, terceiro franciscanos e tudo mais. Agora, é possível que se ele estivesse vivo aqui na Terra ou ele estando no Céu, ele contemplando as almas que se formaram segundo a escola dele, ele veja explicitadas nas singularidades daquelas almas que são diferentes dele, ele veja explicitada naquelas, enquanto o espírito dele vive lá, aspectos da graça dele que para ele estavam implícitas. Não é, portanto, que ele assuma o inferior, mas o inferior lhe dá algo que é o explicitar‑se. Algo que é um tanto parecido com o fato de Deus ver‑se na criatura que Ele criou. A criatura não acrescenta nada a Deus, mas Deus se vê na criatura que Ele criou e dá a Ele um gáudio. Então, há uma retribuição que nós apresentamos a Deus. Que, em um certo sentido da palavra, poder‑se‑ia chamar troca. Não é uma coisa horizontal, nem pode ser! Quer dizer, se o ponto de partida que estou tomando é esse, não pode ser. Imagine que fosse uma troca no sentido literal da palavra, quer dizer, eu fico com o espírito do outro e o outro fica com o meu! O que seria a troca horizontal.
Eu recorro à imagem clássica da balança com as duas conchas equilibradas, etc…
* Na troca de vontades, no momento em que se efetua o ato, há uma recusa por supereminência de tudo aquilo que contraria a vontade de Deus
(Sr. Marcos Fiúza: E existe troca no sentido de substituição. Por exemplo, troquei as lentes de meus óculos…)
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: No caso de Sóror Marie des Vallées foi uma troca formal, feita por Deus, ela pediu e obteve, Ele assumiu a vontade dela.)
Sim. Mas o que eu acho é que o estado em que ela viveu assim, é um estado supermeritório. Não se pode dizer que ela deixou de ter méritos a partir dessa ocasião. Porque senão, não seria um benefício. Se ela teve méritos é porque ela quis. Porque sem querer não há mérito!
(Dr. Marcos R. Dantas: Sim, ela quis…)
… não, eu digo nas várias ações singulares que foram sendo praticadas depois dessa troca de vontades. Ela quis, ela teve que co‑querer para poder ter tido mérito.
A menos que se diga — estou bati‑bolando, estou falando muito afirmativamente porque é meu modo de ser, mas minha intenção é bati‑bolar — que ela no ato pelo qual ela aceitou essa dormição da vontade dela em Deus, ela quis de uma só vez tudo que se passaria depois…
(Dr. Marcos R. Dantas: Parece‑me que é mais nesse sentido.)
E embora ela não soubesse o que ia fazer, ela quis fazer o que não sabia, o que não sabia no ato, mas que viria. E que, portanto, nesse momento de aceitar ela teve todo o mérito de tudo que se passou depois.
(Dr. Marcos R. Dantas: O que moveu a ela era o desejo de não querer ofender a Deus. Então, a partir desse momento ela teve todo o mérito.)
E o mérito daí por diante em radice, na raiz ela teve mérito por todas as ofensas que ela não cometeu a partir daquele momento.
Dou um exemplo:
Imaginem que uma pessoa para não cometer pecado mortal se enclausura como camaldulense, e fica na impossibilidade, — sem transgressões que ele não quer praticar — de ter, por exemplo, maus olhares; essa impossibilidade não lhe tira o mérito que ele teria recusando os maus olhares.
Porque ele recusou por supereminência no momento em que ele se camaldulizou. Essa seria a via de plausibilidade. A resposta contra a minha objeção seria o que estou dizendo agora.
Aí se poderia imaginar uma troca de vontades extremamente rigorosa.
(…)
… eu não vejo nada que teologicamente transgrida isso. Absolutamente. Note que é um estado, apresentado assim, de uma união mais radical do que a que há entre os bem‑aventurados no Céu com Deus.
* A troca de vontades tem que ser operada por Deus
(Sr. Marcos Fiúza: […] No que li em São João Eudes e Sóror Maria de Vallées, não há troca de criatura a criatura, mas de criatura a Criador. Agora, nada lá é contrário a de criatura à criatura.)
(Dr. Edwaldo Marques: […] Ele diz que essa troca de vontades deu‑se no Calvário quando Nosso Senhor disse: “Mulher eis aí teu filho. E filho, eis aí tua Mãe”. Naquele momento São João representava Nosso 20Senhor diante de Nossa Senhora, deu‑se, portanto, de criatura à criatura, autorizada pelo próprio Nosso Senhor, essa troca.)
É absolutamente plausível. Não sei se é certo, mas é inteiramente plausível.
(Sr. Guerreiro Dantas: […] É necessário que a pessoa a quem se peça essa troca, é necessário que a pessoa tenha a virtude de infundir no outro o dom para operar essa troca de vontades?)
É claro. Eu creio que nem é a pessoa que assume o outro… [Virou a fita]
(Sr. Guerreiro Dantas: … com a Revolução, a Providência conferiu ao senhor uma forma de virtude, de poder, que Ela não conferiu [em] nenhum outro homem. Pelo menos de quatro séculos para cá, não!)
Como homem atualmente vivo, digamos! Porque tem Elias, tem São João Batista…
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas dentro da luta, em defesa da Igreja, isso quem tem é o senhor!
(…)
… cada vez mais estamos vendo que ou nós nos voltamos para essa forma de virtude que Nossa Senhora dotou o senhor… que essa forma de virtude é uma virtude soberana, que participa da realeza de Nossa Senhora, da ordem do universo. Tem que ser, porque senão não teremos o Reino 20de Maria, teremos outro reino! Então, se ela participa da realeza de Nossa Senhora e ele tem a soberania que tem aqui, que acho que o problema da troca de vontades pode encontrar em atos interiores da vontade do senhor, como representante d’Ela, uma capacidade de operar, inclusive na linha mística, essa alteração das nossas vontades que, eu creio, que aí há um mar de potencialidades que… enfim… eu fico…)
Seria preciso tomar em consideração.
(Sr. Guerreiro Dantas: É exatamente.)
Mas isso não contradiz nem um pouco o princípio de que — eu não estou me pronunciando se eu sou como você diz, mas admitido que fosse, ou que seja — essa troca de vontades tem que ser operada por Deus, embora em uma criatura. Quer dizer, a criatura serve de agente de Deus para operar aquilo por uma força, uma virtude que Deus dá àquela criatura. Mais ou menos seria como a túnica de Nosso Senhor cujo contacto curou aquela mulher doente. A túnica de si, deveria ser provavelmente túnica tecida por Nossa Senhora e com tudo que se pode imaginar, mas era uma túnica que era um objeto inanimado.
Mas penetrava naquela túnica uma virtude, uma força. Nosso Senhor disse: “Eu senti… — aliás explica aí muito como é que a humanidade d’Ele via as coisas que se passavam, de divindade, com outros — porque disse: “Quem tocou na minha túnica? Porque eu senti…”. As palavras não foram textuais, mas mais ou menos assim: “Eu senti uma virtude que procedeu de mim e que curou alguém”. Quer dizer, passou pela humanidade d’Ele e da humanidade para a túnica, uma virtude procedente do Verbo de Deus. Foi o que está dito, o que está escrito lá é isso. Procedente do Verbo de Deus e que tocou aquela…
Então, também uma alma pode ser instrumento para que Ele opere misticamente em outra alma. Embora houvesse nessa alma criada outras considerações a fazer, isso é outro caso. Mas em si, o que você diz se ajusta até ao princípio de que é possível uma operação dessas.
* A troca de vontades irreversível com nosso Fundador, é o único meio de fazer o Grupo desencalhar
(Dr. Marcos R. Dantas: Teria um outro argumento: Marie des Vallées pediu a Deus que fizesse essa troca de vontades. Então, a vontade divina passou a comandar as ações dela. No nosso caso nós podemos pedir a Deus que sejamos comandados pela vontade do senhor!)
Claro, claro, claro!!
(Dr. Marcos R. Dantas: Por que não?! E Deus, então, lhe consulta — digamos assim — se o senhor está de acordo com essa operação e processa!)
Claro!
(Dr. Marcos R. Dantas: Por que é que a coisa não poderia se processar assim?! Parece razoável!)
Depois tem o seguinte, Marcos, que se acrescenta a isso: é que ao cabo de 20 anos de vida de Grupo a gente percebe uma coisa encalhada que não anda!
(Dr. Marcos R. Dantas: Não anda!)
(Sr. Guerreiro Dantas: Não vai andar!)
(Sr. Nelson Fragelli: Não entendi.)
No progresso espiritual do Grupo há qualquer coisa encalhada e que não vai para frente, o que parece indicar a irremediável insuficiência das vias normais. E então, um outro processo que não seja esse para chegar ao mesmo ponto.
(Dr. Edwaldo Marques: Há um desencontro nosso em relação ao senhor.)
Há um desencontro.
Pior, é uma coisa mais grave. Segundo a via ordinária há uns encontros efêmeros que degeneram prontamente em desencontro.
(Sr. –: Não tem estabilidade nenhuma.)
Nenhuma, nenhuma, nenhuma! De maneira que há certos momentos de encontro em que a pessoa como que vive até nessa troca de vontades, mas como não há uma doação irretratável, aquilo escapa.
(Dr. Marcos R. Dantas: Aí é 20que é o negócio! De certa maneira desmoraliza aqueles encontros.)
Claro!
(Dr. Edwaldo Marques: Mas de certa maneira é desses encontros fugazes que depende a vida.)
É, ainda é.
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas que dessa via não sai o futuro não sai!)
(Dr. Edwaldo Marques: É, não sai saúde.)
Por exemplo, se um de vocês agora saísse da sala e eu dissesse: “Olha, esse aqui vai muito bem, etc…”, vocês poderiam receber com alegria. Mas uma alegria meio desiludida, como quem diz: “Está bem, houve um momento em que eu também fui muito bem, em que todos os outros aqui na sala tivemos momentos em que fomos muito bem, mas isso tudo foi um equilíbrio precário, efêmero, é espuma que se forma na superfície do mar e qualquer movimento das ondas esparsa”. Então, evidentemente, a pessoa recebe com alegria, mas vendo que aquilo está hipotecado ao caos e ao nada se não houver uma irretratabilidade que é o que caracteriza a substituição.
* “Nós devemos, junto a Deus, junto a Nossa Senhora, fazer o papel daqueles anjos que arrancam as graças de Deus à força de rezar”
(Dr. Marcos R. Dantas: Exatamente! Só para ser claro no caso de Soror Marie des Vallées. Ela teve um período de noviciado de dois anos por onde haveria uma reversibilidade da coisa. Ao cabo de dois anos, então, houve uma clara irretratabilidade no processo. Quer dizer, Deus quis impor a ela uma período de noviciado.)
Durante o qual era retratável.
(Dr. Marcos R. Dantas: Sim.)
Agora, eu acho uma coisa: que se entre nós houvesse dois anos de noviciado acho que nenhum de vocês confiava nesse noviciado.
(Dr. Marcos R. Dantas: Nós já tivemos nosso noviciado.)
Exatamente, que longo noviciado.
(Sr. Marcos Fiúza: A troca de vontades se daria, acho no dia em 20que tomássemos uma 20atitude diante do senhor, como Verônica tomou diante de Nosso Senhor. O senhor levantou a hipótese até de a Sagrada Face ter sido estampada na própria alma dela.)
É isso, o resto é um símbolo admirável, mas um símbolo.
(Sr. Marcos Fiúza: Então, o dia que tomássemos a atitude que a Verônica tomou, aí estaria feita a troca de vontades.)
É uma muito bonita concepção, uma muito bonita hipótese, mas sobre a qual a gente tem que pensar, aprofundar, e ver de todos os lados.
Quer ver por exemplo, uma coisa?
Eu tenho toda impressão claríssima de que nós devemos, junto a Deus, junto a Nossa Senhora, fazer o papel daqueles anjos que arrancam as graças de Deus à força de rezar. E que nesse sentido, é quase por nossa prece [que] Deus nos faz a vontade nossa. Há uma quase reversibilidade. Não é uma reversibilidade verdadeira, porque o anjo quando pede a Deus e arranca de Deus uma coisa, é Deus que dá a ele a graça para pedir até arrancar. De maneira que ele quando arranca, arranca porque Deus quer que ele arranque.
Entra aqui uma coisa misteriosíssima e belíssima que é o papel das criaturas na execução do plano divino.
* Os anjos são os agentes “secundus” de Deus na atuação da criação
Uma coisa, como agentes secundus, que comentei ontem à noite no Auditório São Miguel.
O fato é belíssimo — não quero dizer [que] o meu comentário seja —, é o seguinte:
Durante a Paixão, quando São Pedro cortou a orelha de Malco, Nosso Senhor censurou e disse: “Se eu — nessas ou noutras palavras — quisesse evitar o sacrifício, eu pediria a meu Pai que mandaria “n” não sei quantas legiões de anjos para me libertarem”.
O que é uma coisa curiosa, como é curioso o comentário d’Ele sobre a virtude que passava pelo manto, que Ele sentiu que saiu sem que a humanidade conhecesse em benefício de quem é! De maneira que a humanidade perguntou para fora porque não recebia nenhuma revelação da divindade. É por onde Ele dá oportunidade de a gente espreitar o que se passava. Assim, aí também a gente fica vendo que para a obra suprema de defender o Filho de Deus contra o agressor deicida, se fosse o caso Deus não agiria diretamente, mandaria anjos. De tal maneira Ele respeita os intermediários.
(Sr. Nelson Fragelli: Ah!, muito bem! Ah!, ótimo!)
É muito curioso isso. Por exemplo, a gente tem a impressão que aqueles quando caíram no chão no Ego Sum!, a gente tem a impressão que saiu d’Ele uma virtude e derrubou os outros. Mas a raciocinar na lógica do que Ele falou, foram anjos que derrubaram aqueles.
Aliás, o João me disse que leu em não sei que mística aí, uma coisa muito interessante: é que os que caíram no chão se converteram.
(Sr. Fernando Antúnez: É. Em Ana Katarina Emmerich que está isso.)
Os que não se converteram foram insensíveis, não ligaram, mas os que caíram no chão se converteram, foram sensíveis a ação angélica. Uma coisa muito bonita, um mistério altíssimo.
Mas a gente aí pode compreender que…
(…)
* “Se troca de vontades houve, terá sido entre Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo” — Em Nossa Senhora cabem todas as formas de perfeições, também a de ser “forte contra Deus”
… um anjo fosse escolhido por Deus para que fizesse troca de vontades com um homem. A gente então pode compreender, mas também pode fazer troca de vontades entre um homem e outro. Mas a gente pode compreender que um anjo possa ser forte contra Deus e ter a vontade trocada em Deus ao mesmo tempo. Porque Ele quando arranca de Deus, é porque Deus lhe dá a graça e quer que ele arranque. Deus quer que uma criatura faça isto pela outra, para fechar o circuito da criação.
Para dizer tudo numa palavra só, se troca de vontades houve, terá sido entre Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo. Ora, eu acho que como nEla cabem todas as formas de perfeições, coube também a de ser “forte contra Deus”. E é verdade porque todos dizem que Ela apressou o momento da Encarnação com as preces d’Ela, que Deus não mandaria se não fosse isto. Logo, as duas coisas não se incompatibilizam, não se chocam, não colidem.
(Dr. Edwaldo Marques: O primeiro milagre, as bodas de Caná, também Ela apressou, porque Ele até disse: “Não é chegada a minha hora”, mas Ela arrancou.)
É verdade.
De maneira que isto na aparência é uma objeção, de fato não tem consistência, é apenas um embaraço que a lógica desfaz.
* A troca de vontades depende de Deus
(Dr. Marcos R. Dantas: […] No caso de Sóror Marie des Vallées o noviciado não é o que se está pensando. Seria o nosso noviciado no seguinte sentido: ela passou dois anos com a vontade trocada. Ao fim de dois anos — evidentemente num comportamento modelar —, a vontade divina lhe apareceu e pediu uma outra confirmação. Quer dizer, não é que ela tenha passado dois anos…)
Na gangorra que estamos nós… uma vontadinha querendo, por debaixo de que não queria…
(Dr. Marcos R. Dantas: No fim de dois anos Deus como que ressuscitou a vontade dela e fez nova consulta, desta vez definitiva e ela confirmou.)
Ela confirmou no ato ou hesitou?
(Dr. Marcos R. Dantas: No ato.)
A precisão interessa altamente. Depois é muito lógica.
Deduzindo daí para o nosso caso, a partir do momento em que ela deu a vontade dela, no começo do noviciado, ela deixou de ficar entregue às incertezas do próprio operar pessoal.
Apenas teve um hiato, possivelmente instantâneo, na pergunta feita ao cabo de dois anos. É bem isso?
(Dr. Marcos R. Dantas: O noviciado queria dizer que era reversível da parte de Deus e irreversível da parte dela. Durante dois anos ela perdeu a vontade, mas Deus podia rejeitá‑la.)
Então, ao cabo de dois anos, o que houve só foi que Deus declarou da parte d’Ele a irretratabilidade? Ou houve uma suspensão da irretratabilidade no que concerne a ela também?
(Dr. Marcos R. Dantas: Como ela foi submetida a muitos sofrimentos nesses dois anos, houve uma consulta antes da fase definitiva se realmente ela queria aquilo para o resto da vida.)
Naquele momento, portanto, tornou‑se reversível, ainda que por um instante. Se houve uma consulta?!… Portanto, houve uma irreversibilidade que durou dois anos, suspendeu‑se durante um instante e depois tornou‑se definitiva. Mas houve um momento com hiato que foi o momento da consulta.
(Dr. Marcos R. Dantas: Sim. Aí responde uma pergunta do Sr. Nelson Fragelli. Quer dizer, não basta um ato nosso para a troca de vontades, é preciso haver isso e esperar que a graça pegue. A troca de vontades não depende de nós.)
Isso é certíssimo! É claro!
(Dr. Marcos R. Dantas: Depende de Deus. Deus que é soberano para julgar se estamos em condições, etc…)
* Na explicitação feita por nosso Fundador nesta reunião, fica claro que a Providência faz um convite para que os membros do Grupo aceitem a troca de vontades com ele
(Sr. Nelson Fragelli: Mas me parece que para nosso caso essas condições de Deus já estão postas há muito! E só depende do nosso passo.)
É o que o Marcos Fiúza pressupunha é que Deus quer. O Marcos Fiúza acha que a experiência anterior é ilustrativa ou demonstrativa de que Deus quer. O que não deixa de ser verdade que ainda que Ele queira, nos consulte, nós queiramos também. Ele é soberano de não querer, porque por assim dizer não está comprometido. E em segundo lugar, que Ele fará quando quiser. O convite é um convite sério! Deus não flana e, portanto, feito o convite, o convite está feito. É como negócio fechado, se eu faço uma oferta de negócio e você diz sim, eu sou obrigado a honrar a minha oferta.
Você quando dá a resposta fecha o negócio. Mas, da parte de Deus Ele pode, pelo modo pelo qual Ele nos consultou, é um modo mais de sondagem do que de oferecimento formal. E o nosso sim não fecha tão inteiramente o negócio como quando o oferecimento muito formal e muito direto que Ele fez a Marie des Vallées. Há um matiz, entra alguma 20coisa meio tateante.
(Sr. Nelson Fragelli: Tenho dificuldade em entender. Acho [que] para nós é o mais formal e mais categórico possível. Não acho que Deus seja tateante no nosso caso. O senhor desculpe dizer assim… não sei se o senhor afirmou para nosso caso ou de maneira geral…)
Não, para nosso caso.
(Sr. Nelson Fragelli: Acho ultracategórico e seríssimo! Quase com a seriedade de Juízo Final
Eu gosto muito que você diga isso, mas isso não exclui o matiz que vou dar daqui a pouco.
Eu acho que enquanto isto não estava definido e explicitado em nosso espírito — porque de qualquer maneira a noite de hoje está explicitando muita coisa —, enquanto não estava assim explicitado, tudo quanto havia não tinha chegado ao último grau de sua formalidade. Nós agora, por retrospecção, percebemos que isso completado agora, formaliza o convite. Mas antes de explicitar tinha o caráter — ao mesmo tempo muito categórico, você diz muito bem —, mas de algo que ainda não estava enunciado por inteiro.
(Sr. Nelson Fragelli: Muito obrigado.)
(Dr. Marcos R. Dantas: […] É dentro das clarezas das vias que o senhor nos mostra. Hoje mesmo o senhor falou da percepção do momento histórico, quem tem alma para ver vê e pega o momento histórico, mas ele não aparece tão claramente.)
É a via mística da TFP. Uma forma toda especial, não exclui que tenhamos outros acréscimos em nossa via mística, mas nesse ponto é característico. Tudo quanto eu falei hoje, até o Mirabeau tonneau, que era um… é uma ilustração de uma idéia sobre uma certa via mística. E, portanto, de um certo estilo no ato pelo qual a vontade se troca.
(Sr. Nelson Fragelli: Isso gostaria que o senhor tratasse: o estilo pelo qual a vontade se troca.)
Vamos analisar aqui a conversa nossa. Porque essa conversa, de algum modo é histórica!
Vamos analisar a conversa.
É fora de dúvida que nós… eu vou falar de modo inteiramente aberto.
Foram tantas as misérias ao longo desses vinte anos, que as vias comuns da graça teria produzido necessariamente desgarramento. Necessariamente desgarramento! Se algo em nós não tivesse dito um tal sim, que adquiriu algo de irreversível. E é um sim cujo reversível está muito mais em Deus do que em nós. E o exemplo — eu digo tudo isso com afeto de pai — característico é o George Antoniadis. O George chegou a apostatar.
Você passou perto de um ano fora do Grupo não foi, meu filho?
(Sr. George Antoniadis: Foi, sim senhor.)
Portanto, apostatar. Eu nunca deixei de ver no fundo do olhar do George, que Deus tinha a mão posta ali e que não abriria a mão. Ele tinha aberto a mão, mas Deus não tinha. E isso eu nunca vi no fundo do olhar do Byron. Nunca! Mas no olhar do George, desde que eu conheci o George sempre, eu vi. Olhe que a caminhada… [Troca a fita]
… e não permitir que você apostatasse de um modo inteiro, desgarrasse de um modo inteiro, efetivo. Tanto é que, quando você me telefonou dizendo que o Byron morreu, você me telefonou como sendo a única pessoa que normalmente esse telefonema devia ser dirigido e já num ato de volta, implícito, mas volta. Não sei se você se lembra do episódio, mas eu creio que concorda com a minha interpretação.
Bom, vejamos então bem a crise, fica claro que Deus, Nossa Senhora em algo, de alguns, tomou um posse tal, que pela irreversibilidade d’Ele, Ele dá graças tão grandes, que como que impede a pessoa de querer um desgarramento total. Mas é numa espécie de veio só, onde teria havido um primeiro trançar de fios de um noviciado de ato de vontade. Isso seria um primeiro trançar de fios.
Segundo ponto: em virtude disso e sentindo a pressão da Revolução, nós sentimos a incapacidade das vias comuns, de nos levar para frente, como a coisa mais demonstrada e irremediavelmente demonstrada que pode haver.
Como a alternativa: ou troca a vontade de uma vez, quer dizer vai a um extremo, ou… não é propriamente apostata, mas fica com uma vida que é a “mãe da natureza”. Cada vez mais claramente “mãe da natureza” à medida que se aproxima a hora da Bagarre, a hora dos grandes sacrifícios, em que a pessoa se sente literalmente desgarrada! Porque é “nhonhô” por alguns lados, é chamado a ser herói pelos outros, os fatos estão galopando em direção à pessoa e a pessoa não sabe o que fazer.
E na conversa de hoje caracteriza‑se com toda a clareza que os vários chamados que a gente recebeu antes do primeiro sim e agora, eram chamados implícitos, mais ou menos claros, conforme cada alma e cada chamado em concreto, para ver algo em mim que convidasse a essa troca de vontades. E para aceitar isso.
Explicitado, torna‑se um convite condicionado. Vou dizer [daqui a pouco] o condicionado a quê, mas é um convite condicionado. É um estudo teológico muito cuidado e muito sério para realmente se ter certeza que se está pisando em terreno firme. Tudo leva a crer que sim, mas é preciso ver bem direito como é que é, não pode ir assim sem mais nem menos.
Isso constatado o que nós podemos fazer?
É dizer: “Minha Mãe, Vós nos convidastes, a Vosso convite nós dizemos sim. Mas como o convite não teve a formalidade do convite, é mais um enunciado de um desejo do que um convite; deixamos o nosso sim a Vossos pés, ajeite como quiserdes. Ajudai‑nos a mantê‑lo como irretratável”.
É até onde me parece no atual estado de coisas [que se] pode ir. Porque de fato seria muito temerário a gente fazer qualquer coisa sem um estudo mais direto, mais atento do assunto. Consultar um teólogo?… Não sei. Mas vamos ver o material que temos em mãos para ver o que fazemos.
* Deus age através da vontade do Fundador para operar a troca de vontades
(Dr. Edwaldo Marques: Como seria esse convite formal?)
A hora em que a Providência, pela voz da graça, nos diz interiormente de um modo místico que será ou não será uma aparição ou qualquer outra coisa, “meu filho, você quer?”.
(Dr. Edwaldo Marques: Dentro das vias atuais como seria?)
Seria, em última análise, a hora em que algumas vendas a meu respeito caíssem dos olhos. Ou Nossa Senhora completar em mim uma obra d’Ela que se assinale. Enfim, alguma coisa nessa linha que vejam ou algo que Ela acrescente ou algo que não vem ainda. O fato é que seria preciso uma venda cair dos olhos para com o acréscimo d’Ela ou sem, não entro na análise da questão. Verem em mim a vontade d’Ela já existente. Porque do contrário é uma gagueira! Uma demência! Me parece sumamente lógico o que estou dizendo.
(Sr. Guerreiro Dantas: […] Há no senhor uma potencialidade e há recursos para pedir a Nossa Senhora por nós… então na vontade do senhor existe uma possibilidade que ainda nós não nos detemos suficientemente nesse ponto.)
A linguagem com que você apresenta o assunto fica, involuntariamente, um pouco fora da própria natureza da troca de vontades. Porque não se trata de minha vontade comunicar algo à vontade de vocês, mas trata‑se de a minha vontade substituir a de vocês. De maneira que eu fico querendo em vocês. Essa é a radicalidade, se eu entendi bem o que disseram o Marcos e o Fiúza, a radicalidade da operação é esta. Não é uma extirpação da vontade, mas a vontade fica dormente. Não é uma 20irradiação, não ficam seres sem vontade, mas a vontade fica dormente por assim dizer nos braços de outra vontade que a anima, conduz, movimenta, etc…
Se fosse qualquer coisa a menos do que isso era o caso de duvidar da seriedade do caso.
(Sr. Guerreiro Dantas: Queria dizer, que a obtenção da troca de vontades haveria de explorar uma possibilidade que reside no senhor de querer isso junto a Nossa Senhora para que se operasse conosco. Isso me parece que é maior do que parece do que já foi feito.)
Eu acho exatamente que essa troca de vontades em alguma medida está feita. Você diz bem que nesse encontro de vontades, nessa como que absorção de vontades vocês sentem, é uma potencialidade maior de minha vontade. Mas essa potencialidade nós não nos devemos iludir pela fachada do edifício, não é uma potencialidade naturalmente maior, é Deus agindo através da minha vontade para operar isso.
Essa potencialidade naturalmente maior é… é um outro elemento.
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas elemento inseparável.)
Sim, porque através dessa potencialidade natural Deus faz vocês discernirem a potencialidade sobrenatural, como através desse vidro — se não houvesse a cortina — eu via o hall.
Então, dessa maneira, julgando ver apenas a potencialidade natural, você discerne no fundo o sobrenatural, que é a Deus presente ali e operando.
* Dada a vocação do Grupo, a pessoa não realiza a troca de vontades se vai atrás das graças movido sobretudo pela idéia de salvar‑se e não pela idéia da ordem do universo
(Sr. Marcos Fiúza: […] E como o senhor disse hoje na reunião, nós não temos importância, o que tem importância é a causa! É o agir de Deus. Então, seria algo que Nossa Senhora nos mostrasse no agir de Deus no senhor em que para nós, particularmente, pouco interessa se vou ficar gordo ou magro, assim ou assado, isso não vem ao caso!)
Tout court! não vem ao caso.
(Sr. Marcos Fiúza: O que vem ao caso é a aflição da Igreja que está simbolizada no senhor. O que mede é a aflição da Igreja representada no senhor. O que Nosso Senhor está passando na Paixão e vivendo no senhor. Agora, se estou aflito, vesgo, torto ou manco não vem ao caso, isso não tem importância se não for nesta perspectiva.)
É precisamente um dos pontos onde nós não nos encontramos, é precisamente esse. É que tudo na minha impostação visa a glória de Nossa Senhora, o reinado de Nossa Senhora, e a ordem do universo enquanto expressão da glória de Nossa Senhora. E a minha própria santificação que evidentemente eu desejo tout court!, é no meu próprio desejo secundário. O que eu quero é o reino d’Ela, a glória d’Ela! E esta união com Ela não é em todos nós no mesmo grau.
Quer dizer, muitos de nós desejamos é nossa santificação!, nosso bem!, nosso remédio!, e a glória de Nossa Senhora e a ordem do universo ficam como elementos muito secundários. É um dos pontos onde a troca de vontades deveria fazer nascer o desejo ardente, sério e total da vitória d’Ela. O resto dá no que D. Bertrand outrora chamava “espiritualite”.
(Sr. Marcos Fiúza: […] No fundo a gente fica querendo como se fosse um senadinho que está reivindicando junto ao senhor para se enfeitar, recebe tal graça, ficou arranjadinho, mas não é isso, isso vai dar em porcaria, uma graça que vem, a pessoa se enfeita com aquilo e…)
Não é de momento, mas facilmente degenera nisso. Porque se a pessoa vai atrás dessas graças movido sobretudo pela idéia de salvar‑se e não pela idéia da ordem do universo, etc., dada a nossa vocação — é preciso tomar em consideração a nossa vocação no caso —, a pessoa não realiza essa troca de vontades. Por quê? Porque é minha vontade, é toda dirigida para esse lado!
* Na vocação do Grupo há uma sensibilidade maior para lutar pelo Reino de Maria que virá, do que para o Reino Celeste
(Sr. Fernando Antúnez: Qual o centro da vocação do senhor que se transmite nessa troca de vontades?)
É preciso tomar em consideração nossa vocação: a TFP, a Contra‑Revolução. Porque nós não podemos falar dessas coisas como se fôssemos almas para as quais tudo se diria do mesmo [modo] se a TFP não existisse, nem a Revolução, nem a Contra‑Revolução. Não podemos falar nesses termos, nós temos que falar nos termos concretos nossos.
O que a mim me move e move a vocês todos na virtude é uma nota especial que é essa:
Nós sabemos pela Fé e estamos certos disso de toda alma — professamos isso — que a vida terrena em comparação com a vida eterna é como que nada. E que a gente deve tender para a vida eterna com todas as forças. E que uma vez que tenha conquistado a vida eterna, tudo quanto foi antes fica como que um pesadelo, etc… E que, portanto, pela lógica da Fé, a gente deve fazer todos os seus atos em função da glória definitiva e eterna de Nossa Senhora no Céu. E que a glória transitória d’Ela nesta Terra é muito pouco com o que é essa glória eterna d’Ela no Céu.
Mas, de fato, o que nos move a insuportabilidade de que Ela não receba nesta Terra a glória que Ele deva receber, e o desejo de nesta Terra restaurar o reino d’Ela, nos move mais do que o desejo de restaurar no Céu.
Com se pode compreender isso, estamos em presença de uma aberração?!
Nem um pouco. É que conforme as graças dadas a cada alma, pode acontecer que uma alma seja mais movida por um bem menor do que por um bem maior. Isso é corrente na Igreja.
Por exemplo, São João Bosco trabalhou para converter aqueles meninos, etc… Se ele fosse se perguntar se esse era o maior bem a favor da Contra‑Revolução, talvez respondesse não. Ele foi intermediário daquela mensagem de Deus para Francisco José, e chama a atenção que não há nenhum sinal que ele se tenha posto à disposição de Francisco José para a execução daquele plano. Ele continuou a preparar aquela série de birichinadas. Coisa magnífica! Na série está S. Domingos Sávio, São Miguel Rua, enfim, tudo quanto queiram! Mas ele não se pôs a disposição para aquele plano maior. E ele poderia fazer muito! Porque a execução daquele plano dependeria muito do apoio da Igreja.
Bom, é porque Deus queria dele, por razões insondáveis, porque destinava para esse plano outra pessoa, enfim “x”. Deus queria dele que ele fizesse aquela obra, e um outro fizesse aquela outra obra. São desígnios de Deus.
Por exemplo, os Reis Magos não teriam feito melhor em ficar junto com a Sagrada Família, mandar às favas os povinhos deles e trabalhar pela expansão do Evangelho?… Lázaro não teria feito melhor em estar presente durante a Paixão?…
(Sr. Nelson Fragelli: Ahahah! O senhor levanta os problemas únicos na História.)
Mas são problemas que se podem analisar em si, tem consistência!
Como entrou com a Revolução e por jogo de “Jezabel” uma virtual negação do Reino nessa Terra: “Não, não tem importância, preocupe‑se só com o Céu…”. A tal ponto que D. Mayer considerou aquela carta de Francisco José uma preciosidade, pediu cópia! Que a gente vê que é para mostrar isso a gente a quem isso não é corrente…
Então, acontece que nós podemos ser sensibilizados mais para esse Reino terreno que é o Reino de Maria que virá, do que para o Reino Celeste que nós em tese sabemos que é muito maior do que esse Reino terreno.
Nessa visualização, enquanto tomados pelo desejo do Reino terreno, esse Reino nos parece tão magnífico! tão esplendoroso!, nos parece tão nada de viver nas condições presentes, que a lógica da vocação nos levaria a não disputar um lugar na atual ordem de coisas para nós. Em matéria de lugar queremos ser apenas uma trincheira contra eles no jardim deles. Mais nada! E não querer ser uma roseira dentro do jardim deles!
(…)
* Uma ponta de apostasia em ter o desejo de “nhonhozar” no mundo da Revolução
Aí entra, conforme cada alma, um desejo de ser canteiro no jardim deles, ou desejo de ter uma rede amarrada em duas árvores do jardim deles para dormir ali. Então, não é para ser uma figura decorativa ali dentro, mas para gozar a presença no jardim deles, vida gostosa no jardim deles, fazer piquenique no jardim deles, “nhonhozar” no jardim deles. Mas ter algo fora do Reino de Maria que atraia nessa vida. Aqui está a coisa censurável.
É realizar, por exemplo, o plano da família de sermos um grande homem, um vate, um poeta, seja lá o que for. O que quiserem, isso varia ao infinito.
Bom! Isso é uma diminuição desta Sede do Reino de Maria que, por outro lado, nós temos. E se houvesse uma união de vontades adequada entre nós, nós teríamos o inteiro descaso disso, de tal maneira que nós no jardim deles de fato disputaríamos terreno apenas para ser uma trincheira contra eles. E viveríamos apenas para o Reino de Maria.
Não “nhonhozeira”, nem jardineira.
Aqui está a divisão.
Agora, não é possível que a gente querendo ser roseira ou canteiro, ou rede, ou qualquer coisa no jardim deles… já aí há uma espécie de ponta da apostasia e algo que na união de almas tem que eliminar…
(…)
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