Conversa
de Sábado à Noite ─ 12/7/1980 ─ Sábado
─ [AC V - 80/7.07] – p.
Conversa de Sábado à Noite ─ 12/7/1980 ─ Sábado ─ [AC V - 80/7.07]
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* O sorriso de Yalta é uma forma de pecado que será punido especialmente no Inferno - As formas de castigos durante a “Bagarre”
Eu não disse isso lá porque levaria a desdobramentos infinitos que não se pode ter, mas eu acho que uma forma de pecado que vai ser especialmente punida no Inferno é o sorriso de Yalta, com tudo quanto veio dele.
Ele tem uma forma de mentira que é particularmente pavorosa, porque todo esse pessoal, gênero de Yalta, eles se odeiam uns aos outros e fingem ser possível uma forma de benevolência que, de fato, só o estado de graça e a Cruz de Nosso Senhor dão, mais nada.
Se as almas deles fossem desvendadas, a gente veria que eles odeiam todos, uns aos outros. Isso é [o] que se veria, mas mentem. Então seriam castigados por esta mentira e castigados por tormentos ferozes, desferidos por uns contra os outros, seria uma coisa especial.
Quando essa gente toda que vive no regime de ecumenismo, de simpatia, der de se entreperseguir, vamos ver ferocidades entre pseudo-amigos como nós nem imaginávamos, porque no fundo essa gente toda se odeia, mutuamente odeiam-se.
De maneira que deve haver uma espécie de castigo coletivo para a Humanidade porque a Revolução é a Revolução, e depois castigos especiais porque cada um é revolucionário.
Depois a coisa é tal, que uma pessoa que tem ódio, se sente jubilosa vendo que o outro sofre, mas para eles não aumenta… eles querem que seja, mas não dá felicidade ver o outro sofrer, porque nada lhes dá felicidade, absolutamente nada pode dar felicidade, aquilo é congelado e imóvel.
(…)
… dos confortos ─ tão apreciável para quem está no Inferno ─ de uma cama de hospital, e antes de terminar a palavra que está pronunciando, está julgado e está condenado. O que é isso? E depois, já de uma vez, eterno!
É uma coisa que a gente precisa pensar.
Agora, isso vai bem junto com o negócio do Céu Empíreo. E, volto a dizer, a gente tem que dar os tormentos do corpo antes de dar os tormentos da alma.
(Sr. João Clá: A reunião da tarde sobre a inocência de uma certa pessoa e a reunião da noite se completam.)
É, dão num mesmo todo.
(Sr. João Clá: E uma particularidade especial: boa parte do auditório estava tocada por uma graça de enlevo, como nunca houve no Auditório de Jasna Gora.)
Isso é fora de dúvida.
(Sr. Poli: Coisas que tínhamos pedido para o senhor falar aqui, o senhor não falou. E lá o senhor falou.)
Às vezes acontece isso: eu formo o projeto de não dizer uma certa coisa, impõe segredo, e depois conto em público, porque na hora eu percebo que vai ser ocasião de uma tal graça, que vale a pena. Aí eu tomo responsabilidade, passo por cima do segredo que eu mesmo impus.
Agora, é preciso dizer o seguinte:
Se este tema não interessasse, seria o caso de fechar a reunião, porque prever o que foi previsto, quer dizer, que João Paulo II…
* A criança contrariada no estado paradisíaco ama mais o gostoso que lhe é tirado, ou a idéia de que a ordem foi abalada?
(Sr. João Clá: Não, não é João Paulo II, é a parte final. De fato vale o comentário do senhor para João Paulo II, mas a segunda parte é que está intimamente ligada com nossa vocação, nosso “Thau”. Ali entrou uma lufada de ar que não havia na parte anterior.)
Não havia.
(Sr. João Clá: É alimento para o “Thau”.)
Isso é inteiramente líquido.
Se bem que, hoje à tarde, pelo empenho de correr, eu não tenha dado um aspecto da questão que quero que grave agora, porque do contrário não se entende bem a coisa.
É o seguinte:
Lembram-se que falei de uma pessoa que na infância possa estar num estado paradisíaco, e quando começa a encontrar coisas feias, etc., se choca. Começa então a fazer a diferenciação, a posição Revolução e a posição Contra-Revolução. Não foi explicitado ali um ponto que é capital:
É que, quando a pessoa, neste estado paradisíaco… filmando então em câmara mais lenta, está, por exemplo, uma criança fazendo sesta e ouvindo do lado de fora, no terreno baldio, os grilos “prã-prã, prã-prã, prã-prã”. Tem a impressão que é uma espécie de pulsação de todo o universo na pulsação das coisas dos grilos, que é o barulho, a harmonia de todas as coisas que fala por ali, silêncio, etc.
Quando a pessoa é contrariada nisso, por exemplo, por outra criança que entra agitada, aparecem duas coisas juntas:
1º) Esse paraíso enquanto deleitável que é perturbado;
2º) Com a perturbação, vem a cessação do deleite, e a noção de que este deleite cessou porque a ordem do ser foi contrariada.
Não, por exemplo, que eu prefira que esta salinha ao lado esteja iluminada do que não esteja. Então a pessoa ilumina e dá um deleite. Apaga e tira um deleite. É uma coisa inteiramente arbitrária, acende e apaga como quer.
Ali não. A ordem do ser foi contrariada.
E aqui há uma prova dos dois fatores de indignação concomitantes. Qual é o maior? Se é pela ordem do ser ou pelo deleite que cessou. É nesta prova que começa o desequilíbrio.
Quer dizer, o delectabile da coisa é apenas um sintoma de como ela é ordenada. A criança em ordem que se deleita com uma coisa em ordem. E quando ela é privada daquela ordem, ela sente que a própria ordem das coisas foi abalada.
As duas coisas estão juntas e ela passa por uma prova que é de dar mais importância a uma posição do que a outra ou não.
Esse é um farelinho dentro do caso, mas em matérias importantes como essa, esse farelinho é muito importante, porque acaba sendo que daí fica mais claro o aspecto idealista dessa opção e depois o caráter dessa primeira prova.
* Muitas vezes a criança faz opções sem ter a menor idéia da gravidade do que está fazendo
(Sr. João Clá: E são também dois tipos de alegria que pode haver diante do fato de o senhor ter tratado deste tema na reunião. Uma alegria é o gostoso que isso causa na pessoa; outra alegria é o de ver que o estandarte foi desfraldado.)
Não tem dúvida, não tem dúvida!
(Dr. Edwaldo Marques: Há também a alegria de ver que alguém foi assim fiel.)
É uma graça a agradecer sem nome. Porque muitas vezes uma criança faz opções dessas sem ter a menor idéia da gravidade do que está fazendo, aquilo vai como o resolver tomar ou não tomar um copo d’água, quer dizer, vai na tonteira do negócio.
E pode tomar um caminho péssimo assim, dentro da irreflexão.
(Dr. Edwaldo Marques: Aqui a gente compreende o pecado mortal em crianças de que alguns santos falam.)
Exatamente! A criança não sabe que é pecado mortal, mas não precisa saber, é intrinsicamente pecado mortal.
(Sr. João Clá: A questão do prisma que o senhor falava na reunião passada. Ou faço um esforço de alma para ver as coisas através do prisma, ou nada feito.)
É, nada feito.
(Sr. João Clá: O senhor poderia ligar esse assunto com o da tarde?)
O prisma ficou implicitamente ─ nem sei se devo dizer que é implicitamente ─ expresso hoje à tarde, que é um senso do ser se desdobrando na noção dupla e confusa do delectabile enquanto delectabile e enquanto ordem. Quer enquanto delectabile, quer enquanto ordem, tendo o melhor de seu requinte, não na coisa em si, mas na transvisão que a coisa merece.
Isso é o critério fundamental.
Vamos dizer, por exemplo, eu falava de um menino fazendo a sesta, por exemplo, ou de um menino sendo acariciado pela mãe. Vamos tomar o caso de um menino sendo acariciado pela mãe.
Crianças acariciadas pelas mães, são quase todas.
Agora, a expressão da carícia depende da mãe. Se a mãe acaricia como eu vi muitas mães acariciarem seus filhos, como quem brinca com um bonequinho: “Que criancinha engraçadinha, té-té-té”, suspende no ar e a criança se sente um bonequinho, o fato é um.
Outro fato é se a mãe faz sentir na forma de amor que tem, toda a nobreza da causalidade, ela causou aquele filho, aquele filho é, portanto, um desdobramento da pessoa dela, um desdobramento nobre, porque é nobre ter um filho, isso traz um cum gaudere, que é os dois se alegrarem a pertencerem um ao outro, um em causar e o outro em ser causado, que entra no fundo do ser e estabelece mil relações à maneira de Deus com o homem.
E a própria relação de semelhança que decorre daí tem um pouco de parecido com as relações do Padre com o Verbo. O Padre gerou o Verbo; o Verbo é a expressão do Padre.
Então, a criança pode achar ou pode sentir, na esperança da mãe, a realização do que tem de mais nobre na alma da mãe e que a mãe ama nele in fiere aquilo que ela deseja que ele seja. E ele sentindo apto a ser, ama quem quer para ele aquilo que ele deve ser.
Há mil relações em círculo que se estabelecem assim.
Então, há duas coisas ao mesmo tempo: a mãe dá um brinquedinho ao filho e ao mesmo tempo dá essa torrente de coisas que vem por detrás do gesto de dar um brinquedinho.
Se o filho for um filho de alma “poca”, sobretudo um filho de alma dura, ele não vê tudo quanto a mãe põe nessa carícia e olha só para o brinquedinho.
Se ele tiver verdadeiramente alma, ainda que a mãe não tenha dinheiro para lhe dar brinquedo e faça um barquinho de papel para ele brincar na banheira - portanto, a coisa mais pobre que se possa imaginar, feito de jornal ─, ele fica encantado da mesma maneira com a mãe, porque a mãe fez sentir a ele aquela coisa que está por detrás.
Agora, isso que se dá nas relações mãe-filho quando a gente é criança e que tem a inocência bem acesa, faz ver por detrás de tudo o que existe alguma coisa assim, porque tudo o que existe, de algum modo exprime isso.
* A noção de que toda causa tem a sua “transcoisa” - Vinda a prova, essa noção se acende ou começa a morrer
(Sr. Guerreiro Dantas: Isso nasce do vínculo mãe-filho?)
Não. Nasce da semelhança que a coisa tem com Deus.
Um esplêndido exemplo é o vínculo mãe-filho, em que a pessoa pode ver apenas o aspecto pedestre do vínculo, um presentinho agrada um pouco, e pode ver o grande aspecto que é relação mãe-filho. Vêm juntos quando a mãe dá um presente para o filho.
E o homem é levado a ver, por detrás das coisas, a “transcoisa”, que pode não ser semelhante à relação mãe-filho.
(Sr. Guerreiro Dantas: Essa matriz a criança sente de um modo palpável na relação que ela tem com a mãe?)
É, mas não apenas nisso. Pode sentir também de um modo palpável em outras coisas. A relação que tem com a mãe, relação excelente, sente isso excelentemente, sobretudo, quando a mãe é excelente, porque aí depende muito do que a mãe põe na coisa.
Eu conheci mães tratando mal o filho, por exemplo, passando do embriagamento com o filho para a pancada por capricho, e a criança nem compreende porque está sendo agradada, nem compreende porque está sendo castigada, reflexo Pavlov.
Nunca, nunca, nunca me aconteceu isso! Eu entendia porque era agradado e entendia porque era castigado. Aí é que a gente atinge a “transcoisa”.
Há, portanto, a noção de que toda causa tem a sua “transcoisa” e que, quando vem essa prova, essa noção ou se acende ou começa morrer.
Vamos dizer, se a criança começa a prestar atenção só no brinquedo e não no que a mãe põe no brinquedo ao dá-lo, a criança passa a ter uma alma que vai tendendo cada vez mais a só ver esse aspecto da realidade e a “transcoisa” desaparece. Se ela, pelo contrário, vê o afeto mãe-filho, a propensão, a atitude habitual de olhar para as “transcoisas” se consolida. Assim com mil coisas.
(Sr. R. D.: Seria na relação maternal que seria dado ao homem ver melhor essa noção dos trans?)
Foi a mim. Mas ao homem, eu hesitaria muito em dizer. A mim certamente foi, mas é um caso concreto.
(Sr. R. D.: Seria propriamente dentro da família?)
Aí sim. O ambiente de família quando é como deve ser, já apresenta toda a visão das coisas elaborada para a criança pegar a “transcoisa”.
(…)
… figuras, não aquela, por exemplo. Duquesa de Nemours, é uma princesa até, mas não tem nada de transaspectos.
Ela pessoalmente é um cabide.
(Dr. Edwaldo Marques: O prisma…)
* A posição seletiva e antiigualitária de uma alma inocente diante das criaturas
O prisma aqui é um ponto de referência ou uma matriz que permite à gente tomar diante das coisas a posição seletiva e antiigualitáriade que falava o João há pouco, com os homens que estavam sentados ali embaixo.
Então, vamos dizer, eu passo e vejo esta porta aqui. Não sou admirador desta, não fui eu que fiz, encontrei no prédio quando vim morar. Não tive dinheiro para mudar, de maneira que esta porta foi imposta, como foi imposta essa bomba de gasolina, quer dizer, é uma coisa que está aqui.
Agora, esta porta, para quem tem minha idade, sabe que é um tipo de desenho e de apresentação das coisas um pouco antiquada para este prédio e que foi muito usada efemeramente como um pretenso estilo moderno, lá pelos anos vinte, trinta, assim. Esse prédio é dos anos trinta, quarenta, um pouco antiquada.
Eu sei bem que esse desenho visa… visa dar idéia de uma alegria diáfana, com material pobre. Europa ainda aristocrática, mas meio arruinada da nova guerra e lançando-se em futurismos e horrores assim.
Quand même, muito diferente nos transaspectos dela, que eu seria capaz de mostrar. Muito diferente do que aqueles dois tipos que estavam sentados ali.
Com o hábito de notar o transaspecto, vinha naturalmente a preocupação, a indagação, o choque e a pergunta: “O que estão fazendo aqui?”.
Então, por que isso é prisma?
É um critério segundo o qual se percebe tudo na linha do igualitarismo. Eu então dei isto como exemplo.
Não sei se respondo sua pergunta.
(Dr. Edwaldo Marques: O senhor falava de um senso…)
Isso, de algum modo pode ser chamado senso. Eu acabei traduzindo para termos racionais o que pode ser chamado de algum modo um senso. Essa coisa seletiva, enquanto um hábito adquirido e que tem… é apenas um aperfeiçoamento da natureza. Pode ser chamado um senso.
* O relacionamento entre nós através do “Thau”
(Sr. João Clá: Aquilo que o senhor falava do relacionamento entre nós, devendo ser como que uma identidade de prisma, vai na linha desse prisma de senso seletivo, ou há outras características que devemos ter em comum? Esse é o principal, e quais são os outros?)
Posso responder porque deixei o caminho inteiramente preparado. Eu respondo, sem sair do tema, à maneira de nosso bom espanhol. Eu respondo dizendo o seguinte:
O que aconteceu com uma pessoa que tenha assistido bem a reunião de hoje à tarde, a segunda parte?
Se ela assistiu bem, ela tem em relação ao que estou dizendo, ao que eu disse lá, uma porção de consonâncias, e uma porção de dissonâncias vindas da Revolução, vindas também de peculiaridades pessoais, hereditárias, temperamento, e no fundo uma grande consonância.
Essa pessoa, pelo fato de ter Thau, terá visto o que eu falei com uma apetência muito marcante para aquele negócio da placidez, na qual se ama ao mesmo tempo o delectabile e a ordem, e que tem por detrás uma espécie de temperança, que é o suporte disso. Depois, como isso, conduz ao ouro e prata.
E ainda que a pessoa tivesse violentas discrepâncias com aquilo, teria no momento uma graça para ver aquilo melhor do que qualquer outro veria. Portanto, para acabar deixando-se incendiar por esse fogo. Porque, visto, causa uma atração.
Visto por nós. Pelos outros, o caso já se desenvolve de outra maneira. Visto por nós causa uma atração.
Esta atração é seminativa, tem semente, ela comunica um começo de si mesma a quem aceite e, portanto, a possibilidade de começar a ser assim. Ela comunica isso a quem tem Thau.
O Thau é uma capacidade de receber isto, com já muita coisa de próprio nesta direção.
* Sendo o que foi para o Sr. Dr. Plinio, é arquitetônico que a Sra. Da. Lucilia seja igualmente para nós
(Sr. Poli: Se a Sra. Da. Lucilia foi para o senhor o que foi, é arquitetônico que ela seja isso igualmente para nós…)
É certo.
(Sr. Poli: Quer dizer, o plano de nos unirmos com nossa inocência, ser através da Sra. Da. Lucilia, e a nossa inocência será resgatada na medida em que for assumida pela inocência do senhor.)
A palavra resgatada acho muito escorregadia. Diga recuperada, restaurada.
(Sr. Poli: Isso nos pareceu o ponto mais importante da reunião. É assim ou não?)
Depende do sentido que você der à palavra importante.
Sem dúvida nenhuma, no modo pelo qual as coisas se passam hoje em dia, o que traz de imediato mais proveito para vocês é essa consideração, legitimamente.
Agora, se se trata de justificar doutrinariamente toda uma teoria da inocência, este é um dos pontos muito importantes.
Eu precisaria pensar para ver se é o mais importante ou não. Não me parece. O mais importante é o tal negócio, assunto ouro e prata, etc…
(Sr. Poli: Como então ver essa consideração e como tirar proveito dela?)
O que se passa é o seguinte:
Tanto quanto é dado observar, as almas que recorrem a ela e quem ela atende, ela deixa sentir algo do que eu sentia no contacto com ela. É por meio de imponderáveis, etc.
Eu descrevi o que se passava comigo, mas eu tenho certeza ─ tenho observado ─ que se passa também, ao menos, com muitos dos que ela atende.
* A Sra. Da. Lucilia foi uma chama sempre viva que alimentou continuamente o progresso do Sr. Dr. Plinio dentro da Igreja
(Sr. João Clá: Enquanto o senhor dizia, havia assentimento de boa parte do auditório, porque tinham sentido isso.)
Não notei, é?
Então, notando, a pessoa é convidada a se engajar nessa posição de alma e começar a ver as coisas assim.
Agora, a pessoa recebe muitas vezes dela isso, sob uma forma de uma graça atual, quer dizer, aquele ato, não é ainda uma graça habitual. Depois pode acabar sendo intercessora para obter de Nossa Senhora uma graça habitual, já é uma outra ordem de idéias. Mas aí é bem assim, você tem razão.
Tanto quanto posso discernir, ela concorreu muito para isso no meu período propriamente de primeira infância, até mais ou menos vir a graça de Nossa Senhora Auxiliadora. Aquela graça teve a vantagem ou a riqueza de me pôr muito em presença de que o grande foco disso é a Igreja Católica.
Aí eu comecei a me desenvolver muito, por ação da graça, por raciocínio próprio, mas muito, muito, muito! E com o bafejo da Igreja, como católico, na atmosfera Católica, etc. E ela passou a representar para mim uma espécie de chama sempre viva que estava alimentando esse progresso, dando consistência a esse progresso, mas o progresso em si era feito pela consonância com a Igreja.
Por exemplo, quando eu falei para você no automóvel “eco da Igreja”, órgãos…
(Sr. João Clá: Eco das paredes da Igreja que como que adoram o Santíssimo Sacramento.)
(…)
… sustentáculo, mas entrou muito outra coisa. A reflexão muito, tradição, coisas do passado, etc. E é curioso…
(…)
O impulso primeiro foi dela, ela me modelou para perceber isso na Igreja.
* A educação com estímulo para os deleites honestos
(Sr. João Clá: O senhor podia dar mais alguns fatos do convívio do senhor com ela?)
Essas coisas ela fazia muito menos continuamente do que podem parecer à primeira vista.
Quem fazia isso, [colocar na cama, lanches, refeições, passeios] era a Fräulein Mathilde; e ela deixava isso correr.
Eu levava, sob a batuta da Fräulein, uma vida europeizada. No nosso sentido da palavra europeização uma vida europeizada, mas uma vida sem transaspectos. Ela tinha qualquer coisa de afrancesado, com todos dos transaspectos do afrancesado, e eu formava uma soma do afrancesado vistos pelos olhos dela e uma composição, vista pelos meus olhos, do germânico posto nos transaspectos. O que ela fazia com a França, eu aprendia como é que fazia e fazia com a Alemanha.
Então, a Fräulein Mathilde representava muito uma Alemanha que ainda não era toda devorada pela sensualidade como [é] hoje o mundo moderno, então muita preparação, estímulo para o deleite honesto, para o qual eu sou tão sensível, e que foi para mim uma defesa em matéria de pureza. Não me apresentar a vida do homem puro como uma vida pálida e desbotada de um cretino, mas compreender, pelo contrário, que a vida só não é pálida e desbotada quando o homem é puro.
* O deleite com o carrilhão do Coração de Jesus e a atmosfera “a la” carrilhão do Coração de Jesus que a Sra. Da. Lucilia aspergia
Me lembro, por exemplo, perto da casa de um tio meu, estava o Coração de Jesus. E num aniversário de uma das crianças lá, convidaram uma legião de crianças para o aniversário. Não sei como é uma festa de aniversário hoje, mas naquele tempo era de acordo com a ordem natural, quer dizer, corre, corre, corre pelo jardim; vem um lanche, come, come, come. A criançada sai e corre, corre, corre. Às vezes tinha João Minhoca, teatrinho, a gente brincava, um cineminha, uma coisa assim, bate palma, dão risada, bate o pé no chão. Depois chega uma certa hora que basta, todo mundo põe a marmaille1 fora, vêm as Fräuleins, vêm as governantas, as mães, levam as crianças embora e liquida-se a festa, grande alívio para a dona da casa.
E a casa desse meu tio ficava bem perto do Coração de Jesus, ficava em frente ao Palácio do Campos Elíseos, quase em frente. Quando chegava seis horas da tarde, o carrilhão do Coração de Jesus tocava aquele “Ave, ave, Ave Maria”. E numa cidadezinha sem prédios, sem nada, aqueles sons desciam majestosamente, assim se alargando, sobre o jardim. Era noitinha e enchiam o jardim.
Eu tinha vontade de parar, ouvir o som e comentar com alguém. Não. Um corre-corre debandado, brinquedos, um pega no outro… brinquedos que a criança faz, tem regras, tem que pular, fazer não sei o quê, tudo feito num frenesi medonho.
E eu seguindo aquilo com o suficiente de aplicação para não me amolarem, mas louco para acabar com aquilo e no momento parar e ouvir a Ave Maria. Eu era criança e magnificava aquela Ave Maria. Não é tão bonita quanto parecia, mas me parecia lindíssima, eu ficava estatelado.
Via aquela marmaille correndo de um lado para outro, e eu via bem porque era. Os meninos não eram puros, não tinham tranqüilidade de consciência nem nada, tinham uma espécie de desordem de vitalidade que era, no fundo, frenesi de impureza que, não podendo cevar-se no momento, se expandia pelo corre-corre. De onde eu percebia que era uma coisa completamente errada, etc.
Eu saía dessa casa, ia para casa e encontrava mamãe toda metida numa atmosfera a la carrilhão do Coração de Jesus e, naturalmente, isso me confirmava na idéia de que se pode viver assim. E que o fato do mundo inteiro não viver assim, não quer dizer que não se deva viver assim. E a resolução: “Eu vou viver assim!”.
Mas isso é ainda tudo na primeira infância. Depois disso transformou-se em análise, raciocínio, ponto de doutrina Católica, obrigação, etc. E para isso, tenho toda impressão de que Santo Inácio de Loyola me obteve graças insignes; ele é o padroeiro dos jesuítas onde eu estudava.
Não sei se é bem isso que vocês queriam?
* A devoção da Sra. Da. Lucilia ao Sagrado Coração de Jesus
(Sr. João Clá: Está dizendo aqui que o senhor deu um caso.)
É que na massa toda dos fatos, os casos me custam ir recordando, assim aos poucos.
(Sr. João Clá: O senhor aprendeu a rezar indicado pela “Fräulein”?)
Não, foi por ela. Mas por mais decepcionante que seja, sou obrigado a ser inteiramente veraz: me lembro dela me ensinando rezar, mas não me lembro que me tivesse causado uma impressão especial. Eu ficando mais maduro, aí muitas vezes ela me causou uma impressão especial eu a vendo rezar, mas eu ficando mais maduro. O ela me ensinar a rezar, não…
Eu acho que já contei que a Rosée e a mim ela ensinou a dizer onde é que estava a imagem do Coração de Jesus antes de dizer papai e mamãe. Perguntavam onde estava o Coração de Jesus, eu e Rosée virávamos e apontávamos assim… Foi a primeira coisa que soubemos apontar.
(Sr. Poli: E as relações dela com a imagem do Sagrado Coração que está aqui no salão?)
No século XIX os jesuítas difundiram muito o apostolado da oração, e o apostolado da oração tinha por objeto conseguir do Sagrado Coração de Jesus, na sua misericórdia, as graças para a Igreja. E houve então um surto muito grande de devoção ao Sagrado Coração de Jesus e, colateralmente, de um modo menor, ao Imaculado Coração de Maria. Donde essas duas igrejas aqui que são construídas num mesmo eixo, Martim Francisco e Alameda Glete, são o mesmo eixo e representam devoções muito em curso naquele tempo. Depois, já antes do liturgicismo, começaram a cair. O liturgicismo espandongou.
(Sr. Poli: Ela rezava muito para esta imagem aí, rezava e osculava muito.)
A grande imagem do Sagrado Coração de Jesus, para ela, era a do quarto dela. A imagem que ela considerava representativa ─ antes de tudo e acima de tudo ─ da devoção, era do quarto dela. Aqui ela rezava longamente de manhã, passava quase que toda a manhã rezando para aquela imagem.
(Sr. Poli: O senhor [a] viu rezar muitas vezes?)
Milhares de vezes, incontáveis vezes. Porque quando eu entrava no quarto dela para dizer “bom dia”, habitualmente ela estava rezando. E, muito freqüentemente, era com vistas àquela imagem. Era aquela imagem do Sagrado Coração de Jesus e uma imagenzinha de Nossa Senhora das Graças que está naquele oratório.
Bem, aqui, a imagem do salão, era um extensão desta devoção. Mas esta imagem, de fato, só foi comprada quando eu já era homem. Foi comprada por sugestão minha, para fazer a entronização em casa de vovó. Primeiro pela entronização e, em segundo lugar, para obrigar aquela “saparia” a engolir isso. No santuário das glórias familiares, que era a sala de visitas de minha avó, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, isso rangeu. Mas eu propus e ninguém ousou não fazer. Então fizeram.
* É normal que os membros de uma família religiosa sejam atraídos para uma determinada graça tendo conhecimento e contacto com o Fundador, numa relação como a de Elias e Eliseu: vendo, aceitando e deixando-se assumir
(Sr. Fernando Antúnez: O senhor falou no começo que a relação mãe-filho era uma relação parecida com as relações entre Deus Padre e o Verbo. Agora, isso se dá com famílias espirituais. O senhor não poderia falar disso?)
Eu acho que é ortodoxa a seguinte visualização do problema que vou pôr agora:
Se bem que todos os homens tenham graça suficiente para não serem revolucionários, é uma graça dada a todos os homens, Deus pode ter a intenção e executar a intenção de que alguns, para obedecerem a um desígnio d’Ele especial, tenham essa graça numa abundância muito maior do que da mera graça suficiente, mas desde que eles procurem essa abundância dentro de uma família religiosa com especial vocação para isso. É banal.
Assim, por exemplo, se alguém tivesse graças especiais para combater o Protestantismo, não teria nenhum propósito, normalmente, fazer-se beneditino, embora os beneditinos tivessem graças suficientes para combater o Protestantismo, ia fazer-se jesuíta. E esse, se se fizesse beneditino, possivelmente não ficaria antiprotestante a cem por cento, ele saiu do caminho que a Providência indicou para ele.
Isto visto na família religiosa.
Agora, visto o fundador, é normal que todos os membros da família religiosa sejam atraídos para essa graça tendo conhecimento e contacto com o fundador, e para participar desta graça como ela existe na alma do fundador. Relação mais ou menos como a de Elias e Eliseu.
Agora, no que consiste isso?
No que eu defini há pouco. É ver, aceitar, deixar-se modelar, deixar-se assumir. Quer dizer, portanto, de alguns membros…
(…)
(Dr. Edwaldo Marques: O senhor recolheu tudo. Então, a dependência tem que ser total.)
Eu precisaria pensar.
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1 ( Criançada, pequenada.